15 Poemas de Vladímir Maiakóvski

 

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Foto: Maiakóvski declama para os auditórios da União Soviética em 1930. Ao fundo uma faixa: “Proletários de todo o mundo, uni-vos!” Obs.: os desenhos nesta publicação são cartazes de Maiakóvski projetados para a ROSTA, Agência Telegráfica Russa. Eles não constituem originalmente ilustrações dos poemas que se seguem.
   

15 POEMAS DE VLADÍMIR MAIAKÓVSKI

Traduções e notas: André Nogueira (2017)


O IMPERADOR

Lembro –
……….  …isso foi talvez na páscoa,
ou quem sabe –
…………………..no natal.
Estava limpa
……………….e preparada
………………………………toda a praça
para a marcha
 ………………..triunfal.
Os soldados,
…………….. .desde os rasos
………………………………….aos tenentes-coronéis:
na Tviérskaia se vê
……………………….do pelotão
……………………………………..fileira tensa.
Oficial torce o bigode,
…………………………..grita e bate com os pés:
– Às suas ordens! –
………………  ………eles batem continência.
De repente –
………………. a carruagem a deslizar,
……………………………………………..sob a capota
com bem asseada barba
……………………………..está sentado um militar,
quatro filhotas
………………….como tábuas
…………………………………..atrás dele
……………….  ……………………………..a acenar.
Sobre o asfalto
………………….à via larga,
como sobre
  …………….as nossas costas,
……………………………………o cortejo
e hasteados para o alto
…………………………….os brasões e as águias –
eu da turba
……………..tudo vejo.
As senhoras se empurram,
…………………………………toca o sino na campana
e encobre
……………– Urra, urra! –
………………………………os gritinhos com os quais
elas recebem sua nobre
…………………………….majestade Nikolai,
“nosso tsar-imperador,
..  …………………………de toda a Rússia o soberano!”

A neve cai
……………sobre os telhados,
…………………………………..a nós todos soterrando.
A se arrastar pelos Urais,
………………………………pela extensão siberiana,
pelo Iset
………….de margens íngremes e minas,
pelo Iset
………….das ventanias glaciais –
essa intempérie insana
. ……………    …………..em Sverdlóvsk termina. 1
O trenó do comitê
………………..   …..já a cidade
…………………..    ……………..ultrapassa.
Por azar,
  ………..a neve cobre
.. ………………………..o mundo todo –
não se vê a coisa alguma,
…  …………………………..só dos lobos
o seu rastro
……………..atrás da caça.
Estacionamos,
…………………finalmente,
………………………………..há vinte verstas.
O exército dos cedros
.. … …………………….se perfila
… … ………………………………..até ao longe.
Paramánov à frente,
……. ………………….penetramos na floresta,
caminhamos pela trilha,
…. …. ……………………..para onde?
Mais pesado
………  ……..que da mina
…..  ……   ………………….a bruta pedra,
um tesouro
………… . ..nunca achado.
Toda a glória e majestade
……………………………….do tsar-imperador
em que buraco
…….. ……  …..se esconde…
Dentre os cedros
…………….. …….uma marca
……. ………..   ………………..de machado…
– Aqui!? –
……………Não.
………………….Pelo menos por enquanto.
Nossas botas
……………….que escavem
………………………………..noutro canto.
Nalgum lugar
………………..sob os cascalhos
……………………………………..da estrada,
sob as raízes
…… ……….. dessas árvores,
a última estada
………………. …de seus míseros
……………………………………….cadáveres.
No alto,
…………sobre as nuvens hasteado,
o dia rápido amanheça,
e uma ave
 …………..malfazeja –
negro corvo
……..  ……..de uma única cabeça –
lamentando-se pragueja.

Vos seduz
……………o esplendor
……………………………de uma coroa?
Descobris
…………..como essa luz
……………………………..vos ilumina,
pela última das vezes,
…………………………..quando enfim
.   ……   …………………………………..se amontoa
a sepulta realeza
………. …………..no escuro destas minas.

Sverdlovsk, 1928

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1 Em janeiro de 1928 Vladímir Maiakóvski visitou Sverdlóvsk, nome pelo qual foi rebatizada, em 1924, a cidade de Ekaterinburg. Nessa cidade foram fuzilados o último imperador da Rússia, Nikolai Romanov (o tsar Nicolau II) e sua família: a tsarina Aleksandra, o tsariévitch Aleksei, as quatro filhas, Anastássia, Maria, Tatiana e Olga; também os empregados e amigos que os acompanhavam no exílio. Sabe-se que isso aconteceu em 17 de julho de 1918, na Casa Ipátiev, residência onde estavam feitos prisioneiros. Mas ao longo de muitas décadas não se soube ao certo a localidade de seus corpos. Suspeitava-se que os tivessem lançado no fosso de uma mina abandonada, às margens do rio Iset, ou enterrado na floresta de Koptiaki, à beira da estrada que dava acesso à cidade.

Maiakóvski atendeu ao convite de Anatoli Ivánovitch Paramánov, presidente do comitê executivo distrital de Sverdlóvsk, para conhecer a cidade, onde chegou no dia 27 de janeiro. Durante os três dias de sua estadia, participou de reuniões com os estudantes e leu seus poemas aos trabalhadores das indústrias e mineiros. Teve tempo, também, de conhecer a Casa Ipátiev. Paramánov disse saber o local onde haviam enterrado o corpo do “Imperador” e Maiakóvski o quis ver pessoalmente. O trenó do comitê executivo os levou pela trilha nevada ao meio da floresta entre os cedros com marcações que indicariam o local exato. No entanto, resta dúvidas se nesse dia realmente encontraram o que procuravam. A Pavel Lavut, seu amigo e secretário, Maiakóvski confessou:

“Claro que ver a sepultura do tsar não tem a mínima importância. E, para falar a verdade, nada há para se ver. É difícil de encontrar, encontram ela por sinais, sendo um segredo conhecido só por certo grupo de pessoas. Mas para mim o que importa é passar a sensação de que, nesse lugar, partiu daqui o último réptil rastejante da última dinastia, que tanto sangue bebeu ao longo dos séculos”. (Lavut, 1963, p. 182)

O poema O Imperador divide-se em três estrofes. Na primeira, ao estilo de uma memória pessoal, o registro de um desfile, pela rua Tviérskaia em Moscou, da família Románov antes de sua queda. Na segunda, Maiakóvski descreve sua visita à sepultura do imperador em Sverdlóvsk. Diz, em tradução mais ao pé da letra: “Aqui há cedros/ com marcas de machado…/ e, sob os cedros,/ uma estrada/ e, nela –/ o imperador está enterrado”; assim, parodia uma passagem de Mikhail Liérmontov em O navio fantasma [Vozduchni korábl] (1840): “Há uma ilha nesse oceano…/ Nessa ilha há uma sepultura/ E nela o imperador está enterrado”. Liérmontov fala de Napoleão, enterrado na ilha de Santa Helena; ao se aproximar o navio fantasma, levantando-se de sua sepultura, o imperador embarca na viagem miraculosa. Maiakóvski contrapõe, na seqüência do poema, a imagem do corvo de uma única cabeça, ironia com o símbolo da águia bicéfala, que estampava os brasões do Império russo. Quanto à sinistra moral da história, encerrada na última estrofe, uma observação interessante: nas anotações do poeta existe um rascunho diferente para o final, que soa muito ao contrário da versão escolhida para a publicação. Abaixo, uma tradução mais ou menos literal:

Com certeza que levanto as duas mãos
e voto contra.
Ousa as tuas levantar
para pôr fim à vida humana.
Eu não quero errar na curva.
Eles vivos poderiam ser mantidos num zoológico
entre a jaula da hiena e a do lobo.
Se o mínimo sentido não faziam como vivos,
tanto menos eles fazem sendo mortos desse jeito.
O jogo da história nós viramos,
para sempre se despeçam do que é velho:
um comunista, sendo homem,
não terá as suas mãos sujas de sangue.

ИМПЕРАТОР

Помню –
…………..то ли пасха,
то ли –
……. …рождество:
вымыто
………….и насухо
расчищено торжество.
По Тверской
………………..шпалерами
………………………………..стоят рядовые,
перед рядовыми –
………………………..пристава.
Приставов
……………..глазами
…………………………едят городовые:
– Вае благородие,
……………………….арестовать? –
Крутит
…………полицмейстер
………………………………за уши ус.
Пристав козыряет:
…………………………– Слушаюсь! –
И вижу –
……………катится ландо,
и в этой вот ланде
сидит
……….военный молодой
в холеной бороде.
Перед ним,
……………….как чурки,
четыре дочурки.
И на спинах булыжных,
……………………………….как на наших горбах,
свита
…….. за ним
……………….в орлах и в гербах.
И раззвонившие колокола
расплылись
……………….в дамском писке:
Уррра!
………..царь-государь Николай,
император
……………..и самодержец всероссийский!

Снег заносит
…………………косые кровельки,
серебрит
……………телеграфную сеть,
он схватился
…………………за холод проволоки
и остался
……………на ней
……………………..висеть.
На вбирь,
……………на весь Урал
метельная мура.
За Исетью,
……………..где шахты и кручи,
за Исетью,
……………..где ветер свистел,
приумолк
…………….исполкомовский кучер
и встал
…………на девятой версте.
Вселенную
………………снегом заволокло.
Ни зги не видать –
…………………………как на зло.
И только
…………..следы
  ………………….от брюха волков
по следу
…………..диких козлов.
Шесть пудов
…………………(для веса ровного!),
будто правит
…………………кедров полком он,
снег хрустит
.. … …………..под Парамоновым,
председателем
…………………..исполкома.
Распахнулся весь,
роют
……..снег
…………..пимы.
– Будто было здесь?!
Нет, не здесь.
………………….Мимо! –
Здесь кедр
……………..топором перетроган,
зарубки
………….под корень коры,
у корня,
………….под кедром,
…………………………..дорога,
а в ней –
…….. …..император зарыт.
Лишь тучи
……………..флагами плавают,
да в тучах
…………….птичье вранье,
крикливое и одноглавое,
ругается воронье.

Прельщают
………………многих
…………………………короны лучи.
Пожалте,
… ………..дворяне и шляхта,
корону
………..можно
………………….у нас получить,
но только
……………вместе с шахтой.

Свердловск, 1928

[O rascunho não publicado da última estrofe]:

Я вскину две моих пятерни
Я сразу вскину две пятерни
Что я голосую против
Я голосую против
Спросите руку твою протяни
казнить или нет человечьи дни
не встать мне на повороте
Живые так можно в зверинец их
Промежду гиеной и волком
И как не крошечен толк от живых
от мертвого меньше толку
Мы повернули истории бег
Старье навсегда провожайте
Коммунист и человек
Не может быть кровожаден

…………………….~//~


A APARIÇÃO DO CRISTO

Tragam rosas
………………..e tulipas
……………………………para a festa,
de branco vistam
……………………..as crianças.
À Europa
….. ………um novo Cristo
………………………………..manifesta-se
em Kellog, 1
…………….ministro
…….. …………………de ilustres alianças.
Esse Cristo
……………..caminhando pelas águas
……………………………………………..não se viu.
De última hora,
……. …………….vestindo um smoking,
chegava  a Paris
……………………de navio.
Esse Kellogg
……………….que pintam de Cristo
…………………………………………..não cola:
esse Cristo não tem
………………………..nem coroa ou casula.
Não obstante,
…………………a cartola está
…………………………………..laureada de dólar.
Mister Cristo
……………….as nações
…………………………….congratula.
Do sagrado coração,
em seu banquete
…………………….com os grandes
…………………………………………capitães,
erguem-se à paz
……………………na humanidade
suas taças
……………de champanhe.
Enquanto a nós
…………………..nos aparece
…………………………………..claramente
o que esconde
…………………esse Cristo
………………………………..em sua manga.
A sua manga
………………..está repleta…
…………………………………..adivinha:
de ianques,
……………..a mais forte
……………………………..frota aérea
e marinha,
…………….muito gás
………………………….em seus balões,
munições
……………em seus tanques.
Preparado
…………….o Cristo tem
…….. ……………………..um respeitável arsenal;
porém a pedra
…………………principal
……………………………..em sua manga
é que de ódio
………………..ele sangra,
dentre todas as nações,
…………………………….sobretudo
contra nós,
……………..os bolcheviques.
Antes que o Cristo,
……………………….sob o leque
………………………………………da palmeira,
abra a boca
……………..e uma guerra ele decrete, –
operário,
…………..camponês,
…………………………alerta fique!
Cerrai fileiras,
…………………Sovietes!

1928

rosta34

1 Frank B. Kellog – político, Secretário de Estado norte-americano e um dos autores, junto com o ministro francês Aristide Briand, do Pacto Kellog-Briand, ou “Tratado Geral para a Renúncia à Guerra como Instrumento de Política Nacional”. Ao acordo da França com os Estados Unidos, assinado também pela Alemanha em agosto de 1928, adeririram as principais potências mundiais. A União Soviética o assinou no ano seguinte. Kellog recebeu, ao mérito pelo seu Tratado, uma série de honrarias, incluindo o Prêmio Nobel da Paz em 1929. Maiakóvski esteve nos Estados Unidos em 1925, viu a sociedade capitalista em pleno funcionamento e se inteirou de seu poder industrial e bélico, o qual denuncia neste poema, discernindo o caráter precário da paz assinada nos tratados e a posição estratégica do exército na defesa nacional. De igual maneira procede em outro poema de 1928, Máximas-rimas [Lozungi-rifmi], ao dizer:

(…)
Já dez anos se passaram,
……………………………..o furor se aquieta.
Mas a guerra não cessou, 
……………………………..o inimigo está alerta.
Os dias rápido se agitam,
………………………………a batalha à porta bate.
Aprendei
………….como se marcha
………………………………nas fileiras do combate. (…)

Já a Tríplice Entente
………………………..movimenta o braço armado.
Baionetas sustentem,
…………………………em riste,
……………………………………soldados!

Debandou o inimigo…
…………………………..À distância o contemplais?
Aprendei,
………….cavalaria,
………………………a perseguir os generais.

Ouvis o vil sabotador
…………………………que sorrateiro ele se move?
Aprendei,
………….trabalhador,
………………………….a manejar vosso revólver.

Nosso século desfaz-se
…………………………..pelas mãos de homens de fraque.
Segurai,
………..frota vermelha,
…………………………..não deixai que ele naufrague!

A batalha não cessou,
………………………….é ilusório o armistício.
Pois se munam,
…………………comunistas,
……………………………….não com fogos
…………………………………………………de artifício.

O coração de toda pátria
……………………………..ao exército de funde.
Nosso Exército Vermelho
……………………………..é o poder desta República.
Mais firme liga
…………………não existe
……………………………..neste mundo.
Viva o Exército Vermelho,
………………………………viva nossa glória rubra.

ЯВЛЕНИЕ ХРИСТА

Готовьте
………….возы
…………………тюльпанов и роз,
детишкам —
………………..фиалки в локон.
Европе
………..является
…………………….новый Христос
в виде
………. министра Келлога.
Христос
……… …не пешком пришел по воде,
подметки
……………мочить
………………………неохота.
Христос новоявленный,
………………………………..смокинг надев,
приехал
………….в Париж
………………………пароходом.
С венком
…………..рисуют
……………………..бога-сынка.
На Келлоге
……………..нет
…………………..никакого венка.
Зато
……..над цилиндром
…………………………..тянется —
долларное сияньице.
Поздравит
……………..державы
…………………………..мистер Христос
и будет
…………от чистого сердца
вздымать
……………на банкетах
…………………………….шампанский тост
за мир
……….во человецех.
Подпишут мир
……………………на глади листа,
просохнут
……………..фамилии
…………………………..на́сухо, —
а мы
……..посмотрим,
………………………что у Христа
припрятано за пазухой.
За пазухой,
………………полюбуйтесь
…………………………………вот,
ему
……наложили янки —
сильнейший
………………..морской
…………………………….и воздушный флот,
и газы в баллонах,
………………………..и танки.
Готов
………у Христа
…………………..на всех арсенал;
но главный
………………за пазухой
………………………………камень —
злоба,
……….которая припасена
для всех,
…………..кто с большевиками.
Пока
……..Христос
…………………отверзает уста
на фоне
………….пальмовых веток —
рабочий,
…………..крестьянин,
……………………………плотнее стань
на страже
…………….свободы Советов.

1928

[Trecho de…]

ЛОЗУНГИ-РИФМЫ

(…)

Десять лет боевых прошло.
Вражий раж —
…………………..еще не утих.
Может,
…………скоро
…………………дней эшелон
пылью
………..всклубит
…………………….боевые пути.
Враг наготове.
…………………..Битвы грядут.
Учись
………шагать
………………..в боевом ряду. (…)

Готовится

……………к штурму
…………………………Антанта чертова —
учись
………атакам,
…………………штык повертывая.
  
Враг разбежится —
…………………………кто погонится?
Гнать златопогонников
………………………………учись, конница.
  
Слышна
………….у заводов
……………………….врага нога нам.
Учись,
……….товарищ,
…………………….владеть наганом.

Не век
………..стоять
………………….у залива в болотце.
Крепите
………….советский флот,
………………………………..краснофлотцы!
  
Битва не кончена,
……………………….только смолкла —
готовься, комсомолец
…………………………….и комсомолка.
  
Сердце
………..республика
………………………..с армией слила,
нету
…….на свете
………………..тверже сплава.
Красная Армия —
……………………….наша сила.
Нашей
………..Красной Армии
………………………………слава!

 …………………..~//~


SOBRE COMO CERTOS SECTÁRIOS

CHAMAM OS OPERÁRIOS PARA DANÇAR

“Nas alas da fábrica têxtil de Khalturin (Leningrado)
disseminou-se o panfleto com uma chamada
para ingressar em certa seita religiosa. 1
Os sectários prometem, a todos que entrarem em sua tribo secreta,
interessantes divertimentos; relações com a ‘boa’ sociedade;
noites com danças (foxtrot e charleston); etc.”

…………………………..(Da carta de um correspondente operário)

Choram
…………na fábrica –
…………………………de tanto dar risada.
Lêem-se as palavras
…………………………da chamada.
Convidam-nos,
…………………..a nós
………………………….os operários,
para um charleston
………………………..dançar
…………………………………com sectários.
A operária
…………….em manto brim,
todo bordado
………………..de corolas.
Quase não na principesca sociedade,
tu assim
…………ingressarás
……………………….para os carolas.
Com um foxtrot desse,
……………………………coração já regozija,
hás de virar
…. ………….oncinha e raposinha,
pernas bambas
………………….com o chicotinho em riste…
Apenas finja
……………….que a cabeça
………………………………..não existe.
Desnecessário
…………………insistir muito.
Operários
……………de todo o mundo,
…………………………………..para o baile!
Entrai
………para a dança,
pés à lambada
…………………e línguas à lambança.

Fácil o baú
……………..abrir do idólatra.
Basta tu
………….lançar a ele
…………………………um americano dólar.

1928

rosta20

   1 Havia na Rússia um grande número de “seitas”* religiosas. A maioria delas se formou no século XVII, após um cisma, na igreja ortodoxa russa, que levou à separação de grupos oposicionistas. O surgimento desses grupos, no seio da cultura camponesa, fez eclodir manifestações de religiosidade popular dos mais diversos matizes que, não obstante a perseguição de que eram vítimas, permaneceram ativas no medievo russo. A Rússia se modernizou de maneira abrupta e desigual; ao mesmo tempo em que nas cidades o movimento operário conduzia a Rússia, à frente de todas as nações, para a vanguarda da revolução socialista (que deveria ser uma superação do modo capitalista de produção), o país mal tivera tempo de superar o sistema feudal (visto que só em 1861 a servidão foi abolida no campo) e no geral continuava um país agrário e regido pelas tradições nacionais, incluindo um folclore muito presente na vida do povo e uma aguda concepção religiosa de mundo. Os acontecimentos históricos, submetidos a uma leitura escatológica pelo campesinato, fizeram multiplicar essas seitas e o número de seus integrantes que, segundo estimou o sociólogo Vatro Murvar, chegaria a ¼ da população russa na virada do século XIX para o XX (Agúrski, 1988, p. 492). Pressentindo que a ruptura revolucionária anunciava um novo mundo prometido, com esperança de cessar o jugo da Igreja, que ia abaixo junto à autocracia, e enfim conquistar a liberdade religiosa, os “sectários” participaram massivamente das revoluções de 1905 e 1917. Contudo, a perseguição voltou durante o regime soviético e, principalmente no período da coletivização forçada do campo entre 1928 e 1931, com a repressão à resistência camponesa, as seitas se dissiparam e muitos de seus fiéis desapareceram nas prisões.

Segundo se pode depreender deste poema, Maiakóvski se refere àquela seita que entrou para a história sob o nome de “flagelantes”, khlisti ou khlistovki. Na língua russa a palavra khlist significa flagelo, chicote. Entretanto, trata-se de uma corruptela do nome Khristi, que significa “Cristos” (era assim que se designavam seus líderes religiosos e profetas. Também em outros grupos existiam esses Cristos russos, um produto sincrético do messianismo herdado da igreja oriental em seu encontro com crenças panteístas remanescentes do antigo paganismo) (Cf. Etkind, 2013). Os rituais de êxtase dos khlisti incluíam manifestações excêntricas, como danças circulares, incorporações, glossolalia; mas os boatos de auto-flagelação e orgias sexuais (assim como o nome atribuído a eles foi, provavelmente, um trocadilho malicioso de seus inimigos) são obra das más línguas.

Por outro lado, Maiakóvski emprega um jogo de palavras entre batist, que designa um tecido conhecido em português, também pelo mesmo nome, e mais comumente por “cambraia” (segundo Houaiss, “tecido muito fino, translúcido e levemente lustroso, de algodão ou de linho, usado em lenços, adornos, roupa íntima feminina”) e baptisti, os cristãos batistas. Os batistas eram listados pelos russos no rol das “seitas” evangélicas, juntamente aos luteranos, adventistas, menonitas, metodistas, testemunhas de Jeová (pelo que se vê, a tolerância religiosa nunca foi, e até hoje não é, o forte da cultura russa). Na tradução, reproduzi esse jogo por meio do par “[tecido bordado de] corolas”, em referência às vestes camponesas, e “carolas”.

Maiakóvski muitas vezes usou de material jornalístico para criação de poesia. Nesse caso, ele se baseia na carta de um “correspondente operário”, um rabkor (sigla de rabotchni korespondiént). Rabkor, na União Soviética daquele tempo, era um operário que redigia artigos para os jornais sobre o cotidiano de sua empresa, o estado da produção, reportava problemas vivenciados pelos trabalhadores, etc. A carta, portanto, do correspondente operário sobre o panfleto dos sectários e a piada que gerou no ambiente da fábrica, revela algo da tensão experimentada por esses grupos religiosos em sua contradição com o ideal de um país cada vez mais avançado na modernidade, na ciência, na técnica industrial, etc. Maiakóvski, um apologeta desse ideal, procura separar, por meio de um chiste, a cultura operária e urbana da camponesa, arcaica, supersticiosa. A incompreensão, que gera a piada, como se os sectários chamassem os operários para um baile (foxtrot e charleston são danças de salão americanas), faz crer que o êxtase religioso, o espírito que animava as danças rituais, cujas raízes se desgarraram da antiga Rússia e não devem encontrar solo na Soviética, tornou-se incompatível com o conjunto da sociedade, perdeu seu sentido sob o novo ritmo da produção e não pode sequer ser reconhecido pelos operários da fábrica.

Mas há razões para crer que a carta do correspondente operário tenha sido inventada por Maiakóvski; nesse caso, o alvo da piada parece ser o poeta Andrei Biéli e seu livro Depois da Estrela [Pósle Zvezdí], publicado em 1923, em cujo prefácio consta o seguinte: “Atrai-me agora um tema diferente: à música como ‘via de iniciação’ sucedeu, para mim, o foxtrot, o boston, o jimmy; uma boa jazz band preferirei ao sino do Parsifal. Gostaria futuramente de escrever versos sob medida para o foxtrot” (Biéli, 1988, p.471). Quando de sua emigração da União Soviética em 1922, Biéli renunciou ao projeto místico que, em sua obra, fora representado principalmente pela influência da antroposofia. Mas foi em A Paloma de Prata [Serebriáni Golúb], seu romance publicado em 1910, que Biéli se interessara pelos flagelantes e o universo do sectarismo russo, tudo isso o que chamou “via de iniciação”, ao sugerir que o êxtase religioso das danças rituais se desencantava em jazz.

* Optei por traduzir literalmente do jargão russo sekta. Já o termo sektanti [sectários] foi ligeiramente alterado por Maiakóvski, no título do poema, para rimar com tantsi [danças], sektantsi.

О ТОМ, КАК НЕКИЕ СЕКТАНТЦЫ
ЗОВУТ РАБОЧЕГО НА ТАНЦЫ…

В цехах текстильной фабрики им.
Халтурина (Ленинград) сектанты разбрасывают
прокламации с призывом вступить в религиозные
секты. Сектанты сулят всем вступившим в их
секты различного рода интересные развлечения;
знакомство с “хорошим” обществом, вечера с
танцами (фокстротом и чарльстоном) и др.

………………………………………(Из письма рабкора).

От смеха
…………..на заводе –
…………………………..стон.
Читают
…………листья прокламаций.
К себе
………сектанты
……………………на чарльстон
зовут
………рабочего
…………………..ломаться.
Работница,
………………манто накинь
на туалеты
………………из батиста!
Чуть-чуть не в общество княгинь
ты
…..попадаешь
…………………..у баптистов.
Фокстротом
………………..сердце веселя,
ходи себе
……………лисой и пумой,
плети
………ногами
…………………вензеля,
и только…
……………..головой не думай.
Не нужны
…………….уговоры многие.
Айда,
………бегом
………………на бал, рабочие!
И отдавите
………………в танцах ноги
и языки
………….и прочее.

Открыть нетрудно
………………………..баптистский ларчик –
американский
…………………..в ларце
……………………………..долларчик.

1928

…………….~//~


ASSISTÊNCIA AO MINISTÉRIO

DOS ARTISTAS INSALUBRES
SOBRE O INCÔMODO MISTÉRIO,
O MISTÉRIO DE SEU CLUBE.

“A federação dos escritores soviéticos obteve uma casa
e organizará em Moscou o primeiro clube dos escritores” 1

…………………………………………………..(Notícia de jornal)

Não sei –
…………..se canto,
………………………se danço,
o sorriso
………….do rosto não sai.
Eis que enfim
………………..também terão
…………………………………..os escritores
o seu clube!
……………..Boa nova…
…………………………….Organizai!
Que desabroche
……………………e não broche
…………………………………….vossa trupe.
Escolher
………….bela mobília,
…………………………..porém sem exacerbar:
o gasto veludo
………………….de preço modesto.
Sentar
……….e com todo conforto
………………………………….por horas ouvir
do camarada Averbakh
……………………………a palestra.
A seguir,
………….em paixões imersos
os olhinhos
 ……………..se reviram
……………………………para dimensões outras:
simplório e ingênuo,
………………………….Moltchánov
………………………………………….lê versos
sob aplausos das garotas.
Cada qual
……………se sinta bem
…………………………….e à vontade.
E se levante –
…………………no momento crucial –
Vsiévolod Ivánov:
……………………..com seus contos
…………………………………………..nos agrade.
O século
………….em casinhas de estorninho
…………………………………………….não sentemos
como sentam
………………..os poetas
…………………………….nos saraus.
Quereis
…………ter com Tolstói
……………………………..e Oriéchin,
conversar
…………..entre garrafas
……………………………..de cerveja?
Simplória bebida,
……………………..a comida – igual,
como servida
………………..na bandeja.
Entreguemos
………………..a cantina
…………………………….à Narpita – 2
nada há
…………para o jantar!
O foxtrot
………….não se repita
e o jazz
………..com seus pandeiros
………………………………….não estorve
nossa obra…
……………….E com vocês
……………………………….conversará
o camarada Rodóv,
……………………….que ao tédio
………………………………………..não se dobra.
Que não haja
………………..esses jogos
……………………………….de bilhares,
nem ouçamos
…………………as bobagens
…………………………………dos inatos menestréis,
esses bardos vermelhos
……………………………..decorados de lauréis.
Tudo isso derrubem!
…………………………Ou deixem
……………………………………….que desabe
como os sábios
………………….escritores
………………………………no sofá.
Eis que vocês
………………..organizaram
…………………………………o tal clube…
E eis que eu
………………não tenho pernas
para os ver
…………….filosofar.

1928

rosta18

1 No título original em língua russa, Maiakóvski se refere às instituições soviéticas Narkompros e Glaviskusstvo, abreviações respectivamente de Narodni Komissariat Prosvechtchenia (Comissariado Popular da Educação) e Glavnoie Upravliénie po Diélam Khudójestvennoi Literaturi i Iskusstvo (Diretoria Geral para Assuntos de Literatura e Arte). A Glaviskusstvo, enquanto órgão governamental, consistia em um segmento da Narkompros. Já na epígrafe do poema se menciona uma associação literária, a Federação dos Escritores Soviéticos (FOSP). Criada em 1926 pela fusão da Associação dos Escritores Proletários de Toda a Rússia (VAPP) com a Sociedade dos Escritores Camponeses de Toda a Rússia (VOKP) e a União dos Escritores de Toda a Rússia (VSP), a “federação” centralizava uma série de organizações literárias que existiam na época e que, mais alinhadas com o governo, começavam a dar seus passos para trás. Maiakóvski então organizava-se na LEF, Assotsiatsia Rabotnikov Liévovo Fronta Iskusstva (Associação dos Trabalhadores da Frente de Esquerda da Arte). Como máximo representante do futurismo russo, forjado nos dias gloriosos da Revolução, Maiakóvski assumiu uma postura radical de denúncia contra a estagnação em que caíam as instituíções artísticas, um prenúncio da guinada conservadora nos órgãos estatais que, não demoraria muito, imporiam aos artistas mais experimentais uma ferrenha censura e perseguição. No tempo em que o poema foi escrito (1928), perdurava certa pluralidade de idéias, o suficiente para os poetas trocarem essas farpas; foi nesse contexto de debates ideológicos em torno da arte soviética que ocorreram as disputas entre Maiakóvski e seus rivais na vida artística e política. Os escritores e críticos de visão mais estreita, muitos deles invejosos de seu sucesso com as massas, dirigiam ataques a Maiakóvski nos jornais, infiltravam provocadores em suas apresentações, para o insultar. O poeta também era provocador, respondia brilhantemente aos bilhetinhos do público durante os debates em auditórios e golpeava seus adversários com toda a fúria de seus versos. Maiakóvski satirizou a burocratização da arte soviética e seu gradativo aburguesamento, do qual o “Clube” de escritores seria, em sua opinião, um sintoma. Neste poema, dá nome a alguns de seus adversários: Leopold Averbakh, Ivan Moltchánov, Vsiévolod Ivánov, Alexei Tolstói, Piótr Oriéchin. Sua rivalidade com Moltchánov, por exemplo, foi tema de disputas em jornais, onde Maiakóvski publicou poemas como Carta à amada de Moltchánov ou Reflexões sobre Ivan Moltchánov e a poesia. Quanto ao camarada (Semion Abramovitch) Rodov, formou um bloco à esquerda da RAPP (Associação Russa dos Escritores Proletários), quando esta se dividiu em 1926; por isso ganha uma menção positiva de Maiakóvski, que tem muitos inimigos na RAPP. Em 1929 o Comissário do Povo para a Educação, Anatoli Lunatchárski, sob cuja proteção Maiakóvski escrevia e a quem se devia a permanência de certas liberdades de expressão, foi substituído. Após as dissidências no seu próprio grupo e sentindo o cerco se fechar, Maiakóvski dissolveu a LEF e ingressou na RAPP. Isso não o impediu de ser ainda mais hostilizado pelos seus companheiros de ofício. A exposição organizada por Maiakóvski aos vinte anos de sua carreira literária, montada nas salas do Clube dos Escritores em Moscou, recebeu um duro boicote em fevereiro de 1930. Um mês e meio depois, seria também em uma dessas salas onde, ao longo de três dias ininterruptamente, as multidões passariam para se despedir do poeta que, de uma vez por todas, fechou seus ouvidos para os insultos. Em seu livro Maiakóvski, o Poeta da Revolução, Aleksandr Mikhailov registra um detalhe hilário da exposição, em que o poeta ridiculariza o ambiente almofadinha do Clube: “Maiakóvski introduziu um elemento de humor na organização e, em cada cupido modelado sobre as portas da segunda sala, colocou um lenço de pioneiro* de papel vermelho brilhoso” (Mikhailov, 2008, p. 506).**

* Pioneiros, organizações de comunistas-mirins nas escolas primárias da União Soviética.

** Sobre o debate de Maiakóvski e os futuristas no ambiente artístico aos primeiros anos da União Soviética, nunca é demais recomendar a obra de Boris Schnaiderman, A Poética de Maiakóvski através de sua Prosa, que inclui vários de seus manifestos traduzidos e comentados.  

2 Narpit, abreviatura de Narodnoie Pitanie (Alimentação Popular), projeto para a criação de cantinas populares com refeições a preços acessíveis para os trabalhadores (o “bandejão” soviético). A referência torna a aparecer no poema a seguir, O mais Sério Conselho a uma Dona de Casa.

ПОМОЩЬ НАРКОМПРОСУ,
ГЛАВИСКУССТВУ В КУБЕ,
ПО ЖГУЧЕМУ ВОПРОСУ,
ВОПРОСУ О КЛУБЕ

Федерация советских писателей получила дом
и организует в Москве первый писательский клуб.

……………………………………….. (Из газет).

Не знаю –
…………….петь,
……………………плясать ли,
улыбка
………..не сходит с губ.
Наконец-то
……………….и у писателя
будет
………свой
…………….клуб.
Хорошая весть.
Организовать
так,
……чтобы цвесть
и не завять.
Выбрать
………….мебель
……………………красивую самую,
оббитую
…………..в недорогой бархат,
чтоб сесть
…………….и удобно
…………………………слушать часами
доклад
………..товарища Авербаха.
Потом,
………..понятен,
…………………….прост
…………………………….и нехитр,
к небу
……….глаза воздевши,
пусть
………Молчанов
……………………читает стихи
под аплодисменты девушек.
Чтоб каждому
………………….чувствовалось
………………………………………хорошо и вольно,
пусть –
…………если выйдет оказийка –
встанет
…………и прочитает
………………………….Всеволод Иванов
пару, другую рассказиков.
Чтоб нам не сидеть
…………………………по своим скворешням –
так,
……как писатель
……………………..сидел века.
Хочется
………….встретиться
…………………………..с Толстым,
………………………………………….с Орешиным
поговорить
………………за бутылкой пивка.
Простая еда.
………………..Простой напиток.
Без скатертей
………………….и прочей финтифлюжины.
Отдать
………..столовую
……………………..в руки Нарпита –
нечего
………..разводить ужины!
Чтоб не было
…………………этих
……………………….разных фокстротов,
чтоб джазы
………………творчеству
………………………………не мешали, бубня, –
а с вами
………….беседовал бы
…………………………….товарищ Родов,
не надоедающий
………………………в течение дня.
Чтоб не было
…………………этих
……………………….разных биллиардов,
чтоб мы
………….на пустяках не старели,
а слушали
…………….бесхитростных
…………………………………красных бардов
и прочих
…………..самородков менестрелей.
Писателю
……………классику
………………………..мил и люб
не грохот,
…………….а покой…
Вот вы
………..организуйте
…………………………такой клуб,
а я
….туда…
…………..ни ногой.

1928

……………….~//~


O MAIS SÉRIO CONSELHO A UMA DONA DE CASA

A dona de casa
………………….camarada Brocolina 1
está hoje
…………..no pior
…………………….de seus humores.
E como haveria de ser diferente?
Na cozinha
…………….empesteada de vapores,
dezessete monstruosas
…………………………….e ferventes barbatanas
arreganham
………………uma multidão de dentes.
Dezessete
……………dos piores fogareiros
fumegando
……………..como fossem dezessete
……………………………………………os Vesúvios.
Da testa enxugando
………………………..o suor no avental,
camarada Brocolina
………………………..dá um grito
……………………………………….insolúvel:
“Tragam,
…………..sem elevador,
…………………………….ao 5º andar
18 quilos
…………..de batata!”
As rixas,
………….o lixo,
………………….os mexericos:
desde a louça acumulada
………………………………umas antenas se esticam…
De repente, uma delas
……………………………bate asas
………………………………………..e decola.
Pois comam a sopa
……………………….apesar das baratas!
Mal se encontra
……………………onde está a caçarola…
Esfregar
…………o dia inteiro
…………………………essas panelas!
Para os livros
………………..e jornais
……………………………o tempo falta.
Camarada Brocolina
…………………………já foi bela…
Porém isto não se enxuga:
seu rosto
…………..precoce
…………………….se enche de rugas!
São os ossos
………………do ofício?
O teu sofrimento é nosso,
camarada,
……………e todos têm a ver com isso.
Prometemos,
……………….nem que hajamos de comprar
promissórias de industrialização, 2
que uma fábrica ergueremos
……………………………………de alimento.
Nas cantinas da Narpita
………………………………o operário tome assento
e sem esforço nem sujeira
………………………………..a comer
………………………………………….na mesa bata:
“Eis uma bela refeição,
…………………………….boa e barata!”

1928

rosta40

1 Borchtchina, o nome bufo usado por Maiakóvski para designar sua personagem neste poema, deriva de borchtch, sopa de beterraba tradicional da culinária russa.

2 Zaióm industrializatsia, promissórias ou, mais ao pé da letra, “empréstimos de industrialização”, foi um sistema de crédito financeiro adotado pelo governo soviético em meados da década de 1920. Tinha por objetivo acelerar o processo de industrialização. Com o isolamento econômico do país pela imposição de sanções internacionais, ao passo em que se recuperava da crise após a guerra civil, o governo procurou captar recursos internamente mediante o investimento da população. Além de debater a condição da mulher sob a opressão do trabalho doméstico e a esperança de sua emancipação pela modernização da vida, que a indústria deveria prover, este poema de Maiakóvski é uma peça publicitária para a campanha de crédito financeiro. Em contrapartida, no lugar da cozinha improvisada nas habitações coletivas, a Narpit representa os benefícios da industrialização, a serem usufruídos pelo povo. Esquerdista radical, Maiakóvski sentia as contradições da Nova Política Econômica (NEP) e destilou o melhor de seu veneno (por exemplo, nos personagens de O Percevejo, 1928) contra a capitalização do Estado soviético. Por outro lado, sempre se dispôs a cooperar com a propaganda. O esquema propagandístico deste poema fica mais claro em vista de outro, escrito no mesmo ano de 1928, Produzam-se automóveis!, em que Maiakóvski se dirige aos pedestres e usuários do bonde e diz:

(…)
Inútil é
……….fingir pobreza
………………………..e por aí bufar a pé.
Agora falha-te a certeza?
Acaso pensas
……………….que um sonho
…………………………………isto é?
Tu hás de ter
………………um velocípede,
hás de ter
…………..um automóvel.
Que assim seja,
………………….se desejas
………………………………esta realização.
Pois participe de
…………………..uma iniciativa nova:
compre promissórias,
…………………………promissórias de industrialização. (…)

ВАЖНЕЙШИЙ СОВЕТ ДОМАШНЕЙ ХОЗЯЙКЕ

Домашней хозяйке
…………………………товарищу Борщиной
сегодня
…………испорчено
………………………..все настроение.
А как настроению быть не испорченным?
На кухне
…………..от копоти
…………………………в метр наслоения!
Семнадцать чудовищ
……………………………из сажи усов
оскалили
…………..множество
………………………….огненных зубьев.
Семнадцать
……………….паршивейших примусов
чадят и коптят,
……………………как семнадцать Везувиев.
Товарищ Борщина
………………………..даже орала,
фартуком
……………пот
…………………оттирая с физии –
«Без лифта
……………..на 5-й этаж
……………………………..пешкодралом
тащи
……..18 кило провизии!»
И ссоры,
………….и сор,
………………….и сплетни с грязищей,
посуда с едой
………………….в тараканах и в копоти.
Кастрюлю
…………….едва
……………………под столом разыщешь.
Из щей
………..прусаки
……………………шевелят усища –
хоть вылейте,
………………….хоть с тараканами лопайте!
Весь день
……………горшки
………………………на примусе двигай.
Заняться нельзя
…………………….ни газетой,
…………………………………….ни книгой.
Лицо молодое
………………….товарища Борщиной
от этих дел
………………преждевременно сморщено.
Товарищ хозяйка,
……………………….в несчастье твое
обязаны
………….мы
………………ввязаться.
Что делать тебе?
……………………..Купить заем,
Заем индустриализации.
Займем
…………и выстроим фабрики пищи,
чтобы в дешевых
………………………столовых Нарпита,
рассевшись,
……………….без грязи и без жарищи,
поев,
……..сказали рабочие тыщи:
«Приятно поедено,
…………………………чисто попито».

1928

[Trecho de…]

ДАЕШЬ АВТОМОБИЛЬ!

(…)
Нечего прибедниваться
……………………………….и пешком сопеть!
У тебя —
…………..не в сон, а в быль —
должен
…………быть
………………..велосипед,
быть
……..автомобиль.
Чтоб осуществилось
…………………………..дело твое
и сказкой
……………не могло казаться,
товарищ,
……………немедля
……………………….купи заем,
заем индустриализации.   (…)

………………..~//~


UMA DOENÇA UNIVERSAL

A Spartakiada Vermelha 1
………………………………a todo mundo contagia.
Nas casas
…………..o esporte
……………………….introduz-se hoje em dia.
O fortão e o fracote,
………………………..rapagão e rapazelho,
todo e cada cidadão
………………………..já mal contém a alegria.
Dispensando
……………….o caderno escolar
e espalhando pelo chão
…………………………….sumo vermelho,
o futebol
………….vês o filho
……………………….jogar
com a redonda melancia.
Mais roliço que a caleça,
alçando vôo
………………como fosse uma andorinha,
encontra forças não sei onde
o pai,
……..que tão depressa
uma corrida venceria
………………………….contra o bonde.
E o que é
…………..esse de águas
…………………………….burburinho,
a tarde inteira,
………………….no apartamento ao lado?
Vai saber nosso vizinho
no aperto da banheira
……………………………se meteu
numa competição a nado.
E para a filha
……………….com a palma
………………………………..caso acenes,
espumando atrás da mesa
………………………………..ela saca uma gaveta
para um súbito duelo
…………………………..de tênis.
Já mamãe
……………errou a curva,
……………………………..extraviou-se na loucura!
A empunhar,
……………….como uma lança,
……………………………………..o guarda-chuva,
o retrato na parede ela perfura.
E caso um forte estardalhaço
na cozinha
…………….tu ouvires,
é que tenta
……………..a cozinheira
……………………………..com o pires
treinar
……….lançamento de disco.
A esse encontro de família
…………………………………não me arrisco.
E ao sossego
……………….dê adeus,
……………………………se a doença prosseguir.
E, a despeito
……………….do verão,
……………………………para melhor correr daqui
deixo no jeito,
…………………ao alcance da mão,
………………………………………….meu esqui.
Nas casas
……………o esporte
………………………..introduz-se hoje em dia.
O fortão e o fracote,
………………………..rapagão e rapazelho,
a todo mundo contagia
…………………………….a Spartakiada Vermelha.

1928

rosta26

 1 Krasnaia Spartakiada, Spartakiada Vermelha. Spartakiadas eram campeonatos desportivos internacionais organizados pela Sportintern, associação ligada à Comintern, Internacional Comunista. A designação deriva do nome Spartaco, gladiador romano líder da maior revolta de escravos que Roma conheceu, no século I a.C. Spartaco foi representado na cultura soviética como o herói em que se prefiguraram, na antigüidade, os ideais do proletariado na luta de classes (conferir, por exemplo, o ballet de mesmo nome composto por Aram Khatchatúrian). A primeira das Spartakiadas aconteceu em Moscou, no verão de 1928. Maiakóvski voltou da turnê na Criméia para Moscou no dia 11 de agosto e presenciou essa “febre do esporte” na cidade. O evento abrangia diversas modalidades desportivas e procurava competir com os Jogos Olímpicos Internacionais. No inverno de 1928 a Spartakiada foi sediada em Oslo, no verão de 1931 em Berlin, em 1937 na Bélgica. Mais tarde a Sportintern se dissolveu e a União Soviética aderiu aos Jogos Olímpicos. O evento perdeu então sua dimensão internacional, dando lugar às “Spartakiadas dos Povos da União Soviética”.

ПОВАЛЬНАЯ БОЛЕЗНЬ

Красная Спартакиада
населенье заразила:
нынче,
………..надо иль не надо,
каждый
………….спорт
………………….заносит на дом
и тщедушный
………………….и верзила.
Красным
…………..соком
…………………..крася пол,
бросив
………..школьную обузу,
сын
……завел
…………..игру в футбол
приобретенным арбузом.
Толщину забыв
……………………и хворость,
легкой ласточкой взмывая,
папа
……..взял бы
………………..приз на скорость,
обгоняя все трамваи.
Целый день
……………….задорный плеск
раздается
…………….в тесной ванне,
кто-то
……….с кем-то
…………………..в ванну влез
в плавальном соревнованьи.
Дочь,
………лихим азартом вспенясь,
позабывши
………………все другое,
за столом
……………играет в теннис
всем
……..лежащим под рукою.
А мамаша
…………….всех забьет,
ни за что не урезоните!
В коридоре,
……………….как копье,
в цель
……….бросает
………………….рваный зонтик.
Гром на кухне.
…………………..Громше,
………………………………больше.
Звон посуды,
…………………визгов трельки,
то
….кухарка дискоболша
мечет
……….мелкие тарелки.
Бросив
…………матч семейный этот,
склонностью
…………………к покою
…………………………….движим,
спешно
…………несмотря на лето,
навострю
……………из дома
……………………….лыжи.
Спорт
……….к себе
………………..заносит на дом
и тщедушный
………………….и верзила.
Красная Спартакиада
населенье заразила.

1928

…………. ~//~


A GALOPE NA GARUPA DOS POETAS

Na revista
……………“Krasnaia nov”
………………………………..certo Tálnikov 1
escreve,
…………jocoso e audaz,
……………………………..de meus poemas
que a lira
…………..eu troquei
…………………………pelo lambaz
e agitador
……………na Europa
…………………………minha pena
sem propósito agitei
………………………….às estribeiras,
como só palavra imprópria
………………………………….eu dizia
e por acaso,
……………..se avistasse alguma freira
(ou quem sabe
…………………alguém do naipe
……………………………………….de Chaliápin)
redobrava a grosseria…
……………………………..Com a barba
vemos, pois,
……………….crescer também
…………………………………….sabedoria.

Ensinai-me dois mais dois,
………………………………….cabeças cultas
que adorais
……………..sob a tutela
……………………………..da querida governanta
passear
………..de calças curtas.
A patifes e moleques
………………………….eu sem dó
reduziria esses senhores,
……………………………….numa pincelada só.
Porém não quero praguejar,
…………………………………..pelo contrário –
o que desejo é compreender
…………………………………..e perdoar o adversário.
E por que ofenderia esses boçais?
Vinde aprender,
…………………..almofadinhas,
……………………………………..escutai!
Pudesse a governanta
…………………………..informar-vos
(sobre isso também cantam
…………………………………..as canções),
saberíeis
………….que há dez anos
……………………………….entre nós
ocorreu a maior
……………………das revoluções.
Foi a lira
………….esmagada
……………………….pelo aço
…………………………………..dos fuzis.
E, levando embora
………………………seus líricos dons,
escapuliu Severiánin,
………………………….escapuliu Balmont 2
e todos vós
……………..que só melaço
………………………………..produzis.
Lambaz, agitação
……………………..na Europa
…………………………………..não se atura.
Tudo o que têm
…………………..é alta costura
…………………………………….de baixa estatura.
Para vós
………….e para nós,
para ambos o que havia
eram coreus,
……………….eram iambos…
Pressionava, todavia,
……………….    ………o exército branco,
de norte a sul
………………..do caído império,
e precisávamos gritar
a turbilhões,
……………….a canhões
…………………………….e impropérios.
Doces versos
……………….podeis ler
…………………………….de cortesãs
e entreter vossas visitas
……………………………..recostados em divãs…
Ensinou-nos
……………….a história
……………………………a escrever
como diante
……………….de uma grande escarradeira –
e na escória
……………..escarrar
………………………..há quem não queira?
Nós te vamos perseguir
…………………………….por todos os países
onde pises
…………….tu, larápio
que de dólares nutrido,
e teus queridos
…………………..Chaliápins.

Não às velhas
………………..vossas trovas
lançarei
…………a minha âncora –
às lustrosas orelhas
………………………..meus versos estorvam,
um escândalo
………………..as rimas
…………………………..às escâncaras.
A esmo não ando
……………………..de queixo caído
pelos vossos coliseus,
…………………………..museus
…………………………………….e templos.
Pasmem.
…………..Que a revolução
………………………………..não vos dê paz nem
o marasmo
……………..de outros tempos.
Das maravilhas que criei
………………………………não me envaideço:
dos poemas
………………penso às vezes
que é como
……………..se mordesse,
se apenas mordesse
………………………..o pior dos burgueses.
A meu ver,
…………….é um medíocre confesso
o poeta
………..que ao século
………………………….seus olhos arregala.
Adeus Tálnikov,
…………………..que tenho pressa!
Chilreie
…………sem mim
……………………..em seu traje de gala.
A galope
………….na garupa
……………………….dos poetas,
dar com eles
……………….testa a testa.
Com os versos
…………………enlaçá-los,
………………………………..feito asnos.
E a quê
………..há de servir
……………………….herança desta?
Nas revisas
……………..vosso poço
……………………………de marasmo.

1928

rosta22

1 Maiakóvski colaborava com a revista Krasnaia nov desde sua fundação em 1921. Em agosto de 1928 a mesma revista publicou de um jovem escritor, David Tálnikov, um artigo bombástico onde criticava as crônicas de Maiakóvski sobre suas viagens ao estrangeiro, referindo-se a elas como “falsidade vermelha”. Maiakóvski demitiu-se da revista e fez publicar nos jornais este seu poema.    

2 A Revolução de 1917 e os anos da guerra civil provocaram uma “onda” de emigrantes que saíram do país para tentar a vida no estrangeiro. A comunidade dos emigrados russos era especialmente numerosa em certos países como a França e os Estados Unidos. Entre eles havia ex-oficiais do Exército Branco derrotados na guerra, ex-nobres e ex-donos de terra, famílias que tiveram posses ou cargos importantes no Império russo, muitos clérigos e fiéis ortodoxos, perseguidos políticos do novo regime… Havia ainda uma variada gama de artistas e intelectuais de opiniões diversas (na época começavam a surgir os eurasianos e russos emigrados simpatizantes do bolchevismo). Maiakóvski viajou para a América (Cuba, México, Estados Unidos)* e Europa (Espanha, França, Alemanha, Inglaterra…) como uma espécie de embaixador da cultura soviética. A encargo da ROSTA, companhia de notícias e propaganda estatal, o poeta projetava seus cartazes – Maiakóvski era artista plástico de formação –, lia seus poemas, discursava, respondia a entrevistas, etc. Naturalmente, deparou-se com artistas refratários aos ideais de Outubro e ao futurismo engajado; o poeta cita os nomes de alguns: Fiórdor Chaliápin, Ígor Severiánin, Konstantin Balmont; todos estes que, àquele tempo, viviam em Paris.

* Conferir o livro de Maiakóvski Minha Descoberta da América, traduzido para a língua portuguesa por Graziela Schneider (Martins Fontes, 2007).

ГАЛОПЩИК ПО ПИСАТЕЛЯМ
  
Тальников
……………..в «Красной нови»
………………………………………про меня
пишет
……….задорно и храбро,
что лиру
…………..я
……………..на агит променял,
перо
……..променял на швабру.
Что я
………по Европам
……………………….болтался зря,
в стихах
………….ни вздохи, ни ахи,
а только
………….грублю,
…………………….случайно узря
Шаляпина
……………..или монахинь.
Растет добродушие
………………………….с ростом бород.
Чего
……..обижать
…………………маленького?!
Хочу не ругаться,
………………………а, наоборот,
понять
…………и простить Тальникова.
Вы молоды, верно,
…………………………сужу по мазкам,
такой
……….резвун-шалунишка.
Уроки
……….сдаете
………………..приятным баском
и любите
……………с бонной,
…………………………на радость мозгам,
гулять
………..в коротких штанишках.
Чему вас учат,
…………………..милый барчук, –
я
..вас
……..расспросить хочу.
Успела ли
…………….бонна
…………………….вам рассказать
(про это –
……………..и песни поются) –
вы знаете,
…………….10 лет назад
у нас
……..была
…………….революция.
Лиры
………крыл
……………..пулемет-обормот,
и, взяв
………..лирические манатки,
сбежал Северянин,
…………………………сбежал Бальмонт
и прочие
……………фабриканты патоки.
В Европе
……………у них
……………………ни агиток, ни швабр –
чиста
……….ажурная строчка без шва.
Одни –
…………хореи да ямбы,
туда бы,
………….к ним бы,
………………………..да вам бы.
Оставшихся
……………….жала
………………………белая рать
и с севера
…………….и с юга.
Нам
…….требовалось переорать
и вьюги,
…………..и пушки,
……………………….и ругань!
Их стих,
………….как девица,
………………………….читай на диване,
как сахар
…………….за чаем с блюдца, –
а мы
……..писали
………………..против плеваний,
ведь, сволочи –
……………………..все плюются.
Отбившись,
……………….мы ездим
…………………………….по странам по всем,
которые
…………..в картах наляпаны,
туда,
……..где пасутся
……………………..долларным посевом
любимые вами –
………………………..Шаляпины.
Не для романсов,
……………………….не для баллад
бросаем
…………..свои якоря мы –
лощеным ушам
…………………….наш стих грубоват
и рифмы
……………будут корявыми.
Не лезем
……………мы
………………..по музеям,
на колизеи глазея.
Мой лозунг –
………………….одну разглазей-ка
к революции лазейку…
Теперь
………..для меня
…………………….равнодушная честь,
что чудные
……………….рифмы рожу я.
Мне
…….как бы
………………только
………………………..почище уесть,
уесть покрупнее буржуя.
Поэту,
……….по-моему,
……………………..слабый плюс
торчать
………….у веков на выкате.
Прощайте, Тальников,
……………………………..я тороплюсь,
а вы
……..без меня чирикайте.
С поэта
…………и на поэта
………………………..в галоп
скачите,
…………..сшибайтесь лоб о лоб.
Но
….скидывайте галоши,
скача
……….по стихам, как лошадь.
А так скакать –
…………………….неопрятно:
от вас
……….по журналам…
…………………………….пятна.
  
1928

………………~//~


JÚBILO DAS ARTES

Pobre,
……….pobre Púchkin!
Nas rosadas orelhinhas
……………………………..de uma dama
os seus versos
…………………se derramam.
Que à alta
……………e restrita
……………………….sociedade,
aos salões de visita
……………………….ele brade.
Tenho pena
………………desses lábios
que entre alfombras e almofadas
…………………………………………se consomem.
Para eles
………….eu daria
…………………….um microfone.

Mússorgski?
……………….Pobre, pobre dele!
Esse som de pianola
…………………………de que vai adiantar?
Que rodopia no aperto
…………………………….e nas cortinas se enrola
dessas salas de concerto
………………………………ou de jantar.

Pobre,
……….pobre Herzen!
Como sino na campana,
………………………………seu vibrante miocárdio.

À toda a Rússia vibraria,
………………………………se houvesse então
……………………………………………………….o rádio.

Pois jubilem de alegria,
escritores,
……………musicistas,
………………………….artesãos do pensamento!
Hoje o rádio
………………os ressuscita
……………………………….do mortal esquecimento!
As palavras de ordem
…………………………..e canções hoje correm
pela inteira extensão
………………………….do mapa mundi. 1
Próximos estamos
………………………das orelhas
……………………………………..de milhões –
o brasileiro,
……………..o esquimó,
……………………………o espanhol,
…………………………………………..o urdmurti.
Abaixo
………..os estofados
…………………………dos salões!
Que murmure
…………………solitário
…………………………….o bacharel…
Estou contente
…………………..por vivermos neste tempo
em que se canta
…………………..pelos céus.

1928

rosta21

1 Aleksandr Mikhailov relata o seguinte episódio:
  
Vladímir Vladímirovitch [Maiakóvski] se apresentava com a leitura de poemas no rádio. Tal possibilidade de se comunicar com um público grande ainda o seduzia. Perguntou ao diretor da rádio se muita gente iria ouvi-lo. A resposta foi solene: ‘O mundo inteiro!’ Maiakóvski respondeu: ‘Não preciso de mais’” (Mikhailov, 2008, p. 476)
  
СЧАСТЬЕ ИСКУССТВ
  
Бедный,
………….бедный Пушкин!
Великосветской тиной
дамам
……….в холеные ушки
читал
……….стихи
……………….для гостиной.
Жаль –
…………губы.
Дам
…….да вон!
Да в губы
……………ему бы
да микрофон!
  
Мусоргский –
………………….бедный, бедный!
Робки
……….звуки роялишек:
концертный зал
……………………..да обеденный
обойдут –
…………….и ни метра дальше.
  
Бедный,
………….бедный Герцен!
Слабы
……….слова красивые.
По радио
…………..колокол-сердце
расплескивать бы
………………………..ему
………………………………по России!
 
Человечьей
………………отсталости
………………………………жертвы –
радуйтесь
…………….мысли-громаде!
Вас
……из забытых и мертвых
воскрешает
………………нынче
………………………..радио!
Во все
……….всехсветные лона
и песня
…………и лозунг текут.
Мы
……близки
……………..ушам миллионов –
бразильцу
……………..и эскимосу,
………………………………испанцу
…………………………………………..и вотяку.
Долой
……….салонов жилье!
Наш день
……………прекрасней, чем небыль…
Я счастлив,
………………что мы
………………………..живем
в дни
………распеваний по небу
  
1928

………………~//~  


SOBRE AS DIFERENÇAS DE GOSTO

Põe-se
……….o cavalo ao camelo
………………………………..a aborrecê-lo:
“Não fosse o bastante,
……………………………um jegue-gigante!”
Põe-se
……….o camelo ao cavalo
………………………………..a estorvá-lo:
“Acaso um cavalo tu és?
………………………………Está claro que não.
Dentre os mais reles pangarés,
………………………………………um camelo-anão”.
E só o deus,
………………velho barbudo,
………………………………….compreende:
Eles são,
………….mais do que tudo,
………………………………….de espécies diferentes.

1928

rosta13

СТИХИ О РАЗНИЦЕ ВКУСОВ

Лошадь
………..  сказала,
………….  ……….взглянув на верблюда:
«Какая
………..гигантская
……………………….лошадь-ублюдок».
Верблюд же
……………….вскричал:
……………………………..«Да лошадь разве ты?!
Ты
…..просто-напросто —
………………………………верблюд недоразвитый».
И знал лишь
………………..бог седобородый,
что это —
……………животные
………………………….разной породы.

1928

……………~//~


CARTA DE PARIS AO CAMARADA KOSTRÓV SOBRE A NATUREZA DO AMOR

Queira desculpar-me,
…………………………..camarada Kostróv, 1
com sua inconfundível
…………..                   ….presença de espírito,
que hoje
………….eu desperdice essas estrofes

em Paris
………….neste imprevisto jorro lírico.

Caso assim imaginares:
……………………………..um poeta
………………………………………….desse porte,
como pode
…………….assim portar-se?
Belo talhe,
…………….toda ornada
…………………………….de pelagens
……………………………………………e colares,
no recinto entra uma dama.
Devo a verdade informar-lhe:
Camarada!
…………….Eu na Rússia
……………………………..já galguei o rol da fama.
Já tive
………as mais belas
………………………..garotas.
Todas elas
…………….dos poetas
………………………….se enamoram.
Bem mais que cantadas marotas,
apreciam
…………..o vigor
…………………….da voz sonora.
Mas a mínima não dou
…………………………….a passageiros sentimentos, –  
para isso
…………..estou já gasto.
Eu, ferido
……………para sempre
…………………………….de amor,
a muito custo
…………………que me arrasto.
O amor não meço pelo casamento.
Deixou de amar?   
…………………….Até nunca mais!
Da altura em que estou,
……………………………..camarada,
eu
….nas cúpulas de tuas catedrais
lanço celeste
……………….cusparada.
As mulheres,
……………….custaria conquistar-lhes?
Se quiseres
……………..entrar em detalhes,
a zombar
…………..livre se sinta,
o nome meu
………………no mundo caia.
Eu
….no auge dos meus trinta
não me rendo
…………………a qualquer rabo de saia.
Não se pode
………………com carvões
……………………………….abrasar,
ferver tampouco
……………………o amor
……………………………..em samovar.
Às montanhas
………………….do meu peito
e à selva dos cabelos
………………………….o amor se sobrepôs.
Se quiseres
……………..do amor
………………………..o meu conceito,
ei-lo pois:
……………só poderei acreditar
em um amor
……………….que força tenha
de a noite
………,…..atravessar
…………………………como relâmpago
e no golpe
…………….do machado
…………………………….cortar lenha
como se de brincadeira
…………………………….na vereda do meu âmago.
Amar
……..é despencar
……………………..pelos buracos do lençol –
cair do sol
……………e não da cama!
Enciumar-se de Copérnico
e não
……..de qualquer verme com
dinheiro e belas damas.
Amor
……..é o que age
……………………revivendo as engrenagens 
no motor
…………..do coração.
Tu rompeste
……………….com Moscou
………………………………..a ligação…
Os anos passam,
……………………a distância se amplia…
Poderias
………….sobre isso
……………………….dar alguma explicação?
Do inferno
…………….o fosso
………………………aos celestes
……………………………………..azuis, –
poeta não fosse,
……………………eu astrônomo seria.
Já a rua alvoroçou-se,
…………………………..o trânsito flui.
Eu vou
……….no caderno
………………………escrevendo poesia
e, por mais
…………….que pela via
…………………………….os carros zanzem,
não o vão deitar por terra.
Se alguém
……………me vê na praça:
…………………………………esse aí
…………………………………………está em transe!
De idéias e visões
……………………..toda a massa
que no crânio
………………..até as tampas
………………………………….se encerra.
E quem sabe até num urso
…………………………………crescerá um par de asas?
De repente,
……………..no ordinário refeitório,
……………………………………………um susto:
aquilo tudo que fervia
…………………………..entre a alma e a caderneta
da garganta
………………às estrelas
…………………………….extravaza:
um cometa
……………..o verbo em brasa.
Ele brilha
…………..com seu rabo
…………………………….sideral:
a ardente plumagem
…………………………que atravessa o universo.
Se à noite
……………na relva
………………………deitar um casal,
a olhar para o céu
………………………o convide meu verso.
O cometa levanta
……………………..e conduz
…………………………………e fustiga –
com sede de luz
…………………..os olhos se abrem.
Para que rolem
…………………..dos pescoços
……………………………………as cabeças inimigas,
o rabo
………reluz
……………..como um sabre.
Até que a última batida
……………………….,…..soe em meu interior,
terei certeza –
…………………estou amando.
Eis o zumbido do amor:
…………………………….simples, humano.
Quase explode
………………….o caldeirão
………………………………..de pedra e lava,
o estrondo
…………….do vulcão
…………………………é iminente.
Há quem possa
………………….dominá-lo
………………………………..com palavras?
Podes tu?
……………Pois vai em frente.

1928

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

1 Maiakóvski desembarcou em Paris no dia 15 de outubro de 1928. O objetivo da viagem era o de costume: ler para os russos emigrados seus poemas vermelhos, anunciar a nova realidade soviética, etc. Decerto que o amor não estava previsto como tema oficial. Entretanto, o férreo Maiakóvski estava amando. Sobre esse sentimento fala em sua Carta ao Camarada Kostróv e também no poema que se lerá a seguir, Carta a Tatiana Iákovlevna. Este último não se publicou em vida. Mas a Carta a Kostróv foi incluída pelo próprio Taras Kostróv (pseudônimo de Aleksandr Martinóvski) na revista, da qual era editor, Molodáia Gvárdia. Kostróv já editava os poemas de Maiakóvski na Komsomólskaia Pravda e tinha com ele, além da relação profissional, uma sincera amizade. A crítica reagiu com ferocidade à publicação, denunciando um suposto desvio em relação à conduta que o poeta deveria ostentar enquanto divulgador do ideário soviético e embaixador do país no estrangeiro. Mesmo porque Tatiana Iákovlevna era uma russa emigrada: ela deixou a União Soviética em 1925. Em Paris, participou na cena da moda em Monteparnasse, confeccionando chapéus, e sua beleza atraiu a atenção da alta sociedade parisiense. Uma união tão antitética como a dela com Maiakóvski gerou burburinho. A indomável explosão lírica (como não se via desde seus poemas dedicados a Lília Brik em 1923), sobrepondo-se ao caráter pragmático de seu verso social, conferiu a essas duas Cartas um lugar de destaque na obra de Maiakóvski, testemunho de seu profundo envolvimento amoroso. Os dois passaram um mês e meio juntos em Paris; Maiakóvski pretendia se casar com Tatiana Iákovlevna, desde que satisfeita uma condição: ela deveria voltar com ele para a União Soviética. O poeta combinou de voltar a Paris para buscá-la em fevereiro próximo. O que se sabe a respeito dessa tenção diplomática entre o casal provém de algumas cartas que se preservaram daquele tempo. Tatiana Iákovlevna correspondia-se com a mãe, que permaneceu na União Soviética: “Maiakóvski me fustigou, me obrigou a pensar e, o mais importante, a me lembrar da Rússia”, disse ela, “Ele estimulou em mim a saudade pela Rússia e por todos vocês. Quase voltei” (MIKHAILOV, p. 470). Maiakóvski escreveu a Tatiana um telegrama: “Pense e concentre as idéias (depois junte seus pertences) e teste com o coração minha esperança de agarrá-la com as patas e levá-la para minha casa, para Moscou” (Idem, pág. 483). Ademais, é essencialmente essa a mensagem de sua Carta a Tatiana Iákovlevna. Maiakóvski não conseguiu trazê-la consigo da nova estadia em Paris de fevereiro a abril de 1929. Prometeu voltar mais uma vez em outubro e depositava esperanças nesse terceiro encontro. Mas aconteceu algo inesperado: seu passaporte foi retido e o poeta não pôde deixar a União Soviética. Supõe-se que as autoridades o impediram de viajar a fim de evitar um eventual casamento em Paris. Maiakóvski informou Iákovlevna sobre o cancelamento da viagem. Soube, pouco depois, que ela se tornara noiva de um janota francês, Du Plessis. O esgotameto emocional (inclusive por um novo desastre afetivo com Verônika Polónskaia), reflexo também de um recrudecimento na esfera política e profissional (que culminou no boicote à exposição sobre os vinte anos de sua carreira), levou o poeta ao suicídio em 14 de abril de 1930. Os jornais se preocuparam em estampar seu poema de despedida, sobre o barquinho destroçado do amor, ressaltando que “seu suicídio foi provocado por motivos de ordem estritamente particular e não tem nenhuma ligação com a atividade social e literária do poeta” (Idem, pág. 533).

Obs.: ambos os poemas, Carta ao Camarada Kostróv e Carta a Tatiana Iákovlevna, já foram traduzidos para a língua portuguesa; o primeiro por Augusto de Campos, publicado originalmente na antologia Poesia Russa Moderna (Perspectiva, 1968 1ª ed.) e incluído recentemente na edição ampliada de Maiakóvski – Poemas (Perspectiva, 2017); o segundo por Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman, cf. Maiakóvski – Poemas (Idem). Seus últimos fragmentos, alguns dos quais Maiakóvski incluiu em seu bilhete de despedida (“a canoa do amor se quebrou no cotidiano…”), foram também traduzidos por Augusto de Campos na mesma edição.

ПИСЬМО ТОВАРИЩУ КОСТРОВУ ИЗ ПАРИЖА О СУЩНОСТИ ЛЮБВИ

Простите
……………меня,
……………………товарищ Костров,
с присущей
……………….душевной ширью,
что часть
……………на Париж отпущенных строф
на лирику
…………….я
……………….растранжирю.
Представьте:
…………………входит
…………………………..красавица в зал,
в меха
……….и бусы оправленная.
Я
..эту красавицу взял
……………………………и сказал:
— правильно сказал
………………………….или неправильно?—
Я, товарищ, —
…………………..из России,
знаменит в своей стране я,
я видал
…………девиц красивей,
я видал
…………девиц стройнее.
Девушкам
…………….поэты любы.
Я ж умен
…………..и голосист,
заговариваю зубы —
только
………..слушать согласись.
Не поймать
………………меня
……………………..на дряни,
на прохожей
………………..паре чувств.
Я ж
……навек
……………любовью ранен —
еле-еле волочусь.
Мне
…….любовь
………………не свадьбой мерить:
разлюбила —
…………………уплыла.
Мне, товарищ,
…………………..в высшей мере
наплевать
…………….на купола.
Что ж в подробности вдаваться,
шутки бросьте-ка,
мне ж, красавица,
……………………….не двадцать,—
тридцать…
……………..с хвостиком.
Любовь
………….не в том,
……………………..чтоб кипеть крутей,
не в том,
…………..что жгут угольями,
а в том,
…………что встает за горами грудей
ад
….волосами-джунглями.
Любить —
…………….это значит:
…………………………….в глубь двора
вбежать
………….и до ночи грачьей,
блестя топором,
…………………….рубить дрова,
силой
………своей
………………играючи.
Любить —
…………….это с простынь,
………………………………….бессонницей рваных,
срываться,
……………..ревнуя к Копернику,
его,
……а не мужа Марьи Иванны,
считая
………..своим
………………..соперником.
Нам
…….любовь
………………..не рай да кущи,
нам
……любовь
……………..гудит про то,
что опять
…………….в работу пущен
сердца
………..выстывший мотор.
Вы
…..к Москве
……………….порвали нить.
Годы —
…………расстояние.
Как бы
………..вам бы
………………….объяснить
это состояние?
На земле
…………..огней — до неба…
В синем небе
…………………звезд —
…………………………….до черта.
Если бы я
…………….поэтом не был,
я б
….стал бы
……………..звездочетом.
Подымает площадь шум,
экипажи движутся,
я хожу,
………..стишки пишу
в записную книжицу.
Мчат
………авто
…………….по улице,
а не свалят наземь.
Понимают
……………..умницы:
человек —
……………..в экстазе.
Сонм видений
…………………..и идей
полон
……….до крышки.
Тут бы
……….и у медведей
выросли бы крылышки.
И вот
……..с какой-то
……………………грошовой столовой,
когда
………докипело это,
из зева
………..до звезд
……………………взвивается слово
золоторожденной кометой.
Распластан
………………хвост
……………………..небесам на треть,
блестит
…………и горит оперенье его,
чтоб двум влюбленным
………………………………на звезды смотреть
из ихней
……………беседки сиреневой.
Чтоб подымать,
…………………….и вести,
………………………………..и влечь,
которые глазом ослабли.
Чтоб вражьи
………………..головы
………………………….спиливать с плеч
хвостатой
…………….сияющей саблей.
Себя
……..до последнего стука в груди,
как на свиданье,
……………………..простаивая.
прислушиваюсь:
……………………..любовь загудит —
человеческая,
…………………простая.
Ураган,
…………огонь,
…………………вода
подступают в ропоте.
Кто
…..сумеет совладать?
Можете?
………….Попробуйте…

1928

……………~//~

CARTA A TATIANA IAKOVLEVNA

No beijo, quer seja
……………………….das mãos ou dos lábios,
no corpo fremente
………………………ao qual junto me deito,
a cor rubra
……………flameje
……………………..das repúblicas que trago
como um lábaro
……………………ao peito.
Eu não amo
………………esse amor parisiense,
cadelinha aristocrata.
…………………………..Espreguiçando-me o dispense.
Aos cães raivosos
……………………..da paixão
…………………………………..eu digo “Senta! Dá a pata!”
Meu instinto não atura
…………………………….tanta seda
nem os leques
…………………nos cafés
…………………………….que se abanam.
Sobrancelha a sobrancelha,
só você
………..é quem está
………………………..à minha altura,
e sobre esta
……………..grande noite
………………………………me conceda
que eu narre
………………em voz humana.
Madrugada,
………………cinco horas.
………………………………A cidade populosa
está deserta
………………como um bosque.
……………………………………..Abandona-se ao sono.
Dos atritos
……………..ouço só os que
apitam
………..com os trens
…………………………que rumam para
………………………………………………Barcelona.
Clarão  
……….que arranha
……………………….o cume
…………………………………do céu,
trovão de injúrias
……………………..no drama da noite…
Não é furacão
…………………o imenso escarcéu,
mas só o ciúme
…………………..movendo montanhas.
Não calo
………….o calão
……………………das palavras afoitas.
Não receie
…………….esta besta
………………………….em que cavalgo –
porei freio,
…………….porei rédea
……………………………a sentimento como este,
um arrebento
…………………de fidalgos.
Esse drama
……………..em prosa e verso
……………………………………não se encarna
sem que em crostas ele caia,
……………………………………feito sarna.
Ao diabo
………….com as lágrimas
……………………………….ciumentas que verti,
como das pálpebras inchadas
……………………………………..de um Vii. 1
Sinto ciúme
………………não por mim,
………………………………..mas pela Rússia Soviética.
A tísica eu vi
……………….lamber das costas os remendos,
cem milhões
……………….na mais porca
………………………………….das misérias
na moléstia apodrecendo.
………………………………..Não é culpa minha…
Nós fizemos nossa parte,
……………………………….sem modéstia –
os problemas
………………..que hoje temos
……………………………………são fichinha.
Mas nem tudo
…………………se endireita
………………………………..com esporte, –
nós de ti
………….necessitamos
……………………………em Moscou:
um par de pernas
……………………..desse porte
…………………………………….raridade se mostrou.
Após a tifo
…………….atravessares,
……………………………..todo tipo
………………………………………….de imundícia,
haverás de
…………….essas pernas
…………………………….passear
………………………………………no estrangeiro
e entregá-las
……………….nos jantares
………………………………..às carícias
dos barões
……………..petroleiros?
Não virás
…………..para meus grandes
……………………………………e desajeitados braços?
Apartada,
……………há de encalhar
……………………………….quem não me quis.
Da afronta
…………….a conta faço, 
……………………………..e não seja por isto…
Qualquer dia
……………….eu a conquisto,
…………………………………..quer sozinha
……………………………………………………ou com Paris.

1928

rosta

1 Segundo a mitologia eslava, chama-se Vii uma criatura maligna, que teria o poder de matar com um só olhar; no entanto, o Vii mal pode abrir os olhos, por causa das pálpebras grandes e pesadas, quase chegando a tocar o chão. Este personagem do folclore foi imortalizado na literatura pelo conto homônimo de Nikolai Gogol.

ПИСЬМО ТАТЬЯНЕ ЯКОВЛЕВОЙ

В поцелуе рук ли,
……………………..губ ли,
в дрожи тела
………………..близких мне
красный
………….цвет
……………….моих республик
тоже
……..должен
………………..пламенеть.
Я не люблю
……………….парижскую любовь:
любую самочку
…………………….шелками разукрасьте,
потягиваясь, задремлю,
……………………………….сказав —
……………………………………………тубо —
собакам
………….озверевшей страсти.
Ты одна мне
………………..ростом вровень,
стань же рядом
…………………….с бровью брови,
дай
……про этот
……………….важный вечер
рассказать
……………..по-человечьи.
Пять часов,
………………и с этих пор
стих
…….людей
……………..дремучий бор,
вымер
……….город заселенный,
слышу лишь
………………..свисточный спор
поездов до Барселоны.
В черном небе
…………………..молний поступь,
гром
…….ругней
………………в небесной драме, —
не гроза,
…………..а это
………………….просто
ревность двигает горами.
Глупых слов
……………….не верь сырью,
не пугайся
……………..этой тряски,-
я взнуздаю,
………………я смирю
чувства
………….отпрысков дворянских.
Страсти корь
…………………сойдет коростой,
но радость
……………..неиссыхаемая,
буду долго,
……………..буду просто
разговаривать стихами я.
Ревность,
……………жены,
…………………….слезы…
………………………………ну их! —
вспухнут веки,
…………………..впору Вию.
Я не сам,
…………..а я
……………….ревную
за Советскую Россию.
Видел
……….на плечах заплаты,
их
….чахотка
…………….лижет вздохом.
Что же,
…………мы не виноваты —
ста мильонам
………………….было плохо.
Мы
…..теперь
……………к таким нежны —
спортом
………….выпрямишь не многих,—
вы и нам
…………..в Москве нужны
не хватает
…………….длинноногих.
Не тебе,
…………в снега
…………………..и в тиф
шедшей
………….этими ногами,
здесь
……..на ласки
…………………выдать их
в ужины
…………..с нефтяниками.
Ты не думай,
…………………щурясь просто
из-под выпрямленных дуг.
Иди сюда,
…………….иди на перекресток
моих больших
…………………..и неуклюжих рук.
Не хочешь?
………………Оставайся и зимуй,
и это
……..оскорбление
……………………….на общий счет нанижем.
Я все равно
………………тебя
…………………….когда-нибудь возьму —
одну
…….или вдвоем с Парижем.

1928

………………….~//~


CONVERSA COM O CAMARADA LÊNIN

Depois da jornada
………………………o tumulto serena,
o dia se foi,
……………..a noite inicia.
No cômodo, dois:
……………………..Eu
…………………………e Lênin – 
na branca parede
…………………….a fotografia. 1
Com a boca
……………..entreaberta
…………………………….a discursar
e o bigode
……………eriçando-se
…………………………..ao vento,
a testa
……….enrugada,
…………………….exemplar:
para uma testa grandiosa
……………………………….um grandioso pensamento.
Entre nós
…………..talvez estejam
……………………………..multidões invisíveis
caminhando,
……………….uma floresta de bandeiras
farfalhando…
Num lampejo
………………..me levanto
………………………………da cadeira:
quero ir
…………cumprimentar
……………………………meu companheiro!
“Camarada Lênin,
……………………..vim aqui vos relatar
não por ofício –
……………………pela alma.
Camarada Lênin,
…………………….um trabalho infernal na
nossa pátria temos feito:
………………………………iluminar.
Vestimos os pobres,
………………………..cessou a miséria.
De carvão
…………..e de minério
…………………………..ampliou-se a produção.
Mas também temos,
………………………..é verdade,
……………………………………..uma série
de piores miseráveis,
…………………………todo tipo
……………………………………..de canalha e fanfarrão.
Cansarias de
……………….com eles
…………………………..quebrar a cabeça.
Muitos
……….sem ti
……………….se puseram rebeldes.
E por causa
……………..dessa gente
…………………………….tão avessa
nossa pátria,
……………….infelizmente,
………………………………..retrocede.
Não há número
…………………..nem nomes
………………………………….o bastante
para deles
……………compreender
……………………………..de que se trata:
kulaki, 2
……….sectários,
……………………meliantes,
beberrões,
……………puxa-sacos,
…………………………..burocratas.
Braços cruzados
……………………e peito estufado, ei-los:
como ostentam,
……………………sondam,
……………………………….blefam.
Nós vamos,
……………..é verdade,
…………………………..esmagar a todos eles.
Mas como é difícil,
……………………….difícil demais
…………………………………………a tarefa.
Camarada Lênin,
…………………….pelas fábricas suadas
e campos arados,
…………………….pela pátria
…………………………………..de extremo a extremo,
pelo vosso coração
……………………….e vosso nome,
………………………………………….camarada,
nós pensamos,
………………….respiramos,
…………………………………batalhamos
………………………………………………..e vivemos!..”
Depois da jornada
………………………o tumulto serena,
o dia se foi,
……………..a noite inicia.
No cômodo, dois:
……………………..Eu
…………………………e Lênin –
na branca parede
…………………….a fotografia.

1929

rosta31

1 Poema escrito em memória de Vladímir Ílitch Lênin, ao quinto ano de sua morte, e publicado no Komsomólskaia Pravda em 20 de janeiro de 1929. Na edição de suas obras reunidas em 13 volumes (Maiakóvski, 1955, p. 534), consta que “a fotografia, a que se refere Maiakóvski neste poema – permanentemente pendurada à parede de seu gabinete de trabalho –, é aquela, em que V. I. Lênin discursa na praça Sverdlov em 5 de maio de 1920”. Sobre sua deferência ao líder da revolução bolchevique, cf. o poema Vladímir Ílitch Lênin (1924), para o português traduzido por Zóia Prestes.

2 Kuláki eram donos de terras privadas de médio porte que existiram na primeira década do Estado Soviético. Contra essa elite de proprietários levantou-se uma violenta campanha, nos fins dos anos de 1920, com a coletivização forçada do campo. Os kuláki resistiram à expropriação de suas terras destruindo ou escondendo safras e materiais agrículas, o que ocasionou o colapso no abastecimento e uma crise de fome no país. Em contrapartida, o Estado usou da força militar para reprimir esses camponeses e com eles engordou consideravelmente seu sistema prisional.

РАЗГОВОР С ТОВАРИЩЕМ ЛЕНИНЫМ

Грудой дел,
………………суматохой явлений
день отошел,
………………..постепенно стемнев.
Двое в комнате.
…………………….Я
……………………….и Ленин –
фотографией
…………………на белой стене.
Рот открыт
……………..в напряженной речи,
усов
…….щетинка
…………………вздернулась ввысь,
в складках лба
…………………..зажата
…………………………….человечья,
в огромный лоб
…………………….огромная мысль.
Должно быть,
…………………под ним
…………………………….проходят тысячи.
Лес флагов…
………………..рук трава…
Я встал со стула,
……………………..радостью высвечен,
хочется –
……………идти,
……………………приветствовать,
…………………………………………..рапортовать!
«Товарищ Ленин,
………………………я вам докладываю
не по службе,
…………………а по душе.
Товарищ Ленин,
…………………….работа адовая
будет
……..сделана
…………………и делается уже.
Освещаем,
……………..одеваем нищь и оголь,
ширится
…………..добыча
……………………..угля и руды…
А рядом с этим,
……………………конешно,
…………………………………много,
много
……….разной
………………….дряни и ерунды.
Устаешь
………….отбиваться и отгрызаться.
Многие
…………без вас
……………………отбились от рук.
Очень
……….много
………………..разных мерзавцев
ходят
………по нашей земле
…………………………….и вокруг.
Нету
……..им
…………ни числа,
………………………ни клички,
елая
…….лента типов
………………………тянется.
Кулаки
…………и волокитчики,
подхалимы,
………………сектанты
…………………………..и пьяницы, –
ходят,
……….гордо
……………….выпятив груди,
в ручках сплошь
……………………..и в значках нагрудных…
Мы их
……….всех,
………………конешно, скрутим,
но всех
………..скрутить
…………………….ужасно трудно.
Товарищ Ленин,
…………………….по фабрикам дымным,
по землям,
……………..покрытым
……………………………и снегом
………………………………………..и жнивьём,
вашим,
………..товарищ,
…………………….сердцем
………………………………..и именем
думаем,
………….дышим,
…………………….боремся
………………………………..и живем!..»
Грудой дел,
………………суматохой явлений
день отошел,
…………………постепенно стемнев.
Двое в комнате.
…………………….Я
……………………….и Ленин –
фотографией
…………………на белой стене.

1929

………………..~//~


A MULHER PARISIENSE

Representas a imagem
……………………………da mulher parisiense,
ostentando braceletes
……………………………e colares de rubis.
Delirante ilusão!
…………………….Caso assim penses,
saibas como
………………é dura a vida
……………………………….das mulheres em Paris.
Mademoiselle!
………………….Num instante
……………………………………represento essa mulher…
Palavra que não sei
………………………..se ela é jovem
………………………………………….ou se velha, –
sob o pó da maquiagem
……………………………..sua pele é amarela.
Uma “servente”
……………………ela é
………………………….na Grande Chaumière. 1
Com um Borgonha
……………………….ela sonha,
…………………………………….mas sejamos realistas…
Vinhos são para, talvez, a garçonete.
Esta mulher
………………em seu trabalho
……………………………………é simplesmente uma artista:
uma toalha oferecer
…………………………no corredor do toilette.
Ao espelho
…………….espremeis
………………………….uma espinha?
Enquanto isso ela sorri,
…………………………….para depois
oferecer a toalhinha
…………………………e polvilhar o pó-de-arroz.
Mas a vida
…………….da mulher
………………………….não se resume
a borrifar
…………..vossas perucas
……………………………..com perfume.
Serva da sutil gastronomia,
………………………………….ela encara
noite e dia
…………….o vaso ilustre da latrina
a respirar
……………deste requinte
………………………………a poção rara
que deitastes
………………..onde o sol não ilumina.
Por mais que lave esse lavabo,
desinfete bem a fossa,
……………………………enxague,
……………………………………….seque,
quando o dia chega ao cabo
não recebe
…………….trinta cêntimos
…………………………………(na nossa
unidade,
………….duas dúzias
…………………………de copeques).

Eu,
…..perplexo,
………………tua dor,
………………………..mademoiselle,
sinto como em minha pele,
mas perdoe
……………..lhe dizer
…………………………dessa maneira:
– Não há glamour assim
……………………….. ……em da miséria
………………………………………………..estar à beira.
Pois em sonho
………………….representas
…………………………………glamourosos camarins, 
mas segues tu
…………………a mais tristonha
………………………………………camareira.
Ou mentiram para mim
……………………………..sobre as mulheres de Paris,
ou não és tu
………………parisiense.
Olha bem,
……………mademoiselle,
………………………………como vives infeliz:
Meias de lã…
……………….Por quê razão
…………………………………não as de seda
……………………………………………………te pertencem?
Por que a ti
……………..vasos de flores
………………………………..não regalam
esses nobres monsenhores
…………………………………de abarrotados bolsos?
Mademoiselle cala,
……………………….mas seus pensamentos ouço.
Aquilo tudo
………………à nossa cara
………………………………ela lançasse
que, em seu rico carnaval, Montparnasse
em doses diárias
……………………ministrou
às funcionárias
…………………..dos bistrôs.  
Me desculpo por lembrar as frias poças
que à mulher parisiense
……………………………..regalou
……………………………………….a burguesia.
Que as serventes
…………………….de Paris
……………………………….um dia possam
conquistar sua alforria.

1929

rosta16

1 Grande-Chaumière, academia de belas-artes em Monteparnasse, Paris. Além de suas famosas declarações de amor, as últimas passagens de Maiakóvski pela capital francesa renderam versos de tom sarcástico sobre o luxo da vida intelectual parisiense. É o caso, também, do poema que leremos a seguir, Krassávitsi, subintitulado “Reflexões na estréia da Grand Opéra”. Ambos foram publicados na Jenski jurnal [Revista de mulheres], o primeiro em fevereiro, o segundo em julho de 1929.

ПАРИЖАНКА

Вы себе представляете
……………………………..парижских женщин
с шеей разжемчуженной,
…………………………………разбриллиантенной
…………………………………………………………….рукой…
Бросьте представлять себе!
……………………………………Жизнь —
………………………………………………..жестче —
у моей парижанки
………………………..вид другой.
Не знаю, право,
……………………молода
……………………………..или стара она,
до желтизны
…………………отшлифованная
……………………………………….в лощеном хамье.
Служит
…………она
………………в уборной ресторана —
маленького ресторана —
…………………………………Гранд-Шомьер.
Выпившим бургундского
………………………………….может захотеться
для облегчения
…………………….пойти пройтись.
Дело мадмуазель
………………………подавать полотенце,
она
……в этом деле
……………………просто артист.
Пока
……..у трюмо
…………………разглядываешь прыщик,
она,
……разулыбив
…………………..облупленный рот,
пудрой подпудрит,
…………………………духами попрыщет,
подаст пипифакс
………………………и лужу подотрет.
Раба чревоугодий
……………………….торчит без солнца,
в клозетной шахте
………………………..по суткам
………………………………………клопея,
за пятьдесят сантимов!
……………………………….(По курсу червонца
с мужчины
……………..около
……………………..четырех копеек.)
Под умывальником
………………………….ладони омывая,
дыша
………диковиной
……………………..парфюмерных зелий,
над мадмуазелью
……………………….недоумевая,
хочу
…….сказать
……………….мадмуазели:
— Мадмуазель,
……………………ваш вид,
……………………………….извините,
……………………………………………..жалок.
На уборную молодость
………………………………губить не жалко вам?
Или
……мне
…………наврали про парижанок,
или
……вы, мадмуазель,
………………………….не парижанка.
Выглядите вы
………………….туберкулезно
…………………………………….и вяло.
Чулки шерстяные…
………………………….Почему не шелка?
Почему
…………не шлют вам
…………………………..пармских фиалок
благородные мусью
…………………………..от полного кошелька? —
Мадмуазель молчала,
…………………………….грохот наваливал
на трактир,
………………на потолок,
………………………………на нас.
Это,
……кружа
……………веселье карнавалово,
весь
…….в парижанках
………………………..гудел Монпарнас.
Простите, пожалуйста,
……………………………..за стих раскрежещенный
и
..за описанные
…………………..вонючие лужи,
но очень
…………..трудно
…………………….в Париже
………………………………….женщине,
если
…….женщина
…………………не продается,
……………………………………а служит.

1929

……………….~//~


COQUETERIA

(Reflexões na estréia da Grand Opéra)

A Grand ópera se abra
para o verdadeiramente grande.
Da mal-feita minha barba
a me gabar,
……………..por ela eu ande.
No intervalo, –
…………………..uma coquete…
Esta tocou meu ponto fraco!
O coração
……………já se derrete
no surrado meu casaco.
Suas unhas
……………..com esmalte,
sobre os lábios
………………….o batom –
sutil pintura que ressalte
a cor de rosas em botão.
Azul-lazúli
……………..sobre os cílios…
A cintura –
……………..uma taça!
Nuas costas que mal passam
no funil
…………do espartilho.
 Sobre as peles
………………….de chinchila
como as pérolas refulgem!
No vestido
…………….em que desfila
é de morsa
…………….a pelugem.
Que esplêndidos tecidos! –
de veludo,
……………seda,
…………………..crepe.
Um cochicho ao pé do ouvido,
ela se assanha,
………………….serelepe.
Broches,
………….filigranas… –
de ourivesaria
…………………estelar.
A tal beleza sobre-humana
ousarias
………….conquistar?
Não hesito:
……………..mãos à obra!
Com vestido
………………ou talvez sem.
Os adereços
………………tem de sobra…
Uma pena
……………que cabeça
………………………….ela não tem.

1929

rosta33

КРАСАВИЦЫ

(Раздумье на открытии Grand Opéra)

В смокинг вштопорен,
побрит что надо,
По гранд
…………..по опере
гуляю грандом.
Смотрю
………….в антракте –
красавка на красавице.
Размяк характер –
всё мне
…………нравится.
Талии –
………….кубки.
Ногти –
………;…в глянце.
Крашеные губки
розой убиганятся.
Ретушь –
……………у глаза,
Оттеняет синь его.
Спины
………..из газа
цвета лососиньего.
Упадая
………..с высоты,
пол
……метут
……………шлейфы.
От такой
…………..красоты
сторонитесь, рефы.
Повернет –
………………в брильянтах уши.
Пошевелится шаля –
на грудинке
……………….ряд жемчужин
обнажают
…………….шеншиля.
Платье –
……………пухом.
…………………….Не дыши.
Аж на старом
…………………на морже
только фай
………………да крепдешин,
только
………..облако жоржет.
Брошки – блещут…
………………………….на тебе! –
с платья
………….с полуголого.
Эх,
…..к такому платью бы
да еще бы…
……………….голову.

1929

………….. ~//~


VERSOS SOBRE O PASSAPORTE SOVIÉTICO

Os diabos que carreguem,
………………………………..servidores da boçal burocracia,
os papéis
…………..que prescrevestes.
Com os dentes,
………………….como um lobo,
……………………………………..os morderia.
Porém este…
Se do trem
…………….pelas cabines
………………………………e compridos camarotes
o fiscal toma caminho,
entregueis
…………….os passaportes;
eu
….entrego
……………meu purpúreo livrinho.
Uns passaportes
……………………para eles
……………………………….pouco importam;
outras vezes
………………há que riem
……………………………..ou desdenham.
Com respeito,
………………..por exemplo,
…………………………………se comportam
se nas capas dos ingleses
o brasão
…………com dois leões
……………………………se desenha.
No vagão, 
…………..primeira classe,
o tiozinho americano
………………………….se recolhe
……………………………………….para o leito.
Como a ele
…………….com os olhos devorassem,
o abordam
…………….com trejeitos
……………………………..e etiquetas –
pegam dele o passaporte
………………………………como fosse uma gorjeta.
Ao polonês,
……………..ao polonês o fiscal pega
e olha fixo,
…………….como um burro a um cartaz;
com militar estupidez,
……………………………para o colega
franze a testa
………………..e solta a gafe:
………………………………….“Saberás
o que é esta
……………..novidade geográfica?”
Quando pegam
………………….passaportes de suecos
nenhum eco de idéia
………………………….ou sentimento,
para bem
…………..ou para mal,
…………………………..os impressiona.
De repente
…………….fica pálido o fiscal;
como que eletrocutada,
…………………………….sua boca convulsiona.
Com que assombro
……………………….ele pegou
……………………………………o meu vermelho passaporte! –
como fosse
…………….muito mais
……………………………do que papéis –
ele o pegou
……………..como uma bomba,
da navalha
……………..o duplo corte, –
…………………………………..ele o pegou
como um ouriço
……………………ou a pior
………………………………..das cascavéis.
Carregadores!
…………………Piscadela
……………………………..com malícia,
e de graça
……………minhas coisas
………………………………eles guardam.
Olhadela
………….do polícia
………………………para o guarda
e do guarda
……………..o mesmo olhar
………………………………..para o polícia.
Essa raça de gendarmes!
………………………………Que prazer teria ela
em fustigar-me
…………………..com flagelos
…………………………………..e pregar-me
…………………………………………………..numa cruz…
E só porque
……………..nas mãos eu tenho
……………………………………..com a foice
……………………………………………………e o martelo
o mais brilhante documento:
…………………………………….Soviétski Soiúz. 1
Os diabos que carreguem,
………………………………..servidores da boçal burocracia,
os papéis
…………..que prescrevestes.
Com os dentes,
………………….como um lobo,
…………………………………….os morderia.
Porém este…
Eu do bolso
……………..saco este
………………………….muito mais que passaporte –
esta carga
……………explosiva
………………………..e elétrica.
Pois leiam,
…………….pelos séculos invejem
…………………………………………minha sorte:
sou cidadão
………………da União Soviética.

1929

rosta6
1 Soviétski Soiúz, transliteração do nome que em russo significa União Soviética. O passaporte equivale na Rússia ao documento de identidade, não só para os deslocamentos internos e externos ao país, como para a identificação em geral. Já existe uma tradução deste poema, por Emílio Carrera Guerra, em Maiacovski, Antologia Poética (Max Limonad, 1987).

СТИХИ О СОВЕТСКОМ ПАСПОРТЕ

Я волком бы
……………….выгрыз
………………………….бюрократизм.
К мандатам
……………….почтения нету.
К любым
…………..чертям с матерями
……………………………………..катись
любая бумажка.
……………………Но эту…
По длинному фронту
……………………………купе
………………………………….и кают
чиновник
…………….учтивый
…………………………движется.
Сдают паспорта,
……………………..и я
………………………….сдаю
мою
…….пурпурную книжицу.
К одним паспортам –
…………………………….улыбка у рта.
К другим –
………………отношение плевое.
С почтеньем
………………..берут, например,
………………………………………..паспорта
с двухспальным
…………………….английским левою.
Глазами
………….доброго дядю выев,
не переставая
………………….кланяться,
берут,
……….как будто берут чаевые,
паспорт
………….американца.
На польский –
…………………..глядят,
…………………………….как в афишу коза.
На польский –
…………………..выпяливают глаза
в тугой
………..полицейской слоновости –
откуда, мол,
……………….и что это за
географические новости?
И не повернув
…………………..головы кочан
и чувств
………….никаких
……………………..не изведав,
берут,
………не моргнув,
………………………паспорта датчан
и разных
…………..прочих
…………………….шведов.
И вдруг,
………….как будто
……………………….ожогом,
…………………………………..рот
скривило
……………господину.
Это
……господин чиновник
……………………………….берет
мою
…….краснокожую паспортину.
Берет –
…………как бомбу,
………………………..берет –
…………………………………..как ежа,
как бритву
………………обоюдоострую,
берет,
……….как гремучую
…………………………..в 20 жал
змею
………двухметроворостую.
Моргнул
………….многозначаще
………………………………глаз носильщика,
хоть вещи
…………….снесет задаром вам.
Жандарм
……………вопросительно
………………………………..смотрит на сыщика,
сыщик
………..на жандарма.
С каким наслажденьем
………………………………жандармской кастой
я был бы
…………..исхлестан и распят
за то,
………что в руках у меня
………………………………..молоткастый,
серпастый
……………..советский паспорт.
Я волком бы
………………..выгрыз
…………………………..бюрократизм.
К мандатам
………………почтения нету.
К любым
…………..чертям с матерями
……………………………………..катись
любая бумажка.
…………………….Но эту…
Я
достаю
…………..из широких штанин
дубликатом
……………….бесценного груза.
Читайте,
…………..завидуйте,
…………………………..я –
……………………………….гражданин
Советского Союза.

1929

……………….~//~

Referências:

AGURSKY, Mikhail. L’ aspect millénariste de La révolution bolchevique. In: Cahiers du monde russe et soviétique, vol. 29, n. 3-4, Juillet-Décembre 1988.

BIÉLI, Andrei. Стихотворения. Москва «книга», 1988.

CAMPOS, Haroldo de; CAMPOS, Augusto de; SCHNAIDERMAN, Boris.  Poesia Russa Moderna. São Paulo: Ed. Perspectiva, 2001.

ETKIND, Aleksandr. Хлыст: Секты, литература и революция. Москва: Новое литературное обозрение, 2013.

LAVUT, Pavel. Маяковский едет по Союзу: воспоминания. Москва: Советская Россия, 1963.

LIÉRMONTOV, Mikhail. Cобрание сочинений в 4 т. T 1. Стихотворения. Издательство Пушкинского Дома, 2014.

MAIAKÓVSKI, Vladímir. Полное собрание сочинений в тринадцати томах. Т.2. Москва: Государственное Издательство Художественной Литературы, 1955.

_____________________ Antologia poética. São Paulo: Max Limonad, 1987.

_____________________ Minha Descoberta da América. São Paulo, 2007.

_____________________ Percevejo, O. São Paulo: Ed. 34, 2012.

_____________________ Vladímir Ílitch Lênin. São Paulo: Anita Garibaldi & Fundação Maurício Grabois, 2012.

_____________________ Облако в штанах. Во весь голос. Люблю. Стихотворения. Поэмы. Пьесы. Cанкт-Петербург: Азбука-Аттикус, 2014.

_____________________ Poemas. São Paulo: Perspectiva, 2017.

MIKHAILOV, Aleksandr. Maiakóvski, o Poeta da Revolução. Rio de Janeiro: Record, 2008.

SCHNAIDERMAN, Boris. Poética de Maiakóvski através de sua Prosa, A. São Paulo: Perspectiva, 1984

 

Briggflatts [trecho], de Basil Bunting

Tradução de Jefferson Dias *

(As the player's breath), from Briggflatts, by Basil Bunting (translation)

* Jefferson Dias (nascido em Monte Sião – MG; vive e trabalha em Ribeirão Preto – SP). Formou-se em Letras pela Universidade Federal de São Carlos. Poeta e prosador, publicou o livro de poemas Último festim (editora Multifoco, 2013); em 2014 teve o poema “Dédalo” publicado na segunda edição da revista “euOnça” (editora Medita). Em 2015 veio a lume seu segundo livro de poesia, Silenciosa maneira, que integra a Coleção Galo Branco da editora Medita (mediante o edital nº 34/2014 do Programa de Ação Cultural “Concurso de apoio a projetos de publicação de livros – coleção de obras inéditas no estado de São Paulo”). Escreveu, ademais, Qualquer lugar (poesia, inédito), Sonata do Diabo (romance, inédito) e trabalha na tradução do poema Briggflatts, de Basil Bunting.

aves(, de e.e. cummings

Tradução de Jefferson Dias *

birds( - e. e. cummings (Translation)

* Jefferson Dias (nascido em Monte Sião – MG; vive e trabalha em Ribeirão Preto – SP). Formou-se em Letras pela Universidade Federal de São Carlos. Poeta e prosador, publicou o livro de poemas Último festim (editora Multifoco, 2013); em 2014 teve o poema “Dédalo” publicado na segunda edição da revista “euOnça” (editora Medita). Em 2015 veio a lume seu segundo livro de poesia, Silenciosa maneira, que integra a Coleção Galo Branco da editora Medita (mediante o edital nº 34/2014 do Programa de Ação Cultural “Concurso de apoio a projetos de publicação de livros – coleção de obras inéditas no estado de São Paulo”). Escreveu, ademais, Qualquer lugar (poesia, inédito), Sonata do Diabo (romance, inédito) e trabalha na tradução do poema Briggflatts, de Basil Bunting.

 

Apenas andando por aí, de John Ashbery

ashbary

 

John Ashbery (1927 – 2017) foi um dos mais conhecidos poetas americanos do século XX. Considerado o principal representante da poesia da chamada “Escola de Nova Iorque”. Seus versos representam em inúmeras vezes o que Ezra Pound nominou de logopeia: jogava com as ideias, antes de qualquer coisa. Ahsbery foi um dos poetas que mais venderam poesia nos Estados Unidos, tendo ganho prêmios importantes como o Pulitzer.

Alguns de seus livros mais celebrados: Self-portrait in a Convex Mirror (1975, ganhador do Prêmio Pulitzer), A Wave (1984, ganhador dos Prêmios Lenore Marshall e Bollingen), Where Shall I Wander (2005) (finalista do Prêmio National Book), Notes from the Air: Selected Later Poems (2007, ganhador do Griffin Poetry Prize).

Faleceu em 3 de setembro de 2017, aos 90 anos de idade.

 

Em relação à tradução, me organizei tentando uma equivalência harmônica entre os quesitos métrica, ritmo e rima, procurando não comprometer o ideal do poeta: um diálogo sustenido e auspicioso, da ideia para a forma, da forma para a essência do eu-lírico.

Mariana Basílio*

 

Apenas andando por aí

Que nome eu tenho para você?
Certamente não há nome para você
No sentido em que estrelas têm nomes
De alguma forma adequados. Apenas andando por aí,

Um objeto de curiosidade para alguns,
Mas você anda muito preocupado
Pela mancha secreta por detrás de sua alma
Para dizer muito e vagar por aí,

Sorrindo para si e para os outros.
Chega a ser meio solitário.
Mas ao mesmo tempo desconcertante.
Contraproducente, como você percebe novamente

Que o caminho mais longo é o mais eficiente,
Aquele que circula entre ilhas, e
Parece sempre percorrer um círculo.
E agora que o fim está próximo

Os gomos da viagem se abrem como uma laranja.
Lá dentro há luz e mistério e comida.
Venha vê-la. Não por mim, mas por ela.
Mas se eu ainda estiver lá, garanto que veremos um ao outro.

**************************************************************

Just walking around

What name do I have for you?
Certainly there is not name for you
In the sense that the stars have names
That somehow fit them. Just walking around,

An object of curiosity to some,
But you are too preoccupied
By the secret smudge in the back of your soul
To say much and wander around,

Smiling to yourself and others.
It gets to be kind of lonely
But at the same time off-putting.
Counterproductive, as you realize once again

That the longest way is the most efficient way,
The one that looped among islands, and
You always seemed to be traveling in a circle.
And now that the end is near

The segments of the trip swing open like an orange.
There is light in there and mystery and food.
Come see it. Come not for me but it.
But if I am still there, grant that we may see each other.

Em: Selected Poems (Carcanet, 1998).

 

*Mariana Basílio nasceu em Bauru, interior de São Paulo, em 1989. Escritora, poeta e tradutora. Licenciada em Pedagogia em 2012, concluiu Mestrado em Educação em 2015 – ambos pela Universidade Estadual Paulista (UNESP).
Dedica-se à área literária desde 2014. Traduzindo diversos autores americanos e latino-americanos, entre eles, Alejandra Pizarnik, Denise Levertov, Edna St. Vincent Millay, Emily Dickinson, May Swenson, Silvina OCampo e Williams Carlos Williams. É colaboradora de portais nacionais e internacionais, escrevendo também ensaios.
Publicou seu primeiro livro de poesia, Nepente, em 2015 (Giostri). O segundo livro de poemas, Sombras & Luzes, dedicado ao poeta português Herberto Helder, foi publicado no Brasil (Penalux, 2016) e em Portugal (prelo, 2018).
Tem publicações de seus poemas em inúmeras revistas nacionais e internacionais.
É vencedora do prêmio ProAC 32/2017 do Governo de São Paulo pelo seu terceiro livro de poesia, Tríptico Vital (prelo, 2018), dedicado à escritora e poeta paulista, Hilda Hilst.
Site para contato: http://www.marianabasilio.com.br

Deto(nação), de Ocean Vuong

Ocean2

DETO(NAÇÃO)
Ocean Vuong
Tradução original de Lidia Rogatto

Nesse janeiro, Ocean Vuong (Saigon, 1988) foi agraciado com o prêmio TS Eliot de literatura pela sua coleção de poemas “Night Sky With Exit Wounds”, ainda sem tradução em português. O prêmio é um reconhecimento de grande prestígio para Vuong, a primeira pessoa de sua família a ser alfabetizada. “Night Sky With Exit Wounds” é o primeiro livro do poeta, que já foi comparado pela crítica com Emily Dickinson graças à sua precisão, e com Gerard Manley Hopkins graças à sua “apreciação pelo som e o ritmo das palavras”. No poema abaixo, vemos um pequeno exemplar da voz de Vuong, em um poema que reflete com maestria sobre o carma relacionado às gerações passadas e sua própria perspectiva do mundo, sempre com uma pincelada de mistério.

Deto(nação)

Há uma piada que termina com – hã?
É a bomba dizendo aqui está seu pai.

Aqui está seu pai, agora dentro
de seus pulmões. Olhe como a terra

é mais leve – depois.
Até mesmo escrever pai

é esculpir uma parte do dia
de uma página que brilha feito uma bomba.

Há luz suficiente para se afogar
mas nunca o suficiente para penetrar os ossos

e lá permanecer. Não fique aqui, ele disse, meu menino
quebrado pelos nomes das flores. Não chore

mais. Então eu corri. Eu me deparei com a noite.
A noite: minha sombra crescendo

em direção ao meu pai

Deto(nation)

There’s a joke that ends with – huh?
It’s the bomb saying here is your father.

Now here is your father inside
your lungs. Look how lighter

the earth is – afterward.
To even write father

is to carve a portion of the day
out of a bomb-bright page.

There’s enough light to drown in
but never enough to enter the bones

& stay. Don’t stay here, he said, my boy
broken by the names of flowers. Don’t cry

anymore. So I ran. I ran into the night.
The night: my shadow growing

toward my father

 

Scheherazade, de Haruki Murakami

murakami

Tradução: Gabriela de Oliveira, a partir da tradução de Ted Goossen do original em japonês para o inglês.

Toda vez depois que faziam amor, ela contava a Habara uma história atraente e peculiar. Era como a Rainha Scheherazade em “Mil e uma noites”. Embora fosse certo que Habara, diferente do rei, não tivesse planos de decapitá-la na manhã seguinte. (De qualquer forma, ela nunca ficava com ele até de manhã.) Ela contava histórias a Habara porque assim gostava, porque, ele imaginava, ela gostava de se enrolar na cama e conversar com um homem durante esses momentos íntimos, lânguidos, depois do sexo. E também, provavelmente, porque queria animar Habara, que tinha de passar o dia preso em casa.

Por conta disso, Habara a chamara de Scheherazade. Ele nunca havia se dirigido a ela como tal, mas era esse o nome que usava num pequeno diário que mantinha. “Scheherazade veio hoje”, escreveria com a caneta esferográfica. Em seguida, registraria os principais acontecimentos daquele dia em termos simples e obscuros que, com toda certeza, confundiriam qualquer um que tentasse ler.

Habara não sabia quais histórias eram verdadeiras, inventadas, ou meio verdadeiras e meio inventadas. Ele não sabia diferenciar. Realidade e invenção, observação e pura extravagância pareciam coexistir nas narrativas dela. Habara por essa razão divertia-se como uma criança, sem questionar muito. Qual diferença faria, no final das contas, se eram mentira ou verdade, ou uma complexa junção das duas?

Em qualquer caso, Scheherazade tinha o dom de contar histórias que tocavam o coração. Seja lá qual fosse a história, ela a tornava especial. Sua voz, seu ritmo, seu compasso, eram primorosos. Ela sabia capturar a atenção do ouvinte, atormentava-o, levava-o a pensar e questionar, e então, no final, dava a ele justamente o que vinha procurando. Maravilhado, Habara era capaz de esquecer a realidade à sua volta, nem que fosse por um momento. Assim como um quadro negro sendo apagado com um pano úmido, suas preocupações e lembranças ruins eram apagadas. O que tinha para perder? Nessa altura da vida, esse tipo de esquecimento era o que Habara mais desejava no mundo.

Scheherazade tinha trinta e cinco anos, quatro anos mais velha que Habara, e era dona de casa em tempo integral, com dois filhos frequentando a escola primária (apesar de ela também ser uma enfermeira por profissão e ser convocada para trabalhar ocasionalmente). Seu marido era um típico homem de negócios. Sua casa ficava há vinte e cinco minutos da de Habara. Isso era tudo (ou quase tudo) das informações pessoais que ela havia dado. Habara não tinha como verificar nenhuma delas, mas imaginava não haver motivos para duvidar. Ela nunca revelara o nome. “Não tem por que você saber, certo?” Scheherazade perguntou. Nunca havia chamado Habara pelo nome, embora fosse claro que o soubesse. Cuidadosamente, ela evitava se dirigir a ele pelo nome, como se aquilo não fosse apropriado ou desse azar.

Na aparência, pelo menos, esta Scheherazade não tinha nada a ver com a bela rainha de “Mil e uma noites”. Ela caminhava para a meia-idade e já se tornava flácida, com papadas e linhas de expressão no canto dos olhos. Seu cabelo, maquiagem, e roupas não eram exatamente desleixados, porém nada era digno de elogios. Seus traços não eram pouco atraentes, mas seu rosto parecia desfocado, passando a impressão de que ela nunca estava nítida. Como consequência, aqueles que passavam por ela na rua, ou estavam no mesmo elevador, provavelmente pouco a notavam. Dez anos atrás, ela poderia ter sido uma jovem mulher, atraente e vigorosa, talvez até fizesse uns homens virarem para ao passar. Porém, numa certa altura, as cortinas do palco se fecharam de modo que nunca mais abriram.

Scheherazade ia ver Habara duas vezes na semana. Seus dias não eram fixos, mas ela nunca vinha nos finais de semana. Não havia dúvida de que passava esse tempo com a família. Ela sempre telefonava uma hora antes de chegar. Comprava mantimentos no supermercado mais próximo e os trazia no porta-malas de seu carro, um pequeno Mazda azul. Era um modelo mais antigo, com o para-choque traseiro amassado e as rodas pretas de sujeira. Ao estacionar na vaga em frente a casa, ela carregava as sacolas até a porta da frente e tocava a campainha. Depois de espiar pelo olho mágico, Habara abria a fechadura, tirava a corrente, e a deixava entrar. E então ela fazia uma lista de compras para sua próxima visita. Ela executava estas tarefas habilmente, quase não desperdiçando movimentos, e falando pouco.

Uma vez que ela terminava, os dois iam em silêncio para o quarto, como se carregados por uma corrente invisível. Scheherazade rapidamente tirava as roupas e, ainda em silêncio, deitava-se na cama ao lado de Habara. Ela mal falava durante o sexo, e também desempenhava cada função como se estivesse realizando uma tarefa. Quando estava menstruada, costumava usar a mão para conclui-la. Seu jeito um tanto pragmático lembrava Habara que ela era uma enfermeira.

Depois do sexo, eles permaneciam deitados e conversavam. Na verdade, ela falava e ele ouvia, acrescentando uma palavra aqui, uma pergunta ali. Quando o relógio batia às quatro e meia, ela interrompia a história (por alguma razão, sempre parecia ter acabado de atingir o clímax), pulava da cama, vestia-se, e se preparava para ir embora. Tinha que ir para casa preparar o jantar, dizia.

Habara a observava da porta, colocava a corrente no lugar, e via através das cortinas o carrinho azul encardido distanciar-se. Às seis em ponto, preparava um jantar simples e comia sozinho. Ele havia trabalhado como cozinheiro uma vez, de forma que preparar um prato não era um problema. Bebia um Perrier enquanto comia (nunca havia colocado uma gota de álcool na boca) e, em seguida, uma xícara de café, que bebericava assistindo um DVD ou lendo. Ele gostava de livros longos, principalmente aqueles que exigiam várias leituras para serem entendidos. Não tinha muita coisa para fazer. Ninguém para conversar. Não assinava nenhum jornal e nunca assistia televisão. (Tinha boas razões para isso.) Era óbvio que não podia sair de casa. Se as visitas de Scheherazade cessassem por alguma razão, seria deixado sozinho.

Habara não se preocupava muito com esta hipótese. Se acontecesse, pensava ele, seria difícil, mas vou sobreviver de um jeito ou de outro. Não estou preso numa ilha deserta. Não, ele pensou, eu sou uma ilha deserta. Ele sempre esteve confortável em sua própria companhia. O que o incomodava, no entanto, era a ideia de não poder conversar na cama com Scheherazade. Ou, mais precisamente, de perder o próximo desdobramento de sua história.

“Eu fui uma lampreia numa vida passada,” Scheherazade disse uma vez, enquanto estavam deitados juntos na cama. Foi um comentário simples e direto, tão inesperado quanto se ela dissesse que o Polo Norte ficava no extremo norte. Habara não tinha ideia de que tipo de criatura era uma lampreia, muito menos de como ela se parecia. Então não emitiu nenhuma opinião.

“Você sabe como uma lampreia come uma truta?” ela perguntou.

Não sabia. Na verdade, era a primeira vez que ouvia que lampreias comiam trutas.

“Lampreias não têm mandíbulas. É isso que as separa das outras enguias.”

“Ãhn? Enguias têm mandíbulas?”

“Você já prestou atenção em uma?” disse, surpresa.

“Claro que eu como enguia de vez em quando, mas nunca tive a oportunidade de ver suas mandíbulas.”

“Bem, você deve conferir, qualquer dia. Vá até o aquário ou um lugar parecido. As enguias normalmente têm mandíbulas cheias de dentes. Mas as lampreias possuem apenas ventosas, pelas quais ficam presas nas rochas no fundo do rio ou do lago. Assim elas meio que só flutuam, balançando pra frente e pra trás, feito algas.”

Habara imaginou várias lampreias balançando feito algas no fundo de um lago. A cena pareceu fora da realidade, embora ele soubesse que a realidade às vezes pudesse ser terrivelmente irreal.

“Lampreias vivem desse jeito, escondidas entre as algas. À espreita. Então, quando uma truta passa por cima delas, elas se atiram como um dardo e prendem-se nela com as ventosas. Dentro de suas ventosas existem umas ‘línguas’ cheias de dentes, que ficam se esfregando na barriga da truta até que um buraco se abra e elas possam começar a comer a carne, pedaço por pedaço.”

“Eu não gostaria de ser uma truta,” disse Habara.

“Na Roma Antiga, criavam lampreias nos lagos. Escravos insolentes eram jogados lá dentro e as lampreias os comiam vivos.”

Habara pensou que tão pouco gostaria de ser um escravo romano.
“A primeira vez que vi uma lampreia foi no ensino primário, na excursão para o aquário,” Scheherazade disse. “Na hora que li a descrição de como elas viviam, soube que tinha sido uma na minha vida passada. Digo, eu conseguia de fato lembrar – de estar presa numa rocha, balançando invisível em meio às algas, observando a truta gorda nadando em cima de mim.”

“Você consegue se lembrar comendo elas?”

“Não, não consigo.”

“É um alívio,” Habara disse. “Mas isso é tudo que você lembra de sua vida como lampreia – de balançar de um lado pro outro no fundo de um rio?”

“Uma vida passada não pode ser lembrada tão facilmente,” ela disse. “Se você tiver sorte, consegue um vislumbre de como era. É como dar uma espiada num buraquinho da parede. Você consegue lembrar de alguma das suas vidas passadas?”

“Não, de nenhuma,” disse Habara. Verdade seja dita, ele nunca sentiu vontade de revisitar sua vida passada. Suas mãos já estavam cheias da vida presente.

“Ainda assim, o fundo do rio parecia bem limpo. De cabeça pra baixo, com a minha boca presa na rocha, observando os peixes passando por cima de mim. Eu vi uma tartaruga bem grande e ligeira uma vez; também, uma figura preta enorme passava, parecia a nave maligna em ‘Star Wars.’ E grandes pássaros brancos de bicos longos e afiados; olhando de baixo, pareciam nuvens brancas flutuando no céu.”

“E você consegue ver tudo isso agora?”

“É claro,” Scheherazade disse. “A luz, o fluxo da água, tudo. Às vezes até consigo voltar pra lá na minha cabeça.”

“Para o lugar que você estava imaginando?”

“Uhum.”

“O que as lampreias pensam?”

“Lampreias têm pensamentos típicos de lampreias. Sobre tópicos típicos de lampreias num contexto tipicamente de lampreias. Não existem palavras para esses pensamentos. Eles pertencem ao mundo das águas. É como quando estávamos no útero. Pensávamos coisas lá dentro, mas não podemos expressar esses pensamentos na linguagem que usamos aqui fora. Certo?”

“Espere aí! Você consegue se lembrar de como era dentro do útero?”

“Claro,” Scheherazade disse, levantando a cabeça para vê-lo de cima do seu peito.
“Você não?”
Não, ele disse. Ele não conseguia.

“Então uma hora te conto. Sobre como é a vida no útero.”

“Scheherazade, Lampreia, Vidas Passadas” era o que Habara registraria em seu diário naquele dia. Ele duvidava que alguém, ao se deparar com aquilo, adivinhasse o significado daquelas palavras.

Habara encontrara Scheherazade pela primeira vez quatro meses atrás. Ele havia sido transportado para esta casa, numa província ao norte de Tóquio, e ela havia sido designada sua “pessoa de contato”. Uma vez que não podia sair de casa, o papel dela era comprar comida e outros mantimentos e trazê-los para casa. Ela também se responsabilizava pelos livros e revistas que ele desejasse ler, e quaisquer CDs que viesse a querer ouvir. Além disso, ela escolhia uma grande variedade de DVDs – apesar de ele já ter se recusado em aceitar seus critérios de seleção.

Uma semana depois de ter chegado, como se fosse previsto, Scheherazade o levou para cama. Havia camisinhas no criado-mudo quando ele chegou. Habara achou que o sexo fosse uma de suas funções atribuídas – ou talvez “atividades de apoio” era o termo que usavam. Seja lá qual fosse o termo, e qual fosse a motivação dela, ele seguia o fluxo e aceitava sua proposta sem hesitar.

O sexo não era exatamente obrigatório, mas não se podia dizer que seus corações estivessem inteiramente ali. Ela parecia estar sempre alerta, para que não se entusiasmassem muito – assim como um instrutor de carros não gostava que seus alunos ficassem muito empolgados dirigindo. Mesmo assim, embora não se pudesse dizer que havia paixão, não era possível dizer que fosse totalmente um negócio. Provavelmente começou com uma obrigação (ou, pelo menos, como algo fortemente encorajado), mas num certo momento ela pareceu – mesmo que um pouco – ter encontrado prazer naquilo. Habara podia falar pelas formas sutis do corpo dela responder, uma resposta que também o deliciava. Afinal de contas, ele não era um animal selvagem preso numa jaula, mas um ser humano munido de sua própria gama de emoções, e fazer sexo apenas tendo em vista o prazer não lhe satisfazia tanto. Ainda assim, até que ponto Scheherazade via a relação entre eles como sendo uma de suas obrigações, e quanto dessa relação pertencia à esfera da sua vida pessoal? Ele não conseguia dizer.

Isso também acontecia em outras situações. Habara sempre achou os sentimentos e intenções de Scheherazade muito difíceis de interpretar. Por exemplo, ela costumava usar calcinhas de algodão lisas. O tipo de calcinhas que geralmente apenas donas de casa em seus trinta anos usavam – apesar de ser pura especulação, uma vez que ele nunca teve experiência com donas de casa dessa idade. Às vezes, no entanto, ela aparecia usando calcinhas de seda coloridas e cheias de babados. O motivo de ela optar por uma ou por outra era um mistério.

Outra coisa que o intrigava era o fato de a relação deles e as histórias que ela contava serem profundamente conectadas, tornando difícil dizer onde uma coisa acabava e a outra, começava. Ele nunca tinha vivenciado nada parecido: embora não a amasse, e o sexo fosse mediano, ele encontrava-se fortemente conectado a ela fisicamente. Era tudo muito confuso.

“Eu era adolescente quando comecei a invadir casas vazias,” disse ela, certo dia, quando estavam deitados na cama.

Habara – assim como toda vez que ela lhe contava histórias – ficou perplexo.

“Você já invadiu a casa de alguém?” perguntou.

“Acho que não,” ele respondeu, inexpressivo.

“Uma só vez e você fica viciado.”

“Mas é ilegal.”

“Pode acreditar. É perigoso, mas ainda assim vicia.”

Habara esperou em silêncio até que ela continuasse.

“A melhor coisa de se estar na casa de um estranho quando não tem ninguém,” Scheherazade disse, “é o silêncio. Nenhum barulho. Parece o lugar mais quieto do mundo. Ou foi isso que me pareceu. Quando eu sentei no chão e fiquei absolutamente imóvel, minha vida como lampreia voltou. Eu te contei sobre ter sido uma lampreia numa vida passada, não é?”

“Sim, contou.”

“Foi exatamente assim. Minhas ventosas presas na rocha, embaixo da água, e meu corpo balançando de um lado pro outro, como as algas à minha volta. Tudo tão silencioso. Mas talvez seja porque eu não tivesse ouvidos. Nos dias de sol, a luz penetrava a superfície como uma lança. Peixes de todas as cores e formas perambulavam acima. E minha mente estava vazia. Vazia de pensamentos que não eram tipicamente de lampreias, eu digo. Estes eram nebulosos mas bem puros. Era um lugar maravilhoso de se ficar.”

A primeira vez que Scheherazade invadiu a casa de um estranho, ela contou, foi durante o ensino médio, quando estava muito a fim de um garoto da sua sala. Embora não fosse exatamente bonito, ele era alto e polido, além de ser um bom aluno que jogava no time de futebol, e ela estava fortemente atraída por ele. Mas parecia que ele gostava de outra garota da sala e mal notava Scheherazade. Na verdade, era provável que ele nem soubesse de sua existência. Mesmo assim, ela não conseguia tirá-lo da cabeça. Era só vê-lo que ficava sem ar; algumas vezes ela sentia como se fosse vomitar. Se não fizesse algo a respeito, pensou, acabaria enlouquecendo. Mas confessar seu amor estava fora de questão.
Certo dia, Scheherazade matou aula e foi até a casa do garoto. Ficava a mais ou menos quinze minutos da sua casa. De antemão, procurara saber sobre a família dele. Sua mãe ensinava japonês numa escola na cidade vizinha. Seu pai, que trabalhava numa empresa de cimento, tinha morrido num acidente de carro uns anos atrás. Sua irmã estava no ensino médio. Isso significava que a casa ficava vazia durante o dia.
Naturalmente, a porta da frente estava trancada. Scheherazade procurou por uma chave embaixo do tapete. Como esperado, encontrou uma. Bairros residenciais tranquilos de cidades provincianas como aquela tinham um baixo índice de criminalidade, e uma chave extra era deixada com frequência embaixo de um tapete ou num vaso de planta.
Por precaução, Scheherazade tocou a campainha, esperou para ter certeza que ninguém atenderia, certificou-se de que não estava sendo observada, e entrou. Novamente, trancou a porta por dentro. Tirou os sapatos, colocou-os num saco plástico e depois na mochila que levava nas costas. E então, na ponta dos pés, subiu a escada até o segundo andar.

O quarto dele estava lá, como imaginado. Sua cama havia sido cuidadosamente feita. Na estante de livros tinha um pequeno aparelho de som, com alguns CDs. Na parede, um calendário com uma foto do time de futebol de Barcelona e, do lado, o que pareceu ser um cartaz do time, mas nada a mais. Nenhum pôster, nada de fotografias. Apenas uma parede cor de creme. Uma cortina branca na janela. O quarto estava limpo, tudo em seu devido lugar. Nenhum livro esparramado, nenhuma roupa jogada no chão. O quarto era a prova de como seu dono era cuidadoso. Ou também de como sua mãe mantinha uma casa perfeita. Ou os dois. Scheherazade estremeceu. Se o quarto fosse mais bagunçado, ninguém notaria qualquer intervenção que ela fizesse. Mas, ao mesmo tempo, a limpeza e a simplicidade do quarto, sua perfeita organização, a deixavam feliz. Era tudo tão parecido com ele.

Scheherazade sentou-se na cadeira da escrivaninha e ficou lá por um tempo. É aqui que ele estuda toda noite, ela pensou, seu coração acelerado. Pegou os objetos da escrivaninha um por um, brincou com eles, os cheirou, colocou-os dentre os lábios. Seus lápis, sua tesoura, sua régua, seu grampeador – os objetos mais mundanos tornaram-se, de alguma maneira, um pouco mágicos por pertencerem a ele.

Ela abriu as gavetas da escrivaninha e cuidadosamente analisou o seu conteúdo. A primeira gaveta era dividida em compartimentos, cada qual contendo uma pequena bandeja com objetos e souvenires espalhados. A segunda gaveta era, em grande parte, ocupada por cadernos das aulas que ele tinha no momento, enquanto a última (a mais funda) era repleta de papéis, provas e cadernos velhos. Quase tudo tinha a ver com a escola ou com o futebol. Ela torcia para deparar-se com algo íntimo – um diário, talvez, ou cartas – mas a escrivaninha não guardava nada do tipo. Nem mesmo uma fotografia. Scheherazade estranhou. Ele não tinha vida fora da escola ou do futebol? Ou escondia com cuidado tudo que era pessoal, num lugar que ninguém pudesse encontrar?

Mesmo assim, só de sentar na escrivaninha e observar a caligrafia dele, Scheherazade ficava inquieta. Para acalmar-se, ela deixava a cadeira e sentava no chão. Ela olhava para o teto. O silêncio ao seu redor era absoluto. Dessa maneira, retornava ao mundo das lampreias.

“Então tudo o que fez,” Habara perguntou, “foi entrar no quarto dele, mexer em suas coisas, e sentar no chão?”

“Não,” Scheherazade disse. “Tem mais. Eu queria algo dele pra levar para casa. Algo que ele usasse todos os dias ou que ficasse perto de seu corpo. Mas não podia ser algo importante que ele desse falta. Então eu roubei um de seus lápis.”

“Um único lápis?”

“Sim. Um que ele estivesse usando. Mas roubar não era o suficiente. Faria disso tudo um simples caso de roubo. O fato de eu ter roubado seria inútil. Eu era a Ladra do Amor no final das contas.”

A Ladra do Amor? Para Habara, soava como o título de um filme mudo.

“E então eu decidi deixar algo no lugar, algum sinal. Como prova de que eu havia estado lá. Uma demonstração de que era algo em troca, não um simples roubo. Mas o que seria? Não consegui pensar em nada. Vasculhei minha mochila e meus bolsos, mas não encontrava nada apropriado. Me culpei por não ter pensado em trazer alguma coisa adequada. Por fim, decidi deixar um tampão. Um não usado, é claro, ainda dentro da embalagem. Minha menstruação se aproximava, de modo que eu o carregava por precaução. Eu escondi bem no fundo da última gaveta, onde seria difícil encontrar. Isso me deixou muito excitada. Só de ter um tampão meu escondido na gaveta da escrivaninha dele. Talvez fosse porque eu estava tão excitada que a minha menstruação começou quase que imediatamente após o ocorrido.

Um tampão por um lápis, Habara pensou. Era possível que fosse o que ele escreveria em seu diário naquele dia: “Ladra do Amor, Lápis, Tampão.” Ele queria saber o que pensariam disso!

“Fazia quinze minutos mais ou menos que eu estava lá. Não consegui ficar mais tempo que isso: era minha primeira vez invadindo uma casa, e eu temia que alguém aparecesse enquanto estava lá dentro. Observei a rua para ver se o caminho estava livre, deslizei pela porta, a tranquei, e coloquei a chave de volta embaixo do tapete. Depois fui para a escola. Carregando o meu precioso lápis.”

Scheherazade ficou em silêncio. Pelo jeito, ela havia voltado no tempo e imaginava várias coisas que aconteceram depois, uma por uma.

“Aquela semana foi a mais feliz da minha vida,” disse, depois de uma pausa. “Rabisquei coisas aleatórias no meu caderno usando o lápis dele. Eu o cheirei, beijei, esfreguei na minha bochecha, rolei entre os meus dedos. Às vezes até prendia na boca e chupava. Claro, me doía o fato de que quanto mais eu escrevia, menor ficava, mas eu não podia evitar. Se ficasse muito pequeno, pensei, eu poderia sempre voltar e pegar outro.
Havia vários lápis usados no porta-lápis da escrivaninha dele. Ele não daria falta de um. E provavelmente ele ainda não achara o tampão escondido em sua gaveta. Essa ideia me excitava de um jeito – me dava umas cócegas estranhas lá embaixo. Não me incomodava mais que na realidade ele nem sequer olhasse para mim ou demonstrasse saber de minha existência. Porque, secretamente, eu possuía algo dele – uma parte dele, de certo modo.”

Dez dias depois, Scheherazade matou aula outra vez e fez uma segunda visita à casa do garoto. Eram onze em ponto da manhã. Assim como antes, ela pegou a chave debaixo do tapete e abriu a porta. Novamente, o quarto dele encontrava-se em perfeita ordem. Primeiro, ela escolheu um lápis bastante usado e cuidadosamente o guardou em seu estojo. Depois, com mesma cautela, deitou na cama dele, suas mãos apertavam os seios, e ela mirava o teto. Esta era a cama que ele dormia toda noite. Esse pensamento fez seu coração acelerar, e ela encontrou dificuldade em respirar. Seus pulmões estavam sem ar e sua garganta ficou completamente seca, fazendo cada tentativa de respirar algo doloroso.

Scheherazade desceu da cama, alisou o cobre-leito, e sentou no chão, como na primeira visita. Mirou o teto outra vez. Não estou pronta pra cama dele, disse para si mesma. É muito pra mim.

Desta vez, Scheherazade passou meia-hora na casa. Ela tirou os cadernos dele da gaveta e ficou olhando para eles. Encontrou um relatório e leu. Era sobre “Kokoro”, um romance de Soseki Natsume, a tarefa de leitura daquelas férias de verão. Ele tinha uma linda caligrafia, do tipo que se espera de um aluno aplicado, nenhum erro ou desleixo em nenhum canto. A nota dada era “Excelente”. Qual outra seria? Qualquer professor ao deparar-se com uma caligrafia tão perfeita automaticamente lhe atribuiria um “Excelente”, quer lesse uma única linha quer não.

Scheherazade avançou para a cômoda, examinando o conteúdo todo em ordem. As cuecas e as meias dele. Camisas e calças. O uniforme de time. Tudo dobrado perfeitamente. Nada manchado ou desgastado. Ele quem dobrara? Ou, mais provável, sua mãe fizera? Ela sentia uma ponta de inveja da mãe dele, que podia fazer estas coisas para ele a todo e qualquer instante.

Scheherazade inclinou-se e sentiu o cheiro das roupas nas gavetas. Todas pareciam ter acabado de serem lavadas e secadas ao sol. Ela pegou uma camiseta cinza e lisa, desdobrou-a, e a pressionou contra seu rosto. Não haveria restado um pouco de seu suor embaixo dos braços? Não sentiu nada. Não obstante, a pressionou por algum tempo, cheirando. Queria pegar a camiseta para si. Mas seria muito arriscado. As roupas dele eram meticulosamente arrumadas e mantidas. Ele (ou sua mãe) provavelmente sabia o número exato de camisetas dentro da gaveta. Se uma faltasse, seria um deus-nos-acuda. Scheherazade, com cautela, dobrou a camiseta e a colocou de volta em seu devido lugar. Em troca, pegou uma pequena medalha, no formato de uma bola de futebol, que encontrou em uma das gavetas da escrivaninha. Parecia pertencer aos tempos da escola primária. Ela temia que ele desse falta. Pelo menos, demoraria um pouco para ele perceber que tinha desaparecido. Enquanto estava na escrivaninha, verificou o fundo da gaveta procurando pelo tampão. Ainda estava lá.

Scheherazade tentou imaginar o que aconteceria se a mãe dele encontrasse o tampão. O que ela pensaria? Exigiria uma explicação de porque diabos havia um tampão na escrivaninha dele? Ou ela manteria a descoberta em segredo, remoendo suas tenebrosas suspeitas? Afinal de contas, havia sido seu primeiro objeto dado em troca.
Para comemorar sua segunda visita, Scheherazade deixou para trás três fios do cabelo dela. Na noite anterior, ela tinha os arrancado, os guardado num plástico, e selado num pequeno envelope. Agora ela tirava o envelope de sua mochila e o enfiava dentro de um de seus velhos cadernos de matemática que estava na gaveta. Os três fios eram lisos e pretos, nem tão longos nem tão curtos. Ninguém saberia de quem seriam sem um teste de DNA, embora eles pertencessem claramente a uma garota.

Ela foi da casa dele direto para a escola, chegando a tempo para a primeira aula da tarde. Mais uma vez, ficou contente por uns dez dias. Sentiu que ele pertencia mais a ela. Mas, como esperado, esta sucessão de acontecimentos não terminaria sem algum incidente. Porque, como Scheherazade dissera, invadir a casa de um estranho era extremamente viciante.

Nesta altura da história Scheherazade deu uma espiada no relógio ao lado da cama e viu que eram 4h32 da tarde. “Tenho que ir,” ela disse, de si para si. Pulou da cama e vestiu sua calcinha branca e lisa e o sutiã, deslizou dentro da calça jeans, e colocou seu moletom azul-marinho da Nike. Depois lavou as mãos no banheiro, penteou os cabelos, e foi embora em seu Mazda azul.

Ao ser deixado sozinho e sem nada para fazer, Habara deitou na cama e ficou ruminando a história que ela tinha acabado de contar, saboreando-a pedaço por pedaço, como uma vaca mastigando o alimento regurgitado. Onde isso acabaria? Perguntou-se. Assim como todas as histórias dela, ele não fazia ideia. Achava difícil imaginar Scheherazade como uma estudante do colegial. Ela era mais magra nesse tempo, sem a flacidez de hoje? O uniforme escolar, as meias brancas, o seu cabelo em tranças?

Ele ainda não tinha fome, de modo que deixou o jantar de lado e voltou para o livro que estava lendo, apenas para descobrir que não conseguia se concentrar. A imagem de Scheherazade entrando no quarto de seu colega de sala e afundando o rosto na camisa dele ainda estava fresca na cabeça. Ele estava impaciente para ouvir o que aconteceu em seguida.

A próxima visita de Scheherazade aconteceria em três dias, depois de passado o final de semana. Como sempre, ela chegou carregando grandes sacos de papel cheios de mantimentos. Analisou a comida que estava na geladeira, repondo aquilo que passara da data de validade, examinou os enlatados e as garrafas do armário, checou a quantidade de condimentos e temperos para ver se estavam acabando, e escreveu uma lista de compras. Ela colocou algumas garrafas de Perrier na geladeira para gelarem. Por fim, empilhou na mesa os novos livros e DVDs que trouxera.

“Tem mais alguma coisa que você precise ou queira?”

“Não consigo pensar em nada,” Habara respondeu.

Então, como de costume, os dois foram para cama e transaram. Depois de uma boa quantidade de preliminares, ele colocou a camisinha, a penetrou, e, após um bom tempo, ejaculou. Depois de analisar cuidadosamente o conteúdo da camisinha, Scheherazade começou a contar o último desdobramento de sua história.

Ela tinha perdido todo o interesse nos trabalhos escolares. Na aula, ou ela perdia tempo com a medalha e o lápis ou caía em devaneios. Quando voltou para casa, não tinha condições mentais de resolver seu dever de casa. As notas de Scheherazade nunca tinham sido um problema. Ela não era uma das melhores alunas, mas uma garota séria que sempre fazia suas tarefas. Por isso, quando o professor lhe fez uma pergunta durante a aula e ela viu-se incapaz de dar uma resposta adequada, ele ficou mais surpreso do que enfurecido. Eventualmente, ele a chamou para sua sala durante o intervalo. “O que há de errado?” perguntou. “Tem alguma coisa te incomodando?” Ela só conseguiu murmurar vagamente qualquer coisa sobre não estar se sentindo bem. Seu segredo era muito sério e tenebroso para ser revelado a alguém – ela precisava aguentá-lo sozinha.

“Eu tive que invadir a casa dele,” Scheherazade disse. “Fui levada a isso. Como você pode imaginar, era bastante arriscado. Até eu sabia disso. Mais cedo ou mais tarde, alguém me encontraria lá, e chamariam a polícia. A ideia me fez tremer nas bases. Mas não tinha mais volta, não conseguia parar. Dez dias depois da minha segunda ‘visita,’ voltei pra lá de novo. Eu não tive escolha. Senti que se não fizesse, enlouqueceria. Quando olho pra trás, vejo que realmente eu era um pouco louca.”

“Isso não te causou problemas na escola, matar aula tantas vezes?” Habara perguntou.

“Meus pais tinham o seu próprio negócio, por isso estavam muito ocupados para prestar atenção em mim. Eu nunca tinha causado problemas até então, nunca tinha desafiado a autoridade deles. De modo que acharam melhor se retirarem. Falsificar as notas era fácil. Expliquei para o professor representante da minha turma que eu tinha um problema de saúde que me fazia passar metade do dia no hospital de tempos em tempos. Uma vez que os professores estavam quebrando a cabeça para saber o que fazer com os alunos que não iam para a escola há séculos, não se incomodaram com o fato de eu ter de passar metade do dia fora de vez em quando.”

Scheherazade olhou rapidamente para o relógio ao lado da cama antes de continuar.

“Peguei a chave embaixo do tapete e entrei na casa pela terceira vez. Estava tão silenciosa quanto antes – não, ainda mais silenciosa por alguma razão. Tremi quando ouvi a geladeira ligando – parecia um monstro enorme respirando fundo. O telefone tocou enquanto eu estava lá. O toque era tão alto e áspero que pensei que meu coração ia parar. Estava coberta de suor. Ninguém atendeu, é claro, e ele parou depois de ter tocado umas dez vezes. E então a casa ficou ainda mais silenciosa.

Naquele dia, Scheherazade passou um bom tempo espreguiçando-se na cama dele. Desta vez seu coração não bateu tão rápido, e ela pôde respirar normalmente. Ela conseguiu imaginá-lo dormindo tranquilamente ao seu lado, e até mesmo sentir como se o observasse dormindo. Sentiu que, se ela se esticasse, poderia roçar no braço musculoso dele. Ele não estava seu lado, obviamente. Ela encontrava-se apenas imersa em devaneios.

Sentiu um desejo avassalador de cheirá-lo. Ao levantar da cama, andou até a cômoda dele, abriu uma gaveta, e examinou as camisas de dentro. Todas haviam sido lavadas e cuidadosamente dobradas. Estavam impecáveis, e cheirosas, como antes.

E então ela teve uma ideia. Desceu correndo as escadas até o primeiro andar. Lá, no quarto próximo ao banheiro, encontrou um cesto de roupas e removeu a tampa. As roupas sujas de toda família – mãe, filha, e filho – estavam misturadas. Roupas acumuladas de um dia inteiro, era o que parecia. Scheherazade tirou uma peça de roupa masculina. Uma camiseta branca de gola redonda. Deu uma cheirada. O cheiro inconfundível de um rapaz. Um cheiro úmido que ela já conhecia, de quando seus colegas se aproximavam. Nada de excepcional, é claro. Mas o fato de o cheiro ser dele deixou Scheherazade extremamente feliz. Quando colocou o nariz perto das axilas e inalou, sentiu como se o abraçasse, seus braços apertados em volta dela.

Com a camiseta na mão, Scheherazade subiu as escadas para o segundo andar e mais uma vez deitou na cama dele. Enterrou o rosto em sua camisa e aspirou avidamente. Dessa vez, conseguiu sentir uma volúpia nas partes íntimas. Seus mamilos estavam intumescidos também. Estaria perto de menstruar? Não, ainda estava bem longe. Era desejo sexual? Se era, o que poderia fazer a respeito? Não tinha ideia. Entretanto, uma coisa era certa – não havia nada a ser feito diante destas circunstâncias. Não aqui no quarto dele, em sua cama.

No fim, Scheherazade decidiu levar a camisa para casa. Era arriscado, claro. A mãe dele era do tipo que perceberia uma camisa faltando. Mesmo se ela não adivinhasse que tinha sido roubada, ela ainda ficaria se perguntando para onde tinha ido. Qualquer mulher que deixasse a casa brilhando daquele jeito era certamente uma maníaca por limpeza de primeira mão. Quando algo ficava faltando, ela revirava a casa procurando, como um cão farejador, até encontrar. Sem dúvidas, ela descobriria os rastros de Scheherazade no quarto de seu amado filhinho. Mas, mesmo Scheherazade sabendo disso, ela não queria deixar a camisa. O seu cérebro era impotente para persuadir seu coração.

Ao invés disso, ela começou a pensar no que deixar para trás. Sua calcinha parecia a melhor escolha. Era uma calcinha comum, simples, relativamente nova, e havia sido vestida naquela manhã. Ela poderia escondê-la bem no fundo de seu guarda-roupa. Haveria coisa melhor para deixar em troca? Mas, quando a tirou, o tecido estava úmido. Acho que isso tem a ver com o desejo, também, ela pensou. Não adiantaria deixar no quarto dele algo manchado de gozo. Seria uma humilhação para ela. Vestiu-a de volta e começou a pensar em outra coisa para deixar.

Scheherazade interrompeu a história. Por um longo tempo, não disse uma palavra. Deitou de olhos fechados e respirou tranquilamente. Ao seu lado, Habara fez o mesmo, esperando que ela retomasse.

Por fim, ela abriu os olhos e falou. “Ei, senhor Habara,” disse. Foi a primeira vez que ela se dirigiu a ele pelo nome.

Habara olhou para ela.

“Você acha que podemos fazer mais uma vez?”

“Acho que consigo,” ele disse.

E então transaram novamente. Esta vez, no entanto, foi muito diferente da outra. Violento, apaixonado, e extenuante. Não havia dúvidas de que ela atingira o clímax no fim. Uma série de fortes contrações que a deixaram tremendo. Até mesmo seu rosto estava transformado. Para Habara, era como ter um vislumbre da jovem Scheherazade: a mulher em seus braços agora era uma garota perturbada em seus dezessete anos que tinha, de alguma maneira, ficado presa no corpo de uma dona-de-casa de trinta e cinco. Habara podia senti-la, com seus olhos fechados, de corpo trêmulo, cheirando a camiseta suada do garoto.

Desta vez, Scheherazade não lhe contou nenhuma história depois do sexo. E nem checou o conteúdo do preservativo. Eles se deitaram e ficaram em silêncio um ao lado do outro. Os olhos dela estavam bem abertos, e miravam o teto. Assim como uma lampreia deslumbrada com a superfície iluminada da água. O quão maravilhoso seria, Habara pensou, se ele, também, pudesse habitar outro tempo ou espaço – deixar para trás esta clara figura humana e sozinha cujo nome era Nobutaka Habara e tornar-se uma lampreia sem nome. Imaginou ele e Scheherazade lado a lado, suas ventosas presas numa rocha, seus corpos balançando na água, observando a superfície enquanto esperavam que uma truta suculenta passasse.

“E então o que deixou em troca da camisa?” Habara quebrou o silêncio.

Ela não respondeu de imediato.

“Nada,” falou, por fim. “Nada que eu trouxera comigo se equiparava a uma camisa com o cheiro dele. De modo que eu só peguei e fui embora. Foi quando me tornei uma ladra, pura e simplesmente.”

Doze dias depois, quando Scheherazade voltou à casa do garoto pela quarta vez, havia uma nova tranca na porta da frente. A sua cor dourada cintilava no sol do meio dia, como se estivesse se gabando da sua grande solidez. E não tinha nenhuma chave embaixo do tapete. Era nítido que o desaparecimento da camisa havia despertado suspeitas na mãe dele. Ela devia ter procurado por toda parte e ter cruzado com outros sinais que lhe disseram que algo estranho acontecia em sua casa. Seus instintos nunca mentiam, e ela agiu de prontidão.

Scheherazade estava, obviamente, desapontada com este acontecimento, mas ao mesmo tempo ficou aliviada. Era como se alguém aparecesse atrás dela e retirasse um grande peso de seus ombros. Isso significa que eu não tenho que continuar invadindo a casa dele, pensou. Não havia dúvidas de que, se a tranca não tivesse sido mudada, suas “visitas” continuariam indefinidamente. E nem havia dúvidas de que ela aumentaria o número de ações a cada visita. Uma hora ou outra, um membro da família apareceria enquanto ela estivesse no segundo andar. Não haveria por onde escapar. Não poderia se queixar. Era este o futuro que lhe aguardava, mais cedo ou mais tarde, e o resultado poderia ser devastador. Agora ela escapara. Talvez devesse agradecer à mãe dele – embora nunca tivesse a encontrado – por ter olhos de águia.

Scheherazade cheirava a camiseta dele toda noite antes de deitar na cama. Ela dormia com a camiseta do lado. Embrulhava-a num papel e a escondia antes de ir para a escola de manhã. E então, depois do jantar, a desembrulhava cuidadosamente e a cheirava. Ficou preocupada que o cheiro saísse ao longo dos dias, mas isso não aconteceu. O cheiro de suor permanecera na camisa para sempre.

Agora que “visitas” futuras estavam fora de questão, a mente de Scheherazade lentamente voltava ao normal. Ela já não sonhava tanto acordada na aula, e as palavras de seu professor começaram a fazer sentido. Entretanto, seu principal foco não era a voz do professor, mas o comportamento do colega. Ela discretamente permaneceu olhando para ele, tentando detectar uma mudança, qualquer indicação de que ele estivesse nervoso com alguma coisa. Mas ele agiu exatamente do mesmo jeito de sempre. Ele inclinou a cabeça para trás e riu tão naturalmente como antes, e respondeu prontamente quando chamado. Ele gritou alto como de costume durante o treino de futebol e ficou igualmente suado. Ela não conseguia ver nada diferente – só um rapazinho ali em pé, levando uma vida aparentemente despreocupada.

Mesmo assim, Scheherazade percebeu que uma nuvem escura pairava sobre ele. Ou qualquer coisa parecida. Muito provavelmente, ninguém mais sabia. Apenas ela (e, pensando bem, possivelmente sua mãe). Em sua terceira “visita”, ela se deparara com algumas revistas pornográficas meticulosamente escondidas nas partes mais fundas do guarda-roupa dele. Eram repletas de fotos de mulheres nuas, abrindo suas pernas e oferecendo uma visão privilegiada de suas genitálias. Algumas fotos mostravam o ato sexual: homens penetrando corpos femininos com pênis grandes como varas, nas posições mais estranhas. Scheherazade nunca pusera o olho em fotos desse tipo. Ela sentou na escrivaninha dele e folheou as revistas devagar, estudando cada foto com grande interesse. Imaginou que ele se masturbasse enquanto as via. Mas a ideia não lhe parecia exatamente repulsiva. Ela via a masturbação como uma atividade perfeitamente normal. Todo aquele esperma deveria ir para algum lugar, assim como garotas precisavam menstruar. Em outras palavras, ele era um adolescente comum. Nem herói nem santo. Saber disso era meio que um alívio.

“Quando parei com as minhas ‘visitas’, minha paixão por ele começou a esfriar. Foi aos poucos, como a maré diminuindo na superfície longa e inclinada da praia. De alguma forma, eu me vi cheirando a camisa dele com menos frequência e passando menos tempo acariciando seu lápis e sua medalha. A febre estava passando. O que eu contraíra não se parecia com uma doença, era a própria doença. No tempo que durou, eu não conseguia pensar direito. Talvez todo mundo passe por um período de loucura similar uma hora ou outra. Ou talvez fosse algo que só acontecera comigo. E você? Já teve uma experiência assim?”

Habara tentou lembrar, mas lhe deu um branco. “Não, nada tão marcante, eu acho,” disse.

Scheherazade pareceu um pouco desapontada com a resposta dele.

“De qualquer forma, eu esqueci dele assim que me formei. Tão rápida e facilmente que foi estranho. O que eu vi nele que fez minha adolescente de dezessete anos se apaixonar tanto? Por mais que tentasse, não conseguia lembrar. A vida é estranha, não é? Você pode estar totalmente envolvida com algo num minuto, querer sacrificar tudo para fazer essa coisa ser sua, mas então um tempinho passa, ou sua perspectiva muda um pouco, e de repente você fica surpreso como aquilo perdeu o encanto. O que eu estava vendo? Você deve se perguntar. E então esta é a história de quando eu invadia casas.”

Ela fez com que se parecesse com o “Período Azul” de Picasso, Habara pensou. Mas ele entendeu o que ela tentara transmitir.

Ela espiou o relógio ao lado da cama. Já era quase hora de ir.

“Para dizer a verdade,” ela disse finalmente, “a história não acaba aqui. Uns anos atrás, quando estava no meu segundo ano da escola de enfermagem, a força do destino nos uniu novamente. A mãe dele contribuiu pra isso; na realidade, tinha algo de assustador naquilo tudo – se parecia com aquelas histórias de fantasma. Os acontecimentos tomaram um rumo inacreditável. Você gostaria de ouvir?”

“Eu adoraria,” Habara disse.

“É melhor esperar até minha próxima visita,” Scheherazade disse. “Está ficando tarde. Tenho que ir pra casa preparar o jantar.”

Ela desceu da cama e se vestiu – calcinhas, meias, regata, e, por fim, sua saia e blusa. Habara distraidamente assistiu da cama aos seus movimentos. Ficava impressionado porque o jeito das mulheres se vestirem podia ser mais interessante do que o jeito de elas se despirem.

“Tem algum livro em particular que você queira que eu traga?” ela perguntou, no caminho até a porta.

“Não, nada que consiga lembrar,” ele respondeu. O que ele realmente queria, pensou, era que ela lhe contasse o resto da história, mas não disse. Se o fizesse, poderia diminuir suas chances de ouvi-la.

Habara foi para cama cedo naquela noite e pensou em Scheherazade. Talvez ele nunca mais a visse de novo. Isso o deixou preocupado. É que a possibilidade era muito real. Nenhum laço – nenhum voto, nenhum acordo implícito – os unia. A relação entre eles era uma relação casual, criada por alguém, e poderia terminar se essa pessoa assim quisesse. Em outras palavras, eles estavam unidos por um fio delicado. Era provável – não, era certo – de que esse fio uma hora se rompesse e todas as histórias estranhas e peculiares que ela teria lhe contado fossem perdidas. A única pergunta era quando.
Era também possível que, em algum momento, ele fosse totalmente privado de liberdade, neste caso, não só Scheherazade, mas todas as mulheres desapareceriam de sua vida. Nunca mais ele poderia penetrar seus corpos quentes e úmidos. Nunca mais ele sentiria suas tremulações em resposta. Talvez uma perspectiva ainda mais assustadora para Habara do que o fim do sexo, porém, era a perda daqueles momentos de troca de intimidade. Os momentos que passava com as mulheres eram a oportunidade de viver a realidade, por um lado, enquanto eram uma espécie de negação da realidade, por outro. Isso Scheherazade tinha lhe dado até demais – de fato, sua capacidade era inesgotável. Só de pensar em perder tudo aquilo, ficava extremamente triste.

Habara fechou os olhos e parou de pensar em Scheherazade. Ao invés disso, pensou em lampreias. Lampreias sem mandíbulas presas nas rochas, se escondendo entre as plantas aquáticas, balançando para lá e para cá nas águas. Ele imaginou ser uma delas, esperando uma truta aparecer. Mas nenhuma truta passava por ele, não importava o quanto esperasse. Nenhuma gorda, nenhuma magra, nenhuma truta no geral. Em certo momento, o sol se pôs e o mundo dele desdobrou-se em escuridão.

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Scheherazade
Haruki Murakami

Each time they had sex, she told Habara a strange and gripping story afterward. Like Queen Scheherazade in “A Thousand and One Nights.” Though, of course, Habara, unlike the king, had no plan to chop off her head the next morning. (She never stayed with him till morning, anyway.) She told Habara the stories because she wanted to, because, he guessed, she enjoyed curling up in bed and talking to a man during those languid, intimate moments after making love. And also, probably, because she wished to comfort Habara, who had to spend every day cooped up indoors.
Because of this, Habara had dubbed the woman Scheherazade. He never used the name to her face, but it was how he referred to her in the small diary he kept. “Scheherazade came today,” he’d note in ballpoint pen. Then he’d record the gist of that day’s story in simple, cryptic terms that were sure to baffle anyone who might read the diary later.
Habara didn’t know whether her stories were true, invented, or partly true and partly invented. He had no way of telling. Reality and supposition, observation and pure fancy seemed jumbled together in her narratives. Habara therefore enjoyed them as a child might, without questioning too much. What possible difference could it make to him, after all, if they were lies or truth, or a complicated patchwork of the two?
Whatever the case, Scheherazade had a gift for telling stories that touched the heart. No matter what sort of story it was, she made it special. Her voice, her timing, her pacing were all flawless. She captured her listener’s attention, tantalized him, drove him to ponder and speculate, and then, in the end, gave him precisely what he’d been seeking. Enthralled, Habara was able to forget the reality that surrounded him, if only for a moment. Like a blackboard wiped with a damp cloth, he was erased of worries, of unpleasant memories. Who could ask for more? At this point in his life, that kind of forgetting was what Habara desired more than anything else.
Scheherazade was thirty-five, four years older than Habara, and a full-time housewife with two children in elementary school (though she was also a registered nurse and was apparently called in for the occasional job). Her husband was a typical company man. Their home was a twenty-minute drive away from Habara’s. This was all (or almost all) the personal information she had volunteered. Habara had no way of verifying any of it, but he could think of no particular reason to doubt her. She had never revealed her name. “There’s no need for you to know, is there?” Scheherazade had asked. Nor had she ever called Habara by his name, though of course she knew what it was. She judiciously steered clear of the name, as if it would somehow be unlucky or inappropriate to have it pass her lips.
On the surface, at least, this Scheherazade had nothing in common with the beautiful queen of “A Thousand and One Nights_._” She was on the road to middle age and already running to flab, with jowls and lines webbing the corners of her eyes. Her hair style, her makeup, and her manner of dress weren’t exactly slapdash, but neither were they likely to receive any compliments. Her features were not unattractive, but her face lacked focus, so that the impression she left was somehow blurry. As a consequence, those who walked by her on the street, or shared the same elevator, probably took little notice of her. Ten years earlier, she might well have been a lively and attractive young woman, perhaps even turned a few heads. At some point, however, the curtain had fallen on that part of her life and it seemed unlikely to rise again.
Scheherazade came to see Habara twice a week. Her days were not fixed, but she never came on weekends. No doubt she spent that time with her family. She always phoned an hour before arriving. She bought groceries at the local supermarket and brought them to him in her car, a small blue Mazda hatchback. An older model, it had a dent in its rear bumper and its wheels were black with grime. Parking it in the reserved space assigned to the house, she would carry the bags to the front door and ring the bell. After checking the peephole, Habara would release the lock, unhook the chain, and let her in. In the kitchen, she’d sort the groceries and arrange them in the refrigerator. Then she’d make a list of things to buy for her next visit. She performed these tasks skillfully, with a minimum of wasted motion, and saying little throughout.
Once she’d finished, the two of them would move wordlessly to the bedroom, as if borne there by an invisible current. Scheherazade quickly removed her clothes and, still silent, joined Habara in bed. She barely spoke during their lovemaking, either, performing each act as if completing an assignment. When she was menstruating, she used her hand to accomplish the same end. Her deft, rather businesslike manner reminded Habara that she was a licensed nurse.
After sex, they lay in bed and talked. More accurately, she talked and he listened, adding an appropriate word here, asking the occasional question there. When the clock said four-thirty, she would break off her story (for some reason, it always seemed to have just reached a climax), jump out of bed, gather up her clothes, and get ready to leave. She had to go home, she said, to prepare dinner.
Habara would see her to the door, replace the chain, and watch through the curtains as the grimy little blue car drove away. At six o’ clock, he made a simple dinner and ate it by himself. He had once worked as a cook, so putting a meal together was no great hardship. He drank Perrier with his dinner (he never touched alcohol) and followed it with a cup of coffee, which he sipped while watching a DVD or reading. He liked long books, especially those he had to read several times to understand. There wasn’t much else to do. He had no one to talk to. No one to phone. With no computer, he had no way of accessing the Internet. No newspaper was delivered, and he never watched television. (There was a good reason for that.) It went without saying that he couldn’t go outside. Should Scheherazade’s visits come to a halt for some reason, he would be left all alone.
Habara was not overly concerned about this prospect. If that happens, he thought, it will be hard, but I’ll scrape by one way or another. I’m not stranded on a desert island. No, he thought, I am a desert island. He had always been comfortable being by himself. What did bother him, though, was the thought of not being able to talk in bed with Scheherazade. Or, more precisely, missing the next installment of her story.
“I was a lamprey eel in a former life,” Scheherazade said once, as they lay in bed together. It was a simple, straightforward comment, as offhand as if she had announced that the North Pole was in the far north. Habara hadn’t a clue what sort of creature a lamprey was, much less what one looked like. So he had no particular opinion on the subject.
“Do you know how a lamprey eats a trout?” she asked.
He didn’t. In fact, it was the first time he’d heard that lampreys ate trout.
“Lampreys have no jaws. That’s what sets them apart from other eels.”
“Huh? Eels have jaws?”
“Haven’t you ever taken a good look at one?” she said, surprised.
“I do eat eel now and then, but I’ve never had an opportunity to see if they have jaws.”
“Well, you should check it out sometime. Go to an aquarium or someplace like that. Regular eels have jaws with teeth. But lampreys have only suckers, which they use to attach themselves to rocks at the bottom of a river or lake. Then they just kind of float there, waving back and forth, like weeds.”
Habara imagined a bunch of lampreys swaying like weeds at the bottom of a lake. The scene seemed somehow divorced from reality, although reality, he knew, could at times be terribly unreal.
“Lampreys live like that, hidden among the weeds. Lying in wait. Then, when a trout passes overhead, they dart up and fasten on to it with their suckers. Inside their suckers are these tonguelike things with teeth, which rub back and forth against the trout’s belly until a hole opens up and they can start eating the flesh, bit by bit.”
“I wouldn’t like to be a trout,” Habara said.
“Back in Roman times, they raised lampreys in ponds. Uppity slaves got chucked in and the lampreys ate them alive.”
Habara thought that he wouldn’t have enjoyed being a Roman slave, either.
“The first time I saw a lamprey was back in elementary school, on a class trip to the aquarium,” Scheherazade said. “The moment I read the description of how they lived, I knew that I’d been one in a former life. I mean, I could actually remember—being fastened to a rock, swaying invisibly among the weeds, eying the fat trout swimming by above me.”
“Can you remember eating them?”
“No, I can’t.” [cartoon id=”a18531″]
“That’s a relief,” Habara said. “But is that all you recall from your life as a lamprey—swaying to and fro at the bottom of a river?”
“A former life can’t be called up just like that,” she said. “If you’re lucky, you get a flash of what it was like. It’s like catching a glimpse through a tiny hole in a wall. Can you recall any of your former lives?”
“No, not one,” Habara said. Truth be told, he had never felt the urge to revisit a former life. He had his hands full with the present one.
“Still, it felt pretty neat at the bottom of the lake. Upside down with my mouth fastened to a rock, watching the fish pass overhead. I saw a really big snapping turtle once, too, a humongous black shape drifting past, like the evil spaceship in ‘Star Wars.’ And big white birds with long, sharp beaks; from below, they looked like white clouds floating across the sky.”
“And you can see all these things now?”
“As clear as day,” Scheherazade said. “The light, the pull of the current, everything. Sometimes I can even go back there in my mind.”
“To what you were thinking then?”
“Yeah.”
“What do lampreys think about?”
“Lampreys think very lamprey-like thoughts. About lamprey-like topics in a context that’s very lamprey-like. There are no words for those thoughts. They belong to the world of water. It’s like when we were in the womb. We were thinking things in there, but we can’t express those thoughts in the language we use out here. Right?”
“Hold on a second! You can remember what it was like in the womb?”
“Sure,” Scheherazade said, lifting her head to see over his chest. “Can’t you?”
No, he said. He couldn’t.
“Then I’ll tell you sometime. About life in the womb.”
“Scheherazade, Lamprey, Former Lives” was what Habara recorded in his diary that day. He doubted that anyone who came across it would guess what the words meant.
Habara had met Scheherazade for the first time four months earlier. He had been transported to this house, in a provincial city north of Tokyo, and she had been assigned to him as his “support liaison.” Since he couldn’t go outside, her role was to buy food and other items he required and bring them to the house. She also tracked down whatever books and magazines he wished to read, and any CDs he wanted to listen to. In addition, she chose an assortment of DVDs—though he had a hard time accepting her criteria for selection on this front.
A week after he arrived, as if it were a self-evident next step, Scheherazade had taken him to bed. There had been condoms on the bedside table when he arrived. Habara guessed that sex was one of her assigned duties—or perhaps “support activities” was the term they used. Whatever the term, and whatever her motivation, he’d gone with the flow and accepted her proposal without hesitation.
Their sex was not exactly obligatory, but neither could it be said that their hearts were entirely in it. She seemed to be on guard, lest they grow too enthusiastic—just as a driving instructor might not want his students to get too excited about their driving. Yet, while the lovemaking was not what you’d call passionate, it wasn’t entirely businesslike, either. It may have begun as one of her duties (or, at least, as something that was strongly encouraged), but at a certain point she seemed—if only in a small way—to have found a kind of pleasure in it. Habara could tell this from certain subtle ways in which her body responded, a response that delighted him as well. After all, he was not a wild animal penned up in a cage but a human being equipped with his own range of emotions, and sex for the sole purpose of physical release was hardly fulfilling. Yet to what extent did Scheherazade see their sexual relationship as one of her duties, and how much did it belong to the sphere of her personal life? He couldn’t tell.
This was true of other things, too. Habara often found Scheherazade’s feelings and intentions hard to read. For example, she wore plain cotton panties most of the time. The kind of panties he imagined housewives in their thirties usually wore—though this was pure conjecture, since he had no experience with housewives of that age. Some days, however, she turned up in colorful, frilly silk panties instead. Why she switched between the two he hadn’t a clue.
The other thing that puzzled him was the fact that their lovemaking and her storytelling were so closely linked, making it hard to tell where one ended and the other began. He had never experienced anything like this before: although he didn’t love her, and the sex was so-so, he was tightly bound to her physically. It was all rather confusing.
“I was a teen-ager when I started breaking into empty houses,” she said one day as they lay in bed.
Habara—as was often the case when she told stories—found himself at a loss for words.
“Have you ever broken into somebody’s house?” she asked.
“I don’t think so,” he answered in a dry voice.
“Do it once and you get addicted.”
“But it’s illegal.”
“You betcha. It’s dangerous, but you still get hooked.”
Habara waited quietly for her to continue.
“The coolest thing about being in someone else’s house when there’s no one there,” Scheherazade said, “is how silent it is. Not a sound. It’s like the quietest place in the world. That’s how it felt to me, anyway. When I sat on the floor and kept absolutely still, my life as a lamprey came back to me. I told you about my being a lamprey in a former life, right?”
“Yes, you did.”
“It was just like that. My suckers stuck to a rock underwater and my body waving back and forth overhead, like the weeds around me. Everything so quiet. Though that may have been because I had no ears. On sunny days, light shot down from the surface like an arrow. Fish of all colors and shapes drifted by above. And my mind was empty of thoughts. Other than lamprey thoughts, that is. Those were cloudy but very pure. It was a wonderful place to be.”
The first time Scheherazade broke into someone’s house, she explained, she was a high-school junior and had a serious crush on a boy in her class. Though he wasn’t what you would call handsome, he was tall and clean-cut, a good student who played on the soccer team, and she was powerfully attracted to him. But he apparently liked another girl in their class and took no notice of Scheherazade. In fact, it was possible that he was unaware she existed. Nevertheless, she couldn’t get him out of her mind. Just seeing him made her breathless; sometimes she felt as if she were going to throw up. If she didn’t do something about it, she thought, she might go crazy. But confessing her love was out of the question.
One day, Scheherazade skipped school and went to the boy’s house. It was about a fifteen-minute walk from where she lived. She had researched his family situation beforehand. His mother taught Japanese language at a school in a neighboring town. His father, who had worked at a cement company, had been killed in a car accident some years earlier. His sister was a junior-high-school student. This meant that the house should be empty during the day.
Not surprisingly, the front door was locked. Scheherazade checked under the mat for a key. Sure enough, there was one there. Quiet residential communities in provincial cities like theirs had little crime, and a spare key was often left under a mat or a potted plant.
To be safe, Scheherazade rang the bell, waited to make sure there was no answer, scanned the street in case she was being observed, opened the door, and entered. She locked the door again from the inside. Taking off her shoes, she put them in a plastic bag and stuck it in the knapsack on her back. Then she tiptoed up the stairs to the second floor.
His bedroom was there, as she had imagined. His bed was neatly made. On the bookshelf was a small stereo, with a few CDs. On the wall, there was a calendar with a photo of the Barcelona soccer team and, next to it, what looked like a team banner, but nothing else. No posters, no pictures. Just a cream-colored wall. A white curtain hung over the window. The room was tidy, everything in its place. No books strewn about, no clothes on the floor. The room testified to the meticulous personality of its inhabitant. Or else to a mother who kept a perfect house. Or both. It made Scheherazade nervous. Had the room been sloppier, no one would have noticed whatever little messes she might make. Yet, at the same time, the very cleanliness and simplicity of the room, its perfect order, made her happy. It was so like him.
Scheherazade lowered herself into the desk chair and sat there for a while. This is where he studies every night, she thought, her heart pounding. One by one, she picked up the implements on the desk, rolled them between her fingers, smelled them, held them to her lips. His pencils, his scissors, his ruler, his stapler—the most mundane objects became somehow radiant because they were his. [cartoon id=”a18532″]
She opened his desk drawers and carefully checked their contents. The uppermost drawer was divided into compartments, each of which contained a small tray with a scattering of objects and souvenirs. The second drawer was largely occupied by notebooks for the classes he was taking at the moment, while the one on the bottom (the deepest drawer) was filled with an assortment of old papers, notebooks, and exams. Almost everything was connected either to school or to soccer. She’d hoped to come across something personal—a diary, perhaps, or letters—but the desk held nothing of that sort. Not even a photograph. That struck Scheherazade as a bit unnatural. Did he have no life outside of school and soccer? Or had he carefully hidden everything of a private nature, where no one would come across it?
Still, just sitting at his desk and running her eyes over his handwriting moved Scheherazade beyond words. To calm herself, she got out of the chair and sat on the floor. She looked up at the ceiling. The quiet around her was absolute. In this way, she returned to the lampreys’ world.
“So all you did,” Habara asked, “was enter his room, go through his stuff, and sit on the floor?”
“No,” Scheherazade said. “There was more. I wanted something of his to take home. Something that he handled every day or that had been close to his body. But it couldn’t be anything important that he would miss. So I stole one of his pencils.”
“A single pencil?”
“Yes. One that he’d been using. But stealing wasn’t enough. That would make it a straightforward case of burglary. The fact that I had done it would be lost. I was the Love Thief, after all.”
The Love Thief? It sounded to Habara like the title of a silent film.
“So I decided to leave something behind in its place, a token of some sort. As proof that I had been there. A declaration that this was an exchange, not a simple theft. But what should it be? Nothing popped into my head. I searched my knapsack and my pockets, but I couldn’t find anything appropriate. I kicked myself for not having thought to bring something suitable. Finally, I decided to leave a tampon behind. An unused one, of course, still in its plastic wrapper. My period was getting close, so I was carrying it around just to be safe. I hid it at the very back of the bottom drawer, where it would be difficult to find. That really turned me on. The fact that a tampon of mine was stashed away in his desk drawer. Maybe it was because I was so turned on that my period started almost immediately after that.”
A tampon for a pencil, Habara thought. Perhaps that was what he should write in his diary that day: “Love Thief, Pencil, Tampon.” He’d like to see what they’d make of that!
“I was there in his home for only fifteen minutes or so. I couldn’t stay any longer than that: it was my first experience of sneaking into a house, and I was scared that someone would turn up while I was there. I checked the street to make sure that the coast was clear, slipped out the door, locked it, and replaced the key under the mat. Then I went to school. Carrying his precious pencil.”
Scheherazade fell silent. From the look of it, she had gone back in time and was picturing the various things that had happened next, one by one.
“That week was the happiest of my life,” she said after a long pause. “I scribbled random things in my notebook with his pencil. I sniffed it, kissed it, rubbed my cheek with it, rolled it between my fingers. Sometimes I even stuck it in my mouth and sucked on it. Of course, it pained me that the more I wrote the shorter it got, but I couldn’t help myself. If it got too short, I thought, I could always go back and get another. There was a whole bunch of used pencils in the pencil holder on his desk. He wouldn’t have a clue that one was missing. And he probably still hadn’t found the tampon tucked away in his drawer. That idea excited me no end—it gave me a strange ticklish sensation down below. It didn’t bother me anymore that in the real world he never looked at me or showed that he was even aware of my existence. Because I secretly possessed something of his—a part of him, as it were.”
Ten days later, Scheherazade skipped school again and paid a second visit to the boy’s house. It was eleven o’clock in the morning. As before, she fished the key from under the mat and opened the door. Again, his room was in flawless order. First, she selected a pencil with a lot of use left in it and carefully placed it in her pencil case. Then she gingerly lay down on his bed, her hands clasped on her chest, and looked up at the ceiling. This was the bed where he slept every night. The thought made her heart beat faster, and she found it difficult to breathe normally. Her lungs weren’t filling with air and her throat was as dry as a bone, making each breath painful.
Scheherazade got off the bed, straightened the covers, and sat down on the floor, as she had on her first visit. She looked back up at the ceiling. I’m not quite ready for his bed, she told herself. That’s still too much to handle.
This time, Scheherazade spent half an hour in the house. She pulled his notebooks from the drawer and glanced through them. She found a book report and read it. It was on “Kokoro,” a novel by Soseki Natsume, that summer’s reading assignment. His handwriting was beautiful, as one would expect from a straight-A student, not an error or an omission anywhere. The grade on it was Excellent. What else could it be? Any teacher confronted with penmanship that perfect would automatically give it an Excellent, whether he bothered to read a single line or not.
Scheherazade moved on to the chest of drawers, examining its contents in order. His underwear and socks. Shirts and pants. His soccer uniform. They were all neatly folded. Nothing stained or frayed. Had he done the folding? Or, more likely, had his mother done it for him? She felt a pang of jealousy toward the mother, who could do these things for him each and every day.
Scheherazade leaned over and sniffed the clothes in the drawers. They all smelled freshly laundered and redolent of the sun. She took out a plain gray T-shirt, unfolded it, and pressed it to her face. Might not a whiff of his sweat remain under the arms? But there was nothing. Nevertheless, she held it there for some time, inhaling through her nose. She wanted to keep the shirt for herself. But that would be too risky. His clothes were so meticulously arranged and maintained. He (or his mother) probably knew the exact number of T-shirts in the drawer. If one went missing, all hell might break loose.Scheherazade carefully refolded the T-shirt and returned it to its proper place. In its stead, she took a small badge, shaped like a soccer ball, that she found in one of the desk drawers. It seemed to date back to a team from his grade-school years. She doubted that he would miss it. At the very least, it would be some time before he noticed that it was gone. While she was at it, she checked the bottom drawer of the desk for the tampon. It was still there.
Scheherazade tried to imagine what would happen if his mother discovered the tampon. What would she think? Would she demand that he explain what on earth a tampon was doing in his desk? Or would she keep her discovery a secret, turning her dark suspicions over and over in her mind? Scheherazade had no idea. But she decided to leave the tampon where it was. After all, it was her very first token.
To commemorate her second visit, Scheherazade left behind three strands of her hair. The night before, she had plucked them out, wrapped them in plastic, and sealed them in a tiny envelope. Now she took this envelope from her knapsack and slipped it into one of the old math notebooks in his drawer. The three hairs were straight and black, neither too long nor too short. No one would know whose they were without a DNA test, though they were clearly a girl’s.
She left his house and went straight to school, arriving in time for her first afternoon class. Once again, she was content for about ten days. She felt that he had become that much more hers. But, as you might expect, this chain of events would not end without incident. For, as Scheherazade had said, sneaking into other people’s homes is highly addictive.
At this point in the story Scheherazade glanced at the bedside clock and saw that it was 4:32 p.m. “Got to get going,” she said, as if to herself. She hopped out of bed and put on her plain white panties, hooked her bra, slipped into her jeans, and pulled her dark-blue Nike sweatshirt over her head. Then she scrubbed her hands in the bathroom, ran a brush through her hair, and drove away in her blue Mazda.
Left alone with nothing in particular to do, Habara lay in bed and ruminated on the story she had just told him, savoring it bit by bit, like a cow chewing its cud. Where was it headed? he wondered. As with all her stories, he hadn’t a clue. He found it difficult to picture Scheherazade as a high-school student. Was she slender then, free of the flab she carried today? School uniform, white socks, her hair in braids? [cartoon id=”a18476″]
He wasn’t hungry yet, so he put off preparing his dinner and went back to the book he had been reading, only to find that he couldn’t concentrate. The image of Scheherazade sneaking into her classmate’s room and burying her face in his shirt was too fresh in his mind. He was impatient to hear what had happened next.
Scheherazade’s next visit to the house was three days later, after the weekend had passed. As always, she came bearing large paper bags stuffed with provisions. She went through the food in the fridge, replacing everything that was past its expiration date, examined the canned and bottled goods in the cupboard, checked the supply of condiments and spices to see what was running low, and wrote up a shopping list. She put some bottles of Perrier in the fridge to chill. Finally, she stacked the new books and DVDs she had brought with her on the table.
“Is there something more you need or want?”
“Can’t think of anything,” Habara replied.
Then, as always, the two went to bed and had sex. After an appropriate amount of foreplay, he slipped on his condom, entered her, and, after an appropriate amount of time, ejaculated. After casting a professional eye on the contents of his condom, Scheherazade began the latest installment of her story.
As before, she felt happy and fulfilled for ten days after her second break-in. She tucked the soccer badge away in her pencil case and from time to time fingered it during class. She nibbled on the pencil she had taken and licked the lead. All the time she was thinking of his room. She thought of his desk, the bed where he slept, the chest of drawers packed with his clothes, his pristine white boxer shorts, and the tampon and three strands of hair she had hidden in his drawer.
She had lost all interest in schoolwork. In class, she either fiddled with the badge and the pencil or gave in to daydreams. When she went home, she was in no state of mind to tackle her homework. Scheherazade’s grades had never been a problem. She wasn’t a top student, but she was a serious girl who always did her assignments. So when her teacher called on her in class and she was unable to give a proper answer, he was more puzzled than angry. Eventually, he summoned her to the staff room during the lunch break. “What’s the problem?” he asked her. “Is anything bothering you?” She could only mumble something vague about not feeling well. Her secret was too weighty and dark to reveal to anyone—she had to bear it alone.
“I had to keep breaking into his house,” Scheherazade said. “I was compelled to. As you can imagine, it was a very risky business. Even I could see that. Sooner or later, someone would find me there, and the police would be called. The idea scared me to death. But, once the ball was rolling, there was no way I could stop it. Ten days after my second ‘visit,’ I went there again. I had no choice. I felt that if I didn’t I would go off the deep end. Looking back, I think I really was a little crazy.”
“Didn’t it cause problems for you at school, skipping class so often?” Habara asked.
“My parents had their own business, so they were too busy to pay much attention to me. I’d never caused any problems up to then, never challenged their authority. So they figured a hands-off approach was best. Forging notes for school was a piece of cake. I explained to my homeroom teacher that I had a medical problem that required me to spend half a day at the hospital from time to time. Since the teachers were racking their brains over what to do about the kids who hadn’t come to school in ages, they weren’t too concerned about me taking half a day off every now and then.”
Scheherazade shot a quick glance at the clock next to the bed before continuing.
“I got the key from under the mat and entered the house for a third time. It was as quiet as before—no, even quieter for some reason. It rattled me when the refrigerator turned on—it sounded like a huge beast sighing. The phone rang while I was there. The ringing was so loud and harsh that I thought my heart would stop. I was covered with sweat. No one picked up, of course, and it stopped after about ten rings. The house felt even quieter then.”
Scheherazade spent a long time stretched out on his bed that day. This time her heart did not pound so wildly, and she was able to breathe normally. She could imagine him sleeping peacefully beside her, even feel as if she were watching over him as he slept. She felt that, if she reached out, she could touch his muscular arm. He wasn’t there next to her, of course. She was just lost in a haze of daydreams.
She felt an overpowering urge to smell him. Rising from the bed, she walked over to his chest of drawers, opened one, and examined the shirts inside. All had been washed and neatly folded. They were pristine, and free of odor, just like before.
Then an idea struck her. She raced down the stairs to the first floor. There, in the room beside the bath, she found the laundry hamper and removed the lid. Mixed together were the soiled clothes of the three family members—mother, daughter, and son. A day’s worth, from the looks of it. Scheherazade extracted a piece of male clothing. A white crew-neck T-shirt. She took a whiff. The unmistakable scent of a young man. A mustiness she had smelled before, when her male classmates were close by. Not a scintillating odor, to be sure. But the fact that this smell was his brought Scheherazade unbounded joy. When she put her nose next to the armpits and inhaled, she felt as though she were in his embrace, his arms wrapped firmly about her.
T-shirt in hand, Scheherazade climbed the stairs to the second floor and lay on his bed once more. She buried her face in his shirt and greedily breathed in. Now she could feel a languid sensation in the lower part of her body. Her nipples were stiffening as well. Could her period be on the way? No, it was much too early. Was this sexual desire? If so, then what could she do about it? She had no idea. One thing was for sure, though—there was nothing to be done under these circumstances. Not here in his room, on his bed.
In the end, Scheherazade decided to take the shirt home with her. It was risky, for sure. His mother was likely to figure out that a shirt was missing. Even if she didn’t realize that it had been stolen, she would still wonder where it had gone. Any woman who kept her house so spotless was bound to be a neat freak of the first order. When something went missing, she would search the house from top to bottom, like a police dog, until she found it. Undoubtedly, she would uncover the traces of Scheherazade in her precious son’s room. But, even as Scheherazade understood this, she didn’t want to part with the shirt. Her brain was powerless to persuade her heart.
Instead, she began thinking about what to leave behind. Her panties seemed like the best choice. They were of an ordinary sort, simple, relatively new, and fresh that morning. She could hide them at the very back of his closet. Could there be anything more appropriate to leave in exchange? But, when she took them off, the crotch was damp. I guess this comes from desire, too, she thought. It would hardly do to leave something tainted by her lust in his room. She would only be degrading herself. She slipped them back on and began to think about what else to leave.
Scheherazade broke off her story. For a long time, she didn’t say a word. She lay there breathing quietly with her eyes closed. Beside her, Habara followed suit, waiting for her to resume.
At last, she opened her eyes and spoke. “Hey, Mr. Habara,” she said. It was the first time she had addressed him by name.
Habara looked at her.
“Do you think we could do it one more time?”
“I think I could manage that,” he said.
So they made love again. This time, though, was very different from the time before. Violent, passionate, and drawn out. Her climax at the end was unmistakable. A series of powerful spasms that left her trembling. Even her face was transformed. For Habara, it was like catching a brief glimpse of Scheherazade in her youth: the woman in his arms was now a troubled seventeen-year-old girl who had somehow become trapped in the body of a thirty-five-year-old housewife. Habara could feel her in there, her eyes closed, her body quivering, innocently inhaling the aroma of a boy’s sweaty T-shirt.
This time, Scheherazade did not tell him a story after sex. Nor did she check the contents of his condom. They lay there quietly next to each other. Her eyes were wide open, and she was staring at the ceiling. Like a lamprey gazing up at the bright surface of the water. How wonderful it would be, Habara thought, if he, too, could inhabit another time or space—leave this single, clearly defined human being named Nobutaka Habara behind and become a nameless lamprey. He pictured himself and Scheherazade side by side, their suckers fastened to a rock, their bodies waving in the current, eying the surface as they waited for a fat trout to swim smugly by. [cartoon id=”a18541″]
“So what did you leave in exchange for the shirt?” Habara broke the silence.
She did not reply immediately.
“Nothing,” she said at last. “Nothing I had brought along could come close to that shirt with his odor. So I just took it and sneaked out. That was when I became a burglar, pure and simple.”
When, twelve days later, Scheherazade went back to the boy’s house for the fourth time, there was a new lock on the front door. Its gold color gleamed in the midday sun, as if to boast of its great sturdiness. And there was no key hidden under the mat. Clearly, his mother’s suspicions had been aroused by the missing shirt. She must have searched high and low, coming across other signs that told of something strange going on in her house. Her instincts had been unerring, her reaction swift.
Scheherazade was, of course, disappointed by this development, but at the same time she felt relieved. It was as if someone had stepped behind her and removed a great weight from her shoulders. This means I don’t have to go on breaking into his house, she thought. There was no doubt that, had the lock not been changed, her invasions would have gone on indefinitely. Nor was there any doubt that her actions would have escalated with each visit. Eventually, a member of the family would have shown up while she was on the second floor. There would have been no avenue of escape. No way to talk herself out of her predicament. This was the future that had been waiting for her, sooner or later, and the outcome would have been devastating. Now she had dodged it. Perhaps she should thank his mother—though she had never met the woman—for having eyes like a hawk.
Scheherazade inhaled the aroma of his T-shirt each night before she went to bed. She slept with it next to her. She would wrap it in paper and hide it before she left for school in the morning. Then, after dinner, she would pull it out to caress and sniff. She worried that the odor might fade as the days went by, but that didn’t happen. The smell of his sweat had permeated the shirt for good.
Now that further break-ins were out of the question, Scheherazade’s state of mind slowly began to return to normal. She daydreamed less in class, and her teacher’s words began to register. Nevertheless, her chief focus was not on her teacher’s voice but on her classmate’s behavior. She kept her eye discreetly trained on him, trying to detect a change, any indication at all that he might be nervous about something. But he acted exactly the same as always. He threw his head back and laughed as unaffectedly as ever, and answered promptly when called upon. He shouted as loudly in soccer practice and got just as sweaty. She could see no trace of anything out of the ordinary—just an upright young man, leading a seemingly unclouded existence.
Still, Scheherazade knew of one shadow that was hanging over him. Or something close to that. No one else knew, in all likelihood. Just her (and, come to think of it, possibly his mother). On her third break-in, she had come across a number of pornographic magazines cleverly concealed in the farthest recesses of his closet. They were full of pictures of naked women, spreading their legs and offering generous views of their genitals. Some pictures portrayed the act of sex: men inserted rodlike penises into female bodies in the most unnatural of positions. Scheherazade had never laid eyes on photographs like these before. She sat at his desk and flipped slowly through the magazines, studying each photo with great interest. She guessed that he masturbated while viewing them. But the idea did not strike her as especially repulsive. She accepted masturbation as a perfectly normal activity. All those sperm had to go somewhere, just as girls had to have periods. In other words, he was a typical teen-ager. Neither hero nor saint. She found that knowledge something of a relief.
“When my break-ins stopped, my passion for him began to cool. It was gradual, like the tide ebbing from a long, sloping beach. Somehow or other, I found myself smelling his shirt less often and spending less time caressing his pencil and badge. The fever was passing. What I had contracted was not something like sickness but the real thing. As long as it lasted, I couldn’t think straight. Maybe everybody goes through a crazy period like that at one time or another. Or maybe it was something that happened only to me. How about you? Did you ever have an experience like that?”
Habara tried to remember, but drew a blank. “No, nothing that extreme, I don’t think,” he said.
Scheherazade looked somewhat disappointed by his answer.
“Anyway, I forgot all about him once I graduated. So quickly and easily, it was weird. What was it about him that had made the seventeen-year-old me fall so hard? Try as I might, I couldn’t remember. Life is strange, isn’t it? You can be totally entranced by something one minute, be willing to sacrifice everything to make it yours, but then a little time passes, or your perspective changes a bit, and all of a sudden you’re shocked at how its glow has faded. What was I looking at? you wonder. So that’s the story of my ‘breaking-and-entering’ period.”
She made it sound like Picasso’s Blue Period, Habara thought. But he understood what she was trying to convey.
She glanced at the clock next to the bed. It was almost time for her to leave.
“To tell the truth,” she said finally, “the story doesn’t end there. A few years later, when I was in my second year of nursing school, a strange stroke of fate brought us together again. His mother played a big role in it; in fact, there was something spooky about the whole thing—it was like one of those old ghost stories. Events took a rather unbelievable course. Would you like to hear about it?”
“I’d love to,” Habara said.
“It had better wait till my next visit,” Scheherazade said. “It’s getting late. I’ve got to head home and fix dinner.”
She got out of bed and put on her clothes—panties, stockings, camisole, and, finally, her skirt and blouse. Habara casually watched her movements from the bed. It struck him that the way women put on their clothes could be even more interesting than the way they took them off.
“Any books in particular you’d like me to pick up?” she asked, on her way out the door.
“No, nothing I can think of,” he answered. What he really wanted, he thought, was for her to tell him the rest of her story, but he didn’t put that into words. Doing so might jeopardize his chances of ever hearing it.
Habara went to bed early that night and thought about Scheherazade. Perhaps he would never see her again. That worried him. The possibility was just too real. Nothing of a personal nature—no vow, no implicit understanding—held them together. Theirs was a chance relationship created by someone else, and might be terminated on that person’s whim. In other words, they were attached by a slender thread. It was likely—no, certain—that that thread would eventually be broken and all the strange and unfamiliar tales she might have told would be lost to him. The only question was when.
It was also possible that he would, at some point, be deprived of his freedom entirely, in which case not only Scheherazade but all women would disappear from his life. Never again would he be able to enter the warm moistness of their bodies. Never again would he feel them quiver in response. Perhaps an even more distressing prospect for Habara than the cessation of sexual activity, however, was the loss of the moments of shared intimacy. What his time spent with women offered was the opportunity to be embraced by reality, on the one hand, while negating it entirely on the other. That was something Scheherazade had provided in abundance—indeed, her gift was inexhaustible. The prospect of losing that made him saddest of all.
Habara closed his eyes and stopped thinking of Scheherazade. Instead, he thought of lampreys. Of jawless lampreys fastened to rocks, hiding among the waterweeds, swaying back and forth in the current. He imagined that he was one of them, waiting for a trout to appear. But no trout passed by, no matter how long he waited. Not a fat one, not a skinny one, no trout at all. Eventually the sun went down, and his world was enfolded in darkness.

“Desperto e sinto – as sombras descem, não o sol”, de Gerard Manley Hopkins

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Tradução: Victor Martins Queiroz

Desperto e sinto – as sombras descem, não o sol.
Quais horas, negras horas, quais! foram perdidas
Na noite! Coração, quais visões, idas-vias
E mais mister: delonga-ao-longe o arrebol.

Eu testemunho. Mas onde diz o texto só
“Horas” — “eras” e “vida”, eu digo. Jeremio
Queixas-sem-conto, um poemorto dado ao imo
Amigo alá o mais distante, ohime! de nós.

Sou félstula, sou miocáustico. Meu Deus
Decrép’ta-me o amargor do gosto: e o fel sou Eu;
Ossagruras e carnavates, maldissangue.

Autânimo fermento obra somente o breu.
E assim quem ‘stá perdido: o seu flagelo — e o meu —
É ser-se, o suardor; e pior, d o r a v a n t e.

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Gerard Manley Hopkins

I wake and feel the fell of dark, not day.
What hours, O what black hours we have spent
This night! what sights you, heart, saw; ways you went!
And more must, in yet longer light’s delay.
With witness I speak this. But where I say
Hours I mean years, mean life. And my lament
Is cries countless, cries like dead letters sent
To dearest him that lives alas! away.

I am gall, I am heartburn. God’s most deep decree
Bitter would have me taste: my taste was me;
Bones built in me, flesh filled, blood brimmed the curse.
Selfyeast of spirit a dull dough sours. I see
The lost are like this, and their scourge to be
As I am mine, their sweating selves; but worse.