Bertold Brecht “corrige” os mitos: Prometeu, Édipo e Odisseu e as sereias

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Prometeu

considere um PROMETEU, os deuses são ignorantes e malignos, espertos na extorsão de sacrifícios, vivendo da gordura da terra. prometeu inventa o fogo e criminosamente o entrega aos deuses. eles o pegam e o amarram para que ele não possa entregar seu fogo aos humanos, ele fica sem saber nada sobre este fogo durante muito tempo, até que vê conflagrações vermelhas no horizonte: os deuses o usaram para incendiar e pilhar os humanos, os deuses apenas como coro intermitente.

Édipo

Naturalmente, eu sei que não convém ao trágico dar uma piscada para o espectador. Mas quando eu vi ou li o Édipo, eu sempre desejei que esta piscada tivesse acontecido. Pois não me entra na cabeça que Édipo não tenha nenhuma ideia do alcance de suas ações, de sua perversidade profunda. A tragédia se tornaria assim apenas mais trágica. Pois os verdadeiros golpes não chegam subitamente, como algo que nunca se imaginaria, mas como algo que já se previa. Sempre foi dito: eu não preciso temer isso ou aquilo, isso não pode acontecer, seria desumano demais. Daí isso acontece e tudo o que é humano acontece em sua máxima amplitude, na amplitude gigantesca do seu pavor. Se Édipo encontra verdadeiramente sem consciência a terrível notícia, então o seu desespero, pelo menos de acordo com as concepções de hoje, não é de todo fundamentado. Pois todos nós conhecemos o valor duvidoso do desespero que expressa qualquer devedor ou contratante inadimplente quando fala de motivos de força maior.

Odisseu e a sereias

Como se sabe, o astucioso Odisseu deixou-se amarrar no mastro do seu veículo quando se aproximava da ilha das sereias, mas entupiu os ouvidos dos remadores com cera, de forma que através da cera deles e de suas cordas, sua apreciação da arte permanecesse sem consequências ruins. À distância audível, rodeando a ilha, os servos surdos viram as sedutoras mulheres inflando suas gargantas e nosso herói se contorcendo no mastro, enquanto se esforçava para se soltar. Tudo passou aparentemente de acordo com o combinado e o previsto. Toda a Antiguidade acreditou no sucesso do ardil do astucioso. Serei eu o primeiro a levantar objeções? Então, eu direi assim: tudo bem, mas quem – além de Odisseu – diz que as sereias realmente cantaram diante do homem amarrado? Estas poderosas e habilidosas mulheres iriam realmente gastar sua arte com pessoas que não desfrutavam de nenhuma liberdade de movimento? É esta a essência da arte? Pois ao invés disso, eu preferiria supor que as gargantas infladas notadas pelos remadores xingavam com toda a força o provinciano maldito e cuidadoso, e que nosso herói realizou enfim suas contorções (como testemunhadas) porque estava morrendo de vergonha.

* O fragmento sobre Prometeu está no Diário de trabalho e data de Outubro de 1945 como reflexão-reação ao lançamento das bombas nucleares americanas sobre Hiroshima e Nagazaki. Já as variações sobre as histórias de Ulisses e as sereias e do Édipo foram escritas em 1933 e são parte de uma série de três partes chamada “Correções de mitos antigos” (Berichtigungen alter Mythen), que inclui também uma revisão da história de Candaules e Giges. Em nota à “correção” do mito de Ulisses e das sereias, Brecht faz referência à versão de Franz Kafka do mesmo mito, chamada O Silêncio das Sereias: “Para esta história encontra-se também uma correção escrita por Franz Kafka, ela realmente não parece mais crível nos novos tempos”.

Tradução: Tomaz Amorim Izabel

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Prometheus

erwäge einen PROMETHEUS, die götter sind unwissend und bösartig, schlau im erpressen von opfern, lebend von den fetten des lands. prometheus erfindet das feuer und übergibt es verbrecherischerweise den göttern. sie fangen und fesseln ihn, damit er nicht den menschen sein feuer ausliefern kann, von diesem feuer erfährt er lange nichts, dann sieht er rote feuersbrünste am horizont: die götter haben es benutzt, die menschen zu brandschatzen, die götter nur als chor auftretend.

Ödipus

Ich weiß natürlich, daß es dem Tragiker nicht ziemt, dem Zuschauer zuzublinzeln. Aber wenn ich Ödipus sah oder las, habe ich immer gewünscht, solches Blinzeln hätte sich geziemt. Denn es will mir nicht in den Kopf, daß Ödipus von der Tragweite seiner Taten, ihrer gründlichen Verruchtheit nicht doch eine Ahnung hat. Die Tragödie würde dadurch nur um so tragischer. Denn nicht das sind die eigentlichen Nackenschläge, wenn plötzlich eintrifft, was man nie geglaubt hätte, sondern wenn eintrifft, was man vorhergesehen hat. Man hat immer gesagt: dies oder das brauche ich nicht zu befürchten, das kann nicht eintreten, es wäre zu unmenschlich. Dann tritt es ein und all das, was menschlich ist, tritt in seinem ganzen Umfang auf, dem riesigen Umfang seines Schreckens. Trifft den tatsächlich unwissenden Ödipus die entsetzliche Kunde, dann ist seine Verzweiflung, jedenfalls nach heutigen Begriffen, nicht ganz so begründet. Kennen wir doch alle den zweifelhaften Wert der Verzweiflung, die jene Schuldner oder säumigen Vertragspartner äußern, wenn sie von der Vis major sprechen!

Odysseus

Bekanntlich ließ der listige Odysseus sich, als er sich der Insel der Sirenen näherte, an den Mast seines Fahrzeuges binden, aber den Ruderern verstopfte er mit Wachs die Ohren. so daß sein Kunstgenuß durch ihr Wachs und seine Stricke ohne schlimme Folgen bleiben mußte. In Hörweite, wie es ausgemacht war, an der Insel vorbeirudernd, sahen die tauben Knechte die verführerischen Weiber ihre Hälse blähen und unsern Helden sich am Mastbaum winden, als strebte er, davon loszukommen. Es verlief scheinbar alles nach Verabredung und Voraussage. Das ganze Altertum glaubte dem Schlauling das Gelingen seiner List. Sollte ich der erste sein, dem Bedenken aufsteigen? Ich sage mir nämlich so: alles gut, aber wer – außer Odysseus – sagt, daß die Sirenen wirklich sangen, angesichts des angebundenen Mannes? Sollten diese machtvollen und gewandten Weiber ihre Kunst wirklich an Leute verschwendet haben, die keine Bewegungsfreiheit besaßen? Ist das das Wesen der Kunst? Da möchte ich doch eher annehmen, die von den Ruderern wahrgenommenen geblähten Hälse schimpften aus voller Kraft auf den verdammten vorsichtigen Provinzler, und unser Held vollführte seine (ebenfalls bezeugten) Windungen, weil er sich doch noch zu guter Letzt genierte!

AO TSAR – À PÁSCOA, de Marina Tsvetáieva

Tsar And Son

AO TSAR – À PÁSCOA

dois poemas de “Acampamento de Cisnes”, Marina Tsvetáieva.
Tradução, André Nogueira (2017)
Imagem: tsar Nicolau II e o tsariévitch Alexei (1910).

AO TSAR – À PÁSCOA

Abram, abram alas ao Tsar!
Recua a escuridão da noite.
Acendam velas no altar
E tudo aprontem.
– Cristo há de ressuscitar,
E o tsar que havia ontem!

Caiu sem auréola
A águia bicéfala.
– Tsar! – Não honraste a tarefa.

Nos olhos teus, azuis e traidores
Como dos bizantinos reis,
Hão de fitar teus sucessores,
Pela derradeira vez.

Nos tribunais tua sentença –
Um turbilhão de causar pena.
Tsar! – O povo? – pensas,
Mas é Deus quem te condena!

Enfim chegou a Páscoa
No país por toda parte,
Dorme em paz com
Tua Aldeia* a consolar-te,
Em teu sonho não se hasteiem
Os vermelhos estandartes.

Tsar! – A tua estirpe
Se abriga – no teu sono.
Toma o saco – de mendigo,
Já que extirpam – o teu trono.

Moscou, 2 de abril 1917,
primeiro dia da Páscoa.

     * * *

Pelo menino – o pombinho – o filho do rei,
Pelo jovem tsariévitch Alexei,
Rússia devota, vossos círios acendei!

Pombinhos dois, angelicais,
Como Dmitri de Ivan, Alexei de Nikolai,**
Os olhos deles enxugai.

Rússia, mãe benévola, a criança
Sob o véu de vossa bem-aventurança
Cobrireis, até que as feras se amansem?

Por mais vil que seja o crime de seu pai,
Oh, Rússia pastoril, vós perdoai
O cordeirinho Alexei de Nikolai!

4 de abril 1917
terceiro dia da Páscoa.

* “Dorme em paz com/ Tua Aldeia a consolar-te…”// Aldeia do Tsar, Tsárskoie Seló, residência da família imperial russa, a 26 km de São Petersburgo. Quando a revolução de 1917 derrubou Nicolau II, então imperador da Rússia, ele e sua família foram feitos prisioneiros, primeiramente, no palácio de Alexandre, situado na Aldeia.
** “Como Dmitri de Ivan, Alexei de Nikolai”// Refere-se a Alexei Nikolaievitch, o tsariévitch, isto é, o príncipe Alexei, filho de Nicolau II. Dmitri, filho de Ivan, foi Dmitri de Uglitch, filho de Ivan, o Terrível, morto aos 10 anos de idade em 1591 na cidade de Uglitch. Marina Tsvetáieva, recorrendo a essa referência histórica, clama pela vida do tsariévitch Alexei, então com 13 anos de idade. Nicolau II, a tsarina Alexandra e seus cinco filhos, Alexei, Anastássia, Maria, Tatiana e Olga, junto com demais parentes e empregados da casa, foram mortos em Ekaterimburg no dia 17 de julho de 1918.
Царю — на Пасху

Настежь, настежь Царские врата!
Сгасла, схлынула чернота.
Чистым жаром
Горит алтарь.
— Христос Воскресе,
Вчерашний царь!

Пал без славы
Орёл двуглавый.
— Царь! — Вы были неправы.

Помянет потомство
Ещё не раз —
Византийское вероломство
Ваших ясных глаз.

Ваши судьи —
Гроза и вал!
Царь! Не люди —
Вас Бог взыскал.

Но нынче Пасха
По всей стране,
Спокойно спите
В своём Селе,
Не видьте красных
Знамён во сне.

Царь! — Потомки
И предки — сон.
Есть — котомка,
Коль отнят — трон.

<2 апреля 1917>,
Москва,
первый день Пасхи

* * *

За Отрока — за Голубя — за Сына,
За царевича младого Алексия
Помолись, церковная Россия!

Очи ангельские вытри,
Вспомяни, как пал на плиты
Голубь углицкий — Димитрий.

Ласковая ты, Россия, матерь!
Ах, ужели у тебя не хватит
На него — любовной благодати?

Грех отцовский не карай на сыне.
Сохрани, крестьянская Россия,
Царскосельского ягнёнка — Алексия!

4 апреля 1917,
третий день Пасхи

horizon, de Marília Moschkovich

Tradução: Victor Blanc

il m’a fallu trente ans quatre cahiers
pour écrire un vers être poète à pleine voix
savoir qu’il y a des poèmes
sans force ni sans forme
et que nous écrivons tous des romances clandestines

pour faire un livre il n’est besoin
que de bons poèmes d’un tiroir et quelques
années d’un poing qui laboure l’écorce
de mon ventre et l’autre élancé dans les airs

qui peut être poète sinon moi
armée de roses de crépuscules d’abîmes
de profondeurs d’oiseaux de douleurs et d’ordures
de pierres
de boissons amères
et d’orgasmes anaux ?

je suis poète
et porte avec moi une conque à souffler une conque à lécher
quand le goût de la mer quand l’odeur des îles
Me manquent

je suis poète-
léviathan que j’embrasse aux marges grises de la terre
À ce point précis où le haut devient le bas
et les cités au loin constellations navires empilés
vagues de schiste

je suis poète :
viser l’horizon
et courir contre


horizonte

custei trinta anos e quatro cadernos
para escrever um verso e dizer poeta em voz alta
e saber que há poemas sem força,
e saber que há poemas sem fome,
e que todos escrevemos clandestinos poemas de amor

o que é preciso num livro senão
bons poemas? e uma gaveta e um punhado
de anos, e um punho fechado na casca
do estômago, o outro erguido no ar?

quem é o poeta senão eu,
armada de rosas e crepúsculos e abismos
de profundos e pássaros e dores e lixo
e pedras,
bebidas amargas,
orgasmos anais?

eu sou o poeta
e carrego comigo uma concha que se pode soprar ou lamber
quando aperta a saudade do gosto de mar
quando aperta a saudade do cheiro da ilha

eu sou o poeta-
leviatã que abraço nas bordas cinzas da terra
até que olhar para trás seja como olhar pra cima
e as cidades longe como constelações, navios empilhados
camadas de ondas

eu sou o poeta:
mirar o horizonte
e correr contra

Ode para ansiar a chegada da primavera (7) – Jean Ristat

Camarada você não é o cristo em cruz
Expulsamos os padres abandone a farda
Emprestada a velha língua e a ordem de sua
Sintaxe varra à rua os fantasmas do mundo
Antigo que já batem à porta do teu sono
Camarada não ponha em cárcere o amor


Ode pour hâter la venue du printemps – 7

Camarade tu n’est pas le christ en croix nous
Avons chassé les prêtres quitte ton habit
Emprunté la vielle langue et l’ordre de sa
Syntaxe balaie les fantômes de l’ancien
Monde qui frappent à la porte de ton sommeil
Camarade ne mets pas l’amour en prison


traduzido por Marília Moschkovich de RISTAT, Jean. Ode pour hâter la venue du printemps. Paris, Gallimard, 2008, p.50.

 

Resposta dos Cossacos Zaporojes ao Sultão de Constantinopla, de Guillaume Apollinaire

cossacos zaporojes

“RESPOSTA DOS COSSACOS ZAPOROJES AO SULTÃO DE CONSTANTINOPLA”
Poema de Guillaume Apollinaire (1913)
Tradução, André Nogueira (18.05.2017)
Acompanha tradução de Mikhail Kudinov
e sua musicalização por Dmitri Shostakovich (1969):
( https://www.youtube.com/watch?v=cBr9sQHJnNY )
Imagem: “Resposta dos Cossacos Zaporojes…”, de Iliá Riépin (1880-1891).

“Resposta dos Cossacos Zaporojes ao Sultão de Constantinopla”

Cem vezes mais cruel que Barrabás,
com o corno diabólico na testa,
encostado a Belzebu aí estás…
Não iremos ter contigo em tuas festas.
Com um manto de vileza e porcaria
te assentas com os teus para o jantar
enquanto olhos arrancados te espiam
pendurados a teu sórdido colar.
Mestre-sala de uma corja filistéia,
empanturras-te de tudo que é imundo…
Contorcendo-se em terrível diarréia
aos coices tua mãe te pôs no mundo.
Tomado inteiro pela úlcera mordaz,
nessa lama pestilenta tu naufragas.
Teus tesouros com remédios gastarás
que te aliviem o suplício dessa chaga.

“Réponse des cosaques zaporogues au sultan de Constantinople”

Plus criminel que Barabbas
Cornu comme les mauvais anges
Quel Belzébuth es-tu là-bas
Nourri d’immondice et de fange
Nous n’irons pas à tes sabbats
Poisson pourri de Salonique
Long collier des sommeils affreux
D’yeux arrachés à coup de pique
Ta mère fit un pet foireux
Et tu naquis de sa colique
Bourreau de Podolie Amant
Des plaies des ulcères des croûtes
Groin de cochon cul de jument
Tes richesses garde-les toutes
Pour payer tes médicaments

“Ответ запорожских казаков константинопольскому султану”

Ты преступней Варравы в сто раз.
С Вельзевулом живя по соседству,
В самых мерзких грехах ты погряз.
Нечистотами вскормленный с детства,
Знай: свой шабаш ты справишь без нас.
Рак протухший. Салоник отбросы,
Скверный сон, что нельзя рассказать,
Окривевший, гнилой и безносый,
Ты родился, когда твоя мать
Извивалась в корчах поноса.
Злой палач Подолья, взгляни:
Весь ты в язвах и струпьях.
Зад кобылы, рыло свиньи.
Пусть тебе все снадобья скупят,
Чтоб лечил ты болячки свои.

 

 

Dois poemas sobre a Rússia, de Lou Andreas-Salomé

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Velha Rússia

Descansas, parece, em materno leito,
Seu desespero a ser compreendido,
Tão infantis parecem os seus feitos,
noutros tão floridos.

Vês coloridas ainda as moradas,
quando brincavas, mesmo na miséria:
rubro, azul, verde e branco, hera dourada
suas cores eram.

Ainda assim, quem te olhar com astúcia
se maravilha pelo despudor:
Uma criança construiu a Rússia
aos pés do Senhor.


Volga

Mesmo longe: ainda assim eu Te vejo
Mesmo longe: permaneces comigo
Como um presente que não é cortejo
Como paisagem em torno do umbigo.

Nunca tivesse estado em suas beiras
conheceria sua imensidão,
desembarcada em oníricas cheias
na sua descomunal solidão.

 

Tradução: Tomaz Amorim Izabel

 

Altrußland

Du scheinst in Mutterhut zu ruhn,
Dein Elend kaum noch zu begreifen,
So kindhaft scheint noch all Dein Tun,
Wo andre reifen.

Wie stehn Dir noch die Häuser bunt,
Als spieltest Du sogar im Darben:
Rot, grün, blau, weiß auf goldnem Grund
Sind Deine Farben.

Und doch: wer lang darauf geschaut,
Enthält ehrfürchtig sich des Spottes:
Ein Kind hat Rußland hingebaut
Zu Füßen Gottes.

 

Wolga

Bist Du auch fern: ich schaue Dich doch an,
Bist Du auch fern: mir bleibst Du doch gegeben –
Wie eine Gegenwart, die nicht verblassen kann.
Wie meine Landschaft liegst Du um mein Leben.

Hätt ich an Deinen Ufern nie geruht:
Mir ist, als wüßt ich doch um Deine Weiten,
Als landete mich jede Traumesflut
An Deinen ungeheuren Einsamkeiten.

Ao meu Partido, de Pablo Neruda

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Ao meu Partido, de Pablo Neruda

Ao meu Partido, poema de Pablo Neruda
Tradução por 
Marília Moschkovich
Imagem: ato de inauguração do PCB (Partido Comunista Brasileiro), em 25 de março de 1922.
(Publicação especial em homenagem aos 95 anos do Partido).

Você me deu a fraternidade com aquilo que não conheço.
Você me agregou à força de todos os que vivem.
Você me deu novamente a pátria, como em um nascimento.
Você me deu a liberdade que o solitário não tem.
Você me ensinou a acender, como fogo, a bondade.
Você me deu a retidão de que precisa a árvore.
Você me ensinou a ver a unidade e a diferença entre os homens.
Você me mostrou como a dor de um ser morreu na vitória de todos.
Você me ensinou a dormir nas camas duras de meus irmãos.
Você me fez construir sobre a realidade como sobre uma rocha.
Você me fez adversário do mau e muro do frenético.
Você me fez ver a claridade do mundo e a possibilidade da alegria.
Você me fez indestrutível porque contigo não termino em mim.


A MI PARTIDO (PABLO NERUDA)

Me has dado la fraternidad hacia el que no conozco.
Me has agregado la fuerza de todos los que viven.
Me has vuelto a dar la patria como en un nacimiento.
Me has dado la libertad que no tiene el solitario.
Me enseñaste a encender la bondad, como el fuego.
Me diste la rectitud que necesita el árbol.
Me enseñaste a ver la unidad y la diferencia de los hombres.
Me mostraste cómo el dolor de un ser ha muerto en la victoria de todos.
Me enseñaste a dormir en las camas duras de mis hermanos.
Me hiciste construir sobre la realidad como sobre una roca.
Me hiciste adversario del malvado y muro del frenético.
Me has hecho ver la claridad del mundo y la posibilidad de la alegría.
Me has hecho indestructible porque contigo no termino en mí mismo.


[as traduções que sempre vi espalhadas deste poema me incomodavam um pouco. talvez fosse a distorção causada pelo uso do tempo verbal que, em português, não tem o mesmo sentido que em espanhol – por isso usei o passado em sua possibilidade mais cotidiana e corriqueira, traduzindo o efeito do uso do tempo verbal escolhido pelo poeta em espanhol; comentários são sempre bem-vindos]