Dois poemas de James Wright

james

James Arlington Wright (1927 –1980), poeta norte-americano, começou sua carreira com um trabalho mais formalista, recebendo influência da poesia surrealista espanhola e das poesias alemã e sul-americana (nas quais é reconhecidamente considerado um grande tradutor) até chegar ao verso livre. Em seu livro mais conhecido, The Branch Will Not Break, ele chega ao ápice de sua originalidade , além de ser considerado um contraponto à poesia Beat que dominava a cena norte-americana da época. Wright foi um inovador e seu trabalho se caracteriza, primeiramente, por ter nos títulos e nos versos iniciais e finais um tom de deslocamento do “lugar comum”. É possível observar em sua obra as fraturas de uma vida marcada pelo alcoolismo, além da bipolaridade e a depressão que o acompanharam até o fim.

 

Deitado em uma rede na fazenda William Duffy em Pine Island, Minnesota

Sobre minha cabeça, vejo a brônzea borboleta,
Adormecida no tronco negro,
Vibrando como uma folha na sombra verde.
Abaixo da ravina atrás da casa vazia,
Os sinos das vacas seguem-se uns aos outros
Na distância da tarde.
À minha direita,
Num campo luminoso entre dois pinheiros,
As fezes dos cavalos do ano passado
Brilham em pedras douradas.
Reclino-me, como a tarde escura que chega.
Um filhote de falcão sobrevoa, buscando um abrigo.
Eu desperdicei minha vida.

*

Próximo a Mansfield, Ohio

Os enormes cavalos todo-músculos do outono
Foram embora agora, para os negros celeiros,
Onde eles podem ser preguiçosos
Onde eles podem mastigar pequenas maçãs, preguiçosos
Em seus sonos.

E muitas estradas estão nuas.

Você, também, foi abandonado
Ao lado de uma rua, agora
Próximo a Mansfield, Ohio.
Uma vez nessa cidade, que se parece
Com uma puta de dezesseis anos vendendo papoulas
No Dia do Armistício, você morreu
Sozinho.

 

Tradução: Lucas Perito*

* Nasceu em São Paulo/ Brasil em 1985. É graduado em Comunicação em Multimeios pela PUC-SP. Trabalhou na editora Empresa das Artes, escrevendo livros ligados a história e fotografia, fazendo os textos de acompanhamento para o livro fotográfico “Caminhos da Mantiqueira” (2011) de Galileu Garcia Junior. Tem alguns poemas publicados na Revista Zunái, Escamandro, Diversos Afins, Benfazeja, na R. Nott Magazine, Caderno-Revista 7 Faces, Revista Parênteses, Revista Entreverbo, Jornal RelevO, Revista Saúva e Revista Gueto. Também participou como tradutor na Revista Parênteses e Escamandro.

 

****************************************************************

Lying in a Hammock at William Duffy’s Farm in Pine Island, Minnesota

Over my head, I see the bronze butterfly,
Asleep on the black trunk,
Blowing like a leaf in green shadow.
Down the ravine behind the empty house,
The cowbells follow one another
Into the distances of the afternoon.
To my right,
In a field of sunlight between two pines,
The droppings of last year’s horses
Blaze up into golden stones.
I lean back, as the evening darkens and comes on.
A chicken hawk floats over, looking for home.
I have wasted my life.

*

Near Mansfield, Ohio

The enormous muscle-bound dobbins of autumn
Are gone now, to dark barns,
Where they can be lazy,
Where they can munch little apples, lazy,
In their sleep.

And many highways are bare.

You, too, are abandoned
Beside a street, now,
Near Mansfield, Ohio.
Once in that town, that looks
Like a sixty-year-old whore selling poppies
On Armistice Day, you died
Alone.

 

Anúncios

etiqueta, de Hayes Davis

mano

Tradução: stella paterniani

depois de Yusef Komunyakaa

eu sentada aos oitos anos
à mesa da cozinha da vovó,
tentando pedir com licença.

joana e diana, minhas primas
encaram minha boca aberta
balbuciam “com… gli…

cença” como se eu não soubesse
o que eu devo dizer mas o que elas
é que não sabem é como “licença” é

uma das palavras que às vezes não saem,
como alô quando atendo o telefone,
boa noite quando meu pai sai

do meu quarto, meu nome quanto perguntam
como me chamo. elas não sabem que as con
sonantes às vezes voam,

feito passarinhos fugindo do frio.
eu encaro a boca de diana,
a boca de joana, a boca de ana

de volta tentando entender
como é que falar é tão fácil. quem sabe
quando eu crescer minha língua se solte,

porque tem gente no mercado
no ônibus e na loja de doces
que sempre me conta de quando

seus primos e irmãs e irmãos
hoje mais velhos que eu tinham
gagueiras como as minhas. as

deles não servem mais e eu espero
dar a minha embora logo logo daí
não vou perder tanto desenho depois do almoço

***************************************************************************

Etiquette

After Yusef Komunyakaa

I am eight, sitting at my
grandmother’s kitchen table,
trying to ask to be excused.

My cousins Jennifer and Danielle
stare at my open mouth,
keep sounding out “Can… I… be

excused” like I don’t understand
what I’m supposed to say but they
don’t know that “can” is one

of the words I can’t say sometimes,
like hello when I answer the phone,
goodnight when my dad leaves

my room, my name when people
ask it. They don’t know that my
consonants fly away sometimes,

like birds when it gets too cold.
I stare back at Danielle’s mouth,
Jennifer’s mouth, Oma’s mouth

trying to figure out what makes talkinng
so easy for them. Maybe my stutter
will go away when I get older,

because people at the supermarket
on the bus and in the candy store
are always telling me about their

cousins and sisters and brothers
who are older than me and once
had stutters like mine. They’ve

out-grown theirs, and I hope mine
will disappear one day too, so I won’t
miss so many cartoons after lunch.

 

A mosca, A rosa doente e a A árv’re envenenada, de William Blake

k35-1-1-wd-300

Traduções: Victor M. P. de Queiroz

A Mosca

Parva Mosca,
Vosso vão brincar
Minha mão estulta
Fez esfacelar.

Não serei
Mosca como vós?
Ou será não sois
Homem como nós?

Pois eu danço,
Bebo e também canto,
‘Té que cegas mãos
Me as asas alcançam.

Se é viver pensar,
Ter força, ter alento,
Se morrer é ter
Falto o pensamento;

Saída há pouca:
Serei uma mosca,
Ainda que viva,
Ainda que morra.

______

A Rosa doente

Rosa, estás doente!
O verme invisível,
Que voa na noite,
Na treva terrível,

Encontrou teu leito
De gozo escarlate;
E dele o secreto
Mau amor te abate.

______

A árv’re envenenada
Tradução dedicada a Núria Pratginestós

Enfureceu-me um amigo.
Disse-lho, a ira foi consigo.
Enfureceu-me o adversário.
Nada disse: houve o contrário.

Banhou-se-me a ira, tarde
E manhã, em pranto covarde;
Banhou-se em sol de sorrisos
E bem-quereres fingidos,

Manhã e tarde crescia,
‘Té virar maçã sadia,
Que viu brilhar meu imigo:
Invejou-me estar comigo

A maçã, que fez roubar
Do jardim, sob o luar.
Manhã. Feliz, vejo, ao lado
D’árv’re, o vilão ‘statelado.

*****************************************************************

William Blake

The Fly

Little Fly,
Thy summer’s play
My thoughtless hand
Has brush’d away.

Am not I
A fly like thee?
Or art not thou
A man like me?

For I dance,
And drink, and sing,
Till some blind hand
Shall brush my wing.

If thought is life
And strength and breath,
And the want
Of thought is death;

Then am I
A happy fly,
If I live
Or if I die.

___________

The sick Rose

O Rose, thou art sick!
The invisible worm,
That flies in the night,
In the howling storm,

Has found out thy bed
Of crimson joy;
And his dark secret love
Does thy life destroy.

___________

A poison tree

I was angry with my friend:
I told my wrath, my wrath did end.
I was angry with my foe:
I told it not, my wrath did grow.

And I water’d it in fears,
Night and morning with tears;
And I sunned it with smiles,
And with soft deceitful wiles.

And it grew both day and night,
Till it bore an apple bright;
And my foe beheld it shine,
And he knew that it was mine,

And into my garden stole
When the night had veil’d the pole:
In the morning glad I see
My foe outstretch’d beneath the tree.

Fracassos no infinitivo, de Bernadette Mayer

bernadette-mayer

Fracassos no infinitivo

Tradução: Mariana Ruggieri

por que estou fazendo isso? Fracasso para
manter meu emprego para então
poder encontrar coisas para
pintar a minha casa
ganhar dinheiro suficiente para viver para
poder pintar a casa & para
poder encontrar coisas e
ganhar dinheiro suficiente para então
poder costurar livros para
publicar obras e livros para
ter tempo para
responder correspondências & telefonemas para
lavar as janelas para
tornar a cozinha melhor para o trabalho para
ter dinheiro para comprar um rádio simples para
escutar enquanto trabalho na cozinha para
saber o suficiente para fazer no mundo o trabalho adulto para
transcender minha atitude para
uma pobreza compulsória para
poder esperar os cheques
chegar a tempo pelo correio para
não sempre esperar que eles não vão para
esquecer as atitudes da minha mãe com a humildade ou para
continuar a
assumir sem sofrer para
esquecer como minha mãe enlouquecia meu pai
com dinheiro, minha irmã sobre não posso dizer
fracasso para esquecer mãe e pai o suficiente para
ser mais velha, para esquecer para
esquecer meu tio obssessivo para
lembrar de outra maneira para
lembrar com precisão seus preconceitos para
cessar de sonhar com leões que para sempre é
sonhar com eles, eu coloco minha mão na boca do leão para
arrefecer sua raiva, isso não é um fracasso para
perceber que eles eram assim; fracasso para
trocar de planta os vasos para
ser organizada para
criar & manter superfícies limpas para
deixar um sofá ou uma cadeira ser um lugar para sentar
e não uma mesa para
deixar a mesa ser um lugar para comer & não uma escrivaninha para
escutar mais música popular para
aprender as letras para
não precisar de dinheiro para então
poder escrever o tempo todo para
não ter que pagar aluguel, condomínio ou contas de telefone
esquecer a morte precoce de pais e tios para então
ficar livre de esperar cuidados; fracasso para
amar objetos
encontrar neles qualquer valor; fracasso para
preservar objetos
comprar objetos e
agora deixar caídos na sarjeta; fracasso para
pensar em poemas como objetos
pensar o corpo como um objeto; fracasso para
acreditar; fracasso para
saber nada; fracasso para
saber tudo; fracasso para
lembrar como soletrar fracasso; fracasso para
acreditar no dicionário & que há algo para
alcançar; fracasso para
ensinar direito; fracasso para
acreditar no ensino para
só achar que todo mundo sabe tudo
que não é o meu fracasso; eu sei que todo mundo sabe; fracasso para
ver que não todo mundo acredita nesse saber e
pensar que não podemos durar até o sucesso do saber
lavar toda a louça leva apenas dez minutos
escrever mil poemas em uma hora para
fazer um épico, abra a janela suja para
deixar entrar você sabe quem e para
expirar pensamentos e poemas longe dos problemas para
deixar a gente saber, a gente deixa para
pintar seus tetos & paredes de graça

______________________________________________________________________________

Failures in Infinitives

Bernadette Mayer

why am i doing this? Failure
to keep my work in order so as
to be able to find things
to paint the house
to earn enough money to live on
to reorganize the house so as
to be able to paint the house &
to be able to find things and
earn enough money so as
to be able to put books together
to publish works and books
to have time
to answer mail & phone calls
to wash the windows
to make the kitchen better to work in
to have the money to buy a simple radio
to listen to while working in the kitchen
to know enough to do grownups work in the world
to transcend my attitude
to an enforced poverty
to be able to expect my checks
to arrive on time in the mail
to not always expect that they will not
to forget my mother’s attitudes on humility or
to continue
to assume them without suffering
to forget how my mother taunted my father
about money, my sister about i cant say it
failure to forget mother and father enough
to be older, to forget them
to forget my obsessive uncle
to remember them some other way
to remember their bigotry accurately
to cease to dream about lions which always is
to dream about them, I put my hand in the lion’s mouth
to assuage its anger, this is not a failure
to notice that’s how they were; failure
to repot the plants
to be neat
to create & maintain clear surfaces
to let a couch or a chair be a place for sitting down
and not a table
to let a table be a place for eating & not a desk
to listen to more popular music
to learn the lyrics
to not need money so as
to be able to write all the time
to not have to pay rent, con ed or telephone bills
to forget parents’ and uncle’s early deaths so as
to be free of expecting care; failure
to love objects
to find them valuable in any way; failure
to preserve objects
to buy them and
to now let them fall by the wayside; failure
to think of poems as objects
to think of the body as an object; failure
to believe; failure
to know nothing; failure
to know everything; failure
to remember how to spell failure; failure
to believe the dictionary & that there is anything
to teach; failure
to teach properly; failure
to believe in teaching
to just think that everybody knows everything
which is not my failure; I know everyone does; failure
to see not everyone believes this knowing and
to think we cannot last till the success of knowing
to wash all the dishes only takes ten minutes
to write a thousand poems in an hour
to do an epic, open the unwashed window
to let in you know who and
to spirit thoughts and poems away from concerns
to just let us know, we will
to paint your ceilings & walls for free

Seis poemas de Walt Whitman

whitman.jpg

Traduções de Victor M. P. de Queiroz

A alguém que passa

Estranha que passa! nem sonha quão longo meu olhar delonga sobre si,
Deve você ser ele ou ela, ser quem busco (vem-me como se de um sonho),
Outrora, decerto, uma vida de gozo consigo eu vivi,
Tudo aflora, no entrecruzamento afetuoso, fluido, casto, amadurado, de nós:
Você cresceu comigo, foi guri comigo ou foi guria,
Eu fiz comer, dormir consigo, o corpo seu não mais foi seu, nem meu o meu foi mais,
apenas,
Você me dá o prazer dos olhos seus, da face, carne, quando passo, e tira-me das mãos, da
barba, peito, o estorno,
Não lhe devo falar, mas pensar em si, se sento só ou quando insone,
Devo esperar, sem duvidar que a venha ver de novo,
E disso ver surgir você, que eu não a perco.

*

Eu sou quem arde com amor ardente
Tradução dedicada a Levi Fernando

Eu sou quem arde com amor ardente;
A terra não gravita? Matéria não atrai, ardendo, mais matéria?
Pois bem meu corpo o que conhece, encontra…

*

Juventude, Dia, Velhice e Noite

Juventude, larga, de langor, de amor – plena de graça, força e fascínio,
Sabe você que a poderá seguir Velhice de igual graça, de igual força e igual fascínio?
Dia perflorescido e esplêndido – dia do imenso sol, de ação, de ambição, de júbilo,
A Noite o segue de perto com milhões de sóis, e sono, e a cura que vem no escuro.

*

Quando escutei o culto astrônomo
Tradução dedicada a Tamara Martinez

Quando escutei o culto astrônomo,
Quando provas, figuras, em colunas frente a mim foram içadas,
Quando se me mostraram cartas, diagramas, que somasse, dividisse, mensurasse,
Quando escutei, sentado, lecionar o astrônomo entre mil aplausos, na sala de aulas,
Quanto me não senti, breve, enfarado e febril,
‘Té que, por conta própria, levantei-me e fui, meti-me
Na umidade mística do ar da noite, e, de tempo em tempo,
Tudo em silêncio: eu contemplava estrelas.

*

O’ Capitão! meu Capitão!

O’ Capitão! meu Capitão! é finda a temível viagem,
O prêmio querido é ganho, a nau sobrevivera à voragem,
E é perto o porto: sinos que ouço, o povo todo que exulta,
Olhos seguindo a quilha firme, e a nave ousada e enxuta;
      Mas O’ peito! coração!
      O’ pinga o fluido acarminado
      Onde, convés, deita meu Capitão,
            Onde jaz frio, finado.

O’ Capitão! meu Capitão! levanta-te e ouve os sinos;
Levanta – por ti freme a flâmula, e as trompas trinam,
Para ti buquês, guirlandas, laços – por ti as praias se enchem
Por ti clama a massa que balança, virando os rostos tensos;
Capitão, aqui! O’ pai que amei!
Sob tua nuca, meu braço pousado!
És no convés um sonho que sonhei,
Teres caído frio, finado?

Meu Capitão não me responde: seu lábio é imóvel, baço…
Sem pulso ou ímpeto, meu pai sequer me sente o toque do braço.
É feito e findo o giro, salva e sã está a nau da voragem,
Vinda, co’o prêmio ganho à bordo, de tão temível viagem:
Exultai, praias! O’ sinos, dobrai!
Mas, aqui, andarei enlutado,
Convés onde jaz, Capitão, meu pai,
Onde jaz frio, finado.

*

Batam! batam! peles!

Batam! batam! peles! – Soprem! trompas! assoprem!
Varem portas, janelas, rude e impetuosamente
Adentrem templos solenes – e espantem os congregados -,
Escolas onde estudam doutores;
Não deixem noivos a sós – não haverá gôzo entre cônjuges
Nem paz aos fazendeiros pacatos, seja durante arada ou colheita:
Das peles tão feroz quizumba – e agudas soprem, trompas!

Batam! batam! peles! – Soprem! trompas! assoprem!
Sobre o tráfego urbano – sobre as rinhas de rodas nas ruas;
Há camas feitas para os que têm sono? Não haverá dormir sobre elas,
Não haverá barganhas de corretores ou agiotas, como prosperarão?
Palrará o palrador? O cantor, ele ousará cantar?
Na côrte se erguerá perante o júri o homem de leis de algo em defesa?
Pois rufem presto e forte, peles! – trompas, soprem ferozes!

Batam! batam! peles! – Soprem! trompas! assoprem!
Indiscutível, irrefreavelmente!
Irrelevantes tímidos, suplicantes ou carpideiras,
Os velhos implorando pelos jovens…
Não se ouça a voz das crianças, o apelo das mães,
Trema mesmo dos mortos o repouso último em que o saimento esperam:
Ó peles, golpes tão potentes – soprem, trompas, tão forte!

 

*******************************************************

To a stranger

Passing stranger! you do not know how longingly I look upon you,
You must be he I was seeking, or she I was seeking (it comes to me as of a dream),
I have somewhere surely lived a life of joy with you,
All is recall’d as we flit by each other, fluid, affectionate, chaste, matured,
You grew up with me, were a boy with me or a girl with me,
I ate with you and slept with you, your body has become not yours only nor left my body
mine only,
You give me the pleasure of your eyes, face, flesh, as we pass, you take of my beard, breast,
hands,in return,
I am not to speak to you, I am to think of you when I sit alone or wake at night alone,
I am to wait, I do not doubt I am to meet you again,
I am to see to it that I do not lose you.

*

I am he that aches with amorous love

I am he that aches with amorous love
Does the earth gravitate? does not all matter, aching, attract all matter?
So the body of me to all I meet or know.

*

Youth, Day, Old Age and Night

Youth, large, lusty, loving – youth full of grace, force, fascination,
Do you know that Old Age may come after you with equal grace, force, fascination?
Day full-blown and splendid – day of the immense sun, action, ambition, laughter,
The Night follows close with millions of suns, and sleep, and restoring darkness.

*

When I heard the learn’d astronomer

When I heard the learn’d astronomer,
When the proofs, the figures, were ranged in columns before me,
When I was shown the charts and diagrams, to add divide and measure them,
When I sitting heard the astronomer where he lectured with much applause in the lecture-room,
How soon unaccountable I became tired and sick,
Till rising and gliding out I wander’d off by myself,
In the mystical moist night-air, and from time to time,
Look’d up in perfect silence at the stars.

*

O captain! my captain!

O Captain! my Captain! our fearful trip is done,
The ship has weather’d every rack, the prize we sought is won,
The port is near, the bells I hear, the people all exulting,
While follow eyes the steady keel, the vessel grim and daring;
      But O heart! heart! heart!
      O the bleeding drops of red,
      Where on the deck my Captain lies,
                Fallen cold and dead.

O Captain! my Captain! rise up and rear the bells;
Rise up – for you the flag is flung – for you the bugle trills,
For you bouquets and ribbon’d wreaths – for you the shores a-crowding,
For you they call, the swaying mass, their eager faces turning;
      Here Captain! dear father!
      The arm beneath your head!
      It is some dream that on the deck,}
                You’ve fallen cold and dead.

My Captain does not answer, his lips are pale and still,
My father does not feel my arm, he has no pulse nor will,
The ship is anchor’d safe and sound, its voyage closed and done,
From fearful trip the victor ship comes in with object won:
      Exult O shores and ring O bells!
      But I with mournful tread,
      Walk the deck my Captain lies,
                Fallen cold and dead.

*

Beat! beat! drums!

Beat! beat! drums!—blow! bugles! blow!
Through the windows—through doors—burst like a ruthless force,
Into the solemn church, and scatter the congregation,
Into the school where the scholar is studying,
Leave not the bridegroom quiet—no happiness must he have now with his bride,
Nor the peaceful farmer any peace, ploughing his field or gathering his grain,
So fierce you whirr and pound you drums—so shrill you bugles blow.

Beat! beat! drums!—blow! bugles! blow!
Over the traffic of cities—over the rumble of wheels in the streets;
Are beds prepared for sleepers at night in the houses? no sleepers must sleep in those beds,
No bargainers’ bargains by day—no brokers or speculators—would they continue?
Would the talkers be talking? would the singer attempt to sing?
Would the lawyer rise in the court to state his case before the judge?
Then rattle quicker, heavier drums—you bugles wilder blow.

Beat! beat! drums!—blow! bugles! blow!
Make no parley—stop for no expostulation,
Mind not the timid—mind not the weeper or prayer,
Mind not the old man beseeching the young man,
Let not the child’s voice be heard, nor the mother’s entreaties,
Make even the trestles to shake the dead where they lie awaiting the hearses,
So strong you thump O terrible drums—so loud you bugles blow.

 

V, dos Sonetos do português, de Elizabeth Barrett Browning

beth

Sonetos do português, V
Tradução: Victor M. P. de Queiroz
Solenemente, eu ergo um coração que pesa,
tal qual outrora Electra a urna sepulcral,
e, olhando os olhos seus, eu faço derramal-
o: as cinzas aos seus pés. Contemple atento e veja

quão farta pira de pesar que em mim s’encerra,
e como tim’das chispas, de um ruivo feral,
queimam na massa cinza. E se seus pés, por mal,
fizerem desfazê-la inteiramente em trevas,

talvez não façam mal. Contudo, se, por vez,
esperar ao lado meu o vento vir soprar
o pó cinzento… os louros sobre a sua tez,

ó meu amado, não lhe haverão de escudar
de toda chama que lhe deva ferir, cres-
tar o cabelo abaixo. Afaste-se, então! Vá.

__________________________
I lift my heavy heart up solemnly,
As once Electra her sepulchral urn,
And, looking in thine eyes, I overturn
The ashes at thy feet. Behold and see

What a great heap of grief lay hid in me,
And how the red wild sparkles dimly burn
Through the ashen greyness. If thy foot in scorn
Could tread them out to darkness utterly,

It might be well perhaps. But if instead
Thou wait beside me for the wind to blow
The grey dust up,… those laurels on thine head,

O My beloved, will not shield thee so,
That none of all the fires shall scorch and shred
The hair beneath. Stand further off then! Go.

Sento a coser, de Alice Moore Dunbar-Nelson

Alice-Dunbar-Nelson__01

Sento a coser
Tradução: Victor Martins Pinto de Queiroz

Sento a coser — tarefa à toa? talvez seja…
Cansam-se mãos, sonhar faz pesar-me a cabeça —
A panóplia da guerra, a marcha marcial
De rudes rostos, frios olhares sem igual
Entre as almas-padrão, que a Morte não têm visto
Nem a vida suster sabem, mais que um suspiro —
Mas — é mister sentar, coser.

Sento a coser — o peito ardente de desejos —
Aquele show atroz, chamas ferais, lampejos,
Em campos ermos; vis e sinuosas cousas —
Homens outrora. Alma apiedada, ousas
Aos prantos apelar, em ânsias de partir,
Ir lá, fero holocausto, aos campos de carpir —
Mas — é mister sentar, coser.

A parca e vã costura, esta estática emenda;
Por que sonhar aqui, na familiar fazenda,
Quando lá longe, em lodo e pluviôse, os vivos
E os mortos a clamar por mim clamor penível?
Ó Cristo, eu sou precisa! É sonho de candura
Que me acena? Não… — futilíssima costura,
Sufocas-me — Deus! é mister sentar, coser?

***********************************

I sit and sew
Alice Moore Dunbar-Nelson
I sit and sew—a useless task it seems,
My hands grown tired, my head weighed down with dreams—
The panoply of war, the martial tread of men,
Grim-faced, stern-eyed, gazing beyond the ken
Of lesser souls, whose eyes have not seen Death,
Nor learned to hold their lives but as a breath—
But—I must sit and sew.

I sit and sew—my heart aches with desire—
That pageant terrible, that fiercely pouring fire
On wasted fields, and writhing grotesque things
Once men. My soul in pity flings
Appealing cries, yearning only to go
There in that holocaust of hell, those fields of woe—
But—I must sit and sew.

The little useless seam, the idle patch;
Why dream I here beneath my homely thatch,
When there they lie in sodden mud and rain,
Pitifully calling me, the quick ones and the slain?
You need me, Christ! It is no roseate dream
That beckons me—this pretty futile seam,
It stifles me—God, must I sit and sew?