Obituário do Dr. Franz Kafka, por Milena Jesenská

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Milena Jesenská, no Národní Listy de Praga em 6 de Junho de 1924

Anteontem morreu no Sanatório de Kierling, nos arredores de Klosterneuburg em Viena, o Dr. Franz Kafka, um escritor alemão que viveu em Praga. Aqui poucos o conheciam porque ele era um solitário, uma pessoa que conhecia e se assustava com a vida. Ele esteve doente dos pulmões no último ano e, embora tenha tratado da doença, também a alimentou e incentivou conscientemente nos seus pensamentos. “Quando a alma e o coração não aguentam mais a carga, os pulmões pegam metade para si, para que o peso seja pelo menos dividido igualmente”, escreveu ele certa vez em uma carta, e assim foi também com a sua doença. Ela praticamente o dotou com uma delicadeza fantástica e uma sutileza espiritual terrivelmente inflexível. Humano, no entanto, ele descarregou sob os ombros de sua doença todo seu medo intelectual diante da vida. Ele era tímido, angustiado, sereno e bom, mas escreveu livros terríveis e dolorosos. Ele via o mundo cheio de demônios invisíveis que aniquilavam e despedaçavam as pessoas indefesas. Ele era perspicaz demais, sábio demais para poder viver e fraco demais para lutar com a fraqueza das pessoas nobres e belas que evitam a luta não por medo de desentendimentos, indelicadeza e mentira espiritual – embora saibam de antemão que são impotentes e que se submetem assim para expor o vencedor. Ele conhecia as pessoas como apenas um homem de grande sensibilidade nervosa podia conhecer, alguém que é solitário e que enxerga uma pessoa até no nível da profecia através de uma única pinta no rosto. Ele conhecia o mundo de uma maneira incomum e profunda, ele mesmo era um mundo incomum e profundo. Ele escrevia livros que fazem parte dos mais significativos da jovem literatura alemã. Neles está contida a luta da geração de hoje, ainda que sem palavras tendenciosas. Eles são tão verdadeiros, nus e dolorosos que funcionam realisticamente mesmo quando se expressam através de simbolismo. Eles estão cheios de zombaria seca e do assombro delicado de uma pessoa que tinha visto o mundo tão claramente que não o aguentou e precisou morrer, de uma pessoa que não queria retroceder e se salvar, como os outros em quaisquer erros intelectuais subconscientes, ainda que na melhor das intenções. Dr. Franz Kafka escreveu o fragmento “O foguista” (publicado em tcheco pela Červen de Neumann), o primeiro capítulo de um belo romance que ainda não foi publicado; “O Veredicto”, um conflito geracional; “A metamorfose”, o livro mais forte da moderna literatura alemã; “Na Colônia Penal”; “Um médico rural”; e os esboços de “Contemplação”. O último romance “Diante da lei” permanece em manuscrito, preparado já há anos para publicação. Ele pertence aos livros que após sua leitura deixam a impressão de um mundo completamente capturado, de forma que não se precisa inserir nem mais uma única palavra. Todos os seus livros descrevem o cinza dos desentendimentos secretos e da culpa involuntária entre as pessoas. Ele era uma pessoa e um artista de uma consciência tão fina que percebeu algo também lá, onde outros que não eram tão sensíveis se sentiam seguros.

* Milena Jesenská (1896-1944) foi uma jornalista, escritora, tradutora e militante que nasceu e passou a maior parte de sua vida em Praga. Traduziu parte da obra de Franz Kafka para o tcheco (que embora falasse tcheco fluentemente, escrevia em alemão) e teve com ele um curto relacionamento que rendeu à literatura alemã uma das suas mais belas e profundas correspondências, as célebres Cartas à Milena. Milena Jesenská fez parte de uma importante primavera feminista em Praga composta pelas alunas do Colégio Minerva. Adulta, foi perseguida pela família por casar com o escritor judeu Ernst Polak e por isso passou a viver em Viena. Ao retornar a Praga depois do divórcio, participou de coletivos feministas, socialistas e antifascistas. Teve uma filha, casou-se novamente, entrou e saiu do partido comunista, trabalhou como jornalista traduzindo (Rosa Luxemburgo, entre outros) e escrevendo artigos (agrupados na edição alemã em Alles ist Leben da editora Neue Kritik de Frankfurt em 1984). Com a ocupação nazista em 1939, perdeu o emprego e entrou na clandestinidade ajudando a organizar a fuga de refugiados judeus e não judeus da Tchecoslováquia, até ser ela mesma presa e enviada para o campo de concentração para mulheres de Ravensbrück onde morreu em 1944 com 47 anos. Margarete Buber-Neumann, que conheceu Jesenská no campo de concentração e teve com ela um relacionamento íntimo, sobreviveu e escreveu sobre ela uma bela biografia já traduzida para o português.

Tradução e nota: Tomaz Amorim Izabel

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Vorgestern starb im Sanatorium Kierling in der Nähe von Klosterneuburg bei Wien Dr. Franz Kafka, ein deutscher Schriftsteller, der in Prag lebte. Hier kannten ihn wenige, weil er ein Einzelgänger war, so ein wissender, vom Leben verschreckter Mensch; er war jahrelang lungenkrank, und obwohl er die Krankheit behandeln ließ, hat er sie doch wissentlich genährt und gedanklich gefördert. “Wenn die Seele und das Herz die Last nicht mehr ertragen, nimmt sie die Lunge zur Hälfte auf sich, damit das Gewicht wenigstens gleichmäßig verteilt ist”, schrieb er einmal in einem Brief, und so war auch seine Krankheit. Sie verlieh ihm eine geradezu wunderbare Zartheit und eine erschreckend kompromißlose geistige Subtilität; als Mensch lud er jedoch all seine intellektuelle Furcht vor dem Leben auf die Schultern seiner Krankheit. Er war scheu, ängstlich, sanft und gut, aber schrieb grausame und schmerzhafte Bücher. Die Welt sah er voller unsichtbarer Dämonen, die den ungeschützten Menschen vernichten und zerreißen. Er war zu hellsichtig, zu weise, um leben zu können, zu schwach, um mit der Schwäche der edlen, schönen Menschen zu kämpfen, die den Kampf nicht aus Furcht vor Mißverständnissen, Lieblosigkeiten und geistiger Lüge meiden, obwohl sie im voraus wissen, daß sie machtlos sind, und die so unterliegen, daß sie den Sieger bloßstellen. Er kannte die Menschen, wie sie nur ein Mann von großer nervlicher Empfindsamkeit zu kennen vermag, jemand, der einsam ist und einen Menschen sogar prophetisch an einem einzigen Aufflackern des Gesichts durchschaut. Er kannte die Welt auf ungewöhnliche und tiefe Weise, war selber eine ungewöhnliche und tiefe Welt. Er schrieb Bücher, die zum Bedeutendsten der jungen deutschen Literatur gehören; in ihnen ist der Kampf der heutigen Generation enthalten, jedoch ohne tendenziöse Worte. Sie sind so wahrhaft, nackt und schmerzlich, daß sie selbst dort, wo etwas symbolisch ausgedrückt wird, naturalistisch wirken. Sie sind voller trockenen Spotts und empfindsamen Erstaunens eines Menschen, der die Welt so klar gesehen hat, daß er das nicht ertrug und sterben mußte, denn er wollte nicht zurückweichen und sich wie andere in irgendwelche, wenn auch subjektiv ehrliche, unterbewußte intellektuelle Irrtümer retten. Dr. Franz Kafka schrieb das Fragment “Der Heizer” (es kam tschechisch in Neumanns Červen heraus), das erste Kapitel eines schönen Romans, der noch nicht veröffentlicht ist, “Das Urteil”, ein Generationenkonflikt, “Die Verwandlung”, das stärkste Buch der modernen deutsche Literatur, “In der Strafkolonie”, “Ein Landarzt” und die Skizzen “Betrachtung”. Der letzte Roman “Vor dem Gericht” liegt im Manuskript vor, schon jahrelang zum Druck vorbereitet. Er gehört zu den Büchern, die nach der Lektüre den Eindruck einer total erfaßten Welt hinterlassen, so daß man kein einziges Wort hinzuzufügen braucht. Alle seine Bücher schildern das Grauer heimlicher Mißverständnisse und unverschuldeter Schuld zwischen den Menschen. Er war ein Mensch und Künstler von so feinem Gewissen, daß er auch dort etwas spürte, wo sich andere, die nicht so empfindlich waren, ungefährdet fühlten.

* Edição consultada: JESENSKÁ, Milena. Alles ist Leben. Feuilletons und Reportagen 1919-1939. Tradução: Reinhard Fischer. Frankfurt: Neue Kritik KG, 1999, 105-106.

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A mosca, A rosa doente e a A árv’re envenenada, de William Blake

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Traduções: Victor M. P. de Queiroz

A Mosca

Parva Mosca,
Vosso vão brincar
Minha mão estulta
Fez esfacelar.

Não serei
Mosca como vós?
Ou será não sois
Homem como nós?

Pois eu danço,
Bebo e também canto,
‘Té que cegas mãos
Me as asas alcançam.

Se é viver pensar,
Ter força, ter alento,
Se morrer é ter
Falto o pensamento;

Saída há pouca:
Serei uma mosca,
Ainda que viva,
Ainda que morra.

______

A Rosa doente

Rosa, estás doente!
O verme invisível,
Que voa na noite,
Na treva terrível,

Encontrou teu leito
De gozo escarlate;
E dele o secreto
Mau amor te abate.

______

A árv’re envenenada
Tradução dedicada a Núria Pratginestós

Enfureceu-me um amigo.
Disse-lho, a ira foi consigo.
Enfureceu-me o adversário.
Nada disse: houve o contrário.

Banhou-se-me a ira, tarde
E manhã, em pranto covarde;
Banhou-se em sol de sorrisos
E bem-quereres fingidos,

Manhã e tarde crescia,
‘Té virar maçã sadia,
Que viu brilhar meu imigo:
Invejou-me estar comigo

A maçã, que fez roubar
Do jardim, sob o luar.
Manhã. Feliz, vejo, ao lado
D’árv’re, o vilão ‘statelado.

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William Blake

The Fly

Little Fly,
Thy summer’s play
My thoughtless hand
Has brush’d away.

Am not I
A fly like thee?
Or art not thou
A man like me?

For I dance,
And drink, and sing,
Till some blind hand
Shall brush my wing.

If thought is life
And strength and breath,
And the want
Of thought is death;

Then am I
A happy fly,
If I live
Or if I die.

___________

The sick Rose

O Rose, thou art sick!
The invisible worm,
That flies in the night,
In the howling storm,

Has found out thy bed
Of crimson joy;
And his dark secret love
Does thy life destroy.

___________

A poison tree

I was angry with my friend:
I told my wrath, my wrath did end.
I was angry with my foe:
I told it not, my wrath did grow.

And I water’d it in fears,
Night and morning with tears;
And I sunned it with smiles,
And with soft deceitful wiles.

And it grew both day and night,
Till it bore an apple bright;
And my foe beheld it shine,
And he knew that it was mine,

And into my garden stole
When the night had veil’d the pole:
In the morning glad I see
My foe outstretch’d beneath the tree.

Fracassos no infinitivo, de Bernadette Mayer

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Fracassos no infinitivo

Tradução: Mariana Ruggieri

por que estou fazendo isso? Fracasso para
manter meu emprego para então
poder encontrar coisas para
pintar a minha casa
ganhar dinheiro suficiente para viver para
poder pintar a casa & para
poder encontrar coisas e
ganhar dinheiro suficiente para então
poder costurar livros para
publicar obras e livros para
ter tempo para
responder correspondências & telefonemas para
lavar as janelas para
tornar a cozinha melhor para o trabalho para
ter dinheiro para comprar um rádio simples para
escutar enquanto trabalho na cozinha para
saber o suficiente para fazer no mundo o trabalho adulto para
transcender minha atitude para
uma pobreza compulsória para
poder esperar os cheques
chegar a tempo pelo correio para
não sempre esperar que eles não vão para
esquecer as atitudes da minha mãe com a humildade ou para
continuar a
assumir sem sofrer para
esquecer como minha mãe enlouquecia meu pai
com dinheiro, minha irmã sobre não posso dizer
fracasso para esquecer mãe e pai o suficiente para
ser mais velha, para esquecer para
esquecer meu tio obssessivo para
lembrar de outra maneira para
lembrar com precisão seus preconceitos para
cessar de sonhar com leões que para sempre é
sonhar com eles, eu coloco minha mão na boca do leão para
arrefecer sua raiva, isso não é um fracasso para
perceber que eles eram assim; fracasso para
trocar de planta os vasos para
ser organizada para
criar & manter superfícies limpas para
deixar um sofá ou uma cadeira ser um lugar para sentar
e não uma mesa para
deixar a mesa ser um lugar para comer & não uma escrivaninha para
escutar mais música popular para
aprender as letras para
não precisar de dinheiro para então
poder escrever o tempo todo para
não ter que pagar aluguel, condomínio ou contas de telefone
esquecer a morte precoce de pais e tios para então
ficar livre de esperar cuidados; fracasso para
amar objetos
encontrar neles qualquer valor; fracasso para
preservar objetos
comprar objetos e
agora deixar caídos na sarjeta; fracasso para
pensar em poemas como objetos
pensar o corpo como um objeto; fracasso para
acreditar; fracasso para
saber nada; fracasso para
saber tudo; fracasso para
lembrar como soletrar fracasso; fracasso para
acreditar no dicionário & que há algo para
alcançar; fracasso para
ensinar direito; fracasso para
acreditar no ensino para
só achar que todo mundo sabe tudo
que não é o meu fracasso; eu sei que todo mundo sabe; fracasso para
ver que não todo mundo acredita nesse saber e
pensar que não podemos durar até o sucesso do saber
lavar toda a louça leva apenas dez minutos
escrever mil poemas em uma hora para
fazer um épico, abra a janela suja para
deixar entrar você sabe quem e para
expirar pensamentos e poemas longe dos problemas para
deixar a gente saber, a gente deixa para
pintar seus tetos & paredes de graça

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Failures in Infinitives

Bernadette Mayer

why am i doing this? Failure
to keep my work in order so as
to be able to find things
to paint the house
to earn enough money to live on
to reorganize the house so as
to be able to paint the house &
to be able to find things and
earn enough money so as
to be able to put books together
to publish works and books
to have time
to answer mail & phone calls
to wash the windows
to make the kitchen better to work in
to have the money to buy a simple radio
to listen to while working in the kitchen
to know enough to do grownups work in the world
to transcend my attitude
to an enforced poverty
to be able to expect my checks
to arrive on time in the mail
to not always expect that they will not
to forget my mother’s attitudes on humility or
to continue
to assume them without suffering
to forget how my mother taunted my father
about money, my sister about i cant say it
failure to forget mother and father enough
to be older, to forget them
to forget my obsessive uncle
to remember them some other way
to remember their bigotry accurately
to cease to dream about lions which always is
to dream about them, I put my hand in the lion’s mouth
to assuage its anger, this is not a failure
to notice that’s how they were; failure
to repot the plants
to be neat
to create & maintain clear surfaces
to let a couch or a chair be a place for sitting down
and not a table
to let a table be a place for eating & not a desk
to listen to more popular music
to learn the lyrics
to not need money so as
to be able to write all the time
to not have to pay rent, con ed or telephone bills
to forget parents’ and uncle’s early deaths so as
to be free of expecting care; failure
to love objects
to find them valuable in any way; failure
to preserve objects
to buy them and
to now let them fall by the wayside; failure
to think of poems as objects
to think of the body as an object; failure
to believe; failure
to know nothing; failure
to know everything; failure
to remember how to spell failure; failure
to believe the dictionary & that there is anything
to teach; failure
to teach properly; failure
to believe in teaching
to just think that everybody knows everything
which is not my failure; I know everyone does; failure
to see not everyone believes this knowing and
to think we cannot last till the success of knowing
to wash all the dishes only takes ten minutes
to write a thousand poems in an hour
to do an epic, open the unwashed window
to let in you know who and
to spirit thoughts and poems away from concerns
to just let us know, we will
to paint your ceilings & walls for free

“Hasta ela, siempre”, de Gustavo Krämer

“Hasta ela, siempre”, de Gustavo Krämer

Tradução: Marília Moschkovich (para S. em uma despedida na estação de trem, no verão parisiense de dois mil e dezessete)

*

Te amo porque você me diz camarada,
Amadurecendo lutas por encontrar outros rumos, quando o abraço e o beijo são da honestidade da escolha, de abandonar imposições, de nos livrarmos das condições culturais e ver como as ruas se engrandecem contigo;

Te amo pela potência de tua voz,
Gritando os pulmões por novos ares e novos seres, por mais bandeiras e eternos amanheceres, lançando o véu militante que se eleva sobre o asfalto frio da violência das cidades de fúria;

E te amo também por teu ânimo irreverente,
Redentor meu frente à dureza de meus pré-juízos, humildade tua para entender meus conflitos, trazendo calma e respeitando meu passo, sorrindo cúmplice ao me ver gozar aquilo que negava;

Te amo sem eternidade ou prazos fixos,
Pois tua geografia corrói os mapas do romantismo, leva crise às economias e me permite pensar novas regras e antropologias. Regras subvertidas. Um mundo sem bancos ou promessas vazias;

Te amo até os confins de tua ideologia,
Pelo egoísmo de querer estar bem e ser melhor, cravado na contradição de me saciar para me solidarizar, e percebendo que sem próximo não há eu, nem festas nem banquetes nem manhãs nem o rosado do céu;

Te amo porque não há objeto, nem amos nem domínio,
Porque não existe outro tempo que não o momento, marcado na memória que registra o trajeto, para lembrar sempre que vivemos para ser um constante novo projeto.

Te amo

Até sermos livres

E te espero

Para que tragas em teus braços

A vitória de todos

Até ela, te amo

Hasta ela, siempre.

*


HASTA ELLA, SIEMPRE
(poema de Gustavo Krämer, originalmente em seu blog)

Te amo porque me llamás compañero..
Madurando luchas por encontrar otro rumbo, cuando el abrazo y el beso son por la honestidad que estructura la elección, de abandonar las imposiciones, de librarnos de la condición cultural y ver cómo las calles se ensanchan con vos.

Te amo por lo potentente de tu voz..
Gritando los pulmones por nuevos aires y nuevos seres, por más banderas y eternos amaneceres, bancando el lienzo militante que se alza sobre el asfalto frío de la violencia de las ciudades de furia.

Et amo también por tu ánimo irreverente..
Redentor mío ante la dureza de mis prejuicios, humildad tuya para entender mis conflictos, dándome calma, respetando mi ritmo, sonriendo cómplice al verme disfrutar de lo que antes negaba.

Te amo, sin eternidad ni plazos fijos…
Porque tu geografía deteriora los mapas del romanticismo, lleva a crisis las economías y me permite pensar nuevas reglas y antropologías. Reglas subvertidas. Un mundo sin bancos ni promesas vacías.

Te amo hasta los confines de tu ideología
Por el egoismo de querer estar bien y ser mejor, enclavado en la contradicción de saciarme para solidarizarme, trayendo a cuentas que sin prójimo no hay uno, ni fiestas ni banquetes ni mañanas ni rocío.

Te amo porque no hay objeto, ni amos ni dominios.
Porque no existe otro tiempo que el del momento, afianzado en memoria que registre el trayecto, para siempre tener en cuenta que vivimos para ser un constante nuevo proyecto.

Te amo

Hasta ser libres

Y te espero

Para que traigas en brazos

La victoria de todxs.

Hasta ella, te amo.

Hasta ella, siempre.

Seis poemas de Walt Whitman

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Traduções de Victor M. P. de Queiroz

A alguém que passa

Estranha que passa! nem sonha quão longo meu olhar delonga sobre si,
Deve você ser ele ou ela, ser quem busco (vem-me como se de um sonho),
Outrora, decerto, uma vida de gozo consigo eu vivi,
Tudo aflora, no entrecruzamento afetuoso, fluido, casto, amadurado, de nós:
Você cresceu comigo, foi guri comigo ou foi guria,
Eu fiz comer, dormir consigo, o corpo seu não mais foi seu, nem meu o meu foi mais,
apenas,
Você me dá o prazer dos olhos seus, da face, carne, quando passo, e tira-me das mãos, da
barba, peito, o estorno,
Não lhe devo falar, mas pensar em si, se sento só ou quando insone,
Devo esperar, sem duvidar que a venha ver de novo,
E disso ver surgir você, que eu não a perco.

*

Eu sou quem arde com amor ardente
Tradução dedicada a Levi Fernando

Eu sou quem arde com amor ardente;
A terra não gravita? Matéria não atrai, ardendo, mais matéria?
Pois bem meu corpo o que conhece, encontra…

*

Juventude, Dia, Velhice e Noite

Juventude, larga, de langor, de amor – plena de graça, força e fascínio,
Sabe você que a poderá seguir Velhice de igual graça, de igual força e igual fascínio?
Dia perflorescido e esplêndido – dia do imenso sol, de ação, de ambição, de júbilo,
A Noite o segue de perto com milhões de sóis, e sono, e a cura que vem no escuro.

*

Quando escutei o culto astrônomo
Tradução dedicada a Tamara Martinez

Quando escutei o culto astrônomo,
Quando provas, figuras, em colunas frente a mim foram içadas,
Quando se me mostraram cartas, diagramas, que somasse, dividisse, mensurasse,
Quando escutei, sentado, lecionar o astrônomo entre mil aplausos, na sala de aulas,
Quanto me não senti, breve, enfarado e febril,
‘Té que, por conta própria, levantei-me e fui, meti-me
Na umidade mística do ar da noite, e, de tempo em tempo,
Tudo em silêncio: eu contemplava estrelas.

*

O’ Capitão! meu Capitão!

O’ Capitão! meu Capitão! é finda a temível viagem,
O prêmio querido é ganho, a nau sobrevivera à voragem,
E é perto o porto: sinos que ouço, o povo todo que exulta,
Olhos seguindo a quilha firme, e a nave ousada e enxuta;
      Mas O’ peito! coração!
      O’ pinga o fluido acarminado
      Onde, convés, deita meu Capitão,
            Onde jaz frio, finado.

O’ Capitão! meu Capitão! levanta-te e ouve os sinos;
Levanta – por ti freme a flâmula, e as trompas trinam,
Para ti buquês, guirlandas, laços – por ti as praias se enchem
Por ti clama a massa que balança, virando os rostos tensos;
Capitão, aqui! O’ pai que amei!
Sob tua nuca, meu braço pousado!
És no convés um sonho que sonhei,
Teres caído frio, finado?

Meu Capitão não me responde: seu lábio é imóvel, baço…
Sem pulso ou ímpeto, meu pai sequer me sente o toque do braço.
É feito e findo o giro, salva e sã está a nau da voragem,
Vinda, co’o prêmio ganho à bordo, de tão temível viagem:
Exultai, praias! O’ sinos, dobrai!
Mas, aqui, andarei enlutado,
Convés onde jaz, Capitão, meu pai,
Onde jaz frio, finado.

*

Batam! batam! peles!

Batam! batam! peles! – Soprem! trompas! assoprem!
Varem portas, janelas, rude e impetuosamente
Adentrem templos solenes – e espantem os congregados -,
Escolas onde estudam doutores;
Não deixem noivos a sós – não haverá gôzo entre cônjuges
Nem paz aos fazendeiros pacatos, seja durante arada ou colheita:
Das peles tão feroz quizumba – e agudas soprem, trompas!

Batam! batam! peles! – Soprem! trompas! assoprem!
Sobre o tráfego urbano – sobre as rinhas de rodas nas ruas;
Há camas feitas para os que têm sono? Não haverá dormir sobre elas,
Não haverá barganhas de corretores ou agiotas, como prosperarão?
Palrará o palrador? O cantor, ele ousará cantar?
Na côrte se erguerá perante o júri o homem de leis de algo em defesa?
Pois rufem presto e forte, peles! – trompas, soprem ferozes!

Batam! batam! peles! – Soprem! trompas! assoprem!
Indiscutível, irrefreavelmente!
Irrelevantes tímidos, suplicantes ou carpideiras,
Os velhos implorando pelos jovens…
Não se ouça a voz das crianças, o apelo das mães,
Trema mesmo dos mortos o repouso último em que o saimento esperam:
Ó peles, golpes tão potentes – soprem, trompas, tão forte!

 

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To a stranger

Passing stranger! you do not know how longingly I look upon you,
You must be he I was seeking, or she I was seeking (it comes to me as of a dream),
I have somewhere surely lived a life of joy with you,
All is recall’d as we flit by each other, fluid, affectionate, chaste, matured,
You grew up with me, were a boy with me or a girl with me,
I ate with you and slept with you, your body has become not yours only nor left my body
mine only,
You give me the pleasure of your eyes, face, flesh, as we pass, you take of my beard, breast,
hands,in return,
I am not to speak to you, I am to think of you when I sit alone or wake at night alone,
I am to wait, I do not doubt I am to meet you again,
I am to see to it that I do not lose you.

*

I am he that aches with amorous love

I am he that aches with amorous love
Does the earth gravitate? does not all matter, aching, attract all matter?
So the body of me to all I meet or know.

*

Youth, Day, Old Age and Night

Youth, large, lusty, loving – youth full of grace, force, fascination,
Do you know that Old Age may come after you with equal grace, force, fascination?
Day full-blown and splendid – day of the immense sun, action, ambition, laughter,
The Night follows close with millions of suns, and sleep, and restoring darkness.

*

When I heard the learn’d astronomer

When I heard the learn’d astronomer,
When the proofs, the figures, were ranged in columns before me,
When I was shown the charts and diagrams, to add divide and measure them,
When I sitting heard the astronomer where he lectured with much applause in the lecture-room,
How soon unaccountable I became tired and sick,
Till rising and gliding out I wander’d off by myself,
In the mystical moist night-air, and from time to time,
Look’d up in perfect silence at the stars.

*

O captain! my captain!

O Captain! my Captain! our fearful trip is done,
The ship has weather’d every rack, the prize we sought is won,
The port is near, the bells I hear, the people all exulting,
While follow eyes the steady keel, the vessel grim and daring;
      But O heart! heart! heart!
      O the bleeding drops of red,
      Where on the deck my Captain lies,
                Fallen cold and dead.

O Captain! my Captain! rise up and rear the bells;
Rise up – for you the flag is flung – for you the bugle trills,
For you bouquets and ribbon’d wreaths – for you the shores a-crowding,
For you they call, the swaying mass, their eager faces turning;
      Here Captain! dear father!
      The arm beneath your head!
      It is some dream that on the deck,}
                You’ve fallen cold and dead.

My Captain does not answer, his lips are pale and still,
My father does not feel my arm, he has no pulse nor will,
The ship is anchor’d safe and sound, its voyage closed and done,
From fearful trip the victor ship comes in with object won:
      Exult O shores and ring O bells!
      But I with mournful tread,
      Walk the deck my Captain lies,
                Fallen cold and dead.

*

Beat! beat! drums!

Beat! beat! drums!—blow! bugles! blow!
Through the windows—through doors—burst like a ruthless force,
Into the solemn church, and scatter the congregation,
Into the school where the scholar is studying,
Leave not the bridegroom quiet—no happiness must he have now with his bride,
Nor the peaceful farmer any peace, ploughing his field or gathering his grain,
So fierce you whirr and pound you drums—so shrill you bugles blow.

Beat! beat! drums!—blow! bugles! blow!
Over the traffic of cities—over the rumble of wheels in the streets;
Are beds prepared for sleepers at night in the houses? no sleepers must sleep in those beds,
No bargainers’ bargains by day—no brokers or speculators—would they continue?
Would the talkers be talking? would the singer attempt to sing?
Would the lawyer rise in the court to state his case before the judge?
Then rattle quicker, heavier drums—you bugles wilder blow.

Beat! beat! drums!—blow! bugles! blow!
Make no parley—stop for no expostulation,
Mind not the timid—mind not the weeper or prayer,
Mind not the old man beseeching the young man,
Let not the child’s voice be heard, nor the mother’s entreaties,
Make even the trestles to shake the dead where they lie awaiting the hearses,
So strong you thump O terrible drums—so loud you bugles blow.

 

“Saudades da pátria”, dois poemas de Marina Tsvetáieva

Marina Tsvetaeva, photo for passport on eve of return to Russia (France, 1939) cvetaeva

“Saudades da pátria”, dois poemas de Marina Tsvetáieva;
Tradução por André Nogueira (2017),
Publicação em homenagem ao Dia Internacional do Refugiado, 20 de junho 2017.
Imagem: Marina Tsvetáieva, foto no passaporte de retorno para a União Soviética, 1939.

* * *

Saudades da pátria! Com esse mal
Há muito tempo que eu luto!
Para mim é absolutamente igual
Onde estar só em absoluto.

Quais cascalhos que eu arranhe
Arrastando o carrinho de feira
Para a casa, que me é de todo estranha –
Se hospital ou se caserna, como queira.

A mim é indiferente, qual o povo
Que há de ver em cativeiro
A leonina minha crespa cabeleira,
Ou me expulsar – de novo! –

Ao deserto dessa minha solidão.
Urso polar apartado do gelo
Onde não posso viver (e não faço questão!),
Tanto me faz – onde será o pesadelo.

Não me ilude o chamado longínquo
Da materna minha língua, que convida… –
Não me importa, em qual língua
Serei mal-compreendida.

(O leitor de jornais, o ouvinte
De notícias, fuçador de mexericos…)
Ele – é do século vinte,
E eu – de todo século abdico!

Como um tronco que a esmo
Vê na rua em seu redor passar a gente,
Para mim é indiferente, dá no mesmo –
E, talvez, de tudo o mais indiferente

Seja a pátria onde se acha.
Cada marca dela em mim que se esconde
Vou despir, de cima a baixo:
Eis a alma, que nasceu – tanto faz onde.

E eu também, para a pátria, tanto faço, –
De frente para trás, de trás para frente,
Investigue se encontra dela traço,
Inspetor, em minha alma indiferente!

Estranha é cada casa, vazios todos os templos, –
E tudo indiferente, e tudo igual.
Mas basta que um arbusto eu contemple, –
Eis a sorva – da terra natal…

1934

PÁTRIA

Oh, meu implacável idioma!
Como ouvisse simplesmente uma campônia,
Uma rústica canção que murmurinha:
– Rússia, pátria minha!

No horizonte, atrás da cordilheira,
Pátria minha – e estrangeira! –
Ela mostrou-se para mim:
Terra distante, lá dos últimos confins!

Distância, minha sôfrega doença,
A tal ponto é minha pátria de nascença
Que carrego, aonde for, essa distância –
Minha parte que está fora do alcance.

Distância, que se afasta e não me solta,
Distância, que me diz: “Rápido volta
Para casa!
……………..No horizonte estrela branca
Que de todos os lugares me arranca!

Do suor da caminhada só me resta
Inundar a vastidão da minha testa.

Tu, hei de perder-me nos teus braços!
Com os lábios selarei, ao pé do cadafalso:
Pátria minha – prometida! –
Onde se encontra a perdição da minha vida.

12 de maio 1932

* * *

Тоска по родине! Давно
Разоблаченная морока!
Мне совершенно все равно —
Где — совершенно одинокой

Быть, по каким камням домой
Брести с кошелкою базарной
В дом, и не знающий, что — мой,
Как госпиталь или казарма.

Мне все равно, каких среди
Лиц ощетиниваться пленным
Львом, из какой людской среды
Быть вытесненной — непременно —

В себя, в единоличье чувств.
Камчатским медведем без льдины
Где не ужиться (и не тщусь!),
Где унижаться — мне едино.

Не обольщусь и языком
Родным, его призывом млечным.
Мне безразлично, на каком
Непонимаемой быть встречным!

(Читателем, газетных тонн
Глотателем, доильцем сплетен…)
Двадцатого столетья — он,
А я — до всякого столетья!

Остолбеневши, как бревно,
Оставшееся от аллеи,
Мне все — равны, мне всё — равно;
И, может быть, всего равнее —

Роднее бывшее — всего.
Все признаки с меня, все меты,
Все даты — как рукой сняло:
Душа, родившаяся — где-то.

Так край меня не уберег
Мой, что и самый зоркий сыщик
Вдоль всей души, всей — поперек!
Родимого пятна не сыщет!

Всяк дом мне чужд, всяк храм мне пуст,
И всё — равно, и всё — едино.
Но если по дороге — куст
Встает, особенно — рябина …

1934

РОДИНА

О, неподатливый язык!
Чего бы попросту — мужик,
Пойми, певал и до меня:
«Россия, родина моя!»

Но и с калужского холма
Мне открывалася она —
Даль, тридевятая земля!
Чужбина, родина моя!

Даль, прирожденная, как боль,
Настолько родина и столь —
Рок, что повсюду, через всю
Даль — всю ее с собой несу!

Даль, отдалившая мне близь,
Даль, говорящая: «Вернись
Домой!»
……………..Со всех — до горних звезд —
Меня снимающая мест!

Недаром, голубей воды,
Я далью обдавала лбы.

Ты! Сей руки своей лишусь,—
Хоть двух! Губами подпишусь
На плахе: распрь моих земля —
Гордыня, родина моя!

12 мая 1932

 

 

 

A Revolução Não Acontecerá Pela Internet (cover de Gil Scott-Heron), de Ezequiel Zaidenwerg

Tradução: Lubi Prates

Você não vai poder ficar em casa, amigo.
Você não vai poder desativar o roaming ou roubar o wi-fi do vizinho.
Você não vai poder continuar jogando Candy Crush
ou olhando as fotos de gatinhos no Facebook
porque a revolução não acontecerá pela internet.

A revolução não acontecerá pela internet.

A revolução não será vista com filtros do Snapchat ou Instagram,
num p&b vintage ou, previsivelmente, apenas em branco.
A revolução não virá por drone ou se organizará pela deep web
ou estourará quando vazar o sex tape onde Donald Trump, Marine Le Pen e Putin
gozam como porcos com as mãos de Perón restauradas,
com nail art e germicida gel.

A revolução não acontecerá pela internet.

A revolução não sairá, com exclusividade, no Netflix, produzida pelo Tom Hanks, dirigida pelo Oliver Stone e protagonizada pelo Gael García Bernal porque ser progressista não diminui a elegância.
A revolução não esculpirá milimetricamente em você o abdômen com o qual sempre sonhou,
ou te dotará com um milagroso pau com garras,
ou te fará crescer uma barba de lenhador mais forte e mais sedosa,
porque a revolução não acontecerá pela internet, amigo.
A revolução não apagará por dermobrasão
essa tatuagem do Che que você fez nos anos noventa.
Não aumentará o tráfego do seu site, não te dará mil likes,
não te transformará em um Twitterstar ou num garanhão do Tinder.
A revolução, se acontecer, não será coisa de machões.

A revolução não acontecerá pela internet.

Não verá por streaming a polícia reprimindo,
metendo bala de borracha e gás lacrimogênio,
porque minha avó contou que um taxista lhe disse
que escutou no rádio que esses manifestantes
não gostam de trabalhar, mas precisamos de um país sério,
uma revolução de alegria.
Ninguém deixará comentários anônimos
nos sites dos jornais e ninguém assistirá
Dança dos famosos ou Almoço com as estrelas
ou a Primeira Divisão, ninguém falará sobre o Fantástico
ou sobre o Fala que eu escuto.
E as crianças, em vez de caçar Pokémon,
estarão nas ruas buscando algo melhor.

Não será trending topic ou tema de algum documentário
coproduzido pela UNESCO e pela Goldman Sachs, que mencione de passagem o #NiUnaMenos,
e seja narrado pelos filhos importados de Brad Pitt e Angelina.
O soundtrack não será U2 nem Mano Chao.
Calle 13 também não fará seu “grãozinho de areia” pela paz e se falará de Silvio Rodriguez menos ainda:
ele estará procurando seu unicórnio.

A revolução não acontecerá pela internet.

A revolução não será monetizada pelo Adsense, mas se você quiser
poderá inseri-la no seu perfil do Linkedin que, como todo mundo sabe,
é a mentira mais piedosa do capitalismo.
A revolução não passará no desafio da brancura.
A revolução não arrancará o tigre que há em você, nem o empresário.
A revolução não limpará sua privada ou sua mente liberal.
A revolução não te vestirá a camiseta ou a calça.
A revolução vai te pilhar.

A revolução não estará em todos os seus dispositivos, amigo.
A revolução será ao vivo.


LA REVOLUCIÓN NO VA A SER POR INTERNET (CÓVER DE GIL SCOTT-HERON)

No te vas a poder quedar en casa, amigo.
No vas a poder desactivar el roaming ni colgarte al Wi-Fi del vecino.
No vas a poder colgarte jugando al Candy Crush,
ni mirando las fotos de gatitos en Facebook,
porque la revolución no va a ser por internet.

La revolución no va a ser por internet.

La revolución no se va a ver con filtros de Snapchat o de Instagram,
en blanco y negro vintage o predeciblemente sólo en blanco.
La revolución no va ser por drone, ni se va a organizar en la deep web,
ni va a estallar cuando se filtre el sex tape de Donald Trump, Marine Le Pen y Putin
gozando como chanchos con las manos de Perón restauradas
con nail art colorinche y germicida en gel.

La revolución no va a ser por internet.

La revolución no va a salir en exclusiva en Netflix, producida por Tom Hanks, dirigida por Oliver Stone y protagonizada por Gael García Bernal, porque lo progre no quita lo coqueto.
La revolución no te va a esculpir milimétricamente los abdominales que siempre soñaste,
ni te va a dotar de un portentoso miembro prensil,
ni te va a hacer crecer la barba de leñador más fuerte y más sedosa,
porque la revolución no va a ser por internet, amigo.
La revolución no te va a borrar por dermoabrasión
ese tatuaje del Che que te hiciste en los noventa.
No va aumentar el tráfico de tu página web, no te va a dar miles de likes,
no te va a hacer un tuítstar ni un semental de Tinder.
La revolución, si es, no va a ser cosa de varones.

La revolución no va a ser por internet.

No vas a ver por streaming a la yuta reprimiendo,
meta bala de goma y gases lacrimógenos,
porque dice mi abuela que le dijo un taxista
que lo escuchó en la radio que a esos cabecitas negras
al final no les gusta laburar, y acá necesitamos un país en serio,
una revolución de la alegría.
Ya nadie va a dejar comentarios anónimos
en la web de los diarios, y nadie va a mirar
Bailando por un sueño ni Almorzando con Mirtha
ni Fútbol de primera, y ni hablar de La noche del domingo
y las Gatitas y ratones de Porcel.
Y los pibes, en vez de cazar Pokemones,
van a estar en la calle buscando algo mejor.

La revolución no va a ser por internet.

No va a ser trending topic, ni van a hablar de ella en un documental
coproducido por la UNESCO y Goldman Sacks que mencione al pasar a #NiUnaMenos,
narrado por los hijos importados de Brad Pitt y Angelina.
La banda de sonido no va a ser de U2 ni Manu Chao.
Calle 13 tampoco va a poner su granito de arena, y de Silvio ni hablar:
todavía va a estar buscando su unicornio.

La revolución no va a ser por internet.

La revolución no va a ser monetizable por Adsense, pero si vos querés
vas a poder ponerla en tu perfil de LinkedIn que, como todo el mundo sabe,
es la mentira más piadosa del capitalismo.
La revolución no va a pasar el desafío de la blancura.
La revolución no va a sacar el tigre que hay en vos, ni el empresario.
La revolución no te va a limpiar el inodoro, ni la conciencia biempensante.
La revolución no te va a poner la camiseta, ni los pantalones.
La revolución te va a obligar a ponerte las pilas.

La revolución no va a estar en todos tus dispositivos, amigo.
La revolución va a ser en vivo.