Bertold Brecht “corrige” os mitos: Prometeu, Édipo e Odisseu e as sereias

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Prometeu

considere um PROMETEU, os deuses são ignorantes e malignos, espertos na extorsão de sacrifícios, vivendo da gordura da terra. prometeu inventa o fogo e criminosamente o entrega aos deuses. eles o pegam e o amarram para que ele não possa entregar seu fogo aos humanos, ele fica sem saber nada sobre este fogo durante muito tempo, até que vê conflagrações vermelhas no horizonte: os deuses o usaram para incendiar e pilhar os humanos, os deuses apenas como coro intermitente.

Édipo

Naturalmente, eu sei que não convém ao trágico dar uma piscada para o espectador. Mas quando eu vi ou li o Édipo, eu sempre desejei que esta piscada tivesse acontecido. Pois não me entra na cabeça que Édipo não tenha nenhuma ideia do alcance de suas ações, de sua perversidade profunda. A tragédia se tornaria assim apenas mais trágica. Pois os verdadeiros golpes não chegam subitamente, como algo que nunca se imaginaria, mas como algo que já se previa. Sempre foi dito: eu não preciso temer isso ou aquilo, isso não pode acontecer, seria desumano demais. Daí isso acontece e tudo o que é humano acontece em sua máxima amplitude, na amplitude gigantesca do seu pavor. Se Édipo encontra verdadeiramente sem consciência a terrível notícia, então o seu desespero, pelo menos de acordo com as concepções de hoje, não é de todo fundamentado. Pois todos nós conhecemos o valor duvidoso do desespero que expressa qualquer devedor ou contratante inadimplente quando fala de motivos de força maior.

Odisseu e a sereias

Como se sabe, o astucioso Odisseu deixou-se amarrar no mastro do seu veículo quando se aproximava da ilha das sereias, mas entupiu os ouvidos dos remadores com cera, de forma que através da cera deles e de suas cordas, sua apreciação da arte permanecesse sem consequências ruins. À distância audível, rodeando a ilha, os servos surdos viram as sedutoras mulheres inflando suas gargantas e nosso herói se contorcendo no mastro, enquanto se esforçava para se soltar. Tudo passou aparentemente de acordo com o combinado e o previsto. Toda a Antiguidade acreditou no sucesso do ardil do astucioso. Serei eu o primeiro a levantar objeções? Então, eu direi assim: tudo bem, mas quem – além de Odisseu – diz que as sereias realmente cantaram diante do homem amarrado? Estas poderosas e habilidosas mulheres iriam realmente gastar sua arte com pessoas que não desfrutavam de nenhuma liberdade de movimento? É esta a essência da arte? Pois ao invés disso, eu preferiria supor que as gargantas infladas notadas pelos remadores xingavam com toda a força o provinciano maldito e cuidadoso, e que nosso herói realizou enfim suas contorções (como testemunhadas) porque estava morrendo de vergonha.

* O fragmento sobre Prometeu está no Diário de trabalho e data de Outubro de 1945 como reflexão-reação ao lançamento das bombas nucleares americanas sobre Hiroshima e Nagazaki. Já as variações sobre as histórias de Ulisses e as sereias e do Édipo foram escritas em 1933 e são parte de uma série de três partes chamada “Correções de mitos antigos” (Berichtigungen alter Mythen), que inclui também uma revisão da história de Candaules e Giges. Em nota à “correção” do mito de Ulisses e das sereias, Brecht faz referência à versão de Franz Kafka do mesmo mito, chamada O Silêncio das Sereias: “Para esta história encontra-se também uma correção escrita por Franz Kafka, ela realmente não parece mais crível nos novos tempos”.

Tradução: Tomaz Amorim Izabel

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Prometheus

erwäge einen PROMETHEUS, die götter sind unwissend und bösartig, schlau im erpressen von opfern, lebend von den fetten des lands. prometheus erfindet das feuer und übergibt es verbrecherischerweise den göttern. sie fangen und fesseln ihn, damit er nicht den menschen sein feuer ausliefern kann, von diesem feuer erfährt er lange nichts, dann sieht er rote feuersbrünste am horizont: die götter haben es benutzt, die menschen zu brandschatzen, die götter nur als chor auftretend.

Ödipus

Ich weiß natürlich, daß es dem Tragiker nicht ziemt, dem Zuschauer zuzublinzeln. Aber wenn ich Ödipus sah oder las, habe ich immer gewünscht, solches Blinzeln hätte sich geziemt. Denn es will mir nicht in den Kopf, daß Ödipus von der Tragweite seiner Taten, ihrer gründlichen Verruchtheit nicht doch eine Ahnung hat. Die Tragödie würde dadurch nur um so tragischer. Denn nicht das sind die eigentlichen Nackenschläge, wenn plötzlich eintrifft, was man nie geglaubt hätte, sondern wenn eintrifft, was man vorhergesehen hat. Man hat immer gesagt: dies oder das brauche ich nicht zu befürchten, das kann nicht eintreten, es wäre zu unmenschlich. Dann tritt es ein und all das, was menschlich ist, tritt in seinem ganzen Umfang auf, dem riesigen Umfang seines Schreckens. Trifft den tatsächlich unwissenden Ödipus die entsetzliche Kunde, dann ist seine Verzweiflung, jedenfalls nach heutigen Begriffen, nicht ganz so begründet. Kennen wir doch alle den zweifelhaften Wert der Verzweiflung, die jene Schuldner oder säumigen Vertragspartner äußern, wenn sie von der Vis major sprechen!

Odysseus

Bekanntlich ließ der listige Odysseus sich, als er sich der Insel der Sirenen näherte, an den Mast seines Fahrzeuges binden, aber den Ruderern verstopfte er mit Wachs die Ohren. so daß sein Kunstgenuß durch ihr Wachs und seine Stricke ohne schlimme Folgen bleiben mußte. In Hörweite, wie es ausgemacht war, an der Insel vorbeirudernd, sahen die tauben Knechte die verführerischen Weiber ihre Hälse blähen und unsern Helden sich am Mastbaum winden, als strebte er, davon loszukommen. Es verlief scheinbar alles nach Verabredung und Voraussage. Das ganze Altertum glaubte dem Schlauling das Gelingen seiner List. Sollte ich der erste sein, dem Bedenken aufsteigen? Ich sage mir nämlich so: alles gut, aber wer – außer Odysseus – sagt, daß die Sirenen wirklich sangen, angesichts des angebundenen Mannes? Sollten diese machtvollen und gewandten Weiber ihre Kunst wirklich an Leute verschwendet haben, die keine Bewegungsfreiheit besaßen? Ist das das Wesen der Kunst? Da möchte ich doch eher annehmen, die von den Ruderern wahrgenommenen geblähten Hälse schimpften aus voller Kraft auf den verdammten vorsichtigen Provinzler, und unser Held vollführte seine (ebenfalls bezeugten) Windungen, weil er sich doch noch zu guter Letzt genierte!

Dois poemas sobre a Rússia, de Lou Andreas-Salomé

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Velha Rússia

Descansas, parece, em materno leito,
Seu desespero a ser compreendido,
Tão infantis parecem os seus feitos,
noutros tão floridos.

Vês coloridas ainda as moradas,
quando brincavas, mesmo na miséria:
rubro, azul, verde e branco, hera dourada
suas cores eram.

Ainda assim, quem te olhar com astúcia
se maravilha pelo despudor:
Uma criança construiu a Rússia
aos pés do Senhor.


Volga

Mesmo longe: ainda assim eu Te vejo
Mesmo longe: permaneces comigo
Como um presente que não é cortejo
Como paisagem em torno do umbigo.

Nunca tivesse estado em suas beiras
conheceria sua imensidão,
desembarcada em oníricas cheias
na sua descomunal solidão.

 

Tradução: Tomaz Amorim Izabel

 

Altrußland

Du scheinst in Mutterhut zu ruhn,
Dein Elend kaum noch zu begreifen,
So kindhaft scheint noch all Dein Tun,
Wo andre reifen.

Wie stehn Dir noch die Häuser bunt,
Als spieltest Du sogar im Darben:
Rot, grün, blau, weiß auf goldnem Grund
Sind Deine Farben.

Und doch: wer lang darauf geschaut,
Enthält ehrfürchtig sich des Spottes:
Ein Kind hat Rußland hingebaut
Zu Füßen Gottes.

 

Wolga

Bist Du auch fern: ich schaue Dich doch an,
Bist Du auch fern: mir bleibst Du doch gegeben –
Wie eine Gegenwart, die nicht verblassen kann.
Wie meine Landschaft liegst Du um mein Leben.

Hätt ich an Deinen Ufern nie geruht:
Mir ist, als wüßt ich doch um Deine Weiten,
Als landete mich jede Traumesflut
An Deinen ungeheuren Einsamkeiten.

Sonho com a espada de cavaleiro *
Tradução: Tomaz Amorim Izabel

Eu tinha combinado uma excursão com dois amigos para o domingo, mas de forma completamente inesperada dormi demais e perdi a hora do encontro. Meus amigos, que conheciam até então minha pontualidade, se surpreenderam com o atraso e foram até a casa em que eu morava, ficaram esperando por lá ainda uma hora, subiram então as escadas e bateram na minha porta. Eu me assustei muito, pulei da cama e não prestei atenção em outra coisa que não fosse me aprontar o mais rápido possível. Quando eu então saí da porta completamente vestido, meus amigos recuaram de mim visivelmente assustados. “O que você tem atrás da cabeça?”, eles gritaram. Desde o despertar eu já sentia algo que me impedia de deitar a cabeça e tateei neste momento com a mão procurando pelo obstáculo. Imediatamente gritaram os amigos, que já tinham se acalmado um pouco: “Toma cuidado, não vai se machucar”, enquanto eu apanhava por de trás de minha cabeça uma espada. Os amigos se aproximaram, me examinaram, me levaram ao quarto diante do espelho da cômoda e me despiram da cintura para cima. Uma grande e antiga espada de cavaleiro com punho em forma de cruz estava presa nas minhas costas até o cabo, mas de forma que a lâmina foi enfiada de forma incrivelmente precisa entre a pele e a carne e não infligiu nenhum ferimento. No lugar da intrusão no pescoço também não havia ferida e os meus amigos garantiam que o buraco que se abriu pela lâmina estava completamente sem sangue e seco. E enquanto agora os amigos subiam no braço da cadeira e devagar, milimetricamente, puxavam a espada, não saiu nenhum sangue e o lugar aberto no pescoço se fechou até um buraco que mal dava para notar. “Aqui está sua espada”, disseram os amigos rindo e a entregaram para mim. Eu a pesei em minhas mãos, era uma arma fina, cruzados poderiam tê-la usado. Quem aguenta isso, que antigos cavaleiros percorram os sonhos, brandindo irresponsavelmente suas espadas, perfurando adormecidos inocentes e só não causando feridas profundas porque suas armas provavelmente desviam de corpos vivos e também porque amigos fiéis estão atrás da porta e batem prontos para ajudar.

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Traum vom Ritterschwert
Franz Kafka

Ich hatte mit zwei Freunden einen Ausflug für den Sonntag vereinbart, verschlief aber gänzlich unerwarteter Weise die Stunde der Zusammenkunft. Meine Freunde, die meine sonstige Pünktlichkeit kannten, staunten darüber, giengen zu dem Haus in dem ich wohnte, standen auch dort noch eine Zeitlang, giengen dann die Treppe hinauf und klopften an meiner Tür. Ich erschrak sehr, sprang aus dem Bett und achtete auf nichts anderes, als darauf mich möglichst rasch bereitzumachen. Als ich dann vollständig angezogen aus der Türe trat, wichen meine Freunde offenbar erschrocken vor mir zurück. “Was hast Du hinter dem Kopf” riefen sie. Ich hatte schon seit dem Erwachen irgendetwas gefühlt, das mich hinderte den Kopf zurückzuneigen und tastete nun mit der Hand nach diesem Hindernis. Gerade riefen die Freunde, die sich schon ein wenig gesammelt hatten “Sei vorsichtig, verletze Dich nicht” als ich hinter meinem Kopf den Griff eines Schwertes erfaßte. Die Freunde kamen näher, untersuchten mich, führten mich ins Zimmer vor den Schrankspiegel und entkleideten meinen Oberkörper. Ein großes altes Ritterschwert mit kreuzartigem Griff steckte in meinem Rücken bis zum Heft, aber in der Weise, daß sich die Klinge unbegreiflich genau zwischen Haut und Fleisch geschoben und keine Verletzung herbeigeführt hatte. Aber auch an der Stelle des Einstoßes am Halse war keine Wunde, die Freunde versicherten, daß sich dort völlig blutleer und trocken der für die Klinge notwendige Spalt geöffnet habe. Und als jetzt die Freunde auf Sessel stiegen und langsam millimeterweise das Schwert hervorzogen, kam kein Blut nach und die offene Stelle am Halse schloß sich bis auf einen kaum merklichen Spalt. “Hier hast Du Dein Schwert” sagten die Freunde lachend und reichten es mir. Ich wog es in beiden Händen, es war eine kostbare Waffe, Kreuzfahrer konnten sie wohl benützt haben. Wer duldete es, daß sich alte Ritter in den Träumen herumtrieben, verantwortungslos mit ihren Schwertern fuchtelten, unschuldigen Schläfern sie einbohrten und nur deshalb nicht schwere Wunden beibrachten, weil ihre Waffen zunächst wahrscheinlich an lebenden Körpern abgleiten und weil auch treue Freunde hinter der Tür stehn und hilfsbereit klopfen.

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* Este texto se encontra no diário de Kafka sob a data de 19 de Janeiro de 1915. Ele não tem título e não foi de forma alguma separado como “Obra” para publicação. Seu fechamento indica que Kafka não planejou uma sequência e que tomou o texto como “pronto”. A segunda frase, “Meus amigos, que conheciam até então minha pontualidade”, deve ser lida como brincadeira irônica. Porque Kafka era notoriamente não pontual e precisava se desculpar frequentemente com seus amigos de Praga, com os quais muitas vezes marcava encontros dominicais.

Fonte: Franz Kafka, Tagebücher, Band 3: 1914–1923, Fischer Taschenbuch Verlag (Bd. 12451), Frankfurt am Main 1994, Seite 71–72.

O ideal e a vida, de Friedrich Schiller

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O ideal e a vida
Tradução: Tomaz Amorim Izabel

Clareterna e especular e fina,
flui leve, no Olimpo, a vida zefirina,
para seus bem-aventurados.
As luas mudam, as gerações se sucedem,
e os rosais da divina juventude florescem
entre eternas ruínas intocados.
Entre a alegria sensível e a paz de espírito,
só resta a escolha à humanidade desolada,
mas na fronte do alto Urânido
brilham elas num raio casadas.

Na Terra, para terem dos deuses a sorte
e serem livres no reino da morte,
do seu jardim não despedacem a fruta!
O olhar se satisfaz com as aparências,
mas do gozo das alegrias em ambivalência
se vinga veloz a almejada fruta.
O próprio Estige, que nove vezes a rodeia,
não luta contra a volta da filha de Ceres.
Depois de apanhada a maçã, ele a cerceia
eternamente sob de Orco os poderes.

Apenas os corpos é que pertencem
aos poderes que sombrio destino tecem.
Livre da violência do tempo que deforma,
a parceira das naturezas bem-aventuradas
sobe pairando rumo às portas iluminadas,
divina entre os deuses: a Forma.
Se querem voar alto em suas asas,
joguem fora o medo do terreno!
Fujam da vida enfadonha e rasa
para do Ideal o Reino!

Em toda a Terra livre, juventude,
é nos raios da completude
que paira dos homens a imagem divina.
As silenciosas fantasmagorias da vida,
brilhantes, na corrente do Estige diluídas,
mesmo Ela, que se ergue na celeste campina,
depois, rumo aos sarcófagos tristes,
ainda que Imortal, também desce.
Se na vida o carro da luta ainda resiste,
sacolejante, aqui a vitória aparece.

Não para lutadores apaziguar,
nem para exaustos descansar,
sopra perfumada a grinalda das glórias.
Poderosos, ao descansar suas veias,
a vida vos arrasta em suas cheias,
a vós, o tempo, em suas rotatórias.
Mas descem as audazes asas da braveza
pelo sentimento vergonhoso dos percalços,
e então vislumbra da colina da beleza
com alegria o avoado alvo.

Se se trata de proteger e dominar,
lutador contra lutador a trovejar
nos trilhos da sorte e da fama,
lá pode a bravura se bater com a força
e com ruidosos urros as carroças
se confundem nas planícies de lama.
Aqui só a bravura alcança aquilo
que na meta do Hipódromo flameja.
Só o forte submeterá o destino,
onde o franzino apenas fraqueja.

Mas ele, preso entre as margens,
que se derrama espumoso e selvagem,
flui, o Rio da Vida, calmo e austero,
pelas silenciosas e sombrias terras da beleza,
e em suas ondas de prateadas correntezas
pintam-se Aurora e Héspero.
Dissolvido em suave amor mútuo,
na graça da livre relação unido,
descansa aqui reconciliado o impulso,
e desaparecido é o inimigo.

Se para o morto com forma reanimar,
se para com o material matrimoniar,
o gênio se incendeia sedento,
então lá se contrai o nervo do obreiro
e subjuga, perseverante e guerreiro,
o pensamento de si o elemento.
Só ao sério, que esforço algum empalidece,
sussurra a fonte da verdade que escondida corre.
Só com o golpe duro do cinzel se amolece
a semente quebradiça do mármore.

Mas adentrai da beleza a esfera,
e para trás resta o pesado na poeira
com o material que ela mesma domina.
Não é massa com dor arrancada,
fraca e leve, como originada do nada,
a visão diante da arrebatadora retina.
Silenciam todas as batalhas e temores
na vitória da maior certeza:
desaparecem agora os espectadores
da humana pobreza.

Se vocês, na triste nudez da humanidade,
estão diante da lei em sua grandiosidade,
se a culpa se aproxima do sagrado,
diante dos raios da verdade empalideça
sua virtude, diante do ideal desapareça
o vergonhoso ato apavorado.
Nenhum criador que o objetivo confronte:
sobre este abismo moribundo
não passa barca, nem arco de ponte,
nem âncora alguma encontra o fundo.

Mas fujam da limitação do sentimento
para a libertação do pensamento,
e fugirá a assombração
e se preencherá o eterno abismo.
Acolham nas suas vontades o divino
e dos tronos mundanos vocês se erguerão.
A grade firme da lei aprisiona
apenas o sentido escravo que a degrade.
Desaparece com a resistência humana
também a divina majestade.

Se a dor humana se torna corrente,
se Laocoonte se defende das serpentes
com tão inominável dor,
então enfurece-se o humano! E avança
contra a curvatura dos céus com suas demandas
e destroça seu coração amador!
Que triunfe a voz terrível da natureza
e que preencha a face da alegria a palidez,
e que a piedade sagrada desapareça
com o imortal dentro de vocês!

Mas nas regiões jubilosas,
onde habitam as puras formas,
já não ressoam as tempestades turvas da carência.
Aqui não pode a dor dilacerar a alma,
lágrima alguma flui aqui contra a calma,
apenas do espírito a bravia resistência.
Amável, como da íris a furta-cor
sobre o fragor do orvalho trovejante,
brilha através dos tristes véus do langor,
pacífico, aqui, o azul fulgurante.

Rebaixado a servo do covarde,
Alcides, em interminável combate,
o caminho pesado da vida percorre:
abraça o Leão, bate-se com a Hidra de Lerna,
lança-se vivo, e os companheiros liberta,
na canoa do barqueiro da morte.
Todas as aflições, tudo que há de pesado,
lançou a astúcia da irreconciliável Deusa
sobre os ombros dispostos do odiado –
até que findada sua caminhada esteja.

Até que o Deus, despido do terreno,
separa-se em chamas dos humanos
e dos leves ares do éter se inunda.
Alegre e desacostumado com o novo flutuar,
ele flui para cima, e da vida sublunar
o pesado sonho afunda e afunda e afunda.
Recebido no Olimpo em harmoniosa chegada
é o transfigurado no salão dos Cronidas,
até que a Deusa de faces rosadas
entrega-lhe a taça de boas-vindas.
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Das Ideal und das Leben
Friedrich Schiller

Ewigklar und spiegelrein und eben
Fließt das zephyrleichte Leben
Im Olymp den Seligen dahin.
Monde wechseln, und Geschlechter fliehen;
Ihrer Götterjugend Rosen blühen
Wandellos im ewigen Ruin.
Zwischen Sinnenglück und Seelenfrieden
Bleibt dem Menschen nur die bange Wahl;
Auf der Stirn des hohen Uraniden
Leuchtet ihr vermählter Strahl.

Wollt ihr schon auf Erden Göttern gleichen,
Frei sein in des Todes Reichen,
Brechet nicht von seines Gartens Frucht!
An dem Scheine mag der Blick sich weiden;
Des Genusses wandelbare Freuden
Rächet schleunig der Begierde Frucht.
Selbst der Styx, der neunfach sie umwindet,
Wehrt die Rückkehr Ceres’ Tochter nicht;
Nach dem Apfel greift sie, und es bindet
Ewig sie des Orkus Pflicht.

Nur der Körper eignet jenen Mächten,
Die das dunkle Schicksal flechten;
Aber frei von jeder Zeitgewalt,
Die Gespielin seliger Naturen,
Wandelt oben in des Lichtes Fluren
Göttlich unter Göttern die Gestalt.
Wollt ihr hoch auf ihren Flügeln schweben,
Werft die Angst des Irdischen von euch!
Fliehet aus dem engen, dumpfen Leben
In des Idealen Reich!

Jugendlich, von allen Erdenmalen
Frei, in der Vollendung Strahlen
Schwebet hier der Menschen Götterbild,
Wie des Lebens schweigende Phantome
Glänzend wandeln an dem styg’schen Strome,
Wie sie stand im himmlischen Gefild,
Ehe noch zum traur’gen Sarkophage
Die Unsterbliche herunter stieg.
Wenn im Leben noch des Kampfes Wage
Schwankt, erscheinet hier der Sieg.

Nicht vom Kampf die Glieder zu entstricken,
Den Erschöpften zu erquicken,
Wehet hier des Sieges duft’ger Kranz.
Mächtig, selbst wenn eure Sehnen ruhten,
Reißt das Leben euch in seine Fluthen,
Euch die Zeit in ihren Wirbeltanz.
Aber sinkt des Muthes kühner Flügel
Bei der Schranken peinlichem Gefühl,
Dann erblicket von der Schönheit Hügel
Freudig das erflogne Ziel.

Wenn es gilt, zu herrschen und zu schirmen,
Kämpfer gegen Kämpfer stürmen
Auf des Glückes, auf des Ruhmes Bahn,
Da mag Kühnheit sich an Kraft zerschlagen
Und mit krachendem Getös die Wagen
Sich vermengen auf bestäubtem Plan.
Muth allein kann hier den Dank erringen,
Der am Ziel des Hippodromes winkt.
Nur der Starke wird das Schicksal zwingen,
Wenn der Schwächling untersinkt.

Aber der, von Klippen eingeschlossen,
Wild und schäumend sich ergossen,
Sanft und eben rinnt des Lebens Fluß
Durch der Schönheit stille Schattenlande,
Und auf seiner Wellen Silberrande
Malt Aurora sich und Hesperus.
Aufgelöst in zarter Wechselliebe,
In der Anmuth freiem Bund vereint,
Ruhen hier die ausgesöhnten Triebe,
Und verschwunden ist der Feind.

Wenn, das Todte bildend zu beseelen,
Mit dem Stoff sich zu vermählen,
Thatenvoll der Genius entbrennt,
Da, da spanne sich des Fleißes Nerve,
Und beharrlich ringend unterwerfe
Der Gedanke sich das Element.
Nur dem Ernst, den keine Mühe bleichet,
Rauscht der Wahrheit tief versteckter Born;
Nur des Meißels schwerem Schlag erweichet
Sich des Marmors sprödes Korn.

Aber dringt bis in der Schönheit Sphäre,
Und im Staube bleibt die Schwere
Mit dem Stoff, den sie beherrscht, zurück.
Nicht der Masse qualvoll abgerungen,
Schlank und leicht, wie aus dem Nichts gesprungen,
Steht das Bild vor dem entzückten Blick.
Alle Zweifel, alle Kämpfe schweigen
In des Sieges hoher Sicherheit;
Ausgestoßen hat es jeden Zeugen
Menschlicher Bedürftigkeit.

Wenn ihr in der Menschheit traur’ger Blöße
Steht vor des Gesetzes Größe,
Wenn dem Heiligen die Schuld sich naht,
Da erblasse vor der Wahrheit Strahle
Eure Tugend, vor dem Ideale
Fliehe muthlos die beschämte That.
Kein Erschaffner hat dies Ziel erflogen;
Über diesen grauenvollen Schlund
Trägt kein Nachen, keiner Brücke Bogen,
Und kein Anker findet Grund.

Aber flüchtet aus der Sinne Schranken
In die Freiheit der Gedanken,
Und die Furchterscheinung ist entflohn,
Und der ew’ge Abgrund wird sich füllen;
Nehmt die Gottheit auf in euren Willen,
Und sie steigt von ihrem Weltenthron.
Des Gesetzes strenge Fessel bindet
Nur den Sklavensinn, des es verschmäht;
Mit des Menschen Widerstand verschwindet
Auch des Gottes Majestät.

Wenn der Menschheit Leiden euch umfangen,
Wenn Laokoon der Schlangen
Sich erwehrt mit namenlosem Schmerz,
Da empöre sich der Mensch! Es schlage
An des Himmels Wölbung seine Klage
Und zerreiße euer fühlend Herz!
Der Natur furchtbare Stimme siege,
Und der Freude Wange werde bleich,
Und der heil’gen Sympathie erliege
Das Unsterbliche in euch!

Aber in den heitern Regionen,
Wo die reinen Formen wohnen,
Rauscht des Jammers trüber Sturm nicht mehr.
Hier darf Schmerz die Seele nicht durchschneiden,
Keine Thräne fließt hier mehr den Leiden,
Nur des Geistes tapfrer Gegenwehr.
Lieblich, wie der Iris Farbenfeuer
Auf der Donnerwolke duft’gem Thau,
Schimmert durch der Wehmuth düstern Schleier
Hier der Ruhe heitres Blau.

Tief erniedrigt zu des Feigen Knechte,
Ging in ewigem Gefechte
Einst Alcid des Lebens schwere Bahn,
Rang mit Hydern und umarmt’ den Leuen,
Stürzte sich, die Freunde zu befreien,
Lebend in des Todtenschiffes Kahn.
Alle Plagen, alle Erdenlasten
Wälzt der unversöhnten Göttin List
Auf die will’gen Schultern des Verhaßten –
Bis sein Lauf geendigt ist –

Bis der Gott, des Irdischen entkleidet,
Flammend sich vom Menschen scheidet
Und des Äthers leichte Lüfte trinkt.
Froh des neuen ungewohnten Schwebens,
Fließt er aufwärts, und des Erdenlebens
Schweres Traumbild sinkt und sinkt und sinkt.
Des Olympus Harmonien empfangen
Den Verklärten in Kronions Saal,
Und die Göttin mit den Rosenwangen
Reicht ihm lächelnd den Pokal.

A Novela italiana, de Rober Walser

robert walser

A novela italiana
Tradução: Tomaz Amorim Izabel

Eu tenho fortes motivos para me perguntar se irá agradar uma história que conta sobre duas pessoas ou duas pessoinhas, a saber, uma moça adorável e gentil e um homem jovem, corajoso, bom e, à sua maneira, pelo menos também tão gentil quanto ela, que mantinham entre si a mais bela e profunda relação de amizade. O amor terno e apaixonado que eles sentiam um pelo outro igualava o sol de verão em calor e a neve de dezembro em pureza e castidade. Sua confiança mútua e gentil parecia inabalável e a afeição ardente e inocente crescia dia após dia, como uma planta cheia de cores e fragrâncias maravilhosas. Nada parecia poder perturbar esta das mais estáveis das situações e das mais belas das convicções. Tudo teria permanecido bonito e bem, não conhecesse o homem jovem, corajoso, bom e amado tão bem a Novela italiana. O conhecimento exato, entretanto, da beleza, esplendor e majestade da Novela italiana deixaram no, como o leitor atento imediatamente compreenderá, besta, roubaram dele por algum tempo a metade do seu juízo sadio e o constrangeram, o forçaram, o obrigaram a um dia, de manhã ou de noite, às oito, às duas ou às sete horas, a dizer com voz cansada para sua amada: “Ei, ouça, tenho que te falar uma coisa, uma coisa que já me pressiona, me atormenta e me tortura há muito tempo, uma coisa que talvez vá nos fazer infelizes. Eu não devo manter isto em silêncio, eu preciso, preciso te dizer. Junte toda a sua coragem e resistência. É possível que a notícia terrível e horrorosa te mate. Ai, queria me dar mil safanões ressoantes e arrancar os meus cabelos”. A pobre moça exclamou raivosa: “Eu não estou te reconhecendo. O que te atormenta, o que te tortura? O que é de tão terrível que você até agora me escondeu e que agora tem que me confiar? Adiante com as palavras aqui, para que eu saiba o que eu tenho a temer e o que eu por ventura ainda tenho para crer. Coragem para tolerar o mais pesado e para suportar o mais extremo não me falta”. Assim ela falou, claro, e tremia de medo com todo o corpo, e o desconforto se alastrou com uma palidez mórbida sobre seu rosto amável, até então fresco e belo. “Perceba”, disse o jovem homem, “que eu infelizmente tenho um conhecimento profundo demais da Novela italiana e que justo este saber é nossa infelicidade”. “Como isto, pelo amor de Deus?”, ela perguntou, digna de pena, “como pode ser que formação e conhecimento possam nos deixar inconsoláveis e destruir nossa felicidade?”. No que coube a ele replicar: “Porque o estilo da Novela italiana é único em beleza, sabor e força e porque o nosso amor não tem um estilo assim para apresentar. Este pensamento me deixa inconsolável e eu não consigo mais acreditar em nenhuma felicidade”. Por cerca de dez minutos ou um pouco mais, ambas as boas e jovens pessoas soltaram a cabeça e a cabecinha e ficaram completamente desamparados e aturdidos. Aos poucos, no entanto, foram ganhando de volta a confiança e a fé perdida, e voltaram de novo à reflexão. Eles rejuntaram as forças e saíram da tristeza e do desânimo, olharam amigavelmente uns nos olhos do outro, sorriram e se deram as mãos, se aninharam bem próximos, estavam mais felizes e mais confiantes do que nunca porque disseram: “Agora, como antes, apesar de todo o estilo e magnificência da Novela italiana, nós queremos ter alegria e prazer um no outro e nos amarmos com afeto, assim como éramos antes. Nós queremos ser modestos e satisfeitos e não queremos nos preocupar com nenhum modelo que nos roube o gosto e o prazer natural. Permanecer simples e honestos um com o outro, e sermos bons, é melhor do que o mais belo e distinto estilo, que nos pode ser roubado, não é”. Com estas palavras alegres eles se beijaram com a maior intimidade, riram do seu desalento ridículo e ficaram novamente satisfeitos.

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Die italienische Novelle
Robert Walser

Ich habe starke Ursache, mich zu fragen, ob eine Geschichte gefallen wird, die von zwei Leuten oder Leutchen, nämlich von einem reizenden netten Mädchen und von einem in seiner Art mindestens ebenso netten braven guten jungen Mann berichtet, die im schönsten und innigsten Freundschaftsverhältnis zu einander standen. Die zärtliche und leidenschaftliche Liebe, die sie gegenseitig fühlten, glich an Hitze der Sommersonne und an Reinheit und Keuschheit dem dezemberlichen Schnee. Ihr beidseitiges liebenswürdiges Vertrauen schien unerschütterlich, und die feurige unschuldige Neigung wuchs von Tag zu Tag wie eine wundervolle farben- und duftreiche Pflanze. Nichts schienden allerholdesten Zustand und das allerschönste Zutrauen stören zu können. Alles wäre schön und gut gewesen, wenn nur der brave gute liebe und junge Mann die italienische Novelle nicht so gut gekannt hätte. Die exakte Kenntnis jedoch von der Schönheit, Pracht und Herrlichkeit der italienischen Novelle machte ihn, wie der aufmerksame Leser sogleich erfahren wird, zum Schafskopf, raubte ihm für eine Zeitlang die Hälfte des gesunden Verstandes und veranlasste, zwang und nötigte ihn eines Tages, morgens oder abends, um acht, zwei oder sieben Uhr zu seiner Geliebten mit dumpfer Stimme zu sagen: »Du, höre, ich habe dir etwas zu sagen, etwas, das mich schon die längste Zeit drückt, plagt und foltert, etwas, das uns Beide vielleicht unglücklich machen wird. Ich darf es dir nicht verschweigen, ich muss, ich muss es dir sagen. Nimm allen deinen Mut und alle deine Festigkeit zusammen. Es kann sein, dass dich die Kunde von dem Schrecklichen und Furchtbaren tötet. O ich möchte mir tausend schallende Ohrfeigen geben und mir das Haar ausraufen.« Das arme Mädchen rief angstvoll aus: »Ich kenne dich nicht mehr. Was quält, was peinigt dich. Was ist es Schreckliches, das du mir bis dahin verheimlicht und das du mir anzuvertrauen hast. Heraus mit der Sprache auf der Stelle, damit ich weiss, was ich zu fürchten und was ich irgendwie noch zu hoffen habe. An Mut, das Härteste zu dulden und das Äusserste zu ertragen, fehlt es mir nicht.« – Die so redete, zitterte freilich vor Angst am ganzen Körper, und das Unbehagen verbreitete eine tödliche Blässe über ihr liebreizendes, sonst so frisches und hübsches Gesicht. »Vernimm«, sagte der junge Mann, »dass ich leider nur ein zu gründlicher Kenner der italienischen Novelle bin und dass eben diese Wissenschaft unser Unglück ist.« – »Wieso das, um Gotteswillen?«, fragte die Bedauernswürdige, »wie ist es möglich, dass Bildung und Wissenschaft uns trostlos machen und unser Glück zerstören können?« Worauf es ihm beliebte, zu erwidern: »Weil der Stil in der italienischen Novelle an Schönheit, Saft und Kraft einzig dasteht, und weil unsere Liebe keinen derartigen Stil aufzuweisen hat. Dieser Gedanke macht mich trostlos, und ich vermag an kein Glück mehr zu glauben.« Beide guten jungen Leute liessen zirka zehn Minuten lang oder etwas länger den Kopf und das Köpfchen hängen und waren völlig rat- und fassungslos. Nach und nach gewannen sie jedoch die Zuversicht und den verlorenen Glauben wieder zurück, und sie kamen wieder zur Besinnung. Sie rafften sich aus Trauer und Entmutigung auf, schauten einander freundlich in die Augen, lächelten und gaben sich die Hand, schmiegten sich eng zusammen, waren glücklicher und vertraulicher als je zuvor, indem sie sagten: »Wir wollen nach wie vor trotz allen stilvollen und prachtvollen italienischen Novellen Freude und Genuss aneinander haben und uns zärtlich lieben, so wie wir einmal sind. Wir wollen genügsam und zufrieden sein und uns um keine Vorbilder kümmern, die uns nur den Geschmack und das natürliche Vergnügen rauben. Schlicht und ehrlich aneinanderhängen und warm und gut sein ist besser als der schönste und vornehmste Stil, der uns gestohlen sein kann, nicht wahr.« Mit diesen fröhlichen Worten küssten sie sich auf das innigste, lachten über ihre lächerliche Mutlosigkeit und waren wieder zufrieden.

Cinco poemas de Maria Luise Weissmann

weissmann

Tradução por: Tomaz Amorim Izabel

Meus olhos

Quando Tu vens
se reviram meus olhos
para dentro do escuro
como os dos mortos.

Desde que deixaram entrar a Ti:
os traidores –
agora vivem sempre
sob guilhotina.

Meine Augen

Wenn Du kommst
Müssen meine Augen
Ins Dunkel kehren
Wie in den Tod.

Seit sie Dich einließen:
Verräterinnen –
Nun leben sie immer
Unterm Beil.

Paisagem plana

A terra veio, cinza, como um rio
Sem represa a segurar sua cheia,
derramada por sobre morro e vale e sítio.
Lá, onde a fina linha o horizonte clareia,
uma árvore. Desenraizada. Que cai no vazio.

Ebene Landschaft
 
Die Erde kam, ein grauer Strom, geflossen.
Kein Damm, der ihre Flut zusammenhält,
Sie hat sich über Berg und Tal und Haus ergossen.
Fern, wo ein schmaler Strich den Horizont erhellt,
Ein Baum. Entwurzelt. Der ins Leere fällt.

Mas abra-os…

Mas estes portões, abra-os somente,
mas pise somente no limiar,
mal levante os olhos e experimente
já a claridade descomunal,
já o fulgor dos vazios espaços,
que florescem rápido como a relva,
já o bailado dos sonhos pesados,
que flamejariam, que se elevam…
Comovente onda a revigorar,
veja, nenhum sopro que não movente –
mas pise somente no limiar,
Mas estes portões, abra-os somente!

Aber öffne …
 
Aber öffne nur die Türe,
Aber tritt nur auf die Schwelle,
Hebe kaum den Blick und spüre
Schon die ungeheure Helle,
Schon den Glanz der leeren Räume,
Die wie Wiese rasch erblühten,
Schon den Tanz der schweren Träume,
Die sich hoben, die erglühten …
Zärtliche beschwingte Welle,
Sieh, kein Lufthauch, der nicht rühre – –
Aber tritt nur auf die Schwelle,
Aber öffne nur die Türe!

Fim de ano

Você, ano grisalho: corre rumo ao alvo
mais veloz e veloz, buscando pelo calmo
morrer que seja sem limites e profundo.
Mas veja: eu corro mais rápido, rumo ao rubro
da nova manhã, ávida, à sua frente.
Ó, venha! Apague, apague! Adiante!
Marcada, maculada, sobrecarregada,
por grandes cansaços e dores soterrada –
Passe – Eu irei! Morra – que eu, então, vou
tentar ressuscitar: Ó, dia puro e novo!

Jahres-Ende

Du greises Jahr: du eilst, dem Ziele zu
Rascher und rascher, sehnst dich nach der Ruh
In einem tiefen grenzenlosen Tod.
Doch sieh: ich eile schneller, nach dem Rot
Des neuen Morgens gierig, dir voraus.
O komm! Hinübergeh! Lösch aus, lösch aus!
Gezeichnetes, Beladenes, befleckt
Mit großer Müdigkeit, mit Schmerz bedeckt –
Vergeh – ich werde! Stirb – und ich vermag
Aufzuerstehn: o neuer, reinster Tag!

 

O carrossel

Eles parados, mudos, escutando os sons
de instrumentos desafinados, em profundo
sono: os animais coloridos, lindos, tensos.
Ao encontrar um olhar infantil em dor,

acordaram. A juba do leão voou
no vento. Assim soou das presas da elefanta
o toque dos sinos. A tromba bramiu. Foi
o trem comprido em orgulhosa caravana.

Diante de sua abrupta partida havia
matas de palmeiras, envoltas de aventura,
com fogos de luz atirava o quente dia,
e os cactos queimavam, descomunais, púrpuras.

Das Karussell

Sie standen stumm und lauschten dem Getön
Verstimmter Instrumente tief in Schlaf:
Die starren Tiere, bunt und wunderschön.
Da sie ein Kinderblick in Schmerz betraf,

Erwachten sie. Die Löwenmähne flog
Im Wind. So klang vom Elefantenzahn
Geläut der Schellen. Rüssel schnob. Es zog
In langem Zug die stolze Karawane

Dahin. Vor ihrem steilen Aufbruch lag
Ein Palmenwald, verstrickt in Abenteuer,
Aus Lichtraketen schoß der heiße Tag,
Kakteen brannten, purpurn, ungeheuer.

Os sarcófagos romanos, de Rainer Maria Rilke

Tradução: Fernando Germano Esteves

Mas o que afinal nos impede de crer
(e restamos, aqui e ali, isolados)
Que, por longo tempo, o ódio, o poder
E a loucura,  foram os únicos legados,

Como no sarcófago trabalhado,
De deuses esculpidos e de volutas,
Onde lentamente é consumida a túnica,
Um  cadáver foi lentamente adiado –

Até que as bocas, anonimamente,
engoliram tudo em silêncio. ( onde está
A cabeça que os trará de volta à vida?):

A água dos aquedutos de antigamente
Nunca cessou; segue o fluxo para lá
Reflete neles, não pára, e brilha ainda.

***

Römische Sarkophage
Rainer Maria Rilke

Was aber hindert uns zu glauben, dass
(so wie wir hingestellt sind und verteilt)
nicht eine kleine Zeit nur Drang und Hass
und dies Verwirrende in uns verweilt,

wie einst in dem verzierten Sarkophag
bei Ringen, Götterbildern, Gläsern, Bändern,
in langsam sich verzehrenden Gewändern
ein langsam Aufgelöstes lag –

bis es die unbekannten Munde schluckten,
die niemals reden. (Wo besteht und denkt
ein Hirn, um ihrer einst sich zu bedienen?)

Da wurde von den alten Aquädukten
ewiges Wasser in sie eingelenkt -:
das spiegelt jetzt und geht und glänzt in ihnen.