Scheherazade, de Haruki Murakami

murakami

Tradução: Gabriela de Oliveira, a partir da tradução de Ted Goossen do original em japonês para o inglês.

Toda vez depois que faziam amor, ela contava a Habara uma história atraente e peculiar. Era como a Rainha Scheherazade em “Mil e uma noites”. Embora fosse certo que Habara, diferente do rei, não tivesse planos de decapitá-la na manhã seguinte. (De qualquer forma, ela nunca ficava com ele até de manhã.) Ela contava histórias a Habara porque assim gostava, porque, ele imaginava, ela gostava de se enrolar na cama e conversar com um homem durante esses momentos íntimos, lânguidos, depois do sexo. E também, provavelmente, porque queria animar Habara, que tinha de passar o dia preso em casa.

Por conta disso, Habara a chamara de Scheherazade. Ele nunca havia se dirigido a ela como tal, mas era esse o nome que usava num pequeno diário que mantinha. “Scheherazade veio hoje”, escreveria com a caneta esferográfica. Em seguida, registraria os principais acontecimentos daquele dia em termos simples e obscuros que, com toda certeza, confundiriam qualquer um que tentasse ler.

Habara não sabia quais histórias eram verdadeiras, inventadas, ou meio verdadeiras e meio inventadas. Ele não sabia diferenciar. Realidade e invenção, observação e pura extravagância pareciam coexistir nas narrativas dela. Habara por essa razão divertia-se como uma criança, sem questionar muito. Qual diferença faria, no final das contas, se eram mentira ou verdade, ou uma complexa junção das duas?

Em qualquer caso, Scheherazade tinha o dom de contar histórias que tocavam o coração. Seja lá qual fosse a história, ela a tornava especial. Sua voz, seu ritmo, seu compasso, eram primorosos. Ela sabia capturar a atenção do ouvinte, atormentava-o, levava-o a pensar e questionar, e então, no final, dava a ele justamente o que vinha procurando. Maravilhado, Habara era capaz de esquecer a realidade à sua volta, nem que fosse por um momento. Assim como um quadro negro sendo apagado com um pano úmido, suas preocupações e lembranças ruins eram apagadas. O que tinha para perder? Nessa altura da vida, esse tipo de esquecimento era o que Habara mais desejava no mundo.

Scheherazade tinha trinta e cinco anos, quatro anos mais velha que Habara, e era dona de casa em tempo integral, com dois filhos frequentando a escola primária (apesar de ela também ser uma enfermeira por profissão e ser convocada para trabalhar ocasionalmente). Seu marido era um típico homem de negócios. Sua casa ficava há vinte e cinco minutos da de Habara. Isso era tudo (ou quase tudo) das informações pessoais que ela havia dado. Habara não tinha como verificar nenhuma delas, mas imaginava não haver motivos para duvidar. Ela nunca revelara o nome. “Não tem por que você saber, certo?” Scheherazade perguntou. Nunca havia chamado Habara pelo nome, embora fosse claro que o soubesse. Cuidadosamente, ela evitava se dirigir a ele pelo nome, como se aquilo não fosse apropriado ou desse azar.

Na aparência, pelo menos, esta Scheherazade não tinha nada a ver com a bela rainha de “Mil e uma noites”. Ela caminhava para a meia-idade e já se tornava flácida, com papadas e linhas de expressão no canto dos olhos. Seu cabelo, maquiagem, e roupas não eram exatamente desleixados, porém nada era digno de elogios. Seus traços não eram pouco atraentes, mas seu rosto parecia desfocado, passando a impressão de que ela nunca estava nítida. Como consequência, aqueles que passavam por ela na rua, ou estavam no mesmo elevador, provavelmente pouco a notavam. Dez anos atrás, ela poderia ter sido uma jovem mulher, atraente e vigorosa, talvez até fizesse uns homens virarem para ao passar. Porém, numa certa altura, as cortinas do palco se fecharam de modo que nunca mais abriram.

Scheherazade ia ver Habara duas vezes na semana. Seus dias não eram fixos, mas ela nunca vinha nos finais de semana. Não havia dúvida de que passava esse tempo com a família. Ela sempre telefonava uma hora antes de chegar. Comprava mantimentos no supermercado mais próximo e os trazia no porta-malas de seu carro, um pequeno Mazda azul. Era um modelo mais antigo, com o para-choque traseiro amassado e as rodas pretas de sujeira. Ao estacionar na vaga em frente a casa, ela carregava as sacolas até a porta da frente e tocava a campainha. Depois de espiar pelo olho mágico, Habara abria a fechadura, tirava a corrente, e a deixava entrar. E então ela fazia uma lista de compras para sua próxima visita. Ela executava estas tarefas habilmente, quase não desperdiçando movimentos, e falando pouco.

Uma vez que ela terminava, os dois iam em silêncio para o quarto, como se carregados por uma corrente invisível. Scheherazade rapidamente tirava as roupas e, ainda em silêncio, deitava-se na cama ao lado de Habara. Ela mal falava durante o sexo, e também desempenhava cada função como se estivesse realizando uma tarefa. Quando estava menstruada, costumava usar a mão para conclui-la. Seu jeito um tanto pragmático lembrava Habara que ela era uma enfermeira.

Depois do sexo, eles permaneciam deitados e conversavam. Na verdade, ela falava e ele ouvia, acrescentando uma palavra aqui, uma pergunta ali. Quando o relógio batia às quatro e meia, ela interrompia a história (por alguma razão, sempre parecia ter acabado de atingir o clímax), pulava da cama, vestia-se, e se preparava para ir embora. Tinha que ir para casa preparar o jantar, dizia.

Habara a observava da porta, colocava a corrente no lugar, e via através das cortinas o carrinho azul encardido distanciar-se. Às seis em ponto, preparava um jantar simples e comia sozinho. Ele havia trabalhado como cozinheiro uma vez, de forma que preparar um prato não era um problema. Bebia um Perrier enquanto comia (nunca havia colocado uma gota de álcool na boca) e, em seguida, uma xícara de café, que bebericava assistindo um DVD ou lendo. Ele gostava de livros longos, principalmente aqueles que exigiam várias leituras para serem entendidos. Não tinha muita coisa para fazer. Ninguém para conversar. Não assinava nenhum jornal e nunca assistia televisão. (Tinha boas razões para isso.) Era óbvio que não podia sair de casa. Se as visitas de Scheherazade cessassem por alguma razão, seria deixado sozinho.

Habara não se preocupava muito com esta hipótese. Se acontecesse, pensava ele, seria difícil, mas vou sobreviver de um jeito ou de outro. Não estou preso numa ilha deserta. Não, ele pensou, eu sou uma ilha deserta. Ele sempre esteve confortável em sua própria companhia. O que o incomodava, no entanto, era a ideia de não poder conversar na cama com Scheherazade. Ou, mais precisamente, de perder o próximo desdobramento de sua história.

“Eu fui uma lampreia numa vida passada,” Scheherazade disse uma vez, enquanto estavam deitados juntos na cama. Foi um comentário simples e direto, tão inesperado quanto se ela dissesse que o Polo Norte ficava no extremo norte. Habara não tinha ideia de que tipo de criatura era uma lampreia, muito menos de como ela se parecia. Então não emitiu nenhuma opinião.

“Você sabe como uma lampreia come uma truta?” ela perguntou.

Não sabia. Na verdade, era a primeira vez que ouvia que lampreias comiam trutas.

“Lampreias não têm mandíbulas. É isso que as separa das outras enguias.”

“Ãhn? Enguias têm mandíbulas?”

“Você já prestou atenção em uma?” disse, surpresa.

“Claro que eu como enguia de vez em quando, mas nunca tive a oportunidade de ver suas mandíbulas.”

“Bem, você deve conferir, qualquer dia. Vá até o aquário ou um lugar parecido. As enguias normalmente têm mandíbulas cheias de dentes. Mas as lampreias possuem apenas ventosas, pelas quais ficam presas nas rochas no fundo do rio ou do lago. Assim elas meio que só flutuam, balançando pra frente e pra trás, feito algas.”

Habara imaginou várias lampreias balançando feito algas no fundo de um lago. A cena pareceu fora da realidade, embora ele soubesse que a realidade às vezes pudesse ser terrivelmente irreal.

“Lampreias vivem desse jeito, escondidas entre as algas. À espreita. Então, quando uma truta passa por cima delas, elas se atiram como um dardo e prendem-se nela com as ventosas. Dentro de suas ventosas existem umas ‘línguas’ cheias de dentes, que ficam se esfregando na barriga da truta até que um buraco se abra e elas possam começar a comer a carne, pedaço por pedaço.”

“Eu não gostaria de ser uma truta,” disse Habara.

“Na Roma Antiga, criavam lampreias nos lagos. Escravos insolentes eram jogados lá dentro e as lampreias os comiam vivos.”

Habara pensou que tão pouco gostaria de ser um escravo romano.
“A primeira vez que vi uma lampreia foi no ensino primário, na excursão para o aquário,” Scheherazade disse. “Na hora que li a descrição de como elas viviam, soube que tinha sido uma na minha vida passada. Digo, eu conseguia de fato lembrar – de estar presa numa rocha, balançando invisível em meio às algas, observando a truta gorda nadando em cima de mim.”

“Você consegue se lembrar comendo elas?”

“Não, não consigo.”

“É um alívio,” Habara disse. “Mas isso é tudo que você lembra de sua vida como lampreia – de balançar de um lado pro outro no fundo de um rio?”

“Uma vida passada não pode ser lembrada tão facilmente,” ela disse. “Se você tiver sorte, consegue um vislumbre de como era. É como dar uma espiada num buraquinho da parede. Você consegue lembrar de alguma das suas vidas passadas?”

“Não, de nenhuma,” disse Habara. Verdade seja dita, ele nunca sentiu vontade de revisitar sua vida passada. Suas mãos já estavam cheias da vida presente.

“Ainda assim, o fundo do rio parecia bem limpo. De cabeça pra baixo, com a minha boca presa na rocha, observando os peixes passando por cima de mim. Eu vi uma tartaruga bem grande e ligeira uma vez; também, uma figura preta enorme passava, parecia a nave maligna em ‘Star Wars.’ E grandes pássaros brancos de bicos longos e afiados; olhando de baixo, pareciam nuvens brancas flutuando no céu.”

“E você consegue ver tudo isso agora?”

“É claro,” Scheherazade disse. “A luz, o fluxo da água, tudo. Às vezes até consigo voltar pra lá na minha cabeça.”

“Para o lugar que você estava imaginando?”

“Uhum.”

“O que as lampreias pensam?”

“Lampreias têm pensamentos típicos de lampreias. Sobre tópicos típicos de lampreias num contexto tipicamente de lampreias. Não existem palavras para esses pensamentos. Eles pertencem ao mundo das águas. É como quando estávamos no útero. Pensávamos coisas lá dentro, mas não podemos expressar esses pensamentos na linguagem que usamos aqui fora. Certo?”

“Espere aí! Você consegue se lembrar de como era dentro do útero?”

“Claro,” Scheherazade disse, levantando a cabeça para vê-lo de cima do seu peito.
“Você não?”
Não, ele disse. Ele não conseguia.

“Então uma hora te conto. Sobre como é a vida no útero.”

“Scheherazade, Lampreia, Vidas Passadas” era o que Habara registraria em seu diário naquele dia. Ele duvidava que alguém, ao se deparar com aquilo, adivinhasse o significado daquelas palavras.

Habara encontrara Scheherazade pela primeira vez quatro meses atrás. Ele havia sido transportado para esta casa, numa província ao norte de Tóquio, e ela havia sido designada sua “pessoa de contato”. Uma vez que não podia sair de casa, o papel dela era comprar comida e outros mantimentos e trazê-los para casa. Ela também se responsabilizava pelos livros e revistas que ele desejasse ler, e quaisquer CDs que viesse a querer ouvir. Além disso, ela escolhia uma grande variedade de DVDs – apesar de ele já ter se recusado em aceitar seus critérios de seleção.

Uma semana depois de ter chegado, como se fosse previsto, Scheherazade o levou para cama. Havia camisinhas no criado-mudo quando ele chegou. Habara achou que o sexo fosse uma de suas funções atribuídas – ou talvez “atividades de apoio” era o termo que usavam. Seja lá qual fosse o termo, e qual fosse a motivação dela, ele seguia o fluxo e aceitava sua proposta sem hesitar.

O sexo não era exatamente obrigatório, mas não se podia dizer que seus corações estivessem inteiramente ali. Ela parecia estar sempre alerta, para que não se entusiasmassem muito – assim como um instrutor de carros não gostava que seus alunos ficassem muito empolgados dirigindo. Mesmo assim, embora não se pudesse dizer que havia paixão, não era possível dizer que fosse totalmente um negócio. Provavelmente começou com uma obrigação (ou, pelo menos, como algo fortemente encorajado), mas num certo momento ela pareceu – mesmo que um pouco – ter encontrado prazer naquilo. Habara podia falar pelas formas sutis do corpo dela responder, uma resposta que também o deliciava. Afinal de contas, ele não era um animal selvagem preso numa jaula, mas um ser humano munido de sua própria gama de emoções, e fazer sexo apenas tendo em vista o prazer não lhe satisfazia tanto. Ainda assim, até que ponto Scheherazade via a relação entre eles como sendo uma de suas obrigações, e quanto dessa relação pertencia à esfera da sua vida pessoal? Ele não conseguia dizer.

Isso também acontecia em outras situações. Habara sempre achou os sentimentos e intenções de Scheherazade muito difíceis de interpretar. Por exemplo, ela costumava usar calcinhas de algodão lisas. O tipo de calcinhas que geralmente apenas donas de casa em seus trinta anos usavam – apesar de ser pura especulação, uma vez que ele nunca teve experiência com donas de casa dessa idade. Às vezes, no entanto, ela aparecia usando calcinhas de seda coloridas e cheias de babados. O motivo de ela optar por uma ou por outra era um mistério.

Outra coisa que o intrigava era o fato de a relação deles e as histórias que ela contava serem profundamente conectadas, tornando difícil dizer onde uma coisa acabava e a outra, começava. Ele nunca tinha vivenciado nada parecido: embora não a amasse, e o sexo fosse mediano, ele encontrava-se fortemente conectado a ela fisicamente. Era tudo muito confuso.

“Eu era adolescente quando comecei a invadir casas vazias,” disse ela, certo dia, quando estavam deitados na cama.

Habara – assim como toda vez que ela lhe contava histórias – ficou perplexo.

“Você já invadiu a casa de alguém?” perguntou.

“Acho que não,” ele respondeu, inexpressivo.

“Uma só vez e você fica viciado.”

“Mas é ilegal.”

“Pode acreditar. É perigoso, mas ainda assim vicia.”

Habara esperou em silêncio até que ela continuasse.

“A melhor coisa de se estar na casa de um estranho quando não tem ninguém,” Scheherazade disse, “é o silêncio. Nenhum barulho. Parece o lugar mais quieto do mundo. Ou foi isso que me pareceu. Quando eu sentei no chão e fiquei absolutamente imóvel, minha vida como lampreia voltou. Eu te contei sobre ter sido uma lampreia numa vida passada, não é?”

“Sim, contou.”

“Foi exatamente assim. Minhas ventosas presas na rocha, embaixo da água, e meu corpo balançando de um lado pro outro, como as algas à minha volta. Tudo tão silencioso. Mas talvez seja porque eu não tivesse ouvidos. Nos dias de sol, a luz penetrava a superfície como uma lança. Peixes de todas as cores e formas perambulavam acima. E minha mente estava vazia. Vazia de pensamentos que não eram tipicamente de lampreias, eu digo. Estes eram nebulosos mas bem puros. Era um lugar maravilhoso de se ficar.”

A primeira vez que Scheherazade invadiu a casa de um estranho, ela contou, foi durante o ensino médio, quando estava muito a fim de um garoto da sua sala. Embora não fosse exatamente bonito, ele era alto e polido, além de ser um bom aluno que jogava no time de futebol, e ela estava fortemente atraída por ele. Mas parecia que ele gostava de outra garota da sala e mal notava Scheherazade. Na verdade, era provável que ele nem soubesse de sua existência. Mesmo assim, ela não conseguia tirá-lo da cabeça. Era só vê-lo que ficava sem ar; algumas vezes ela sentia como se fosse vomitar. Se não fizesse algo a respeito, pensou, acabaria enlouquecendo. Mas confessar seu amor estava fora de questão.
Certo dia, Scheherazade matou aula e foi até a casa do garoto. Ficava a mais ou menos quinze minutos da sua casa. De antemão, procurara saber sobre a família dele. Sua mãe ensinava japonês numa escola na cidade vizinha. Seu pai, que trabalhava numa empresa de cimento, tinha morrido num acidente de carro uns anos atrás. Sua irmã estava no ensino médio. Isso significava que a casa ficava vazia durante o dia.
Naturalmente, a porta da frente estava trancada. Scheherazade procurou por uma chave embaixo do tapete. Como esperado, encontrou uma. Bairros residenciais tranquilos de cidades provincianas como aquela tinham um baixo índice de criminalidade, e uma chave extra era deixada com frequência embaixo de um tapete ou num vaso de planta.
Por precaução, Scheherazade tocou a campainha, esperou para ter certeza que ninguém atenderia, certificou-se de que não estava sendo observada, e entrou. Novamente, trancou a porta por dentro. Tirou os sapatos, colocou-os num saco plástico e depois na mochila que levava nas costas. E então, na ponta dos pés, subiu a escada até o segundo andar.

O quarto dele estava lá, como imaginado. Sua cama havia sido cuidadosamente feita. Na estante de livros tinha um pequeno aparelho de som, com alguns CDs. Na parede, um calendário com uma foto do time de futebol de Barcelona e, do lado, o que pareceu ser um cartaz do time, mas nada a mais. Nenhum pôster, nada de fotografias. Apenas uma parede cor de creme. Uma cortina branca na janela. O quarto estava limpo, tudo em seu devido lugar. Nenhum livro esparramado, nenhuma roupa jogada no chão. O quarto era a prova de como seu dono era cuidadoso. Ou também de como sua mãe mantinha uma casa perfeita. Ou os dois. Scheherazade estremeceu. Se o quarto fosse mais bagunçado, ninguém notaria qualquer intervenção que ela fizesse. Mas, ao mesmo tempo, a limpeza e a simplicidade do quarto, sua perfeita organização, a deixavam feliz. Era tudo tão parecido com ele.

Scheherazade sentou-se na cadeira da escrivaninha e ficou lá por um tempo. É aqui que ele estuda toda noite, ela pensou, seu coração acelerado. Pegou os objetos da escrivaninha um por um, brincou com eles, os cheirou, colocou-os dentre os lábios. Seus lápis, sua tesoura, sua régua, seu grampeador – os objetos mais mundanos tornaram-se, de alguma maneira, um pouco mágicos por pertencerem a ele.

Ela abriu as gavetas da escrivaninha e cuidadosamente analisou o seu conteúdo. A primeira gaveta era dividida em compartimentos, cada qual contendo uma pequena bandeja com objetos e souvenires espalhados. A segunda gaveta era, em grande parte, ocupada por cadernos das aulas que ele tinha no momento, enquanto a última (a mais funda) era repleta de papéis, provas e cadernos velhos. Quase tudo tinha a ver com a escola ou com o futebol. Ela torcia para deparar-se com algo íntimo – um diário, talvez, ou cartas – mas a escrivaninha não guardava nada do tipo. Nem mesmo uma fotografia. Scheherazade estranhou. Ele não tinha vida fora da escola ou do futebol? Ou escondia com cuidado tudo que era pessoal, num lugar que ninguém pudesse encontrar?

Mesmo assim, só de sentar na escrivaninha e observar a caligrafia dele, Scheherazade ficava inquieta. Para acalmar-se, ela deixava a cadeira e sentava no chão. Ela olhava para o teto. O silêncio ao seu redor era absoluto. Dessa maneira, retornava ao mundo das lampreias.

“Então tudo o que fez,” Habara perguntou, “foi entrar no quarto dele, mexer em suas coisas, e sentar no chão?”

“Não,” Scheherazade disse. “Tem mais. Eu queria algo dele pra levar para casa. Algo que ele usasse todos os dias ou que ficasse perto de seu corpo. Mas não podia ser algo importante que ele desse falta. Então eu roubei um de seus lápis.”

“Um único lápis?”

“Sim. Um que ele estivesse usando. Mas roubar não era o suficiente. Faria disso tudo um simples caso de roubo. O fato de eu ter roubado seria inútil. Eu era a Ladra do Amor no final das contas.”

A Ladra do Amor? Para Habara, soava como o título de um filme mudo.

“E então eu decidi deixar algo no lugar, algum sinal. Como prova de que eu havia estado lá. Uma demonstração de que era algo em troca, não um simples roubo. Mas o que seria? Não consegui pensar em nada. Vasculhei minha mochila e meus bolsos, mas não encontrava nada apropriado. Me culpei por não ter pensado em trazer alguma coisa adequada. Por fim, decidi deixar um tampão. Um não usado, é claro, ainda dentro da embalagem. Minha menstruação se aproximava, de modo que eu o carregava por precaução. Eu escondi bem no fundo da última gaveta, onde seria difícil encontrar. Isso me deixou muito excitada. Só de ter um tampão meu escondido na gaveta da escrivaninha dele. Talvez fosse porque eu estava tão excitada que a minha menstruação começou quase que imediatamente após o ocorrido.

Um tampão por um lápis, Habara pensou. Era possível que fosse o que ele escreveria em seu diário naquele dia: “Ladra do Amor, Lápis, Tampão.” Ele queria saber o que pensariam disso!

“Fazia quinze minutos mais ou menos que eu estava lá. Não consegui ficar mais tempo que isso: era minha primeira vez invadindo uma casa, e eu temia que alguém aparecesse enquanto estava lá dentro. Observei a rua para ver se o caminho estava livre, deslizei pela porta, a tranquei, e coloquei a chave de volta embaixo do tapete. Depois fui para a escola. Carregando o meu precioso lápis.”

Scheherazade ficou em silêncio. Pelo jeito, ela havia voltado no tempo e imaginava várias coisas que aconteceram depois, uma por uma.

“Aquela semana foi a mais feliz da minha vida,” disse, depois de uma pausa. “Rabisquei coisas aleatórias no meu caderno usando o lápis dele. Eu o cheirei, beijei, esfreguei na minha bochecha, rolei entre os meus dedos. Às vezes até prendia na boca e chupava. Claro, me doía o fato de que quanto mais eu escrevia, menor ficava, mas eu não podia evitar. Se ficasse muito pequeno, pensei, eu poderia sempre voltar e pegar outro.
Havia vários lápis usados no porta-lápis da escrivaninha dele. Ele não daria falta de um. E provavelmente ele ainda não achara o tampão escondido em sua gaveta. Essa ideia me excitava de um jeito – me dava umas cócegas estranhas lá embaixo. Não me incomodava mais que na realidade ele nem sequer olhasse para mim ou demonstrasse saber de minha existência. Porque, secretamente, eu possuía algo dele – uma parte dele, de certo modo.”

Dez dias depois, Scheherazade matou aula outra vez e fez uma segunda visita à casa do garoto. Eram onze em ponto da manhã. Assim como antes, ela pegou a chave debaixo do tapete e abriu a porta. Novamente, o quarto dele encontrava-se em perfeita ordem. Primeiro, ela escolheu um lápis bastante usado e cuidadosamente o guardou em seu estojo. Depois, com mesma cautela, deitou na cama dele, suas mãos apertavam os seios, e ela mirava o teto. Esta era a cama que ele dormia toda noite. Esse pensamento fez seu coração acelerar, e ela encontrou dificuldade em respirar. Seus pulmões estavam sem ar e sua garganta ficou completamente seca, fazendo cada tentativa de respirar algo doloroso.

Scheherazade desceu da cama, alisou o cobre-leito, e sentou no chão, como na primeira visita. Mirou o teto outra vez. Não estou pronta pra cama dele, disse para si mesma. É muito pra mim.

Desta vez, Scheherazade passou meia-hora na casa. Ela tirou os cadernos dele da gaveta e ficou olhando para eles. Encontrou um relatório e leu. Era sobre “Kokoro”, um romance de Soseki Natsume, a tarefa de leitura daquelas férias de verão. Ele tinha uma linda caligrafia, do tipo que se espera de um aluno aplicado, nenhum erro ou desleixo em nenhum canto. A nota dada era “Excelente”. Qual outra seria? Qualquer professor ao deparar-se com uma caligrafia tão perfeita automaticamente lhe atribuiria um “Excelente”, quer lesse uma única linha quer não.

Scheherazade avançou para a cômoda, examinando o conteúdo todo em ordem. As cuecas e as meias dele. Camisas e calças. O uniforme de time. Tudo dobrado perfeitamente. Nada manchado ou desgastado. Ele quem dobrara? Ou, mais provável, sua mãe fizera? Ela sentia uma ponta de inveja da mãe dele, que podia fazer estas coisas para ele a todo e qualquer instante.

Scheherazade inclinou-se e sentiu o cheiro das roupas nas gavetas. Todas pareciam ter acabado de serem lavadas e secadas ao sol. Ela pegou uma camiseta cinza e lisa, desdobrou-a, e a pressionou contra seu rosto. Não haveria restado um pouco de seu suor embaixo dos braços? Não sentiu nada. Não obstante, a pressionou por algum tempo, cheirando. Queria pegar a camiseta para si. Mas seria muito arriscado. As roupas dele eram meticulosamente arrumadas e mantidas. Ele (ou sua mãe) provavelmente sabia o número exato de camisetas dentro da gaveta. Se uma faltasse, seria um deus-nos-acuda. Scheherazade, com cautela, dobrou a camiseta e a colocou de volta em seu devido lugar. Em troca, pegou uma pequena medalha, no formato de uma bola de futebol, que encontrou em uma das gavetas da escrivaninha. Parecia pertencer aos tempos da escola primária. Ela temia que ele desse falta. Pelo menos, demoraria um pouco para ele perceber que tinha desaparecido. Enquanto estava na escrivaninha, verificou o fundo da gaveta procurando pelo tampão. Ainda estava lá.

Scheherazade tentou imaginar o que aconteceria se a mãe dele encontrasse o tampão. O que ela pensaria? Exigiria uma explicação de porque diabos havia um tampão na escrivaninha dele? Ou ela manteria a descoberta em segredo, remoendo suas tenebrosas suspeitas? Afinal de contas, havia sido seu primeiro objeto dado em troca.
Para comemorar sua segunda visita, Scheherazade deixou para trás três fios do cabelo dela. Na noite anterior, ela tinha os arrancado, os guardado num plástico, e selado num pequeno envelope. Agora ela tirava o envelope de sua mochila e o enfiava dentro de um de seus velhos cadernos de matemática que estava na gaveta. Os três fios eram lisos e pretos, nem tão longos nem tão curtos. Ninguém saberia de quem seriam sem um teste de DNA, embora eles pertencessem claramente a uma garota.

Ela foi da casa dele direto para a escola, chegando a tempo para a primeira aula da tarde. Mais uma vez, ficou contente por uns dez dias. Sentiu que ele pertencia mais a ela. Mas, como esperado, esta sucessão de acontecimentos não terminaria sem algum incidente. Porque, como Scheherazade dissera, invadir a casa de um estranho era extremamente viciante.

Nesta altura da história Scheherazade deu uma espiada no relógio ao lado da cama e viu que eram 4h32 da tarde. “Tenho que ir,” ela disse, de si para si. Pulou da cama e vestiu sua calcinha branca e lisa e o sutiã, deslizou dentro da calça jeans, e colocou seu moletom azul-marinho da Nike. Depois lavou as mãos no banheiro, penteou os cabelos, e foi embora em seu Mazda azul.

Ao ser deixado sozinho e sem nada para fazer, Habara deitou na cama e ficou ruminando a história que ela tinha acabado de contar, saboreando-a pedaço por pedaço, como uma vaca mastigando o alimento regurgitado. Onde isso acabaria? Perguntou-se. Assim como todas as histórias dela, ele não fazia ideia. Achava difícil imaginar Scheherazade como uma estudante do colegial. Ela era mais magra nesse tempo, sem a flacidez de hoje? O uniforme escolar, as meias brancas, o seu cabelo em tranças?

Ele ainda não tinha fome, de modo que deixou o jantar de lado e voltou para o livro que estava lendo, apenas para descobrir que não conseguia se concentrar. A imagem de Scheherazade entrando no quarto de seu colega de sala e afundando o rosto na camisa dele ainda estava fresca na cabeça. Ele estava impaciente para ouvir o que aconteceu em seguida.

A próxima visita de Scheherazade aconteceria em três dias, depois de passado o final de semana. Como sempre, ela chegou carregando grandes sacos de papel cheios de mantimentos. Analisou a comida que estava na geladeira, repondo aquilo que passara da data de validade, examinou os enlatados e as garrafas do armário, checou a quantidade de condimentos e temperos para ver se estavam acabando, e escreveu uma lista de compras. Ela colocou algumas garrafas de Perrier na geladeira para gelarem. Por fim, empilhou na mesa os novos livros e DVDs que trouxera.

“Tem mais alguma coisa que você precise ou queira?”

“Não consigo pensar em nada,” Habara respondeu.

Então, como de costume, os dois foram para cama e transaram. Depois de uma boa quantidade de preliminares, ele colocou a camisinha, a penetrou, e, após um bom tempo, ejaculou. Depois de analisar cuidadosamente o conteúdo da camisinha, Scheherazade começou a contar o último desdobramento de sua história.

Ela tinha perdido todo o interesse nos trabalhos escolares. Na aula, ou ela perdia tempo com a medalha e o lápis ou caía em devaneios. Quando voltou para casa, não tinha condições mentais de resolver seu dever de casa. As notas de Scheherazade nunca tinham sido um problema. Ela não era uma das melhores alunas, mas uma garota séria que sempre fazia suas tarefas. Por isso, quando o professor lhe fez uma pergunta durante a aula e ela viu-se incapaz de dar uma resposta adequada, ele ficou mais surpreso do que enfurecido. Eventualmente, ele a chamou para sua sala durante o intervalo. “O que há de errado?” perguntou. “Tem alguma coisa te incomodando?” Ela só conseguiu murmurar vagamente qualquer coisa sobre não estar se sentindo bem. Seu segredo era muito sério e tenebroso para ser revelado a alguém – ela precisava aguentá-lo sozinha.

“Eu tive que invadir a casa dele,” Scheherazade disse. “Fui levada a isso. Como você pode imaginar, era bastante arriscado. Até eu sabia disso. Mais cedo ou mais tarde, alguém me encontraria lá, e chamariam a polícia. A ideia me fez tremer nas bases. Mas não tinha mais volta, não conseguia parar. Dez dias depois da minha segunda ‘visita,’ voltei pra lá de novo. Eu não tive escolha. Senti que se não fizesse, enlouqueceria. Quando olho pra trás, vejo que realmente eu era um pouco louca.”

“Isso não te causou problemas na escola, matar aula tantas vezes?” Habara perguntou.

“Meus pais tinham o seu próprio negócio, por isso estavam muito ocupados para prestar atenção em mim. Eu nunca tinha causado problemas até então, nunca tinha desafiado a autoridade deles. De modo que acharam melhor se retirarem. Falsificar as notas era fácil. Expliquei para o professor representante da minha turma que eu tinha um problema de saúde que me fazia passar metade do dia no hospital de tempos em tempos. Uma vez que os professores estavam quebrando a cabeça para saber o que fazer com os alunos que não iam para a escola há séculos, não se incomodaram com o fato de eu ter de passar metade do dia fora de vez em quando.”

Scheherazade olhou rapidamente para o relógio ao lado da cama antes de continuar.

“Peguei a chave embaixo do tapete e entrei na casa pela terceira vez. Estava tão silenciosa quanto antes – não, ainda mais silenciosa por alguma razão. Tremi quando ouvi a geladeira ligando – parecia um monstro enorme respirando fundo. O telefone tocou enquanto eu estava lá. O toque era tão alto e áspero que pensei que meu coração ia parar. Estava coberta de suor. Ninguém atendeu, é claro, e ele parou depois de ter tocado umas dez vezes. E então a casa ficou ainda mais silenciosa.

Naquele dia, Scheherazade passou um bom tempo espreguiçando-se na cama dele. Desta vez seu coração não bateu tão rápido, e ela pôde respirar normalmente. Ela conseguiu imaginá-lo dormindo tranquilamente ao seu lado, e até mesmo sentir como se o observasse dormindo. Sentiu que, se ela se esticasse, poderia roçar no braço musculoso dele. Ele não estava seu lado, obviamente. Ela encontrava-se apenas imersa em devaneios.

Sentiu um desejo avassalador de cheirá-lo. Ao levantar da cama, andou até a cômoda dele, abriu uma gaveta, e examinou as camisas de dentro. Todas haviam sido lavadas e cuidadosamente dobradas. Estavam impecáveis, e cheirosas, como antes.

E então ela teve uma ideia. Desceu correndo as escadas até o primeiro andar. Lá, no quarto próximo ao banheiro, encontrou um cesto de roupas e removeu a tampa. As roupas sujas de toda família – mãe, filha, e filho – estavam misturadas. Roupas acumuladas de um dia inteiro, era o que parecia. Scheherazade tirou uma peça de roupa masculina. Uma camiseta branca de gola redonda. Deu uma cheirada. O cheiro inconfundível de um rapaz. Um cheiro úmido que ela já conhecia, de quando seus colegas se aproximavam. Nada de excepcional, é claro. Mas o fato de o cheiro ser dele deixou Scheherazade extremamente feliz. Quando colocou o nariz perto das axilas e inalou, sentiu como se o abraçasse, seus braços apertados em volta dela.

Com a camiseta na mão, Scheherazade subiu as escadas para o segundo andar e mais uma vez deitou na cama dele. Enterrou o rosto em sua camisa e aspirou avidamente. Dessa vez, conseguiu sentir uma volúpia nas partes íntimas. Seus mamilos estavam intumescidos também. Estaria perto de menstruar? Não, ainda estava bem longe. Era desejo sexual? Se era, o que poderia fazer a respeito? Não tinha ideia. Entretanto, uma coisa era certa – não havia nada a ser feito diante destas circunstâncias. Não aqui no quarto dele, em sua cama.

No fim, Scheherazade decidiu levar a camisa para casa. Era arriscado, claro. A mãe dele era do tipo que perceberia uma camisa faltando. Mesmo se ela não adivinhasse que tinha sido roubada, ela ainda ficaria se perguntando para onde tinha ido. Qualquer mulher que deixasse a casa brilhando daquele jeito era certamente uma maníaca por limpeza de primeira mão. Quando algo ficava faltando, ela revirava a casa procurando, como um cão farejador, até encontrar. Sem dúvidas, ela descobriria os rastros de Scheherazade no quarto de seu amado filhinho. Mas, mesmo Scheherazade sabendo disso, ela não queria deixar a camisa. O seu cérebro era impotente para persuadir seu coração.

Ao invés disso, ela começou a pensar no que deixar para trás. Sua calcinha parecia a melhor escolha. Era uma calcinha comum, simples, relativamente nova, e havia sido vestida naquela manhã. Ela poderia escondê-la bem no fundo de seu guarda-roupa. Haveria coisa melhor para deixar em troca? Mas, quando a tirou, o tecido estava úmido. Acho que isso tem a ver com o desejo, também, ela pensou. Não adiantaria deixar no quarto dele algo manchado de gozo. Seria uma humilhação para ela. Vestiu-a de volta e começou a pensar em outra coisa para deixar.

Scheherazade interrompeu a história. Por um longo tempo, não disse uma palavra. Deitou de olhos fechados e respirou tranquilamente. Ao seu lado, Habara fez o mesmo, esperando que ela retomasse.

Por fim, ela abriu os olhos e falou. “Ei, senhor Habara,” disse. Foi a primeira vez que ela se dirigiu a ele pelo nome.

Habara olhou para ela.

“Você acha que podemos fazer mais uma vez?”

“Acho que consigo,” ele disse.

E então transaram novamente. Esta vez, no entanto, foi muito diferente da outra. Violento, apaixonado, e extenuante. Não havia dúvidas de que ela atingira o clímax no fim. Uma série de fortes contrações que a deixaram tremendo. Até mesmo seu rosto estava transformado. Para Habara, era como ter um vislumbre da jovem Scheherazade: a mulher em seus braços agora era uma garota perturbada em seus dezessete anos que tinha, de alguma maneira, ficado presa no corpo de uma dona-de-casa de trinta e cinco. Habara podia senti-la, com seus olhos fechados, de corpo trêmulo, cheirando a camiseta suada do garoto.

Desta vez, Scheherazade não lhe contou nenhuma história depois do sexo. E nem checou o conteúdo do preservativo. Eles se deitaram e ficaram em silêncio um ao lado do outro. Os olhos dela estavam bem abertos, e miravam o teto. Assim como uma lampreia deslumbrada com a superfície iluminada da água. O quão maravilhoso seria, Habara pensou, se ele, também, pudesse habitar outro tempo ou espaço – deixar para trás esta clara figura humana e sozinha cujo nome era Nobutaka Habara e tornar-se uma lampreia sem nome. Imaginou ele e Scheherazade lado a lado, suas ventosas presas numa rocha, seus corpos balançando na água, observando a superfície enquanto esperavam que uma truta suculenta passasse.

“E então o que deixou em troca da camisa?” Habara quebrou o silêncio.

Ela não respondeu de imediato.

“Nada,” falou, por fim. “Nada que eu trouxera comigo se equiparava a uma camisa com o cheiro dele. De modo que eu só peguei e fui embora. Foi quando me tornei uma ladra, pura e simplesmente.”

Doze dias depois, quando Scheherazade voltou à casa do garoto pela quarta vez, havia uma nova tranca na porta da frente. A sua cor dourada cintilava no sol do meio dia, como se estivesse se gabando da sua grande solidez. E não tinha nenhuma chave embaixo do tapete. Era nítido que o desaparecimento da camisa havia despertado suspeitas na mãe dele. Ela devia ter procurado por toda parte e ter cruzado com outros sinais que lhe disseram que algo estranho acontecia em sua casa. Seus instintos nunca mentiam, e ela agiu de prontidão.

Scheherazade estava, obviamente, desapontada com este acontecimento, mas ao mesmo tempo ficou aliviada. Era como se alguém aparecesse atrás dela e retirasse um grande peso de seus ombros. Isso significa que eu não tenho que continuar invadindo a casa dele, pensou. Não havia dúvidas de que, se a tranca não tivesse sido mudada, suas “visitas” continuariam indefinidamente. E nem havia dúvidas de que ela aumentaria o número de ações a cada visita. Uma hora ou outra, um membro da família apareceria enquanto ela estivesse no segundo andar. Não haveria por onde escapar. Não poderia se queixar. Era este o futuro que lhe aguardava, mais cedo ou mais tarde, e o resultado poderia ser devastador. Agora ela escapara. Talvez devesse agradecer à mãe dele – embora nunca tivesse a encontrado – por ter olhos de águia.

Scheherazade cheirava a camiseta dele toda noite antes de deitar na cama. Ela dormia com a camiseta do lado. Embrulhava-a num papel e a escondia antes de ir para a escola de manhã. E então, depois do jantar, a desembrulhava cuidadosamente e a cheirava. Ficou preocupada que o cheiro saísse ao longo dos dias, mas isso não aconteceu. O cheiro de suor permanecera na camisa para sempre.

Agora que “visitas” futuras estavam fora de questão, a mente de Scheherazade lentamente voltava ao normal. Ela já não sonhava tanto acordada na aula, e as palavras de seu professor começaram a fazer sentido. Entretanto, seu principal foco não era a voz do professor, mas o comportamento do colega. Ela discretamente permaneceu olhando para ele, tentando detectar uma mudança, qualquer indicação de que ele estivesse nervoso com alguma coisa. Mas ele agiu exatamente do mesmo jeito de sempre. Ele inclinou a cabeça para trás e riu tão naturalmente como antes, e respondeu prontamente quando chamado. Ele gritou alto como de costume durante o treino de futebol e ficou igualmente suado. Ela não conseguia ver nada diferente – só um rapazinho ali em pé, levando uma vida aparentemente despreocupada.

Mesmo assim, Scheherazade percebeu que uma nuvem escura pairava sobre ele. Ou qualquer coisa parecida. Muito provavelmente, ninguém mais sabia. Apenas ela (e, pensando bem, possivelmente sua mãe). Em sua terceira “visita”, ela se deparara com algumas revistas pornográficas meticulosamente escondidas nas partes mais fundas do guarda-roupa dele. Eram repletas de fotos de mulheres nuas, abrindo suas pernas e oferecendo uma visão privilegiada de suas genitálias. Algumas fotos mostravam o ato sexual: homens penetrando corpos femininos com pênis grandes como varas, nas posições mais estranhas. Scheherazade nunca pusera o olho em fotos desse tipo. Ela sentou na escrivaninha dele e folheou as revistas devagar, estudando cada foto com grande interesse. Imaginou que ele se masturbasse enquanto as via. Mas a ideia não lhe parecia exatamente repulsiva. Ela via a masturbação como uma atividade perfeitamente normal. Todo aquele esperma deveria ir para algum lugar, assim como garotas precisavam menstruar. Em outras palavras, ele era um adolescente comum. Nem herói nem santo. Saber disso era meio que um alívio.

“Quando parei com as minhas ‘visitas’, minha paixão por ele começou a esfriar. Foi aos poucos, como a maré diminuindo na superfície longa e inclinada da praia. De alguma forma, eu me vi cheirando a camisa dele com menos frequência e passando menos tempo acariciando seu lápis e sua medalha. A febre estava passando. O que eu contraíra não se parecia com uma doença, era a própria doença. No tempo que durou, eu não conseguia pensar direito. Talvez todo mundo passe por um período de loucura similar uma hora ou outra. Ou talvez fosse algo que só acontecera comigo. E você? Já teve uma experiência assim?”

Habara tentou lembrar, mas lhe deu um branco. “Não, nada tão marcante, eu acho,” disse.

Scheherazade pareceu um pouco desapontada com a resposta dele.

“De qualquer forma, eu esqueci dele assim que me formei. Tão rápida e facilmente que foi estranho. O que eu vi nele que fez minha adolescente de dezessete anos se apaixonar tanto? Por mais que tentasse, não conseguia lembrar. A vida é estranha, não é? Você pode estar totalmente envolvida com algo num minuto, querer sacrificar tudo para fazer essa coisa ser sua, mas então um tempinho passa, ou sua perspectiva muda um pouco, e de repente você fica surpreso como aquilo perdeu o encanto. O que eu estava vendo? Você deve se perguntar. E então esta é a história de quando eu invadia casas.”

Ela fez com que se parecesse com o “Período Azul” de Picasso, Habara pensou. Mas ele entendeu o que ela tentara transmitir.

Ela espiou o relógio ao lado da cama. Já era quase hora de ir.

“Para dizer a verdade,” ela disse finalmente, “a história não acaba aqui. Uns anos atrás, quando estava no meu segundo ano da escola de enfermagem, a força do destino nos uniu novamente. A mãe dele contribuiu pra isso; na realidade, tinha algo de assustador naquilo tudo – se parecia com aquelas histórias de fantasma. Os acontecimentos tomaram um rumo inacreditável. Você gostaria de ouvir?”

“Eu adoraria,” Habara disse.

“É melhor esperar até minha próxima visita,” Scheherazade disse. “Está ficando tarde. Tenho que ir pra casa preparar o jantar.”

Ela desceu da cama e se vestiu – calcinhas, meias, regata, e, por fim, sua saia e blusa. Habara distraidamente assistiu da cama aos seus movimentos. Ficava impressionado porque o jeito das mulheres se vestirem podia ser mais interessante do que o jeito de elas se despirem.

“Tem algum livro em particular que você queira que eu traga?” ela perguntou, no caminho até a porta.

“Não, nada que consiga lembrar,” ele respondeu. O que ele realmente queria, pensou, era que ela lhe contasse o resto da história, mas não disse. Se o fizesse, poderia diminuir suas chances de ouvi-la.

Habara foi para cama cedo naquela noite e pensou em Scheherazade. Talvez ele nunca mais a visse de novo. Isso o deixou preocupado. É que a possibilidade era muito real. Nenhum laço – nenhum voto, nenhum acordo implícito – os unia. A relação entre eles era uma relação casual, criada por alguém, e poderia terminar se essa pessoa assim quisesse. Em outras palavras, eles estavam unidos por um fio delicado. Era provável – não, era certo – de que esse fio uma hora se rompesse e todas as histórias estranhas e peculiares que ela teria lhe contado fossem perdidas. A única pergunta era quando.
Era também possível que, em algum momento, ele fosse totalmente privado de liberdade, neste caso, não só Scheherazade, mas todas as mulheres desapareceriam de sua vida. Nunca mais ele poderia penetrar seus corpos quentes e úmidos. Nunca mais ele sentiria suas tremulações em resposta. Talvez uma perspectiva ainda mais assustadora para Habara do que o fim do sexo, porém, era a perda daqueles momentos de troca de intimidade. Os momentos que passava com as mulheres eram a oportunidade de viver a realidade, por um lado, enquanto eram uma espécie de negação da realidade, por outro. Isso Scheherazade tinha lhe dado até demais – de fato, sua capacidade era inesgotável. Só de pensar em perder tudo aquilo, ficava extremamente triste.

Habara fechou os olhos e parou de pensar em Scheherazade. Ao invés disso, pensou em lampreias. Lampreias sem mandíbulas presas nas rochas, se escondendo entre as plantas aquáticas, balançando para lá e para cá nas águas. Ele imaginou ser uma delas, esperando uma truta aparecer. Mas nenhuma truta passava por ele, não importava o quanto esperasse. Nenhuma gorda, nenhuma magra, nenhuma truta no geral. Em certo momento, o sol se pôs e o mundo dele desdobrou-se em escuridão.

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Scheherazade
Haruki Murakami

Each time they had sex, she told Habara a strange and gripping story afterward. Like Queen Scheherazade in “A Thousand and One Nights.” Though, of course, Habara, unlike the king, had no plan to chop off her head the next morning. (She never stayed with him till morning, anyway.) She told Habara the stories because she wanted to, because, he guessed, she enjoyed curling up in bed and talking to a man during those languid, intimate moments after making love. And also, probably, because she wished to comfort Habara, who had to spend every day cooped up indoors.
Because of this, Habara had dubbed the woman Scheherazade. He never used the name to her face, but it was how he referred to her in the small diary he kept. “Scheherazade came today,” he’d note in ballpoint pen. Then he’d record the gist of that day’s story in simple, cryptic terms that were sure to baffle anyone who might read the diary later.
Habara didn’t know whether her stories were true, invented, or partly true and partly invented. He had no way of telling. Reality and supposition, observation and pure fancy seemed jumbled together in her narratives. Habara therefore enjoyed them as a child might, without questioning too much. What possible difference could it make to him, after all, if they were lies or truth, or a complicated patchwork of the two?
Whatever the case, Scheherazade had a gift for telling stories that touched the heart. No matter what sort of story it was, she made it special. Her voice, her timing, her pacing were all flawless. She captured her listener’s attention, tantalized him, drove him to ponder and speculate, and then, in the end, gave him precisely what he’d been seeking. Enthralled, Habara was able to forget the reality that surrounded him, if only for a moment. Like a blackboard wiped with a damp cloth, he was erased of worries, of unpleasant memories. Who could ask for more? At this point in his life, that kind of forgetting was what Habara desired more than anything else.
Scheherazade was thirty-five, four years older than Habara, and a full-time housewife with two children in elementary school (though she was also a registered nurse and was apparently called in for the occasional job). Her husband was a typical company man. Their home was a twenty-minute drive away from Habara’s. This was all (or almost all) the personal information she had volunteered. Habara had no way of verifying any of it, but he could think of no particular reason to doubt her. She had never revealed her name. “There’s no need for you to know, is there?” Scheherazade had asked. Nor had she ever called Habara by his name, though of course she knew what it was. She judiciously steered clear of the name, as if it would somehow be unlucky or inappropriate to have it pass her lips.
On the surface, at least, this Scheherazade had nothing in common with the beautiful queen of “A Thousand and One Nights_._” She was on the road to middle age and already running to flab, with jowls and lines webbing the corners of her eyes. Her hair style, her makeup, and her manner of dress weren’t exactly slapdash, but neither were they likely to receive any compliments. Her features were not unattractive, but her face lacked focus, so that the impression she left was somehow blurry. As a consequence, those who walked by her on the street, or shared the same elevator, probably took little notice of her. Ten years earlier, she might well have been a lively and attractive young woman, perhaps even turned a few heads. At some point, however, the curtain had fallen on that part of her life and it seemed unlikely to rise again.
Scheherazade came to see Habara twice a week. Her days were not fixed, but she never came on weekends. No doubt she spent that time with her family. She always phoned an hour before arriving. She bought groceries at the local supermarket and brought them to him in her car, a small blue Mazda hatchback. An older model, it had a dent in its rear bumper and its wheels were black with grime. Parking it in the reserved space assigned to the house, she would carry the bags to the front door and ring the bell. After checking the peephole, Habara would release the lock, unhook the chain, and let her in. In the kitchen, she’d sort the groceries and arrange them in the refrigerator. Then she’d make a list of things to buy for her next visit. She performed these tasks skillfully, with a minimum of wasted motion, and saying little throughout.
Once she’d finished, the two of them would move wordlessly to the bedroom, as if borne there by an invisible current. Scheherazade quickly removed her clothes and, still silent, joined Habara in bed. She barely spoke during their lovemaking, either, performing each act as if completing an assignment. When she was menstruating, she used her hand to accomplish the same end. Her deft, rather businesslike manner reminded Habara that she was a licensed nurse.
After sex, they lay in bed and talked. More accurately, she talked and he listened, adding an appropriate word here, asking the occasional question there. When the clock said four-thirty, she would break off her story (for some reason, it always seemed to have just reached a climax), jump out of bed, gather up her clothes, and get ready to leave. She had to go home, she said, to prepare dinner.
Habara would see her to the door, replace the chain, and watch through the curtains as the grimy little blue car drove away. At six o’ clock, he made a simple dinner and ate it by himself. He had once worked as a cook, so putting a meal together was no great hardship. He drank Perrier with his dinner (he never touched alcohol) and followed it with a cup of coffee, which he sipped while watching a DVD or reading. He liked long books, especially those he had to read several times to understand. There wasn’t much else to do. He had no one to talk to. No one to phone. With no computer, he had no way of accessing the Internet. No newspaper was delivered, and he never watched television. (There was a good reason for that.) It went without saying that he couldn’t go outside. Should Scheherazade’s visits come to a halt for some reason, he would be left all alone.
Habara was not overly concerned about this prospect. If that happens, he thought, it will be hard, but I’ll scrape by one way or another. I’m not stranded on a desert island. No, he thought, I am a desert island. He had always been comfortable being by himself. What did bother him, though, was the thought of not being able to talk in bed with Scheherazade. Or, more precisely, missing the next installment of her story.
“I was a lamprey eel in a former life,” Scheherazade said once, as they lay in bed together. It was a simple, straightforward comment, as offhand as if she had announced that the North Pole was in the far north. Habara hadn’t a clue what sort of creature a lamprey was, much less what one looked like. So he had no particular opinion on the subject.
“Do you know how a lamprey eats a trout?” she asked.
He didn’t. In fact, it was the first time he’d heard that lampreys ate trout.
“Lampreys have no jaws. That’s what sets them apart from other eels.”
“Huh? Eels have jaws?”
“Haven’t you ever taken a good look at one?” she said, surprised.
“I do eat eel now and then, but I’ve never had an opportunity to see if they have jaws.”
“Well, you should check it out sometime. Go to an aquarium or someplace like that. Regular eels have jaws with teeth. But lampreys have only suckers, which they use to attach themselves to rocks at the bottom of a river or lake. Then they just kind of float there, waving back and forth, like weeds.”
Habara imagined a bunch of lampreys swaying like weeds at the bottom of a lake. The scene seemed somehow divorced from reality, although reality, he knew, could at times be terribly unreal.
“Lampreys live like that, hidden among the weeds. Lying in wait. Then, when a trout passes overhead, they dart up and fasten on to it with their suckers. Inside their suckers are these tonguelike things with teeth, which rub back and forth against the trout’s belly until a hole opens up and they can start eating the flesh, bit by bit.”
“I wouldn’t like to be a trout,” Habara said.
“Back in Roman times, they raised lampreys in ponds. Uppity slaves got chucked in and the lampreys ate them alive.”
Habara thought that he wouldn’t have enjoyed being a Roman slave, either.
“The first time I saw a lamprey was back in elementary school, on a class trip to the aquarium,” Scheherazade said. “The moment I read the description of how they lived, I knew that I’d been one in a former life. I mean, I could actually remember—being fastened to a rock, swaying invisibly among the weeds, eying the fat trout swimming by above me.”
“Can you remember eating them?”
“No, I can’t.” [cartoon id=”a18531″]
“That’s a relief,” Habara said. “But is that all you recall from your life as a lamprey—swaying to and fro at the bottom of a river?”
“A former life can’t be called up just like that,” she said. “If you’re lucky, you get a flash of what it was like. It’s like catching a glimpse through a tiny hole in a wall. Can you recall any of your former lives?”
“No, not one,” Habara said. Truth be told, he had never felt the urge to revisit a former life. He had his hands full with the present one.
“Still, it felt pretty neat at the bottom of the lake. Upside down with my mouth fastened to a rock, watching the fish pass overhead. I saw a really big snapping turtle once, too, a humongous black shape drifting past, like the evil spaceship in ‘Star Wars.’ And big white birds with long, sharp beaks; from below, they looked like white clouds floating across the sky.”
“And you can see all these things now?”
“As clear as day,” Scheherazade said. “The light, the pull of the current, everything. Sometimes I can even go back there in my mind.”
“To what you were thinking then?”
“Yeah.”
“What do lampreys think about?”
“Lampreys think very lamprey-like thoughts. About lamprey-like topics in a context that’s very lamprey-like. There are no words for those thoughts. They belong to the world of water. It’s like when we were in the womb. We were thinking things in there, but we can’t express those thoughts in the language we use out here. Right?”
“Hold on a second! You can remember what it was like in the womb?”
“Sure,” Scheherazade said, lifting her head to see over his chest. “Can’t you?”
No, he said. He couldn’t.
“Then I’ll tell you sometime. About life in the womb.”
“Scheherazade, Lamprey, Former Lives” was what Habara recorded in his diary that day. He doubted that anyone who came across it would guess what the words meant.
Habara had met Scheherazade for the first time four months earlier. He had been transported to this house, in a provincial city north of Tokyo, and she had been assigned to him as his “support liaison.” Since he couldn’t go outside, her role was to buy food and other items he required and bring them to the house. She also tracked down whatever books and magazines he wished to read, and any CDs he wanted to listen to. In addition, she chose an assortment of DVDs—though he had a hard time accepting her criteria for selection on this front.
A week after he arrived, as if it were a self-evident next step, Scheherazade had taken him to bed. There had been condoms on the bedside table when he arrived. Habara guessed that sex was one of her assigned duties—or perhaps “support activities” was the term they used. Whatever the term, and whatever her motivation, he’d gone with the flow and accepted her proposal without hesitation.
Their sex was not exactly obligatory, but neither could it be said that their hearts were entirely in it. She seemed to be on guard, lest they grow too enthusiastic—just as a driving instructor might not want his students to get too excited about their driving. Yet, while the lovemaking was not what you’d call passionate, it wasn’t entirely businesslike, either. It may have begun as one of her duties (or, at least, as something that was strongly encouraged), but at a certain point she seemed—if only in a small way—to have found a kind of pleasure in it. Habara could tell this from certain subtle ways in which her body responded, a response that delighted him as well. After all, he was not a wild animal penned up in a cage but a human being equipped with his own range of emotions, and sex for the sole purpose of physical release was hardly fulfilling. Yet to what extent did Scheherazade see their sexual relationship as one of her duties, and how much did it belong to the sphere of her personal life? He couldn’t tell.
This was true of other things, too. Habara often found Scheherazade’s feelings and intentions hard to read. For example, she wore plain cotton panties most of the time. The kind of panties he imagined housewives in their thirties usually wore—though this was pure conjecture, since he had no experience with housewives of that age. Some days, however, she turned up in colorful, frilly silk panties instead. Why she switched between the two he hadn’t a clue.
The other thing that puzzled him was the fact that their lovemaking and her storytelling were so closely linked, making it hard to tell where one ended and the other began. He had never experienced anything like this before: although he didn’t love her, and the sex was so-so, he was tightly bound to her physically. It was all rather confusing.
“I was a teen-ager when I started breaking into empty houses,” she said one day as they lay in bed.
Habara—as was often the case when she told stories—found himself at a loss for words.
“Have you ever broken into somebody’s house?” she asked.
“I don’t think so,” he answered in a dry voice.
“Do it once and you get addicted.”
“But it’s illegal.”
“You betcha. It’s dangerous, but you still get hooked.”
Habara waited quietly for her to continue.
“The coolest thing about being in someone else’s house when there’s no one there,” Scheherazade said, “is how silent it is. Not a sound. It’s like the quietest place in the world. That’s how it felt to me, anyway. When I sat on the floor and kept absolutely still, my life as a lamprey came back to me. I told you about my being a lamprey in a former life, right?”
“Yes, you did.”
“It was just like that. My suckers stuck to a rock underwater and my body waving back and forth overhead, like the weeds around me. Everything so quiet. Though that may have been because I had no ears. On sunny days, light shot down from the surface like an arrow. Fish of all colors and shapes drifted by above. And my mind was empty of thoughts. Other than lamprey thoughts, that is. Those were cloudy but very pure. It was a wonderful place to be.”
The first time Scheherazade broke into someone’s house, she explained, she was a high-school junior and had a serious crush on a boy in her class. Though he wasn’t what you would call handsome, he was tall and clean-cut, a good student who played on the soccer team, and she was powerfully attracted to him. But he apparently liked another girl in their class and took no notice of Scheherazade. In fact, it was possible that he was unaware she existed. Nevertheless, she couldn’t get him out of her mind. Just seeing him made her breathless; sometimes she felt as if she were going to throw up. If she didn’t do something about it, she thought, she might go crazy. But confessing her love was out of the question.
One day, Scheherazade skipped school and went to the boy’s house. It was about a fifteen-minute walk from where she lived. She had researched his family situation beforehand. His mother taught Japanese language at a school in a neighboring town. His father, who had worked at a cement company, had been killed in a car accident some years earlier. His sister was a junior-high-school student. This meant that the house should be empty during the day.
Not surprisingly, the front door was locked. Scheherazade checked under the mat for a key. Sure enough, there was one there. Quiet residential communities in provincial cities like theirs had little crime, and a spare key was often left under a mat or a potted plant.
To be safe, Scheherazade rang the bell, waited to make sure there was no answer, scanned the street in case she was being observed, opened the door, and entered. She locked the door again from the inside. Taking off her shoes, she put them in a plastic bag and stuck it in the knapsack on her back. Then she tiptoed up the stairs to the second floor.
His bedroom was there, as she had imagined. His bed was neatly made. On the bookshelf was a small stereo, with a few CDs. On the wall, there was a calendar with a photo of the Barcelona soccer team and, next to it, what looked like a team banner, but nothing else. No posters, no pictures. Just a cream-colored wall. A white curtain hung over the window. The room was tidy, everything in its place. No books strewn about, no clothes on the floor. The room testified to the meticulous personality of its inhabitant. Or else to a mother who kept a perfect house. Or both. It made Scheherazade nervous. Had the room been sloppier, no one would have noticed whatever little messes she might make. Yet, at the same time, the very cleanliness and simplicity of the room, its perfect order, made her happy. It was so like him.
Scheherazade lowered herself into the desk chair and sat there for a while. This is where he studies every night, she thought, her heart pounding. One by one, she picked up the implements on the desk, rolled them between her fingers, smelled them, held them to her lips. His pencils, his scissors, his ruler, his stapler—the most mundane objects became somehow radiant because they were his. [cartoon id=”a18532″]
She opened his desk drawers and carefully checked their contents. The uppermost drawer was divided into compartments, each of which contained a small tray with a scattering of objects and souvenirs. The second drawer was largely occupied by notebooks for the classes he was taking at the moment, while the one on the bottom (the deepest drawer) was filled with an assortment of old papers, notebooks, and exams. Almost everything was connected either to school or to soccer. She’d hoped to come across something personal—a diary, perhaps, or letters—but the desk held nothing of that sort. Not even a photograph. That struck Scheherazade as a bit unnatural. Did he have no life outside of school and soccer? Or had he carefully hidden everything of a private nature, where no one would come across it?
Still, just sitting at his desk and running her eyes over his handwriting moved Scheherazade beyond words. To calm herself, she got out of the chair and sat on the floor. She looked up at the ceiling. The quiet around her was absolute. In this way, she returned to the lampreys’ world.
“So all you did,” Habara asked, “was enter his room, go through his stuff, and sit on the floor?”
“No,” Scheherazade said. “There was more. I wanted something of his to take home. Something that he handled every day or that had been close to his body. But it couldn’t be anything important that he would miss. So I stole one of his pencils.”
“A single pencil?”
“Yes. One that he’d been using. But stealing wasn’t enough. That would make it a straightforward case of burglary. The fact that I had done it would be lost. I was the Love Thief, after all.”
The Love Thief? It sounded to Habara like the title of a silent film.
“So I decided to leave something behind in its place, a token of some sort. As proof that I had been there. A declaration that this was an exchange, not a simple theft. But what should it be? Nothing popped into my head. I searched my knapsack and my pockets, but I couldn’t find anything appropriate. I kicked myself for not having thought to bring something suitable. Finally, I decided to leave a tampon behind. An unused one, of course, still in its plastic wrapper. My period was getting close, so I was carrying it around just to be safe. I hid it at the very back of the bottom drawer, where it would be difficult to find. That really turned me on. The fact that a tampon of mine was stashed away in his desk drawer. Maybe it was because I was so turned on that my period started almost immediately after that.”
A tampon for a pencil, Habara thought. Perhaps that was what he should write in his diary that day: “Love Thief, Pencil, Tampon.” He’d like to see what they’d make of that!
“I was there in his home for only fifteen minutes or so. I couldn’t stay any longer than that: it was my first experience of sneaking into a house, and I was scared that someone would turn up while I was there. I checked the street to make sure that the coast was clear, slipped out the door, locked it, and replaced the key under the mat. Then I went to school. Carrying his precious pencil.”
Scheherazade fell silent. From the look of it, she had gone back in time and was picturing the various things that had happened next, one by one.
“That week was the happiest of my life,” she said after a long pause. “I scribbled random things in my notebook with his pencil. I sniffed it, kissed it, rubbed my cheek with it, rolled it between my fingers. Sometimes I even stuck it in my mouth and sucked on it. Of course, it pained me that the more I wrote the shorter it got, but I couldn’t help myself. If it got too short, I thought, I could always go back and get another. There was a whole bunch of used pencils in the pencil holder on his desk. He wouldn’t have a clue that one was missing. And he probably still hadn’t found the tampon tucked away in his drawer. That idea excited me no end—it gave me a strange ticklish sensation down below. It didn’t bother me anymore that in the real world he never looked at me or showed that he was even aware of my existence. Because I secretly possessed something of his—a part of him, as it were.”
Ten days later, Scheherazade skipped school again and paid a second visit to the boy’s house. It was eleven o’clock in the morning. As before, she fished the key from under the mat and opened the door. Again, his room was in flawless order. First, she selected a pencil with a lot of use left in it and carefully placed it in her pencil case. Then she gingerly lay down on his bed, her hands clasped on her chest, and looked up at the ceiling. This was the bed where he slept every night. The thought made her heart beat faster, and she found it difficult to breathe normally. Her lungs weren’t filling with air and her throat was as dry as a bone, making each breath painful.
Scheherazade got off the bed, straightened the covers, and sat down on the floor, as she had on her first visit. She looked back up at the ceiling. I’m not quite ready for his bed, she told herself. That’s still too much to handle.
This time, Scheherazade spent half an hour in the house. She pulled his notebooks from the drawer and glanced through them. She found a book report and read it. It was on “Kokoro,” a novel by Soseki Natsume, that summer’s reading assignment. His handwriting was beautiful, as one would expect from a straight-A student, not an error or an omission anywhere. The grade on it was Excellent. What else could it be? Any teacher confronted with penmanship that perfect would automatically give it an Excellent, whether he bothered to read a single line or not.
Scheherazade moved on to the chest of drawers, examining its contents in order. His underwear and socks. Shirts and pants. His soccer uniform. They were all neatly folded. Nothing stained or frayed. Had he done the folding? Or, more likely, had his mother done it for him? She felt a pang of jealousy toward the mother, who could do these things for him each and every day.
Scheherazade leaned over and sniffed the clothes in the drawers. They all smelled freshly laundered and redolent of the sun. She took out a plain gray T-shirt, unfolded it, and pressed it to her face. Might not a whiff of his sweat remain under the arms? But there was nothing. Nevertheless, she held it there for some time, inhaling through her nose. She wanted to keep the shirt for herself. But that would be too risky. His clothes were so meticulously arranged and maintained. He (or his mother) probably knew the exact number of T-shirts in the drawer. If one went missing, all hell might break loose.Scheherazade carefully refolded the T-shirt and returned it to its proper place. In its stead, she took a small badge, shaped like a soccer ball, that she found in one of the desk drawers. It seemed to date back to a team from his grade-school years. She doubted that he would miss it. At the very least, it would be some time before he noticed that it was gone. While she was at it, she checked the bottom drawer of the desk for the tampon. It was still there.
Scheherazade tried to imagine what would happen if his mother discovered the tampon. What would she think? Would she demand that he explain what on earth a tampon was doing in his desk? Or would she keep her discovery a secret, turning her dark suspicions over and over in her mind? Scheherazade had no idea. But she decided to leave the tampon where it was. After all, it was her very first token.
To commemorate her second visit, Scheherazade left behind three strands of her hair. The night before, she had plucked them out, wrapped them in plastic, and sealed them in a tiny envelope. Now she took this envelope from her knapsack and slipped it into one of the old math notebooks in his drawer. The three hairs were straight and black, neither too long nor too short. No one would know whose they were without a DNA test, though they were clearly a girl’s.
She left his house and went straight to school, arriving in time for her first afternoon class. Once again, she was content for about ten days. She felt that he had become that much more hers. But, as you might expect, this chain of events would not end without incident. For, as Scheherazade had said, sneaking into other people’s homes is highly addictive.
At this point in the story Scheherazade glanced at the bedside clock and saw that it was 4:32 p.m. “Got to get going,” she said, as if to herself. She hopped out of bed and put on her plain white panties, hooked her bra, slipped into her jeans, and pulled her dark-blue Nike sweatshirt over her head. Then she scrubbed her hands in the bathroom, ran a brush through her hair, and drove away in her blue Mazda.
Left alone with nothing in particular to do, Habara lay in bed and ruminated on the story she had just told him, savoring it bit by bit, like a cow chewing its cud. Where was it headed? he wondered. As with all her stories, he hadn’t a clue. He found it difficult to picture Scheherazade as a high-school student. Was she slender then, free of the flab she carried today? School uniform, white socks, her hair in braids? [cartoon id=”a18476″]
He wasn’t hungry yet, so he put off preparing his dinner and went back to the book he had been reading, only to find that he couldn’t concentrate. The image of Scheherazade sneaking into her classmate’s room and burying her face in his shirt was too fresh in his mind. He was impatient to hear what had happened next.
Scheherazade’s next visit to the house was three days later, after the weekend had passed. As always, she came bearing large paper bags stuffed with provisions. She went through the food in the fridge, replacing everything that was past its expiration date, examined the canned and bottled goods in the cupboard, checked the supply of condiments and spices to see what was running low, and wrote up a shopping list. She put some bottles of Perrier in the fridge to chill. Finally, she stacked the new books and DVDs she had brought with her on the table.
“Is there something more you need or want?”
“Can’t think of anything,” Habara replied.
Then, as always, the two went to bed and had sex. After an appropriate amount of foreplay, he slipped on his condom, entered her, and, after an appropriate amount of time, ejaculated. After casting a professional eye on the contents of his condom, Scheherazade began the latest installment of her story.
As before, she felt happy and fulfilled for ten days after her second break-in. She tucked the soccer badge away in her pencil case and from time to time fingered it during class. She nibbled on the pencil she had taken and licked the lead. All the time she was thinking of his room. She thought of his desk, the bed where he slept, the chest of drawers packed with his clothes, his pristine white boxer shorts, and the tampon and three strands of hair she had hidden in his drawer.
She had lost all interest in schoolwork. In class, she either fiddled with the badge and the pencil or gave in to daydreams. When she went home, she was in no state of mind to tackle her homework. Scheherazade’s grades had never been a problem. She wasn’t a top student, but she was a serious girl who always did her assignments. So when her teacher called on her in class and she was unable to give a proper answer, he was more puzzled than angry. Eventually, he summoned her to the staff room during the lunch break. “What’s the problem?” he asked her. “Is anything bothering you?” She could only mumble something vague about not feeling well. Her secret was too weighty and dark to reveal to anyone—she had to bear it alone.
“I had to keep breaking into his house,” Scheherazade said. “I was compelled to. As you can imagine, it was a very risky business. Even I could see that. Sooner or later, someone would find me there, and the police would be called. The idea scared me to death. But, once the ball was rolling, there was no way I could stop it. Ten days after my second ‘visit,’ I went there again. I had no choice. I felt that if I didn’t I would go off the deep end. Looking back, I think I really was a little crazy.”
“Didn’t it cause problems for you at school, skipping class so often?” Habara asked.
“My parents had their own business, so they were too busy to pay much attention to me. I’d never caused any problems up to then, never challenged their authority. So they figured a hands-off approach was best. Forging notes for school was a piece of cake. I explained to my homeroom teacher that I had a medical problem that required me to spend half a day at the hospital from time to time. Since the teachers were racking their brains over what to do about the kids who hadn’t come to school in ages, they weren’t too concerned about me taking half a day off every now and then.”
Scheherazade shot a quick glance at the clock next to the bed before continuing.
“I got the key from under the mat and entered the house for a third time. It was as quiet as before—no, even quieter for some reason. It rattled me when the refrigerator turned on—it sounded like a huge beast sighing. The phone rang while I was there. The ringing was so loud and harsh that I thought my heart would stop. I was covered with sweat. No one picked up, of course, and it stopped after about ten rings. The house felt even quieter then.”
Scheherazade spent a long time stretched out on his bed that day. This time her heart did not pound so wildly, and she was able to breathe normally. She could imagine him sleeping peacefully beside her, even feel as if she were watching over him as he slept. She felt that, if she reached out, she could touch his muscular arm. He wasn’t there next to her, of course. She was just lost in a haze of daydreams.
She felt an overpowering urge to smell him. Rising from the bed, she walked over to his chest of drawers, opened one, and examined the shirts inside. All had been washed and neatly folded. They were pristine, and free of odor, just like before.
Then an idea struck her. She raced down the stairs to the first floor. There, in the room beside the bath, she found the laundry hamper and removed the lid. Mixed together were the soiled clothes of the three family members—mother, daughter, and son. A day’s worth, from the looks of it. Scheherazade extracted a piece of male clothing. A white crew-neck T-shirt. She took a whiff. The unmistakable scent of a young man. A mustiness she had smelled before, when her male classmates were close by. Not a scintillating odor, to be sure. But the fact that this smell was his brought Scheherazade unbounded joy. When she put her nose next to the armpits and inhaled, she felt as though she were in his embrace, his arms wrapped firmly about her.
T-shirt in hand, Scheherazade climbed the stairs to the second floor and lay on his bed once more. She buried her face in his shirt and greedily breathed in. Now she could feel a languid sensation in the lower part of her body. Her nipples were stiffening as well. Could her period be on the way? No, it was much too early. Was this sexual desire? If so, then what could she do about it? She had no idea. One thing was for sure, though—there was nothing to be done under these circumstances. Not here in his room, on his bed.
In the end, Scheherazade decided to take the shirt home with her. It was risky, for sure. His mother was likely to figure out that a shirt was missing. Even if she didn’t realize that it had been stolen, she would still wonder where it had gone. Any woman who kept her house so spotless was bound to be a neat freak of the first order. When something went missing, she would search the house from top to bottom, like a police dog, until she found it. Undoubtedly, she would uncover the traces of Scheherazade in her precious son’s room. But, even as Scheherazade understood this, she didn’t want to part with the shirt. Her brain was powerless to persuade her heart.
Instead, she began thinking about what to leave behind. Her panties seemed like the best choice. They were of an ordinary sort, simple, relatively new, and fresh that morning. She could hide them at the very back of his closet. Could there be anything more appropriate to leave in exchange? But, when she took them off, the crotch was damp. I guess this comes from desire, too, she thought. It would hardly do to leave something tainted by her lust in his room. She would only be degrading herself. She slipped them back on and began to think about what else to leave.
Scheherazade broke off her story. For a long time, she didn’t say a word. She lay there breathing quietly with her eyes closed. Beside her, Habara followed suit, waiting for her to resume.
At last, she opened her eyes and spoke. “Hey, Mr. Habara,” she said. It was the first time she had addressed him by name.
Habara looked at her.
“Do you think we could do it one more time?”
“I think I could manage that,” he said.
So they made love again. This time, though, was very different from the time before. Violent, passionate, and drawn out. Her climax at the end was unmistakable. A series of powerful spasms that left her trembling. Even her face was transformed. For Habara, it was like catching a brief glimpse of Scheherazade in her youth: the woman in his arms was now a troubled seventeen-year-old girl who had somehow become trapped in the body of a thirty-five-year-old housewife. Habara could feel her in there, her eyes closed, her body quivering, innocently inhaling the aroma of a boy’s sweaty T-shirt.
This time, Scheherazade did not tell him a story after sex. Nor did she check the contents of his condom. They lay there quietly next to each other. Her eyes were wide open, and she was staring at the ceiling. Like a lamprey gazing up at the bright surface of the water. How wonderful it would be, Habara thought, if he, too, could inhabit another time or space—leave this single, clearly defined human being named Nobutaka Habara behind and become a nameless lamprey. He pictured himself and Scheherazade side by side, their suckers fastened to a rock, their bodies waving in the current, eying the surface as they waited for a fat trout to swim smugly by. [cartoon id=”a18541″]
“So what did you leave in exchange for the shirt?” Habara broke the silence.
She did not reply immediately.
“Nothing,” she said at last. “Nothing I had brought along could come close to that shirt with his odor. So I just took it and sneaked out. That was when I became a burglar, pure and simple.”
When, twelve days later, Scheherazade went back to the boy’s house for the fourth time, there was a new lock on the front door. Its gold color gleamed in the midday sun, as if to boast of its great sturdiness. And there was no key hidden under the mat. Clearly, his mother’s suspicions had been aroused by the missing shirt. She must have searched high and low, coming across other signs that told of something strange going on in her house. Her instincts had been unerring, her reaction swift.
Scheherazade was, of course, disappointed by this development, but at the same time she felt relieved. It was as if someone had stepped behind her and removed a great weight from her shoulders. This means I don’t have to go on breaking into his house, she thought. There was no doubt that, had the lock not been changed, her invasions would have gone on indefinitely. Nor was there any doubt that her actions would have escalated with each visit. Eventually, a member of the family would have shown up while she was on the second floor. There would have been no avenue of escape. No way to talk herself out of her predicament. This was the future that had been waiting for her, sooner or later, and the outcome would have been devastating. Now she had dodged it. Perhaps she should thank his mother—though she had never met the woman—for having eyes like a hawk.
Scheherazade inhaled the aroma of his T-shirt each night before she went to bed. She slept with it next to her. She would wrap it in paper and hide it before she left for school in the morning. Then, after dinner, she would pull it out to caress and sniff. She worried that the odor might fade as the days went by, but that didn’t happen. The smell of his sweat had permeated the shirt for good.
Now that further break-ins were out of the question, Scheherazade’s state of mind slowly began to return to normal. She daydreamed less in class, and her teacher’s words began to register. Nevertheless, her chief focus was not on her teacher’s voice but on her classmate’s behavior. She kept her eye discreetly trained on him, trying to detect a change, any indication at all that he might be nervous about something. But he acted exactly the same as always. He threw his head back and laughed as unaffectedly as ever, and answered promptly when called upon. He shouted as loudly in soccer practice and got just as sweaty. She could see no trace of anything out of the ordinary—just an upright young man, leading a seemingly unclouded existence.
Still, Scheherazade knew of one shadow that was hanging over him. Or something close to that. No one else knew, in all likelihood. Just her (and, come to think of it, possibly his mother). On her third break-in, she had come across a number of pornographic magazines cleverly concealed in the farthest recesses of his closet. They were full of pictures of naked women, spreading their legs and offering generous views of their genitals. Some pictures portrayed the act of sex: men inserted rodlike penises into female bodies in the most unnatural of positions. Scheherazade had never laid eyes on photographs like these before. She sat at his desk and flipped slowly through the magazines, studying each photo with great interest. She guessed that he masturbated while viewing them. But the idea did not strike her as especially repulsive. She accepted masturbation as a perfectly normal activity. All those sperm had to go somewhere, just as girls had to have periods. In other words, he was a typical teen-ager. Neither hero nor saint. She found that knowledge something of a relief.
“When my break-ins stopped, my passion for him began to cool. It was gradual, like the tide ebbing from a long, sloping beach. Somehow or other, I found myself smelling his shirt less often and spending less time caressing his pencil and badge. The fever was passing. What I had contracted was not something like sickness but the real thing. As long as it lasted, I couldn’t think straight. Maybe everybody goes through a crazy period like that at one time or another. Or maybe it was something that happened only to me. How about you? Did you ever have an experience like that?”
Habara tried to remember, but drew a blank. “No, nothing that extreme, I don’t think,” he said.
Scheherazade looked somewhat disappointed by his answer.
“Anyway, I forgot all about him once I graduated. So quickly and easily, it was weird. What was it about him that had made the seventeen-year-old me fall so hard? Try as I might, I couldn’t remember. Life is strange, isn’t it? You can be totally entranced by something one minute, be willing to sacrifice everything to make it yours, but then a little time passes, or your perspective changes a bit, and all of a sudden you’re shocked at how its glow has faded. What was I looking at? you wonder. So that’s the story of my ‘breaking-and-entering’ period.”
She made it sound like Picasso’s Blue Period, Habara thought. But he understood what she was trying to convey.
She glanced at the clock next to the bed. It was almost time for her to leave.
“To tell the truth,” she said finally, “the story doesn’t end there. A few years later, when I was in my second year of nursing school, a strange stroke of fate brought us together again. His mother played a big role in it; in fact, there was something spooky about the whole thing—it was like one of those old ghost stories. Events took a rather unbelievable course. Would you like to hear about it?”
“I’d love to,” Habara said.
“It had better wait till my next visit,” Scheherazade said. “It’s getting late. I’ve got to head home and fix dinner.”
She got out of bed and put on her clothes—panties, stockings, camisole, and, finally, her skirt and blouse. Habara casually watched her movements from the bed. It struck him that the way women put on their clothes could be even more interesting than the way they took them off.
“Any books in particular you’d like me to pick up?” she asked, on her way out the door.
“No, nothing I can think of,” he answered. What he really wanted, he thought, was for her to tell him the rest of her story, but he didn’t put that into words. Doing so might jeopardize his chances of ever hearing it.
Habara went to bed early that night and thought about Scheherazade. Perhaps he would never see her again. That worried him. The possibility was just too real. Nothing of a personal nature—no vow, no implicit understanding—held them together. Theirs was a chance relationship created by someone else, and might be terminated on that person’s whim. In other words, they were attached by a slender thread. It was likely—no, certain—that that thread would eventually be broken and all the strange and unfamiliar tales she might have told would be lost to him. The only question was when.
It was also possible that he would, at some point, be deprived of his freedom entirely, in which case not only Scheherazade but all women would disappear from his life. Never again would he be able to enter the warm moistness of their bodies. Never again would he feel them quiver in response. Perhaps an even more distressing prospect for Habara than the cessation of sexual activity, however, was the loss of the moments of shared intimacy. What his time spent with women offered was the opportunity to be embraced by reality, on the one hand, while negating it entirely on the other. That was something Scheherazade had provided in abundance—indeed, her gift was inexhaustible. The prospect of losing that made him saddest of all.
Habara closed his eyes and stopped thinking of Scheherazade. Instead, he thought of lampreys. Of jawless lampreys fastened to rocks, hiding among the waterweeds, swaying back and forth in the current. He imagined that he was one of them, waiting for a trout to appear. But no trout passed by, no matter how long he waited. Not a fat one, not a skinny one, no trout at all. Eventually the sun went down, and his world was enfolded in darkness.

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“Desperto e sinto – as sombras descem, não o sol”, de Gerard Manley Hopkins

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Tradução: Victor Martins Queiroz

Desperto e sinto – as sombras descem, não o sol.
Quais horas, negras horas, quais! foram perdidas
Na noite! Coração, quais visões, idas-vias
E mais mister: delonga-ao-longe o arrebol.

Eu testemunho. Mas onde diz o texto só
“Horas” — “eras” e “vida”, eu digo. Jeremio
Queixas-sem-conto, um poemorto dado ao imo
Amigo alá o mais distante, ohime! de nós.

Sou félstula, sou miocáustico. Meu Deus
Decrép’ta-me o amargor do gosto: e o fel sou Eu;
Ossagruras e carnavates, maldissangue.

Autânimo fermento obra somente o breu.
E assim quem ‘stá perdido: o seu flagelo — e o meu —
É ser-se, o suardor; e pior, d o r a v a n t e.

**********************************************

Gerard Manley Hopkins

I wake and feel the fell of dark, not day.
What hours, O what black hours we have spent
This night! what sights you, heart, saw; ways you went!
And more must, in yet longer light’s delay.
With witness I speak this. But where I say
Hours I mean years, mean life. And my lament
Is cries countless, cries like dead letters sent
To dearest him that lives alas! away.

I am gall, I am heartburn. God’s most deep decree
Bitter would have me taste: my taste was me;
Bones built in me, flesh filled, blood brimmed the curse.
Selfyeast of spirit a dull dough sours. I see
The lost are like this, and their scourge to be
As I am mine, their sweating selves; but worse.

 

A canção de amor de J. Alfredo Prufrock, de T.S. Eliot

eliot

A canção de amor de J. Alfredo Prufrock
Tradução: Victor Martins Queiroz

Vamos, então, você e eu,
Quando se espalha a noite contra o céu,
Como se, sobre a mesa, um paciente eterizado;
Vamos, então, por entre certas ruas que, demidesertas,
Murmuram, enquanto acobertam
As noites insones em hotéis-de-pouso toscos,
Restaurantes onde a serragem se mistura às ostras:
Ruas que seguem, como um tedioso argumento
De insidioso intento,
Levando-a rumo a uma questão aterradora.
Oh! não pergunte “qual seria?”.
Vamos, então, render nossa visita.

No salão, mulheres vão e vêm, falando
Sobre Miguel Ângelo.

A névoa loura que esfrega as costas nas vidraças,
O fumo louro que esfrega as fuças nas vidraças:
A sua língua fez lamber da noite entre as esquinas;
Languesceu sobre as poças restantes nos ralos;
Deixou pousar nas costas a fuligem dos fumeiros, que fugia;
Escapuliu pelo terraço, escapulou
E, sendo uma noite de Outubro, macia,
Dobrou-se sobre a casa e descansou.

E decerto haverá tempo
Para o louro fumo, que se esgueira pela rua
E esfrega as costas nas vidraças;
Haverá tempo, haverá tempo
De encarar as faces que você encara, uma a uma;
Tempo de cura e de assassinato,
Para o trabalho e os dias de todos os braços
Que erguem e pousam dúvida em seu prato;
Tempo para você e para mim
E tempo ainda para indecisões, centenas!
Para visões e revisões sem fim
Antes do erguer de uma torrada e uma chavena.

No salão, mulheres vão e vêm, falando
Sobre Miguel Ângelo.

E decerto haverá tempo
De indagar “eu ouso? eu ouso?”,
De virar, descer a escada, com um ponto
Calvo bem no meio do meu couro
Cabeludo – (dirão “seus cabelos vão sumindo!”)
Meu fraque, a minha gola alta, subindo
Ao queixo; a gravata, humilde e rica, um broche simples
A firma – (dirão “seus braços, pernas, vão sumindo!”)
Eu ouso
Perturbar o universo?
Há tempo num minuto
Para visões e revisões de que um minuto faça o inverso.

Pois conheci-os todos, já conheci todos;
Conheci as tardes e as manhãs e as noites,
Eu medi-me a vida em colheres de chá;
Conheço a voz que morre com um tombo
Surdo, sob a música de uma sala, atrás.
Mas, então, como presumiria?

E eu já conheci os olhos, já conheci todos;
Olhos que miram-no na frase formulada;
E quando formulado, pregado num pino,
Quando empinado e na parede eu me contorço,
Como, então, dar início
Ao tiroteio de ciladas da mi’a vida e sua estrada?
Como presumiria?

E eu já conheci os braços, já conheci todos –
Com seus braceletes, braços nus e brancos
(Mas que, sob a luz, mostram pêlos castanhos).
É o perfume de um vestido
Que me faz tão digressivo?
Braços que à mesa deitam, ou envoltos num manto.
Como presumiria?
Como, então, dar início?

Deveria dizer “andei, no ocaso, por magras vielas
E vi erguer-se o fumo fora dos cachimbos
De homens em mangas-de-camisa, à beira das janelas?…”

Fora melhor ter sido um par de parcas pinças
Que pelo fundo se arrastassem, do mar mudo.

E a tarde, a noite, dorme tão tranquila!
Acalentam-na longos dedos…
Sono… cansaço… ou fingimento,
Ela se, ao lado de você, de mim, perfila.
Eu deveria, após o chá e o bolo e os gelos
Ter força de impingir a crise a tal momento?
Mas apesar de privação e pranto, prece e pranto,
E apesar de ver minha cabeça (ainda mais calva) ser trazida a mim numa bandeja,
Não sou nenhum profeta – nem assunto sério aqui se enseja;
Vi meu momento de grandeza tiritando,
E o eterno Pagem segurar meu fraque, gargalhando,
E, sem rodeios, tive medo.

E valeria a pena tudo isso, apesar de,
Após as taças, marmeladas, chás,
Por entre as porcelanas, junto a nosso prosear,
Valeria a pena tudo isso,
Mastigar o assunto sob o riso,
O universo espremer numa bola, e fazer
Com que ela role sobre uma questão aterradora,
Dizer: “Sou Lázaro, e estive morto,
Mas retornei para dizer-lhes tudo, eu deverei dizer” –
Se alguém, dela sob a nuca a ajeitar o encosto,
Dissesse: “Não foi isso o que intentei, há nada a ver;
Não há nada, nada a ver.”

E valeria a pena tudo isso, apesar de,
Valeria a pena tudo isso,
Após ocasos, paços, orvalhadas ruas,
Depois das novelas, das chavenas, mesmo após as saias que se arrastam junto ao piso –
E tudo isso e mais que isso? –
É impossível eu dizer só o que intento!
Mas projetassem-se padrões de nervos sobre a tela, num momento:
Valeria a pena tudo isso,
Se alguém, que ajeita um travesseiro ou lança um lenço,
E vira-se à janela, se esse alguém dissesse:
“Não há nada, nada a ver;
Não foi isso o que intentei, há nada a ver.”

Não! Eu não sou Hamlet, e nem deveria sê-lo;
Sou um lorde-na-fila que, em busca
Do sucesso, até faria cena ou duas,
Aconselharia o príncipe; o mão-na-roda,
Distinto, e que se presta ao uso,
Cauto, político, meticuloso;
Cheio de presunção, mas um pouco obtuso;
Por vez, até, alvo de glosa –
Quase, por vez, o Tolo.

Eu envelheço… Eu envelheço…
Devo dobrar a calça atrás dos tornozelos.

Devo partir-me os cabelos? Pêssegos, ouso comê-los?
Vestirei calças brancas de flanela, irei à praia a passeio.
Eu as ouvi cantando, uma sereia a outras sereias.

Não creio para mim hão de cantar.

Vi-as nadando rumo ao mar, por sobre as ondas,
Penteando-lhe os cabelos brancos, quando o vento
Os soprava para trás do aguaçal alvinegro.
Languescemos junto das sereias, nos bolsões do mar,
Com seus lauréis de algas, rubros e castanhos,
‘Té que humanas vozes despertaram-nos, e afogamos.

____________________________

The love song of J. Alfred Prufrock

Let us go then, you and I,
When the evening is spread out against the sky
Like a patient etherized upon a table;
Let us go, through certain half-deserted streets,
The muttering retreats
Of restless nights in one-night cheap hotels
And sawdust restaurants with oyster-shells:
Streets that follow like a tedious argument
Of insidious intent
To lead you to an overwhelming question …
Oh, do not ask, “What is it?”
Let us go and make our visit.

In the room the women come and go
Talking of Michelangelo.

The yellow fog that rubs its back upon the window-panes,
The yellow smoke that rubs its muzzle on the window-panes,
Licked its tongue into the corners of the evening,
Lingered upon the pools that stand in drains,
Let fall upon its back the soot that falls from chimneys,
Slipped by the terrace, made a sudden leap,
And seeing that it was a soft October night,
Curled once about the house, and fell asleep.

And indeed there will be time
For the yellow smoke that slides along the street,
Rubbing its back upon the window-panes;
There will be time, there will be time
To prepare a face to meet the faces that you meet;
There will be time to murder and create,
And time for all the works and days of hands
That lift and drop a question on your plate;
Time for you and time for me,
And time yet for a hundred indecisions,
And for a hundred visions and revisions,
Before the taking of a toast and tea.

In the room the women come and go
Talking of Michelangelo.

And indeed there will be time
To wonder, “Do I dare?” and, “Do I dare?”
Time to turn back and descend the stair,
With a bald spot in the middle of my hair —
(They will say: “How his hair is growing thin!”)
My morning coat, my collar mounting firmly to the chin,
My necktie rich and modest, but asserted by a simple pin —
(They will say: “But how his arms and legs are thin!”)
Do I dare
Disturb the universe?
In a minute there is time
For decisions and revisions which a minute will reverse.

For I have known them all already, known them all:
Have known the evenings, mornings, afternoons,
I have measured out my life with coffee spoons;
I know the voices dying with a dying fall
Beneath the music from a farther room.
So how should I presume?

And I have known the eyes already, known them all—
The eyes that fix you in a formulated phrase,
And when I am formulated, sprawling on a pin,
When I am pinned and wriggling on the wall,
Then how should I begin
To spit out all the butt-ends of my days and ways?
And how should I presume?

And I have known the arms already, known them all—
Arms that are braceleted and white and bare
(But in the lamplight, downed with light brown hair!)
Is it perfume from a dress
That makes me so digress?
Arms that lie along a table, or wrap about a shawl.
And should I then presume?
And how should I begin?

Shall I say, I have gone at dusk through narrow streets
And watched the smoke that rises from the pipes
Of lonely men in shirt-sleeves, leaning out of windows? …

I should have been a pair of ragged claws
Scuttling across the floors of silent seas.

And the afternoon, the evening, sleeps so peacefully!
Smoothed by long fingers,
Asleep … tired … or it malingers,
Stretched on the floor, here beside you and me.
Should I, after tea and cakes and ices,
Have the strength to force the moment to its crisis?
But though I have wept and fasted, wept and prayed,
Though I have seen my head (grown slightly bald) brought in upon a platter,
I am no prophet — and here’s no great matter;
I have seen the moment of my greatness flicker,
And I have seen the eternal Footman hold my coat, and snicker,
And in short, I was afraid.

And would it have been worth it, after all,
After the cups, the marmalade, the tea,
Among the porcelain, among some talk of you and me,
Would it have been worth while,
To have bitten off the matter with a smile,
To have squeezed the universe into a ball
To roll it towards some overwhelming question,
To say: “I am Lazarus, come from the dead,
Come back to tell you all, I shall tell you all”—
If one, settling a pillow by her head
Should say: “That is not what I meant at all;
That is not it, at all.”

And would it have been worth it, after all,
Would it have been worth while,
After the sunsets and the dooryards and the sprinkled streets,
After the novels, after the teacups, after the skirts that trail along the floor—
And this, and so much more?—
It is impossible to say just what I mean!
But as if a magic lantern threw the nerves in patterns on a screen:
Would it have been worth while
If one, settling a pillow or throwing off a shawl,
And turning toward the window, should say:
“That is not it at all,
That is not what I meant, at all.”

No! I am not Prince Hamlet, nor was meant to be;
Am an attendant lord, one that will do
To swell a progress, start a scene or two,
Advise the prince; no doubt, an easy tool,
Deferential, glad to be of use,
Politic, cautious, and meticulous;
Full of high sentence, but a bit obtuse;
At times, indeed, almost ridiculous—
Almost, at times, the Fool.

I grow old … I grow old …
I shall wear the bottoms of my trousers rolled.

Shall I part my hair behind? Do I dare to eat a peach?
I shall wear white flannel trousers, and walk upon the beach.
I have heard the mermaids singing, each to each.

I do not think that they will sing to me.

I have seen them riding seaward on the waves
Combing the white hair of the waves blown back
When the wind blows the water white and black.
We have lingered in the chambers of the sea
By sea-girls wreathed with seaweed red and brown
Till human voices wake us, and we drown.

Brasília – de Sylvia Plath

Brasília – de Sylvia Plath

Brasília, de Sylvia Plath (1962), traduzido por Marília Moschkovich (2017). Homenagem ao 85º aniversário da poeta, que se suicidaria dois meses após escrever este poema e exatamente quarenta dias antes do terceiro aniversário da cidade. Na imagem, Sylvia Plath, vulto, em Yorkshire.


 

Elas acontecem? –
essas pessoas com torso de aço
cotovelos alados e órbitas

Esperam missas, massas
de nuvens que concedem expressão,
Essa super-gente! –
E meu bebê um prego
enfiado, enfiado.
Ganindo em sua banha

Ossos fuçando distância.
E eu, quase extinta,
Seus três dentes cortantes

Abocanham meu dedão –
E a estrela,
História velha

Nessa rua encontro ovelhas e carros,
Terra vermelha, sangue de mãe
Ó, tu que comes

Pessoas como raios de luz, deixe
só este
a salvo do espelho, sem redenção

Com a aniquilação da pomba,
A glória
O poder, a glória


Brasilia_SP

Will they occur,
These people with torso of steel
Winged elbows and eyeholes

Awaiting masses
Of cloud to give them expression,
These super-people! –
And my baby a nail
Driven, driven in.
He shrieks in his grease

Bones nosing for distance.
And I, nearly extinct,
His three teeth cutting

Themselves on my thumb –
And the star,
The old story.

In the lane I meet sheep and wagons,
Red earth, motherly blood.
O You who eat

People like light rays, leave
This one
Mirror safe, unredeemed

By the dove’s annihilation,
The glory
The power, the glory.

“Neve” e “Pássaros”, de Warsan Shire

shire

Tradução: Lucas Túlio Pereira*

Neve

Meu pai era um bêbado. Ele se casou com minha mãe
no mês em que voltou da Rússia
com whiskey no sangue.
Na noite de núpcias, ele sussurrou
no ouvido dela sobre aviões à jato e neve.
Ele disse a palavra em Russo;
minha mãe segurou o choro e esticou as palmas
ao longo das omoplatas dele como as asas
de um avião. Depois, sem ar, ele deitou a cabeça
nas coxas dela e a tocou,
levantou dois dedos reluzindo,
mostrou a ela do próprio corpo
de qual cor a neve se aproximava.

Pássaros

Sofia usou sangue de pombo na noite de núpcias.
No dia seguinte, pelo telefone, ela me contou
como seu marido sorriu ao ver os lençóis,

Ele os juntou embaixo do nariz,
fechou os olhos e passou a língua pela mancha.
ela imitou o barítono, como ele sussurrou

o nome dela – Sofia,
pura, casta, intocada.
Nós rimos por cima da estática.

Após elogia-la, ela sorriu, esfregou a cabeça dele,
imaginou a sogra voltando para casa, desfilando
aqueles lençóis sirene pela cidade,

Acenando às varandas, o torso inchado de orgulho,
seus braços asas carnudas ligadas ao corpo,
inconsciente do voo.

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Warsan Shire

Snow

My father was a drunk. He married my mother
the month he came back from Russia
with whiskey in his blood.
On their wedding night, he whispered
into her ear about jet planes and snow.
He said the word in Russian;
my mother blinked back tears and spread her palms
across his shoulder blades like the wings
of a plane. Later, breathless, he laid his head
on her thigh and touched her,
brought back two fingers glistening,
showed her from her own body
what the colour of snow was closest to.

Birds

Sofia used pigeon blood on her wedding night.
Next day, over the phone, she told me
how her husband smiled when he saw the sheets,

that he gathered them under his nose,
closed his eyes and dragged his tongue over the stain.
She mimicked his baritone, how he whispered

her name– Sofia,
pure, chaste, untouched.
We giggled over the static.

After he had praised her, she smiled, rubbed his head,
imagined his mother back home, parading
these siren sheets through the town,

waving at balconies, torso swollen with pride,
her arms fleshy wings bound to her body,
ignorant of flight.

*Lucas Túlio Pereira, 1994, estuda Letras. Os dois poemas acima são do primeiro
livro da poeta somaliana Warsan Shire, intitulado Teaching my mother how to give
birth.

“Se não rola de comer você tem que”, de e.e. cummings

cummings

(Tradução de Mariana Ruggieri)

Se não rola de comer você tem que

fumar e a gente não tem
nada pra fumar: bora boy

bora dormir
se não rola de fumar você tem que

Cantar e a gente não tem

nada pra cantar; bora boy
bora dormir

se não rola de cantar você tem que
morrer e a gente não tem

Nada pra morrer, bora boy

bora dormir
se não rola de morrer você tem que

sonhar e a gente não tem
nada pra sonhar (bora boy

Bora dormir)
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If you can’t eat you got to

smoke and we aint got
nothing to smoke:come on kid

let’s go to sleep
if you can’t smoke you got to

Sing and we aint got

nothing to sing;come on kid
let’s go to sleep

if you can’t sing you got to
die and we aint got

Nothing to die,come on kid

let’s go to sleep
if you can’t die you got to

dream and we aint got
nothing to dream(come on kid

Let’s go to sleep)

Walter Benjamin sobre cartilhas infantis e a não-chegada do Messias

benjamin

Cartilhas de ABC há cem anos
Tradução: Tomaz Amorim Izabel

Nenhum palácio real ou casa de campo de um milionário conheceu um milésimo do amor adorável que foi dirigido às letras no decorrer da história cultural. Então, por mera alegria à beleza e para honrá-la. Mas também com intenção astuta. As letras são as colunas de um portão, em cima do qual bem poderia estar escrito o que Dante leu sobre os portões do inferno, e lá sua dura forma primordial não deveria espantar os muitos pequenos que todo ano precisam atravessar este portão. Cada uma dessas pilastras é então carregada de guirlandas e arabescos. Mas percebeu-se só muito mais tarde que não se tornava as coisas mais fáceis para a criança quando se esticava o espaçamento entre os tipos com imensas decorações, para representá-las de forma mais atrativa.
Além disso, as letras começaram logo cedo a construir uma corte de objetos ao redor de si. Os mais velhos entre nós ainda têm pendurado prontamente o chapéu no c, têm visto a marmota roer inofensivamente o m e têm visto o r como a parte mais espinhosa da rosa. Com a dedicação dinâmica a povos estrangeiros, crianças e desclassificados que ocorreu durante o Iluminismo europeu, com os raios do Humanismo, do qual o Classicismo é na verdade apenas o eclipse solar, caiu então de uma vez uma luz completamente diferente sobre os livros didáticos. Os pequenos objetos ilustrativos, que até então tinham ficado envergonhadamente jogados de lado diante da majestade da letra, ou tinham sido espremidos em caixinhas, justos como as janelinhas das fachadas burguesas do século XVIII, liberaram subitamente bordões revolucionários. Os açougueiros, aviadores, artilheiros, águias e avestruzes, os garotos, garçons, gatos, goleiros, guerrilheiros, gaviões, os veterinários, Venezuela, vigias reconheceram sua solidariedade. Eles convocavam grandes convenções, apareciam grandes destacamentos de todos os As, Bs, Cs, etc., e em seus encontros iam-se às multidões. Quando Rousseau diz que toda a soberania se origina do povo, então estes círculos se expressam alto e com convicção: “O espírito das letras se origina das coisas. Nosso ser-assim-e-não-algo-outro, nós impregnamos nessas letras. Nós não somos os seus vassalos, elas é que são apenas nossa vontade comum dita em voz alta”.

*

Ideia para um mistério
Tradução: Tomaz Amorim Izabel

Representar a História como um processo em que o Humano, simultaneamente como defensor da Natureza muda, presta queixa sobre a Criação e a ausência do Messias prometido. O Tribunal, no entanto, decide ouvir testemunhas sobre o que está por vir. Aparecem: o poeta, que o sente; o artista plástico, que o vê; o músico, que o ouve; e o filósofo, que o sabe. Seus testemunhos, portanto, não convergem, embora eles todos testemunhem pela Sua vinda. O Tribunal não ousa admitir sua indecisão. Assim, não há fim para as novas queixas e, tampouco, para as novas testemunhas. Há tortura e martírio. Os bancos dos jurados estão ocupados pelos vivos que ouvem o promotor Humano e as testemunhas com a mesma desconfiança. Os lugares dos jurados vão sendo herdados por seus filhos. Finalmente, desperta neles um medo de serem expulsos dos seus bancos. Ao fim, todos os jurados fogem e ficam apenas o querelante e as testemunhas.

 

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ABC-BÜCHER VOR HUNDERT JAHREN!
Walter Benjamin

Kein Königspalast und kein Cottage eines Milliardärs hat ein Tausendstel der schmückenden Liebe erfahren, die im Laufe der Kulturgeschichte den Buchstaben zugewandt worden ist. Einmal aus Freude am Schönen und um sie zu ehren. Aber auch in listiger Absicht. Die Buchstaben sind ja die Säulen eines Tores, über dem ganz gut geschrieben stehen könnte, was Dante über den Pforten der Hölle las, und da sollte ihre rauhe Urgestalt die vielen Kleinen, die alljährlich durch dieses Tor müssen, nicht abschrecken. Jeden einzelnen dieser Pilaster behing man also mit Girlanden und Arabesken. Doch man kam erst sehr spät darauf, daß man dem Kinde die Sache nicht leichter machte, wenn man die Gerüste der Lettern mit maßlosen Zierformen überspannte, um sie anziehender zu gestalten.
Daneben begannen die Buchstaben schon früh einen Hof von Gegenständen um sich zu bilden. Die Älteren unter uns haben noch den Hut dienstfertig beim h hängen, die Maus harmlos am m knabbern sehen und das r als den dornigsten Teil der Rose kennen gelernt. Mit der bewegenden Hingabe an fremde Völker, an Kinder, an Deklassierte, die durch die europäische Aufklärung ging, mit dem Strahlen des Humanismus, von dem die Klassik eigentlich nur die Sonnenfinsternis ist, fiel dann mit einem Mal ganz anderes Licht in die Lesebücher. Die kleinen illustrierenden Gegenstände, die bis dahin verlegen um den herrschaftlichen Buchstaben herumgelungert hatten, oder gar in Kassetten, eng wie die Fensterchen in bürgerlichen Hausfassaden des 18. Jahrhunderts, gepreßt worden waren, gaben plötzlich revolutionäre Losungen aus. Die Ammen, Apotheker, Artilleristen, Adler und Affen, die Kinder, Kellner, Katzen, Kegeljungen, Köchinnen, Karpfen, die Uhrmacher, Ungarn, Ulanen erkannten ihre Solidarität. Sie beriefen große Konvente ein, Abordnungen aller A’s, B’s, C’s usw. erschienen, und es ging auf ihren Versammlungen tumultuarisch zu. Wenn Rousseau sagt, daß alle Souveränität vom Volk stammt, so bekunden diese Tafeln es laut und entschieden: »Der Geist der Buchstaben stammt aus den Sachen. Uns, unser So-und-Nichtanders-Sein, haben wir in diesen Buchstaben ausgeprägt. Nicht wir sind ihre Vasallen, sondern sie sind nur unser lautgewordener gemeinsamer Wille.«

*

Idee eines Mysteriums
Walter Benjamin

Die Geschichte darzustellen als einen Prozeß, in welchem der Mensch zugleich als Sachwalter der stummen Natur Klage führt über die Schöpfung und das Ausbleiben des verheißenen Messias. Der Gerichtshof aber beschließt Zeugen, für das Zukünftige zu hören. Es erscheint der Dichter der es fühlt, der Bildner der er sieht, der Musiker der es hört und der Philosoph der es weiß. Ihre Zeugnisse stimmen daher nicht überein, wiewohl sie alle für sein Kommen zeugen. Der Gerichtshof wagt seine Unschlüssigkeit nicht einzugestehen. Daher nehmen die neuen Klagen kein Ende, ebensowenig die neuen Zeugen. Es gibt die Folter und das Martyrium. Die Geschwornenbänke sind besetzt von den Lebenden, die den Mensch-Ankläger wie die Zeugen mit gleichem Mißtrauen hören. Die Geschwornenplätze erben sich bei ihren Söhnen fort. Endlich erwacht eine Angst in ihnen, sie könnten von ihren Bänken vertrieben werden. Zuletzt flüchten alle Geschwornen, nur der Kläger und die Zeugen bleiben.