Beautiful Losers, de Leonard Cohen

(Trecho do romance Beautiful Losers, início do Second Book: A Long Letter from F.) – Leonard Cohen

My Dear Friend,

Five years with the length of five years. I do not know exactly where this letter finds you. I suppose you have thought often of me. You were always my favourite male orphan. Oh, much more than that, much more, but I do not choose, for this last written communication, to expend myself in easy affection.

If my lawyers have performed according to my instructions, you are now in possession of my worldly estate, my soap collection, my factory, my Masonic aprons, my treehouse. I imagine you have already appropriated my style. I wonder where my style has led you. As I stand on this last springy diving board I wonder where my style has led me.

I am writing this last letter in the Occupational Therapy Room. I have let women lead me anywhere, and I am not sorry. Convents, kitchens, perfumed telephone booths, poetry courses–I followed women anywhere. I followed women into Parliament because I know how they love power. I followed women into the beds of men so that I could learn what they found there. The air is streaked with the smoke of their perfume. The world is clawed with their amorous laughter. I followed women into the world, because I loved the world. Breasts, buttocks, everywhere I followed the soft balloons. When women hissed at me from brothel windows, when they softly hissed at me over the shoulders of their dancing husbands, I followed them and I sank down with them, and sometimes when I listened to their hissing I knew it was nothing but the sound of the withering and collapse of their soft balloons.

This is the sound, this hissing, which hovers over every woman. There is one exception. I knew one woman who surrounded herself with a very different noise, maybe it was music, maybe it was silence. I am speaking, of course, about our Edith. It is five years now that I have been buried. Surely you know by now that Edith could not belong to you alone.

I followed the young nurses to Occupational Therapy. They have covered the soft balloons with starched linen, a pleasant tantalising cover which my old lust breaks as easily as an eggshell. I have followed their dusty white legs.

Men also give off a sound. Do you know what our sound is, dear frayed friend? It is the sound you hear in male sea shells. Guess what it is. I will give you three guesses. You must fill in the lines. The nurses like to see me use my ruler.

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The nurses like to lean over my shoulder and watch me use my red plastic ruler. They hiss through my hair and their hisses have the aroma of alcohol and sandalwood, and their starched clothes crackle like the white tissue paper and artificial straw which creamy chocolate Easter eggs come in.

Oh, I am happy today. I know that these pages will be filled with happiness. Surely you did not think that I would leave you with a melancholy gift.

Well, what are your answers? Isn’t it remarkable that I have extended your training over this wide gulf?

It is the very opposite of a hiss, the sound men make. It is Shhh, the sound made around the index finger raised to the lips. Shhh, and the roofs are raised against the storm. Shhh, the forests are cleared so the wind will not rattle the trees. Shhh, the hydrogen rockets go off to silence dissent and variety. It is not an unpleasant noise. It is indeed a perky tune, like the bubbles above a clam. Shhh, will everybody listen, please. Will the animals stop howling, please. Will the belly stop rumbling, please. Will Time call off its ultrasonic dogs, please.

It is the sound my ball pen makes on the hospital paper as I run it down the edge of the red ruler. Shhh, it says to the billion unlines of whiteness. Shhh, it whispers to the white chaos, lie down in dormitory rows. Shhh, it implores the dancing molecules, I love dances but I do not love foreign dances, I love dances that have rules, my rules.

Did you fill in the lines, old friend? Are you sitting in a restaurant or a monastery as I lie underground? Did you fill in the lines? You didn’t have to, you know. Did I trick you again?

Now what about this silence we are so desperate to clear in the wilderness? Have we laboured, ploughed, muzzled, fenced so that we might hear a Voice? Fat chance. The Voice comes out of the whirlwind, and long ago we hushed the whirlwind. I wish that you would remember that the Voice comes out of the whirlwind. Some men, some of the time, have remembered. Was I one?

Segundo Livro: Uma longa carta de F.Tradução por Mariana Ruggieri

Meu querido amigo,

Cinco anos com o comprimento de cinco anos. Não sei ao certo onde é que esta carta te encontra. Eu presumo que tenha pensado em mim com freqüência. Você sempre foi o meu órfão masculino preferido. Ah, muito mais que isso, muito mais, mas não pretendo, nessa minha última comunicação escrita, me gastar em fáceis afetos.

Se meus advogados agiram de acordo com as minhas instruções, você deve estar agora em posse da minha propriedade mundana, minha coleção de sabão, minha fábrica, meus aventais maçônicos, minha casa na árvore. Eu imagino que você já tenha se apropriado de meu estilo. Gostaria de saber aonde o meu estilo te levou. Enquanto me equilibro nesse último trampolim de salto, faço considerações sobre aonde o meu estilo me levou.

Estou escrevendo essa última carta na Sala de Terapia Ocupacional. Tenho deixado as mulheres me levarem para qualquer lugar, e não me arrependo. Conventos, cozinhas, cabines de telefone perfumadas, cursos de poesia – eu segui as mulheres para qualquer lugar. Segui mulheres ao Parlamento, pois sei como elas gostam de poder. Segui mulheres às camas de homens para ver o que elas encontravam lá. O ar está marcado com a fumaça de seus perfumes. O mundo está arranhado com as suas risadas amorosas. Segui mulheres ao mundo, porque eu amava o mundo. Peitos, bundas, por todo lugar eu segui os balões macios. Quando as mulheres silvavam para mim das janelas de bordéis, quando elas delicadamente silvavam para mim pelas costas de seus maridos dançantes, eu as segui e com elas afundei, e às vezes quando eu ouvia os seus silvos eu sabia que não era nada mais que o barulho e o colapso de seus balões macios.

É esse o som, esse silvo, que paira sobre todas as mulheres. Existe uma exceção. Eu conheci uma mulher que se rodeava com um barulho muito diferente, talvez fosse música, talvez fosse silêncio. Falo, é claro, de nossa Edith. Faz cinco anos agora que estou enterrado. De certo você sabe agora que Edith não poderia pertencer a você apenas.

Eu segui as jovens enfermeiras para a Terapia Ocupacional. Elas cobriram os balões macios com linho engomado, uma coberta agradável e tentadora que meu velho desejo rompe com a mesma facilidade que uma casca de ovo. Eu tenho seguido as suas brancas pernas empoeiradas.

Os homens também emitem um som. Você sabe qual o nosso som, querido desgastado amigo? É o barulho que se ouve em conchas masculinas. Adivinhe o que é. Te darei três chances. Você deve preencher as linhas. A enfermeira gosta de me ver usar a régua.

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As enfermeiras gostam de se debruçar sobre o meu ombro e me ver usar a minha régua vermelha de plástico. Elas silvam no emaranhado dos meus cabelos e seus silvos têm aroma de álcool e de sândalo, e suas roupas engomadas estalam como o papel crepom e a palha artificial que envolvem ovos de páscoa cremosos.

Ah, estou feliz hoje. Sei que essas páginas serão repletas de felicidade. Certamente você não pensou que eu o deixaria com um presente melancólico.

Então, quais foram as suas respostas? Não é impressionante que eu tenha estendido o seu treinamento por esse largo golfo?

É o extremo oposto de um silvo o barulho que fazem os homens. É Shhh, esse som feito ao redor do dedo indicador erguido aos lábios. Shhh, e os telhados estão erguidos contra as tempestades. Shhh, as florestas estão devastadas para que o vento não chacoalhe as árvores. Shhh, os mísseis de hidrogênio disparam para silenciar o dissenso e a variedade. Não é um barulho desagradável. É de fato uma melodia alegre, como as bolhas sobre a ostra. Shhh, prestem atenção todos, por favor. Os animais podem parar de uivar, por favor? A barriga pode parar com esses estrondos, por favor? O tempo pode cancelar seus cães ultrassônicos, por favor?

É o barulho que a minha caneta esferográfica faz no papel hospitalar enquanto eu a percorro contra a régua vermelha. Shhh, ela fala para as bilhares de não-linhas brancas. Shhh, ela cochicha para o caos branco, deite-se nas fileiras do dormitório. Shhh, ela implora às moléculas dançantes, eu adoro dançar, mas não gosto das danças estrangeiras, eu adoro danças que têm regras, as minhas regras.

Você preencheu as linhas, velho amigo? Você está sentado em um restaurante ou em um monastério enquanto eu estou debaixo do solo? Você preencheu as linhas? Sabe, você não precisava. Será que te enganei de novo?

E esse silêncio que estamos desesperados para arrefecer em terra selvagem? Será que trabalhamos, aramos, amordaçamos, cercamos para a possibilidade de ouvir a Voz? Evidente que não. A voz sai do redemoinho, e há muito silenciamos o redemoinho. Eu gostaria que você lembrasse que a Voz sai do redemoinho. Alguns homens, algumas vezes, se lembraram. Fui um deles?

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Beneath my hands, de Leonard Cohen

Beneath my hands – Leonard Cohen

Beneath my hands
your small breasts
are the upturned bellies
of breathing fallen sparrows.

Wherever you move
I hear the sounds of closing wings
of falling wings.

I am speechless
because you have fallen beside me
because your eyelashes
are the spines of tiny fragile animals.

I dread the time
when your mouth
begins to call me hunter.

When you call me close
to tell me
your body is not beautiful
I want to summon
the eyes and hidden mouths
of stone and light and water
to testify against you.

I want them
to surrender before you
the trembling rhyme of your face
from their deep caskets.

When you call me close
to tell me
your body is not beautiful
I want my body and my hands
to be pools
for your looking and laughing.

Debaixo das minhas mãos – Tradução por Mariana Ruggieri

Debaixo das minhas mãos
seus pequenos peitos
são os ventres virados
de pardais caídos respirantes.

Onde quer que você se mova
eu ouço o barulho de asas fechando
de asas caindo.

Eu estou mudo
porque você caiu ao meu lado
porque seus cílios
são as espinhas de minúsculos animais frágeis.

Eu temo o dia
que a sua boca
vai começar a me chamar de caçador.

Quando você me chama perto
para me dizer
seu corpo não é bonito
eu quero convocar
os olhos e as bocas escondidas
de pedra e luz e água
para testemunhar contra você.

Eu quero que
eles rendam a você
a rima trêmula do seu rosto
de dentro de seus caixões profundos.

Quando você me chama perto
para me dizer
seu corpo não é bonito
eu quero meu corpo e minhas mãos
como piscinas
para você olhar e sorrir.