Seis poemas de Walt Whitman

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Traduções de Victor M. P. de Queiroz

A alguém que passa

Estranha que passa! nem sonha quão longo meu olhar delonga sobre si,
Deve você ser ele ou ela, ser quem busco (vem-me como se de um sonho),
Outrora, decerto, uma vida de gozo consigo eu vivi,
Tudo aflora, no entrecruzamento afetuoso, fluido, casto, amadurado, de nós:
Você cresceu comigo, foi guri comigo ou foi guria,
Eu fiz comer, dormir consigo, o corpo seu não mais foi seu, nem meu o meu foi mais,
apenas,
Você me dá o prazer dos olhos seus, da face, carne, quando passo, e tira-me das mãos, da
barba, peito, o estorno,
Não lhe devo falar, mas pensar em si, se sento só ou quando insone,
Devo esperar, sem duvidar que a venha ver de novo,
E disso ver surgir você, que eu não a perco.

*

Eu sou quem arde com amor ardente
Tradução dedicada a Levi Fernando

Eu sou quem arde com amor ardente;
A terra não gravita? Matéria não atrai, ardendo, mais matéria?
Pois bem meu corpo o que conhece, encontra…

*

Juventude, Dia, Velhice e Noite

Juventude, larga, de langor, de amor – plena de graça, força e fascínio,
Sabe você que a poderá seguir Velhice de igual graça, de igual força e igual fascínio?
Dia perflorescido e esplêndido – dia do imenso sol, de ação, de ambição, de júbilo,
A Noite o segue de perto com milhões de sóis, e sono, e a cura que vem no escuro.

*

Quando escutei o culto astrônomo
Tradução dedicada a Tamara Martinez

Quando escutei o culto astrônomo,
Quando provas, figuras, em colunas frente a mim foram içadas,
Quando se me mostraram cartas, diagramas, que somasse, dividisse, mensurasse,
Quando escutei, sentado, lecionar o astrônomo entre mil aplausos, na sala de aulas,
Quanto me não senti, breve, enfarado e febril,
‘Té que, por conta própria, levantei-me e fui, meti-me
Na umidade mística do ar da noite, e, de tempo em tempo,
Tudo em silêncio: eu contemplava estrelas.

*

O’ Capitão! meu Capitão!

O’ Capitão! meu Capitão! é finda a temível viagem,
O prêmio querido é ganho, a nau sobrevivera à voragem,
E é perto o porto: sinos que ouço, o povo todo que exulta,
Olhos seguindo a quilha firme, e a nave ousada e enxuta;
      Mas O’ peito! coração!
      O’ pinga o fluido acarminado
      Onde, convés, deita meu Capitão,
            Onde jaz frio, finado.

O’ Capitão! meu Capitão! levanta-te e ouve os sinos;
Levanta – por ti freme a flâmula, e as trompas trinam,
Para ti buquês, guirlandas, laços – por ti as praias se enchem
Por ti clama a massa que balança, virando os rostos tensos;
Capitão, aqui! O’ pai que amei!
Sob tua nuca, meu braço pousado!
És no convés um sonho que sonhei,
Teres caído frio, finado?

Meu Capitão não me responde: seu lábio é imóvel, baço…
Sem pulso ou ímpeto, meu pai sequer me sente o toque do braço.
É feito e findo o giro, salva e sã está a nau da voragem,
Vinda, co’o prêmio ganho à bordo, de tão temível viagem:
Exultai, praias! O’ sinos, dobrai!
Mas, aqui, andarei enlutado,
Convés onde jaz, Capitão, meu pai,
Onde jaz frio, finado.

*

Batam! batam! peles!

Batam! batam! peles! – Soprem! trompas! assoprem!
Varem portas, janelas, rude e impetuosamente
Adentrem templos solenes – e espantem os congregados -,
Escolas onde estudam doutores;
Não deixem noivos a sós – não haverá gôzo entre cônjuges
Nem paz aos fazendeiros pacatos, seja durante arada ou colheita:
Das peles tão feroz quizumba – e agudas soprem, trompas!

Batam! batam! peles! – Soprem! trompas! assoprem!
Sobre o tráfego urbano – sobre as rinhas de rodas nas ruas;
Há camas feitas para os que têm sono? Não haverá dormir sobre elas,
Não haverá barganhas de corretores ou agiotas, como prosperarão?
Palrará o palrador? O cantor, ele ousará cantar?
Na côrte se erguerá perante o júri o homem de leis de algo em defesa?
Pois rufem presto e forte, peles! – trompas, soprem ferozes!

Batam! batam! peles! – Soprem! trompas! assoprem!
Indiscutível, irrefreavelmente!
Irrelevantes tímidos, suplicantes ou carpideiras,
Os velhos implorando pelos jovens…
Não se ouça a voz das crianças, o apelo das mães,
Trema mesmo dos mortos o repouso último em que o saimento esperam:
Ó peles, golpes tão potentes – soprem, trompas, tão forte!

 

*******************************************************

To a stranger

Passing stranger! you do not know how longingly I look upon you,
You must be he I was seeking, or she I was seeking (it comes to me as of a dream),
I have somewhere surely lived a life of joy with you,
All is recall’d as we flit by each other, fluid, affectionate, chaste, matured,
You grew up with me, were a boy with me or a girl with me,
I ate with you and slept with you, your body has become not yours only nor left my body
mine only,
You give me the pleasure of your eyes, face, flesh, as we pass, you take of my beard, breast,
hands,in return,
I am not to speak to you, I am to think of you when I sit alone or wake at night alone,
I am to wait, I do not doubt I am to meet you again,
I am to see to it that I do not lose you.

*

I am he that aches with amorous love

I am he that aches with amorous love
Does the earth gravitate? does not all matter, aching, attract all matter?
So the body of me to all I meet or know.

*

Youth, Day, Old Age and Night

Youth, large, lusty, loving – youth full of grace, force, fascination,
Do you know that Old Age may come after you with equal grace, force, fascination?
Day full-blown and splendid – day of the immense sun, action, ambition, laughter,
The Night follows close with millions of suns, and sleep, and restoring darkness.

*

When I heard the learn’d astronomer

When I heard the learn’d astronomer,
When the proofs, the figures, were ranged in columns before me,
When I was shown the charts and diagrams, to add divide and measure them,
When I sitting heard the astronomer where he lectured with much applause in the lecture-room,
How soon unaccountable I became tired and sick,
Till rising and gliding out I wander’d off by myself,
In the mystical moist night-air, and from time to time,
Look’d up in perfect silence at the stars.

*

O captain! my captain!

O Captain! my Captain! our fearful trip is done,
The ship has weather’d every rack, the prize we sought is won,
The port is near, the bells I hear, the people all exulting,
While follow eyes the steady keel, the vessel grim and daring;
      But O heart! heart! heart!
      O the bleeding drops of red,
      Where on the deck my Captain lies,
                Fallen cold and dead.

O Captain! my Captain! rise up and rear the bells;
Rise up – for you the flag is flung – for you the bugle trills,
For you bouquets and ribbon’d wreaths – for you the shores a-crowding,
For you they call, the swaying mass, their eager faces turning;
      Here Captain! dear father!
      The arm beneath your head!
      It is some dream that on the deck,}
                You’ve fallen cold and dead.

My Captain does not answer, his lips are pale and still,
My father does not feel my arm, he has no pulse nor will,
The ship is anchor’d safe and sound, its voyage closed and done,
From fearful trip the victor ship comes in with object won:
      Exult O shores and ring O bells!
      But I with mournful tread,
      Walk the deck my Captain lies,
                Fallen cold and dead.

*

Beat! beat! drums!

Beat! beat! drums!—blow! bugles! blow!
Through the windows—through doors—burst like a ruthless force,
Into the solemn church, and scatter the congregation,
Into the school where the scholar is studying,
Leave not the bridegroom quiet—no happiness must he have now with his bride,
Nor the peaceful farmer any peace, ploughing his field or gathering his grain,
So fierce you whirr and pound you drums—so shrill you bugles blow.

Beat! beat! drums!—blow! bugles! blow!
Over the traffic of cities—over the rumble of wheels in the streets;
Are beds prepared for sleepers at night in the houses? no sleepers must sleep in those beds,
No bargainers’ bargains by day—no brokers or speculators—would they continue?
Would the talkers be talking? would the singer attempt to sing?
Would the lawyer rise in the court to state his case before the judge?
Then rattle quicker, heavier drums—you bugles wilder blow.

Beat! beat! drums!—blow! bugles! blow!
Make no parley—stop for no expostulation,
Mind not the timid—mind not the weeper or prayer,
Mind not the old man beseeching the young man,
Let not the child’s voice be heard, nor the mother’s entreaties,
Make even the trestles to shake the dead where they lie awaiting the hearses,
So strong you thump O terrible drums—so loud you bugles blow.

 

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“Saudades da pátria”, dois poemas de Marina Tsvetáieva

Marina Tsvetaeva, photo for passport on eve of return to Russia (France, 1939) cvetaeva

“Saudades da pátria”, dois poemas de Marina Tsvetáieva;
Tradução por André Nogueira (2017),
Publicação em homenagem ao Dia Internacional do Refugiado, 20 de junho 2017.
Imagem: Marina Tsvetáieva, foto no passaporte de retorno para a União Soviética, 1939.

* * *

Saudades da pátria! Com esse mal
Há muito tempo que eu luto!
Para mim é absolutamente igual
Onde estar só em absoluto.

Quais cascalhos que eu arranhe
Arrastando o carrinho de feira
Para a casa, que me é de todo estranha –
Se hospital ou se caserna, como queira.

A mim é indiferente, qual o povo
Que há de ver em cativeiro
A leonina minha crespa cabeleira,
Ou me expulsar – de novo! –

Ao deserto dessa minha solidão.
Urso polar apartado do gelo
Onde não posso viver (e não faço questão!),
Tanto me faz – onde será o pesadelo.

Não me ilude o chamado longínquo
Da materna minha língua, que convida… –
Não me importa, em qual língua
Serei mal-compreendida.

(O leitor de jornais, o ouvinte
De notícias, fuçador de mexericos…)
Ele – é do século vinte,
E eu – de todo século abdico!

Como um tronco que a esmo
Vê na rua em seu redor passar a gente,
Para mim é indiferente, dá no mesmo –
E, talvez, de tudo o mais indiferente

Seja a pátria onde se acha.
Cada marca dela em mim que se esconde
Vou despir, de cima a baixo:
Eis a alma, que nasceu – tanto faz onde.

E eu também, para a pátria, tanto faço, –
De frente para trás, de trás para frente,
Investigue se encontra dela traço,
Inspetor, em minha alma indiferente!

Estranha é cada casa, vazios todos os templos, –
E tudo indiferente, e tudo igual.
Mas basta que um arbusto eu contemple, –
Eis a sorva – da terra natal…

1934

PÁTRIA

Oh, meu implacável idioma!
Como ouvisse simplesmente uma campônia,
Uma rústica canção que murmurinha:
– Rússia, pátria minha!

No horizonte, atrás da cordilheira,
Pátria minha – e estrangeira! –
Ela mostrou-se para mim:
Terra distante, lá dos últimos confins!

Distância, minha sôfrega doença,
A tal ponto é minha pátria de nascença
Que carrego, aonde for, essa distância –
Minha parte que está fora do alcance.

Distância, que se afasta e não me solta,
Distância, que me diz: “Rápido volta
Para casa!
……………..No horizonte estrela branca
Que de todos os lugares me arranca!

Do suor da caminhada só me resta
Inundar a vastidão da minha testa.

Tu, hei de perder-me nos teus braços!
Com os lábios selarei, ao pé do cadafalso:
Pátria minha – prometida! –
Onde se encontra a perdição da minha vida.

12 de maio 1932

* * *

Тоска по родине! Давно
Разоблаченная морока!
Мне совершенно все равно —
Где — совершенно одинокой

Быть, по каким камням домой
Брести с кошелкою базарной
В дом, и не знающий, что — мой,
Как госпиталь или казарма.

Мне все равно, каких среди
Лиц ощетиниваться пленным
Львом, из какой людской среды
Быть вытесненной — непременно —

В себя, в единоличье чувств.
Камчатским медведем без льдины
Где не ужиться (и не тщусь!),
Где унижаться — мне едино.

Не обольщусь и языком
Родным, его призывом млечным.
Мне безразлично, на каком
Непонимаемой быть встречным!

(Читателем, газетных тонн
Глотателем, доильцем сплетен…)
Двадцатого столетья — он,
А я — до всякого столетья!

Остолбеневши, как бревно,
Оставшееся от аллеи,
Мне все — равны, мне всё — равно;
И, может быть, всего равнее —

Роднее бывшее — всего.
Все признаки с меня, все меты,
Все даты — как рукой сняло:
Душа, родившаяся — где-то.

Так край меня не уберег
Мой, что и самый зоркий сыщик
Вдоль всей души, всей — поперек!
Родимого пятна не сыщет!

Всяк дом мне чужд, всяк храм мне пуст,
И всё — равно, и всё — едино.
Но если по дороге — куст
Встает, особенно — рябина …

1934

РОДИНА

О, неподатливый язык!
Чего бы попросту — мужик,
Пойми, певал и до меня:
«Россия, родина моя!»

Но и с калужского холма
Мне открывалася она —
Даль, тридевятая земля!
Чужбина, родина моя!

Даль, прирожденная, как боль,
Настолько родина и столь —
Рок, что повсюду, через всю
Даль — всю ее с собой несу!

Даль, отдалившая мне близь,
Даль, говорящая: «Вернись
Домой!»
……………..Со всех — до горних звезд —
Меня снимающая мест!

Недаром, голубей воды,
Я далью обдавала лбы.

Ты! Сей руки своей лишусь,—
Хоть двух! Губами подпишусь
На плахе: распрь моих земля —
Гордыня, родина моя!

12 мая 1932

 

 

 

A Revolução Não Acontecerá Pela Internet (cover de Gil Scott-Heron), de Ezequiel Zaidenwerg

Tradução: Lubi Prates

Você não vai poder ficar em casa, amigo.
Você não vai poder desativar o roaming ou roubar o wi-fi do vizinho.
Você não vai poder continuar jogando Candy Crush
ou olhando as fotos de gatinhos no Facebook
porque a revolução não acontecerá pela internet.

A revolução não acontecerá pela internet.

A revolução não será vista com filtros do Snapchat ou Instagram,
num p&b vintage ou, previsivelmente, apenas em branco.
A revolução não virá por drone ou se organizará pela deep web
ou estourará quando vazar o sex tape onde Donald Trump, Marine Le Pen e Putin
gozam como porcos com as mãos de Perón restauradas,
com nail art e germicida gel.

A revolução não acontecerá pela internet.

A revolução não sairá, com exclusividade, no Netflix, produzida pelo Tom Hanks, dirigida pelo Oliver Stone e protagonizada pelo Gael García Bernal porque ser progressista não diminui a elegância.
A revolução não esculpirá milimetricamente em você o abdômen com o qual sempre sonhou,
ou te dotará com um milagroso pau com garras,
ou te fará crescer uma barba de lenhador mais forte e mais sedosa,
porque a revolução não acontecerá pela internet, amigo.
A revolução não apagará por dermobrasão
essa tatuagem do Che que você fez nos anos noventa.
Não aumentará o tráfego do seu site, não te dará mil likes,
não te transformará em um Twitterstar ou num garanhão do Tinder.
A revolução, se acontecer, não será coisa de machões.

A revolução não acontecerá pela internet.

Não verá por streaming a polícia reprimindo,
metendo bala de borracha e gás lacrimogênio,
porque minha avó contou que um taxista lhe disse
que escutou no rádio que esses manifestantes
não gostam de trabalhar, mas precisamos de um país sério,
uma revolução de alegria.
Ninguém deixará comentários anônimos
nos sites dos jornais e ninguém assistirá
Dança dos famosos ou Almoço com as estrelas
ou a Primeira Divisão, ninguém falará sobre o Fantástico
ou sobre o Fala que eu escuto.
E as crianças, em vez de caçar Pokémon,
estarão nas ruas buscando algo melhor.

Não será trending topic ou tema de algum documentário
coproduzido pela UNESCO e pela Goldman Sachs, que mencione de passagem o #NiUnaMenos,
e seja narrado pelos filhos importados de Brad Pitt e Angelina.
O soundtrack não será U2 nem Mano Chao.
Calle 13 também não fará seu “grãozinho de areia” pela paz e se falará de Silvio Rodriguez menos ainda:
ele estará procurando seu unicórnio.

A revolução não acontecerá pela internet.

A revolução não será monetizada pelo Adsense, mas se você quiser
poderá inseri-la no seu perfil do Linkedin que, como todo mundo sabe,
é a mentira mais piedosa do capitalismo.
A revolução não passará no desafio da brancura.
A revolução não arrancará o tigre que há em você, nem o empresário.
A revolução não limpará sua privada ou sua mente liberal.
A revolução não te vestirá a camiseta ou a calça.
A revolução vai te pilhar.

A revolução não estará em todos os seus dispositivos, amigo.
A revolução será ao vivo.


LA REVOLUCIÓN NO VA A SER POR INTERNET (CÓVER DE GIL SCOTT-HERON)

No te vas a poder quedar en casa, amigo.
No vas a poder desactivar el roaming ni colgarte al Wi-Fi del vecino.
No vas a poder colgarte jugando al Candy Crush,
ni mirando las fotos de gatitos en Facebook,
porque la revolución no va a ser por internet.

La revolución no va a ser por internet.

La revolución no se va a ver con filtros de Snapchat o de Instagram,
en blanco y negro vintage o predeciblemente sólo en blanco.
La revolución no va ser por drone, ni se va a organizar en la deep web,
ni va a estallar cuando se filtre el sex tape de Donald Trump, Marine Le Pen y Putin
gozando como chanchos con las manos de Perón restauradas
con nail art colorinche y germicida en gel.

La revolución no va a ser por internet.

La revolución no va a salir en exclusiva en Netflix, producida por Tom Hanks, dirigida por Oliver Stone y protagonizada por Gael García Bernal, porque lo progre no quita lo coqueto.
La revolución no te va a esculpir milimétricamente los abdominales que siempre soñaste,
ni te va a dotar de un portentoso miembro prensil,
ni te va a hacer crecer la barba de leñador más fuerte y más sedosa,
porque la revolución no va a ser por internet, amigo.
La revolución no te va a borrar por dermoabrasión
ese tatuaje del Che que te hiciste en los noventa.
No va aumentar el tráfico de tu página web, no te va a dar miles de likes,
no te va a hacer un tuítstar ni un semental de Tinder.
La revolución, si es, no va a ser cosa de varones.

La revolución no va a ser por internet.

No vas a ver por streaming a la yuta reprimiendo,
meta bala de goma y gases lacrimógenos,
porque dice mi abuela que le dijo un taxista
que lo escuchó en la radio que a esos cabecitas negras
al final no les gusta laburar, y acá necesitamos un país en serio,
una revolución de la alegría.
Ya nadie va a dejar comentarios anónimos
en la web de los diarios, y nadie va a mirar
Bailando por un sueño ni Almorzando con Mirtha
ni Fútbol de primera, y ni hablar de La noche del domingo
y las Gatitas y ratones de Porcel.
Y los pibes, en vez de cazar Pokemones,
van a estar en la calle buscando algo mejor.

La revolución no va a ser por internet.

No va a ser trending topic, ni van a hablar de ella en un documental
coproducido por la UNESCO y Goldman Sacks que mencione al pasar a #NiUnaMenos,
narrado por los hijos importados de Brad Pitt y Angelina.
La banda de sonido no va a ser de U2 ni Manu Chao.
Calle 13 tampoco va a poner su granito de arena, y de Silvio ni hablar:
todavía va a estar buscando su unicornio.

La revolución no va a ser por internet.

La revolución no va a ser monetizable por Adsense, pero si vos querés
vas a poder ponerla en tu perfil de LinkedIn que, como todo el mundo sabe,
es la mentira más piadosa del capitalismo.
La revolución no va a pasar el desafío de la blancura.
La revolución no va a sacar el tigre que hay en vos, ni el empresario.
La revolución no te va a limpiar el inodoro, ni la conciencia biempensante.
La revolución no te va a poner la camiseta, ni los pantalones.
La revolución te va a obligar a ponerte las pilas.

La revolución no va a estar en todos tus dispositivos, amigo.
La revolución va a ser en vivo.

V, dos Sonetos do português, de Elizabeth Barrett Browning

beth

Sonetos do português, V
Tradução: Victor M. P. de Queiroz
Solenemente, eu ergo um coração que pesa,
tal qual outrora Electra a urna sepulcral,
e, olhando os olhos seus, eu faço derramal-
o: as cinzas aos seus pés. Contemple atento e veja

quão farta pira de pesar que em mim s’encerra,
e como tim’das chispas, de um ruivo feral,
queimam na massa cinza. E se seus pés, por mal,
fizerem desfazê-la inteiramente em trevas,

talvez não façam mal. Contudo, se, por vez,
esperar ao lado meu o vento vir soprar
o pó cinzento… os louros sobre a sua tez,

ó meu amado, não lhe haverão de escudar
de toda chama que lhe deva ferir, cres-
tar o cabelo abaixo. Afaste-se, então! Vá.

__________________________
I lift my heavy heart up solemnly,
As once Electra her sepulchral urn,
And, looking in thine eyes, I overturn
The ashes at thy feet. Behold and see

What a great heap of grief lay hid in me,
And how the red wild sparkles dimly burn
Through the ashen greyness. If thy foot in scorn
Could tread them out to darkness utterly,

It might be well perhaps. But if instead
Thou wait beside me for the wind to blow
The grey dust up,… those laurels on thine head,

O My beloved, will not shield thee so,
That none of all the fires shall scorch and shred
The hair beneath. Stand further off then! Go.

Sento a coser, de Alice Moore Dunbar-Nelson

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Sento a coser
Tradução: Victor Martins Pinto de Queiroz

Sento a coser — tarefa à toa? talvez seja…
Cansam-se mãos, sonhar faz pesar-me a cabeça —
A panóplia da guerra, a marcha marcial
De rudes rostos, frios olhares sem igual
Entre as almas-padrão, que a Morte não têm visto
Nem a vida suster sabem, mais que um suspiro —
Mas — é mister sentar, coser.

Sento a coser — o peito ardente de desejos —
Aquele show atroz, chamas ferais, lampejos,
Em campos ermos; vis e sinuosas cousas —
Homens outrora. Alma apiedada, ousas
Aos prantos apelar, em ânsias de partir,
Ir lá, fero holocausto, aos campos de carpir —
Mas — é mister sentar, coser.

A parca e vã costura, esta estática emenda;
Por que sonhar aqui, na familiar fazenda,
Quando lá longe, em lodo e pluviôse, os vivos
E os mortos a clamar por mim clamor penível?
Ó Cristo, eu sou precisa! É sonho de candura
Que me acena? Não… — futilíssima costura,
Sufocas-me — Deus! é mister sentar, coser?

***********************************

I sit and sew
Alice Moore Dunbar-Nelson
I sit and sew—a useless task it seems,
My hands grown tired, my head weighed down with dreams—
The panoply of war, the martial tread of men,
Grim-faced, stern-eyed, gazing beyond the ken
Of lesser souls, whose eyes have not seen Death,
Nor learned to hold their lives but as a breath—
But—I must sit and sew.

I sit and sew—my heart aches with desire—
That pageant terrible, that fiercely pouring fire
On wasted fields, and writhing grotesque things
Once men. My soul in pity flings
Appealing cries, yearning only to go
There in that holocaust of hell, those fields of woe—
But—I must sit and sew.

The little useless seam, the idle patch;
Why dream I here beneath my homely thatch,
When there they lie in sodden mud and rain,
Pitifully calling me, the quick ones and the slain?
You need me, Christ! It is no roseate dream
That beckons me—this pretty futile seam,
It stifles me—God, must I sit and sew?

Este processo, de Rafał Wojaczek

rafal

 

Este processo
Tradução: Gustavo Valdivino Silva

Este processo, isto é a vida impulsionada por uma vontade
Oposta a ele, porque encontra a morte
Dentro. Esta fricção, benevolente resistência
Voltada para estar em segundo plano

De um infinito. Esta pesada inércia
Pesando em direção a uma gênese acolhedora preenchida com
Sangue obsoleto. Esta propensão a cair
Em uma cama de certeza – um seguro e satisfeito interior

Este processo é a morte ainda não atravessada
Por qualquer pessoa na estrada; através da qual uma
Lembrança reversa dos mortos não brilha

Este processo, acredite, é real no tempo
Pelo qual o heroísmo vai amadurecer em meu peito
Para permitir-me cuidar apropriadamente em seu seio.

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Ten ruch

Ten ruch: tak, to jest życie, napędzane wolą
Sprzeciwu wobec siebie, gdyż znajduje śmierć
W sobie samym, to tarcie, dobrotliwy opór
Zmierzający do tego, by zostało w tle

Jednej nieskończoności, tez bezwład ciążenia
Ku przytulnej genezie wypełnionej krwią
Zastałego odoru, tę chęć opadnięcia
Na pewne łóżko, syte bezpieczeństwem dno.

Ten ruch jest umieraniem jeszcze nie przeżytym
Przez nikogo po drodze, której nie przebiegło
Wsteczne wspomnienie życia kogoś, kto już zmarł.

Ten ruch, uwierz, gdy mówię Ci, jest rzeczywisty
W czasie, który pozwoli dojrzeć bohaterstwu:
Takiemu, co uprawni z Twojej piersi ssać.

 

Bertold Brecht “corrige” os mitos: Prometeu, Édipo e Odisseu e as sereias

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Prometeu

considere um PROMETEU, os deuses são ignorantes e malignos, espertos na extorsão de sacrifícios, vivendo da gordura da terra. prometeu inventa o fogo e criminosamente o entrega aos deuses. eles o pegam e o amarram para que ele não possa entregar seu fogo aos humanos, ele fica sem saber nada sobre este fogo durante muito tempo, até que vê conflagrações vermelhas no horizonte: os deuses o usaram para incendiar e pilhar os humanos, os deuses apenas como coro intermitente.

Édipo

Naturalmente, eu sei que não convém ao trágico dar uma piscada para o espectador. Mas quando eu vi ou li o Édipo, eu sempre desejei que esta piscada tivesse acontecido. Pois não me entra na cabeça que Édipo não tenha nenhuma ideia do alcance de suas ações, de sua perversidade profunda. A tragédia se tornaria assim apenas mais trágica. Pois os verdadeiros golpes não chegam subitamente, como algo que nunca se imaginaria, mas como algo que já se previa. Sempre foi dito: eu não preciso temer isso ou aquilo, isso não pode acontecer, seria desumano demais. Daí isso acontece e tudo o que é humano acontece em sua máxima amplitude, na amplitude gigantesca do seu pavor. Se Édipo encontra verdadeiramente sem consciência a terrível notícia, então o seu desespero, pelo menos de acordo com as concepções de hoje, não é de todo fundamentado. Pois todos nós conhecemos o valor duvidoso do desespero que expressa qualquer devedor ou contratante inadimplente quando fala de motivos de força maior.

Odisseu e a sereias

Como se sabe, o astucioso Odisseu deixou-se amarrar no mastro do seu veículo quando se aproximava da ilha das sereias, mas entupiu os ouvidos dos remadores com cera, de forma que através da cera deles e de suas cordas, sua apreciação da arte permanecesse sem consequências ruins. À distância audível, rodeando a ilha, os servos surdos viram as sedutoras mulheres inflando suas gargantas e nosso herói se contorcendo no mastro, enquanto se esforçava para se soltar. Tudo passou aparentemente de acordo com o combinado e o previsto. Toda a Antiguidade acreditou no sucesso do ardil do astucioso. Serei eu o primeiro a levantar objeções? Então, eu direi assim: tudo bem, mas quem – além de Odisseu – diz que as sereias realmente cantaram diante do homem amarrado? Estas poderosas e habilidosas mulheres iriam realmente gastar sua arte com pessoas que não desfrutavam de nenhuma liberdade de movimento? É esta a essência da arte? Pois ao invés disso, eu preferiria supor que as gargantas infladas notadas pelos remadores xingavam com toda a força o provinciano maldito e cuidadoso, e que nosso herói realizou enfim suas contorções (como testemunhadas) porque estava morrendo de vergonha.

* O fragmento sobre Prometeu está no Diário de trabalho e data de Outubro de 1945 como reflexão-reação ao lançamento das bombas nucleares americanas sobre Hiroshima e Nagazaki. Já as variações sobre as histórias de Ulisses e as sereias e do Édipo foram escritas em 1933 e são parte de uma série de três partes chamada “Correções de mitos antigos” (Berichtigungen alter Mythen), que inclui também uma revisão da história de Candaules e Giges. Em nota à “correção” do mito de Ulisses e das sereias, Brecht faz referência à versão de Franz Kafka do mesmo mito, chamada O Silêncio das Sereias: “Para esta história encontra-se também uma correção escrita por Franz Kafka, ela realmente não parece mais crível nos novos tempos”.

Tradução: Tomaz Amorim Izabel

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Prometheus

erwäge einen PROMETHEUS, die götter sind unwissend und bösartig, schlau im erpressen von opfern, lebend von den fetten des lands. prometheus erfindet das feuer und übergibt es verbrecherischerweise den göttern. sie fangen und fesseln ihn, damit er nicht den menschen sein feuer ausliefern kann, von diesem feuer erfährt er lange nichts, dann sieht er rote feuersbrünste am horizont: die götter haben es benutzt, die menschen zu brandschatzen, die götter nur als chor auftretend.

Ödipus

Ich weiß natürlich, daß es dem Tragiker nicht ziemt, dem Zuschauer zuzublinzeln. Aber wenn ich Ödipus sah oder las, habe ich immer gewünscht, solches Blinzeln hätte sich geziemt. Denn es will mir nicht in den Kopf, daß Ödipus von der Tragweite seiner Taten, ihrer gründlichen Verruchtheit nicht doch eine Ahnung hat. Die Tragödie würde dadurch nur um so tragischer. Denn nicht das sind die eigentlichen Nackenschläge, wenn plötzlich eintrifft, was man nie geglaubt hätte, sondern wenn eintrifft, was man vorhergesehen hat. Man hat immer gesagt: dies oder das brauche ich nicht zu befürchten, das kann nicht eintreten, es wäre zu unmenschlich. Dann tritt es ein und all das, was menschlich ist, tritt in seinem ganzen Umfang auf, dem riesigen Umfang seines Schreckens. Trifft den tatsächlich unwissenden Ödipus die entsetzliche Kunde, dann ist seine Verzweiflung, jedenfalls nach heutigen Begriffen, nicht ganz so begründet. Kennen wir doch alle den zweifelhaften Wert der Verzweiflung, die jene Schuldner oder säumigen Vertragspartner äußern, wenn sie von der Vis major sprechen!

Odysseus

Bekanntlich ließ der listige Odysseus sich, als er sich der Insel der Sirenen näherte, an den Mast seines Fahrzeuges binden, aber den Ruderern verstopfte er mit Wachs die Ohren. so daß sein Kunstgenuß durch ihr Wachs und seine Stricke ohne schlimme Folgen bleiben mußte. In Hörweite, wie es ausgemacht war, an der Insel vorbeirudernd, sahen die tauben Knechte die verführerischen Weiber ihre Hälse blähen und unsern Helden sich am Mastbaum winden, als strebte er, davon loszukommen. Es verlief scheinbar alles nach Verabredung und Voraussage. Das ganze Altertum glaubte dem Schlauling das Gelingen seiner List. Sollte ich der erste sein, dem Bedenken aufsteigen? Ich sage mir nämlich so: alles gut, aber wer – außer Odysseus – sagt, daß die Sirenen wirklich sangen, angesichts des angebundenen Mannes? Sollten diese machtvollen und gewandten Weiber ihre Kunst wirklich an Leute verschwendet haben, die keine Bewegungsfreiheit besaßen? Ist das das Wesen der Kunst? Da möchte ich doch eher annehmen, die von den Ruderern wahrgenommenen geblähten Hälse schimpften aus voller Kraft auf den verdammten vorsichtigen Provinzler, und unser Held vollführte seine (ebenfalls bezeugten) Windungen, weil er sich doch noch zu guter Letzt genierte!