“Saudades da pátria”, três poemas de Marina Tsvetáieva no exílio

Marina Tsvetaeva, photo for passport on eve of return to Russia (France, 1939) cvetaeva

“Saudades da pátria”, três poemas de Marina Tsvetáieva no exílio;
Traduções por André Nogueira (2017),
Publicação em homenagem ao Dia Internacional do Refugiado, 20 de junho 2017.
Imagem: Marina Tsvetáieva, foto no passaporte de retorno para a União Soviética em 1939.

O PAÍS

O globo inteiro apalpa
E examina, palmo a palmo!
Esse país não há no mapa, –
Não existe. – Só na alma.

Da xícara bebida até o fim –
Reluz, límpido, o fundo.
Voltar – para uma casa assim,
Que foi varrida desse mundo?

Se renascer me preocupa, –
De novo – em um novo país?
Voltar – eu mesma quis!
E saltar sobre a garupa

Desse alazão convulso!
Sairei de ossos ilesos?
Voltasse eu ao país russo,
Só farelos – com desprezo,

O padeiro me daria, e um caixão
Não me faria o carpinteiro.
Aquela – de incontável imensidão,
De magníficos outeiros,

Aquela – de reinos celestiais
E dos meus anos juvenis,
Aquela Rússia – não há mais.

– Tampouco eu, sem meu país.

fins de junho 1931

СТРАНА

С фонарём обшарьте
Весь подлунный свет!
Той страны на карте —
Нет, в пространстве — нет.

Выпита как с блюдца, —
Донышко блестит.
Можно ли вернуться
В дом, который — срыт?

Заново родися —
В новую страну!
Ну-ка, воротися
На спину коню

Сбросившему! Кости
Целы-то — хотя?
Эдакому гостю
Булочник — ломтя

Ломаного, плотник —
Гроба не продаст!
Той её — несчётных
Вёрст, небесных царств,

Той, где на монетах —
Молодость моя,
Той России — нету.

— Как и той меня.

Конец июня 1931

…………~//~

PÁTRIA

Oh, meu implacável idioma!
Como ouvisse simplesmente uma campônia,
Uma rústica canção que murmurinha:
– Rússia, pátria minha!

No horizonte, atrás da cordilheira,
Pátria minha – e estrangeira! –
Ela mostrou-se para mim:
Terra distante, lá dos últimos confins!

Distância, minha sôfrega doença,
A tal ponto é minha pátria de nascença
Que carrego, aonde for, essa distância –
Minha parte que está fora do alcance.

Distância, que se afasta e não me solta,
Distância, que me diz: “Rápido volta
Para casa!
……………..No horizonte estrela branca
Que de todos os lugares me arranca!

Do suor da caminhada só me resta
Inundar a vastidão da minha testa.

Tu, hei de perder-me nos teus braços!
Com os lábios selarei, ao pé do cadafalso:
Pátria minha – prometida! –
Onde se encontra a perdição da minha vida.

12 de maio 1932

РОДИНА

  
О, неподатливый язык!
Чего бы попросту — мужик,
Пойми, певал и до меня:
«Россия, родина моя!»
  
Но и с калужского холма
Мне открывалася она —
Даль, тридевятая земля!
Чужбина, родина моя!
  
Даль, прирожденная, как боль,
Настолько родина и столь —
Рок, что повсюду, через всю
Даль — всю ее с собой несу!
  
Даль, отдалившая мне близь,
Даль, говорящая: «Вернись
Домой!»
……………..Со всех — до горних звезд —
Меня снимающая мест!
 
Недаром, голубей воды,
Я далью обдавала лбы.
  
Ты! Сей руки своей лишусь,—
Хоть двух! Губами подпишусь
На плахе: распрь моих земля —
Гордыня, родина моя!
  
12 мая 1932
 
……………..~//~

* * *
  
Saudades da pátria! Com esse mal
Há muito tempo que eu luto!
Para mim é absolutamente igual
Onde estar só em absoluto.
  
Quais cascalhos que eu arranhe
Arrastando o carrinho de feira
Para a casa, que me é de todo estranha –
Se hospital ou se caserna, como queira.
  
A mim é indiferente, qual o povo
Que há de ver em cativeiro
A leonina minha crespa cabeleira,
Ou me expulsar – de novo! –
  
Ao deserto dessa minha solidão.
Urso polar apartado do gelo
Onde não posso viver (e não faço questão!),
Tanto me faz – onde será o pesadelo.
  
Não me ilude o chamado longínquo
Da materna minha língua, que convida… –
Não me importa, em qual língua
Serei mal-compreendida.
  
(O leitor de jornais, o ouvinte
De notícias, fuçador de mexericos…)
Ele – é do século vinte,
E eu – de todo século abdico!
  
Como um tronco que a esmo
Vê na rua em seu redor passar a gente,
Para mim é indiferente, dá no mesmo –
E, talvez, de tudo o mais indiferente
  
Seja a pátria onde se acha.
Cada marca dela em mim que se esconde
Vou despir, de cima a baixo:
Eis a alma, que nasceu – tanto faz onde.
  
E eu também, para a pátria, tanto faço, –
De frente para trás, de trás para frente,
Investigue se encontra dela traço,
Inspetor, em minha alma indiferente!
  
Estranha é cada casa, vazios todos os templos, –
E tudo – indiferente, e tudo – igual.
Mas basta que um arbusto eu contemple, –
E da sorva me lembre – da terra natal…
  
1934
 
* * *

Тоска по родине! Давно
Разоблаченная морока!
Мне совершенно все равно —
Где — совершенно одинокой

Быть, по каким камням домой
Брести с кошелкою базарной
В дом, и не знающий, что — мой,
Как госпиталь или казарма.

Мне все равно, каких среди
Лиц ощетиниваться пленным
Львом, из какой людской среды
Быть вытесненной — непременно —

В себя, в единоличье чувств.
Камчатским медведем без льдины
Где не ужиться (и не тщусь!),
Где унижаться — мне едино.

Не обольщусь и языком
Родным, его призывом млечным.
Мне безразлично, на каком
Непонимаемой быть встречным!

(Читателем, газетных тонн
Глотателем, доильцем сплетен…)
Двадцатого столетья — он,
А я — до всякого столетья!

Остолбеневши, как бревно,
Оставшееся от аллеи,
Мне все — равны, мне всё — равно;
И, может быть, всего равнее —

Роднее бывшее — всего.
Все признаки с меня, все меты,
Все даты — как рукой сняло:
Душа, родившаяся — где-то.

Так край меня не уберег
Мой, что и самый зоркий сыщик
Вдоль всей души, всей — поперек!
Родимого пятна не сыщет!

Всяк дом мне чужд, всяк храм мне пуст,
И всё — равно, и всё — едино.
Но если по дороге — куст
Встает, особенно — рябина …

1934

……………..~//~

 

 

AO TSAR – À PÁSCOA, de Marina Tsvetáieva

Tsar And Son

AO TSAR – À PÁSCOA

Dois poemas de Acampamento de Cisnes, Marina Tsvetáieva.
Traduções por André Nogueira (2017)
Imagem: tsar Nicolau II e tsariévitch Aleksei em 1910.

AO TSAR – À PÁSCOA

Abram, abram alas ao Tsar!
Recua a escuridão da noite.
Acendam velas no altar
E tudo aprontem.
– Cristo há de ressuscitar,
E o tsar que havia ontem!
  
Caiu sem auréola
A águia bicéfala.
– Tsar! – Não honraste a tarefa.
  
Nos olhos teus, azuis e traidores
Como dos bizantinos reis,
Hão de fitar teus sucessores,
Pela derradeira vez.
  
Nos tribunais tua sentença –
Um turbilhão de causar pena.
Tsar! – O povo? – pensas,
Mas é Deus quem te condena!
  
Enfim chegou a Páscoa
No país por toda parte,
Dorme em paz com
Tua Aldeia* a consolar-te,
Em teu sonho não se hasteiem
Os vermelhos estandartes.
  
Tsar! – A tua estirpe
Se abriga – no teu sono.
Toma o saco – de mendigo,
Já que extirpam – o teu trono.
  
Moscou, 2 de abril 1917,
primeiro dia da Páscoa.

……….~//~

     * * *

Pelo menino – o pombinho – o filho do rei,
Pelo jovem tsariévitch Aleksei,
Rússia devota, vossos círios acendei!
  
Pombinhos dois, angelicais,
Como Dmitri de Ivan, Aleksei de Nikolai,**
Os olhos deles enxugai.
  
Rússia, mãe benévola, a criança
Sob o véu de vossa bem-aventurança
Cobrireis, até que as feras se amansem?
  
Por mais vil que seja o crime de seu pai,
Oh, Rússia pastoril, vós perdoai
O cordeirinho Aleksei de Nikolai!
  
4 de abril 1917
terceiro dia da Páscoa.

…………………~//~

* “Dorme em paz com/ Tua Aldeia a consolar-te…”// Aldeia do Tsar, Tsárskoie Seló, residência da família imperial russa, a 26 km de São Petersburgo. Quando a revolução de 1917 derrubou Nicolau II, então imperador da Rússia, ele e sua família foram feitos prisioneiros, primeiramente, no palácio de Alexandre, situado na Aldeia.

** “Como Dmitri de Ivan, Aleksei de Nikolai”// Refere-se a Aleksei Nikoláievitch, o tsariévitch, isto é, o príncipe Aleksei, filho de Nicolau II. Dmitri, filho de Ivan, foi Dmitri de Uglitch, filho de Ivan, o Terrível, assassinado aos 10 anos de idade em 1591 na cidade de Uglitch. Marina Tsvetáieva, recorrendo a essa referência histórica, clama pela vida do tsariévitch Aleksei, então com 13 anos de idade. Nicolau II, a tsarina Aleksandra e seus cinco filhos, Aleksei, Anastássia, Maria, Tatiana e Olga, foram mortos em Ekaterimburg no dia 17 de julho de 1918.
  
Царю — на Пасху

Настежь, настежь Царские врата!
Сгасла, схлынула чернота.
Чистым жаром
Горит алтарь.
— Христос Воскресе,
Вчерашний царь!
  
Пал без славы
Орёл двуглавый.
— Царь! — Вы были неправы.
  
Помянет потомство
Ещё не раз —
Византийское вероломство
Ваших ясных глаз.
  
Ваши судьи —
Гроза и вал!
Царь! Не люди —
Вас Бог взыскал.
  
Но нынче Пасха
По всей стране,
Спокойно спите
В своём Селе,
Не видьте красных
Знамён во сне.
  
Царь! — Потомки
И предки — сон.
Есть — котомка,
Коль отнят — трон.

<2 апреля 1917>,
Москва,
первый день Пасхи

……………….~//~

* * *
  
За Отрока — за Голубя — за Сына,
За царевича младого Алексия
Помолись, церковная Россия!
  
Очи ангельские вытри,
Вспомяни, как пал на плиты
Голубь углицкий — Димитрий.
  
Ласковая ты, Россия, матерь!
Ах, ужели у тебя не хватит
На него — любовной благодати?
  
Грех отцовский не карай на сыне.
Сохрани, крестьянская Россия,
Царскосельского ягнёнка — Алексия!

4 апреля 1917,
третий день Пасхи

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SEPARAÇÃO, de Marina Tsvetáieva

efron-tsv

 

SEPARAÇÃO

Poema de Marina Tsvetáieva (1892 – 1941).
Dedicado a Serguei Efron (8 de outubro 1893 – 16 de outubro 1941)
Tradução de André Nogueira, set. 2016.
Imagem, ver nota ao final do poema.

SEPARAÇÃO

(Marina Tsvetáieva)

para Serioja *

1
   
Torres em guerra
No Kremlin ao longe.
Onde na terra,
Onde –

Solidez minha,
Placidez minha,
Intrepidez minha,
Piedade de mim?

Torres em guerra,
Em guerra sem fim.
Onde na terra –
Minha
Casa,
Minha – graça,
Minha – alvorada,
Onde a pegada
De sola apertada,
Onde – meu sono?

Caída por terra
À noite esta guerra
Com os braços desmorono.

– Meu pedaço de abandono!

Maio 1921
      
2

Como de um longo desmaio
Ergo meus braços.
Pelo buraco negro da janela
Contra a batalha da meia-noite
Inúteis braços que duelam.
Com apelos de socorro o atraio
Para casa. – E ei-lo: a cabeça que cai
Da torre! – Para casa!

Estende da batalha
Para mim, soldado raso,
E não das praças ao cascalho,
O rasante de tua asa.

Maio 1921

3

Tudo torcido, tudo torcido
Como os braços sem amparo.
Entre nós não são terrestres
Verstas tais que nos separam,
Rios celestes e terras anil,
O inalienável bem-querer de toda a vida –
Por qual via que partiu?

Prateados arreios,
Pela estrada real já voou.
Os braços meus não despedaçam!
Arrastei-os
– Sem um piu! –,
Finquei meus pulsos
Como a árvore ao impulso
De uma ave que migrou.

Voa, amado grou,
Voa, sumindo de vista.
Não abro mão do meu prumo:
Bem me visto para uma morte
Rápida como suas plumas douradas
E equilibro-me no último suporte
Meio às vastidões devastadas.

Junho 1921

4

Igual o fruto da oliveira,
O cortado pé da cama.
O céu que inveja rasteiro
As paixões humanas.

Aos murmúrios para os deuses
Nós rezamos bem baixinho.
Toda a idade em flor perdeu-se,
Além de ti, pelo caminho.

A primaveril luxúria
A todos eles enfurece.
O céu te viu algures…
Pois, redobra tuas preces.

===================================

Acreditas – que as vozes
De tão glorioso cobre
E os sinais dos albatrozes
O percurso teu manobram

Do penhasco à emboscada –
O teu peito para a lança?
Que a onda sublevada
– Acreditas – te alcança?

Que aguilhões a floresta
Vai em ti – pensas? – cravar…
Pois maior que toda peste
É a clemência do tsar!

A gota fermente
Do pranto na terra.
Não temas a gente
Terrena, – misérrima!

Olhos mil estão a vê-lo
Como um Deus de antigamente:
Cada fio de teu cabelo
Preso a Ele pelo pente.

Não temas de Zeus
A abóbada oca
Do insaciável céu
Do coração da boca.

25 de junho 1921

5

De mansinho,
Desenreda estes caminhos
Débil mão que já cedeu.
Por minhas mãos relinchos teus.
Eu, amazona obediente, murmurinho
Pelos díssonos degraus do derradeiríssimo adeus.

Relinchas e escoicinhas,
Meu alado, no caminho
Iluminado. – No olhar uma alvorada.
Dai-me as mãos, dai-me as mãozinhas! –
Inútil alarido repetes.
Entre nós – a prestes queda d’ água do Letes.

27 de junho 1921

6

Cabelos brancos não verás
Em mim, nem eu em ti.
E, sem que olhes para trás,
Tu nem saudades vais sentir.

Ante a última desgraça
Este pranto me escapa:
– Agita o braço!
Faz cair a tua capa!

Sob a brusca olhada fria,
Camafeu de dura pedra,
Como a mãe espera a cria
Desta porta não arredo.

(Com o peso do meu sangue, a aridez
Destes joelhos, a retesa minha tez –
Pela derradeiríssima terrestre
Vez!)

Não como furtivo e articulado animal, –
Não, como sólido bloco
Passarei por esta porta –
Esta vida. – Afinal,
Somente em lágrimas derroco,
Uma vez que tuas costas
São de pedra mais polida.

De repente, já não pedra –
Asa larga de uma águia –
A largada tua capa e esta queda,
Precipício da ilharga
À cidade aonde busca
A mãe à cria
Sob a brusca
Olhada fria.                                              
    
28 de junho 1921

7

Como broto no cepo
Te afloras.
Que não te perceba
Zeus. –
Implora!

Que a tua flor germine
Devagar e com cuidado.
Teu encanto masculino
É por eles invejado.

Maxilares que hiantes
Te chamando junto deles…
Invejando teu encanto –
Um ninho de deuses.

Te atraem à peleja
Com louros e glórias.
Que não te eleja
Zeus. –
Implora!

As asas da águia
No céu em estrondo.
Teu grito propaga –
Que não te escondas!

Com sangue no bico
Te pinçou o raptor!
Cordeirinho nanico,
Deixa cair – o amor…

Com o peito cabeludo –
Beija o chão!
E implora ajuda…
Zeus,
Compaixão!

29 de junho 1921

8

Eu sei, eu sei,
Que nessa terra nosso amado,
Que esse cálice encantado,
É menos nosso
Do que deles –
Dos caminhos,
Das estrelas
E dos ninhos
Na encarnada pendurados.

Eu sei, eu sei
Quem é o dono desse cálice!
Como a altura da águia roçasse-a
A torre de meu braço para o céu,
Esse cálice eu sei como bebeu
A terrível e rosácea
Boca de Deus!

30 de junho 1921

…………….~// ~

* Na foto, o casamento de Marina Tsvetáieva com Serguei Efron em 1911. Serioja, como se lê na dedicatória de ‘Separação’, trata-se de uma forma diminutiva e carinhosa do nome Serguei. Com a derrubada do governo provisório de A. Kerenski pelo Exército Vermelho em outubro de 1917, Efron alistou-se nas fileiras do Exército Branco, que resistiu contra a revolução em guerra civil. Entre os anos de 1920 e 1921, os voluntários Brancos foram derrotados em suas diversas frentes. Estes poemas foram escritos por Tsvetáieva em Moscou entre maio e junho de 1921, quando havia quatro anos de sua separação, sem notícias de Efron, se vivo ou morto. Um período de atribulações para a poeta, sozinha com as duas filhas do casal, exposta à guerra e suas privações. Em 1919 a família passava fome e, obrigada a entregar as filhas ao orfanato, Tsvetáieva perdeu a mais nova, Irina, por desnutrição. Além de longos poemas consagrados à batalha do Exército Branco, Tsvetáieva dedicou neste tempo poemas a Efron, um dos quais é o ciclo ‘Separação’. No mês seguinte, julho de 1921, a poeta recebe a notícia de que seu esposo está vivo, em Praga. Marina Tsvetáieva e sua filha, Ariadna, deixam a Rússia quase um ano depois, em maio de 1922, para ir a seu encontro.

Nesta publicação de hoje lembramos a pessoa de Serguei Efron e seu amor com Marina Tsvetáieva. Conhecida por seu trágico desenlace, a história de ambos culminou em mais um gesto de dedicação da poeta, ao seguir Serioja, desta vez, de volta para a Rússia, ou melhor dizendo: para a União Soviética. Isso aconteceu em 1939. Estabelecido em Paris com a família a partir de 1925, Efron em 1932 ele se tornou integrante e em 1934 o secretário-geral da União para o Repatriamento, o órgão que visava recrutar emigrados russos arrependidos que, como ele, gostariam de regressar ao país natal. Esse órgão, na verdade, funcionava como uma extensão do serviço secreto soviético, para o qual Efron passou a colaborar. Com a esperança de ganhar o “perdão” pela atuação no Exército Branco, ele trabalhou como agente infiltrado no círculo da emigração russa em Paris. A casa onde a família se instalou e a verba com a qual Efron a sustentava vinham do governo soviético, enquanto que Marina Tsvetáieva, pelo visto, o ignorava. Em 1937 seu nome foi implicado no assassinato de Ignace Reiss, ex-colaborador da NKVD, e Efron saiu foragido em um navio soviético, novamente deixando desamparada Tsvetáieva. Submetida a interrogatórios, execrada pelo meio social em Paris, sem fonte de renda e inteiramente na dependência de “informantes”, Tsvetáieva embarcou de volta para a Rússia. Lá, Efron foi detido, acusação de traição. A Ariadna, também detida, condenaram a oito anos de prisão. Antes de fuzilado em 16 de outubro de 1941, Efron sob tortura recusou-se terminantemente a delatar o nome de Tsvetáieva, afirmando sempre que esta “por toda a sua vida só fez escrever versos e prosa”. Nos relatórios da NKVD, lê-se a seguinte observação de seus torturadores: “Internado a partir do dia 7 de novembro de 1939 no setor psiquiátrico da prisão de Butýrki, devido a alucinações reativas agudas e uma tentativa de suicídio. No momento, sofre de alucinações auditivas, pensa que escuta falar dele pelos corredores, que sua mulher morreu, que ele ouve o título de um poema conhecido apenas por ele e sua mulher etc. Apresenta-se ansioso e pensa em suicídio. Sente-se oprimido, assustado, como quem aguarda alguma coisa de horrível” (em ‘Vivendo sob o Fogo’, ed. Martins Fontes, 2008, pág. 705, tradução de Aurora Bernardini). Como se sabe, seu pressentimento acerca de Marina Tsvetáieva se realizou, da pior forma, em 31 de agosto de 1941.

РАЗЛУКА

Марина Цветaева

Сереже


1

Башенный бой
Где-то в Кремле.
Где на земле,
Где –

Крепость моя,
Кротость моя,
Доблесть моя,
Святость моя.

Башенный бой.
Брошенный бой.
Где на земле –
Мой
Дом,
Мой – сон,
Мой – смех,
Мой – свет,
Узких подошв – след.

Точно рукой
Сброшенный в ночь –
Бой.

– Брошенный мой!

Май 1921

2

Уроненные так давно
Вздымаю руки.
В пустое черное окно
Пустые руки
Бросаю в полуночный бой
Часов, – домой
Хочу! – Вот так: вниз головой
– С башни! – Домой!

Не о булыжник площадной:
В шепот и шелест…
Мне некий Воин молодой
Крыло подстелет.

Май 1921

3

Всё круче, всё круче
Заламывать руки!
Меж нами не версты
Земные, – разлуки
Небесные реки, лазурные земли,
Где Друг мой навеки уже –
Неотъемлем.

Стремит столбовая
В серебряных сбруях.
Я рук не ломаю!
Я только тяну их
– Без звука! –
Как дерево-машет-рябина
В разлуку,
Во след журавлиному клину.

Стремит журавлиный,
Стремит безоглядно.
Я спеси не сбавлю!
Я в смерти – нарядной
Пребуду – твоей быстроте златоперой
Последней опорой
В потерях простора!

Июнь 1921

4

Смуглой оливой
Скрой изголовье.
Боги ревнивы
К смертной любови.

Каждый им шелест
Внятен и шорох.
Знай, не тебе лишь
Юноша дорог.

Роскошью майской
Кто-то разгневан.
Остерегайся
Зоркого неба.

=======

Думаешь – скалы
Манят, утесы,
Думаешь, славы
Медноголосый

Зов его – в гущу,
Грудью на копья?
Вал восстающий
– Думаешь – топит?

Дольнее жало
– Веришь – вонзилось?
Пуще опалы –
Царская милость!

Плачешь, что поздно
Бродит в низинах.
Не земнородных
Бойся, – незримых!

Каждый им волос
Ведом на гребне.
Тысячеоки
Боги, как древле.

Бойся не тины, –
Тверди небесной!
Ненасытимо –
Сердце Зевеса!

25 июня 1921

5

Тихонько
Рукой осторожной и тонкой
Распутаю путы:
Ручонки – и ржанью
Послушная, зашелестит амазонка
По звонким, пустым ступеням расставанья.

Топочет и ржет
В осиянном пролете
Крылатый. – В глаза – полыханье рассвета.
Ручонки, ручонки!
Напрасно зовете:
Меж ними – струистая лестница Леты.

27 июня 1921

6

Седой – не увидишь,
Большим – не увижу.
Из глаз неподвижных
Слезинки не выжмешь.

На всю твою муку,
Раззор – плач:
– Брось руку!
Оставь плащ!

В бесстрастии
Каменноокой камеи,
В дверях не помедлю,
Как матери медлят:

(Всей тяжестью крови,
Колен, глаз –
В последний земной
Раз!)

Не крадущимся перешибленным зверем, –
Нет, каменной глыбою
Выйду из двери –
Из жизни. – О чем же
Слезам течь,
Раз – камень с твоих
Плеч!

Не камень! – Уже
Широтою орлиною –
Плащ! – и уже по лазурным стремнинам
В тот град осиянный,
Куда – взять
Не смеет дитя
Мать.

28 июня 1921

7

Ростком серебряным
Рванулся ввысь.
Чтоб не узрел его
Зевес –
Молись!

При первом шелесте
Страшись и стой.
Ревнивы к прелести
Они мужской.

Звериной челюсти
Страшней – их зов.
Ревниво к прелести
Гнездо богов.

Цветами, лаврами
Заманят ввысь.
Чтоб не избрал его
Зевес –
Молись!

Все небо в грохоте
Орлиных крыл.
Всей грудью грохайся –
Чтоб не сокрыл.

В орлином грохоте
– О клюв! О кровь! –
Ягненок крохотный
Повис – Любовь…

Простоволосая,
Всей грудью – ниц…
Чтоб не вознес его
Зевес –
Молись!

29 июня 1921

8

Я знаю, я знаю,
Что прелесть земная,
Что эта резная,
Прелестная чаша –
Не более наша,
Чем воздух,
Чем звезды,
Чем гнезда,
Повисшие в зорях.

Я знаю, я знаю,
Кто чаше – хозяин!
Но легкую ногу вперед – башней
В орлиную высь!
И крылом – чашу
От грозных и розовых уст –
Бога!

30 июня 1921

 

 

 

 

ABRI AS VEIAS, de Marina Tsvetáieva

 

tsvetaeva bilhete *

ABRI AS VEIAS

Poema de Marina Tsvetáieva
Tradução por André Nogueira (2012/ revisado em 2017)

* * *

Abri as veias: irreparável,
Irreversível, a vida borbota.
Tragam pratos e vasos!
Todo prato – será raso,
Todo vaso – será magro.

Sem parar, a terra traga
E, irrigado pelas bordas,
Irrevogável, irreparável,
Irreversível, o verso brota.

6 de janeiro 1934

* Imagem: Um dos últimos registros escritos por Marina Tsvetáieva, antes de sua morte em 31 de agosto de 1941. Citamos, comentado por Tsvetán Todorov e traduzido por Aurora F. Bernardini em “Vivendo sob o Fogo” (Martins Fontes, 2008, pág. 744):

«Em Tchistopol ela [Tsvetáieva] não recebe uma resposta clara para seus pedidos de emprego. Ao ficar sabendo que o Litfond [órgão da União dos Escritores Soviéticos] abriria uma cantina, resolve se candidatar e escreve este pedido, um dos documentos mais deprimentes da história da literatura russa:

“Ao Soviete do Litfond:

Peço dar-me um emprego como lavadora de pratos na cantina a ser aberta pelo Litfond.

M. Tsvetáieva
26 de agosto de 1941.”

A direção do Litfond hesita em empregar a antiga emigrada, casada com um inimigo do povo; sem esperar pela resposta definitiva, Marina Tsvetáieva toma o barco de volta a Elábuga, aonde ela chega em 28 de agosto. Recebe outra convocação da NKVD. Parece ser nesse momento em que ela decide pôr um fim a seus dias».

* * *

Вскрыла жилы: неостановимо,
Невосстановимо хлещет жизнь.
Подставляйте миски и тарелки!
Всякая тарелка будет – мелкой,
Миска – плоской.

Через край – и мимо
B землю черную, питать тростник.
Невозвратно, неостановимо,
Невосстановимо хлещет стих.

6 января 1934

 

Poema de Marina Tsvetáieva

marina

Poema de Marina Tsvetáieva
Tradução por André Nogueira (2009/ revisado em 2017)

* * *

Para meus versos, que tão cedo os fiz,
Sequer sabendo que era eu – uma poeta,
Borbotantes, como jorros de um chafariz,
Como fagulhas de escopeta,

Imprevistos, como pequenos diabretes
Num altar, sob o incenso inebriante,
Que por morte e mocidade eles se vertem,
– Versos nunca vistos antes! –

Esquecidos sob o pó de umas estantes
(Onde ninguém já os pegou ou pegará!),
Para meus versos, como para vinhos depurantes,
A hora deles chegará.

Maio 1913, Koktebel.

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* * *

Моим стихам, написанным так рано,
Что и не знала я, что я – поэт,
Сорвавшимся, как брызги из фонтана,
Как искры из ракет,

Ворвавшимся, как маленькие черти,
В святилище, где сон и фимиам,
Моим стихам о юности и смерти,
– Нечитанным стихам! –

Разбросанным в пыли по магазинам
(Где их никто не брал и не берет!),
Моим стихам, как драгоценным винам,
Настанет свой черед.

Май 1913, Коктебель

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