Canção da torre mais alta, de Arthur Rimbaud

Canção da torre mais alta, de Arthur Rimbaud

eiffelCanção da torre mais alta
Tradução: Fernando J. Germano Esteves 

Juventude lesa
P’ra sempre cativa
Por delicadeza
Perdi minha vida.
Que venham as estações
Que abrasam os corações.

Disse a mim mesmo: vai,
Que ninguém te veja,
Nem espere mais
O que tanto desejas.
Não te impeça o jugo,
sublime refúgio.

Tanta paciência,
P’ra sempre vou lembrar,
dor e penitência
se desfazem no ar,
e a má sede que anseia
me escurece as veias.

Como o campo,
Findo o cuidado,
Florido e ancho
D’incenso e relvado,
Abandonado à bulha
De cem moscas imundas.

Ah! Tudo é agrura
Da pobre alma que ora
E tem só a figura
De Nossa Senhora.
Quem ainda oraria
À Virgem Maria?

Juventude lesa
P’ra sempre cativa
Por delicadeza
Perdi minha vida.
Que venham as estações
Que abrasam os corações.

Chanson de la plus haute tour
Arthur Rimbaud

Oisive jeunesse
A tout asservie,
Par délicatesse
J’ai perdu ma vie.
Ah ! Que le temps vienne
Où les coeurs s’éprennent.

Je me suis dit : laisse,
Et qu’on ne te voie :
Et sans la promesse
De plus hautes joies.
Que rien ne t’arrête,
Auguste retraite.

J’ai tant fait patience
Qu’à jamais j’oublie ;
Craintes et souffrances
Aux cieux sont parties.
Et la soif malsaine
Obscurcit mes veines.

Ainsi la prairie
A l’oubli livrée,
Grandie, et fleurie
D’encens et d’ivraies
Au bourdon farouche
De cent sales mouches.

Ah ! Mille veuvages
De la si pauvre âme
Qui n’a que l’image
De la Notre-Dame !
Est-ce que l’on prie
La Vierge Marie ?

Oisive jeunesse
A tout asservie,
Par délicatesse
J’ai perdu ma vie.
Ah ! Que le temps vienne
Où les coeurs s’éprennent !

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O eterno, de Arthur Rimbaud

rimbaud

O eterno
Tradução: Fernando J. Germano Esteves

Reencontrei enfim!
quê? o eterno…é assim:
o mar sem fim
ao sol!

Minh’alma eterna
mantém o foco
seja dia em fogo
ou noite sem sono.

Assim te afastas
de bestas falazes,
do sonho do povo…
e voas de novo!

Sem esperança
nem redenção,
sabe e não fala:
todos sofrerão.

Amanhã é o fim,
cinzas de cetim:
Que seja feita
vossa vontade.

Reencontrei enfim!
quê? o eterno…é assim:
o mar sem fim
ao sol!

L’Éternité
Arthur Rimbaud

Elle est retrouvée.
Quoi ? — L’Éternité.
C’est la mer allée
Avec le soleil

Âme sentinelle,
Murmurons l’aveu
De la nuit si nulle
Et du jour en feu.

Des humains suffrages,
Des communs élans
Là tu te dégages
Et voles selon.

Puisque de vous seules,
Braises de satin,
Le Devoir s’exhale
Sans qu’on dise : enfin.

Là pas d’espérance,
Nul orietur.
Science avec patience,
Le supplice est sûr.

Elle est retrouvée.
Quoi ? — L’Éternité.
C’est la mer allée
Avec le soleil.

Sensation, de Artur Rimbaud

Sensation

de Artur Rimbaud

Par les soirs bleus d’été, j’irai dans les sentiers,
Picoté par les blés, fouler l’herbe menue :
Rêveur, j’en sentirai la fraîcheur à mes pieds.
Je laisserai le vent baigner ma tête nue.

Je ne parlerai pas, je ne penserai rien,
Mais l’amour infini me montera dans l’âme ;
Et j’irai loin, bien loin, comme un bohémien,
Par la Nature, heureux- comme avec une femme.

Sensação

tradução por Tatiane Marchi

Pelas azuladas tardes, seguirei caminhador,
Pinicado pelo trigo, a pisar a erva miúda:
A sonhar, sentirei em meus pés o frescor.
Deixarei o vento banhar minha face nua.

Em silêncio, eu não pensarei em nada:
Mas, o amor infinito montará minh’alma,
E irei longe, muito longe, com o pé na estrada,
Pela natureza, feliz – na companhia da amada.

( A tradução teve como base a seguinte publicação: Rimbaud, Arthur. Poésies. Paris: Éditions de la Seine, 2005.)

Voyelles, de Arthur Rimbaud

Arthur Rimbaud
Voyelles 

A noir, E blanc, I rouge, U vert, O bleu: voyelles,
Je dirai quelque jour vos naissances latentes :
A, noir corset velu des mouches éclatantes
Qui bombinent autour des puanteurs cruelles,

Golfes d’ombre; E, candeurs des vapeurs et des tentes,
Lances des glaciers fiers, rois blancs, frissons d’ombelles;
I, pourpres, sang craché, rire des lêvres belles
Dans la colère ou les ivresses pénitentes;

U, cycles, vibrements divins des mers virides,
Paix des pâtis semés d’animaux, paix des rides
Que l’alchimie imprime aux grands fronts studieux ;

O, suprême Clairon plein des strideurs étranges,
Silences traversés des Mondes et des Anges :
– O l’Oméga, rayon violet de Ses Yeux !

 

Tomaz Fernandes Izabel
Vogais

A negro, E branco, I rubro, U verde, O azul: vogais,
Eu direi algum dia seus natais latentes:
A, negro corpete de moscas reluzentes
zumbindo no entorno de odores infernais,

cova escura; E, candor de brumas e tendas,
Lanças de gelo, reis brancos, frisson de umbelas;
I, roxo, sangue escarrado, sorrir de belas
bocas em cólera ou em ébrias penitências;

U, ciclos, divino vibrar do verde mar,
Paz dos campos semeados, paz do enrugar
Que a alquimia marca na testa de homens sóbrios;

O, sumo Clarim de estridentes desarranjos,
Silêncios trespassados de Mundos e Anjos:
– Ó, Ômega, raio violeta em Seus Olhos!