Seis poemas de Walt Whitman

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Traduções de Victor M. P. de Queiroz

A alguém que passa

Estranha que passa! nem sonha quão longo meu olhar delonga sobre si,
Deve você ser ele ou ela, ser quem busco (vem-me como se de um sonho),
Outrora, decerto, uma vida de gozo consigo eu vivi,
Tudo aflora, no entrecruzamento afetuoso, fluido, casto, amadurado, de nós:
Você cresceu comigo, foi guri comigo ou foi guria,
Eu fiz comer, dormir consigo, o corpo seu não mais foi seu, nem meu o meu foi mais,
apenas,
Você me dá o prazer dos olhos seus, da face, carne, quando passo, e tira-me das mãos, da
barba, peito, o estorno,
Não lhe devo falar, mas pensar em si, se sento só ou quando insone,
Devo esperar, sem duvidar que a venha ver de novo,
E disso ver surgir você, que eu não a perco.

*

Eu sou quem arde com amor ardente
Tradução dedicada a Levi Fernando

Eu sou quem arde com amor ardente;
A terra não gravita? Matéria não atrai, ardendo, mais matéria?
Pois bem meu corpo o que conhece, encontra…

*

Juventude, Dia, Velhice e Noite

Juventude, larga, de langor, de amor – plena de graça, força e fascínio,
Sabe você que a poderá seguir Velhice de igual graça, de igual força e igual fascínio?
Dia perflorescido e esplêndido – dia do imenso sol, de ação, de ambição, de júbilo,
A Noite o segue de perto com milhões de sóis, e sono, e a cura que vem no escuro.

*

Quando escutei o culto astrônomo
Tradução dedicada a Tamara Martinez

Quando escutei o culto astrônomo,
Quando provas, figuras, em colunas frente a mim foram içadas,
Quando se me mostraram cartas, diagramas, que somasse, dividisse, mensurasse,
Quando escutei, sentado, lecionar o astrônomo entre mil aplausos, na sala de aulas,
Quanto me não senti, breve, enfarado e febril,
‘Té que, por conta própria, levantei-me e fui, meti-me
Na umidade mística do ar da noite, e, de tempo em tempo,
Tudo em silêncio: eu contemplava estrelas.

*

O’ Capitão! meu Capitão!

O’ Capitão! meu Capitão! é finda a temível viagem,
O prêmio querido é ganho, a nau sobrevivera à voragem,
E é perto o porto: sinos que ouço, o povo todo que exulta,
Olhos seguindo a quilha firme, e a nave ousada e enxuta;
      Mas O’ peito! coração!
      O’ pinga o fluido acarminado
      Onde, convés, deita meu Capitão,
            Onde jaz frio, finado.

O’ Capitão! meu Capitão! levanta-te e ouve os sinos;
Levanta – por ti freme a flâmula, e as trompas trinam,
Para ti buquês, guirlandas, laços – por ti as praias se enchem
Por ti clama a massa que balança, virando os rostos tensos;
Capitão, aqui! O’ pai que amei!
Sob tua nuca, meu braço pousado!
És no convés um sonho que sonhei,
Teres caído frio, finado?

Meu Capitão não me responde: seu lábio é imóvel, baço…
Sem pulso ou ímpeto, meu pai sequer me sente o toque do braço.
É feito e findo o giro, salva e sã está a nau da voragem,
Vinda, co’o prêmio ganho à bordo, de tão temível viagem:
Exultai, praias! O’ sinos, dobrai!
Mas, aqui, andarei enlutado,
Convés onde jaz, Capitão, meu pai,
Onde jaz frio, finado.

*

Batam! batam! peles!

Batam! batam! peles! – Soprem! trompas! assoprem!
Varem portas, janelas, rude e impetuosamente
Adentrem templos solenes – e espantem os congregados -,
Escolas onde estudam doutores;
Não deixem noivos a sós – não haverá gôzo entre cônjuges
Nem paz aos fazendeiros pacatos, seja durante arada ou colheita:
Das peles tão feroz quizumba – e agudas soprem, trompas!

Batam! batam! peles! – Soprem! trompas! assoprem!
Sobre o tráfego urbano – sobre as rinhas de rodas nas ruas;
Há camas feitas para os que têm sono? Não haverá dormir sobre elas,
Não haverá barganhas de corretores ou agiotas, como prosperarão?
Palrará o palrador? O cantor, ele ousará cantar?
Na côrte se erguerá perante o júri o homem de leis de algo em defesa?
Pois rufem presto e forte, peles! – trompas, soprem ferozes!

Batam! batam! peles! – Soprem! trompas! assoprem!
Indiscutível, irrefreavelmente!
Irrelevantes tímidos, suplicantes ou carpideiras,
Os velhos implorando pelos jovens…
Não se ouça a voz das crianças, o apelo das mães,
Trema mesmo dos mortos o repouso último em que o saimento esperam:
Ó peles, golpes tão potentes – soprem, trompas, tão forte!

 

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To a stranger

Passing stranger! you do not know how longingly I look upon you,
You must be he I was seeking, or she I was seeking (it comes to me as of a dream),
I have somewhere surely lived a life of joy with you,
All is recall’d as we flit by each other, fluid, affectionate, chaste, matured,
You grew up with me, were a boy with me or a girl with me,
I ate with you and slept with you, your body has become not yours only nor left my body
mine only,
You give me the pleasure of your eyes, face, flesh, as we pass, you take of my beard, breast,
hands,in return,
I am not to speak to you, I am to think of you when I sit alone or wake at night alone,
I am to wait, I do not doubt I am to meet you again,
I am to see to it that I do not lose you.

*

I am he that aches with amorous love

I am he that aches with amorous love
Does the earth gravitate? does not all matter, aching, attract all matter?
So the body of me to all I meet or know.

*

Youth, Day, Old Age and Night

Youth, large, lusty, loving – youth full of grace, force, fascination,
Do you know that Old Age may come after you with equal grace, force, fascination?
Day full-blown and splendid – day of the immense sun, action, ambition, laughter,
The Night follows close with millions of suns, and sleep, and restoring darkness.

*

When I heard the learn’d astronomer

When I heard the learn’d astronomer,
When the proofs, the figures, were ranged in columns before me,
When I was shown the charts and diagrams, to add divide and measure them,
When I sitting heard the astronomer where he lectured with much applause in the lecture-room,
How soon unaccountable I became tired and sick,
Till rising and gliding out I wander’d off by myself,
In the mystical moist night-air, and from time to time,
Look’d up in perfect silence at the stars.

*

O captain! my captain!

O Captain! my Captain! our fearful trip is done,
The ship has weather’d every rack, the prize we sought is won,
The port is near, the bells I hear, the people all exulting,
While follow eyes the steady keel, the vessel grim and daring;
      But O heart! heart! heart!
      O the bleeding drops of red,
      Where on the deck my Captain lies,
                Fallen cold and dead.

O Captain! my Captain! rise up and rear the bells;
Rise up – for you the flag is flung – for you the bugle trills,
For you bouquets and ribbon’d wreaths – for you the shores a-crowding,
For you they call, the swaying mass, their eager faces turning;
      Here Captain! dear father!
      The arm beneath your head!
      It is some dream that on the deck,}
                You’ve fallen cold and dead.

My Captain does not answer, his lips are pale and still,
My father does not feel my arm, he has no pulse nor will,
The ship is anchor’d safe and sound, its voyage closed and done,
From fearful trip the victor ship comes in with object won:
      Exult O shores and ring O bells!
      But I with mournful tread,
      Walk the deck my Captain lies,
                Fallen cold and dead.

*

Beat! beat! drums!

Beat! beat! drums!—blow! bugles! blow!
Through the windows—through doors—burst like a ruthless force,
Into the solemn church, and scatter the congregation,
Into the school where the scholar is studying,
Leave not the bridegroom quiet—no happiness must he have now with his bride,
Nor the peaceful farmer any peace, ploughing his field or gathering his grain,
So fierce you whirr and pound you drums—so shrill you bugles blow.

Beat! beat! drums!—blow! bugles! blow!
Over the traffic of cities—over the rumble of wheels in the streets;
Are beds prepared for sleepers at night in the houses? no sleepers must sleep in those beds,
No bargainers’ bargains by day—no brokers or speculators—would they continue?
Would the talkers be talking? would the singer attempt to sing?
Would the lawyer rise in the court to state his case before the judge?
Then rattle quicker, heavier drums—you bugles wilder blow.

Beat! beat! drums!—blow! bugles! blow!
Make no parley—stop for no expostulation,
Mind not the timid—mind not the weeper or prayer,
Mind not the old man beseeching the young man,
Let not the child’s voice be heard, nor the mother’s entreaties,
Make even the trestles to shake the dead where they lie awaiting the hearses,
So strong you thump O terrible drums—so loud you bugles blow.

 

V, dos Sonetos do português, de Elizabeth Barrett Browning

beth

Sonetos do português, V
Tradução: Victor M. P. de Queiroz
Solenemente, eu ergo um coração que pesa,
tal qual outrora Electra a urna sepulcral,
e, olhando os olhos seus, eu faço derramal-
o: as cinzas aos seus pés. Contemple atento e veja

quão farta pira de pesar que em mim s’encerra,
e como tim’das chispas, de um ruivo feral,
queimam na massa cinza. E se seus pés, por mal,
fizerem desfazê-la inteiramente em trevas,

talvez não façam mal. Contudo, se, por vez,
esperar ao lado meu o vento vir soprar
o pó cinzento… os louros sobre a sua tez,

ó meu amado, não lhe haverão de escudar
de toda chama que lhe deva ferir, cres-
tar o cabelo abaixo. Afaste-se, então! Vá.

__________________________
I lift my heavy heart up solemnly,
As once Electra her sepulchral urn,
And, looking in thine eyes, I overturn
The ashes at thy feet. Behold and see

What a great heap of grief lay hid in me,
And how the red wild sparkles dimly burn
Through the ashen greyness. If thy foot in scorn
Could tread them out to darkness utterly,

It might be well perhaps. But if instead
Thou wait beside me for the wind to blow
The grey dust up,… those laurels on thine head,

O My beloved, will not shield thee so,
That none of all the fires shall scorch and shred
The hair beneath. Stand further off then! Go.

Sento a coser, de Alice Moore Dunbar-Nelson

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Sento a coser
Tradução: Victor Martins Pinto de Queiroz

Sento a coser — tarefa à toa? talvez seja…
Cansam-se mãos, sonhar faz pesar-me a cabeça —
A panóplia da guerra, a marcha marcial
De rudes rostos, frios olhares sem igual
Entre as almas-padrão, que a Morte não têm visto
Nem a vida suster sabem, mais que um suspiro —
Mas — é mister sentar, coser.

Sento a coser — o peito ardente de desejos —
Aquele show atroz, chamas ferais, lampejos,
Em campos ermos; vis e sinuosas cousas —
Homens outrora. Alma apiedada, ousas
Aos prantos apelar, em ânsias de partir,
Ir lá, fero holocausto, aos campos de carpir —
Mas — é mister sentar, coser.

A parca e vã costura, esta estática emenda;
Por que sonhar aqui, na familiar fazenda,
Quando lá longe, em lodo e pluviôse, os vivos
E os mortos a clamar por mim clamor penível?
Ó Cristo, eu sou precisa! É sonho de candura
Que me acena? Não… — futilíssima costura,
Sufocas-me — Deus! é mister sentar, coser?

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I sit and sew
Alice Moore Dunbar-Nelson
I sit and sew—a useless task it seems,
My hands grown tired, my head weighed down with dreams—
The panoply of war, the martial tread of men,
Grim-faced, stern-eyed, gazing beyond the ken
Of lesser souls, whose eyes have not seen Death,
Nor learned to hold their lives but as a breath—
But—I must sit and sew.

I sit and sew—my heart aches with desire—
That pageant terrible, that fiercely pouring fire
On wasted fields, and writhing grotesque things
Once men. My soul in pity flings
Appealing cries, yearning only to go
There in that holocaust of hell, those fields of woe—
But—I must sit and sew.

The little useless seam, the idle patch;
Why dream I here beneath my homely thatch,
When there they lie in sodden mud and rain,
Pitifully calling me, the quick ones and the slain?
You need me, Christ! It is no roseate dream
That beckons me—this pretty futile seam,
It stifles me—God, must I sit and sew?

Espera sob empuxo, de Kara Candito

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Espera sob empuxo
Tradução: Stella Paterniani

Idioma algum que não nosso gasto
inventário – seu colchão de infância,
2 copos toscos, 4 transas frias.

Público algum que não o ar doente
de Guarulhos. O vizinho com seu
cão incontinente estava lá na

aterrissagem. E a beldade, a
cabeleireira que você fodia
estava no terraço

se deleitando com minha soquete puída.
Rainha impostora boiando na
barca-coroa alugada, eu nos ostentava

feito juros astronômicos. Aqueles escandalosos
saltos-altos me rasgavam
o tornozelo formando um sorriso bolhoso

até me fazer desejar ser levada pra casa,
além do Alto de Pinheiros, onde a pausa de uma
britadeira me tremesse a mandíbula.

Cones inverteram o tráfego.
Aeromoças tomaram os jornais
muito muito antes do pouso.

Se eu soubesse, amor, que você voaria
pro norte só pra me encontrar sem luvas
nesse árido ordinário faroeste

eu caminharia pelas praças mais barulhentas
sob terremoto, ou beijaria a beldade
transbordando cera e simpatia.

Escalaria o vulcão até a boca
e ofertaria o medo por mim tão bem-nutrido
feito um bebê sadio ao fogo

que a nós engolirá, eventualmente.

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Holding pattern, Lifted
Kara Candito

No language but our own shabby
inventory — your childhood mattress,
2 chipped mugs, 4 pre-dawn sex acts.

No audience but the anorexic air
of Mexico City. Your neighbor
with the incontinent bulldog was there

on the landing. And the other,
the willowy hairdresser you must’ve
been fucking, was there on the stoop

appraising my bad bottle job.
Imposter queen becalmed in her
rented coronation barge, I flaunted

what we were like a liability.
Those scandalous four-inch sandals
tore a smile of blisters across my ankle

until I wanted to be carried home
past the construction on Condesa, to let
the jackhammer’s throes rattle my jaw.

Cones changed the flow of traffic.
Flight attendants took the newspapers
away before the plane landed.

If I’d known then, husband, that you’d fly
due north to find me gloveless in this
ordinary Midwest of hunting rifles and English,

I might’ve ambled through the loudest plazas
in earthquake weather, or kissed the hairdresser
with a mouthful of wax and sympathy.

I might’ve climbed to the rim of the black
volcano and offered the fear I nursed
like a chubby baby to the fire

that will swallow us all, eventually.

Alicerces, de Maggie Smith

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Alicerces, tradução por Stella Paterniani

A vida é curta, mas isso eu não conto às minhas filhas.
A vida é curta, e a minha eu encurtei
com mil maneiras deliciosas, imprudentes,
mil maneiras deliciosamente imprudentes
que não contarei às minhas filhas. O mundo é no mínimo
cinquenta por cento terrível, e olhe essa estimativa
é conservadora, embora eu não conte às minhas filhas.
Para cada passarinho há uma pedra estilingada num passarinho.
Para cada criança amada, uma criança despedaçada, ensacada,
submersa num lago. A vida é curta e pelo menos
metade do mundo é horrível, e para cada gentil
desconhecido, há um que te destroçaria,
mas isso eu não conto às minhas filhas. Tento
vender-lhes o mundo. Qualquer corretor de imóveis hábil,
ao te abrir a porta de uma espelunca, tagarela sobre
os alicerces: esse lugar poderia ser lindo,
né não? Você poderia fazer daqui um lugar maravilhoso.

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Good bones, de Maggie Smith

Life is short, though I keep this from my children.
Life is short, and I’ve shortened mine
in a thousand delicious, ill-advised ways,
a thousand deliciously ill-advised ways
I’ll keep from my children. The world is at least
fifty percent terrible, and that’s a conservative
estimate, though I keep this from my children.
For every bird there is a stone thrown at a bird.
For every loved child, a child broken, bagged,
sunk in a lake. Life is short and the world
is at least half terrible, and for every kind
stranger, there is one who would break you,
though I keep this from my children. I am trying
to sell them the world. Any decent realtor,
walking you through a real shithole, chirps on
about good bones: This place could be beautiful,
right? You could make this place beautiful.

Planetário, de Adrienne Rich

adrienne

Planetário, tradução por Mariana Ruggieri

[Pensando em Caroline Herschel (1750-1848)
astrônoma, irmã de William; e outras.]

Mulher em forma de monstro
monstro em forma de mulher
os céus estão cheios delas

mulher ‘na neve
entre os Relógios e instrumentos
ou medindo o chão com varas‘

seus 98 anos para descobrir
8 cometas

mulher ela que a lua regia
como nós
levitando à noite-céu
montando lentes polidas

Galáxias de mulheres, ali
cumprindo penitência pelo ímpeto
costelas arrepiadas
naquele lugar das ideias

Um olho

‘viril, preciso e absolutamente certeiro‘
das teias loucas de Uranusborg

encontrando a NOVA

todo impulso de luz explosão

do caroço
à medida que a vida voa

Tycho finalmente sussurra
‘Que eu não pareça ter vivido em vão’

O que vemos, vemos
e ver é cambiar

a luz que encolhe a montanha
e deixa vivo um homem

Heartbeat e o pulsar
coração suando pelo corpo

O impulso de rádio
de Taurus entornando

Bombardeada ainda assim em pé

Em pé minha vida toda no
caminho direto de uma bateria de sinais
mais precisamente transmitido mais
intraduzível língua no universo
Sou nuvem galáctica tão profunda tão invo-
lutosa que a onda de luz poderia levar 15
anos para viajar por mim E vem
levando Sou instrumento com forma
de mulher tentando traduzir pulsos
em imagens para o alívio do corpo
e a remontagem das ideias.

**********************************

Planetarium, de Adrienne Rich

[Thinking of Caroline Herschel (1750—1848)
astronomer, sister of William; and others.]

A woman in the shape of a monster
a monster in the shape of a woman
the skies are full of them

a woman ‘in the snow
among the Clocks and instruments
or measuring the ground with poles’

in her 98 years to discover
8 comets

she whom the moon ruled
like us
levitating into the night sky
riding the polished lenses

Galaxies of women, there
doing penance for impetuousness
ribs chilled
in those spaces of the mind

An eye,

‘virile, precise and absolutely certain’
from the mad webs of Uranusborg

encountering the NOVA

every impulse of light exploding

from the core
as life flies out of us

Tycho whispering at last
‘Let me not seem to have lived in vain’

What we see, we see
and seeing is changing

the light that shrivels a mountain
and leaves a man alive

Heartbeat of the pulsar
heart sweating through my body

The radio impulse
pouring in from Taurus

I am bombarded yet I stand

I have been standing all my life in the
direct path of a battery of signals
the most accurately transmitted most
untranslatable language in the universe
I am a galactic cloud so deep so invo-
luted that a light wave could take 15
years to travel through me And has
taken I am an instrument in the shape
of a woman trying to translate pulsations
into images for the relief of the body
and the reconstruction of the mind.

talvez não seja sempre assim; e digo, de e. e. cummings

tradução de stella paterniani

talvez não seja sempre assim; e digo
se teus lábios que tanto amei tocarem
os de outro, corações se entrelaçarem
como os nossos num tempo não antigo
se noutro rosto teu cabelo jaz
num silêncio outrora meu e tão sóbrio
ou no desamparado palavrório
em malabares no drink no cais;

se assim, repito, sabe, se assim for
minha amada, tem comigo uma prosa
pra que eu vá até ele tome partido
diga Felicidades, todo o amor
e vire o rosto e ouça uma felosa
cantar distante no reino perdido

*

it may not always be so; and i say
that if your lips,which i have loved,should touch
another’s,and your dear strong fingers clutch
his heart,as mine in time not far away;
if on another’s face your sweet hair lay
in such silence as i know,or such
great writhing words as,uttering overmuch,
stand helplessly before the spirit at bay;

if this should be,i say if this should be—
you of my heart,send me a little word;
that i may go unto him,and take his hands,
saying,Accept all happiness from me.
Then shall i turn my face,and hear one bird
sing terribly afar in the lost lands