Ao meu Partido, de Pablo Neruda

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Ao meu Partido, de Pablo Neruda

Ao meu Partido, poema de Pablo Neruda
Tradução por 
Marília Moschkovich
Imagem: ato de inauguração do PCB (Partido Comunista Brasileiro), em 25 de março de 1922.
(Publicação especial em homenagem aos 95 anos do Partido).

Você me deu a fraternidade com aquilo que não conheço.
Você me agregou à força de todos os que vivem.
Você me deu novamente a pátria, como em um nascimento.
Você me deu a liberdade que o solitário não tem.
Você me ensinou a acender, como fogo, a bondade.
Você me deu a retidão de que precisa a árvore.
Você me ensinou a ver a unidade e a diferença entre os homens.
Você me mostrou como a dor de um ser morreu na vitória de todos.
Você me ensinou a dormir nas camas duras de meus irmãos.
Você me fez construir sobre a realidade como sobre uma rocha.
Você me fez adversário do mau e muro do frenético.
Você me fez ver a claridade do mundo e a possibilidade da alegria.
Você me fez indestrutível porque contigo não termino em mim.


A MI PARTIDO (PABLO NERUDA)

Me has dado la fraternidad hacia el que no conozco.
Me has agregado la fuerza de todos los que viven.
Me has vuelto a dar la patria como en un nacimiento.
Me has dado la libertad que no tiene el solitario.
Me enseñaste a encender la bondad, como el fuego.
Me diste la rectitud que necesita el árbol.
Me enseñaste a ver la unidad y la diferencia de los hombres.
Me mostraste cómo el dolor de un ser ha muerto en la victoria de todos.
Me enseñaste a dormir en las camas duras de mis hermanos.
Me hiciste construir sobre la realidad como sobre una roca.
Me hiciste adversario del malvado y muro del frenético.
Me has hecho ver la claridad del mundo y la posibilidad de la alegría.
Me has hecho indestructible porque contigo no termino en mí mismo.


[as traduções que sempre vi espalhadas deste poema me incomodavam um pouco. talvez fosse a distorção causada pelo uso do tempo verbal que, em português, não tem o mesmo sentido que em espanhol – por isso usei o passado em sua possibilidade mais cotidiana e corriqueira, traduzindo o efeito do uso do tempo verbal escolhido pelo poeta em espanhol; comentários são sempre bem-vindos]

DA “GAZETA VERMELHA”, Nikolai Kliúiev (1918)

kliuiev

DA <<GAZETA VERMELHA>>

Poema de Nikolai Kliúiev (1884-1937)
Tradução por André Nogueira (2017)
Imagem: retrato de Kliúiev por Alexander Yar-Kravtchenko (1931)

……………….

DA <<GAZETA VERMELHA>>

1

Que a negra fuligem da sangrenta insurreição
E o ar dos Assombrados ande à volta, –
Dos caixões os vampiros sentirão
A milionésima das facas que vos cortam!

Vós roestes como cães a alma do povo
Emporcalhastes o jardim do Pai Eterno.
Não em arca recheada de alcovas
Vossa ida para os quintos do inferno.

É estrada cimentada de moedas
Vossa via de ladrões e morféticos vampiros;
Cristo dos arbustos de agulhas se apieda
E os pulmões do povo de novo respiram.

É o fim dos valentões violadores,
Discípulos fiéis de Iscariotes.
Dos prados onde acampam grão-senhores
Hão os anjos de ceifar os miosótis.

Bem-vindos coreanos amarelos, beduínos,
Cada tom que Deus pintou suas ovelhas…
Bendito seja o soviete campesino
E os mártires do Exército Vermelho!

Reflitam bem, meninos e meninas:
Lembrem-se de Rázin e Peróvskaia Sofia!
Batizem-se em fé rubra e leonina
Como eles, que pela Rússia-noiva sofriam.

2

Aproxima-se o terrível tribunal! Vinde vê-lo:
O Anjo-exterminador está à porta!
Sob a cusparada do Deus Vermelho
Jazerá a guarda branca morta.

A Rússia sob os cravos seus padece
E de vidro esmigalhado a polvilhais.
Pela casa dos Románovi em prece
Silvam crótalos no altar das catedrais.

Eis que o imundo Rasputin eles exumam:
Sapateia sobre os ícones, escarra no graal…
Está à mesa do café, colchão de plumas;
Nosso povo, em sua fossa habitual.

Raça de lesmas, rastejantes tatuzinhos!
Bernes carcomendo a santa Rússia!
Do andar centésimo celeste  um pergaminho
Desenrola para vós chagas e úlceras.

Grão-senhores, bonifrates em chapéus-coco,
Grã-senhoras, em seda e jóias de ouro.
Com vós não minha lira, e sim a voz rouca
Da cantante em glória grã-metralhadora!

Louvo a metralhadora, sua sede sem fim
Do vosso sangue revestido em pura seda!..
Quando à hora da seara anunciarem serafins
O arrebatar das almas em ardentes labaredas.

Pelas pátrias escarpas toda alma florirá
De trifólios consangüíneos, purpúreos olhinhos…
Reconhece-se o soldado pelo olhar, o mais solar
E pelos versos ressacados de palavras carmesins.

<1918>

~//~

Из <<Красной газеты>>

Пусть черен дым кровавых мятежей
И рыщет Оторопь во мраке,—
Уж отточены миллионы ножей
На вас, гробовые вурдалаки!

Вы изгрызли душу народа,
Загадили светлый божий сад,
Не будет ни ладьи, ни парохода
Для отплытья вашего в гнойный ад.

Керенками вымощенный проселок —
Ваш лукавый искариотский путь;
Христос отдохнет от терновых иголок,
И легко вздохнет народная грудь.

Сгинут кровосмесители, проститутки,
Церковные кружки и барский шик,
Будут ангелы срывать незабудки
С луговин, где был лагерь пик.

Бедуинам и желтым корейцам
Не будет запретным наш храм…
Слава мученикам и красноармейцам,
И сермяжным советским властям!

Русские юноши, девушки, отзовитесь:
Вспомните Разина и Перовскую Софию!
В львиную красную веру креститесь,
В гибели славьте невесту-Россию!

2

Жильцы гробов, проснитесь! Близок Страшный суд
И Ангел-истребитель стоит у порога!
Ваши черные белогвардейцы умрут
За оплевание Красного бога,

За то, что гвоздиные раны России
Они посыпают толченым стеклом.
Шипят по соборам кутейные змии,
Молясь шепотком за романовский дом,

За то, чтобы снова чумазый Распутин
Плясал на иконах и в чашу плевал…
С кофейником стол, как перина, уютен
Для граждан, продавших свободу за кал.

О племя мокриц и болотных улиток!
О падаль червивая в божьем саду!
Грозой полыхает стоярусный свиток,
Пророча вам язвы и злую беду.

Хлыщи в котелках и мамаши в батистах,
С битюжьей осанкой купеческий род,
Не вам моя лира — в напевах тернистых
Пусть славится гибель и друг-пулемет!

Хвала пулемету, несытому кровью
Битюжьей породы, батистовых туш!..
Трубят серафимы над буйною новью,
Где зреет посев струннопламенных душ.

И души цветут по родным косогорам
Малиновой кашкой, пурпурным глазком…
Боец узнается по солнечным взорам,
По алому слову с прибойным стихом.

<1918>

 

 

Espera sob empuxo, de Kara Candito

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Espera sob empuxo
Tradução: Stella Paterniani

Idioma algum que não nosso gasto
inventário – seu colchão de infância,
2 copos toscos, 4 transas frias.

Público algum que não o ar doente
de Guarulhos. O vizinho com seu
cão incontinente estava lá na

aterrissagem. E a beldade, a
cabeleireira que você fodia
estava no terraço

se deleitando com minha soquete puída.
Rainha impostora boiando na
barca-coroa alugada, eu nos ostentava

feito juros astronômicos. Aqueles escandalosos
saltos-altos me rasgavam
o tornozelo formando um sorriso bolhoso

até me fazer desejar ser levada pra casa,
além do Alto de Pinheiros, onde a pausa de uma
britadeira me tremesse a mandíbula.

Cones inverteram o tráfego.
Aeromoças tomaram os jornais
muito muito antes do pouso.

Se eu soubesse, amor, que você voaria
pro norte só pra me encontrar sem luvas
nesse árido ordinário faroeste

eu caminharia pelas praças mais barulhentas
sob terremoto, ou beijaria a beldade
transbordando cera e simpatia.

Escalaria o vulcão até a boca
e ofertaria o medo por mim tão bem-nutrido
feito um bebê sadio ao fogo

que a nós engolirá, eventualmente.

******************************

Holding pattern, Lifted
Kara Candito

No language but our own shabby
inventory — your childhood mattress,
2 chipped mugs, 4 pre-dawn sex acts.

No audience but the anorexic air
of Mexico City. Your neighbor
with the incontinent bulldog was there

on the landing. And the other,
the willowy hairdresser you must’ve
been fucking, was there on the stoop

appraising my bad bottle job.
Imposter queen becalmed in her
rented coronation barge, I flaunted

what we were like a liability.
Those scandalous four-inch sandals
tore a smile of blisters across my ankle

until I wanted to be carried home
past the construction on Condesa, to let
the jackhammer’s throes rattle my jaw.

Cones changed the flow of traffic.
Flight attendants took the newspapers
away before the plane landed.

If I’d known then, husband, that you’d fly
due north to find me gloveless in this
ordinary Midwest of hunting rifles and English,

I might’ve ambled through the loudest plazas
in earthquake weather, or kissed the hairdresser
with a mouthful of wax and sympathy.

I might’ve climbed to the rim of the black
volcano and offered the fear I nursed
like a chubby baby to the fire

that will swallow us all, eventually.

Sonho com a espada de cavaleiro *
Tradução: Tomaz Amorim Izabel

Eu tinha combinado uma excursão com dois amigos para o domingo, mas de forma completamente inesperada dormi demais e perdi a hora do encontro. Meus amigos, que conheciam até então minha pontualidade, se surpreenderam com o atraso e foram até a casa em que eu morava, ficaram esperando por lá ainda uma hora, subiram então as escadas e bateram na minha porta. Eu me assustei muito, pulei da cama e não prestei atenção em outra coisa que não fosse me aprontar o mais rápido possível. Quando eu então saí da porta completamente vestido, meus amigos recuaram de mim visivelmente assustados. “O que você tem atrás da cabeça?”, eles gritaram. Desde o despertar eu já sentia algo que me impedia de deitar a cabeça e tateei neste momento com a mão procurando pelo obstáculo. Imediatamente gritaram os amigos, que já tinham se acalmado um pouco: “Toma cuidado, não vai se machucar”, enquanto eu apanhava por de trás de minha cabeça uma espada. Os amigos se aproximaram, me examinaram, me levaram ao quarto diante do espelho da cômoda e me despiram da cintura para cima. Uma grande e antiga espada de cavaleiro com punho em forma de cruz estava presa nas minhas costas até o cabo, mas de forma que a lâmina foi enfiada de forma incrivelmente precisa entre a pele e a carne e não infligiu nenhum ferimento. No lugar da intrusão no pescoço também não havia ferida e os meus amigos garantiam que o buraco que se abriu pela lâmina estava completamente sem sangue e seco. E enquanto agora os amigos subiam no braço da cadeira e devagar, milimetricamente, puxavam a espada, não saiu nenhum sangue e o lugar aberto no pescoço se fechou até um buraco que mal dava para notar. “Aqui está sua espada”, disseram os amigos rindo e a entregaram para mim. Eu a pesei em minhas mãos, era uma arma fina, cruzados poderiam tê-la usado. Quem aguenta isso, que antigos cavaleiros percorram os sonhos, brandindo irresponsavelmente suas espadas, perfurando adormecidos inocentes e só não causando feridas profundas porque suas armas provavelmente desviam de corpos vivos e também porque amigos fiéis estão atrás da porta e batem prontos para ajudar.

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Traum vom Ritterschwert
Franz Kafka

Ich hatte mit zwei Freunden einen Ausflug für den Sonntag vereinbart, verschlief aber gänzlich unerwarteter Weise die Stunde der Zusammenkunft. Meine Freunde, die meine sonstige Pünktlichkeit kannten, staunten darüber, giengen zu dem Haus in dem ich wohnte, standen auch dort noch eine Zeitlang, giengen dann die Treppe hinauf und klopften an meiner Tür. Ich erschrak sehr, sprang aus dem Bett und achtete auf nichts anderes, als darauf mich möglichst rasch bereitzumachen. Als ich dann vollständig angezogen aus der Türe trat, wichen meine Freunde offenbar erschrocken vor mir zurück. “Was hast Du hinter dem Kopf” riefen sie. Ich hatte schon seit dem Erwachen irgendetwas gefühlt, das mich hinderte den Kopf zurückzuneigen und tastete nun mit der Hand nach diesem Hindernis. Gerade riefen die Freunde, die sich schon ein wenig gesammelt hatten “Sei vorsichtig, verletze Dich nicht” als ich hinter meinem Kopf den Griff eines Schwertes erfaßte. Die Freunde kamen näher, untersuchten mich, führten mich ins Zimmer vor den Schrankspiegel und entkleideten meinen Oberkörper. Ein großes altes Ritterschwert mit kreuzartigem Griff steckte in meinem Rücken bis zum Heft, aber in der Weise, daß sich die Klinge unbegreiflich genau zwischen Haut und Fleisch geschoben und keine Verletzung herbeigeführt hatte. Aber auch an der Stelle des Einstoßes am Halse war keine Wunde, die Freunde versicherten, daß sich dort völlig blutleer und trocken der für die Klinge notwendige Spalt geöffnet habe. Und als jetzt die Freunde auf Sessel stiegen und langsam millimeterweise das Schwert hervorzogen, kam kein Blut nach und die offene Stelle am Halse schloß sich bis auf einen kaum merklichen Spalt. “Hier hast Du Dein Schwert” sagten die Freunde lachend und reichten es mir. Ich wog es in beiden Händen, es war eine kostbare Waffe, Kreuzfahrer konnten sie wohl benützt haben. Wer duldete es, daß sich alte Ritter in den Träumen herumtrieben, verantwortungslos mit ihren Schwertern fuchtelten, unschuldigen Schläfern sie einbohrten und nur deshalb nicht schwere Wunden beibrachten, weil ihre Waffen zunächst wahrscheinlich an lebenden Körpern abgleiten und weil auch treue Freunde hinter der Tür stehn und hilfsbereit klopfen.

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* Este texto se encontra no diário de Kafka sob a data de 19 de Janeiro de 1915. Ele não tem título e não foi de forma alguma separado como “Obra” para publicação. Seu fechamento indica que Kafka não planejou uma sequência e que tomou o texto como “pronto”. A segunda frase, “Meus amigos, que conheciam até então minha pontualidade”, deve ser lida como brincadeira irônica. Porque Kafka era notoriamente não pontual e precisava se desculpar frequentemente com seus amigos de Praga, com os quais muitas vezes marcava encontros dominicais.

Fonte: Franz Kafka, Tagebücher, Band 3: 1914–1923, Fischer Taschenbuch Verlag (Bd. 12451), Frankfurt am Main 1994, Seite 71–72.

O ideal e a vida, de Friedrich Schiller

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O ideal e a vida
Tradução: Tomaz Amorim Izabel

Clareterna e especular e fina,
flui leve, no Olimpo, a vida zefirina,
para seus bem-aventurados.
As luas mudam, as gerações se sucedem,
e os rosais da divina juventude florescem
entre eternas ruínas intocados.
Entre a alegria sensível e a paz de espírito,
só resta a escolha à humanidade desolada,
mas na fronte do alto Urânido
brilham elas num raio casadas.

Na Terra, para terem dos deuses a sorte
e serem livres no reino da morte,
do seu jardim não despedacem a fruta!
O olhar se satisfaz com as aparências,
mas do gozo das alegrias em ambivalência
se vinga veloz a almejada fruta.
O próprio Estige, que nove vezes a rodeia,
não luta contra a volta da filha de Ceres.
Depois de apanhada a maçã, ele a cerceia
eternamente sob de Orco os poderes.

Apenas os corpos é que pertencem
aos poderes que sombrio destino tecem.
Livre da violência do tempo que deforma,
a parceira das naturezas bem-aventuradas
sobe pairando rumo às portas iluminadas,
divina entre os deuses: a Forma.
Se querem voar alto em suas asas,
joguem fora o medo do terreno!
Fujam da vida enfadonha e rasa
para do Ideal o Reino!

Em toda a Terra livre, juventude,
é nos raios da completude
que paira dos homens a imagem divina.
As silenciosas fantasmagorias da vida,
brilhantes, na corrente do Estige diluídas,
mesmo Ela, que se ergue na celeste campina,
depois, rumo aos sarcófagos tristes,
ainda que Imortal, também desce.
Se na vida o carro da luta ainda resiste,
sacolejante, aqui a vitória aparece.

Não para lutadores apaziguar,
nem para exaustos descansar,
sopra perfumada a grinalda das glórias.
Poderosos, ao descansar suas veias,
a vida vos arrasta em suas cheias,
a vós, o tempo, em suas rotatórias.
Mas descem as audazes asas da braveza
pelo sentimento vergonhoso dos percalços,
e então vislumbra da colina da beleza
com alegria o avoado alvo.

Se se trata de proteger e dominar,
lutador contra lutador a trovejar
nos trilhos da sorte e da fama,
lá pode a bravura se bater com a força
e com ruidosos urros as carroças
se confundem nas planícies de lama.
Aqui só a bravura alcança aquilo
que na meta do Hipódromo flameja.
Só o forte submeterá o destino,
onde o franzino apenas fraqueja.

Mas ele, preso entre as margens,
que se derrama espumoso e selvagem,
flui, o Rio da Vida, calmo e austero,
pelas silenciosas e sombrias terras da beleza,
e em suas ondas de prateadas correntezas
pintam-se Aurora e Héspero.
Dissolvido em suave amor mútuo,
na graça da livre relação unido,
descansa aqui reconciliado o impulso,
e desaparecido é o inimigo.

Se para o morto com forma reanimar,
se para com o material matrimoniar,
o gênio se incendeia sedento,
então lá se contrai o nervo do obreiro
e subjuga, perseverante e guerreiro,
o pensamento de si o elemento.
Só ao sério, que esforço algum empalidece,
sussurra a fonte da verdade que escondida corre.
Só com o golpe duro do cinzel se amolece
a semente quebradiça do mármore.

Mas adentrai da beleza a esfera,
e para trás resta o pesado na poeira
com o material que ela mesma domina.
Não é massa com dor arrancada,
fraca e leve, como originada do nada,
a visão diante da arrebatadora retina.
Silenciam todas as batalhas e temores
na vitória da maior certeza:
desaparecem agora os espectadores
da humana pobreza.

Se vocês, na triste nudez da humanidade,
estão diante da lei em sua grandiosidade,
se a culpa se aproxima do sagrado,
diante dos raios da verdade empalideça
sua virtude, diante do ideal desapareça
o vergonhoso ato apavorado.
Nenhum criador que o objetivo confronte:
sobre este abismo moribundo
não passa barca, nem arco de ponte,
nem âncora alguma encontra o fundo.

Mas fujam da limitação do sentimento
para a libertação do pensamento,
e fugirá a assombração
e se preencherá o eterno abismo.
Acolham nas suas vontades o divino
e dos tronos mundanos vocês se erguerão.
A grade firme da lei aprisiona
apenas o sentido escravo que a degrade.
Desaparece com a resistência humana
também a divina majestade.

Se a dor humana se torna corrente,
se Laocoonte se defende das serpentes
com tão inominável dor,
então enfurece-se o humano! E avança
contra a curvatura dos céus com suas demandas
e destroça seu coração amador!
Que triunfe a voz terrível da natureza
e que preencha a face da alegria a palidez,
e que a piedade sagrada desapareça
com o imortal dentro de vocês!

Mas nas regiões jubilosas,
onde habitam as puras formas,
já não ressoam as tempestades turvas da carência.
Aqui não pode a dor dilacerar a alma,
lágrima alguma flui aqui contra a calma,
apenas do espírito a bravia resistência.
Amável, como da íris a furta-cor
sobre o fragor do orvalho trovejante,
brilha através dos tristes véus do langor,
pacífico, aqui, o azul fulgurante.

Rebaixado a servo do covarde,
Alcides, em interminável combate,
o caminho pesado da vida percorre:
abraça o Leão, bate-se com a Hidra de Lerna,
lança-se vivo, e os companheiros liberta,
na canoa do barqueiro da morte.
Todas as aflições, tudo que há de pesado,
lançou a astúcia da irreconciliável Deusa
sobre os ombros dispostos do odiado –
até que findada sua caminhada esteja.

Até que o Deus, despido do terreno,
separa-se em chamas dos humanos
e dos leves ares do éter se inunda.
Alegre e desacostumado com o novo flutuar,
ele flui para cima, e da vida sublunar
o pesado sonho afunda e afunda e afunda.
Recebido no Olimpo em harmoniosa chegada
é o transfigurado no salão dos Cronidas,
até que a Deusa de faces rosadas
entrega-lhe a taça de boas-vindas.
***********************************************

Das Ideal und das Leben
Friedrich Schiller

Ewigklar und spiegelrein und eben
Fließt das zephyrleichte Leben
Im Olymp den Seligen dahin.
Monde wechseln, und Geschlechter fliehen;
Ihrer Götterjugend Rosen blühen
Wandellos im ewigen Ruin.
Zwischen Sinnenglück und Seelenfrieden
Bleibt dem Menschen nur die bange Wahl;
Auf der Stirn des hohen Uraniden
Leuchtet ihr vermählter Strahl.

Wollt ihr schon auf Erden Göttern gleichen,
Frei sein in des Todes Reichen,
Brechet nicht von seines Gartens Frucht!
An dem Scheine mag der Blick sich weiden;
Des Genusses wandelbare Freuden
Rächet schleunig der Begierde Frucht.
Selbst der Styx, der neunfach sie umwindet,
Wehrt die Rückkehr Ceres’ Tochter nicht;
Nach dem Apfel greift sie, und es bindet
Ewig sie des Orkus Pflicht.

Nur der Körper eignet jenen Mächten,
Die das dunkle Schicksal flechten;
Aber frei von jeder Zeitgewalt,
Die Gespielin seliger Naturen,
Wandelt oben in des Lichtes Fluren
Göttlich unter Göttern die Gestalt.
Wollt ihr hoch auf ihren Flügeln schweben,
Werft die Angst des Irdischen von euch!
Fliehet aus dem engen, dumpfen Leben
In des Idealen Reich!

Jugendlich, von allen Erdenmalen
Frei, in der Vollendung Strahlen
Schwebet hier der Menschen Götterbild,
Wie des Lebens schweigende Phantome
Glänzend wandeln an dem styg’schen Strome,
Wie sie stand im himmlischen Gefild,
Ehe noch zum traur’gen Sarkophage
Die Unsterbliche herunter stieg.
Wenn im Leben noch des Kampfes Wage
Schwankt, erscheinet hier der Sieg.

Nicht vom Kampf die Glieder zu entstricken,
Den Erschöpften zu erquicken,
Wehet hier des Sieges duft’ger Kranz.
Mächtig, selbst wenn eure Sehnen ruhten,
Reißt das Leben euch in seine Fluthen,
Euch die Zeit in ihren Wirbeltanz.
Aber sinkt des Muthes kühner Flügel
Bei der Schranken peinlichem Gefühl,
Dann erblicket von der Schönheit Hügel
Freudig das erflogne Ziel.

Wenn es gilt, zu herrschen und zu schirmen,
Kämpfer gegen Kämpfer stürmen
Auf des Glückes, auf des Ruhmes Bahn,
Da mag Kühnheit sich an Kraft zerschlagen
Und mit krachendem Getös die Wagen
Sich vermengen auf bestäubtem Plan.
Muth allein kann hier den Dank erringen,
Der am Ziel des Hippodromes winkt.
Nur der Starke wird das Schicksal zwingen,
Wenn der Schwächling untersinkt.

Aber der, von Klippen eingeschlossen,
Wild und schäumend sich ergossen,
Sanft und eben rinnt des Lebens Fluß
Durch der Schönheit stille Schattenlande,
Und auf seiner Wellen Silberrande
Malt Aurora sich und Hesperus.
Aufgelöst in zarter Wechselliebe,
In der Anmuth freiem Bund vereint,
Ruhen hier die ausgesöhnten Triebe,
Und verschwunden ist der Feind.

Wenn, das Todte bildend zu beseelen,
Mit dem Stoff sich zu vermählen,
Thatenvoll der Genius entbrennt,
Da, da spanne sich des Fleißes Nerve,
Und beharrlich ringend unterwerfe
Der Gedanke sich das Element.
Nur dem Ernst, den keine Mühe bleichet,
Rauscht der Wahrheit tief versteckter Born;
Nur des Meißels schwerem Schlag erweichet
Sich des Marmors sprödes Korn.

Aber dringt bis in der Schönheit Sphäre,
Und im Staube bleibt die Schwere
Mit dem Stoff, den sie beherrscht, zurück.
Nicht der Masse qualvoll abgerungen,
Schlank und leicht, wie aus dem Nichts gesprungen,
Steht das Bild vor dem entzückten Blick.
Alle Zweifel, alle Kämpfe schweigen
In des Sieges hoher Sicherheit;
Ausgestoßen hat es jeden Zeugen
Menschlicher Bedürftigkeit.

Wenn ihr in der Menschheit traur’ger Blöße
Steht vor des Gesetzes Größe,
Wenn dem Heiligen die Schuld sich naht,
Da erblasse vor der Wahrheit Strahle
Eure Tugend, vor dem Ideale
Fliehe muthlos die beschämte That.
Kein Erschaffner hat dies Ziel erflogen;
Über diesen grauenvollen Schlund
Trägt kein Nachen, keiner Brücke Bogen,
Und kein Anker findet Grund.

Aber flüchtet aus der Sinne Schranken
In die Freiheit der Gedanken,
Und die Furchterscheinung ist entflohn,
Und der ew’ge Abgrund wird sich füllen;
Nehmt die Gottheit auf in euren Willen,
Und sie steigt von ihrem Weltenthron.
Des Gesetzes strenge Fessel bindet
Nur den Sklavensinn, des es verschmäht;
Mit des Menschen Widerstand verschwindet
Auch des Gottes Majestät.

Wenn der Menschheit Leiden euch umfangen,
Wenn Laokoon der Schlangen
Sich erwehrt mit namenlosem Schmerz,
Da empöre sich der Mensch! Es schlage
An des Himmels Wölbung seine Klage
Und zerreiße euer fühlend Herz!
Der Natur furchtbare Stimme siege,
Und der Freude Wange werde bleich,
Und der heil’gen Sympathie erliege
Das Unsterbliche in euch!

Aber in den heitern Regionen,
Wo die reinen Formen wohnen,
Rauscht des Jammers trüber Sturm nicht mehr.
Hier darf Schmerz die Seele nicht durchschneiden,
Keine Thräne fließt hier mehr den Leiden,
Nur des Geistes tapfrer Gegenwehr.
Lieblich, wie der Iris Farbenfeuer
Auf der Donnerwolke duft’gem Thau,
Schimmert durch der Wehmuth düstern Schleier
Hier der Ruhe heitres Blau.

Tief erniedrigt zu des Feigen Knechte,
Ging in ewigem Gefechte
Einst Alcid des Lebens schwere Bahn,
Rang mit Hydern und umarmt’ den Leuen,
Stürzte sich, die Freunde zu befreien,
Lebend in des Todtenschiffes Kahn.
Alle Plagen, alle Erdenlasten
Wälzt der unversöhnten Göttin List
Auf die will’gen Schultern des Verhaßten –
Bis sein Lauf geendigt ist –

Bis der Gott, des Irdischen entkleidet,
Flammend sich vom Menschen scheidet
Und des Äthers leichte Lüfte trinkt.
Froh des neuen ungewohnten Schwebens,
Fließt er aufwärts, und des Erdenlebens
Schweres Traumbild sinkt und sinkt und sinkt.
Des Olympus Harmonien empfangen
Den Verklärten in Kronions Saal,
Und die Göttin mit den Rosenwangen
Reicht ihm lächelnd den Pokal.

DIAMBA-SARABAMBA (Konopel-Konopelka), Ivan Novikov

1

IVAN NOVIKOV
(tradução: André Nogueira, nov.-dez. 2016)

DIAMBA-SARABAMBA

(KONOPEL-KONOPELKA)

EDITORA DO ESTADO da URSS, 1926.

2

NOVA BIBLIOTECA INFANTIL
PEQUENA IDADE
…………………………………………………….

IVAN NOVIKOV

DIAMBA-SARABAMBA
(KONOPEL-KONOPELKA)

EM VERSOS

ILUSTRADO POR
P. PAVLINOVA
………………………………………………..

EDITORA DO ESTADO
MOSCOU – 1926 – LENINGRADO

3

1.DIAMBA NO BERÇO

A diamba criança
no berço descansa:
em suave repouso
no solo do chouso.

Os grãozinhos se enfileiram
como sob o travesseiro, –
repousando lado a lado
pelos sulcos do arado.

Quietinha em seu leito
a diamba se deita,
e como tenro cobertor
a terra embala sua flor!

Mas o solo, por si só,
milagre não faz:
tem de amanhecer o sol
e o lavrador regando atrás!

4

2.QUANDO OS OLHOS DELA ABREM

Bem de perto observem
como a natureza é sábia:
quando brota é só um gérmen,
logo os olhos dela abrem…

Libertada da semente
se contorce a raizinha,
o brotinho já rebenta
ainda preso na bainha.

Um tempinho que suceda,
te dobrando de joelhos
sobre a tão verde vereda,
os olhos teus poderão vê-los:

E do chão também te vendo
os verdes olhos se revelam.
Da caçula estão crescendo
à cacheada irmã mais velha.

5

3.ALEGRE PRIMAVERA

A primavera é rápida assim:
um dia antes não havia
construído para si
tão verdejante moradia!

A primavera faz alegre
as campinas e aldeias
onde quer que ela empregue
seus arroios e floreios.

Mas não chegou a obra ao ponto,
por mais bela que rebente…
Toma fôlego e desponta
a diamba adolescente.

Tão bonitos e verdes,
seus cachos crescem e crescem…
Mas a guardada sua flor, vede:
é ainda uma promessa.

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4.AS PARENTES DA DIAMBA

A diamba também tem parentes:
multiplicam-se no diambeiral!
Mas não são de sua gente
cacheada e fraternal…
São talvez suas sobrinhas,
não exatamente amigas,
mais precisamente ervas daninhas,
as chamadas de urtigas!

De tão venenosa e má,
não se pode com esta laia
a diamba misturar,
como num só mesmo balaio!
Raivosas, com espinhos,
experimente tocá-las e… ai, ai!
Nem serão boas vizinhas,
mas concorrentes desleais!

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5.A MENINA-SARABAMBA

Menina Kátia tem sardas,
os orelhas rosadinhas,
cabelos ruivos entrançados
como de uma raposinha…
As ovelhas conduzindo aos campos,
quando escapa uma madeixa,
pelos ares vai seu grampo
e tão embaraçada a deixa…

Os pés descalços da menina
de olhinhos meio vesgos,
pastoreando sob a neblina
com os seus cabelos crespos…
Vocês bem já adivinham
como dela vão falar!
Bons apelidos com carinho
poderíamos lhe dar…

Mas não, chegamos tarde!
De nossa amiga já fazem graça:
“A camponesinha de sardas
pelos campos faz fumaça!”…
As crianças com maldade tagarelam
sobre Kátia e a maconha:
“Diamba-sarabamba!”, zombam elas –
como isso fosse uma vergonha!

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6.PRIMEIRA LOA DA DIAMBA
(Verão)

Diamba-sarabamba –
de fragrância perfumosa!
Diamba-sarabamba –
de ramagens tão viçosas!
Flor diamba, menina sarabamba:
benditas sejam ambas.

No verão e no outono,
filha humilde da lavoura,
ela dá seu rico aroma
para quem humilde lavra,
como flor de verde ouro
que cresceu entre tratores
e entre cercas de alambre,
numa única palavra:
diamba-sarabamba!

Como há campos de aveia,
a diamba tem seus campos
e eles são paisagens amplas
onde os pássaros gorjeiam,
e os homens que a plantam
têm repletos de esperança
os corações transbordantes
de sentir sua fragrância…

Diamba-sarabamba –
de cheirosa e forte fibra!
Diamba-sarabamba –
ninguém nunca te proíba!
Flor diamba, menina sarabamba:
benditas sejam ambas.

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7.É TEMPO DE FLORIR

Vejam como voa o pardal
de um salgueiro para o outro!
E logo mais todo o quintal
no aguaceiro está envolto.

O verão esquenta mais e mais…
Com vivas cores e fresco âmbar,
há flores e mais flores aonde vais…
Pois flore também, crespa diamba!

Flore, diamba, flore,
com teu verde tão modesto,
brota sob o manto arbóreo,
perfumosa flor agreste!

Na natureza, observa,
há meninos e meninas,
como os frutos desta erva
a duas casas se destinam.

Observa atentamente
da diamba como florem
umas flores com sementes,
outras flores com o pólen…

Enfim o alegre tempo da seara:
em tua palma as flores deitas,
das sementes a pipoca tu preparas…
E se faça bom proveito!

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8. INVENÇÕES

Apelidada de diamba,
sempre atenta, ouve Kátia
o que se diz a seu respeito:
eles julgam, só com base em preconceito,
insinuam, só dislates-disparates
e diamba-sarabamba não aceitam.

As mentiras, deixem eles que as inventem!
Da diamba inventaremos bons proveitos:
ao pilar suas sementes
extraímos bom azeite,
e são melhores vestimentas
com a fibra dela feitas…

Tapam-se os buracos dos paióis
e até casa se constrói
com a matéria da diamba…
E até chicote se faz dela,
arreios, rédeas, selas
e outras cordas nada bambas!

E certa vez um marinheiro
em segredo admitiu:
“Diamba corre o mundo inteiro…”,
e num instante ele sorriu:
“Adiante, como hasteada bandeira,
de cânhamo é a vela do navio!”

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9. A FLOR-MENINO

Estava Kátia ali plantada
à espera da carroça…
A flor menino, estocada,
ficou murcha, macilenta…
– Puxa! – Experimenta!
Eles de novo se alvoroçam…

Entre cotoveladas e sorrisos,
seus irmãos não se continham:
– Para quem a calça? E a camisa?
O chicote e o chicotinho? –
E começou o empurra-empurra:
– Urra! Urra!

Que arteiro esse Greguinho!
Isso, irmão, não é brinquedo!
Essa flor-menina é minha…
Este aqui, eu te concedo:
amassa, asseia este folhedo
e fabrica para ti teu chicotinho!

Greguinho era mesmo um traquinas.
Rosadinhas as bochechas,
lembram, quase, as da menina…
Menos fartas as madeixas.
Mas com olhos tão azuis…
– Da cor do mar! – Ui, ui!

Kátia olhava admirada:
também a flor-menino é útil à beça!
Velas, para que os barcos nadem… –
Nem milagre, nem promessa,
é a puríssima verdade!
O mundo inteiro, se soubesse…

Como os pássaros viajam para o sul,
as plantas também amam o céu azul.
Passarinho, decola!
A plantinha tiraremos da gaiola!
Greguinho estala seu chicote –
Um futuro marinheiro no seu bote.

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10. A BATEÇÃO

Separados os melhores ramos,
o cânhamo no leito ressequiu…
A bateção nós começamos…
E não solta nenhum piu!
Com amor tudo suporte,
e terá vida em vez de morte.

Os grãozinhos, secos e picantes,
nas cabecinhas toc-toc,
em todo canto eles pipocam.
Quantos ramos num só monte!
Mas a poeira que levanta
é ruim demais da conta!

Ajuntem as crianças mais um pouco
e batam, batam com os tocos,
com alegria batam em nós!
E aproveitem nossas sementes,
estourem pipoca e escutem contentes
as histórias de seus avós!

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11.A CAMISA NO RIO

Tu, camisa minha, no fundo do rio!
Tanto que te espero, e até quando?
Só penso, na noite febril:
a diamba no rio afundando!

Como cantam e gargalham,
amarrando, colocando-a na água!
Com uma pedra presa aos galhos,
a diamba naufraga!

Mamãe pediu que eu me console,
vovó explicou para que serve:
precisa ir de molho, até ficar mole!
Verás tua diambinha em breve!

Para isso te batizam,
camisa minha tão esperada?
Que idéia, lavar uma camisa
que sequer foi costurada!

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12. DIAMBA NO PRENSOR

Outono acinzentou os arvoredos
e a diamba já está encharcada:
pela manhã bem cedo
retiraram ela da água.

Bem, agora o trabalho é rápido:
a diamba secar e prensar.
E como a fibra está um trapo!
Sarabamba sarará…

Primeiro no prensor tu a colocas
e começas a pular sobre a alavanca…
Em seguida, numa roca,
um belo tufo tu arrancas!

Sobretudo é preciso rapidez…
Mas no prensor não tem segredo:
Sacode tudo de uma vez!
E cuidado com o dedo!

Vê como eles prensam e prensam –
E a diamba, quietinha, lá embaixo…
Eu sento com vovó em silêncio
e penteio os amados cachos!

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13. ESPADELAR E PENTEAR

Não gosto muito da espadela:
como sacodem e sacodem a diamba!
Rolam pelos cantos tufos dela
enquanto a lâmina esculhamba.

Mas eu amo pentear seus cachos…
Desemaranho e desemaranho,
e já mais sedosa se acha
minha futura camisa de cânhamo.

Para tascar, as espadelas,
para pentear, os pentes,
como dando a uma donzela
um penteado diferente…

Emaranhados os seus ramos
no prensor que estalavam…
Agora na mão a pegamos –
suave, suave…

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14. FRIO E NEVE

Com o inverno cai a neve
e o vento logo se enerva:
No telhado alguém que chora?
A nogueira de frio agoniza?
Deixem o vento brincar lá fora,
não vão congelar os narizes!

É hora de o tempo livre
aproveitar com um bom livro…
Kátia, debruçada sobre as figuras,
sem saber ainda as letras, memoriza,
prediletos da gaveta, os de aventura
sobre outros mares e países…

Com o alfinete vovô trabalha
trançando uma sandália…
pensas, com fio de palha?
Sobre as águas e cordas-bambas,
por quais bandas tanto andas,
sandalinha sarabamba?

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15. SEGUNDA LOA DA DIAMBA
 (Inverno)

Diamba-sarabamba –
de vida sofrida!
Diamba-sarabamba –
de bonito penteado!
Quando tornares-te tecido,
estará tudo perdoado!

Inverno cruel, –
as nuvens formam uma cortina
que encobre todo o céu
enquanto afora murmurinham
os teus ventos prepotentes!
Mas divertem-se os meninos
com mãos cheias de sementes
que saltitam, como fossem joaninhas,
e estalam entre os dentes!

Vovó coroca
de cócoras se aninha,
a seu lado uma cumbuca de pipoca,
e num novelo enrola as linhas
que começam a silvar:
tu diamba, diambinha,
sarabamba saravá!

Flor diamba, menina sarabamba –
benditas sejam ambas!

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16. A MÁQUINA ASSIM VIBRA

Os pássaros já fazem pilhéria,
o degelo a tudo encharca,
outra vez é primavera
e mamãe montou a máquina.

Vem chegando a roupa nova!
Mamãe pôs a urdidura,
e como fosse dura prova
vibra a máquina de costura!

A diamba novamente se emaranha,
enquanto a máquina assim vibra,
talvez não teia de aranha,
mas tecido, fibra a fibra!

E tudo sem despentear,
tece, tece sem parar, maquinaria…
Uma mosca que grudasse no tear
decerto não escaparia…

Depressa, pombinha! Ainda faz frio
e é preciso agasalhar o meu nariz!
E venha o tempo bom primaveril
iluminar nosso país!

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17.  TERCEIRA LOA DA DIAMBA
(Primavera)

A diamba no quintal
acordou de uma soneca, –
como os tecidos no varal
sob o solzinho ela seca.
Seu verde, só, descoloriu
com o todo-poderoso frio…

Ah, a primavera vem chegando!
E além da neve e do gelo,
a diamba e seus cabelos
ao redor vão gotejando e estalando!
E nossa gente tem no rosto
um sorriso de dar gosto
de prazer desabrochando,
como quando no paiol
sob um raiozinho de sol
ouves o canto da calhandra.

Vamos, meninos, em fileira!
Vamos, meninas, dançar uma mazurca!
Eles saltam para perto da lareira
e batucam nas cumbucas.
Pés no chão, mãos na cintura!
Um salto à frente, um giro em torno!
E os sorrisos que fulguram
como a diamba no forno.

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18. TESOURAS E FIOS

Mamãe colocou tudo sobre a mesa,
separando os tecidos um por um,
e se pôs a cortar com destreza
a tesoura: zum-zum!

É de cair o queixo:
também os fios vêm dessa safra!
E pensar que são as mesmas as madeixas
cujo azeite está servido na garrafa…

Às agulhas! Não preciso nem falar.
Por toda a casa, como andorinhas
costuramos, para lá e para cá,
e para o tanque à tardezinha…

Agora todos na aldeia têm camisa:
Kátia sarabambinha
e a vesguinha Lisa,
o irmão Paulinho
e Dária moleca,
e também o careca
vovô Aluízio,
uma xale para a corcova
de vovó Praskóvia,
sandálias para as descalças
Natália e Eduarda,
e ainda costuraram calças
para o Greguinho de sardas.

Esse verão Greguinho vai pastorear,
os rebanhos conduzir às campinas…
“E algum dia, para o mar!”,
o chicote rasgou a neblina.

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19. GREGUINHO PASTOR

Abril já passou, tu mesmo vês:
há diambas novinhas por onde fores.
A primavera trabalhou mais uma vez
e foi embora deixando as flores…

E entrando em maio tu verás
como as ovelhas conduzindo pelos campos
e perdendo no caminho os seus grampos
Kátia vai, Greguinho atrás.

De camisa nova, o novo pastor
e futuro marinheiro, –
basta à Kátia ele propôr
alguma nova brincadeira.

E nas mãos os seu chicote:
Pastor! – E tenho dito!
E com estalos cada vez mais fortes
por dez vezes se repita!

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20. A DIAMBA E A CORDA

Penteados e lavados seus cabelos,
sopra o vento, eles dançam.
Se alguém pensar torcê-los,
eis a mais bela das tranças.

A diamba nos bazares vai à venda,
as cordas para as tarefas difíceis,
o chicote pelos ares socorrendo
o cavaleiro em seu ofício.

Não se vive nem um dia sem diamba
e sem as cordas de seus cachos…
Um dia no campo descamba,
sem ela, barranco abaixo!

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21. POR TODA A PARTE A DIAMBA ESTÁ

Kátia foi ao monte
sem levar o seu rebanho,
olhou ao longe o horizonte…
Há algo estranho…

Derramando seu calor
por toda a terra e todo o mar,
o sol está para se pôr  –
e Kátia… pronta a navegar!

E onde houver terra
a diamba está,
e sarabamba se encerra
onde houver mar…

Só uma história, ou o futuro?
Assim, sem nenhum aviso
a aldeia inteira flutua
bem diante de nossos narizes!

E onde vemos Kátia,
na verdade, é uma sereia!
E no barco da pátria
está Greguinho, o marinheiro!

O mar com suas ondas se alegrou,
a vela se ergueu alto no mastro
e o barquinho, como um grou,
no horizonte se afasta…

E a terra toda redonda
floresceu como a diamba!
E a saudou o sol se pondo:
salve, salve, sarabamba!

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Alicerces, de Maggie Smith

maggie-smith

Alicerces, tradução por Stella Paterniani

A vida é curta, mas isso eu não conto às minhas filhas.
A vida é curta, e a minha eu encurtei
com mil maneiras deliciosas, imprudentes,
mil maneiras deliciosamente imprudentes
que não contarei às minhas filhas. O mundo é no mínimo
cinquenta por cento terrível, e olhe essa estimativa
é conservadora, embora eu não conte às minhas filhas.
Para cada passarinho há uma pedra estilingada num passarinho.
Para cada criança amada, uma criança despedaçada, ensacada,
submersa num lago. A vida é curta e pelo menos
metade do mundo é horrível, e para cada gentil
desconhecido, há um que te destroçaria,
mas isso eu não conto às minhas filhas. Tento
vender-lhes o mundo. Qualquer corretor de imóveis hábil,
ao te abrir a porta de uma espelunca, tagarela sobre
os alicerces: esse lugar poderia ser lindo,
né não? Você poderia fazer daqui um lugar maravilhoso.

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Good bones, de Maggie Smith

Life is short, though I keep this from my children.
Life is short, and I’ve shortened mine
in a thousand delicious, ill-advised ways,
a thousand deliciously ill-advised ways
I’ll keep from my children. The world is at least
fifty percent terrible, and that’s a conservative
estimate, though I keep this from my children.
For every bird there is a stone thrown at a bird.
For every loved child, a child broken, bagged,
sunk in a lake. Life is short and the world
is at least half terrible, and for every kind
stranger, there is one who would break you,
though I keep this from my children. I am trying
to sell them the world. Any decent realtor,
walking you through a real shithole, chirps on
about good bones: This place could be beautiful,
right? You could make this place beautiful.