Walter Benjamin sobre cartilhas infantis e a não-chegada do Messias

benjamin

Cartilhas de ABC há cem anos
Tradução: Tomaz Amorim Izabel

Nenhum palácio real ou casa de campo de um milionário conheceu um milésimo do amor adorável que foi dirigido às letras no decorrer da história cultural. Então, por mera alegria à beleza e para honrá-la. Mas também com intenção astuta. As letras são as colunas de um portão, em cima do qual bem poderia estar escrito o que Dante leu sobre os portões do inferno, e lá sua dura forma primordial não deveria espantar os muitos pequenos que todo ano precisam atravessar este portão. Cada uma dessas pilastras é então carregada de guirlandas e arabescos. Mas percebeu-se só muito mais tarde que não se tornava as coisas mais fáceis para a criança quando se esticava o espaçamento entre os tipos com imensas decorações, para representá-las de forma mais atrativa.
Além disso, as letras começaram logo cedo a construir uma corte de objetos ao redor de si. Os mais velhos entre nós ainda têm pendurado prontamente o chapéu no c, têm visto a marmota roer inofensivamente o m e têm visto o r como a parte mais espinhosa da rosa. Com a dedicação dinâmica a povos estrangeiros, crianças e desclassificados que ocorreu durante o Iluminismo europeu, com os raios do Humanismo, do qual o Classicismo é na verdade apenas o eclipse solar, caiu então de uma vez uma luz completamente diferente sobre os livros didáticos. Os pequenos objetos ilustrativos, que até então tinham ficado envergonhadamente jogados de lado diante da majestade da letra, ou tinham sido espremidos em caixinhas, justos como as janelinhas das fachadas burguesas do século XVIII, liberaram subitamente bordões revolucionários. Os açougueiros, aviadores, artilheiros, águias e avestruzes, os garotos, garçons, gatos, goleiros, guerrilheiros, gaviões, os veterinários, Venezuela, vigias reconheceram sua solidariedade. Eles convocavam grandes convenções, apareciam grandes destacamentos de todos os As, Bs, Cs, etc., e em seus encontros iam-se às multidões. Quando Rousseau diz que toda a soberania se origina do povo, então estes círculos se expressam alto e com convicção: “O espírito das letras se origina das coisas. Nosso ser-assim-e-não-algo-outro, nós impregnamos nessas letras. Nós não somos os seus vassalos, elas é que são apenas nossa vontade comum dita em voz alta”.

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Ideia para um mistério
Tradução: Tomaz Amorim Izabel

Representar a História como um processo em que o Humano, simultaneamente como defensor da Natureza muda, presta queixa sobre a Criação e a ausência do Messias prometido. O Tribunal, no entanto, decide ouvir testemunhas sobre o que está por vir. Aparecem: o poeta, que o sente; o artista plástico, que o vê; o músico, que o ouve; e o filósofo, que o sabe. Seus testemunhos, portanto, não convergem, embora eles todos testemunhem pela Sua vinda. O Tribunal não ousa admitir sua indecisão. Assim, não há fim para as novas queixas e, tampouco, para as novas testemunhas. Há tortura e martírio. Os bancos dos jurados estão ocupados pelos vivos que ouvem o promotor Humano e as testemunhas com a mesma desconfiança. Os lugares dos jurados vão sendo herdados por seus filhos. Finalmente, desperta neles um medo de serem expulsos dos seus bancos. Ao fim, todos os jurados fogem e ficam apenas o querelante e as testemunhas.

 

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ABC-BÜCHER VOR HUNDERT JAHREN!
Walter Benjamin

Kein Königspalast und kein Cottage eines Milliardärs hat ein Tausendstel der schmückenden Liebe erfahren, die im Laufe der Kulturgeschichte den Buchstaben zugewandt worden ist. Einmal aus Freude am Schönen und um sie zu ehren. Aber auch in listiger Absicht. Die Buchstaben sind ja die Säulen eines Tores, über dem ganz gut geschrieben stehen könnte, was Dante über den Pforten der Hölle las, und da sollte ihre rauhe Urgestalt die vielen Kleinen, die alljährlich durch dieses Tor müssen, nicht abschrecken. Jeden einzelnen dieser Pilaster behing man also mit Girlanden und Arabesken. Doch man kam erst sehr spät darauf, daß man dem Kinde die Sache nicht leichter machte, wenn man die Gerüste der Lettern mit maßlosen Zierformen überspannte, um sie anziehender zu gestalten.
Daneben begannen die Buchstaben schon früh einen Hof von Gegenständen um sich zu bilden. Die Älteren unter uns haben noch den Hut dienstfertig beim h hängen, die Maus harmlos am m knabbern sehen und das r als den dornigsten Teil der Rose kennen gelernt. Mit der bewegenden Hingabe an fremde Völker, an Kinder, an Deklassierte, die durch die europäische Aufklärung ging, mit dem Strahlen des Humanismus, von dem die Klassik eigentlich nur die Sonnenfinsternis ist, fiel dann mit einem Mal ganz anderes Licht in die Lesebücher. Die kleinen illustrierenden Gegenstände, die bis dahin verlegen um den herrschaftlichen Buchstaben herumgelungert hatten, oder gar in Kassetten, eng wie die Fensterchen in bürgerlichen Hausfassaden des 18. Jahrhunderts, gepreßt worden waren, gaben plötzlich revolutionäre Losungen aus. Die Ammen, Apotheker, Artilleristen, Adler und Affen, die Kinder, Kellner, Katzen, Kegeljungen, Köchinnen, Karpfen, die Uhrmacher, Ungarn, Ulanen erkannten ihre Solidarität. Sie beriefen große Konvente ein, Abordnungen aller A’s, B’s, C’s usw. erschienen, und es ging auf ihren Versammlungen tumultuarisch zu. Wenn Rousseau sagt, daß alle Souveränität vom Volk stammt, so bekunden diese Tafeln es laut und entschieden: »Der Geist der Buchstaben stammt aus den Sachen. Uns, unser So-und-Nichtanders-Sein, haben wir in diesen Buchstaben ausgeprägt. Nicht wir sind ihre Vasallen, sondern sie sind nur unser lautgewordener gemeinsamer Wille.«

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Idee eines Mysteriums
Walter Benjamin

Die Geschichte darzustellen als einen Prozeß, in welchem der Mensch zugleich als Sachwalter der stummen Natur Klage führt über die Schöpfung und das Ausbleiben des verheißenen Messias. Der Gerichtshof aber beschließt Zeugen, für das Zukünftige zu hören. Es erscheint der Dichter der es fühlt, der Bildner der er sieht, der Musiker der es hört und der Philosoph der es weiß. Ihre Zeugnisse stimmen daher nicht überein, wiewohl sie alle für sein Kommen zeugen. Der Gerichtshof wagt seine Unschlüssigkeit nicht einzugestehen. Daher nehmen die neuen Klagen kein Ende, ebensowenig die neuen Zeugen. Es gibt die Folter und das Martyrium. Die Geschwornenbänke sind besetzt von den Lebenden, die den Mensch-Ankläger wie die Zeugen mit gleichem Mißtrauen hören. Die Geschwornenplätze erben sich bei ihren Söhnen fort. Endlich erwacht eine Angst in ihnen, sie könnten von ihren Bänken vertrieben werden. Zuletzt flüchten alle Geschwornen, nur der Kläger und die Zeugen bleiben.

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Dois poemas de James Wright

james

James Arlington Wright (1927 –1980), poeta norte-americano, começou sua carreira com um trabalho mais formalista, recebendo influência da poesia surrealista espanhola e das poesias alemã e sul-americana (nas quais é reconhecidamente considerado um grande tradutor) até chegar ao verso livre. Em seu livro mais conhecido, The Branch Will Not Break, ele chega ao ápice de sua originalidade , além de ser considerado um contraponto à poesia Beat que dominava a cena norte-americana da época. Wright foi um inovador e seu trabalho se caracteriza, primeiramente, por ter nos títulos e nos versos iniciais e finais um tom de deslocamento do “lugar comum”. É possível observar em sua obra as fraturas de uma vida marcada pelo alcoolismo, além da bipolaridade e a depressão que o acompanharam até o fim.

 

Deitado em uma rede na fazenda William Duffy em Pine Island, Minnesota

Sobre minha cabeça, vejo a brônzea borboleta,
Adormecida no tronco negro,
Vibrando como uma folha na sombra verde.
Abaixo da ravina atrás da casa vazia,
Os sinos das vacas seguem-se uns aos outros
Na distância da tarde.
À minha direita,
Num campo luminoso entre dois pinheiros,
As fezes dos cavalos do ano passado
Brilham em pedras douradas.
Reclino-me, como a tarde escura que chega.
Um filhote de falcão sobrevoa, buscando um abrigo.
Eu desperdicei minha vida.

*

Próximo a Mansfield, Ohio

Os enormes cavalos todo-músculos do outono
Foram embora agora, para os negros celeiros,
Onde eles podem ser preguiçosos
Onde eles podem mastigar pequenas maçãs, preguiçosos
Em seus sonos.

E muitas estradas estão nuas.

Você, também, foi abandonado
Ao lado de uma rua, agora
Próximo a Mansfield, Ohio.
Uma vez nessa cidade, que se parece
Com uma puta de dezesseis anos vendendo papoulas
No Dia do Armistício, você morreu
Sozinho.

 

Tradução: Lucas Perito*

* Nasceu em São Paulo/ Brasil em 1985. É graduado em Comunicação em Multimeios pela PUC-SP. Trabalhou na editora Empresa das Artes, escrevendo livros ligados a história e fotografia, fazendo os textos de acompanhamento para o livro fotográfico “Caminhos da Mantiqueira” (2011) de Galileu Garcia Junior. Tem alguns poemas publicados na Revista Zunái, Escamandro, Diversos Afins, Benfazeja, na R. Nott Magazine, Caderno-Revista 7 Faces, Revista Parênteses, Revista Entreverbo, Jornal RelevO, Revista Saúva e Revista Gueto. Também participou como tradutor na Revista Parênteses e Escamandro.

 

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Lying in a Hammock at William Duffy’s Farm in Pine Island, Minnesota

Over my head, I see the bronze butterfly,
Asleep on the black trunk,
Blowing like a leaf in green shadow.
Down the ravine behind the empty house,
The cowbells follow one another
Into the distances of the afternoon.
To my right,
In a field of sunlight between two pines,
The droppings of last year’s horses
Blaze up into golden stones.
I lean back, as the evening darkens and comes on.
A chicken hawk floats over, looking for home.
I have wasted my life.

*

Near Mansfield, Ohio

The enormous muscle-bound dobbins of autumn
Are gone now, to dark barns,
Where they can be lazy,
Where they can munch little apples, lazy,
In their sleep.

And many highways are bare.

You, too, are abandoned
Beside a street, now,
Near Mansfield, Ohio.
Once in that town, that looks
Like a sixty-year-old whore selling poppies
On Armistice Day, you died
Alone.

 

etiqueta, de Hayes Davis

mano

Tradução: stella paterniani

depois de Yusef Komunyakaa

eu sentada aos oitos anos
à mesa da cozinha da vovó,
tentando pedir com licença.

joana e diana, minhas primas
encaram minha boca aberta
balbuciam “com… gli…

cença” como se eu não soubesse
o que eu devo dizer mas o que elas
é que não sabem é como “licença” é

uma das palavras que às vezes não saem,
como alô quando atendo o telefone,
boa noite quando meu pai sai

do meu quarto, meu nome quanto perguntam
como me chamo. elas não sabem que as con
sonantes às vezes voam,

feito passarinhos fugindo do frio.
eu encaro a boca de diana,
a boca de joana, a boca de ana

de volta tentando entender
como é que falar é tão fácil. quem sabe
quando eu crescer minha língua se solte,

porque tem gente no mercado
no ônibus e na loja de doces
que sempre me conta de quando

seus primos e irmãs e irmãos
hoje mais velhos que eu tinham
gagueiras como as minhas. as

deles não servem mais e eu espero
dar a minha embora logo logo daí
não vou perder tanto desenho depois do almoço

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Etiquette

After Yusef Komunyakaa

I am eight, sitting at my
grandmother’s kitchen table,
trying to ask to be excused.

My cousins Jennifer and Danielle
stare at my open mouth,
keep sounding out “Can… I… be

excused” like I don’t understand
what I’m supposed to say but they
don’t know that “can” is one

of the words I can’t say sometimes,
like hello when I answer the phone,
goodnight when my dad leaves

my room, my name when people
ask it. They don’t know that my
consonants fly away sometimes,

like birds when it gets too cold.
I stare back at Danielle’s mouth,
Jennifer’s mouth, Oma’s mouth

trying to figure out what makes talkinng
so easy for them. Maybe my stutter
will go away when I get older,

because people at the supermarket
on the bus and in the candy store
are always telling me about their

cousins and sisters and brothers
who are older than me and once
had stutters like mine. They’ve

out-grown theirs, and I hope mine
will disappear one day too, so I won’t
miss so many cartoons after lunch.

 

Obituário do Dr. Franz Kafka, por Milena Jesenská

milena

Milena Jesenská, no Národní Listy de Praga em 6 de Junho de 1924

Anteontem morreu no Sanatório de Kierling, nos arredores de Klosterneuburg em Viena, o Dr. Franz Kafka, um escritor alemão que viveu em Praga. Aqui poucos o conheciam porque ele era um solitário, uma pessoa que conhecia e se assustava com a vida. Ele esteve doente dos pulmões no último ano e, embora tenha tratado da doença, também a alimentou e incentivou conscientemente nos seus pensamentos. “Quando a alma e o coração não aguentam mais a carga, os pulmões pegam metade para si, para que o peso seja pelo menos dividido igualmente”, escreveu ele certa vez em uma carta, e assim foi também com a sua doença. Ela praticamente o dotou com uma delicadeza fantástica e uma sutileza espiritual terrivelmente inflexível. Humano, no entanto, ele descarregou sob os ombros de sua doença todo seu medo intelectual diante da vida. Ele era tímido, angustiado, sereno e bom, mas escreveu livros terríveis e dolorosos. Ele via o mundo cheio de demônios invisíveis que aniquilavam e despedaçavam as pessoas indefesas. Ele era perspicaz demais, sábio demais para poder viver e fraco demais para lutar com a fraqueza das pessoas nobres e belas que evitam a luta não por medo de desentendimentos, indelicadeza e mentira espiritual – embora saibam de antemão que são impotentes e que se submetem assim para expor o vencedor. Ele conhecia as pessoas como apenas um homem de grande sensibilidade nervosa podia conhecer, alguém que é solitário e que enxerga uma pessoa até no nível da profecia através de uma única pinta no rosto. Ele conhecia o mundo de uma maneira incomum e profunda, ele mesmo era um mundo incomum e profundo. Ele escrevia livros que fazem parte dos mais significativos da jovem literatura alemã. Neles está contida a luta da geração de hoje, ainda que sem palavras tendenciosas. Eles são tão verdadeiros, nus e dolorosos que funcionam realisticamente mesmo quando se expressam através de simbolismo. Eles estão cheios de zombaria seca e do assombro delicado de uma pessoa que tinha visto o mundo tão claramente que não o aguentou e precisou morrer, de uma pessoa que não queria retroceder e se salvar, como os outros em quaisquer erros intelectuais subconscientes, ainda que na melhor das intenções. Dr. Franz Kafka escreveu o fragmento “O foguista” (publicado em tcheco pela Červen de Neumann), o primeiro capítulo de um belo romance que ainda não foi publicado; “O Veredicto”, um conflito geracional; “A metamorfose”, o livro mais forte da moderna literatura alemã; “Na Colônia Penal”; “Um médico rural”; e os esboços de “Contemplação”. O último romance “Diante da lei” permanece em manuscrito, preparado já há anos para publicação. Ele pertence aos livros que após sua leitura deixam a impressão de um mundo completamente capturado, de forma que não se precisa inserir nem mais uma única palavra. Todos os seus livros descrevem o cinza dos desentendimentos secretos e da culpa involuntária entre as pessoas. Ele era uma pessoa e um artista de uma consciência tão fina que percebeu algo também lá, onde outros que não eram tão sensíveis se sentiam seguros.

* Milena Jesenská (1896-1944) foi uma jornalista, escritora, tradutora e militante que nasceu e passou a maior parte de sua vida em Praga. Traduziu parte da obra de Franz Kafka para o tcheco (que embora falasse tcheco fluentemente, escrevia em alemão) e teve com ele um curto relacionamento que rendeu à literatura alemã uma das suas mais belas e profundas correspondências, as célebres Cartas à Milena. Milena Jesenská fez parte de uma importante primavera feminista em Praga composta pelas alunas do Colégio Minerva. Adulta, foi perseguida pela família por casar com o escritor judeu Ernst Polak e por isso passou a viver em Viena. Ao retornar a Praga depois do divórcio, participou de coletivos feministas, socialistas e antifascistas. Teve uma filha, casou-se novamente, entrou e saiu do partido comunista, trabalhou como jornalista traduzindo (Rosa Luxemburgo, entre outros) e escrevendo artigos (agrupados na edição alemã em Alles ist Leben da editora Neue Kritik de Frankfurt em 1984). Com a ocupação nazista em 1939, perdeu o emprego e entrou na clandestinidade ajudando a organizar a fuga de refugiados judeus e não judeus da Tchecoslováquia, até ser ela mesma presa e enviada para o campo de concentração para mulheres de Ravensbrück onde morreu em 1944 com 47 anos. Margarete Buber-Neumann, que conheceu Jesenská no campo de concentração e teve com ela um relacionamento íntimo, sobreviveu e escreveu sobre ela uma bela biografia já traduzida para o português.

Tradução e nota: Tomaz Amorim Izabel

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Vorgestern starb im Sanatorium Kierling in der Nähe von Klosterneuburg bei Wien Dr. Franz Kafka, ein deutscher Schriftsteller, der in Prag lebte. Hier kannten ihn wenige, weil er ein Einzelgänger war, so ein wissender, vom Leben verschreckter Mensch; er war jahrelang lungenkrank, und obwohl er die Krankheit behandeln ließ, hat er sie doch wissentlich genährt und gedanklich gefördert. “Wenn die Seele und das Herz die Last nicht mehr ertragen, nimmt sie die Lunge zur Hälfte auf sich, damit das Gewicht wenigstens gleichmäßig verteilt ist”, schrieb er einmal in einem Brief, und so war auch seine Krankheit. Sie verlieh ihm eine geradezu wunderbare Zartheit und eine erschreckend kompromißlose geistige Subtilität; als Mensch lud er jedoch all seine intellektuelle Furcht vor dem Leben auf die Schultern seiner Krankheit. Er war scheu, ängstlich, sanft und gut, aber schrieb grausame und schmerzhafte Bücher. Die Welt sah er voller unsichtbarer Dämonen, die den ungeschützten Menschen vernichten und zerreißen. Er war zu hellsichtig, zu weise, um leben zu können, zu schwach, um mit der Schwäche der edlen, schönen Menschen zu kämpfen, die den Kampf nicht aus Furcht vor Mißverständnissen, Lieblosigkeiten und geistiger Lüge meiden, obwohl sie im voraus wissen, daß sie machtlos sind, und die so unterliegen, daß sie den Sieger bloßstellen. Er kannte die Menschen, wie sie nur ein Mann von großer nervlicher Empfindsamkeit zu kennen vermag, jemand, der einsam ist und einen Menschen sogar prophetisch an einem einzigen Aufflackern des Gesichts durchschaut. Er kannte die Welt auf ungewöhnliche und tiefe Weise, war selber eine ungewöhnliche und tiefe Welt. Er schrieb Bücher, die zum Bedeutendsten der jungen deutschen Literatur gehören; in ihnen ist der Kampf der heutigen Generation enthalten, jedoch ohne tendenziöse Worte. Sie sind so wahrhaft, nackt und schmerzlich, daß sie selbst dort, wo etwas symbolisch ausgedrückt wird, naturalistisch wirken. Sie sind voller trockenen Spotts und empfindsamen Erstaunens eines Menschen, der die Welt so klar gesehen hat, daß er das nicht ertrug und sterben mußte, denn er wollte nicht zurückweichen und sich wie andere in irgendwelche, wenn auch subjektiv ehrliche, unterbewußte intellektuelle Irrtümer retten. Dr. Franz Kafka schrieb das Fragment “Der Heizer” (es kam tschechisch in Neumanns Červen heraus), das erste Kapitel eines schönen Romans, der noch nicht veröffentlicht ist, “Das Urteil”, ein Generationenkonflikt, “Die Verwandlung”, das stärkste Buch der modernen deutsche Literatur, “In der Strafkolonie”, “Ein Landarzt” und die Skizzen “Betrachtung”. Der letzte Roman “Vor dem Gericht” liegt im Manuskript vor, schon jahrelang zum Druck vorbereitet. Er gehört zu den Büchern, die nach der Lektüre den Eindruck einer total erfaßten Welt hinterlassen, so daß man kein einziges Wort hinzuzufügen braucht. Alle seine Bücher schildern das Grauer heimlicher Mißverständnisse und unverschuldeter Schuld zwischen den Menschen. Er war ein Mensch und Künstler von so feinem Gewissen, daß er auch dort etwas spürte, wo sich andere, die nicht so empfindlich waren, ungefährdet fühlten.

* Edição consultada: JESENSKÁ, Milena. Alles ist Leben. Feuilletons und Reportagen 1919-1939. Tradução: Reinhard Fischer. Frankfurt: Neue Kritik KG, 1999, 105-106.

A mosca, A rosa doente e a A árv’re envenenada, de William Blake

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Traduções: Victor M. P. de Queiroz

A Mosca

Parva Mosca,
Vosso vão brincar
Minha mão estulta
Fez esfacelar.

Não serei
Mosca como vós?
Ou será não sois
Homem como nós?

Pois eu danço,
Bebo e também canto,
‘Té que cegas mãos
Me as asas alcançam.

Se é viver pensar,
Ter força, ter alento,
Se morrer é ter
Falto o pensamento;

Saída há pouca:
Serei uma mosca,
Ainda que viva,
Ainda que morra.

______

A Rosa doente

Rosa, estás doente!
O verme invisível,
Que voa na noite,
Na treva terrível,

Encontrou teu leito
De gozo escarlate;
E dele o secreto
Mau amor te abate.

______

A árv’re envenenada
Tradução dedicada a Núria Pratginestós

Enfureceu-me um amigo.
Disse-lho, a ira foi consigo.
Enfureceu-me o adversário.
Nada disse: houve o contrário.

Banhou-se-me a ira, tarde
E manhã, em pranto covarde;
Banhou-se em sol de sorrisos
E bem-quereres fingidos,

Manhã e tarde crescia,
‘Té virar maçã sadia,
Que viu brilhar meu imigo:
Invejou-me estar comigo

A maçã, que fez roubar
Do jardim, sob o luar.
Manhã. Feliz, vejo, ao lado
D’árv’re, o vilão ‘statelado.

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William Blake

The Fly

Little Fly,
Thy summer’s play
My thoughtless hand
Has brush’d away.

Am not I
A fly like thee?
Or art not thou
A man like me?

For I dance,
And drink, and sing,
Till some blind hand
Shall brush my wing.

If thought is life
And strength and breath,
And the want
Of thought is death;

Then am I
A happy fly,
If I live
Or if I die.

___________

The sick Rose

O Rose, thou art sick!
The invisible worm,
That flies in the night,
In the howling storm,

Has found out thy bed
Of crimson joy;
And his dark secret love
Does thy life destroy.

___________

A poison tree

I was angry with my friend:
I told my wrath, my wrath did end.
I was angry with my foe:
I told it not, my wrath did grow.

And I water’d it in fears,
Night and morning with tears;
And I sunned it with smiles,
And with soft deceitful wiles.

And it grew both day and night,
Till it bore an apple bright;
And my foe beheld it shine,
And he knew that it was mine,

And into my garden stole
When the night had veil’d the pole:
In the morning glad I see
My foe outstretch’d beneath the tree.

Fracassos no infinitivo, de Bernadette Mayer

bernadette-mayer

Fracassos no infinitivo

Tradução: Mariana Ruggieri

por que estou fazendo isso? Fracasso para
manter meu emprego para então
poder encontrar coisas para
pintar a minha casa
ganhar dinheiro suficiente para viver para
poder pintar a casa & para
poder encontrar coisas e
ganhar dinheiro suficiente para então
poder costurar livros para
publicar obras e livros para
ter tempo para
responder correspondências & telefonemas para
lavar as janelas para
tornar a cozinha melhor para o trabalho para
ter dinheiro para comprar um rádio simples para
escutar enquanto trabalho na cozinha para
saber o suficiente para fazer no mundo o trabalho adulto para
transcender minha atitude para
uma pobreza compulsória para
poder esperar os cheques
chegar a tempo pelo correio para
não sempre esperar que eles não vão para
esquecer as atitudes da minha mãe com a humildade ou para
continuar a
assumir sem sofrer para
esquecer como minha mãe enlouquecia meu pai
com dinheiro, minha irmã sobre não posso dizer
fracasso para esquecer mãe e pai o suficiente para
ser mais velha, para esquecer para
esquecer meu tio obssessivo para
lembrar de outra maneira para
lembrar com precisão seus preconceitos para
cessar de sonhar com leões que para sempre é
sonhar com eles, eu coloco minha mão na boca do leão para
arrefecer sua raiva, isso não é um fracasso para
perceber que eles eram assim; fracasso para
trocar de planta os vasos para
ser organizada para
criar & manter superfícies limpas para
deixar um sofá ou uma cadeira ser um lugar para sentar
e não uma mesa para
deixar a mesa ser um lugar para comer & não uma escrivaninha para
escutar mais música popular para
aprender as letras para
não precisar de dinheiro para então
poder escrever o tempo todo para
não ter que pagar aluguel, condomínio ou contas de telefone
esquecer a morte precoce de pais e tios para então
ficar livre de esperar cuidados; fracasso para
amar objetos
encontrar neles qualquer valor; fracasso para
preservar objetos
comprar objetos e
agora deixar caídos na sarjeta; fracasso para
pensar em poemas como objetos
pensar o corpo como um objeto; fracasso para
acreditar; fracasso para
saber nada; fracasso para
saber tudo; fracasso para
lembrar como soletrar fracasso; fracasso para
acreditar no dicionário & que há algo para
alcançar; fracasso para
ensinar direito; fracasso para
acreditar no ensino para
só achar que todo mundo sabe tudo
que não é o meu fracasso; eu sei que todo mundo sabe; fracasso para
ver que não todo mundo acredita nesse saber e
pensar que não podemos durar até o sucesso do saber
lavar toda a louça leva apenas dez minutos
escrever mil poemas em uma hora para
fazer um épico, abra a janela suja para
deixar entrar você sabe quem e para
expirar pensamentos e poemas longe dos problemas para
deixar a gente saber, a gente deixa para
pintar seus tetos & paredes de graça

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Failures in Infinitives

Bernadette Mayer

why am i doing this? Failure
to keep my work in order so as
to be able to find things
to paint the house
to earn enough money to live on
to reorganize the house so as
to be able to paint the house &
to be able to find things and
earn enough money so as
to be able to put books together
to publish works and books
to have time
to answer mail & phone calls
to wash the windows
to make the kitchen better to work in
to have the money to buy a simple radio
to listen to while working in the kitchen
to know enough to do grownups work in the world
to transcend my attitude
to an enforced poverty
to be able to expect my checks
to arrive on time in the mail
to not always expect that they will not
to forget my mother’s attitudes on humility or
to continue
to assume them without suffering
to forget how my mother taunted my father
about money, my sister about i cant say it
failure to forget mother and father enough
to be older, to forget them
to forget my obsessive uncle
to remember them some other way
to remember their bigotry accurately
to cease to dream about lions which always is
to dream about them, I put my hand in the lion’s mouth
to assuage its anger, this is not a failure
to notice that’s how they were; failure
to repot the plants
to be neat
to create & maintain clear surfaces
to let a couch or a chair be a place for sitting down
and not a table
to let a table be a place for eating & not a desk
to listen to more popular music
to learn the lyrics
to not need money so as
to be able to write all the time
to not have to pay rent, con ed or telephone bills
to forget parents’ and uncle’s early deaths so as
to be free of expecting care; failure
to love objects
to find them valuable in any way; failure
to preserve objects
to buy them and
to now let them fall by the wayside; failure
to think of poems as objects
to think of the body as an object; failure
to believe; failure
to know nothing; failure
to know everything; failure
to remember how to spell failure; failure
to believe the dictionary & that there is anything
to teach; failure
to teach properly; failure
to believe in teaching
to just think that everybody knows everything
which is not my failure; I know everyone does; failure
to see not everyone believes this knowing and
to think we cannot last till the success of knowing
to wash all the dishes only takes ten minutes
to write a thousand poems in an hour
to do an epic, open the unwashed window
to let in you know who and
to spirit thoughts and poems away from concerns
to just let us know, we will
to paint your ceilings & walls for free

“Hasta ela, siempre”, de Gustavo Krämer

“Hasta ela, siempre”, de Gustavo Krämer

Tradução: Marília Moschkovich (para S. em uma despedida na estação de trem, no verão parisiense de dois mil e dezessete)

*

Te amo porque você me diz camarada,
Amadurecendo lutas por encontrar outros rumos, quando o abraço e o beijo são da honestidade da escolha, de abandonar imposições, de nos livrarmos das condições culturais e ver como as ruas se engrandecem contigo;

Te amo pela potência de tua voz,
Gritando os pulmões por novos ares e novos seres, por mais bandeiras e eternos amanheceres, lançando o véu militante que se eleva sobre o asfalto frio da violência das cidades de fúria;

E te amo também por teu ânimo irreverente,
Redentor meu frente à dureza de meus pré-juízos, humildade tua para entender meus conflitos, trazendo calma e respeitando meu passo, sorrindo cúmplice ao me ver gozar aquilo que negava;

Te amo sem eternidade ou prazos fixos,
Pois tua geografia corrói os mapas do romantismo, leva crise às economias e me permite pensar novas regras e antropologias. Regras subvertidas. Um mundo sem bancos ou promessas vazias;

Te amo até os confins de tua ideologia,
Pelo egoísmo de querer estar bem e ser melhor, cravado na contradição de me saciar para me solidarizar, e percebendo que sem próximo não há eu, nem festas nem banquetes nem manhãs nem o rosado do céu;

Te amo porque não há objeto, nem amos nem domínio,
Porque não existe outro tempo que não o momento, marcado na memória que registra o trajeto, para lembrar sempre que vivemos para ser um constante novo projeto.

Te amo

Até sermos livres

E te espero

Para que tragas em teus braços

A vitória de todos

Até ela, te amo

Hasta ela, siempre.

*


HASTA ELLA, SIEMPRE
(poema de Gustavo Krämer, originalmente em seu blog)

Te amo porque me llamás compañero..
Madurando luchas por encontrar otro rumbo, cuando el abrazo y el beso son por la honestidad que estructura la elección, de abandonar las imposiciones, de librarnos de la condición cultural y ver cómo las calles se ensanchan con vos.

Te amo por lo potentente de tu voz..
Gritando los pulmones por nuevos aires y nuevos seres, por más banderas y eternos amaneceres, bancando el lienzo militante que se alza sobre el asfalto frío de la violencia de las ciudades de furia.

Et amo también por tu ánimo irreverente..
Redentor mío ante la dureza de mis prejuicios, humildad tuya para entender mis conflictos, dándome calma, respetando mi ritmo, sonriendo cómplice al verme disfrutar de lo que antes negaba.

Te amo, sin eternidad ni plazos fijos…
Porque tu geografía deteriora los mapas del romanticismo, lleva a crisis las economías y me permite pensar nuevas reglas y antropologías. Reglas subvertidas. Un mundo sin bancos ni promesas vacías.

Te amo hasta los confines de tu ideología
Por el egoismo de querer estar bien y ser mejor, enclavado en la contradicción de saciarme para solidarizarme, trayendo a cuentas que sin prójimo no hay uno, ni fiestas ni banquetes ni mañanas ni rocío.

Te amo porque no hay objeto, ni amos ni dominios.
Porque no existe otro tiempo que el del momento, afianzado en memoria que registre el trayecto, para siempre tener en cuenta que vivimos para ser un constante nuevo proyecto.

Te amo

Hasta ser libres

Y te espero

Para que traigas en brazos

La victoria de todxs.

Hasta ella, te amo.

Hasta ella, siempre.