QASIDA, de Lee Harwood

QASIDA
Lee Harwood

it’s that
the quiet room
the window open, trees outside
“blowing” in the wind.
the colour is called green.
the sky.
the colour is called blue.
(sigh) the crickets singing

windows open. You move . . .
No, not so much a moving
but the artificiality of containment
in one skin. “No man an island” (ha-ha Buddha)
. . . lonesome, huh?

THE music, THE pictures
(go walkabout)
Small wavy lines on the horizon

somewhere over the distant horizon
the distant city (I hadn’t thought of this,
but pull it in) and you

the children are sleeping
and you’re probably sitting in the big chair
reading or sewing something
It’s quarter past nine
I find you beautiful

***

the words come slowly. No . . .
your tongue the lips moving
the words reach out –
crude symbols – the hieroglyphs
sounds, not pictures

the touching beyond this –
I touch you

in the water
as though I’m in you

that joy
and skipping in the street
the children hanging on our arms

***

You know . . . – the signals (on the horizon?)
“blocked off” the ships at night
keep moving

these clear areas beyond the clutter
that clearing

on summer nights as we lie together . . .

there are green trees in the street
yes, there is the whole existence of
our bodies lying naked together
the two skins touching
the coolness of your breasts
the touch

The setting . . .
it doesn’t really matter
We know
So much goes on around us

on the quay they’re playing music
we’ll eat and dance there,
when the wind gets cold
we’ll put our sweaters on
it’s that simple, really . . .

***

. . . the dry fields
Up on the mountain sides
white doves (of course) glide
on the air-currents hang there

someone said tumble
“the sound of words as they tumble
from men’s mouths” (or something like that)

there are these areas,
not to be filled, but . . .

it’s a bare canvas, but not empty –
all there under the surface

This is not about writing,
but the whole process
You step off the porch into the dry field
You’re there
You see, you’re there
Now, take it from there . . .

QASIDA
Mariana Ruggieri

é aquilo
o quarto quieto
a janela aberta, as árvores lá fora
“soprando ao vento”
a cor se chama verde
o céu.
a cor se chama azul
(suspiro) os grilos cantando

as janela abertas. Você se move…
Não, não propriamente um movimento
mas a artificialidade do refreamento
de uma pele. “Nenhum homem é uma ilha” (há-há Buddha)
… que solidão, hein?

A música, AS fotos
(vá dar uma volta)
Pequenas linhas ondulantes no horizonte

em algum lugar do distante horizonte
a cidade distante (não tinha pensado nisso,
mas chame-a para dentro) e você

as crianças dormindo
e você está provavelmente sentada na cadeira grande
lendo ou costurando alguma coisa
São nove e quinze
E te acho linda

***

as palavras surgem devagar. Não…
sua língua os lábios se mexendo
as palavras se oferecem –
símbolos grotescos – os hieróglifos
sons, fotos não

os toques além disso –
eu te toco

na água
como se eu estivesse em você

aquela alegria
e saltitando na rua
as crianças se dependurando dos nossos braços

***

Sabe… – os sinais (no horizonte?)
“bloqueados” os navios à noite
continuam se movendo

essas áreas claras além da desordem
aquela clareira

nas noites de verão ao nos deitarmos juntos…

há árvores verdes na rua
sim, há a existência toda dos
nosso corpos nus deitados juntos
as duas peles tocando
a frescura dos seus peitos
o toque

O contexto
ele não importa muito
Nós sabemos
Tanta coisa acontece ao nossa redor

no cais eles estão tocando música
comeremos e dançaremos lá
quando o vento ficar frio
poremos nossas blusas
é simples assim…

***

… os campos secos
Nas faces das montanhas
pombas brancas (é claro) deslizam
nas correntes de ar que andam por lá

alguém disse cambalhota
“o barulho das palavras que dão cambalhotas ao sair
das bocas dos homens” (ou algo assim)

existem essas áreas,
a não serem preenchidas, mas…

é uma tela branca, mas não vazia
tudo lá debaixo da superfície

Isso não é sobre escrever,
mas sobre o processo todo
Você sai da varanda para dentro do campo seco
Você está lá
Veja, você está lá
Agora, leve-o de lá adiante…

Soft White, de Lee Harwood

Soft White
Lee Harwood

When the sea is as grey as her eyes
On these days for sure     the soft white
mist blown in from the ocean        the town dissolving
It all adds up        her bare shoulders

Nakedness         rolling in from the sea
on winter afternoons – a fine rain
looking down on the sand       & shingle
the waves breaking on the shore       & white

It is impossible to deny what
taken by surprise          then wonder
the many details of her body
to be held first now        then later

In body & mind       the fine rain outside
on winter afternoons        the nakedness
of her bare shoulders          as grey as her eyes
the sea rushing up the beach as white as

The whole outline called ‘geography’
meeting at a set of erotic points
lips   shoulders    breasts   stomach
the town dissolves      sex    thighs    legs

Outside       then across her nakedness
it rains in the afternoon     then the wonder
her body so young & firm       dissolves the town
in winter        grey as her eyes

Branco Macio
Mariana Ruggieri

Quando o mar é tão cinza quanto os seus olhos
Nestes dias com certeza                   o branco macio
da névoa soprando do oceano                 a cidade dissolvendo
tudo faz sentido        seus ombros descobertos

Nudez          rolando do mar
nas tardes de inverno – uma chuva fina
olhando para baixo na areia         & cascalho
as ondas quebrando na costa             & branco

É impossível negar o que
pego de surpresa           e imaginar
os muitos detalhes do corpo dela
serem tomados primeiro agora      e depois

Em corpo & mente       a fina chuva lá fora
nas tardes de inverno             a nudez
nos seus ombros nus          tão cinzas quanto seus olhos
o mar correndo praia adentro tão branco como

O contorno todo chamado “geografia”
se encontrando em um conjunto de pontos eróticos
lábios      ombros      peitos     barriga
a cidade se dissolve      sexo      coxas    pernas

Lá fora     e através da sua nudez
chove naquela tarde        e, assim, a maravilha
seu corpo tão jovem e firme           dissolve a cidade
no inverno       tão cinza quanto os seus olhos