“Saudades da pátria”, dois poemas de Marina Tsvetáieva

Marina Tsvetaeva, photo for passport on eve of return to Russia (France, 1939) cvetaeva

“Saudades da pátria”, dois poemas de Marina Tsvetáieva;
Tradução por André Nogueira (2017),
Publicação em homenagem ao Dia Internacional do Refugiado, 20 de junho 2017.
Imagem: Marina Tsvetáieva, foto no passaporte de retorno para a União Soviética, 1939.

* * *

Saudades da pátria! Com esse mal
Há muito tempo que eu luto!
Para mim é absolutamente igual
Onde estar só em absoluto.

Quais cascalhos que eu arranhe
Arrastando o carrinho de feira
Para a casa, que me é de todo estranha –
Se hospital ou se caserna, como queira.

A mim é indiferente, qual o povo
Que há de ver em cativeiro
A leonina minha crespa cabeleira,
Ou me expulsar – de novo! –

Ao deserto dessa minha solidão.
Urso polar apartado do gelo
Onde não posso viver (e não faço questão!),
Tanto me faz – onde será o pesadelo.

Não me ilude o chamado longínquo
Da materna minha língua, que convida… –
Não me importa, em qual língua
Serei mal-compreendida.

(O leitor de jornais, o ouvinte
De notícias, fuçador de mexericos…)
Ele – é do século vinte,
E eu – de todo século abdico!

Como um tronco que a esmo
Vê na rua em seu redor passar a gente,
Para mim é indiferente, dá no mesmo –
E, talvez, de tudo o mais indiferente

Seja a pátria onde se acha.
Cada marca dela em mim que se esconde
Vou despir, de cima a baixo:
Eis a alma, que nasceu – tanto faz onde.

E eu também, para a pátria, tanto faço, –
De frente para trás, de trás para frente,
Investigue se encontra dela traço,
Inspetor, em minha alma indiferente!

Estranha é cada casa, vazios todos os templos, –
E tudo indiferente, e tudo igual.
Mas basta que um arbusto eu contemple, –
Eis a sorva – da terra natal…

1934

PÁTRIA

Oh, meu implacável idioma!
Como ouvisse simplesmente uma campônia,
Uma rústica canção que murmurinha:
– Rússia, pátria minha!

No horizonte, atrás da cordilheira,
Pátria minha – e estrangeira! –
Ela mostrou-se para mim:
Terra distante, lá dos últimos confins!

Distância, minha sôfrega doença,
A tal ponto é minha pátria de nascença
Que carrego, aonde for, essa distância –
Minha parte que está fora do alcance.

Distância, que se afasta e não me solta,
Distância, que me diz: “Rápido volta
Para casa!
……………..No horizonte estrela branca
Que de todos os lugares me arranca!

Do suor da caminhada só me resta
Inundar a vastidão da minha testa.

Tu, hei de perder-me nos teus braços!
Com os lábios selarei, ao pé do cadafalso:
Pátria minha – prometida! –
Onde se encontra a perdição da minha vida.

12 de maio 1932

* * *

Тоска по родине! Давно
Разоблаченная морока!
Мне совершенно все равно —
Где — совершенно одинокой

Быть, по каким камням домой
Брести с кошелкою базарной
В дом, и не знающий, что — мой,
Как госпиталь или казарма.

Мне все равно, каких среди
Лиц ощетиниваться пленным
Львом, из какой людской среды
Быть вытесненной — непременно —

В себя, в единоличье чувств.
Камчатским медведем без льдины
Где не ужиться (и не тщусь!),
Где унижаться — мне едино.

Не обольщусь и языком
Родным, его призывом млечным.
Мне безразлично, на каком
Непонимаемой быть встречным!

(Читателем, газетных тонн
Глотателем, доильцем сплетен…)
Двадцатого столетья — он,
А я — до всякого столетья!

Остолбеневши, как бревно,
Оставшееся от аллеи,
Мне все — равны, мне всё — равно;
И, может быть, всего равнее —

Роднее бывшее — всего.
Все признаки с меня, все меты,
Все даты — как рукой сняло:
Душа, родившаяся — где-то.

Так край меня не уберег
Мой, что и самый зоркий сыщик
Вдоль всей души, всей — поперек!
Родимого пятна не сыщет!

Всяк дом мне чужд, всяк храм мне пуст,
И всё — равно, и всё — едино.
Но если по дороге — куст
Встает, особенно — рябина …

1934

РОДИНА

О, неподатливый язык!
Чего бы попросту — мужик,
Пойми, певал и до меня:
«Россия, родина моя!»

Но и с калужского холма
Мне открывалася она —
Даль, тридевятая земля!
Чужбина, родина моя!

Даль, прирожденная, как боль,
Настолько родина и столь —
Рок, что повсюду, через всю
Даль — всю ее с собой несу!

Даль, отдалившая мне близь,
Даль, говорящая: «Вернись
Домой!»
……………..Со всех — до горних звезд —
Меня снимающая мест!

Недаром, голубей воды,
Я далью обдавала лбы.

Ты! Сей руки своей лишусь,—
Хоть двух! Губами подпишусь
На плахе: распрь моих земля —
Гордыня, родина моя!

12 мая 1932

 

 

 

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AO TSAR – À PÁSCOA, de Marina Tsvetáieva

Tsar And Son

AO TSAR – À PÁSCOA

dois poemas de “Acampamento de Cisnes”, Marina Tsvetáieva.
Tradução, André Nogueira (2017)
Imagem: tsar Nicolau II e o tsariévitch Alexei (1910).

AO TSAR – À PÁSCOA

Abram, abram alas ao Tsar!
Recua a escuridão da noite.
Acendam velas no altar
E tudo aprontem.
– Cristo há de ressuscitar,
E o tsar que havia ontem!

Caiu sem auréola
A águia bicéfala.
– Tsar! – Não honraste a tarefa.

Nos olhos teus, azuis e traidores
Como dos bizantinos reis,
Hão de fitar teus sucessores,
Pela derradeira vez.

Nos tribunais tua sentença –
Um turbilhão de causar pena.
Tsar! – O povo? – pensas,
Mas é Deus quem te condena!

Enfim chegou a Páscoa
No país por toda parte,
Dorme em paz com
Tua Aldeia* a consolar-te,
Em teu sonho não se hasteiem
Os vermelhos estandartes.

Tsar! – A tua estirpe
Se abriga – no teu sono.
Toma o saco – de mendigo,
Já que extirpam – o teu trono.

Moscou, 2 de abril 1917,
primeiro dia da Páscoa.

     * * *

Pelo menino – o pombinho – o filho do rei,
Pelo jovem tsariévitch Alexei,
Rússia devota, vossos círios acendei!

Pombinhos dois, angelicais,
Como Dmitri de Ivan, Alexei de Nikolai,**
Os olhos deles enxugai.

Rússia, mãe benévola, a criança
Sob o véu de vossa bem-aventurança
Cobrireis, até que as feras se amansem?

Por mais vil que seja o crime de seu pai,
Oh, Rússia pastoril, vós perdoai
O cordeirinho Alexei de Nikolai!

4 de abril 1917
terceiro dia da Páscoa.

* “Dorme em paz com/ Tua Aldeia a consolar-te…”// Aldeia do Tsar, Tsárskoie Seló, residência da família imperial russa, a 26 km de São Petersburgo. Quando a revolução de 1917 derrubou Nicolau II, então imperador da Rússia, ele e sua família foram feitos prisioneiros, primeiramente, no palácio de Alexandre, situado na Aldeia.
** “Como Dmitri de Ivan, Alexei de Nikolai”// Refere-se a Alexei Nikolaievitch, o tsariévitch, isto é, o príncipe Alexei, filho de Nicolau II. Dmitri, filho de Ivan, foi Dmitri de Uglitch, filho de Ivan, o Terrível, morto aos 10 anos de idade em 1591 na cidade de Uglitch. Marina Tsvetáieva, recorrendo a essa referência histórica, clama pela vida do tsariévitch Alexei, então com 13 anos de idade. Nicolau II, a tsarina Alexandra e seus cinco filhos, Alexei, Anastássia, Maria, Tatiana e Olga, junto com demais parentes e empregados da casa, foram mortos em Ekaterimburg no dia 17 de julho de 1918.
Царю — на Пасху

Настежь, настежь Царские врата!
Сгасла, схлынула чернота.
Чистым жаром
Горит алтарь.
— Христос Воскресе,
Вчерашний царь!

Пал без славы
Орёл двуглавый.
— Царь! — Вы были неправы.

Помянет потомство
Ещё не раз —
Византийское вероломство
Ваших ясных глаз.

Ваши судьи —
Гроза и вал!
Царь! Не люди —
Вас Бог взыскал.

Но нынче Пасха
По всей стране,
Спокойно спите
В своём Селе,
Не видьте красных
Знамён во сне.

Царь! — Потомки
И предки — сон.
Есть — котомка,
Коль отнят — трон.

<2 апреля 1917>,
Москва,
первый день Пасхи

* * *

За Отрока — за Голубя — за Сына,
За царевича младого Алексия
Помолись, церковная Россия!

Очи ангельские вытри,
Вспомяни, как пал на плиты
Голубь углицкий — Димитрий.

Ласковая ты, Россия, матерь!
Ах, ужели у тебя не хватит
На него — любовной благодати?

Грех отцовский не карай на сыне.
Сохрани, крестьянская Россия,
Царскосельского ягнёнка — Алексия!

4 апреля 1917,
третий день Пасхи

Resposta dos Cossacos Zaporojes ao Sultão de Constantinopla, de Guillaume Apollinaire

cossacos zaporojes

“RESPOSTA DOS COSSACOS ZAPOROJES AO SULTÃO DE CONSTANTINOPLA”
Poema de Guillaume Apollinaire (1913)
Tradução, André Nogueira (18.05.2017)
Acompanha tradução de Mikhail Kudinov
e sua musicalização por Dmitri Shostakovich (1969):
( https://www.youtube.com/watch?v=cBr9sQHJnNY )
Imagem: “Resposta dos Cossacos Zaporojes…”, de Iliá Riépin (1880-1891).

“Resposta dos Cossacos Zaporojes ao Sultão de Constantinopla”

Cem vezes mais cruel que Barrabás,
com o corno diabólico na testa,
encostado a Belzebu aí estás…
Não iremos ter contigo em tuas festas.
Com um manto de vileza e porcaria
te assentas com os teus para o jantar
enquanto olhos arrancados te espiam
pendurados a teu sórdido colar.
Mestre-sala de uma corja filistéia,
empanturras-te de tudo que é imundo…
Contorcendo-se em terrível diarréia
aos coices tua mãe te pôs no mundo.
Tomado inteiro pela úlcera mordaz,
nessa lama pestilenta tu naufragas.
Teus tesouros com remédios gastarás
que te aliviem o suplício dessa chaga.

“Réponse des cosaques zaporogues au sultan de Constantinople”

Plus criminel que Barabbas
Cornu comme les mauvais anges
Quel Belzébuth es-tu là-bas
Nourri d’immondice et de fange
Nous n’irons pas à tes sabbats
Poisson pourri de Salonique
Long collier des sommeils affreux
D’yeux arrachés à coup de pique
Ta mère fit un pet foireux
Et tu naquis de sa colique
Bourreau de Podolie Amant
Des plaies des ulcères des croûtes
Groin de cochon cul de jument
Tes richesses garde-les toutes
Pour payer tes médicaments

“Ответ запорожских казаков константинопольскому султану”

Ты преступней Варравы в сто раз.
С Вельзевулом живя по соседству,
В самых мерзких грехах ты погряз.
Нечистотами вскормленный с детства,
Знай: свой шабаш ты справишь без нас.
Рак протухший. Салоник отбросы,
Скверный сон, что нельзя рассказать,
Окривевший, гнилой и безносый,
Ты родился, когда твоя мать
Извивалась в корчах поноса.
Злой палач Подолья, взгляни:
Весь ты в язвах и струпьях.
Зад кобылы, рыло свиньи.
Пусть тебе все снадобья скупят,
Чтоб лечил ты болячки свои.

 

 

Ao meu Partido, de Pablo Neruda

pcb

Ao meu Partido, de Pablo Neruda

Ao meu Partido, poema de Pablo Neruda
Tradução por 
Marília Moschkovich
Imagem: ato de inauguração do PCB (Partido Comunista Brasileiro), em 25 de março de 1922.
(Publicação especial em homenagem aos 95 anos do Partido).

Você me deu a fraternidade com aquilo que não conheço.
Você me agregou à força de todos os que vivem.
Você me deu novamente a pátria, como em um nascimento.
Você me deu a liberdade que o solitário não tem.
Você me ensinou a acender, como fogo, a bondade.
Você me deu a retidão de que precisa a árvore.
Você me ensinou a ver a unidade e a diferença entre os homens.
Você me mostrou como a dor de um ser morreu na vitória de todos.
Você me ensinou a dormir nas camas duras de meus irmãos.
Você me fez construir sobre a realidade como sobre uma rocha.
Você me fez adversário do mau e muro do frenético.
Você me fez ver a claridade do mundo e a possibilidade da alegria.
Você me fez indestrutível porque contigo não termino em mim.


A MI PARTIDO (PABLO NERUDA)

Me has dado la fraternidad hacia el que no conozco.
Me has agregado la fuerza de todos los que viven.
Me has vuelto a dar la patria como en un nacimiento.
Me has dado la libertad que no tiene el solitario.
Me enseñaste a encender la bondad, como el fuego.
Me diste la rectitud que necesita el árbol.
Me enseñaste a ver la unidad y la diferencia de los hombres.
Me mostraste cómo el dolor de un ser ha muerto en la victoria de todos.
Me enseñaste a dormir en las camas duras de mis hermanos.
Me hiciste construir sobre la realidad como sobre una roca.
Me hiciste adversario del malvado y muro del frenético.
Me has hecho ver la claridad del mundo y la posibilidad de la alegría.
Me has hecho indestructible porque contigo no termino en mí mismo.


[as traduções que sempre vi espalhadas deste poema me incomodavam um pouco. talvez fosse a distorção causada pelo uso do tempo verbal que, em português, não tem o mesmo sentido que em espanhol – por isso usei o passado em sua possibilidade mais cotidiana e corriqueira, traduzindo o efeito do uso do tempo verbal escolhido pelo poeta em espanhol; comentários são sempre bem-vindos]

DA “GAZETA VERMELHA”, Nikolai Kliúiev (1918)

kliuiev

DA <<GAZETA VERMELHA>>

Poema de Nikolai Kliúiev (1884-1937)
Tradução por André Nogueira (2017)
Imagem: retrato de Kliúiev por Alexander Yar-Kravtchenko (1931)

……………….

DA <<GAZETA VERMELHA>>

1

Que a negra fuligem da sangrenta insurreição
E o ar dos Assombrados ande à volta, –
Dos caixões os vampiros sentirão
A milionésima das facas que vos cortam!

Vós roestes como cães a alma do povo
Emporcalhastes o jardim do Pai Eterno.
Não em arca recheada de alcovas
Vossa ida para os quintos do inferno.

É estrada cimentada de moedas
Vossa via de ladrões e morféticos vampiros;
Cristo dos arbustos de agulhas se apieda
E os pulmões do povo de novo respiram.

É o fim dos valentões violadores,
Discípulos fiéis de Iscariotes.
Dos prados onde acampam grão-senhores
Hão os anjos de ceifar os miosótis.

Bem-vindos coreanos amarelos, beduínos,
Cada tom que Deus pintou suas ovelhas…
Bendito seja o soviete campesino
E os mártires do Exército Vermelho!

Reflitam bem, meninos e meninas:
Lembrem-se de Rázin e Peróvskaia Sofia!
Batizem-se em fé rubra e leonina
Como eles, que pela Rússia-noiva sofriam.

2

Aproxima-se o terrível tribunal! Vinde vê-lo:
O Anjo-exterminador está à porta!
Sob a cusparada do Deus Vermelho
Jazerá a guarda branca morta.

A Rússia sob os cravos seus padece
E de vidro esmigalhado a polvilhais.
Pela casa dos Románovi em prece
Silvam crótalos no altar das catedrais.

Eis que o imundo Rasputin eles exumam:
Sapateia sobre os ícones, escarra no graal…
Está à mesa do café, colchão de plumas;
Nosso povo, em sua fossa habitual.

Raça de lesmas, rastejantes tatuzinhos!
Bernes carcomendo a santa Rússia!
Do andar centésimo celeste  um pergaminho
Desenrola para vós chagas e úlceras.

Grão-senhores, bonifrates em chapéus-coco,
Grã-senhoras, em seda e jóias de ouro.
Com vós não minha lira, e sim a voz rouca
Da cantante em glória grã-metralhadora!

Louvo a metralhadora, sua sede sem fim
Do vosso sangue revestido em pura seda!..
Quando à hora da seara anunciarem serafins
O arrebatar das almas em ardentes labaredas.

Pelas pátrias escarpas toda alma florirá
De trifólios consangüíneos, purpúreos olhinhos…
Reconhece-se o soldado pelo olhar, o mais solar
E pelos versos ressacados de palavras carmesins.

<1918>

~//~

Из <<Красной газеты>>

Пусть черен дым кровавых мятежей
И рыщет Оторопь во мраке,—
Уж отточены миллионы ножей
На вас, гробовые вурдалаки!

Вы изгрызли душу народа,
Загадили светлый божий сад,
Не будет ни ладьи, ни парохода
Для отплытья вашего в гнойный ад.

Керенками вымощенный проселок —
Ваш лукавый искариотский путь;
Христос отдохнет от терновых иголок,
И легко вздохнет народная грудь.

Сгинут кровосмесители, проститутки,
Церковные кружки и барский шик,
Будут ангелы срывать незабудки
С луговин, где был лагерь пик.

Бедуинам и желтым корейцам
Не будет запретным наш храм…
Слава мученикам и красноармейцам,
И сермяжным советским властям!

Русские юноши, девушки, отзовитесь:
Вспомните Разина и Перовскую Софию!
В львиную красную веру креститесь,
В гибели славьте невесту-Россию!

2

Жильцы гробов, проснитесь! Близок Страшный суд
И Ангел-истребитель стоит у порога!
Ваши черные белогвардейцы умрут
За оплевание Красного бога,

За то, что гвоздиные раны России
Они посыпают толченым стеклом.
Шипят по соборам кутейные змии,
Молясь шепотком за романовский дом,

За то, чтобы снова чумазый Распутин
Плясал на иконах и в чашу плевал…
С кофейником стол, как перина, уютен
Для граждан, продавших свободу за кал.

О племя мокриц и болотных улиток!
О падаль червивая в божьем саду!
Грозой полыхает стоярусный свиток,
Пророча вам язвы и злую беду.

Хлыщи в котелках и мамаши в батистах,
С битюжьей осанкой купеческий род,
Не вам моя лира — в напевах тернистых
Пусть славится гибель и друг-пулемет!

Хвала пулемету, несытому кровью
Битюжьей породы, батистовых туш!..
Трубят серафимы над буйною новью,
Где зреет посев струннопламенных душ.

И души цветут по родным косогорам
Малиновой кашкой, пурпурным глазком…
Боец узнается по солнечным взорам,
По алому слову с прибойным стихом.

<1918>

 

 

DIAMBA-SARABAMBA (Konopel-Konopelka), Ivan Novikov

1

IVAN NOVIKOV
(tradução: André Nogueira, nov.-dez. 2016)

DIAMBA-SARABAMBA

(KONOPEL-KONOPELKA)

EDITORA DO ESTADO da URSS, 1926.

2

NOVA BIBLIOTECA INFANTIL
PEQUENA IDADE
…………………………………………………….

IVAN NOVIKOV

DIAMBA-SARABAMBA
(KONOPEL-KONOPELKA)

EM VERSOS

ILUSTRADO POR
P. PAVLINOVA
………………………………………………..

EDITORA DO ESTADO
MOSCOU – 1926 – LENINGRADO

3

1.DIAMBA NO BERÇO

A diamba criança
no berço descansa:
em suave repouso
no solo do chouso.

Os grãozinhos se enfileiram
como sob o travesseiro, –
repousando lado a lado
pelos sulcos do arado.

Quietinha em seu leito
a diamba se deita,
e como tenro cobertor
a terra embala sua flor!

Mas o solo, por si só,
milagre não faz:
tem de amanhecer o sol
e o lavrador regando atrás!

4

2.QUANDO OS OLHOS DELA ABREM

Bem de perto observem
como a natureza é sábia:
quando brota é só um gérmen,
logo os olhos dela abrem…

Libertada da semente
se contorce a raizinha,
o brotinho já rebenta
ainda preso na bainha.

Um tempinho que suceda,
te dobrando de joelhos
sobre a tão verde vereda,
os olhos teus poderão vê-los:

E do chão também te vendo
os verdes olhos se revelam.
Da caçula estão crescendo
à cacheada irmã mais velha.

5

3.ALEGRE PRIMAVERA

A primavera é rápida assim:
um dia antes não havia
construído para si
tão verdejante moradia!

A primavera faz alegre
as campinas e aldeias
onde quer que ela empregue
seus arroios e floreios.

Mas não chegou a obra ao ponto,
por mais bela que rebente…
Toma fôlego e desponta
a diamba adolescente.

Tão bonitos e verdes,
seus cachos crescem e crescem…
Mas a guardada sua flor, vede:
é ainda uma promessa.

6

4.AS PARENTES DA DIAMBA

A diamba também tem parentes:
multiplicam-se no diambeiral!
Mas não são de sua gente
cacheada e fraternal…
São talvez suas sobrinhas,
não exatamente amigas,
mais precisamente ervas daninhas,
as chamadas de urtigas!

De tão venenosa e má,
não se pode com esta laia
a diamba misturar,
como num só mesmo balaio!
Raivosas, com espinhos,
experimente tocá-las e… ai, ai!
Nem serão boas vizinhas,
mas concorrentes desleais!

7

5.A MENINA-SARABAMBA

Menina Kátia tem sardas,
os orelhas rosadinhas,
cabelos ruivos entrançados
como de uma raposinha…
As ovelhas conduzindo aos campos,
quando escapa uma madeixa,
pelos ares vai seu grampo
e tão embaraçada a deixa…

Os pés descalços da menina
de olhinhos meio vesgos,
pastoreando sob a neblina
com os seus cabelos crespos…
Vocês bem já adivinham
como dela vão falar!
Bons apelidos com carinho
poderíamos lhe dar…

Mas não, chegamos tarde!
De nossa amiga já fazem graça:
“A camponesinha de sardas
pelos campos faz fumaça!”…
As crianças com maldade tagarelam
sobre Kátia e a maconha:
“Diamba-sarabamba!”, zombam elas –
como isso fosse uma vergonha!

8

9

6.PRIMEIRA LOA DA DIAMBA
(Verão)

Diamba-sarabamba –
de fragrância perfumosa!
Diamba-sarabamba –
de ramagens tão viçosas!
Flor diamba, menina sarabamba:
benditas sejam ambas.

No verão e no outono,
filha humilde da lavoura,
ela dá seu rico aroma
para quem humilde lavra,
como flor de verde ouro
que cresceu entre tratores
e entre cercas de alambre,
numa única palavra:
diamba-sarabamba!

Como há campos de aveia,
a diamba tem seus campos
e eles são paisagens amplas
onde os pássaros gorjeiam,
e os homens que a plantam
têm repletos de esperança
os corações transbordantes
de sentir sua fragrância…

Diamba-sarabamba –
de cheirosa e forte fibra!
Diamba-sarabamba –
ninguém nunca te proíba!
Flor diamba, menina sarabamba:
benditas sejam ambas.

10

7.É TEMPO DE FLORIR

Vejam como voa o pardal
de um salgueiro para o outro!
E logo mais todo o quintal
no aguaceiro está envolto.

O verão esquenta mais e mais…
Com vivas cores e fresco âmbar,
há flores e mais flores aonde vais…
Pois flore também, crespa diamba!

Flore, diamba, flore,
com teu verde tão modesto,
brota sob o manto arbóreo,
perfumosa flor agreste!

Na natureza, observa,
há meninos e meninas,
como os frutos desta erva
a duas casas se destinam.

Observa atentamente
da diamba como florem
umas flores com sementes,
outras flores com o pólen…

Enfim o alegre tempo da seara:
em tua palma as flores deitas,
das sementes a pipoca tu preparas…
E se faça bom proveito!

11

8. INVENÇÕES

Apelidada de diamba,
sempre atenta, ouve Kátia
o que se diz a seu respeito:
eles julgam, só com base em preconceito,
insinuam, só dislates-disparates
e diamba-sarabamba não aceitam.

As mentiras, deixem eles que as inventem!
Da diamba inventaremos bons proveitos:
ao pilar suas sementes
extraímos bom azeite,
e são melhores vestimentas
com a fibra dela feitas…

Tapam-se os buracos dos paióis
e até casa se constrói
com a matéria da diamba…
E até chicote se faz dela,
arreios, rédeas, selas
e outras cordas nada bambas!

E certa vez um marinheiro
em segredo admitiu:
“Diamba corre o mundo inteiro…”,
e num instante ele sorriu:
“Adiante, como hasteada bandeira,
de cânhamo é a vela do navio!”

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9. A FLOR-MENINO

Estava Kátia ali plantada
à espera da carroça…
A flor menino, estocada,
ficou murcha, macilenta…
– Puxa! – Experimenta!
Eles de novo se alvoroçam…

Entre cotoveladas e sorrisos,
seus irmãos não se continham:
– Para quem a calça? E a camisa?
O chicote e o chicotinho? –
E começou o empurra-empurra:
– Urra! Urra!

Que arteiro esse Greguinho!
Isso, irmão, não é brinquedo!
Essa flor-menina é minha…
Este aqui, eu te concedo:
amassa, asseia este folhedo
e fabrica para ti teu chicotinho!

Greguinho era mesmo um traquinas.
Rosadinhas as bochechas,
lembram, quase, as da menina…
Menos fartas as madeixas.
Mas com olhos tão azuis…
– Da cor do mar! – Ui, ui!

Kátia olhava admirada:
também a flor-menino é útil à beça!
Velas, para que os barcos nadem… –
Nem milagre, nem promessa,
é a puríssima verdade!
O mundo inteiro, se soubesse…

Como os pássaros viajam para o sul,
as plantas também amam o céu azul.
Passarinho, decola!
A plantinha tiraremos da gaiola!
Greguinho estala seu chicote –
Um futuro marinheiro no seu bote.

14

10. A BATEÇÃO

Separados os melhores ramos,
o cânhamo no leito ressequiu…
A bateção nós começamos…
E não solta nenhum piu!
Com amor tudo suporte,
e terá vida em vez de morte.

Os grãozinhos, secos e picantes,
nas cabecinhas toc-toc,
em todo canto eles pipocam.
Quantos ramos num só monte!
Mas a poeira que levanta
é ruim demais da conta!

Ajuntem as crianças mais um pouco
e batam, batam com os tocos,
com alegria batam em nós!
E aproveitem nossas sementes,
estourem pipoca e escutem contentes
as histórias de seus avós!

15

11.A CAMISA NO RIO

Tu, camisa minha, no fundo do rio!
Tanto que te espero, e até quando?
Só penso, na noite febril:
a diamba no rio afundando!

Como cantam e gargalham,
amarrando, colocando-a na água!
Com uma pedra presa aos galhos,
a diamba naufraga!

Mamãe pediu que eu me console,
vovó explicou para que serve:
precisa ir de molho, até ficar mole!
Verás tua diambinha em breve!

Para isso te batizam,
camisa minha tão esperada?
Que idéia, lavar uma camisa
que sequer foi costurada!

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12. DIAMBA NO PRENSOR

Outono acinzentou os arvoredos
e a diamba já está encharcada:
pela manhã bem cedo
retiraram ela da água.

Bem, agora o trabalho é rápido:
a diamba secar e prensar.
E como a fibra está um trapo!
Sarabamba sarará…

Primeiro no prensor tu a colocas
e começas a pular sobre a alavanca…
Em seguida, numa roca,
um belo tufo tu arrancas!

Sobretudo é preciso rapidez…
Mas no prensor não tem segredo:
Sacode tudo de uma vez!
E cuidado com o dedo!

Vê como eles prensam e prensam –
E a diamba, quietinha, lá embaixo…
Eu sento com vovó em silêncio
e penteio os amados cachos!

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13. ESPADELAR E PENTEAR

Não gosto muito da espadela:
como sacodem e sacodem a diamba!
Rolam pelos cantos tufos dela
enquanto a lâmina esculhamba.

Mas eu amo pentear seus cachos…
Desemaranho e desemaranho,
e já mais sedosa se acha
minha futura camisa de cânhamo.

Para tascar, as espadelas,
para pentear, os pentes,
como dando a uma donzela
um penteado diferente…

Emaranhados os seus ramos
no prensor que estalavam…
Agora na mão a pegamos –
suave, suave…

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14. FRIO E NEVE

Com o inverno cai a neve
e o vento logo se enerva:
No telhado alguém que chora?
A nogueira de frio agoniza?
Deixem o vento brincar lá fora,
não vão congelar os narizes!

É hora de o tempo livre
aproveitar com um bom livro…
Kátia, debruçada sobre as figuras,
sem saber ainda as letras, memoriza,
prediletos da gaveta, os de aventura
sobre outros mares e países…

Com o alfinete vovô trabalha
trançando uma sandália…
pensas, com fio de palha?
Sobre as águas e cordas-bambas,
por quais bandas tanto andas,
sandalinha sarabamba?

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15. SEGUNDA LOA DA DIAMBA
 (Inverno)

Diamba-sarabamba –
de vida sofrida!
Diamba-sarabamba –
de bonito penteado!
Quando tornares-te tecido,
estará tudo perdoado!

Inverno cruel, –
as nuvens formam uma cortina
que encobre todo o céu
enquanto afora murmurinham
os teus ventos prepotentes!
Mas divertem-se os meninos
com mãos cheias de sementes
que saltitam, como fossem joaninhas,
e estalam entre os dentes!

Vovó coroca
de cócoras se aninha,
a seu lado uma cumbuca de pipoca,
e num novelo enrola as linhas
que começam a silvar:
tu diamba, diambinha,
sarabamba saravá!

Flor diamba, menina sarabamba –
benditas sejam ambas!

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16. A MÁQUINA ASSIM VIBRA

Os pássaros já fazem pilhéria,
o degelo a tudo encharca,
outra vez é primavera
e mamãe montou a máquina.

Vem chegando a roupa nova!
Mamãe pôs a urdidura,
e como fosse dura prova
vibra a máquina de costura!

A diamba novamente se emaranha,
enquanto a máquina assim vibra,
talvez não teia de aranha,
mas tecido, fibra a fibra!

E tudo sem despentear,
tece, tece sem parar, maquinaria…
Uma mosca que grudasse no tear
decerto não escaparia…

Depressa, pombinha! Ainda faz frio
e é preciso agasalhar o meu nariz!
E venha o tempo bom primaveril
iluminar nosso país!

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17.  TERCEIRA LOA DA DIAMBA
(Primavera)

A diamba no quintal
acordou de uma soneca, –
como os tecidos no varal
sob o solzinho ela seca.
Seu verde, só, descoloriu
com o todo-poderoso frio…

Ah, a primavera vem chegando!
E além da neve e do gelo,
a diamba e seus cabelos
ao redor vão gotejando e estalando!
E nossa gente tem no rosto
um sorriso de dar gosto
de prazer desabrochando,
como quando no paiol
sob um raiozinho de sol
ouves o canto da calhandra.

Vamos, meninos, em fileira!
Vamos, meninas, dançar uma mazurca!
Eles saltam para perto da lareira
e batucam nas cumbucas.
Pés no chão, mãos na cintura!
Um salto à frente, um giro em torno!
E os sorrisos que fulguram
como a diamba no forno.

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18. TESOURAS E FIOS

Mamãe colocou tudo sobre a mesa,
separando os tecidos um por um,
e se pôs a cortar com destreza
a tesoura: zum-zum!

É de cair o queixo:
também os fios vêm dessa safra!
E pensar que são as mesmas as madeixas
cujo azeite está servido na garrafa…

Às agulhas! Não preciso nem falar.
Por toda a casa, como andorinhas
costuramos, para lá e para cá,
e para o tanque à tardezinha…

Agora todos na aldeia têm camisa:
Kátia sarabambinha
e a vesguinha Lisa,
o irmão Paulinho
e Dária moleca,
e também o careca
vovô Aluízio,
uma xale para a corcova
de vovó Praskóvia,
sandálias para as descalças
Natália e Eduarda,
e ainda costuraram calças
para o Greguinho de sardas.

Esse verão Greguinho vai pastorear,
os rebanhos conduzir às campinas…
“E algum dia, para o mar!”,
o chicote rasgou a neblina.

24

19. GREGUINHO PASTOR

Abril já passou, tu mesmo vês:
há diambas novinhas por onde fores.
A primavera trabalhou mais uma vez
e foi embora deixando as flores…

E entrando em maio tu verás
como as ovelhas conduzindo pelos campos
e perdendo no caminho os seus grampos
Kátia vai, Greguinho atrás.

De camisa nova, o novo pastor
e futuro marinheiro, –
basta à Kátia ele propôr
alguma nova brincadeira.

E nas mãos os seu chicote:
Pastor! – E tenho dito!
E com estalos cada vez mais fortes
por dez vezes se repita!

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20. A DIAMBA E A CORDA

Penteados e lavados seus cabelos,
sopra o vento, eles dançam.
Se alguém pensar torcê-los,
eis a mais bela das tranças.

A diamba nos bazares vai à venda,
as cordas para as tarefas difíceis,
o chicote pelos ares socorrendo
o cavaleiro em seu ofício.

Não se vive nem um dia sem diamba
e sem as cordas de seus cachos…
Um dia no campo descamba,
sem ela, barranco abaixo!

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21. POR TODA A PARTE A DIAMBA ESTÁ

Kátia foi ao monte
sem levar o seu rebanho,
olhou ao longe o horizonte…
Há algo estranho…

Derramando seu calor
por toda a terra e todo o mar,
o sol está para se pôr  –
e Kátia… pronta a navegar!

E onde houver terra
a diamba está,
e sarabamba se encerra
onde houver mar…

Só uma história, ou o futuro?
Assim, sem nenhum aviso
a aldeia inteira flutua
bem diante de nossos narizes!

E onde vemos Kátia,
na verdade, é uma sereia!
E no barco da pátria
está Greguinho, o marinheiro!

O mar com suas ondas se alegrou,
a vela se ergueu alto no mastro
e o barquinho, como um grou,
no horizonte se afasta…

E a terra toda redonda
floresceu como a diamba!
E a saudou o sol se pondo:
salve, salve, sarabamba!

33

SEPARAÇÃO, de Marina Tsvetáieva

efron-tsv

 

SEPARAÇÃO

Poema de Marina Tsvetáieva (1892 – 1941).
Dedicado a Serguei Efron (8 de outubro 1893 – 16 de outubro 1941)
Tradução de André Nogueira, set. 2016.
Imagem, ver nota ao final do poema.

Separação

(Marina Tsvetáieva)

para Serioja *

1
     
Guerra de torres
Longe no Kremlin.
Onde na terra,
Onde –

Solidez minha,
Placidez minha,
Intrepidez minha,
Piedade de mim?

Guerra de torres.
Guerra sem fim.
Onde na terra –
Minha
Casa,
Minha – graça,
Minha – alvorada,
Onde a pegada
De sola apertada,
Onde – meu sono?

Caída por terra
À noite esta guerra
Com os braços desmorono.

– Oh, não me abandones!

maio 1921

2

Como de um longo desmaio
Ergo meus braços.
Pelo buraco negro da janela
Contra a batalha da meia-noite
Inúteis braços que duelam.
Com apelos de socorro o atraio
Para casa. – E ei-lo: a cabeça que cai
Da torre! – Para casa!

Estende da batalha
Para mim, não para o cascalho
Da praça, soldado raso,
O rasante de tua asa.

maio 1921

3

Tudo torcido, tudo torcido
Como os braços sem amparo.
Entre nós não são terrestres
Estas verstas que nos separam,
Celestes rios, terras anil,
O inalienável bem-querer de toda a vida –
Por qual via que partiu?

Em prateados arreios
Pela estrada real ele voou.
Meus braços não despedaçam!
Arrastei-os
– Sem um piu! –,
Finquei meus pulsos
Como uma árvore para o impulso
De uma ave que migrou.

Voa, amado grou,
Voa, sumindo de vista.
Não abro mão do meu prumo:
Bem me visto para uma morte
Rápida como suas plumas douradas
E equilibro-me no último suporte
Meio às vastidões devastadas.

junho 1921

4

Cortada, como oliva madura,
A cabeceira da cama.
O divino ciúme
Sobre a paixão humana.

Cada murmúrio para os deuses
É rezado bem baixinho.
Toda a idade em flor perdeu-se,
Além de ti, pelo caminho.

A primaveril luxúria
A todos eles enfurece.
O céu te viu algures,
Pois redobra tuas preces.

=========

Acreditas – que as vozes
De tão glorioso cobre
E os sinais dos albatrozes
Tua rota manobram

Do penhasco à emboscada –
Com o peito na lança?
Que a onda sublevada
– Acreditas – te alcança?

Que os aguilhões da floresta
– Crês? – te vão cravar?
Maior que toda peste
É a piedade do tzar!

A gota fermenta
De teu pranto na terra.
Não temas a gente
Terrena, – misérrima!

Como antigamente,
Milhares de olhos a vê-lo.
Preso ao divino pente
Cada fio de cabelo.

Não temas de Zeus
A abóbada oca
Do insaciável céu
Do coração da boca.

12 de junho 1921

5

De mansinho
Com a débil mão franzina
Desemaranharei os caminhos:
Das mãos minhas – aos relinchos teus,
Amazona obediente, murmurinho
Pelos díssonos degraus do derradeiríssimo adeus.

Relinchas e escoicinhas,
Meu alado, no caminho
Iluminado. – No olhar uma alvorada.
Dai-me as mãozinhas, as mãozinhas! –
Inútil alarido tu repetes.
Entre nós – a prestes queda d’ água do Letes.

14 de junho 1921

6

Cabelos brancos não verás
Em mim, nem eu em ti.
Sem que olhes para trás
Tu nem saudades vais sentir.

Diante de tua desgraça
Este pranto me escapa:
– Sacode o braço!
Deixa cair a capa!

Sob os olhos frios
De um camafeu de dura pedra,
Como as mães esperam a cria,
Desta porta não arredo.

(Com o peso do sangue, a aridez
Dos joelhos, a retesa tez –
Pela derradeiríssima terrestre
Vez!)

Não como furtivo e articulado animal, –
Não, como sólido bloco
Passarei por esta porta –
Esta vida. – Afinal,
Eu só em lágrimas derroco,
Uma vez que tuas costas
São de pedra mais polida.

De repente, já não és pedra!
Mas como a larga asa da águia –
A capa largada e esta queda
Pelo abismo da ilharga
Para o luzeiro da cidade
Onde busco minha cria
E pela maternidade
Não sorrio.

15 de junho 1921

7

Como um broto no cepo
Te afloras.
Que não te perceba
Zeus. –
Implora!

Tua flor germine
Devagar e com cuidado.
Teu encanto masculino
É por eles invejado.

Os maxilares hiantes
E o chamado deles…
A invejar o teu encanto –
Um ninho de deuses.

Te atraem à peleja
Com louros e glórias.
Que não te eleja
Zeus. –
Implora!

As asas da águia
No céu em estrondo.
Teu grito propaga –
Que não te escondas!

Com sangue no bico
Te pinçou o raptor!
Cordeirinho nanico,
Deixa cair – o amor…

Com o peito cabeludo –
Beija o chão!
E implora ajuda…
Zeus,
Compaixão!

16 de junho 1921

8

Eu sei, eu sei,
Que nessa terra nosso amado,
Que esse cálice encantado,
É menos nosso
Do que deles –
Dos caminhos,
Das estrelas
E dos ninhos
Pendurados na encarnada.

Eu sei, eu sei
Quem é o dono desse cálice!
Como a altura da águia roçasse-a
A torre de meu braço para o céu,
Esse cálice eu sei como bebeu
A terrível e rosácea
Boca de Deus!

17 de junho 1921

~// ~

* Na foto, o casamento de Marina Tsvetáieva com Serguei Efron em 1911. Serioja, como se lê na dedicatória de ‘Separação’, trata-se de uma forma diminutiva e carinhosa do nome Serguei. Com a derrubada do governo provisório de A. Kerensky pelo Exército Vermelho em outubro de 1917, Efron alistou-se nas fileiras do Exército Branco, que resistiu contra a revolução em guerra civil. Entre os anos de 1920 e 1921, os voluntários Brancos foram derrotados em suas diversas frentes. Estes poemas foram escritos por Tsvetáieva em Moscou entre maio e junho de 1921, quando havia quatro anos de sua separação, sem notícias de Efron, se vivo ou morto. Um período de atribulações para a poeta, sozinha com as duas filhas do casal, além de exposta à guerra e suas privações. Em 1919 a família passava fome, e obrigada a entregar as filhas ao orfanato, Tsvetáieva perdeu a mais nova, Irina, por desnutrição. Além de longos poemas consagrados à batalha do Exército Branco, Tsvetáieva dedicou neste tempo poemas a Efron, um dos quais é o ciclo ‘Separação’. No mês seguinte, julho de 1921, a poeta receberá a notícia de que seu esposo está vivo, em Praga. Marina Tsvetáieva e sua filha, Ariadna, deixarão a Rússia quase um ano depois, em maio de 1922, para ir a seu encontro.

Nesta publicação de hoje lembramos a pessoa de Serguei Efron e seu amor com Marina Tsvetáieva. Conhecida por seu trágico desenlace, a história de ambos culminou em mais um gesto de dedicação da poeta, ao seguir Serioja desta vez de volta para a Rússia, isto é, para a União Soviética, em 1939, possivelmente sabendo como isso resultaria em sua morte. Estabelecido em Paris com a família, Efron convertera-se em agente secreto e trabalhara, sem o conhecimento da esposa, para a NKVD, a polícia soviética infiltrada entre os emigrados “brancos”. Seu nome fora implicado no assassinato de Ignace Reiss, ex-colaborador da NKVD, e Efron saiu foragido em um navio soviético em 1937, novamente deixando desamparada Tsvetáieva. Para ela se fecham todas as portas em Paris. Conseguirá embarcar, dois anos depois, para a Rússia, mas já não encontrará Efron, detido por acusação de traição. Ariadna, também detida, passará oito anos na prisão. Antes de fuzilado em 16 de outubro de 1941, Efron sob tortura recusou-se terminantemente a delatar o nome de Tsvetáieva, afirmando sempre que esta “por toda a sua vida só fez escrever poemas e prosa”. Nos relatórios da NKVD, lê-se a seguinte observação de seus torturadores: “Internado a partir do dia 7 de novembro de 1939 no setor psiquiátrico da prisão de Butýrki, devido a alucinações reativas agudas e uma tentativa de suicídio. No momento, sofre de alucinações auditivas, pensa que escuta falar dele pelos corredores, que sua mulher morreu, que ele ouve o título de um poema conhecido apenas por ele e sua mulher etc. Apresenta-se ansioso e pensa em suicídio. Sente-se oprimido, assustado, como quem aguarda alguma coisa de horrível” (em ‘Vivendo sob o Fogo’, ed. Martins Fontes, 2008, pág. 705). Como se sabe, seu pressentimento acerca de Marina Tsvetáieva se realizou, da pior forma, em 31 de agosto de 1941.

           ~//~

РАЗЛУКА

Марина Цветaева

Сереже


1

Башенный бой
Где-то в Кремле.
Где на земле,
Где –

Крепость моя,
Кротость моя,
Доблесть моя,
Святость моя.

Башенный бой.
Брошенный бой.
Где на земле –
Мой
Дом,
Мой – сон,
Мой – смех,
Мой – свет,
Узких подошв – след.

Точно рукой
Сброшенный в ночь –
Бой.

– Брошенный мой!

Май 1921

2

Уроненные так давно
Вздымаю руки.
В пустое черное окно
Пустые руки
Бросаю в полуночный бой
Часов, – домой
Хочу! – Вот так: вниз головой
– С башни! – Домой!

Не о булыжник площадной:
В шепот и шелест…
Мне некий Воин молодой
Крыло подстелет.

Май 1921

3

Всё круче, всё круче
Заламывать руки!
Меж нами не версты
Земные, – разлуки
Небесные реки, лазурные земли,
Где Друг мой навеки уже –
Неотъемлем.

Стремит столбовая
В серебряных сбруях.
Я рук не ломаю!
Я только тяну их
– Без звука! –
Как дерево-машет-рябина
В разлуку,
Во след журавлиному клину.

Стремит журавлиный,
Стремит безоглядно.
Я спеси не сбавлю!
Я в смерти – нарядной
Пребуду – твоей быстроте златоперой
Последней опорой
В потерях простора!

Июнь 1921

4

Смуглой оливой
Скрой изголовье.
Боги ревнивы
К смертной любови.

Каждый им шелест
Внятен и шорох.
Знай, не тебе лишь
Юноша дорог.

Роскошью майской
Кто-то разгневан.
Остерегайся
Зоркого неба.

=======

Думаешь – скалы
Манят, утесы,
Думаешь, славы
Медноголосый

Зов его – в гущу,
Грудью на копья?
Вал восстающий
– Думаешь – топит?

Дольнее жало
– Веришь – вонзилось?
Пуще опалы –
Царская милость!

Плачешь, что поздно
Бродит в низинах.
Не земнородных
Бойся, – незримых!

Каждый им волос
Ведом на гребне.
Тысячеоки
Боги, как древле.

Бойся не тины, –
Тверди небесной!
Ненасытимо –
Сердце Зевеса!

25 июня 1921

5

Тихонько
Рукой осторожной и тонкой
Распутаю путы:
Ручонки – и ржанью
Послушная, зашелестит амазонка
По звонким, пустым ступеням расставанья.

Топочет и ржет
В осиянном пролете
Крылатый. – В глаза – полыханье рассвета.
Ручонки, ручонки!
Напрасно зовете:
Меж ними – струистая лестница Леты.

27 июня 1921

6

Седой – не увидишь,
Большим – не увижу.
Из глаз неподвижных
Слезинки не выжмешь.

На всю твою муку,
Раззор – плач:
– Брось руку!
Оставь плащ!

В бесстрастии
Каменноокой камеи,
В дверях не помедлю,
Как матери медлят:

(Всей тяжестью крови,
Колен, глаз –
В последний земной
Раз!)

Не крадущимся перешибленным зверем, –
Нет, каменной глыбою
Выйду из двери –
Из жизни. – О чем же
Слезам течь,
Раз – камень с твоих
Плеч!

Не камень! – Уже
Широтою орлиною –
Плащ! – и уже по лазурным стремнинам
В тот град осиянный,
Куда – взять
Не смеет дитя
Мать.

28 июня 1921

7

Ростком серебряным
Рванулся ввысь.
Чтоб не узрел его
Зевес –
Молись!

При первом шелесте
Страшись и стой.
Ревнивы к прелести
Они мужской.

Звериной челюсти
Страшней – их зов.
Ревниво к прелести
Гнездо богов.

Цветами, лаврами
Заманят ввысь.
Чтоб не избрал его
Зевес –
Молись!

Все небо в грохоте
Орлиных крыл.
Всей грудью грохайся –
Чтоб не сокрыл.

В орлином грохоте
– О клюв! О кровь! –
Ягненок крохотный
Повис – Любовь…

Простоволосая,
Всей грудью – ниц…
Чтоб не вознес его
Зевес –
Молись!

29 июня 1921

8

Я знаю, я знаю,
Что прелесть земная,
Что эта резная,
Прелестная чаша –
Не более наша,
Чем воздух,
Чем звезды,
Чем гнезда,
Повисшие в зорях.

Я знаю, я знаю,
Кто чаше – хозяин!
Но легкую ногу вперед – башней
В орлиную высь!
И крылом – чашу
От грозных и розовых уст –
Бога!

30 июня 1921