A canção de amor de J. Alfredo Prufrock, de T.S. Eliot

eliot

A canção de amor de J. Alfredo Prufrock
Tradução: Victor Martins Queiroz

Vamos, então, você e eu,
Quando se espalha a noite contra o céu,
Como se, sobre a mesa, um paciente eterizado;
Vamos, então, por entre certas ruas que, demidesertas,
Murmuram, enquanto acobertam
As noites insones em hotéis-de-pouso toscos,
Restaurantes onde a serragem se mistura às ostras:
Ruas que seguem, como um tedioso argumento
De insidioso intento,
Levando-a rumo a uma questão aterradora.
Oh! não pergunte “qual seria?”.
Vamos, então, render nossa visita.

No salão, mulheres vão e vêm, falando
Sobre Miguel Ângelo.

A névoa loura que esfrega as costas nas vidraças,
O fumo louro que esfrega as fuças nas vidraças:
A sua língua fez lamber da noite entre as esquinas;
Languesceu sobre as poças restantes nos ralos;
Deixou pousar nas costas a fuligem dos fumeiros, que fugia;
Escapuliu pelo terraço, escapulou
E, sendo uma noite de Outubro, macia,
Dobrou-se sobre a casa e descansou.

E decerto haverá tempo
Para o louro fumo, que se esgueira pela rua
E esfrega as costas nas vidraças;
Haverá tempo, haverá tempo
De encarar as faces que você encara, uma a uma;
Tempo de cura e de assassinato,
Para o trabalho e os dias de todos os braços
Que erguem e pousam dúvida em seu prato;
Tempo para você e para mim
E tempo ainda para indecisões, centenas!
Para visões e revisões sem fim
Antes do erguer de uma torrada e uma chavena.

No salão, mulheres vão e vêm, falando
Sobre Miguel Ângelo.

E decerto haverá tempo
De indagar “eu ouso? eu ouso?”,
De virar, descer a escada, com um ponto
Calvo bem no meio do meu couro
Cabeludo – (dirão “seus cabelos vão sumindo!”)
Meu fraque, a minha gola alta, subindo
Ao queixo; a gravata, humilde e rica, um broche simples
A firma – (dirão “seus braços, pernas, vão sumindo!”)
Eu ouso
Perturbar o universo?
Há tempo num minuto
Para visões e revisões de que um minuto faça o inverso.

Pois conheci-os todos, já conheci todos;
Conheci as tardes e as manhãs e as noites,
Eu medi-me a vida em colheres de chá;
Conheço a voz que morre com um tombo
Surdo, sob a música de uma sala, atrás.
Mas, então, como presumiria?

E eu já conheci os olhos, já conheci todos;
Olhos que miram-no na frase formulada;
E quando formulado, pregado num pino,
Quando empinado e na parede eu me contorço,
Como, então, dar início
Ao tiroteio de ciladas da mi’a vida e sua estrada?
Como presumiria?

E eu já conheci os braços, já conheci todos –
Com seus braceletes, braços nus e brancos
(Mas que, sob a luz, mostram pêlos castanhos).
É o perfume de um vestido
Que me faz tão digressivo?
Braços que à mesa deitam, ou envoltos num manto.
Como presumiria?
Como, então, dar início?

Deveria dizer “andei, no ocaso, por magras vielas
E vi erguer-se o fumo fora dos cachimbos
De homens em mangas-de-camisa, à beira das janelas?…”

Fora melhor ter sido um par de parcas pinças
Que pelo fundo se arrastassem, do mar mudo.

E a tarde, a noite, dorme tão tranquila!
Acalentam-na longos dedos…
Sono… cansaço… ou fingimento,
Ela se, ao lado de você, de mim, perfila.
Eu deveria, após o chá e o bolo e os gelos
Ter força de impingir a crise a tal momento?
Mas apesar de privação e pranto, prece e pranto,
E apesar de ver minha cabeça (ainda mais calva) ser trazida a mim numa bandeja,
Não sou nenhum profeta – nem assunto sério aqui se enseja;
Vi meu momento de grandeza tiritando,
E o eterno Pagem segurar meu fraque, gargalhando,
E, sem rodeios, tive medo.

E valeria a pena tudo isso, apesar de,
Após as taças, marmeladas, chás,
Por entre as porcelanas, junto a nosso prosear,
Valeria a pena tudo isso,
Mastigar o assunto sob o riso,
O universo espremer numa bola, e fazer
Com que ela role sobre uma questão aterradora,
Dizer: “Sou Lázaro, e estive morto,
Mas retornei para dizer-lhes tudo, eu deverei dizer” –
Se alguém, dela sob a nuca a ajeitar o encosto,
Dissesse: “Não foi isso o que intentei, há nada a ver;
Não há nada, nada a ver.”

E valeria a pena tudo isso, apesar de,
Valeria a pena tudo isso,
Após ocasos, paços, orvalhadas ruas,
Depois das novelas, das chavenas, mesmo após as saias que se arrastam junto ao piso –
E tudo isso e mais que isso? –
É impossível eu dizer só o que intento!
Mas projetassem-se padrões de nervos sobre a tela, num momento:
Valeria a pena tudo isso,
Se alguém, que ajeita um travesseiro ou lança um lenço,
E vira-se à janela, se esse alguém dissesse:
“Não há nada, nada a ver;
Não foi isso o que intentei, há nada a ver.”

Não! Eu não sou Hamlet, e nem deveria sê-lo;
Sou um lorde-na-fila que, em busca
Do sucesso, até faria cena ou duas,
Aconselharia o príncipe; o mão-na-roda,
Distinto, e que se presta ao uso,
Cauto, político, meticuloso;
Cheio de presunção, mas um pouco obtuso;
Por vez, até, alvo de glosa –
Quase, por vez, o Tolo.

Eu envelheço… Eu envelheço…
Devo dobrar a calça atrás dos tornozelos.

Devo partir-me os cabelos? Pêssegos, ouso comê-los?
Vestirei calças brancas de flanela, irei à praia a passeio.
Eu as ouvi cantando, uma sereia a outras sereias.

Não creio para mim hão de cantar.

Vi-as nadando rumo ao mar, por sobre as ondas,
Penteando-lhe os cabelos brancos, quando o vento
Os soprava para trás do aguaçal alvinegro.
Languescemos junto das sereias, nos bolsões do mar,
Com seus lauréis de algas, rubros e castanhos,
‘Té que humanas vozes despertaram-nos, e afogamos.

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The love song of J. Alfred Prufrock

Let us go then, you and I,
When the evening is spread out against the sky
Like a patient etherized upon a table;
Let us go, through certain half-deserted streets,
The muttering retreats
Of restless nights in one-night cheap hotels
And sawdust restaurants with oyster-shells:
Streets that follow like a tedious argument
Of insidious intent
To lead you to an overwhelming question …
Oh, do not ask, “What is it?”
Let us go and make our visit.

In the room the women come and go
Talking of Michelangelo.

The yellow fog that rubs its back upon the window-panes,
The yellow smoke that rubs its muzzle on the window-panes,
Licked its tongue into the corners of the evening,
Lingered upon the pools that stand in drains,
Let fall upon its back the soot that falls from chimneys,
Slipped by the terrace, made a sudden leap,
And seeing that it was a soft October night,
Curled once about the house, and fell asleep.

And indeed there will be time
For the yellow smoke that slides along the street,
Rubbing its back upon the window-panes;
There will be time, there will be time
To prepare a face to meet the faces that you meet;
There will be time to murder and create,
And time for all the works and days of hands
That lift and drop a question on your plate;
Time for you and time for me,
And time yet for a hundred indecisions,
And for a hundred visions and revisions,
Before the taking of a toast and tea.

In the room the women come and go
Talking of Michelangelo.

And indeed there will be time
To wonder, “Do I dare?” and, “Do I dare?”
Time to turn back and descend the stair,
With a bald spot in the middle of my hair —
(They will say: “How his hair is growing thin!”)
My morning coat, my collar mounting firmly to the chin,
My necktie rich and modest, but asserted by a simple pin —
(They will say: “But how his arms and legs are thin!”)
Do I dare
Disturb the universe?
In a minute there is time
For decisions and revisions which a minute will reverse.

For I have known them all already, known them all:
Have known the evenings, mornings, afternoons,
I have measured out my life with coffee spoons;
I know the voices dying with a dying fall
Beneath the music from a farther room.
So how should I presume?

And I have known the eyes already, known them all—
The eyes that fix you in a formulated phrase,
And when I am formulated, sprawling on a pin,
When I am pinned and wriggling on the wall,
Then how should I begin
To spit out all the butt-ends of my days and ways?
And how should I presume?

And I have known the arms already, known them all—
Arms that are braceleted and white and bare
(But in the lamplight, downed with light brown hair!)
Is it perfume from a dress
That makes me so digress?
Arms that lie along a table, or wrap about a shawl.
And should I then presume?
And how should I begin?

Shall I say, I have gone at dusk through narrow streets
And watched the smoke that rises from the pipes
Of lonely men in shirt-sleeves, leaning out of windows? …

I should have been a pair of ragged claws
Scuttling across the floors of silent seas.

And the afternoon, the evening, sleeps so peacefully!
Smoothed by long fingers,
Asleep … tired … or it malingers,
Stretched on the floor, here beside you and me.
Should I, after tea and cakes and ices,
Have the strength to force the moment to its crisis?
But though I have wept and fasted, wept and prayed,
Though I have seen my head (grown slightly bald) brought in upon a platter,
I am no prophet — and here’s no great matter;
I have seen the moment of my greatness flicker,
And I have seen the eternal Footman hold my coat, and snicker,
And in short, I was afraid.

And would it have been worth it, after all,
After the cups, the marmalade, the tea,
Among the porcelain, among some talk of you and me,
Would it have been worth while,
To have bitten off the matter with a smile,
To have squeezed the universe into a ball
To roll it towards some overwhelming question,
To say: “I am Lazarus, come from the dead,
Come back to tell you all, I shall tell you all”—
If one, settling a pillow by her head
Should say: “That is not what I meant at all;
That is not it, at all.”

And would it have been worth it, after all,
Would it have been worth while,
After the sunsets and the dooryards and the sprinkled streets,
After the novels, after the teacups, after the skirts that trail along the floor—
And this, and so much more?—
It is impossible to say just what I mean!
But as if a magic lantern threw the nerves in patterns on a screen:
Would it have been worth while
If one, settling a pillow or throwing off a shawl,
And turning toward the window, should say:
“That is not it at all,
That is not what I meant, at all.”

No! I am not Prince Hamlet, nor was meant to be;
Am an attendant lord, one that will do
To swell a progress, start a scene or two,
Advise the prince; no doubt, an easy tool,
Deferential, glad to be of use,
Politic, cautious, and meticulous;
Full of high sentence, but a bit obtuse;
At times, indeed, almost ridiculous—
Almost, at times, the Fool.

I grow old … I grow old …
I shall wear the bottoms of my trousers rolled.

Shall I part my hair behind? Do I dare to eat a peach?
I shall wear white flannel trousers, and walk upon the beach.
I have heard the mermaids singing, each to each.

I do not think that they will sing to me.

I have seen them riding seaward on the waves
Combing the white hair of the waves blown back
When the wind blows the water white and black.
We have lingered in the chambers of the sea
By sea-girls wreathed with seaweed red and brown
Till human voices wake us, and we drown.

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Brasília – de Sylvia Plath

Brasília – de Sylvia Plath

Brasília, de Sylvia Plath (1962), traduzido por Marília Moschkovich (2017). Homenagem ao 85º aniversário da poeta, que se suicidaria dois meses após escrever este poema e exatamente quarenta dias antes do terceiro aniversário da cidade. Na imagem, Sylvia Plath, vulto, em Yorkshire.


 

Elas acontecem? –
essas pessoas com torso de aço
cotovelos alados e órbitas

Esperam missas, massas
de nuvens que concedem expressão,
Essa super-gente! –
E meu bebê um prego
enfiado, enfiado.
Ganindo em sua banha

Ossos fuçando distância.
E eu, quase extinta,
Seus três dentes cortantes

Abocanham meu dedão –
E a estrela,
História velha

Nessa rua encontro ovelhas e carros,
Terra vermelha, sangue de mãe
Ó, tu que comes

Pessoas como raios de luz, deixe
só este
a salvo do espelho, sem redenção

Com a aniquilação da pomba,
A glória
O poder, a glória


Brasilia_SP

Will they occur,
These people with torso of steel
Winged elbows and eyeholes

Awaiting masses
Of cloud to give them expression,
These super-people! –
And my baby a nail
Driven, driven in.
He shrieks in his grease

Bones nosing for distance.
And I, nearly extinct,
His three teeth cutting

Themselves on my thumb –
And the star,
The old story.

In the lane I meet sheep and wagons,
Red earth, motherly blood.
O You who eat

People like light rays, leave
This one
Mirror safe, unredeemed

By the dove’s annihilation,
The glory
The power, the glory.

“Neve” e “Pássaros”, de Warsan Shire

shire

Tradução: Lucas Túlio Pereira*

Neve

Meu pai era um bêbado. Ele se casou com minha mãe
no mês em que voltou da Rússia
com whiskey no sangue.
Na noite de núpcias, ele sussurrou
no ouvido dela sobre aviões à jato e neve.
Ele disse a palavra em Russo;
minha mãe segurou o choro e esticou as palmas
ao longo das omoplatas dele como as asas
de um avião. Depois, sem ar, ele deitou a cabeça
nas coxas dela e a tocou,
levantou dois dedos reluzindo,
mostrou a ela do próprio corpo
de qual cor a neve se aproximava.

Pássaros

Sofia usou sangue de pombo na noite de núpcias.
No dia seguinte, pelo telefone, ela me contou
como seu marido sorriu ao ver os lençóis,

Ele os juntou embaixo do nariz,
fechou os olhos e passou a língua pela mancha.
ela imitou o barítono, como ele sussurrou

o nome dela – Sofia,
pura, casta, intocada.
Nós rimos por cima da estática.

Após elogia-la, ela sorriu, esfregou a cabeça dele,
imaginou a sogra voltando para casa, desfilando
aqueles lençóis sirene pela cidade,

Acenando às varandas, o torso inchado de orgulho,
seus braços asas carnudas ligadas ao corpo,
inconsciente do voo.

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Warsan Shire

Snow

My father was a drunk. He married my mother
the month he came back from Russia
with whiskey in his blood.
On their wedding night, he whispered
into her ear about jet planes and snow.
He said the word in Russian;
my mother blinked back tears and spread her palms
across his shoulder blades like the wings
of a plane. Later, breathless, he laid his head
on her thigh and touched her,
brought back two fingers glistening,
showed her from her own body
what the colour of snow was closest to.

Birds

Sofia used pigeon blood on her wedding night.
Next day, over the phone, she told me
how her husband smiled when he saw the sheets,

that he gathered them under his nose,
closed his eyes and dragged his tongue over the stain.
She mimicked his baritone, how he whispered

her name– Sofia,
pure, chaste, untouched.
We giggled over the static.

After he had praised her, she smiled, rubbed his head,
imagined his mother back home, parading
these siren sheets through the town,

waving at balconies, torso swollen with pride,
her arms fleshy wings bound to her body,
ignorant of flight.

*Lucas Túlio Pereira, 1994, estuda Letras. Os dois poemas acima são do primeiro
livro da poeta somaliana Warsan Shire, intitulado Teaching my mother how to give
birth.

“Se não rola de comer você tem que”, de e.e. cummings

cummings

(Tradução de Mariana Ruggieri)

Se não rola de comer você tem que

fumar e a gente não tem
nada pra fumar: bora boy

bora dormir
se não rola de fumar você tem que

Cantar e a gente não tem

nada pra cantar; bora boy
bora dormir

se não rola de cantar você tem que
morrer e a gente não tem

Nada pra morrer, bora boy

bora dormir
se não rola de morrer você tem que

sonhar e a gente não tem
nada pra sonhar (bora boy

Bora dormir)
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If you can’t eat you got to

smoke and we aint got
nothing to smoke:come on kid

let’s go to sleep
if you can’t smoke you got to

Sing and we aint got

nothing to sing;come on kid
let’s go to sleep

if you can’t sing you got to
die and we aint got

Nothing to die,come on kid

let’s go to sleep
if you can’t die you got to

dream and we aint got
nothing to dream(come on kid

Let’s go to sleep)

Walter Benjamin sobre cartilhas infantis e a não-chegada do Messias

benjamin

Cartilhas de ABC há cem anos
Tradução: Tomaz Amorim Izabel

Nenhum palácio real ou casa de campo de um milionário conheceu um milésimo do amor adorável que foi dirigido às letras no decorrer da história cultural. Então, por mera alegria à beleza e para honrá-la. Mas também com intenção astuta. As letras são as colunas de um portão, em cima do qual bem poderia estar escrito o que Dante leu sobre os portões do inferno, e lá sua dura forma primordial não deveria espantar os muitos pequenos que todo ano precisam atravessar este portão. Cada uma dessas pilastras é então carregada de guirlandas e arabescos. Mas percebeu-se só muito mais tarde que não se tornava as coisas mais fáceis para a criança quando se esticava o espaçamento entre os tipos com imensas decorações, para representá-las de forma mais atrativa.
Além disso, as letras começaram logo cedo a construir uma corte de objetos ao redor de si. Os mais velhos entre nós ainda têm pendurado prontamente o chapéu no c, têm visto a marmota roer inofensivamente o m e têm visto o r como a parte mais espinhosa da rosa. Com a dedicação dinâmica a povos estrangeiros, crianças e desclassificados que ocorreu durante o Iluminismo europeu, com os raios do Humanismo, do qual o Classicismo é na verdade apenas o eclipse solar, caiu então de uma vez uma luz completamente diferente sobre os livros didáticos. Os pequenos objetos ilustrativos, que até então tinham ficado envergonhadamente jogados de lado diante da majestade da letra, ou tinham sido espremidos em caixinhas, justos como as janelinhas das fachadas burguesas do século XVIII, liberaram subitamente bordões revolucionários. Os açougueiros, aviadores, artilheiros, águias e avestruzes, os garotos, garçons, gatos, goleiros, guerrilheiros, gaviões, os veterinários, Venezuela, vigias reconheceram sua solidariedade. Eles convocavam grandes convenções, apareciam grandes destacamentos de todos os As, Bs, Cs, etc., e em seus encontros iam-se às multidões. Quando Rousseau diz que toda a soberania se origina do povo, então estes círculos se expressam alto e com convicção: “O espírito das letras se origina das coisas. Nosso ser-assim-e-não-algo-outro, nós impregnamos nessas letras. Nós não somos os seus vassalos, elas é que são apenas nossa vontade comum dita em voz alta”.

*

Ideia para um mistério
Tradução: Tomaz Amorim Izabel

Representar a História como um processo em que o Humano, simultaneamente como defensor da Natureza muda, presta queixa sobre a Criação e a ausência do Messias prometido. O Tribunal, no entanto, decide ouvir testemunhas sobre o que está por vir. Aparecem: o poeta, que o sente; o artista plástico, que o vê; o músico, que o ouve; e o filósofo, que o sabe. Seus testemunhos, portanto, não convergem, embora eles todos testemunhem pela Sua vinda. O Tribunal não ousa admitir sua indecisão. Assim, não há fim para as novas queixas e, tampouco, para as novas testemunhas. Há tortura e martírio. Os bancos dos jurados estão ocupados pelos vivos que ouvem o promotor Humano e as testemunhas com a mesma desconfiança. Os lugares dos jurados vão sendo herdados por seus filhos. Finalmente, desperta neles um medo de serem expulsos dos seus bancos. Ao fim, todos os jurados fogem e ficam apenas o querelante e as testemunhas.

 

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ABC-BÜCHER VOR HUNDERT JAHREN!
Walter Benjamin

Kein Königspalast und kein Cottage eines Milliardärs hat ein Tausendstel der schmückenden Liebe erfahren, die im Laufe der Kulturgeschichte den Buchstaben zugewandt worden ist. Einmal aus Freude am Schönen und um sie zu ehren. Aber auch in listiger Absicht. Die Buchstaben sind ja die Säulen eines Tores, über dem ganz gut geschrieben stehen könnte, was Dante über den Pforten der Hölle las, und da sollte ihre rauhe Urgestalt die vielen Kleinen, die alljährlich durch dieses Tor müssen, nicht abschrecken. Jeden einzelnen dieser Pilaster behing man also mit Girlanden und Arabesken. Doch man kam erst sehr spät darauf, daß man dem Kinde die Sache nicht leichter machte, wenn man die Gerüste der Lettern mit maßlosen Zierformen überspannte, um sie anziehender zu gestalten.
Daneben begannen die Buchstaben schon früh einen Hof von Gegenständen um sich zu bilden. Die Älteren unter uns haben noch den Hut dienstfertig beim h hängen, die Maus harmlos am m knabbern sehen und das r als den dornigsten Teil der Rose kennen gelernt. Mit der bewegenden Hingabe an fremde Völker, an Kinder, an Deklassierte, die durch die europäische Aufklärung ging, mit dem Strahlen des Humanismus, von dem die Klassik eigentlich nur die Sonnenfinsternis ist, fiel dann mit einem Mal ganz anderes Licht in die Lesebücher. Die kleinen illustrierenden Gegenstände, die bis dahin verlegen um den herrschaftlichen Buchstaben herumgelungert hatten, oder gar in Kassetten, eng wie die Fensterchen in bürgerlichen Hausfassaden des 18. Jahrhunderts, gepreßt worden waren, gaben plötzlich revolutionäre Losungen aus. Die Ammen, Apotheker, Artilleristen, Adler und Affen, die Kinder, Kellner, Katzen, Kegeljungen, Köchinnen, Karpfen, die Uhrmacher, Ungarn, Ulanen erkannten ihre Solidarität. Sie beriefen große Konvente ein, Abordnungen aller A’s, B’s, C’s usw. erschienen, und es ging auf ihren Versammlungen tumultuarisch zu. Wenn Rousseau sagt, daß alle Souveränität vom Volk stammt, so bekunden diese Tafeln es laut und entschieden: »Der Geist der Buchstaben stammt aus den Sachen. Uns, unser So-und-Nichtanders-Sein, haben wir in diesen Buchstaben ausgeprägt. Nicht wir sind ihre Vasallen, sondern sie sind nur unser lautgewordener gemeinsamer Wille.«

*

Idee eines Mysteriums
Walter Benjamin

Die Geschichte darzustellen als einen Prozeß, in welchem der Mensch zugleich als Sachwalter der stummen Natur Klage führt über die Schöpfung und das Ausbleiben des verheißenen Messias. Der Gerichtshof aber beschließt Zeugen, für das Zukünftige zu hören. Es erscheint der Dichter der es fühlt, der Bildner der er sieht, der Musiker der es hört und der Philosoph der es weiß. Ihre Zeugnisse stimmen daher nicht überein, wiewohl sie alle für sein Kommen zeugen. Der Gerichtshof wagt seine Unschlüssigkeit nicht einzugestehen. Daher nehmen die neuen Klagen kein Ende, ebensowenig die neuen Zeugen. Es gibt die Folter und das Martyrium. Die Geschwornenbänke sind besetzt von den Lebenden, die den Mensch-Ankläger wie die Zeugen mit gleichem Mißtrauen hören. Die Geschwornenplätze erben sich bei ihren Söhnen fort. Endlich erwacht eine Angst in ihnen, sie könnten von ihren Bänken vertrieben werden. Zuletzt flüchten alle Geschwornen, nur der Kläger und die Zeugen bleiben.

Dois poemas de James Wright

james

James Arlington Wright (1927 –1980), poeta norte-americano, começou sua carreira com um trabalho mais formalista, recebendo influência da poesia surrealista espanhola e das poesias alemã e sul-americana (nas quais é reconhecidamente considerado um grande tradutor) até chegar ao verso livre. Em seu livro mais conhecido, The Branch Will Not Break, ele chega ao ápice de sua originalidade , além de ser considerado um contraponto à poesia Beat que dominava a cena norte-americana da época. Wright foi um inovador e seu trabalho se caracteriza, primeiramente, por ter nos títulos e nos versos iniciais e finais um tom de deslocamento do “lugar comum”. É possível observar em sua obra as fraturas de uma vida marcada pelo alcoolismo, além da bipolaridade e a depressão que o acompanharam até o fim.

 

Deitado em uma rede na fazenda William Duffy em Pine Island, Minnesota

Sobre minha cabeça, vejo a brônzea borboleta,
Adormecida no tronco negro,
Vibrando como uma folha na sombra verde.
Abaixo da ravina atrás da casa vazia,
Os sinos das vacas seguem-se uns aos outros
Na distância da tarde.
À minha direita,
Num campo luminoso entre dois pinheiros,
As fezes dos cavalos do ano passado
Brilham em pedras douradas.
Reclino-me, como a tarde escura que chega.
Um filhote de falcão sobrevoa, buscando um abrigo.
Eu desperdicei minha vida.

*

Próximo a Mansfield, Ohio

Os enormes cavalos todo-músculos do outono
Foram embora agora, para os negros celeiros,
Onde eles podem ser preguiçosos
Onde eles podem mastigar pequenas maçãs, preguiçosos
Em seus sonos.

E muitas estradas estão nuas.

Você, também, foi abandonado
Ao lado de uma rua, agora
Próximo a Mansfield, Ohio.
Uma vez nessa cidade, que se parece
Com uma puta de dezesseis anos vendendo papoulas
No Dia do Armistício, você morreu
Sozinho.

 

Tradução: Lucas Perito*

* Nasceu em São Paulo/ Brasil em 1985. É graduado em Comunicação em Multimeios pela PUC-SP. Trabalhou na editora Empresa das Artes, escrevendo livros ligados a história e fotografia, fazendo os textos de acompanhamento para o livro fotográfico “Caminhos da Mantiqueira” (2011) de Galileu Garcia Junior. Tem alguns poemas publicados na Revista Zunái, Escamandro, Diversos Afins, Benfazeja, na R. Nott Magazine, Caderno-Revista 7 Faces, Revista Parênteses, Revista Entreverbo, Jornal RelevO, Revista Saúva e Revista Gueto. Também participou como tradutor na Revista Parênteses e Escamandro.

 

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Lying in a Hammock at William Duffy’s Farm in Pine Island, Minnesota

Over my head, I see the bronze butterfly,
Asleep on the black trunk,
Blowing like a leaf in green shadow.
Down the ravine behind the empty house,
The cowbells follow one another
Into the distances of the afternoon.
To my right,
In a field of sunlight between two pines,
The droppings of last year’s horses
Blaze up into golden stones.
I lean back, as the evening darkens and comes on.
A chicken hawk floats over, looking for home.
I have wasted my life.

*

Near Mansfield, Ohio

The enormous muscle-bound dobbins of autumn
Are gone now, to dark barns,
Where they can be lazy,
Where they can munch little apples, lazy,
In their sleep.

And many highways are bare.

You, too, are abandoned
Beside a street, now,
Near Mansfield, Ohio.
Once in that town, that looks
Like a sixty-year-old whore selling poppies
On Armistice Day, you died
Alone.

 

etiqueta, de Hayes Davis

mano

Tradução: stella paterniani

depois de Yusef Komunyakaa

eu sentada aos oitos anos
à mesa da cozinha da vovó,
tentando pedir com licença.

joana e diana, minhas primas
encaram minha boca aberta
balbuciam “com… gli…

cença” como se eu não soubesse
o que eu devo dizer mas o que elas
é que não sabem é como “licença” é

uma das palavras que às vezes não saem,
como alô quando atendo o telefone,
boa noite quando meu pai sai

do meu quarto, meu nome quanto perguntam
como me chamo. elas não sabem que as con
sonantes às vezes voam,

feito passarinhos fugindo do frio.
eu encaro a boca de diana,
a boca de joana, a boca de ana

de volta tentando entender
como é que falar é tão fácil. quem sabe
quando eu crescer minha língua se solte,

porque tem gente no mercado
no ônibus e na loja de doces
que sempre me conta de quando

seus primos e irmãs e irmãos
hoje mais velhos que eu tinham
gagueiras como as minhas. as

deles não servem mais e eu espero
dar a minha embora logo logo daí
não vou perder tanto desenho depois do almoço

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Etiquette

After Yusef Komunyakaa

I am eight, sitting at my
grandmother’s kitchen table,
trying to ask to be excused.

My cousins Jennifer and Danielle
stare at my open mouth,
keep sounding out “Can… I… be

excused” like I don’t understand
what I’m supposed to say but they
don’t know that “can” is one

of the words I can’t say sometimes,
like hello when I answer the phone,
goodnight when my dad leaves

my room, my name when people
ask it. They don’t know that my
consonants fly away sometimes,

like birds when it gets too cold.
I stare back at Danielle’s mouth,
Jennifer’s mouth, Oma’s mouth

trying to figure out what makes talkinng
so easy for them. Maybe my stutter
will go away when I get older,

because people at the supermarket
on the bus and in the candy store
are always telling me about their

cousins and sisters and brothers
who are older than me and once
had stutters like mine. They’ve

out-grown theirs, and I hope mine
will disappear one day too, so I won’t
miss so many cartoons after lunch.