Planetário, de Adrienne Rich

adrienne

Planetário, tradução por Mariana Ruggieri

[Pensando em Caroline Herschel (1750-1848)
astrônoma, irmã de William; e outras.]

Mulher em forma de monstro
monstro em forma de mulher
os céus estão cheios delas

mulher ‘na neve
entre os Relógios e instrumentos
ou medindo o chão com varas‘

seus 98 anos para descobrir
8 cometas

mulher ela que a lua regia
como nós
levitando à noite-céu
montando lentes polidas

Galáxias de mulheres, ali
cumprindo penitência pelo ímpeto
costelas arrepiadas
naquele lugar das ideias

Um olho

‘viril, preciso e absolutamente certeiro‘
das teias loucas de Uranusborg

encontrando a NOVA

todo impulso de luz explosão

do caroço
à medida que a vida voa

Tycho finalmente sussurra
‘Que eu não pareça ter vivido em vão’

O que vemos, vemos
e ver é cambiar

a luz que encolhe a montanha
e deixa vivo um homem

Heartbeat e o pulsar
coração suando pelo corpo

O impulso de rádio
de Taurus entornando

Bombardeada ainda assim em pé

Em pé minha vida toda no
caminho direto de uma bateria de sinais
mais precisamente transmitido mais
intraduzível língua no universo
Sou nuvem galáctica tão profunda tão invo-
lutosa que a onda de luz poderia levar 15
anos para viajar por mim E vem
levando Sou instrumento com forma
de mulher tentando traduzir pulsos
em imagens para o alívio do corpo
e a remontagem das ideias.

**********************************

Planetarium, de Adrienne Rich

[Thinking of Caroline Herschel (1750—1848)
astronomer, sister of William; and others.]

A woman in the shape of a monster
a monster in the shape of a woman
the skies are full of them

a woman ‘in the snow
among the Clocks and instruments
or measuring the ground with poles’

in her 98 years to discover
8 comets

she whom the moon ruled
like us
levitating into the night sky
riding the polished lenses

Galaxies of women, there
doing penance for impetuousness
ribs chilled
in those spaces of the mind

An eye,

‘virile, precise and absolutely certain’
from the mad webs of Uranusborg

encountering the NOVA

every impulse of light exploding

from the core
as life flies out of us

Tycho whispering at last
‘Let me not seem to have lived in vain’

What we see, we see
and seeing is changing

the light that shrivels a mountain
and leaves a man alive

Heartbeat of the pulsar
heart sweating through my body

The radio impulse
pouring in from Taurus

I am bombarded yet I stand

I have been standing all my life in the
direct path of a battery of signals
the most accurately transmitted most
untranslatable language in the universe
I am a galactic cloud so deep so invo-
luted that a light wave could take 15
years to travel through me And has
taken I am an instrument in the shape
of a woman trying to translate pulsations
into images for the relief of the body
and the reconstruction of the mind.

talvez não seja sempre assim; e digo, de e. e. cummings

tradução de stella paterniani

talvez não seja sempre assim; e digo
se teus lábios que tanto amei tocarem
os de outro, corações se entrelaçarem
como os nossos num tempo não antigo
se noutro rosto teu cabelo jaz
num silêncio outrora meu e tão sóbrio
ou no desamparado palavrório
em malabares no drink no cais;

se assim, repito, sabe, se assim for
minha amada, tem comigo uma prosa
pra que eu vá até ele tome partido
diga Felicidades, todo o amor
e vire o rosto e ouça uma felosa
cantar distante no reino perdido

*

it may not always be so; and i say
that if your lips,which i have loved,should touch
another’s,and your dear strong fingers clutch
his heart,as mine in time not far away;
if on another’s face your sweet hair lay
in such silence as i know,or such
great writhing words as,uttering overmuch,
stand helplessly before the spirit at bay;

if this should be,i say if this should be—
you of my heart,send me a little word;
that i may go unto him,and take his hands,
saying,Accept all happiness from me.
Then shall i turn my face,and hear one bird
sing terribly afar in the lost lands

 

A Novela italiana, de Rober Walser

robert walser

A novela italiana
Tradução: Tomaz Amorim Izabel

Eu tenho fortes motivos para me perguntar se irá agradar uma história que conta sobre duas pessoas ou duas pessoinhas, a saber, uma moça adorável e gentil e um homem jovem, corajoso, bom e, à sua maneira, pelo menos também tão gentil quanto ela, que mantinham entre si a mais bela e profunda relação de amizade. O amor terno e apaixonado que eles sentiam um pelo outro igualava o sol de verão em calor e a neve de dezembro em pureza e castidade. Sua confiança mútua e gentil parecia inabalável e a afeição ardente e inocente crescia dia após dia, como uma planta cheia de cores e fragrâncias maravilhosas. Nada parecia poder perturbar esta das mais estáveis das situações e das mais belas das convicções. Tudo teria permanecido bonito e bem, não conhecesse o homem jovem, corajoso, bom e amado tão bem a Novela italiana. O conhecimento exato, entretanto, da beleza, esplendor e majestade da Novela italiana deixaram no, como o leitor atento imediatamente compreenderá, besta, roubaram dele por algum tempo a metade do seu juízo sadio e o constrangeram, o forçaram, o obrigaram a um dia, de manhã ou de noite, às oito, às duas ou às sete horas, a dizer com voz cansada para sua amada: “Ei, ouça, tenho que te falar uma coisa, uma coisa que já me pressiona, me atormenta e me tortura há muito tempo, uma coisa que talvez vá nos fazer infelizes. Eu não devo manter isto em silêncio, eu preciso, preciso te dizer. Junte toda a sua coragem e resistência. É possível que a notícia terrível e horrorosa te mate. Ai, queria me dar mil safanões ressoantes e arrancar os meus cabelos”. A pobre moça exclamou raivosa: “Eu não estou te reconhecendo. O que te atormenta, o que te tortura? O que é de tão terrível que você até agora me escondeu e que agora tem que me confiar? Adiante com as palavras aqui, para que eu saiba o que eu tenho a temer e o que eu por ventura ainda tenho para crer. Coragem para tolerar o mais pesado e para suportar o mais extremo não me falta”. Assim ela falou, claro, e tremia de medo com todo o corpo, e o desconforto se alastrou com uma palidez mórbida sobre seu rosto amável, até então fresco e belo. “Perceba”, disse o jovem homem, “que eu infelizmente tenho um conhecimento profundo demais da Novela italiana e que justo este saber é nossa infelicidade”. “Como isto, pelo amor de Deus?”, ela perguntou, digna de pena, “como pode ser que formação e conhecimento possam nos deixar inconsoláveis e destruir nossa felicidade?”. No que coube a ele replicar: “Porque o estilo da Novela italiana é único em beleza, sabor e força e porque o nosso amor não tem um estilo assim para apresentar. Este pensamento me deixa inconsolável e eu não consigo mais acreditar em nenhuma felicidade”. Por cerca de dez minutos ou um pouco mais, ambas as boas e jovens pessoas soltaram a cabeça e a cabecinha e ficaram completamente desamparados e aturdidos. Aos poucos, no entanto, foram ganhando de volta a confiança e a fé perdida, e voltaram de novo à reflexão. Eles rejuntaram as forças e saíram da tristeza e do desânimo, olharam amigavelmente uns nos olhos do outro, sorriram e se deram as mãos, se aninharam bem próximos, estavam mais felizes e mais confiantes do que nunca porque disseram: “Agora, como antes, apesar de todo o estilo e magnificência da Novela italiana, nós queremos ter alegria e prazer um no outro e nos amarmos com afeto, assim como éramos antes. Nós queremos ser modestos e satisfeitos e não queremos nos preocupar com nenhum modelo que nos roube o gosto e o prazer natural. Permanecer simples e honestos um com o outro, e sermos bons, é melhor do que o mais belo e distinto estilo, que nos pode ser roubado, não é”. Com estas palavras alegres eles se beijaram com a maior intimidade, riram do seu desalento ridículo e ficaram novamente satisfeitos.

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Die italienische Novelle
Robert Walser

Ich habe starke Ursache, mich zu fragen, ob eine Geschichte gefallen wird, die von zwei Leuten oder Leutchen, nämlich von einem reizenden netten Mädchen und von einem in seiner Art mindestens ebenso netten braven guten jungen Mann berichtet, die im schönsten und innigsten Freundschaftsverhältnis zu einander standen. Die zärtliche und leidenschaftliche Liebe, die sie gegenseitig fühlten, glich an Hitze der Sommersonne und an Reinheit und Keuschheit dem dezemberlichen Schnee. Ihr beidseitiges liebenswürdiges Vertrauen schien unerschütterlich, und die feurige unschuldige Neigung wuchs von Tag zu Tag wie eine wundervolle farben- und duftreiche Pflanze. Nichts schienden allerholdesten Zustand und das allerschönste Zutrauen stören zu können. Alles wäre schön und gut gewesen, wenn nur der brave gute liebe und junge Mann die italienische Novelle nicht so gut gekannt hätte. Die exakte Kenntnis jedoch von der Schönheit, Pracht und Herrlichkeit der italienischen Novelle machte ihn, wie der aufmerksame Leser sogleich erfahren wird, zum Schafskopf, raubte ihm für eine Zeitlang die Hälfte des gesunden Verstandes und veranlasste, zwang und nötigte ihn eines Tages, morgens oder abends, um acht, zwei oder sieben Uhr zu seiner Geliebten mit dumpfer Stimme zu sagen: »Du, höre, ich habe dir etwas zu sagen, etwas, das mich schon die längste Zeit drückt, plagt und foltert, etwas, das uns Beide vielleicht unglücklich machen wird. Ich darf es dir nicht verschweigen, ich muss, ich muss es dir sagen. Nimm allen deinen Mut und alle deine Festigkeit zusammen. Es kann sein, dass dich die Kunde von dem Schrecklichen und Furchtbaren tötet. O ich möchte mir tausend schallende Ohrfeigen geben und mir das Haar ausraufen.« Das arme Mädchen rief angstvoll aus: »Ich kenne dich nicht mehr. Was quält, was peinigt dich. Was ist es Schreckliches, das du mir bis dahin verheimlicht und das du mir anzuvertrauen hast. Heraus mit der Sprache auf der Stelle, damit ich weiss, was ich zu fürchten und was ich irgendwie noch zu hoffen habe. An Mut, das Härteste zu dulden und das Äusserste zu ertragen, fehlt es mir nicht.« – Die so redete, zitterte freilich vor Angst am ganzen Körper, und das Unbehagen verbreitete eine tödliche Blässe über ihr liebreizendes, sonst so frisches und hübsches Gesicht. »Vernimm«, sagte der junge Mann, »dass ich leider nur ein zu gründlicher Kenner der italienischen Novelle bin und dass eben diese Wissenschaft unser Unglück ist.« – »Wieso das, um Gotteswillen?«, fragte die Bedauernswürdige, »wie ist es möglich, dass Bildung und Wissenschaft uns trostlos machen und unser Glück zerstören können?« Worauf es ihm beliebte, zu erwidern: »Weil der Stil in der italienischen Novelle an Schönheit, Saft und Kraft einzig dasteht, und weil unsere Liebe keinen derartigen Stil aufzuweisen hat. Dieser Gedanke macht mich trostlos, und ich vermag an kein Glück mehr zu glauben.« Beide guten jungen Leute liessen zirka zehn Minuten lang oder etwas länger den Kopf und das Köpfchen hängen und waren völlig rat- und fassungslos. Nach und nach gewannen sie jedoch die Zuversicht und den verlorenen Glauben wieder zurück, und sie kamen wieder zur Besinnung. Sie rafften sich aus Trauer und Entmutigung auf, schauten einander freundlich in die Augen, lächelten und gaben sich die Hand, schmiegten sich eng zusammen, waren glücklicher und vertraulicher als je zuvor, indem sie sagten: »Wir wollen nach wie vor trotz allen stilvollen und prachtvollen italienischen Novellen Freude und Genuss aneinander haben und uns zärtlich lieben, so wie wir einmal sind. Wir wollen genügsam und zufrieden sein und uns um keine Vorbilder kümmern, die uns nur den Geschmack und das natürliche Vergnügen rauben. Schlicht und ehrlich aneinanderhängen und warm und gut sein ist besser als der schönste und vornehmste Stil, der uns gestohlen sein kann, nicht wahr.« Mit diesen fröhlichen Worten küssten sie sich auf das innigste, lachten über ihre lächerliche Mutlosigkeit und waren wieder zufrieden.

Sentado sobre os mortos, de Miguel Hernández

hernandez

Sentado sobre os mortos
Tradução por Franklin Morais

Sentado sobre os mortos
que silenciariam em dois meses,
beijo sapatos vazios
e empunho raivoso
a mão do coração
e a alma que o sustém.
Que minha voz vá aos montes
e chegue à terra e estrondeie,
isso pede minha garganta,
agora e para sempre.
Achegues ao meu clamor,
povo de meu mesmo leite,
árvore que com suas raízes
enclausurado me tens,
que aqui estou eu para te amar,
e para te defender,
com o sangue e com a boca,
como dos fiéis fuzis.
Se saí da terra,
se nasci de um ventre,
desgraçado e com pobreza,
não foi senão para fazer-me
rouxinol das desgraças,
rumor de má sorte,
e cantar e repetir
a quem me escutar deve
nas lástimas, nas misérias,
no que a terra concerne.
Outrora alvoreceu o povo,
maltrapilho e miserável,
faminto e desgraçado,
e o dia de hoje alvorece
miseravelmente revolto
e sangrento miseravelmente.
Em suas mãos os fuzis
leões querem tomar
para acabar com as feras
que tantas vezes têm sido.
Ainda que te faltem as armas,
povo de cem mil poderes,
não desfaleçam seus ossos,
castiga a quem te golpeie
ainda que te faltem punhos,
unhas, saliva, e te traiam
coração, entranhas, tripas
coisas viris, e dentes.
Feroz como o vento feroz,
leve como o ar leve,
assassina ao que assassina,
aborrece ao que aborrece
a paz de seu coração
e o ventre de suas mulheres.
Não te firam com a espada,
vive cara a cara e morres
com o peito diante das balas,
largo como as paredes.
Canto com a voz de luto,
povo meu, por teus heróis:
suas dores como as minhas,
suas desgraças que têm
do mesmo metal o pranto,
as dores do mesmo calor,
e da mesma madeira
seu pensamento e minha testa,
seu coração e meu sangue,
sua fadiga e meus lauréis.
Antemuro do nada
essa vida me parece.
Aqui estou para viver
enquanto a alma ressoa
e aqui estou para morrer,
quando o tempo me venha,
nos veios do povo
agora e para sempre.
Vários tragos é a vida
e um só trago é a morte.

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Sentado sobre los muertos
Miguel Hernández

Sentado sobre los muertos
que se han callado en dos meses,
beso zapatos vacíos
y empuño rabiosamente
la mano del corazón
y el alma que lo mantiene.
Que mi voz suba a los montes
y baje a la tierra y truene,
eso pide mi garganta
desde ahora y desde siempre.
Acércate a mi clamor,
pueblo de mi misma leche,
árbol que con tus raíces
encarcelado me tienes,
que aquí estoy yo para amarte
y estoy para defenderte
con la sangre y con la boca
como dos fusiles fieles.
Si yo salí de la tierra,
si yo he nacido de un vientre
desdichado y con pobreza,
no fue sino para hacerme
ruiseñor de las desdichas,
eco de la mala suerte,
y cantar y repetir
a quien escucharme debe
cuanto a penas, cuanto a pobres,
cuanto a tierra se refiere.
Ayer amaneció el pueblo
desnudo y sin qué comer,
y el día de hoy amanece
justamente aborrascado
y sangriento justamente.
En su mano los fusiles
leones quieren volverse:
para acabar con las fieras
que lo han sido tantas veces.
Aunque le faltan las armas,
pueblo de cien mil poderes,
no desfallezcan tus huesos,
castiga a quien te malhiere
mientras que te queden puños,
uñas, saliva, y te queden
corazón, entrañas, tripas,
cosas de varón y dientes.
Bravo como el viento bravo,
leve como el aire leve,
asesina al que asesina,
aborrece al que aborrece
la paz de tu corazón
y el vientre de tus mujeres.
No te hieran por la espalda,
vive cara a cara y muere
con el pecho ante las balas,
ancho como las paredes.
Canto con la voz de luto,
pueblo de mí, por tus héroes:
tus ansias como las mías,
tus desventuras que tienen
del mismo metal el llanto,
las penas del mismo temple,
y de la misma madera
tu pensamiento y mi frente,
tu corazón y mi sangre,
tu dolor y mis laureles.
Antemuro de la nada
esta vida me parece.
Aquí estoy para vivir
mientras el alma me suene,
y aquí estoy para morir,
cuando la hora me llegue,
en los veneros del pueblo
desde ahora y desde siempre.
Varios tragos es la vida
y un solo trago es la muerte.

Algodão que se perde no campo, de Frank Stanford

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Algodão que se perde no campo, tradução por Mariana Ruggieri

Um pouco de uísque ruim
que eu tomo sozinho
igual você
quando esse vento
venta esse vento
no vão do delta
onde um aparelho de audição
perdido pode ser tomado
por uma larva gorda
quando as constelações negras
te fazem nadar para trás
em círculos de sangue
meninos de estábulo estragam suas mãos
por algum tempo
e um homem que nenhum de nós
pode viver sem
quebra o pescoço
pulando algum morro
perseguindo a raposa
de um quartilho
e um cavalo sangue bom
é libertado de sua angústia
mesmo as jovens irmãs
dos meninos com quem corremos
nós daríamos os nossos dedos
para tocá-las de novo
mas essa guerra
se infiltra em nós
pequeno inseticídio
e os grilos brancos daqueles dias
se desenroscam do anzol
não existem mais peixes
não existe mais isca
os rios são formados pelas lágrimas de fãs esportivos
tentamos derramar um rastro de sal
a desenhar um longo fusível
com um barril de pólvora
tentamos nadar para longe da quadra
como lesmas com guelras
as meninas da outra escola
saltam do ônibus
as nuvens tomam seu peso no gin
há um padrão em tudo isso
como a trama de uma saia
enlouquecemos todos olhando

*****************************
Cotton You Lose in the Field, de Frank Stanford

Some bad whiskey
I drink by myself
just like you
when this wind
blows as it does
in the delta
where a lost hearing aid
can be taken
for a grub worm
when the black constellations
make you swim backwards
in circles of blood
stableboys ruin their hands
for a while
and a man none of us
can do without
breaks his neck
jumping over some hill
chasing the fox
of a half-pint
and a fine-blooded horse
is put out of its misery
even the young sisters
of the boys we run with
we would give our fingers
to touch them again
but this war
seeps back into us
little insecticide
and the white cricket of those days
drags itself off the hook
there are no more fish
there is no more bait
the rivers are formed by the tears of sports fans
we try to pour a trail of salt
as if making a long fuse
with a gunpowder keg
we try to swim away from the gym
like slugs with gills
the girls from the other school
step off the bus
the clouds are weighed in at the gin
there is a pattern to all this
like a weave of a skirt
we all go crazy from looking

ANNA AKHMÁTOVA (POEMAS)

AnnaAkhmtova. rosário

ANNA AKHMÁTOVA (POEMAS)

Traduções, André Nogueira (2015)

Obs. Esta publicação acontece hoje, na data de 05.03.2016, ao se completarem 50 anos da passagem de Akhmátova.

* * *

Torcia as mãos sob o xale escuro…
“Por que hoje estás tão pálida?”
– Fui dar-lhe de beber minha amargura
Até deixá-lo embriagado.

Como esquecer? Ele saiu, cambaleando,
E nos lábios uma horrenda contorção…
Desci correndo, sem pegar no corrimão,
E no portão segurei ele pela manga.

Sufocada, eu gritei: “O que se deu
Foi brincadeira. Se tu fores, não agüento.”
Ele então com toda calma respondeu
E com frieza: “Não te exponhas tanto ao vento”.

1911

* * *

Сжала руки под тёмной вуалью…
“Отчего ты сегодня бледна?”
– Оттого, что я терпкой печалью
Напоила его допьяна.

Как забуду? Он вышел, шатаясь,
Искривился мучительно рот…
Я сбежала, перил не касаясь,
Я бежала за ним до ворот.

Задыхаясь, я крикнула: “Шутка
Всё, что было. Уйдешь, я умру.”
Улыбнулся спокойно и жутко
И сказал мне: “Не стой на ветру”

1911

* * *

Porta aberta, luz acesa,
As tílias com doçura murmurinham…
Esquecidos sobre a mesa
Estão a luva e o chicotinho.

Amarela é a auréola do lustre…
Escuto, atenta, os murmúrios.
Por que correste tu de susto?
Nem sequer conjecturo.

Com alegria, o clarão
Do novo dia amanhecendo.
Esta vida é estupenda
E seja sábio o coração.

Te amortece a dor horrenda
E o espasmos se acalmam…
Sabe, estive lendo
Que é eterna nossa alma.

1911

* * *

Дверь полуоткрыта,
Веют липы сладко…
На столе забыты
Хлыстик и перчатка.

Круг от лампы желтый…
Шорохам внимаю.
Отчего ушел ты?
Я не понимаю…

Радостно и ясно
Завтра будет утро.
Эта жизнь прекрасна,
Сердце, будь же мудро.

Ты совсем устало,
Бьешься тише, глуше…
Знаешь, я читала,
Что бессмертны души.

1911

* * *

Seu vizinho, eu perdi as estribeiras!
Tardezinha, quarta-feira.
Uma vespa foi quem veio me zoar…
Picou no meio do meu dedo, o anelar.

Foi sem querer que a apertei
E, pelo visto, morrerá.
Se seu ferrão terá veneno, eu não sei,
Como uma agulha de tear.

Em teu colo, seu vizinho, vim chorar.
Tu me darás algum sorriso?
Olha isso: em meu dedo, anular
O tão bonito meu anel de compromisso.

18-19 de março 1911

* * *

Я сошла с ума, о мальчик странный,
В среду, в три часа!
Уколола палец безымянный
Мне звенящая оса.

Я ее нечаянно прижала,
И, казалось, умерла она,
Но конец отравленного жала
Был острей веретена.

О тебе ли я заплачу, странном,
Улыбнется ль мне твое лицо?
Посмотри! На пальце безымянном
Так красиво гладкое кольцо.

18-19 марта 1911

A CÂMARA NOTURNA

Estas palavras de antemão que pronuncio
Atingiram meu espírito em cheio,
Uma abelha no crisântemo zuniu
E um sachê envelhecido exala cheiros.

Na câmara, tu vês, não há janelas, só um vão.
Torso de colecionador, o amor exposto nu
E sobre a cama, em francês, uma inscrição:
“Seigneur, ayez pitie de nous”.

Velhas histórias, com seus tristes desenlaces,
Minha alma a este horror não submetas.
Sob a capa desgastada, em realce,
Arranhões no verniz da estatueta.

Sobre o buquê que, sobre a mesa, estiola,
O raio último de sol petrificou-se.
Como em sonho um acorde de viola
E o som do clavicorde ainda ouço.

* “Senhor, tenha piedade de nós” (franc.)

1912

ВЕЧЕРНЯЯ КОМНАТА

Я говорю сейчас словами теми,
Что только раз рождаются в душе.
Жужжит пчела на белой хризантеме,
Так душно пахнет старое саше.

И комната, где окна слишком узки,
Хранит любовь и помнит старину,
А над кроватью надпись по-французски
Гласит: “Seigneur, ayez pitie de nous»*.

Ты сказки давней горестных заметок,
Душа моя, не тронь и не ищи…
Смотрю, блестящих севрских статуэток
Померкли глянцевитые плащи.

Последний луч, и желтый и тяжелый,
Застыл в букете ярких георгин,
И как во сне я слышу звук виолы
И редкие аккорды клавесин.

* Господи, смилуйся над нами (франц.).

1912

Anna-Akhmatova-with-her-husband-Nikolay-Gumilev-and-son-Lev-Gumilev-1913                (Akhmátova em 1913 com seu esposo, Nikolai Gumiliov, e seu filho, Liev Gumiliov)

* * *

“Onde está teu ciganinho, excelência?
Teu pequeno e primogênito neném,
A quem conheces bem melhor do que ninguém
E, quando chora, tu embalas com o lenço.”

“O destino de uma mãe, iluminar-se na tortura.
Não considero que eu dela seja digna.
A cancela se abriu a um paraíso prematuro
E no colo é Madalena quem segura seu estigma.

Cada dia bem vivido em meus tempos alegres
Esquecido sobre a neve eu abandono.
Os meus braços sofredores que o carreguem
E seu choro despedace com meu sono.

O coração se apagou, igual a luz do abajur.
Esqueço tudo o que for da minha conta
Enquanto ando pelo cômodo escuro
Onde procuro pelo berço e não encontro”.

1914

* * *

“Где, высокая, твой цыганенок,
Тот, что плакал под черным платком,
Где твой маленький первый ребенок,
Что ты знаешь, что помнишь о нем?”

“Доля матери – светлая пытка,
Я достойна ее не была.
В белый рай растворилась калитка,
Магдалина сыночка взяла.

Каждый день мой – веселый, хороший,
Заблудилась я в длинной весне,
Только руки тоскуют по ноше,
Только плач его слышу во сне.

Станет сердце тревожным и томным,
И не помню тогда ничего,
Все брожу я по комнатам темным,
Все ищу колыбельку его”.

1914

CANÇÃO DE NINAR

Longe mata adentro,
Atravessando o remoinho,
Um chalé sem acalento,
Um lenhador bem pobrezinho.

O caçula reclamava por papá, –
De que forma fazê-lo parar?
Dorme, meu filhinho, dorme,
Eu sou uma mãe má.

Vê o que contou o passarinho
Que pousou nestes umbrais…
Foi dada uma cruzinha,
De presente, a teu pai.

A fome vem, a fome vai,
E fome em casa se aloja.
Que São Jorge
Livre e guarde teu papai.

1915, Tsárskoe Seló.

КОЛЫБЕЛЬНАЯ

Далеко в лесу огромном,
Возле синих рек,
Жил с детьми в избушке темной
Бедный дровосек.

Младший сын был ростом с пальчик,
-Как тебя унять,
Спи, мой тихий, спи, мой мальчик,
Я дурная мать.

Долетают редко вести
К нашему крыльцу,
Подарили белый крестик
Твоему отцу.

Было горе, будет горе,
Горю нет конца,
Да хранит святой Егорий
Твоего отца.

1915, Царское Село

* * *

Por que tu te disfarças
De pássaro, de seixo, de sarça?
Por que tu te divertes
Com lampejos cravejando-me celestes?

Deixa-me, e não mais me assedies.
Vai cuidar de tuas próprias bruxarias!
Meio ao pântano, embebido na penumbra,
Bruxuleia o ébrio vislumbre.

E eis a Musa, num esburacado véu,
Que arrasta cânticos tristonhos.
O poder de suportar dor tão cruel
É mais pressago que o sonho.

1915

* * *

Зачем притворяешься ты
То ветром, то камнем, то птицей?
Зачем улыбаешься ты
Мне с неба внезапной зарницей?

Не мучь меня больше, не тронь!
Пусти меня к вещим заботам…
Шатается пьяный огонь
По высохшим серым болотам.

И Муза в дырявом платке
Протяжно поет и уныло.
В жестокой и юной тоске
Ее чудотворная сила.

1915

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                                (Akhmátova desenhada por Amedeo Modigliani, 1911)

 

ÉPICOS MOTIVOS

Eu canto, e o bosque verdeja…
B. A.

1

Naquele tempo eu era hóspede na terra.
O nome que me deram de batismo – Anna –
Era dulcíssimo aos ouvidos e aos lábios dos humanos.
E assim eu por milagre conhecia o júbilo terrestre
E, nem sequer contando vinte aniversários,
Eram tantas minhas festas quantos dias há no ano.
E, obedecendo a certo ímpeto secreto,
Eleger bem poderia um desprendido pretendente,
Mas o sol, apenas, eu amava, e as árvores.
Foi quando, num verão, se bem me lembro,
Eu encontrei uma estrangeira em duvidosa hora do dia
E juntas, na morna água do mar, nós nos banhávamos.
Estranho pareceu-me o seu traje de banho,
E ainda mais estranhos os seus lábios e palavras –
Raras, como estrelas cadentes em setembro.
Com as mãos me apoiando por debaixo,
Ensinava-me a boiar, como relaxam
Do meu corpo os membros sobre as ondas.
De repente estatelei naquelas águas azul-claras
E, com um ar meio gaiato, ela a mim se dirigiu,
E pareceu-me que as copas da floresta
Com as folhas farfalhavam, a areia derrocou sob meus pés
E, como o fole de uma gaita, anunciou num assobio
A necessária despedida, pois o sol ia se pondo.
Das palavras que ela disse, não podia me lembrar
E já a noite vem descendo sombreando seu perfil:
O corpo esbelto, com a boca entreaberta,
O liso penteado circundando seu olhar.
Como perante eu estivesse a profetiza do divino,
Suplicante, proferi para a menina: “Diz-me,
Como assim, me surrupias a memória?
Para que me sussurrar ao rés do ouvido, se a glória
De cantar o que ouvi, tu retiraste-a de mim?”
Só uma vez, eu passeando na vindima,
Enchi o meu de estimação cesto de vime
E, bronzeada, me sentei sobre o capim.
Com as pálpebras cerradas os cabelos destrançava,
Lânguida estava e dos perfumes estafada
Que exalavam desde os figos azulados
E do hálito picante das silvestres hortelãs –
E ela então, no relicário da memória, delicada derramou
Esta delícia de palavras, como doce de licor.
E, o cesto cheio eu lançando pelos ares,
De joelhos me atirei sobre o orvalho da manhã
Como a amante sobre os pés de seu amor.

Outono 1913

ЭПИЧЕСКИЕ МОТИВЫ

                   Я пою, и лес зеленеет.

                                                                Б. А.

1

В то время я гостила на земле.
Мне дали имя при крещенье — Анна,
Сладчайшее для губ людских и слуха.
Так дивно знала я земную радость
И праздников считала не двенадцать,
А столько, сколько было дней в году.
Я, тайному велению покорна,
Товарища свободного избрав,
Любила только солнце и деревья.
Однажды поздним летом иностранку
Я встретила в лукавый час зари,
И вместе мы купались в теплом море,
Ее одежда странной мне казалась,
Еще страннее — губы, а слова —
Как звезды падали сентябрьской ночью.
И стройная меня учила плавать,
Одной рукой поддерживая тело
Неопытное на тугих волнах.
И часто, стоя в голубой воде,
Она со мной неспешно говорила,
И мне казалось, что вершины леса
Слегка шумят, или хрустит песок,
Иль голосом серебряным волынка
Вдали поет о вечере разлук.
Но слов ее я помнить не могла
И часто ночью с болью просыпалась.
Мне чудился полуоткрытый рот,
Ее глаза и гладкая прическа.
Как вестника небесного, молила
Я девушку печальную тогда:
«Скажи, скажи, зачем угасла память
И, так томительно лаская слух,
Ты отняла блаженство повторенья?..»
И только раз, когда я виноград
В плетеную корзинку собирала,
А смуглая сидела на траве,
Глаза закрыв и распустивши косы,
И томною была и утомленной
От запаха тяжелых синих ягод
И пряного дыханья дикой мяты,—
Она слова чудесные вложила
В сокровищницу памяти моей,
И, полную корзину уронив,
Припала я к земле сухой и душной,
Как к милому, когда поет любовь.

Осень 1913
Akhmatova_by_Altman

                                           (Akhmátova retratada por Nathan Altman, 1914)

2

Despedindo-me das matas desta pátria sacrossanta
E da casa, onde a Musa Soluçante já não vai,
Eu, em silêncio, ia feliz levando a vida
Numa ilha toda plana, como fosse uma jangada
Encalhada sobre o barro do Nievá.
Oh, mistério desses dias invernais,
Os prazerosos afazeres, sensações de fadiga
E rosas colocadas em um jarro no lavabo!
A rua era coberta pela neve, e acabava na esquina
Bem diante de uma árvore, e de frente com a parede
Erigida na igreja enrijecida, Santa Catarina.
Como ia para a rua sempre cedo
Amiúde procurando da amada seus vestígios
Eu assim esmiuçava a pálida camada
De uma neve ainda virgem.
À margem do Nievá, onde os veleiros como pombas
Se esgueiram, ternamente se tocando ombro a ombro,
A cínzea praia eternamente se apronta
Com um véu de névoa, mas a primavera tarda.
Cheguei junto à velha ponte.
Existe lá certo lugar, mais semelhante a uma gaiola
Do que a um lar, sob o telhado da mansarda
Onde ele, como fosse um sabiá, me cantarola
E entre nós o cavalete e seu trabalho árduo.
Como diante de um espelho, eu olhava estupefata
Para o quadro, esta cada vez mais cínzea
Imagem e semelhança do retrato
Com a minha vida, sôfrega e narcísea.
Já não sei onde estará o meu artista predileto
Que galgou pela janela e que comigo
Sobre tetos e abismos perigosos caminhou
A contemplar a neve, o Nievá e sua eterna névoa –
Mas, sei, as nossas Musas são amigas,
Como moças que ainda desconhecem o amor
E que portanto são fraternas e benévolas.

2

Покинув рощи родины священной
И дом, где Муза Плача изнывала,
Я, тихая, веселая, жила
На низком острове, который, словно плот,
Остановился в пышной невской дельте.
О, зимние таинственные дни,
И милый труд, и легкая усталость,
И розы в умывальном кувшине!
Был переулок снежным и недлинным.
И против двери к нам стеной алтарной
Воздвигнут храм святой Екатерины.
Как рано я из дома выходила,
И часто по нетронутому снегу,
Свои следы вчерашние напрасно
На бледной, чистой пелене ища,
И вдоль реки, где шхуны, как голубки,
Друг к другу нежно, нежно прижимаясь,
О сером взморье до весны тоскуют,—
Я подходила к старому мосту.
Там комната, похожая на клетку,
Под самой крышей в грязном, шумном доме,
Где он, как чиж, свистал перед мольбертом,
И жаловался весело, и грустно
О радости небывшей говорил.
Как в зеркало, глядела я тревожно
На серый холст, и с каждою неделей
Все горше и страннее было сходство
Мое с моим изображеньем новым.
Теперь не знаю, где художник милый,
С которым я из голубой мансарды
Через окно на крышу выходила
И по карнизу шла над смертной бездной,
Чтоб видеть снег, Неву и облака,—
Но чувствую, что Музы наши дружны
Беспечной и пленительною дружбой,
Как девушки, не знавшие любви.

anna Olga_kardovskaya_portret_ahmatovoy_1914_szh_16 (1)

                         (Akhmátova retratada por Olga Della-Vos-Kardovskaya, 1914)

3

Anoitecia o escuro azul do céu, lá onde antes
A igreja de Jerusalém, que se esconde declinante,
Gerava luz do além, dando-nos raios magníficos.
Estrelas duas, só, havia sobre as copas
E a neve revoava com um vento que não sopra
Lá de cima, mas da terra se levanta
Ocioso, afável e pacífico.
Ir passear àquela hora, parecia-me impróprio.
Quando saí, os olhos, tive de fechá-los:
Um revérbero de luz brilhou nas coisas e nas faces,
Como pétalas de rosa em toda parte se deitassem
De amarela cor recém-desabrochada.
O ar calmo, seco e gélido
Embalando outra vez a cornamusa e sons angélicos,
Não posso suportar isso calada.
A ponte cruza, tencionando enferrujados corrimãos,
Frinchas de gelo onde os patos cambalhotam,
As crianças, com luvinhas protegendo suas mãos,
A eles dando de comer umas bolotas.
E eu pensei: não pode ser que algum dia esqueça isso.
O caminho pela frente pode até me ser difícil,
Não me importa, se esta cruz couber que eu leve,
Suportável e quase leve como a luz de um arrebol,
Até que eu chegue na velhice,
Na doença e, quem sabe, na indigência –
E, assim, identifique o furioso arder do sol
Que se esconde, mas revela: é indelével
O espírito, embora a vida se decline no silêncio.

1914-1916

3

Смеркается, и в небе темно-синем,
Где так недавно храм Ерусалимский
Таинственным сиял великолепьем,
Лишь две звезды над путаницей веток,
И снег летит откуда-то не сверху,
А словно подымается с земли,
Ленивый, ласковый и осторожный.
Мне странною в тот день была прогулка.
Когда я вышла, ослепил меня
Прозрачный отблеск на вещах и лицах,
Как будто всюду лепестки лежали
Тех желто-розовых некрупных роз,
Название которых я забыла.
Безветренный, сухой, морозный воздух
Так каждый звук лелеял и хранил,
Что мнилось мне: молчанья не бывает.
И на мосту, сквозь ржавые перила
Просовывая руки в рукавичках,
Кормили дети пестрых жадных уток,
Что кувыркались в проруби чернильной.
И я подумала: не может быть,
Чтоб я когда-нибудь забыла это.
И если трудный путь мне предстоит,
Вот легкий груз, который мне под силу
С собою взять, чтоб в старости, в болезни,
Быть может, в нищете — припоминать
Закат неистовый, и полноту
Душевных сил, и прелесть милой жизни.

1914-1916 

Anna Akhmatova - 06

PRECE
  
Dai-me febre, dor, insônia,
Amargos anos sufocando com a peste,
E levai de mim meu filho, o matrimônio
E o dom divino destes cânticos celestes.
Após dias de tão numerosas cruzes,
Assim rogo em vossos santos oratórios:
Pela nuvem que faz sombra sobre a Rússia,
Descarregai em nós vossa relampejante glória.

1915, Dia de Pentecostes, Petersburgo, Ponte da Trindade

МОЛИТВА

Дай мне горькие годы недуга,
Задыханья, бессонницу, жар,
Отыми и ребенка, и друга,
И таинственный песенный дар —
Так молюсь за Твоей литургией
После стольких томительных дней,
Чтобы туча над темной
РоссиейСтала облаком в славе лучей.

1915, Духов день, Петербург, Троицкий мост

                 * * *

O povo esperava, sob uma ânsia
De suicídio, a exército alemão,
E o espírito ortodoxo de Bizâncio
Em templos russos não tomava comunhão.

O Nievá presenciou sua cidade,
Que da febre do poder quedava enferma,
Esquecendo-se da sua majestade
E sem saber quem tomaria seu governo.

Uma voz me apareceu naquele tempo,
Consolou-me e me ofereceu ajuda:
“Deixa tua terra, tão pecaminosa e surda.
A Rússia abandona para sempre.

Vem. Eu lavo o sangue de tuas mãos
E essa vergonha que teu coração coage.
Com um novo nome limparei a tua imagem
Do ultraje e da passada humilhação”.

Com um gesto indiferente e sóbrio
Os ouvidos eu tapei com as mãos hirtas.
Que assim esse discurso ignóbil
Não profane meu espírito aflito.

Outono 1917, Petersburgo

 * * *

Когда в тоске самоубийства
Народ гостей немецких ждал,
И дух суровый византийства
От русской церкви отлетал,

Когда приневская столица,
Забыв величие своё,
Как опьяневшая блудница,
Не знала, кто берёт ее,-

Мне голос был. Он звал утешно,
Он говорил: “Иди сюда,
Оставь свой край, глухой и грешный,
Оставь Россию навсегда.

Я кровь от рук твоих отмою,
Из сердца выну черный стыд,
Я новым именем покрою
Боль поражений и обид”.

Но равнодушно и спокойно
Руками я замкнула слух,
Чтоб этой речью недостойной
Не осквернился скорбный дух.

Осень 1917, Петербург

A MUSA

Enquanto à noite a sua vinda me ilude
A vida me parece por um fio segura a mim.
O que são honra, liberdade, juventude
Quando ela me visita, no assobio de um clarim?
E eis que, do véu se desfazendo, apareceu
E sobre mim impôs os olhos dardejantes.
Eu pergunto: “Foste tu a ditadora que a Dante
As páginas ditaste do Inferno?” Ela responde: “Eu!”.

1924

МУЗА

Когда я ночью жду ее прихода,
Жизнь, кажется, висит на волоске.
Что почести, что юность, что свобода
Пред милой гостьей с дудочкой в руке.
И вот вошла. Откинув покрывало,
Внимательно взглянула на меня.
Ей говорю: “Ты ль Данту диктовала
Страницы Ада?” Отвечает: ” Я!”.

1924

EM MEMÓRIA DE SERGUEI IESSIÊNIN

Pode a vida se extinguir apenas, como a vela –
Indolor, serena, até o fim da flâmula amarela.
Mas a Rússia não concede a seus poetas
Uma lúcida passagem como esta.

À mais fiel e alada alma deste mundo
Recebem-na no céu salvas de chumbo,
Ou sob o horror da pata cósmica oprimido
O coração, como uma esponja, cospe a vida.

1925

ПАМЯТИ СЕРГЕЯ ЕСЕНИНА

Так просто можно жизнь покинуть эту,
Бездумно и безбольно догореть.
Но не дано Российскому поэту
Такою светлой смертью умереть.

Всего верней свинец душе крылатой
Небесные откроет рубежи,
Иль хриплый ужас лапою косматой
Из сердца, как из губки, выжмет жизнь.

1925

MAIAKOVSKI NO ANO DE 1913

Nada sei do tempo de tua notoriedade,
E sim me lembro só de tua impetuosa flor da idade.
E se eu for agora dignar-me a tomar nota
É em memória desses anos mais remotos.
Em tua voz acumulavam-se barulhos dos destroços
Que as palavras asfaltavam sob passos vigorosos.
Sem preguiça, com os dois braços em riste,
A terríficos andaimes erigiste.
Tudo quanto resvalasse em tuas vestes
Com o tranco se achava a uma versta
E tudo aquilo que de pronto aniquilavas
Em quilômetros de pontos tratorados por palavras.
Solitário e insatisfeito, como sempre,
Aceleravas com despeito o breve tempo
Em que, com férvida alegria, para a luta
Ingressarias, consumindo inteiramente o pavio curto.
O longínquo rumor dos altos mares
Numa síncope auscultando ao recitares,
Sob a chuva revirando irados olhos
Tu dobravas a cidade a afrontar os seus imbróglios.
Num cômodo da alma um relâmpago penetra:
É o teu nome, ecoando sempre alerta.
E até hoje a nossa pátria toda treme
Sob tal convocatória da vocálica sirene.

3-10 de março 1940

МАЯКОВСКИЙ В 1913 ГОДУ

Я тебя в твоей не знала славе,
Помню только бурный твой расцвет,
Но, быть может, я сегодня вправе
Вспомнить день тех отдаленных лет.
Как в стихах твоих крепчали звуки,
Новые роились голоса…
Не ленились молодые руки,
Грозные ты возводил леса.
Все, чего касался ты, казалось
Не таким, как было до тех пор,
То, что разрушал ты,- разрушалось,
В каждом слове бился приговор.
Одинок и часто недоволен,
С нетерпеньем торопил судьбу,
Знал, что скоро выйдешь весел, волен
На свою великую борьбу.
И уже отзывный гул прилива
Слышался, когда ты нам читал,
Дождь косил свои глаза гневливо,
С городом ты в буйный спор вступал.
И еще не слышанное имя
Молнией влетело в душный зал,
Чтобы ныне, всей страной хранимо,
Зазвучать, как боевой сигнал.

3-10 марта 1940

RESPOSTA TARDIA
para M. I. Tsvetáieva

Diabinha de brancas mãos… Zombas,
Invisível, gênia, te escondendo meio às sombras
Dos arbustos, nas casinhas de estorninho,
Entre cruzes depredadas tu caminhas
E gritas, da torre Marinka, saudando-nos:
“Hoje volto aos campos meus.
Me admirem, conterrâneos,
Pelo que me aconteceu.
Minha família foi tragada pelo pântano
E a casa de meu pai cai em ruínas”.
Seguiremos, Marina, atrás de ti
Na capital perambulando à meia-noite,
E mais milhões vão saindo de suas moitas
Para nesta procissão vir retinir
O sino fúnebre nas praças de Moscou –
O mais discreto e assustador grito de dor
Como a nevasca, que os nossos passos apagou.

Março 1940

ПОЗДНИЙ ОТВЕТ
                                     М. И. Цветаевой

Белорученька моя, чернокнижница…
Невидимка, двойник, пересмешник,
Что ты прячешься в черных кустах,
То забьешься в дырявый скворечник,
То мелькнешь на погибших крестах,
То кричишь из Маринкиной башни:
“Я сегодня вернулась домой.
Полюбуйтесь, родимые пашни,
Что за это случилось со мной.
Поглотила любимых пучина,
И разрушен родительский дом”.
Мы с тобою сегодня, Марина,
По столице полночной идем,
А за нами таких миллионы,
И безмолвнее шествия нет,
А вокруг погребальные звоны
Да московские дикие стоны
Вьюги, наш заметающей след.

  Март 1940
a1938


REQUIEM

EM LUGAR DE UM PREFÁCIO

Nos anos desgraçados da iejóvtchina eu passei dezessete meses nas filas da prisão em Leningrado. Certa vez alguém me “identificou”. Então atrás de mim uma mulher de lábios azuis e que, é claro, nunca na vida ouviu falar meu nome, despertou do torpor, peculiar a todas nós, e me perguntou ao pé do ouvido (lá só aos sussurros se falava):

– E isso, tu és capaz de descrever?

E eu disse:

– Sou.

Então algo semelhante a um sorriso passou por aquilo, que algum dia foi seu rosto.

1º de abril 1957, Leningrado.

РЕКВИЕМ

ВМЕСТО ПРЕДИСЛОВИЯ

В страшные годы ежовщины я провела семнадцать месяцев в тюремных очередях в Ленинграде. Как-то раз кто-то «опознал» меня. Тогда стоящая за мной женщина с голубыми губами, которая, конечно, никогда в жизни не слыхала моего имени, очнулась от свойственного нам всем оцепенения и спросила меня на ухо (там все говорили шепотом):

– А это вы можете описать?

И я сказала:

– Могу.

Тогда что-то вроде улыбки скользнуло по тому, что некогда было ее лицом.

1 апреля 1957 г., Ленинград

DEDICATÓRIA

Diante dessa mágoa, as montanhas se recolham,
E as águas não mais fluam pelo rio.
Tudo estremece com a dureza do ferrolho
E, atrás dele, os confinados no covil.
E, aos portões da prisão, dores de morte…
Para quem sopra o vento suave,
O pôr do sol a quem conforta,
Não sabemos; para nós o som das chaves
A ranger por entre abomináveis portas
E os ecos dos soldados com o seu bater de botas.
Cedo levantávamos, como para ir à missa,
Andávamos na capital hostil,
Nos encontrávamos, mortiças,
Ainda mal nascido o sol, adormecido o rio,
Mas a esperança ainda cantando no confim.
Veio a sentença… É o fim. Lágrimas jorram, de repente.
A vida, apartada de nós todas, com as dores do calvário
Foi extraída do arrombado coração,
No chão de costas derrubada brutalmente…
Mas soergue, atordoada, e segue… solitária.
Por onde andarão minhas companheiras forçadas
Dos dois anos que passamos, lado a lado, no inferno?
Que intempérie elas enfrentam na Sibéria atualmente?
Que sinais elas enxergam, no apogeu de uma lua maculada?
Eu a elas me prosterno, neste adeus ajoelhada.

Março, 1940.

ПОСВЯЩЕНИЕ

Перед этим горем гнутся горы,
Не течет великая река,
Но крепки тюремные затворы,
А за ними «каторжные норы»
И смертельная тоска.
Для кого-то веет ветер свежий,
Для кого-то нежится закат —
Мы не знаем, мы повсюду те же,
Слышим лишь ключей постылый скрежет
Да шаги тяжелые солдат.
Подымались как к обедне ранней.
По столице одичалой шли,
Там встречались, мертвых бездыханней,
Солнце ниже и Нева туманней,
А надежда все поет вдали.
Приговор. И сразу слезы хлынут,
Ото всех уже отделена,
Словно с болью жизнь из сердца вынут,
Словно грубо навзничь опрокинут,
Но идет… шатается… одна…
Где теперь невольные подруги
Двух моих осатанелых лет?
Что им чудится в сибирской вьюге,
Что мерещится им в лунном круге?
Им я шлю прощальный мой привет.

Март 1940

INTRODUÇÃO

Isso aconteceu quando os cadáveres
Felizes, descansavam de bom grado.
Pendurada em seus cárceres, inútil balançava,
Como um peso morto, Leningrado.
E, no auge louco do tormento,
Como lacônicas canções de adeus,
Entre as filas destacadas dos detentos,
Camburões cantavam pneus.
Estrelas de morte à nossa volta
E a Rússia inocente em carne viva
Sob ensangüentadas botas
E o trote das locomotivas.

ВСТУПЛЕНИЕ

Это было, когда улыбался
Только мертвый, спокойствию рад.
И ненужным привеском болтался
Возле тюрем своих Ленинград.
И когда, обезумев от муки,
Шли уже осужденных полки,
И короткую песню разлуки
Паровозные пели гудки.
Звезды смерти стояли над нами,
И безвинная корчилась Русь
Под кровавыми сапогами
И под шинами черных марусь.

IV.

Se tivessem te mostrado, à zombeteira
Dos amigos preferida
E alegre pecadora da Tsárskoe Seló,
O que seria de tua vida…
Que, o gelo a derreter sob a goteira
Do teu choro de dar dó,
Sob a Cruzes, tricentésima da fila,
Ficarias, tendo em mãos o pacotinho.
No pátio do presídio, um trêmulo pinheiro,
Sem ruído. Quantos são os prisioneiros
Cujas vidas emuladas lá definham…

IV.

Показать бы тебе, насмешнице
И любимице всех друзей,
Царскосельской веселой грешнице,
Что случилось с жизнью твоей.
Как трехсотая, с передачею,
Под Крестами будешь стоять
И своей слезою горячею
Новогодний лед прожигать.
Там тюремный тополь качается,
И ни звука. А сколько там
Неповинных жизней кончается…

V.

Faz dezessete meses que me arrasto,
Aos pés do teu carrasco me atiro
E grito, que tu voltes para casa, –
Tu, meu filho e meu martírio.
Tudo confundiu-se para sempre,
Não consigo mais fazer a distinção
De quem é bicho, quem é gente,
E quanto tempo até que venha a execução.
De pano a flor de não sei quando,
O som dos incensórios, e dos passos meus
De algum lugar à parte alguma.
E, direto nos olhos me fitando,
De morte próxima ameaça-me
Uma estrela de incomensurável lume.

V.

Семнадцать месяцев кричу,
Зову тебя домой.
Кидалась в ноги палачу —
Ты сын и ужас мой.
Все перепуталось навек,
И мне не разобрать
Теперь, кто зверь, кто человек,
И долго ль казни ждать.
И только пышные цветы,
И звон кадильный, и следы
Куда-то в никуда.
И прямо мне в глаза глядит
И скорой гибелью грозит
Огромная звезда.

VI.

As semanas passam voando.
O que aconteceu, não entendo.
As noites brancas te observam,
Ainda agora em hora matutina,
A ti, no cárcere, filhote.
Com olhos ávidos de ave de rapina
Sobre tua alta cruz elas conversam
E sobre tua morte.

1939

VI.

Легкие летят недели,
Что случилось, не пойму.
Как тебе, сынок, в тюрьму
Ночи белые глядели,
Как они опять глядят
Ястребиным жарким оком,
О твоем кресте высоком
И о смерти говорят.

1939

VIII.

PARA A MORTE

Vens decerto, pouco importa – por que tardas?
Eu te aguardo – para mim tudo vai mal.
Deixei a porta entreaberta e a lâmpada apagada
Para ti, tão simples, tão original.
Assume para isso a forma que te agrada:
Irrompendo como a seta envenenada
Ou te esgueirando, com astúcia de ladrão, adentra
E me sufoca com a tifo pestilenta.
Ou como a fábula, que a foste inventar
E que todos já se enojam de saber, –
Que eu veja a aba do boné da KGB
E do porteiro apavorado o pálido esgar.
A mim agora é indiferente. Pisca a Estrela Polar,
O Ienissei Sibéria adentro a escoar
E, encoberto pelo derradeiro horror,
O nele refletido olho azul do meu amor.

19 de agosto 1939, Casa Fontanka

VIII.

К СМЕРТИ

Ты все равно придешь – зачем же не теперь?
Я жду тебя – мне очень трудно.
Я потушила свет и отворила дверь
Тебе, такой простой и чудной.
Прими для этого какой угодно вид,
Ворвись отравленным снарядом
Иль с гирькой подкрадись, как опытный бандит,
Иль отрави тифозным чадом.
Иль сказочкой, придуманной тобой
И всем до тошноты знакомой, —
Чтоб я увидела верх шапки голубой
И бледного от страха управдома.
Мне все равно теперь. Клубится Енисей,
Звезда Полярная сияет.
И синий блеск возлюбленных очей
Последний ужас застилает.

19 августа 1939, Фонтанный Дом

IX.

A asa da loucura
A alma já cobriu pela metade.
E bebe vinhos escarlates
Convidando-me a ir ao vale escuro.

Já compreendi que a ela devo
A vitória conceder.
Ouço o delírio nos meus nervos
Como a voz de um outro ser.

E coisa alguma ela permite
Que daqui leve comigo
(Por mais súplicas que eu grite
E com mais preces que a persiga)!

Nem do filho o seu terrível olho
Petrificado de dor,
Nem o dia em que veio meu terror,
Nem a hora que o encontrei sob ferrolhos,

Nem as mãos que apertei por entre grilhos.
Acenam com o sopro as trêmulas tílias,
E o vôo da loucura que recolha
A palavra de meu último consolo.

4 de março 1940, Casa Fontanka.

IX.

Уже безумие крылом
Души накрыло половину,
И поит огненным вином,
И манит в черную долину.

И поняла я, что ему
Должна я уступить победу,
Прислушиваясь к своему
Уже как бы чужому бреду.

И не позволит ничего
Оно мне унести с собою
(Как ни упрашивай его
И как ни докучай мольбою)!

Ни сына страшные глаза 
каменелое страданье,
Ни день, когда пришла гроза,
Ни час тюремного свиданья,

Ни милую прохладу рук,
Ни лип взволнованные тени,
Ни отдаленный легкий звук 
Слова последних утешений.

4 мая 1940, Фонтанный Дом

CRUCIFICAÇÃO

“Não chores por mim, Mãe,
No túmulo estou…”

1

O fogo, na abóbada celeste, se alastra.
O coro dos arcanjos glorifica o grande fim.
Ele diz ao Pai: “Por que me abandonaste?”
E à Mãe: “Oh, não chores por mim…”

2

Madalena, a soluçar, se debatia.
O discípulo amado ali ficou petrificado.
De erguer a vista ninguém teve a ousadia
Para a Mãe, que se segurou calada.

Х. РАСПЯТИЕ

«Не рыдай Мене, Мати,
во гробе зрящи».

1

Хор ангелов великий час восславил,
И небеса расплавились в огне.
Отцу сказал: «Почто Меня оставил?»
А Матери: «О, не рыдай Мене…»

2

Магдалина билась и рыдала,
Ученик любимый каменел,
А туда, где молча Мать стояла,
Так никто взглянуть и не посмел.

EPÍLOGO

I.

Agora sei como amortiza-se o aspecto da gente:
A este pêsame as bochechas se conformam,
Sob as pálpebras espia o sofrimento
Duras páginas de escrita cuneiforme.
Agora sei como os cabelos já se tornam,
De castanho ou negro, argênteos.
Como nos lábios submissos uma droga
De sorriso, trêmulo de medo, se escava.
Não só por mim eu rogo,
Mas por todas que comigo lá estavam –
Ao frio de gelo expostas e ao tórrido verão
Aos pés do cego e vermelho paredão.

ЭПИЛОГ

I.

Узнала я, как опадают лица,
Как из-под век выглядывает страх,
Как клинописи жесткие страницы
Страдание выводит на щеках,
Как локоны из пепельных и черных
Серебряными делаются вдруг,
Улыбка вянет на губах покорных,
И в сухоньком смешке дрожит испуг.
И я молюсь не о себе одной,
А обо всех, кто там стоял со мною,
И в лютый холод, и в июльский зной
Под красною, ослепшею стеною.

II.

O dia de finados aproxima-se outra vez.
Eu vejo, ouço, sinto a cada uma de vocês:

Esta uma, que levá-la para fora era difícil;
Esta outra, que não mais pisou a terra natalícia;

E aquela que disse, com a cabeça que balouça:
“Como em casa, eu chego ao calabouço”.

Quem me dera ter seus nomes em meus lábios,
Mas a lista eles me tomam, e em lugar algum se sabe.

Para elas eu teci um grande manto
Das palavras que ouvi-as murmurando pelos cantos.

Lembrarei delas para sempre em toda parte
Mesmo que à frente outro flagelo me aguarde,

E se taparem minha boca tão aflita
Pela qual o povo solta o milionésimo dos gritos,

Peço então por meu espírito rogarem
Quando o dia for chegado dos meus ritos funerários.

E se algum dia nesta pátria estiver em seu intento
Em minha honra levantar um monumento,

Eu consinto que assim se me agracie,
Mas somente se me erguerem a honraria

Não lá onde eu nasci, beirando a praia:
Já me basta que esse tempo na memória se esvaia,

Nem junto ao tronco predileto no jardim do tzar
E cuja sombra ainda hoje está por mim a procurar,

E sim aqui, onde passei trezentas horas de suplício
Sem que as trancas para mim eles abrissem.

Pois a alma, que o martírio santifica, ainda teme
Esquecer dos camburões as sirenes,

Ou da porta abominável o estalido
E a velha que urrava, como um bicho malferido.

A pingar da imóvel pálpebra de bronze
Uma lágrima de gelo derretido me response,

Ao longe arrulhe o pombo do presídio
E os barcos passem no Nievá sem dar ouvidos.

Março 1940, Casa Fontanka.

II.

Опять поминальный приблизился час.
Я вижу, я слышу, я чувствую вас:

И ту, что едва до окна довели,
И ту, что родимой не топчет земли,

И ту, что красивой тряхнув головой,
Сказала: «Сюда прихожу, как домой».

Хотелось бы всех поименно назвать,
Да отняли список, и негде узнать.

Для них соткала я широкий покров
Из бедных, у них же подслушанных слов.

О них вспоминаю всегда и везде,
О них не забуду и в новой беде,

И если зажмут мой измученный рот,
Которым кричит стомильонный народ,

Пусть так же они поминают меня
В канун моего поминального дня.

А если когда-нибудь в этой стране
Воздвигнуть задумают памятник мне,

Согласье на это даю торжество,
Но только с условьем – не ставить его

Ни около моря, где я родилась:
Последняя с морем разорвана связь,

Ни в царском саду у заветного пня,
Где тень безутешная ищет меня,

А здесь, где стояла я триста часов
И где для меня не открыли засов.

Затем, что и в смерти блаженной боюсь
Забыть громыхание черных марусь,

Забыть, как постылая хлопала дверь
И выла старуха, как раненый зверь.

И пусть с неподвижных и бронзовых век,
Как слезы, струится подтаявший снег,

И голубь тюремный пусть гулит вдали,
И тихо идут по Неве корабли.

Март 1940, Фонтанный Дом

anna
PRIMEIRO PROJÉTIL DE LONGO ALCANCE EM LENINGRADO

O variado rebuliço das pessoas
De repente se alterou de natureza.
Este barulho já não soa
Citadino, nem tampouco ele é rural.
Da surpresa ribombante de um trovão
É, com certeza, irmão de sangue, seu igual.
Mas no trovão há a umidade
Que habita frescas nuvens
E que vem trazer aos prados
Boas novas de uma chuva.
Porém este nos trazia uma estação daninha
E não queriam os ouvidos tensos
Crer, porquanto vinha
Acabando com o suspense
E com crescente indiferença
Para sempre me ceifar o meu filhinho.

1941

ПЕРВЫЙ ДАЛЬНОБОЙНЫЙ В ЛЕНИНГРАДЕ

И в пестрой суете людской
Все изменилось вдруг.
Но это был не городской,
Да и не сельский звук.
На грома дальнего раскат
Он, правда, был похож, как брат,
Но в громе влажность есть
Высоких свежих облаков
И вожделение лугов –
Веселых ливней весть.
А этот был, как пекло, сух,
И не хотел смятенный слух
Поверить – по тому,
Как расширялся он и рос,
Как равнодушно гибель нес
Ребенку моему.

1941

* * *

Os pássaros desintegrados por canhões antiaéreos?
Quem agora, Leningrado, há de salvar-te da miséria?

Quando não roncam os canhões em plena luta,
A cidade vive um pouco, toma fôlego, escuta:

Os seus filhos sobre a neve se debatem com
Gemidos como os frios ventos do Báltico.

Das profundezas os seus gritos: “Dai-me pão!”
Até o sétimo dos céus se elevarão,

Mas é cético esse céu, sem compaixão de nossa sorte.
Eu, de todas as janelas, vejo a morte,

Sempre ela, a espreitar as portinholas
E alma, apavorada na gaiola.

28 de setembro 1941, a bordo do avião.

* * *

Птицы смерти в зените стоят.
Кто идет выручать Ленинград?

Не шумите вокруг — он дышит,
Он живой еще, он все слышит:

Как на влажном балтийском дне
Сыновья его стонут во сне,

Как из недр его вопли: «Хлеба!»
До седьмого доходят неба…

Но безжалостна эта твердь.
И глядит из всех окон — смерть.

И стоит везде на часах
И уйти не пускает страх.

28 сентября 1941, самолет

PELA JANELA DO AVIÃO

1

Por milhas às centenas e por verstas,
Por quilômetros afora
Jaz o sal, e se agitam as florestas
Com as suas fauna e flora.
Como nunca tenha estado à altura de estar nela,
Eu vejo a Pátria, pelo vão de uma janela:
Meu corpo – eu penso –
E minha alma: isso tudo me pertence.

2

Com um monte de pedrinhas demarquei aquele dia
Em que a vitória anunciei.
Enquanto, ao encontro da vitória, eu ia,
Adiantando-me ao sol, voei.

3

Quando pisei a pista de pouso,
Sob meus pés a relva pôs-se a farfalhar.
A minha casa, minha casa e meu repouso!
Como nova tu me és, e mesmo assim familiar.
E esse pesar no coração também é novo
E a cabeça, ainda tonta, a rodar…
O estrondo do trovão parece ainda ressoar –
Mas e vitória é de Moscovo!

Maio 1944

С САМОЛЕТА

1

На сотни верст, на сотни миль,
На сотни километров
Лежала соль, шумел ковыль,
Чернели рощи кедров.
Как в первый раз я на нее,
На Родину, глядела.
Я знала: это все мое —
Душа моя и тело.

2

Белым камнем тот день отмечу,
Когда я о победе пела,
Когда я победе навстречу,
Обгоняя солнце, летела.

3

И весеннего аэродрома
Шелестит под ногой трава.
Дома, дома — ужели дома!
Как все ново и как знакомо,
И такая в сердце истома,
Сладко кружится голова…
В свежем грохоте майского грома —
Победительница Москва!

Май 1944

* * *

Cinco anos se passaram. Já curei minhas feridas –
Cicatrizes dessa guerra depravada.
Minha pátria,
e outra vez nos russos prados
O silêncio de seu gelo remordido.

Os faróis, na escuridão marítima
Indicando a boa rota aos marinheiros, ardem.
E este fogo que arde neles sem alarde
É como os olhos de um amigo íntimo.

Um pacífico trator, onde antes tanques disparavam.
Onde o incêndio crepitava, o jardim se regenera.
Os automóveis fendem o ar em disparada
Pela estrada outrora cheia de crateras.

Antes, os decepados, a agitar braços de gesso,
E agora, sobre o cepo, um novo álamo germina.
E lá, onde a separação cortou a alma, o menino
É embalado pela mãe no fofo berço.

Agora em boa têmpera, estás livre,
Minha pátria!
E para sempre os vivos
Na memória dos povos cicatrizem
Esses tempos de dor, pólvora e cinzas.

As novas gerações, tenham paz e vida longa.
As modernas e monumentais cidades,
Em homenagem às aldeias massacradas,
Marcarão o monumento a ferro e fogo.

Maio 1950

 * * *

Прошло пять лет,— и залечила раны,
Жестокой нанесенные войной,
Страна моя,
и русские поляны
Опять полны студеной тишиной.

И маяки сквозь мрак приморской ночи,
Путь указуя моряку, горят.
На их огонь, как в дружеские очи,
Далеко с моря моряки глядят.

Где танк гремел — там ныне мирный трактор,
Где выл пожар — благоухает сад,
И по изрытому когда-то тракту
Автомобили легкие летят.

Где елей искалеченные руки
Взывали к мщенью — зеленеет ель,
И там, где сердце ныло от разлуки,—
Там мать поет, качая колыбель.

Ты стала вновь могучей и свободной,
Страна моя!
Но живы навсегда
В сокровищнице памяти народной
Войной испепеленные года.

Для мирной жизни юных поколений,
От Каспия и до полярных льдов,
Как памятники выжженных селений,
Встают громады новых городов.

Май 1950

MÚSICA
D. D. Sh.*

Alguma coisa milagrosa ela desperta,
Uma visão do ultrapassado limiar.
Somente ela ainda ouço a me falar
Não existindo mais quem ouse chegar perto.

O último amigo em retirada se coloque
E no túmulo comigo ainda soa a sua prece,
Como em prantos trovoadas se pusessem
E as flores começassem seu colóquio.

* para D. D. Shostakovich

1958


МУЗЫКА
Д. Д. Ш.*

В ней что-то чудотворное горит,
И на глазах ее края гранятся.
Она одна со мною говорит,
Когда другие подойти боятся.

Когда последний друг отвел глаза,
Она была со мной в моей могиле
И пела словно первая гроза
Иль будто все цветы заговорили.

* Д. Д. Шостаковичу

1958

* * *

Não me atormentes com destino tão terrível
Nem com o enorme tédio setentrião.
Hoje contigo passamos nosso primeiro dia festivo
E esta festa recebe o nome – separação.
Não te importes, que não haja aqui aurora
E nem a lua sobre nós redunde,
Eu te presentearei agora
Com relíquias nunca vistas neste mundo:
O reflexo meu nas águas de um rio
Numa hora em que o sono não turve o fundo;
Um olhar tal, que à estrela cadente não ajude
A voltar até de onde ela caiu;
O eco de uma voz que desfaleça
Quando ao verão a tarde refrescou, –
Sem tremor possas ouvir os mexericos, esses
De um corvo dos redores de Moscou;
Para que a umidade de outubro tenha gosto
Mais salubre, mais que o bem-estar de maio…
Te lembra, anjo meu, deste meu rosto,
Te lembra, até que a primeira neve caia.

1959

* * *

Не стращай меня грозной судьбой
И великою северной скукой.
Нынче праздник наш первый с тобой,
И зовут этот праздник — разлукой.
Ничего, что не встретим зарю,
Что луна не блуждала над нами,
Я сегодня тебя одарю
Небывалыми в мире дарами:
Отраженьем моим на воде
В час, как речке вечерней не спится.
Взглядом тем, что падучей звезде
Не помог в небеса возвратиться,
Эхом голоса, что изнемог,
Л тогда был и свежий и летний,—
Чтоб ты слышать без трепета мог
Воронья подмосковного сплетни,
Чтобы сырость октябрьского дня
Стала слаще, чем майская нега…
Вспоминай же, мой ангел, меня,
Вспоминай хоть до первого снега.

1959

Anna Akhmatova - 11

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cinco poemas de Maria Luise Weissmann

weissmann

Tradução por: Tomaz Amorim Izabel

Meus olhos

Quando Tu vens
se reviram meus olhos
para dentro do escuro
como os dos mortos.

Desde que deixaram entrar a Ti:
os traidores –
agora vivem sempre
sob guilhotina.

Meine Augen

Wenn Du kommst
Müssen meine Augen
Ins Dunkel kehren
Wie in den Tod.

Seit sie Dich einließen:
Verräterinnen –
Nun leben sie immer
Unterm Beil.

Paisagem plana

A terra veio, cinza, como um rio
Sem represa a segurar sua cheia,
derramada por sobre morro e vale e sítio.
Lá, onde a fina linha o horizonte clareia,
uma árvore. Desenraizada. Que cai no vazio.

Ebene Landschaft
 
Die Erde kam, ein grauer Strom, geflossen.
Kein Damm, der ihre Flut zusammenhält,
Sie hat sich über Berg und Tal und Haus ergossen.
Fern, wo ein schmaler Strich den Horizont erhellt,
Ein Baum. Entwurzelt. Der ins Leere fällt.

Mas abra-os…

Mas estes portões, abra-os somente,
mas pise somente no limiar,
mal levante os olhos e experimente
já a claridade descomunal,
já o fulgor dos vazios espaços,
que florescem rápido como a relva,
já o bailado dos sonhos pesados,
que flamejariam, que se elevam…
Comovente onda a revigorar,
veja, nenhum sopro que não movente –
mas pise somente no limiar,
Mas estes portões, abra-os somente!

Aber öffne …
 
Aber öffne nur die Türe,
Aber tritt nur auf die Schwelle,
Hebe kaum den Blick und spüre
Schon die ungeheure Helle,
Schon den Glanz der leeren Räume,
Die wie Wiese rasch erblühten,
Schon den Tanz der schweren Träume,
Die sich hoben, die erglühten …
Zärtliche beschwingte Welle,
Sieh, kein Lufthauch, der nicht rühre – –
Aber tritt nur auf die Schwelle,
Aber öffne nur die Türe!

Fim de ano

Você, ano grisalho: corre rumo ao alvo
mais veloz e veloz, buscando pelo calmo
morrer que seja sem limites e profundo.
Mas veja: eu corro mais rápido, rumo ao rubro
da nova manhã, ávida, à sua frente.
Ó, venha! Apague, apague! Adiante!
Marcada, maculada, sobrecarregada,
por grandes cansaços e dores soterrada –
Passe – Eu irei! Morra – que eu, então, vou
tentar ressuscitar: Ó, dia puro e novo!

Jahres-Ende

Du greises Jahr: du eilst, dem Ziele zu
Rascher und rascher, sehnst dich nach der Ruh
In einem tiefen grenzenlosen Tod.
Doch sieh: ich eile schneller, nach dem Rot
Des neuen Morgens gierig, dir voraus.
O komm! Hinübergeh! Lösch aus, lösch aus!
Gezeichnetes, Beladenes, befleckt
Mit großer Müdigkeit, mit Schmerz bedeckt –
Vergeh – ich werde! Stirb – und ich vermag
Aufzuerstehn: o neuer, reinster Tag!

 

O carrossel

Eles parados, mudos, escutando os sons
de instrumentos desafinados, em profundo
sono: os animais coloridos, lindos, tensos.
Ao encontrar um olhar infantil em dor,

acordaram. A juba do leão voou
no vento. Assim soou das presas da elefanta
o toque dos sinos. A tromba bramiu. Foi
o trem comprido em orgulhosa caravana.

Diante de sua abrupta partida havia
matas de palmeiras, envoltas de aventura,
com fogos de luz atirava o quente dia,
e os cactos queimavam, descomunais, púrpuras.

Das Karussell

Sie standen stumm und lauschten dem Getön
Verstimmter Instrumente tief in Schlaf:
Die starren Tiere, bunt und wunderschön.
Da sie ein Kinderblick in Schmerz betraf,

Erwachten sie. Die Löwenmähne flog
Im Wind. So klang vom Elefantenzahn
Geläut der Schellen. Rüssel schnob. Es zog
In langem Zug die stolze Karawane

Dahin. Vor ihrem steilen Aufbruch lag
Ein Palmenwald, verstrickt in Abenteuer,
Aus Lichtraketen schoß der heiße Tag,
Kakteen brannten, purpurn, ungeheuer.