Alicerces, de Maggie Smith

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Alicerces, tradução por Stella Paterniani

A vida é curta, mas isso eu não conto às minhas filhas.
A vida é curta, e a minha eu encurtei
com mil maneiras deliciosas, imprudentes,
mil maneiras deliciosamente imprudentes
que não contarei às minhas filhas. O mundo é no mínimo
cinquenta por cento terrível, e olhe essa estimativa
é conservadora, embora eu não conte às minhas filhas.
Para cada passarinho há uma pedra estilingada num passarinho.
Para cada criança amada, uma criança despedaçada, ensacada,
submersa num lago. A vida é curta e pelo menos
metade do mundo é horrível, e para cada gentil
desconhecido, há um que te destroçaria,
mas isso eu não conto às minhas filhas. Tento
vender-lhes o mundo. Qualquer corretor de imóveis hábil,
ao te abrir a porta de uma espelunca, tagarela sobre
os alicerces: esse lugar poderia ser lindo,
né não? Você poderia fazer daqui um lugar maravilhoso.

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Good bones, de Maggie Smith

Life is short, though I keep this from my children.
Life is short, and I’ve shortened mine
in a thousand delicious, ill-advised ways,
a thousand deliciously ill-advised ways
I’ll keep from my children. The world is at least
fifty percent terrible, and that’s a conservative
estimate, though I keep this from my children.
For every bird there is a stone thrown at a bird.
For every loved child, a child broken, bagged,
sunk in a lake. Life is short and the world
is at least half terrible, and for every kind
stranger, there is one who would break you,
though I keep this from my children. I am trying
to sell them the world. Any decent realtor,
walking you through a real shithole, chirps on
about good bones: This place could be beautiful,
right? You could make this place beautiful.

SEPARAÇÃO, de Marina Tsvetáieva

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SEPARAÇÃO

Poema de Marina Tsvetáieva (1892 – 1941).
Dedicado a Serguei Efron (8 de outubro 1893 – 16 de outubro 1941)
Tradução de André Nogueira, set. 2016.
Imagem, ver nota ao final do poema.

Separação

(Marina Tsvetáieva)

para Serioja *

1
     
Guerra de torres
Longe no Kremlin.
Onde na terra,
Onde –

Solidez minha,
Placidez minha,
Intrepidez minha,
Piedade de mim.

Guerra de torres.
Guerra sem fim.
Onde na terra –
Minha
Casa,
Minha – graça,
Minha – alvorada,
Minha – pegada
De sola apertada, onde –
Meu sono?

Caída por terra
À noite esta guerra
Com os braços desmorono.

– Não me abandone!

maio 1921

2

Como de um longo desmaio
Ergo meus braços.
Pelo buraco negro da janela
Contra a batalha da meia-noite
Inúteis braços que duelam.
Com apelos de socorro te atraio
Para casa. – E eis: a cabeça cai
Da torre! – Para casa!

Estende da batalha
Para mim, não para o cascalho
Da praça, soldado raso,
O rasante de tua asa.

maio 1921

3

Tudo torcido, tudo torcido
Como os braços sem amparo.
Entre nós não são terrestres
Estas verstas que nos separam,
Celestes rios, terras anil,
O inalienável bem-querer de toda a vida –
Por qual via que partiu?

Em prateados arreios
Pela estrada real ele voou.
Meus braços não despedaçam!
Arrastei-os
– Sem um piu! –,
Finquei meus pulsos
Como uma árvore para o impulso
De uma ave que migrou.

Voa, amado grou,
Voa, sumindo de vista.
Não abro mão do meu prumo:
Bem me visto para uma morte
Rápida como suas plumas douradas
E equilibro-me no último suporte
Meio às vastidões devastadas.

junho 1921

4

Cortada, como oliva madura,
A cabeceira da cama.
O divino ciúme
Sobre a paixão humana.

Cada murmúrio para os deuses
É rezado bem baixinho.
Toda a idade em flor perdeu-se,
Além de ti, pelo caminho.

A primaveril luxúria
A todos eles enfurece.
O céu te viu algures,
Pois redobra tuas preces.

=========

Acreditas – que as vozes
De tão glorioso cobre
E os sinais dos albatrozes
Tua rota manobram

Do penhasco à emboscada –
Com o peito na lança?
Que a onda sublevada
– Acreditas – te alcança?

Que os aguilhões da floresta
– Crês? – te vão cravar?
Maior que toda peste
É a piedade do tzar!

A gota fermenta
De teu pranto na terra.
Não temas a gente
Terrena, – misérrima!

Como antigamente,
Milhares de olhos a vê-lo.
Preso ao divino pente
Cada fio de cabelo.

Não temas de Zeus
A abóbada oca
Do insaciável céu
Do coração da boca.

12 de junho 1921

5

De mansinho
Com a débil mão franzina
Desemaranharei os caminhos:
Das mãos minhas – aos relinchos teus,
Amazona obediente, murmurinho
Pelos díssonos degraus do derradeiríssimo adeus.

Relinchas e escoicinhas,
Meu alado, no caminho
Iluminado. – No olhar uma alvorada.
Dai-me as mãozinhas, as mãozinhas! –
Inútil alarido tu repetes.
Entre nós – a prestes queda d’ água do Letes.

14 de junho 1921

6

Cabelos brancos não verás
Em mim, nem eu em ti.
Sem que olhes para trás
Tu nem saudades vais sentir.

Diante de tua desgraça
Este pranto me escapa:
– Sacode o braço!
Deixa cair a capa!

Sob os olhos frios
De um camafeu de dura pedra,
Como as mães esperam a cria,
Desta porta não arredo.

(Com o peso do sangue, a aridez
Dos joelhos, a retesa tez –
Pela derradeiríssima terrestre
Vez!)

Não como furtivo e articulado animal, –
Não, como sólido bloco
Passarei por esta porta –
Esta vida. – Afinal,
Eu só em lágrimas derroco,
Uma vez que tuas costas
São de pedra mais polida.

De repente, já não és pedra!
Mas como a larga asa da águia –
A capa largada e esta queda
Pelo abismo da ilharga
Para o luzeiro da cidade
Onde busco minha cria
E pela maternidade
Não sorrio.

15 de junho 1921

7

Como um broto no cepo
Te afloras.
Que não te perceba
Zeus. –
Implora!

Tua flor germine
Devagar e com cuidado.
Teu encanto masculino
É por eles invejado.

Os maxilares hiantes
E o chamado deles…
A invejar o teu encanto –
Um ninho de deuses.

Te atraem à peleja
Com louros e glórias.
Que não te eleja
Zeus. –
Implora!

As asas da águia
No céu em estrondo.
Teu grito propaga –
Que não te escondas!

Com sangue no bico
Te pinçou o raptor!
Cordeirinho nanico,
Deixa cair – o amor…

Com o peito cabeludo –
Beija o chão!
E implora ajuda…
Zeus,
Compaixão!

16 de junho 1921

8

Eu sei, eu sei,
Que nessa terra nosso amado,
Que esse cálice encantado,
É menos nosso
Do que deles –
Dos caminhos,
Das estrelas
E dos ninhos
Pendurados na encarnada.

Eu sei, eu sei
Quem é o dono desse cálice!
Como a altura da águia, roçasse-a
A torre de meu braço para o céu,
Esse cálice eu sei como bebeu
A terrível e rosácea
Boca de Deus!

17 de junho 1921

~// ~

* Na foto, o casamento de Marina Tsvetáieva com Serguei Efron em 1911. Serioja, como se lê na dedicatória de ‘Separação’, trata-se de uma forma diminutiva e carinhosa do nome Serguei. Com a derrubada do governo provisório de A. Kerensky pelo Exército Vermelho em outubro de 1917, Efron alistou-se nas fileiras do Exército Branco, que resistiu contra a revolução em guerra civil. Entre os anos de 1920 e 1921, os voluntários Brancos foram derrotados em suas diversas frentes. Estes poemas foram escritos por Tsvetáieva em Moscou entre maio e junho de 1921, quando havia quatro anos de sua separação, sem notícias de Efron, se vivo ou morto. Um período de atribulações para a poeta, sozinha com as duas filhas do casal, além de exposta à guerra e suas privações. Em 1919 a família passava fome, e obrigada a entregar as filhas ao orfanato, Tsvetáieva perdeu a mais nova, Irina, por desnutrição. Além de longos poemas consagrados à batalha do Exército Branco, Tsvetáieva dedicou neste tempo poemas a Efron, um dos quais é o ciclo ‘Separação’. No mês seguinte, julho de 1921, a poeta receberá a notícia de que seu esposo está vivo, em Praga. Marina Tsvetáieva e sua filha, Ariadna, deixarão a Rússia quase um ano depois, em maio de 1922, para ir a seu encontro.

Nesta publicação de hoje lembramos a pessoa de Serguei Efron e seu amor com Marina Tsvetáieva. Conhecida por seu trágico desenlace, a história de ambos culminou em mais um gesto de dedicação da poeta, ao seguir Serioja desta vez de volta para a Rússia, isto é, para a União Soviética, em 1939, possivelmente sabendo como isso resultaria em sua morte. Estabelecido em Paris com a família, Efron convertera-se em agente secreto e trabalhara, sem o conhecimento da esposa, para a NKVD, a polícia soviética infiltrada entre os emigrados “brancos”. Seu nome fora implicado no assassinato de Ignace Reiss, ex-colaborador da NKVD, e Efron saiu foragido em um navio soviético em 1937, novamente deixando desamparada Tsvetáieva. Para ela se fecham todas as portas em Paris. Conseguirá embarcar, dois anos depois, para a Rússia, mas já não encontrará Efron, detido por acusação de traição. Ariadna, também detida, passará oito anos na prisão. Antes de fuzilado em 16 de outubro de 1941, Efron sob tortura recusou-se terminantemente a delatar o nome de Tsvetáieva, afirmando sempre que esta “por toda a sua vida só fez escrever poemas e prosa”. Nos relatórios da NKVD, lê-se a seguinte observação de seus torturadores: “Internado a partir do dia 7 de novembro de 1939 no setor psiquiátrico da prisão de Butýrki, devido a alucinações reativas agudas e uma tentativa de suicídio. No momento, sofre de alucinações auditivas, pensa que escuta falar dele pelos corredores, que sua mulher morreu, que ele ouve o título de um poema conhecido apenas por ele e sua mulher etc. Apresenta-se ansioso e pensa em suicídio. Sente-se oprimido, assustado, como quem aguarda alguma coisa de horrível” (em ‘Vivendo sob o Fogo’, ed. Martins Fontes, 2008, pág. 705). Como se sabe, seu pressentimento acerca de Marina Tsvetáieva se realizou, da pior forma, em 31 de agosto de 1941.

           ~//~

РАЗЛУКА

Марина Цветaева

Сереже


1

Башенный бой
Где-то в Кремле.
Где на земле,
Где –

Крепость моя,
Кротость моя,
Доблесть моя,
Святость моя.

Башенный бой.
Брошенный бой.
Где на земле –
Мой
Дом,
Мой – сон,
Мой – смех,
Мой – свет,
Узких подошв – след.

Точно рукой
Сброшенный в ночь –
Бой.

– Брошенный мой!

Май 1921

2

Уроненные так давно
Вздымаю руки.
В пустое черное окно
Пустые руки
Бросаю в полуночный бой
Часов, – домой
Хочу! – Вот так: вниз головой
– С башни! – Домой!

Не о булыжник площадной:
В шепот и шелест…
Мне некий Воин молодой
Крыло подстелет.

Май 1921

3

Всё круче, всё круче
Заламывать руки!
Меж нами не версты
Земные, – разлуки
Небесные реки, лазурные земли,
Где Друг мой навеки уже –
Неотъемлем.

Стремит столбовая
В серебряных сбруях.
Я рук не ломаю!
Я только тяну их
– Без звука! –
Как дерево-машет-рябина
В разлуку,
Во след журавлиному клину.

Стремит журавлиный,
Стремит безоглядно.
Я спеси не сбавлю!
Я в смерти – нарядной
Пребуду – твоей быстроте златоперой
Последней опорой
В потерях простора!

Июнь 1921

4

Смуглой оливой
Скрой изголовье.
Боги ревнивы
К смертной любови.

Каждый им шелест
Внятен и шорох.
Знай, не тебе лишь
Юноша дорог.

Роскошью майской
Кто-то разгневан.
Остерегайся
Зоркого неба.

=======

Думаешь – скалы
Манят, утесы,
Думаешь, славы
Медноголосый

Зов его – в гущу,
Грудью на копья?
Вал восстающий
– Думаешь – топит?

Дольнее жало
– Веришь – вонзилось?
Пуще опалы –
Царская милость!

Плачешь, что поздно
Бродит в низинах.
Не земнородных
Бойся, – незримых!

Каждый им волос
Ведом на гребне.
Тысячеоки
Боги, как древле.

Бойся не тины, –
Тверди небесной!
Ненасытимо –
Сердце Зевеса!

25 июня 1921

5

Тихонько
Рукой осторожной и тонкой
Распутаю путы:
Ручонки – и ржанью
Послушная, зашелестит амазонка
По звонким, пустым ступеням расставанья.

Топочет и ржет
В осиянном пролете
Крылатый. – В глаза – полыханье рассвета.
Ручонки, ручонки!
Напрасно зовете:
Меж ними – струистая лестница Леты.

27 июня 1921

6

Седой – не увидишь,
Большим – не увижу.
Из глаз неподвижных
Слезинки не выжмешь.

На всю твою муку,
Раззор – плач:
– Брось руку!
Оставь плащ!

В бесстрастии
Каменноокой камеи,
В дверях не помедлю,
Как матери медлят:

(Всей тяжестью крови,
Колен, глаз –
В последний земной
Раз!)

Не крадущимся перешибленным зверем, –
Нет, каменной глыбою
Выйду из двери –
Из жизни. – О чем же
Слезам течь,
Раз – камень с твоих
Плеч!

Не камень! – Уже
Широтою орлиною –
Плащ! – и уже по лазурным стремнинам
В тот град осиянный,
Куда – взять
Не смеет дитя
Мать.

28 июня 1921

7

Ростком серебряным
Рванулся ввысь.
Чтоб не узрел его
Зевес –
Молись!

При первом шелесте
Страшись и стой.
Ревнивы к прелести
Они мужской.

Звериной челюсти
Страшней – их зов.
Ревниво к прелести
Гнездо богов.

Цветами, лаврами
Заманят ввысь.
Чтоб не избрал его
Зевес –
Молись!

Все небо в грохоте
Орлиных крыл.
Всей грудью грохайся –
Чтоб не сокрыл.

В орлином грохоте
– О клюв! О кровь! –
Ягненок крохотный
Повис – Любовь…

Простоволосая,
Всей грудью – ниц…
Чтоб не вознес его
Зевес –
Молись!

29 июня 1921

8

Я знаю, я знаю,
Что прелесть земная,
Что эта резная,
Прелестная чаша –
Не более наша,
Чем воздух,
Чем звезды,
Чем гнезда,
Повисшие в зорях.

Я знаю, я знаю,
Кто чаше – хозяин!
Но легкую ногу вперед – башней
В орлиную высь!
И крылом – чашу
От грозных и розовых уст –
Бога!

30 июня 1921

 

 

 

 

PREFÁCIO PARA A EDIÇÃO COMPLETA DAS MINHAS OBRAS, de Dmitri Shostakóvich.

Shostakovich
Dmitri Shostakovich (1906 – 1975).

PREFÁCIO PARA A EDIÇÃO COMPLETA DAS MINHAS OBRAS E UMA BREVE CONSIDERAÇÃO A PROPÓSITO DE TAL PREFÁCIO  *

Peça para baixo e piano, 1966, op.123.
Epigrama de Alexander Púchkin.
Texto e música de Dmitri Shostakóvich.
Tradução a partir do russo, André Nogueira,
25 de setembro de 2016, em homenagem aos 110 anos do compositor.
Obs.: acompanha vídeo com execução da peça, excertos explicativos de bibliografia existente e textos originais em língua russa. Inclui nossa tradução a partir do inglês de trecho do livro “Shostakovich, a Life”, de Laurel E. Fay.

Prefácio para a Edição Completa das Minhas Obras e uma Breve Consideração a Propósito de tal Prefácio:

 “Com um único espirro eu sujo o papel.
 Com a orelha costumeira escuto o escarcéu.
 Do mundo inteiro eu torturo seus ouvidos.
 Depois publico e – bum! – sou esquecido.”

Este prefácio poderia ter sido escrito
não somente para a edição completa das minhas obras,
senão também para a edição completa das obras
de muitos, muitos outros compositores,
tanto soviéticos como estrangeiros.
E eis a assinatura: Dmitri Shostakóvich.
Artista do Povo da URSS,
um grande número de títulos honorários,
Primeiro-Secretário da União dos Compositores da RSFSR,
simplesmente Secretário da União dos Compositores da URSS,
assim como vários outros cargos
e posições extremamente respeitáveis.

~ // ~

CLIQUE AQUI PARA OUVIR A PEÇA MUSICAL

* Fazemos acompanhar em citação um excerto do livro “Shostakóvich: Vida, Música, Tempo”, de Lauro Machado Coelho (Ed. Perspectiva, 2006, págs. 372-373):

<< Em 28 de maio de 1966, Shostakóvich participou, pela última vez como pianista, de um concerto dedicado às suas obras. Acompanhou Galina Vishniévskaia e Ievgueni Nesterenko numa série de ciclo de canções, que incluíam duas estréias. Transcrevera para soprano as ‘Canções Judaicas’, para que Galina pudesse cantá-las. Nesterenko fez as ‘Romanças sobre Poemas Ingleses’. Para ele, também, Shostakóvich escrevera o texto e a música de uma canção satírica, ‘Prefácio à Edição Completa de Minhas Obras […]’. Os irônicos comentários à sua obra e funções oficiais – para os quais Shostakóvich inspira-se em um epigrama de Púchkin chamado ‘A História de um Versificador’ – são um belo exemplo de autoparódia. Nesterenko estava tão nervoso, que perdeu a sua entrada. Dmitri recomeçou e, mais uma vez, o cantor perdeu a entrada. Só na terceira vez conseguiu acertar… Nesterenko não foi o único a estar nervoso. Em sua biografia, Vishniévskaia conta que, nos ensaios, Dmitri estava apavorado, devido ao problema nos músculos das mãos, a ponto de cometer, três vezes seguidas, o mesmo erro na execução do soneto LXVI, de Shakespeare. No recital, apesar de estar em pânico, tudo correu maravilhosamente, o que o deixou excitadíssimo… Horas depois, porém, sofreu um enfarto, e tiveram de hospitalizá-lo novamente. Ao receber alta, foi mandado para um sanatório em Mielnítchnyi Rutchiei, perto de Leningrado, onde, por coincidência, o puseram no mesmo quarto que, no passado, costumava ser ocupado por Andrei Jdanov (1) >>.

(1) (nota do trad.) Andrei Jdanov, político influente no Partido Comunista da União Soviética, um dos protagonistas no cenário de perseguições e censuras que, na época de Stálin, atormentou Shostakóvich como a muitos outros artistas do país. As diretrizes que regiam a fiscalização das obras artísticas ficaram conhecidas como “jdanovismo”, e os longos anos de seu vigor, como “jdanovtchina”, isto é, a “era Jdanov”. Depois de sua morte em 1948, ou melhor, depois da morte de Joseph Stálin em 1953, com as denúncias dos crimes políticos destes, iniciou-se um processo gradual de “des-jdanovização”. No universo da música, tal processo passou pelo encerramento da União dos Compositores da URSS e criação de uma União dos Compositores da RSFSR (República Socialista Federativa Soviética Russa), em 1960.

Compreende-se melhor a ironia deste Prefácio, bem como a natureza do nervosismo sentido na estréia da peça, em vista das ambigüidades que cercaram a atuação de Shostakóvich na política institucional da União Soviética, a partir da relativa abertura no fim da década de 50, com sua gradual participação na União dos Compositores da URSS, na criação da União dos Compositores da RSFSR, e culminando no seu polêmico ingresso ao Partido Comunista em 1960, então sob governo de Nikita Khrushtchióv. Para efeitos de contextualização, citamos aqui primeiramente um trecho do mesmo livro acima de L. M. Coelho (págs. 293-299):

<< O processo de libertação dos presos políticos, e da reabilitação das vítimas do terror stalinista… foi lento e laborioso. Em 1956, milhares deles começaram a sair do Gúlag2. ‘Nossa casa virou um hotel para a gente que voltava’, contou Maksím [filho de D. Shostakóvich], referindo-se a todos os libertados a quem Dmitri hospedou e ajudou a recolocar na vida social. Usando o prestígio que seus títulos de deputado da República Russa e de Artista do Povo da URSS lhe conferiam, Shostakóvich empenhou-se na defesa de uma ampla gama de indivíduos, que iam desde a família de Guenrietta Dombróvskaia – deixada na miséria pela execução de seu marido – até a reabilitação de Vsiévolod Meyerkhold…

Foi no domínio das artes que se manifestaram com mais clareza as esperanças de que estivesse a caminho um processo de democratização. Morto Stálin, desapareceu a necessidade de produzir, em série, documentários históricos como ‘A Queda de Berlin’. Um novo capítulo na história do cinema soviético se abre com filmes como ‘Quando Voam as Cegonhas’, de Mikhail Kalatózov, premiado em Cannes em 1958 […] Livros por muito tempo engavetados começaram a vir a lume; as montagens do ‘Sovriemiennikh Teatr’ (Teatro Contemporâneo), de Moscou, provocaram debates; o conselho de Ministros criou uma Comissão Nacional de Intercâmbios Culturais com o exterior; poetas que há tempos estavam no desvio – Yevgueni Yevtuchenko, Andrei Vinokhúrov, Andrei Vozniessiénski, Bulát Okudjáva, ou o veterano Nikolai Zabolótski – puderam voltar a publicar […]

Essas mudanças bruscas não eram de todo aprovadas por Khrushtchióv. Numa reunião em meados de 1957 com diversos intelectuais, ele se opôs violentamente às idéias literárias mais audaciosas. E tratou brutalmente a poeta Margarita Aliguér, que reclamava contra o fechamento do anuário ‘Literatúrnaia Moskvá’. Apesar de seus modos bruscos, Khrushtchióv desfrutava de certa popularidade nos meios artísticos. Entre os que o apoiavam, estava Anna Akhmátova, grata a ele por ter ordenado a libertação de seu filho, Liév Gumilióv, preso desde antes da II Guerra Mundial. Isso não impediu que se desencadeasse, em 1958, uma campanha sem precedentes contra o poeta Boris Pasternak. […] Apesar da prisão de sua amante, Olga Ivínskaia,… no inverno de 1945 Pasternak começou a escrever a que haveria de considerar sua obra mais importante: o romance ‘Dr. Jivago’, vasto panorama das atribulações da intelectualidade russa sob a Revolução e o stalinismo… Recusado por todos os editores soviéticos, o romance foi contrabandeado para o exterior e publicado na Itália em novembro de 1957, já em plena era Khrushtchióv. Como o sucesso imediato do livro não foi muito grande, a imprensa soviética conseguiu silenciar o escândalo por algum tempo. No ano seguinte, quando Pasternak tornou-se o primeiro escritor soviético a ganhar o Prêmio Nobel e o livro foi traduzido em todas as línguas do mundo, o Pravda publicou um longo artigo de David Ióssifovich Zaslávski intitulado ‘As Vociferações da Propaganda Reacionária a Propósito de uma Erva Daninha Literária’. Embora ninguém tivesse lido uma só palavra do romance na URSS, os jornais foram inundados de manifestações ‘espontâneas’ dos leitores, pedindo para o escritor a mais dura das punições. Em outubro, uma sessão especial da União dos Escritores condenou Pasternak por ‘cuspir na cara do povo’… e Alexander Biezymiênski… pedira sua deportação: “Arranquemos a erva daninha pela raiz!”. Obrigado a recusar o Nobel, traído por muitos de seus colegas escritores, Pasternak morreu sozinho e amargurado, em maio de 1960…

Na música, o processo de degelo foi ainda mais laborioso. O artigo de Khrénnikov, no primeiro número da ‘Soviétskaia Muzika’ de 1957, preparando o II Congresso da União dos Compositores… esmerava-se em dar uma no cravo outra na ferradura: “O principal erro da secretaria da União dos Compositores foi freqüentemente ter adotado posições dogmáticas na luta contra o formalismo, atribuindo esse conceito a obras… que não o mereciam. Ouvimos recentemente, depois de muito tempo, a Oitava Sinfonia de Shostakóvich que, ao lado de muita coisa criticável, tem numerosas passagens artisticamente fortes e impressionantes… A experiência demonstra que a classificação da Oitava… no grupo das obras formalistas foi errônea e sem fundamento”.

O II Congresso da União dos Compositores [da URSS], iniciado em 23 de março [1957], recenseou as obras escritas entre 1946-1956, fez o balanço da criação musical soviética e apontou os rumos a seguir. Assim como Jdanov no I Congresso [19-25 de abril de 1948], a figura central aqui foi Dmitri Shepílov, representando o Partido. Surpreendendo os liberais, Khrénnikov defendeu os princípios do Realismo Socialista, atacando violentamente o chamado ‘Outono de Varsóvia’: a decisão dos músicos poloneses de romper com essas diretrizes… Krzysztof Penderecki, Witold Lutoslawski, Grazyna Bacewicz… O dogmatismo de Khrénnikov, partidário do respeito à resolução de 1948, não o impediu de ser re-eleito secretário-geral [da União dos Compositores da URSS]… Apesar das conclusões indefinidas e insatisfatórias do II Congresso, pareceu animadora a atitude do Partido que, em fevereiro de 1958, emitiu uma resolução sobre “os erros cometidos na avaliação de ‘Grande Amizade’, de Muradélli, do ‘Bagdán Khmielnítski’, de Konstantin Dankiévitch, e ‘Do fundo do meu Coração’, de Guerman Jukóvski”. Embora afirmando que a resolução de 1948 “desempenhara papel positivo no desenvolvimento de conjunto da música soviética”, essa nova resolução admitia que “o julgamento da obra de determinados compositores foi, muitas vezes, infundado e injusto” (o camarada Shostakóvich era mencionado nesse contexto, juntamente com Prokófiev, Khatchatúrian, Shebalín, Popóv e Miaskóvski): “A obra desses compositores, que apresentava algumas tendências equivocadas, foi globalmente denunciada… Algumas avaliações injustificadas, contidas na resolução de então, eram resultado das opiniões subjetivas de I. V. Stálin a respeito de certas obras de arte e da criação de determinados artistas”…

O Concurso Internacional Tchaikóvski, de interpretação, acabara de ser criado, e a presidência do júri fora confiada a Shostakóvich, grande pianista e maior compositor soviético vivo, detentor do Prêmio Lênin. Ora, aos olhos da comunidade internacional, essa honraria não poderia ser concedida a um artista oficialmente colocado no índex, como inimigo do povo. Era, portanto, necessário reincorporá-lo à máquina de propaganda cultural do Estado. Por isso foi ele, e não Khrénnikov, o escolhido para pronunciar, durante a recepção oferecida no Krêmlin, em 8 de fevereiro de 1958, o discurso – preparado por outros – em que fazia um brinde à nova liderança partidária – cerimônia que, na realidade, preparou o terreno para a recisão parcial da resolução de 1948, no Congresso de março. Da mesma forma, o governo o mandaria aos Estados Unidos, em 1959, como parte da delegação liderada por seu arqui-inimigo Khrénnikov. Descrito pela ‘Musical America’ como “um homem nervoso, de olhos brilhantes e mãos inquietas, que fuma sem parar”, as suas cautelosas declarações, bem ensaiadas, confirmariam a impressão que se tinha, no Ocidente, de que ele se convertera em um comunista ortodoxo >>

2 (nota do trad.) Gúlag, complexo penitenciário na Sibéria destinado a presos políticos oriundos de toda a URSS, em operação de 1930 a 1956. Para o momento, dispensamos maiores apresentações. Vale consulta ao livro de Alexander Soljenítsin, “O Arquipélago Gúlag” (Círculo do Livro, 1975).

Sobre o ingresso de Shostakóvich para o Partido Comunista em 1960, citamos trecho do livro de Laurel E. Fay, “Shostakóvich, a Life” (Oxford University Press, 2000, págs. 216-219, nossa tradução do inglês):

<< A realização artística de Shostakóvich foi ofuscada pela sua nova atuação como servidor público. Na primeira semana de abril de 1960, o Primeiro Congresso de Compositores da Federação Russa (RSFSR) teve lugar em Moscou. Apesar de estabelecer formalmente a União dos Compositores no nível da república, a sua comissão organizadora operava desde 1958 e patrocinou plenárias oficiais. Enquanto isso, a organização dos compositores da cidade de Moscou foi criada em 1959. Destaque para o Primeiro Congresso Constituinte, incluindo uma recepção no teatro do Krêmlin com a participação de líderes soviéticos e do corpo diplomático, começando com uma performance de ‘O Sol Brilha sobre a Pátria Mãe’ [opus 90 de D. Shostakóvich]. Em 9 de abril de 1960, Shostakóvich foi eleito primeiro-secretário, convocado para a mais elevada posição de liderança da recém-fundada União. Em 30 de abril, dele foi uma das saudações para a nação por ocasião do 1º de Maio, publicada no Pravda: “Estamos alcançando o comunismo. Louvar a mais justa sociedade humana na história é uma digna missão e satisfação para os compositores… Neste 1º de Maio de 1960 eu verdadeiramente ouço a música do comunismo. E, olhando para frente, gostaria de convidar todos os compositores soviéticos, meus caros amigos, para um trabalho ainda mais intenso e um novo sucesso criativo. Avante amigos, rumo ao comunismo!”. Na vida privada, contudo, Shostakóvich se mostrou freqüentemente mais cínico a respeito das aspirações e promessas do comunismo. Assim ele contradisse, numa conversa em 1956 com Flora Litvínova, a convicção desta de que o compositor compartilharia das sua idéias de comunismo: “Não, o comunismo é impossível!”.

Sua imprevista entrada como membro no Partido Comunista em 1960… resultou um dos mais enigmáticos episódios de sua biografia. No fim de junho de 1960, Shostakóvich se encontrava em Leningrado, onde sofreu um colapso nervoso, provocado pela iminência da convocatória que o levaria a Moscou para efetuar sua iniciação como membro do Partido. As versões contadas por Glikman e Lebedinski – que testemunharam sua crise – são contraditórias. Segundo relata Glikman, a decisão de Khrushtchióv em fazer de Shostakóvich a cabeça da recém-fundada União dos Compositores da Federação Russa implicou no requerimento de sua filiação ao Partido. À honraria oferecida por um presidente do Comitê Central, delegado a recrutá-lo, o compositor se manteve resistente, e manobrou a situação o quanto possível antes de consentir. Já Lebedinski, ele mesmo um membro do Partido desde 1919, defende que não houve um grande plano para recrutar Shostakóvich, que a pressão para aderir proveio de um escalão mais baixo de funcionários… Ele observou que Shostakóvich não chegou a dizer o nome de quem o forçara a assinar a inscrição, mas lhe deu a entender, envergonhado, que a tanto sucumbiu sob a influência do álcool…

Tal acontecimento foi mistificado por vários colegas e amigos de Shostakóvich. E deixou muitos intelectuais desapontados. Alguns cogitam seriamente a possibilidade de que a partir daquele momento pendia, sobre Shostakóvich e sua família, a espada de Dâmocles, o que sem dúvida seria o caso na era de Stálin. É verdade que, para melhorar a imagem do Partido Comunista sob governo de Khrushtchióv, houve uma campanha para recrutar às suas fileiras sangue novo da inteligentzia… Que houve algum grau de coerção, é evidente. Mais comumente compreende-se o consentimento de Shostakóvich como um produto do pavor crônico, o terror que deformou toda a sua vida. >>

A nova fase não poria fim às sanções sofridas por Shostakóvich por meio da censura partidária. Mesmo com a relativa liberdade dos anos 60 – notável nos ciclos de canções compostas sobre poemas de Marina Tsvetáieva, Alexander Blok, Yevgueni Yevtuchenko, além de poetas estrangeiros como García Lorca, Rainer Maria Rilke, Guillaume Apollinaire, bem como das peças satíricas que tomaram parte decisiva em sua obra neste período final de sua vida – mesmo assim Shostakóvich se viu obrigado, por exemplo, a assentir em trechos onde a comissão do Partido interveio revisando os poemas de Yevtuchenko** usados em sua 13ª Sinfonia em 1962.

Quanto à estréia do Prefácio em 1966, aconteceu já sob a era Brejniev. Não obstante os novos tempos soviéticos, pode-se sentir o peso psicológico dessas “transgressões” em uma série de indícios. Lauro M. Coelho lembra que, para a apresentação da 14ª Sinfonia de Shostakóvich, “as autoridades não enviaram nenhum representante. Estava lá apenas Pável Apostolóv, stalinista de coração…

“O violinista Mark Lubótski, que assistiu à estréia, conta que, embora Shostakóvich tivesse pedido silêncio à platéia, pois seria feita uma gravação privada daquele concerto, durante o quinto movimento [com o poema ‘Os Sentinelas’, de Apollinaire], Apostolóv retirou-se ruidosamente da sala: ‘Quando a sinfonia terminou, as primeiras pessoas a sair viram um homem ser retirado do prédio, numa maca, para dentro de uma ambulância. Apostolóv tinha tido um ataque do coração enquanto a música estava sendo tocada’” (Op. Cit. 385).

** Em março de 2015 publicamos, neste mesmo endereço eletrônico, nossa tradução de um dos poemas de Yevtuchenko usados por Shostakóvich na sua 13ª Sinfonia, igualmente acompanhada por vídeo com a execução da peça e originais na língua russa. Clique aqui para ver a tradução

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ПРЕДИСЛОВИЕ К ПОЛНОМУ СОБРАНИЮ МОИХ СОЧИНЕНИЙ И КРАТКОЕ РАЗМЫШЛЕНИЕ ПО ПОВОДУ ЭТОГО ПРЕДИСЛОВИЯ

(Для баса и фортепиано, 1966, op.123.
Эпиграмма Пушкина. Текст Шостаковича).

“Мараю я единым духом лист.
Внимаю я привычным ухом свист.
Потом всему терзаю свету слух.
Потом печатаюсь – и в Лету Бух!”

Такое предисловие можно было б написать
не только к полному собранию моих сочинений,
но и к полному собранью сочинений
многих, очень, очень многих композиторов,
как и советских, так и зарубежных.
А вот и подпись: Дмитрий Шостакович.
Народный артист СССР,
очень много и других почетных званий,
первый секретарь Союза композиторов РСФСР,
просто секретарь Союза композиторов СССР,
а так же очень много других весьма
ответственных нагрузок и должностей.

 

 

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Planetário, de Adrienne Rich

adrienne

Planetário, tradução por Mariana Ruggieri

[Pensando em Caroline Herschel (1750-1848)
astrônoma, irmã de William; e outras.]

Mulher em forma de monstro
monstro em forma de mulher
os céus estão cheios delas

mulher ‘na neve
entre os Relógios e instrumentos
ou medindo o chão com varas‘

seus 98 anos para descobrir
8 cometas

mulher ela que a lua regia
como nós
levitando à noite-céu
montando lentes polidas

Galáxias de mulheres, ali
cumprindo penitência pelo ímpeto
costelas arrepiadas
naquele lugar das ideias

Um olho

‘viril, preciso e absolutamente certeiro‘
das teias loucas de Uranusborg

encontrando a NOVA

todo impulso de luz explosão

do caroço
à medida que a vida voa

Tycho finalmente sussurra
‘Que eu não pareça ter vivido em vão’

O que vemos, vemos
e ver é cambiar

a luz que encolhe a montanha
e deixa vivo um homem

Heartbeat e o pulsar
coração suando pelo corpo

O impulso de rádio
de Taurus entornando

Bombardeada ainda assim em pé

Em pé minha vida toda no
caminho direto de uma bateria de sinais
mais precisamente transmitido mais
intraduzível língua no universo
Sou nuvem galáctica tão profunda tão invo-
lutosa que a onda de luz poderia levar 15
anos para viajar por mim E vem
levando Sou instrumento com forma
de mulher tentando traduzir pulsos
em imagens para o alívio do corpo
e a remontagem das ideias.

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Planetarium, de Adrienne Rich

[Thinking of Caroline Herschel (1750—1848)
astronomer, sister of William; and others.]

A woman in the shape of a monster
a monster in the shape of a woman
the skies are full of them

a woman ‘in the snow
among the Clocks and instruments
or measuring the ground with poles’

in her 98 years to discover
8 comets

she whom the moon ruled
like us
levitating into the night sky
riding the polished lenses

Galaxies of women, there
doing penance for impetuousness
ribs chilled
in those spaces of the mind

An eye,

‘virile, precise and absolutely certain’
from the mad webs of Uranusborg

encountering the NOVA

every impulse of light exploding

from the core
as life flies out of us

Tycho whispering at last
‘Let me not seem to have lived in vain’

What we see, we see
and seeing is changing

the light that shrivels a mountain
and leaves a man alive

Heartbeat of the pulsar
heart sweating through my body

The radio impulse
pouring in from Taurus

I am bombarded yet I stand

I have been standing all my life in the
direct path of a battery of signals
the most accurately transmitted most
untranslatable language in the universe
I am a galactic cloud so deep so invo-
luted that a light wave could take 15
years to travel through me And has
taken I am an instrument in the shape
of a woman trying to translate pulsations
into images for the relief of the body
and the reconstruction of the mind.

talvez não seja sempre assim; e digo, de e. e. cummings

tradução de stella paterniani

talvez não seja sempre assim; e digo
se teus lábios que tanto amei tocarem
os de outro, corações se entrelaçarem
como os nossos num tempo não antigo
se noutro rosto teu cabelo jaz
num silêncio outrora meu e tão sóbrio
ou no desamparado palavrório
em malabares no drink no cais;

se assim, repito, sabe, se assim for
minha amada, tem comigo uma prosa
pra que eu vá até ele tome partido
diga Felicidades, todo o amor
e vire o rosto e ouça uma felosa
cantar distante no reino perdido

*

it may not always be so; and i say
that if your lips,which i have loved,should touch
another’s,and your dear strong fingers clutch
his heart,as mine in time not far away;
if on another’s face your sweet hair lay
in such silence as i know,or such
great writhing words as,uttering overmuch,
stand helplessly before the spirit at bay;

if this should be,i say if this should be—
you of my heart,send me a little word;
that i may go unto him,and take his hands,
saying,Accept all happiness from me.
Then shall i turn my face,and hear one bird
sing terribly afar in the lost lands

 

A Novela italiana, de Rober Walser

robert walser

A novela italiana
Tradução: Tomaz Amorim Izabel

Eu tenho fortes motivos para me perguntar se irá agradar uma história que conta sobre duas pessoas ou duas pessoinhas, a saber, uma moça adorável e gentil e um homem jovem, corajoso, bom e, à sua maneira, pelo menos também tão gentil quanto ela, que mantinham entre si a mais bela e profunda relação de amizade. O amor terno e apaixonado que eles sentiam um pelo outro igualava o sol de verão em calor e a neve de dezembro em pureza e castidade. Sua confiança mútua e gentil parecia inabalável e a afeição ardente e inocente crescia dia após dia, como uma planta cheia de cores e fragrâncias maravilhosas. Nada parecia poder perturbar esta das mais estáveis das situações e das mais belas das convicções. Tudo teria permanecido bonito e bem, não conhecesse o homem jovem, corajoso, bom e amado tão bem a Novela italiana. O conhecimento exato, entretanto, da beleza, esplendor e majestade da Novela italiana deixaram no, como o leitor atento imediatamente compreenderá, besta, roubaram dele por algum tempo a metade do seu juízo sadio e o constrangeram, o forçaram, o obrigaram a um dia, de manhã ou de noite, às oito, às duas ou às sete horas, a dizer com voz cansada para sua amada: “Ei, ouça, tenho que te falar uma coisa, uma coisa que já me pressiona, me atormenta e me tortura há muito tempo, uma coisa que talvez vá nos fazer infelizes. Eu não devo manter isto em silêncio, eu preciso, preciso te dizer. Junte toda a sua coragem e resistência. É possível que a notícia terrível e horrorosa te mate. Ai, queria me dar mil safanões ressoantes e arrancar os meus cabelos”. A pobre moça exclamou raivosa: “Eu não estou te reconhecendo. O que te atormenta, o que te tortura? O que é de tão terrível que você até agora me escondeu e que agora tem que me confiar? Adiante com as palavras aqui, para que eu saiba o que eu tenho a temer e o que eu por ventura ainda tenho para crer. Coragem para tolerar o mais pesado e para suportar o mais extremo não me falta”. Assim ela falou, claro, e tremia de medo com todo o corpo, e o desconforto se alastrou com uma palidez mórbida sobre seu rosto amável, até então fresco e belo. “Perceba”, disse o jovem homem, “que eu infelizmente tenho um conhecimento profundo demais da Novela italiana e que justo este saber é nossa infelicidade”. “Como isto, pelo amor de Deus?”, ela perguntou, digna de pena, “como pode ser que formação e conhecimento possam nos deixar inconsoláveis e destruir nossa felicidade?”. No que coube a ele replicar: “Porque o estilo da Novela italiana é único em beleza, sabor e força e porque o nosso amor não tem um estilo assim para apresentar. Este pensamento me deixa inconsolável e eu não consigo mais acreditar em nenhuma felicidade”. Por cerca de dez minutos ou um pouco mais, ambas as boas e jovens pessoas soltaram a cabeça e a cabecinha e ficaram completamente desamparados e aturdidos. Aos poucos, no entanto, foram ganhando de volta a confiança e a fé perdida, e voltaram de novo à reflexão. Eles rejuntaram as forças e saíram da tristeza e do desânimo, olharam amigavelmente uns nos olhos do outro, sorriram e se deram as mãos, se aninharam bem próximos, estavam mais felizes e mais confiantes do que nunca porque disseram: “Agora, como antes, apesar de todo o estilo e magnificência da Novela italiana, nós queremos ter alegria e prazer um no outro e nos amarmos com afeto, assim como éramos antes. Nós queremos ser modestos e satisfeitos e não queremos nos preocupar com nenhum modelo que nos roube o gosto e o prazer natural. Permanecer simples e honestos um com o outro, e sermos bons, é melhor do que o mais belo e distinto estilo, que nos pode ser roubado, não é”. Com estas palavras alegres eles se beijaram com a maior intimidade, riram do seu desalento ridículo e ficaram novamente satisfeitos.

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Die italienische Novelle
Robert Walser

Ich habe starke Ursache, mich zu fragen, ob eine Geschichte gefallen wird, die von zwei Leuten oder Leutchen, nämlich von einem reizenden netten Mädchen und von einem in seiner Art mindestens ebenso netten braven guten jungen Mann berichtet, die im schönsten und innigsten Freundschaftsverhältnis zu einander standen. Die zärtliche und leidenschaftliche Liebe, die sie gegenseitig fühlten, glich an Hitze der Sommersonne und an Reinheit und Keuschheit dem dezemberlichen Schnee. Ihr beidseitiges liebenswürdiges Vertrauen schien unerschütterlich, und die feurige unschuldige Neigung wuchs von Tag zu Tag wie eine wundervolle farben- und duftreiche Pflanze. Nichts schienden allerholdesten Zustand und das allerschönste Zutrauen stören zu können. Alles wäre schön und gut gewesen, wenn nur der brave gute liebe und junge Mann die italienische Novelle nicht so gut gekannt hätte. Die exakte Kenntnis jedoch von der Schönheit, Pracht und Herrlichkeit der italienischen Novelle machte ihn, wie der aufmerksame Leser sogleich erfahren wird, zum Schafskopf, raubte ihm für eine Zeitlang die Hälfte des gesunden Verstandes und veranlasste, zwang und nötigte ihn eines Tages, morgens oder abends, um acht, zwei oder sieben Uhr zu seiner Geliebten mit dumpfer Stimme zu sagen: »Du, höre, ich habe dir etwas zu sagen, etwas, das mich schon die längste Zeit drückt, plagt und foltert, etwas, das uns Beide vielleicht unglücklich machen wird. Ich darf es dir nicht verschweigen, ich muss, ich muss es dir sagen. Nimm allen deinen Mut und alle deine Festigkeit zusammen. Es kann sein, dass dich die Kunde von dem Schrecklichen und Furchtbaren tötet. O ich möchte mir tausend schallende Ohrfeigen geben und mir das Haar ausraufen.« Das arme Mädchen rief angstvoll aus: »Ich kenne dich nicht mehr. Was quält, was peinigt dich. Was ist es Schreckliches, das du mir bis dahin verheimlicht und das du mir anzuvertrauen hast. Heraus mit der Sprache auf der Stelle, damit ich weiss, was ich zu fürchten und was ich irgendwie noch zu hoffen habe. An Mut, das Härteste zu dulden und das Äusserste zu ertragen, fehlt es mir nicht.« – Die so redete, zitterte freilich vor Angst am ganzen Körper, und das Unbehagen verbreitete eine tödliche Blässe über ihr liebreizendes, sonst so frisches und hübsches Gesicht. »Vernimm«, sagte der junge Mann, »dass ich leider nur ein zu gründlicher Kenner der italienischen Novelle bin und dass eben diese Wissenschaft unser Unglück ist.« – »Wieso das, um Gotteswillen?«, fragte die Bedauernswürdige, »wie ist es möglich, dass Bildung und Wissenschaft uns trostlos machen und unser Glück zerstören können?« Worauf es ihm beliebte, zu erwidern: »Weil der Stil in der italienischen Novelle an Schönheit, Saft und Kraft einzig dasteht, und weil unsere Liebe keinen derartigen Stil aufzuweisen hat. Dieser Gedanke macht mich trostlos, und ich vermag an kein Glück mehr zu glauben.« Beide guten jungen Leute liessen zirka zehn Minuten lang oder etwas länger den Kopf und das Köpfchen hängen und waren völlig rat- und fassungslos. Nach und nach gewannen sie jedoch die Zuversicht und den verlorenen Glauben wieder zurück, und sie kamen wieder zur Besinnung. Sie rafften sich aus Trauer und Entmutigung auf, schauten einander freundlich in die Augen, lächelten und gaben sich die Hand, schmiegten sich eng zusammen, waren glücklicher und vertraulicher als je zuvor, indem sie sagten: »Wir wollen nach wie vor trotz allen stilvollen und prachtvollen italienischen Novellen Freude und Genuss aneinander haben und uns zärtlich lieben, so wie wir einmal sind. Wir wollen genügsam und zufrieden sein und uns um keine Vorbilder kümmern, die uns nur den Geschmack und das natürliche Vergnügen rauben. Schlicht und ehrlich aneinanderhängen und warm und gut sein ist besser als der schönste und vornehmste Stil, der uns gestohlen sein kann, nicht wahr.« Mit diesen fröhlichen Worten küssten sie sich auf das innigste, lachten über ihre lächerliche Mutlosigkeit und waren wieder zufrieden.

Sentado sobre os mortos, de Miguel Hernández

hernandez

Sentado sobre os mortos
Tradução por Franklin Morais

Sentado sobre os mortos
que silenciariam em dois meses,
beijo sapatos vazios
e empunho raivoso
a mão do coração
e a alma que o sustém.
Que minha voz vá aos montes
e chegue à terra e estrondeie,
isso pede minha garganta,
agora e para sempre.
Achegues ao meu clamor,
povo de meu mesmo leite,
árvore que com suas raízes
enclausurado me tens,
que aqui estou eu para te amar,
e para te defender,
com o sangue e com a boca,
como dos fiéis fuzis.
Se saí da terra,
se nasci de um ventre,
desgraçado e com pobreza,
não foi senão para fazer-me
rouxinol das desgraças,
rumor de má sorte,
e cantar e repetir
a quem me escutar deve
nas lástimas, nas misérias,
no que a terra concerne.
Outrora alvoreceu o povo,
maltrapilho e miserável,
faminto e desgraçado,
e o dia de hoje alvorece
miseravelmente revolto
e sangrento miseravelmente.
Em suas mãos os fuzis
leões querem tomar
para acabar com as feras
que tantas vezes têm sido.
Ainda que te faltem as armas,
povo de cem mil poderes,
não desfaleçam seus ossos,
castiga a quem te golpeie
ainda que te faltem punhos,
unhas, saliva, e te traiam
coração, entranhas, tripas
coisas viris, e dentes.
Feroz como o vento feroz,
leve como o ar leve,
assassina ao que assassina,
aborrece ao que aborrece
a paz de seu coração
e o ventre de suas mulheres.
Não te firam com a espada,
vive cara a cara e morres
com o peito diante das balas,
largo como as paredes.
Canto com a voz de luto,
povo meu, por teus heróis:
suas dores como as minhas,
suas desgraças que têm
do mesmo metal o pranto,
as dores do mesmo calor,
e da mesma madeira
seu pensamento e minha testa,
seu coração e meu sangue,
sua fadiga e meus lauréis.
Antemuro do nada
essa vida me parece.
Aqui estou para viver
enquanto a alma ressoa
e aqui estou para morrer,
quando o tempo me venha,
nos veios do povo
agora e para sempre.
Vários tragos é a vida
e um só trago é a morte.

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Sentado sobre los muertos
Miguel Hernández

Sentado sobre los muertos
que se han callado en dos meses,
beso zapatos vacíos
y empuño rabiosamente
la mano del corazón
y el alma que lo mantiene.
Que mi voz suba a los montes
y baje a la tierra y truene,
eso pide mi garganta
desde ahora y desde siempre.
Acércate a mi clamor,
pueblo de mi misma leche,
árbol que con tus raíces
encarcelado me tienes,
que aquí estoy yo para amarte
y estoy para defenderte
con la sangre y con la boca
como dos fusiles fieles.
Si yo salí de la tierra,
si yo he nacido de un vientre
desdichado y con pobreza,
no fue sino para hacerme
ruiseñor de las desdichas,
eco de la mala suerte,
y cantar y repetir
a quien escucharme debe
cuanto a penas, cuanto a pobres,
cuanto a tierra se refiere.
Ayer amaneció el pueblo
desnudo y sin qué comer,
y el día de hoy amanece
justamente aborrascado
y sangriento justamente.
En su mano los fusiles
leones quieren volverse:
para acabar con las fieras
que lo han sido tantas veces.
Aunque le faltan las armas,
pueblo de cien mil poderes,
no desfallezcan tus huesos,
castiga a quien te malhiere
mientras que te queden puños,
uñas, saliva, y te queden
corazón, entrañas, tripas,
cosas de varón y dientes.
Bravo como el viento bravo,
leve como el aire leve,
asesina al que asesina,
aborrece al que aborrece
la paz de tu corazón
y el vientre de tus mujeres.
No te hieran por la espalda,
vive cara a cara y muere
con el pecho ante las balas,
ancho como las paredes.
Canto con la voz de luto,
pueblo de mí, por tus héroes:
tus ansias como las mías,
tus desventuras que tienen
del mismo metal el llanto,
las penas del mismo temple,
y de la misma madera
tu pensamiento y mi frente,
tu corazón y mi sangre,
tu dolor y mis laureles.
Antemuro de la nada
esta vida me parece.
Aquí estoy para vivir
mientras el alma me suene,
y aquí estoy para morir,
cuando la hora me llegue,
en los veneros del pueblo
desde ahora y desde siempre.
Varios tragos es la vida
y un solo trago es la muerte.