Scheherazade, de Haruki Murakami

murakami

Tradução: Gabriela de Oliveira, a partir da tradução de Ted Goossen do original em japonês para o inglês.

Toda vez depois que faziam amor, ela contava a Habara uma história atraente e peculiar. Era como a Rainha Scheherazade em “Mil e uma noites”. Embora fosse certo que Habara, diferente do rei, não tivesse planos de decapitá-la na manhã seguinte. (De qualquer forma, ela nunca ficava com ele até de manhã.) Ela contava histórias a Habara porque assim gostava, porque, ele imaginava, ela gostava de se enrolar na cama e conversar com um homem durante esses momentos íntimos, lânguidos, depois do sexo. E também, provavelmente, porque queria animar Habara, que tinha de passar o dia preso em casa.

Por conta disso, Habara a chamara de Scheherazade. Ele nunca havia se dirigido a ela como tal, mas era esse o nome que usava num pequeno diário que mantinha. “Scheherazade veio hoje”, escreveria com a caneta esferográfica. Em seguida, registraria os principais acontecimentos daquele dia em termos simples e obscuros que, com toda certeza, confundiriam qualquer um que tentasse ler.

Habara não sabia quais histórias eram verdadeiras, inventadas, ou meio verdadeiras e meio inventadas. Ele não sabia diferenciar. Realidade e invenção, observação e pura extravagância pareciam coexistir nas narrativas dela. Habara por essa razão divertia-se como uma criança, sem questionar muito. Qual diferença faria, no final das contas, se eram mentira ou verdade, ou uma complexa junção das duas?

Em qualquer caso, Scheherazade tinha o dom de contar histórias que tocavam o coração. Seja lá qual fosse a história, ela a tornava especial. Sua voz, seu ritmo, seu compasso, eram primorosos. Ela sabia capturar a atenção do ouvinte, atormentava-o, levava-o a pensar e questionar, e então, no final, dava a ele justamente o que vinha procurando. Maravilhado, Habara era capaz de esquecer a realidade à sua volta, nem que fosse por um momento. Assim como um quadro negro sendo apagado com um pano úmido, suas preocupações e lembranças ruins eram apagadas. O que tinha para perder? Nessa altura da vida, esse tipo de esquecimento era o que Habara mais desejava no mundo.

Scheherazade tinha trinta e cinco anos, quatro anos mais velha que Habara, e era dona de casa em tempo integral, com dois filhos frequentando a escola primária (apesar de ela também ser uma enfermeira por profissão e ser convocada para trabalhar ocasionalmente). Seu marido era um típico homem de negócios. Sua casa ficava há vinte e cinco minutos da de Habara. Isso era tudo (ou quase tudo) das informações pessoais que ela havia dado. Habara não tinha como verificar nenhuma delas, mas imaginava não haver motivos para duvidar. Ela nunca revelara o nome. “Não tem por que você saber, certo?” Scheherazade perguntou. Nunca havia chamado Habara pelo nome, embora fosse claro que o soubesse. Cuidadosamente, ela evitava se dirigir a ele pelo nome, como se aquilo não fosse apropriado ou desse azar.

Na aparência, pelo menos, esta Scheherazade não tinha nada a ver com a bela rainha de “Mil e uma noites”. Ela caminhava para a meia-idade e já se tornava flácida, com papadas e linhas de expressão no canto dos olhos. Seu cabelo, maquiagem, e roupas não eram exatamente desleixados, porém nada era digno de elogios. Seus traços não eram pouco atraentes, mas seu rosto parecia desfocado, passando a impressão de que ela nunca estava nítida. Como consequência, aqueles que passavam por ela na rua, ou estavam no mesmo elevador, provavelmente pouco a notavam. Dez anos atrás, ela poderia ter sido uma jovem mulher, atraente e vigorosa, talvez até fizesse uns homens virarem para ao passar. Porém, numa certa altura, as cortinas do palco se fecharam de modo que nunca mais abriram.

Scheherazade ia ver Habara duas vezes na semana. Seus dias não eram fixos, mas ela nunca vinha nos finais de semana. Não havia dúvida de que passava esse tempo com a família. Ela sempre telefonava uma hora antes de chegar. Comprava mantimentos no supermercado mais próximo e os trazia no porta-malas de seu carro, um pequeno Mazda azul. Era um modelo mais antigo, com o para-choque traseiro amassado e as rodas pretas de sujeira. Ao estacionar na vaga em frente a casa, ela carregava as sacolas até a porta da frente e tocava a campainha. Depois de espiar pelo olho mágico, Habara abria a fechadura, tirava a corrente, e a deixava entrar. E então ela fazia uma lista de compras para sua próxima visita. Ela executava estas tarefas habilmente, quase não desperdiçando movimentos, e falando pouco.

Uma vez que ela terminava, os dois iam em silêncio para o quarto, como se carregados por uma corrente invisível. Scheherazade rapidamente tirava as roupas e, ainda em silêncio, deitava-se na cama ao lado de Habara. Ela mal falava durante o sexo, e também desempenhava cada função como se estivesse realizando uma tarefa. Quando estava menstruada, costumava usar a mão para conclui-la. Seu jeito um tanto pragmático lembrava Habara que ela era uma enfermeira.

Depois do sexo, eles permaneciam deitados e conversavam. Na verdade, ela falava e ele ouvia, acrescentando uma palavra aqui, uma pergunta ali. Quando o relógio batia às quatro e meia, ela interrompia a história (por alguma razão, sempre parecia ter acabado de atingir o clímax), pulava da cama, vestia-se, e se preparava para ir embora. Tinha que ir para casa preparar o jantar, dizia.

Habara a observava da porta, colocava a corrente no lugar, e via através das cortinas o carrinho azul encardido distanciar-se. Às seis em ponto, preparava um jantar simples e comia sozinho. Ele havia trabalhado como cozinheiro uma vez, de forma que preparar um prato não era um problema. Bebia um Perrier enquanto comia (nunca havia colocado uma gota de álcool na boca) e, em seguida, uma xícara de café, que bebericava assistindo um DVD ou lendo. Ele gostava de livros longos, principalmente aqueles que exigiam várias leituras para serem entendidos. Não tinha muita coisa para fazer. Ninguém para conversar. Não assinava nenhum jornal e nunca assistia televisão. (Tinha boas razões para isso.) Era óbvio que não podia sair de casa. Se as visitas de Scheherazade cessassem por alguma razão, seria deixado sozinho.

Habara não se preocupava muito com esta hipótese. Se acontecesse, pensava ele, seria difícil, mas vou sobreviver de um jeito ou de outro. Não estou preso numa ilha deserta. Não, ele pensou, eu sou uma ilha deserta. Ele sempre esteve confortável em sua própria companhia. O que o incomodava, no entanto, era a ideia de não poder conversar na cama com Scheherazade. Ou, mais precisamente, de perder o próximo desdobramento de sua história.

“Eu fui uma lampreia numa vida passada,” Scheherazade disse uma vez, enquanto estavam deitados juntos na cama. Foi um comentário simples e direto, tão inesperado quanto se ela dissesse que o Polo Norte ficava no extremo norte. Habara não tinha ideia de que tipo de criatura era uma lampreia, muito menos de como ela se parecia. Então não emitiu nenhuma opinião.

“Você sabe como uma lampreia come uma truta?” ela perguntou.

Não sabia. Na verdade, era a primeira vez que ouvia que lampreias comiam trutas.

“Lampreias não têm mandíbulas. É isso que as separa das outras enguias.”

“Ãhn? Enguias têm mandíbulas?”

“Você já prestou atenção em uma?” disse, surpresa.

“Claro que eu como enguia de vez em quando, mas nunca tive a oportunidade de ver suas mandíbulas.”

“Bem, você deve conferir, qualquer dia. Vá até o aquário ou um lugar parecido. As enguias normalmente têm mandíbulas cheias de dentes. Mas as lampreias possuem apenas ventosas, pelas quais ficam presas nas rochas no fundo do rio ou do lago. Assim elas meio que só flutuam, balançando pra frente e pra trás, feito algas.”

Habara imaginou várias lampreias balançando feito algas no fundo de um lago. A cena pareceu fora da realidade, embora ele soubesse que a realidade às vezes pudesse ser terrivelmente irreal.

“Lampreias vivem desse jeito, escondidas entre as algas. À espreita. Então, quando uma truta passa por cima delas, elas se atiram como um dardo e prendem-se nela com as ventosas. Dentro de suas ventosas existem umas ‘línguas’ cheias de dentes, que ficam se esfregando na barriga da truta até que um buraco se abra e elas possam começar a comer a carne, pedaço por pedaço.”

“Eu não gostaria de ser uma truta,” disse Habara.

“Na Roma Antiga, criavam lampreias nos lagos. Escravos insolentes eram jogados lá dentro e as lampreias os comiam vivos.”

Habara pensou que tão pouco gostaria de ser um escravo romano.
“A primeira vez que vi uma lampreia foi no ensino primário, na excursão para o aquário,” Scheherazade disse. “Na hora que li a descrição de como elas viviam, soube que tinha sido uma na minha vida passada. Digo, eu conseguia de fato lembrar – de estar presa numa rocha, balançando invisível em meio às algas, observando a truta gorda nadando em cima de mim.”

“Você consegue se lembrar comendo elas?”

“Não, não consigo.”

“É um alívio,” Habara disse. “Mas isso é tudo que você lembra de sua vida como lampreia – de balançar de um lado pro outro no fundo de um rio?”

“Uma vida passada não pode ser lembrada tão facilmente,” ela disse. “Se você tiver sorte, consegue um vislumbre de como era. É como dar uma espiada num buraquinho da parede. Você consegue lembrar de alguma das suas vidas passadas?”

“Não, de nenhuma,” disse Habara. Verdade seja dita, ele nunca sentiu vontade de revisitar sua vida passada. Suas mãos já estavam cheias da vida presente.

“Ainda assim, o fundo do rio parecia bem limpo. De cabeça pra baixo, com a minha boca presa na rocha, observando os peixes passando por cima de mim. Eu vi uma tartaruga bem grande e ligeira uma vez; também, uma figura preta enorme passava, parecia a nave maligna em ‘Star Wars.’ E grandes pássaros brancos de bicos longos e afiados; olhando de baixo, pareciam nuvens brancas flutuando no céu.”

“E você consegue ver tudo isso agora?”

“É claro,” Scheherazade disse. “A luz, o fluxo da água, tudo. Às vezes até consigo voltar pra lá na minha cabeça.”

“Para o lugar que você estava imaginando?”

“Uhum.”

“O que as lampreias pensam?”

“Lampreias têm pensamentos típicos de lampreias. Sobre tópicos típicos de lampreias num contexto tipicamente de lampreias. Não existem palavras para esses pensamentos. Eles pertencem ao mundo das águas. É como quando estávamos no útero. Pensávamos coisas lá dentro, mas não podemos expressar esses pensamentos na linguagem que usamos aqui fora. Certo?”

“Espere aí! Você consegue se lembrar de como era dentro do útero?”

“Claro,” Scheherazade disse, levantando a cabeça para vê-lo de cima do seu peito.
“Você não?”
Não, ele disse. Ele não conseguia.

“Então uma hora te conto. Sobre como é a vida no útero.”

“Scheherazade, Lampreia, Vidas Passadas” era o que Habara registraria em seu diário naquele dia. Ele duvidava que alguém, ao se deparar com aquilo, adivinhasse o significado daquelas palavras.

Habara encontrara Scheherazade pela primeira vez quatro meses atrás. Ele havia sido transportado para esta casa, numa província ao norte de Tóquio, e ela havia sido designada sua “pessoa de contato”. Uma vez que não podia sair de casa, o papel dela era comprar comida e outros mantimentos e trazê-los para casa. Ela também se responsabilizava pelos livros e revistas que ele desejasse ler, e quaisquer CDs que viesse a querer ouvir. Além disso, ela escolhia uma grande variedade de DVDs – apesar de ele já ter se recusado em aceitar seus critérios de seleção.

Uma semana depois de ter chegado, como se fosse previsto, Scheherazade o levou para cama. Havia camisinhas no criado-mudo quando ele chegou. Habara achou que o sexo fosse uma de suas funções atribuídas – ou talvez “atividades de apoio” era o termo que usavam. Seja lá qual fosse o termo, e qual fosse a motivação dela, ele seguia o fluxo e aceitava sua proposta sem hesitar.

O sexo não era exatamente obrigatório, mas não se podia dizer que seus corações estivessem inteiramente ali. Ela parecia estar sempre alerta, para que não se entusiasmassem muito – assim como um instrutor de carros não gostava que seus alunos ficassem muito empolgados dirigindo. Mesmo assim, embora não se pudesse dizer que havia paixão, não era possível dizer que fosse totalmente um negócio. Provavelmente começou com uma obrigação (ou, pelo menos, como algo fortemente encorajado), mas num certo momento ela pareceu – mesmo que um pouco – ter encontrado prazer naquilo. Habara podia falar pelas formas sutis do corpo dela responder, uma resposta que também o deliciava. Afinal de contas, ele não era um animal selvagem preso numa jaula, mas um ser humano munido de sua própria gama de emoções, e fazer sexo apenas tendo em vista o prazer não lhe satisfazia tanto. Ainda assim, até que ponto Scheherazade via a relação entre eles como sendo uma de suas obrigações, e quanto dessa relação pertencia à esfera da sua vida pessoal? Ele não conseguia dizer.

Isso também acontecia em outras situações. Habara sempre achou os sentimentos e intenções de Scheherazade muito difíceis de interpretar. Por exemplo, ela costumava usar calcinhas de algodão lisas. O tipo de calcinhas que geralmente apenas donas de casa em seus trinta anos usavam – apesar de ser pura especulação, uma vez que ele nunca teve experiência com donas de casa dessa idade. Às vezes, no entanto, ela aparecia usando calcinhas de seda coloridas e cheias de babados. O motivo de ela optar por uma ou por outra era um mistério.

Outra coisa que o intrigava era o fato de a relação deles e as histórias que ela contava serem profundamente conectadas, tornando difícil dizer onde uma coisa acabava e a outra, começava. Ele nunca tinha vivenciado nada parecido: embora não a amasse, e o sexo fosse mediano, ele encontrava-se fortemente conectado a ela fisicamente. Era tudo muito confuso.

“Eu era adolescente quando comecei a invadir casas vazias,” disse ela, certo dia, quando estavam deitados na cama.

Habara – assim como toda vez que ela lhe contava histórias – ficou perplexo.

“Você já invadiu a casa de alguém?” perguntou.

“Acho que não,” ele respondeu, inexpressivo.

“Uma só vez e você fica viciado.”

“Mas é ilegal.”

“Pode acreditar. É perigoso, mas ainda assim vicia.”

Habara esperou em silêncio até que ela continuasse.

“A melhor coisa de se estar na casa de um estranho quando não tem ninguém,” Scheherazade disse, “é o silêncio. Nenhum barulho. Parece o lugar mais quieto do mundo. Ou foi isso que me pareceu. Quando eu sentei no chão e fiquei absolutamente imóvel, minha vida como lampreia voltou. Eu te contei sobre ter sido uma lampreia numa vida passada, não é?”

“Sim, contou.”

“Foi exatamente assim. Minhas ventosas presas na rocha, embaixo da água, e meu corpo balançando de um lado pro outro, como as algas à minha volta. Tudo tão silencioso. Mas talvez seja porque eu não tivesse ouvidos. Nos dias de sol, a luz penetrava a superfície como uma lança. Peixes de todas as cores e formas perambulavam acima. E minha mente estava vazia. Vazia de pensamentos que não eram tipicamente de lampreias, eu digo. Estes eram nebulosos mas bem puros. Era um lugar maravilhoso de se ficar.”

A primeira vez que Scheherazade invadiu a casa de um estranho, ela contou, foi durante o ensino médio, quando estava muito a fim de um garoto da sua sala. Embora não fosse exatamente bonito, ele era alto e polido, além de ser um bom aluno que jogava no time de futebol, e ela estava fortemente atraída por ele. Mas parecia que ele gostava de outra garota da sala e mal notava Scheherazade. Na verdade, era provável que ele nem soubesse de sua existência. Mesmo assim, ela não conseguia tirá-lo da cabeça. Era só vê-lo que ficava sem ar; algumas vezes ela sentia como se fosse vomitar. Se não fizesse algo a respeito, pensou, acabaria enlouquecendo. Mas confessar seu amor estava fora de questão.
Certo dia, Scheherazade matou aula e foi até a casa do garoto. Ficava a mais ou menos quinze minutos da sua casa. De antemão, procurara saber sobre a família dele. Sua mãe ensinava japonês numa escola na cidade vizinha. Seu pai, que trabalhava numa empresa de cimento, tinha morrido num acidente de carro uns anos atrás. Sua irmã estava no ensino médio. Isso significava que a casa ficava vazia durante o dia.
Naturalmente, a porta da frente estava trancada. Scheherazade procurou por uma chave embaixo do tapete. Como esperado, encontrou uma. Bairros residenciais tranquilos de cidades provincianas como aquela tinham um baixo índice de criminalidade, e uma chave extra era deixada com frequência embaixo de um tapete ou num vaso de planta.
Por precaução, Scheherazade tocou a campainha, esperou para ter certeza que ninguém atenderia, certificou-se de que não estava sendo observada, e entrou. Novamente, trancou a porta por dentro. Tirou os sapatos, colocou-os num saco plástico e depois na mochila que levava nas costas. E então, na ponta dos pés, subiu a escada até o segundo andar.

O quarto dele estava lá, como imaginado. Sua cama havia sido cuidadosamente feita. Na estante de livros tinha um pequeno aparelho de som, com alguns CDs. Na parede, um calendário com uma foto do time de futebol de Barcelona e, do lado, o que pareceu ser um cartaz do time, mas nada a mais. Nenhum pôster, nada de fotografias. Apenas uma parede cor de creme. Uma cortina branca na janela. O quarto estava limpo, tudo em seu devido lugar. Nenhum livro esparramado, nenhuma roupa jogada no chão. O quarto era a prova de como seu dono era cuidadoso. Ou também de como sua mãe mantinha uma casa perfeita. Ou os dois. Scheherazade estremeceu. Se o quarto fosse mais bagunçado, ninguém notaria qualquer intervenção que ela fizesse. Mas, ao mesmo tempo, a limpeza e a simplicidade do quarto, sua perfeita organização, a deixavam feliz. Era tudo tão parecido com ele.

Scheherazade sentou-se na cadeira da escrivaninha e ficou lá por um tempo. É aqui que ele estuda toda noite, ela pensou, seu coração acelerado. Pegou os objetos da escrivaninha um por um, brincou com eles, os cheirou, colocou-os dentre os lábios. Seus lápis, sua tesoura, sua régua, seu grampeador – os objetos mais mundanos tornaram-se, de alguma maneira, um pouco mágicos por pertencerem a ele.

Ela abriu as gavetas da escrivaninha e cuidadosamente analisou o seu conteúdo. A primeira gaveta era dividida em compartimentos, cada qual contendo uma pequena bandeja com objetos e souvenires espalhados. A segunda gaveta era, em grande parte, ocupada por cadernos das aulas que ele tinha no momento, enquanto a última (a mais funda) era repleta de papéis, provas e cadernos velhos. Quase tudo tinha a ver com a escola ou com o futebol. Ela torcia para deparar-se com algo íntimo – um diário, talvez, ou cartas – mas a escrivaninha não guardava nada do tipo. Nem mesmo uma fotografia. Scheherazade estranhou. Ele não tinha vida fora da escola ou do futebol? Ou escondia com cuidado tudo que era pessoal, num lugar que ninguém pudesse encontrar?

Mesmo assim, só de sentar na escrivaninha e observar a caligrafia dele, Scheherazade ficava inquieta. Para acalmar-se, ela deixava a cadeira e sentava no chão. Ela olhava para o teto. O silêncio ao seu redor era absoluto. Dessa maneira, retornava ao mundo das lampreias.

“Então tudo o que fez,” Habara perguntou, “foi entrar no quarto dele, mexer em suas coisas, e sentar no chão?”

“Não,” Scheherazade disse. “Tem mais. Eu queria algo dele pra levar para casa. Algo que ele usasse todos os dias ou que ficasse perto de seu corpo. Mas não podia ser algo importante que ele desse falta. Então eu roubei um de seus lápis.”

“Um único lápis?”

“Sim. Um que ele estivesse usando. Mas roubar não era o suficiente. Faria disso tudo um simples caso de roubo. O fato de eu ter roubado seria inútil. Eu era a Ladra do Amor no final das contas.”

A Ladra do Amor? Para Habara, soava como o título de um filme mudo.

“E então eu decidi deixar algo no lugar, algum sinal. Como prova de que eu havia estado lá. Uma demonstração de que era algo em troca, não um simples roubo. Mas o que seria? Não consegui pensar em nada. Vasculhei minha mochila e meus bolsos, mas não encontrava nada apropriado. Me culpei por não ter pensado em trazer alguma coisa adequada. Por fim, decidi deixar um tampão. Um não usado, é claro, ainda dentro da embalagem. Minha menstruação se aproximava, de modo que eu o carregava por precaução. Eu escondi bem no fundo da última gaveta, onde seria difícil encontrar. Isso me deixou muito excitada. Só de ter um tampão meu escondido na gaveta da escrivaninha dele. Talvez fosse porque eu estava tão excitada que a minha menstruação começou quase que imediatamente após o ocorrido.

Um tampão por um lápis, Habara pensou. Era possível que fosse o que ele escreveria em seu diário naquele dia: “Ladra do Amor, Lápis, Tampão.” Ele queria saber o que pensariam disso!

“Fazia quinze minutos mais ou menos que eu estava lá. Não consegui ficar mais tempo que isso: era minha primeira vez invadindo uma casa, e eu temia que alguém aparecesse enquanto estava lá dentro. Observei a rua para ver se o caminho estava livre, deslizei pela porta, a tranquei, e coloquei a chave de volta embaixo do tapete. Depois fui para a escola. Carregando o meu precioso lápis.”

Scheherazade ficou em silêncio. Pelo jeito, ela havia voltado no tempo e imaginava várias coisas que aconteceram depois, uma por uma.

“Aquela semana foi a mais feliz da minha vida,” disse, depois de uma pausa. “Rabisquei coisas aleatórias no meu caderno usando o lápis dele. Eu o cheirei, beijei, esfreguei na minha bochecha, rolei entre os meus dedos. Às vezes até prendia na boca e chupava. Claro, me doía o fato de que quanto mais eu escrevia, menor ficava, mas eu não podia evitar. Se ficasse muito pequeno, pensei, eu poderia sempre voltar e pegar outro.
Havia vários lápis usados no porta-lápis da escrivaninha dele. Ele não daria falta de um. E provavelmente ele ainda não achara o tampão escondido em sua gaveta. Essa ideia me excitava de um jeito – me dava umas cócegas estranhas lá embaixo. Não me incomodava mais que na realidade ele nem sequer olhasse para mim ou demonstrasse saber de minha existência. Porque, secretamente, eu possuía algo dele – uma parte dele, de certo modo.”

Dez dias depois, Scheherazade matou aula outra vez e fez uma segunda visita à casa do garoto. Eram onze em ponto da manhã. Assim como antes, ela pegou a chave debaixo do tapete e abriu a porta. Novamente, o quarto dele encontrava-se em perfeita ordem. Primeiro, ela escolheu um lápis bastante usado e cuidadosamente o guardou em seu estojo. Depois, com mesma cautela, deitou na cama dele, suas mãos apertavam os seios, e ela mirava o teto. Esta era a cama que ele dormia toda noite. Esse pensamento fez seu coração acelerar, e ela encontrou dificuldade em respirar. Seus pulmões estavam sem ar e sua garganta ficou completamente seca, fazendo cada tentativa de respirar algo doloroso.

Scheherazade desceu da cama, alisou o cobre-leito, e sentou no chão, como na primeira visita. Mirou o teto outra vez. Não estou pronta pra cama dele, disse para si mesma. É muito pra mim.

Desta vez, Scheherazade passou meia-hora na casa. Ela tirou os cadernos dele da gaveta e ficou olhando para eles. Encontrou um relatório e leu. Era sobre “Kokoro”, um romance de Soseki Natsume, a tarefa de leitura daquelas férias de verão. Ele tinha uma linda caligrafia, do tipo que se espera de um aluno aplicado, nenhum erro ou desleixo em nenhum canto. A nota dada era “Excelente”. Qual outra seria? Qualquer professor ao deparar-se com uma caligrafia tão perfeita automaticamente lhe atribuiria um “Excelente”, quer lesse uma única linha quer não.

Scheherazade avançou para a cômoda, examinando o conteúdo todo em ordem. As cuecas e as meias dele. Camisas e calças. O uniforme de time. Tudo dobrado perfeitamente. Nada manchado ou desgastado. Ele quem dobrara? Ou, mais provável, sua mãe fizera? Ela sentia uma ponta de inveja da mãe dele, que podia fazer estas coisas para ele a todo e qualquer instante.

Scheherazade inclinou-se e sentiu o cheiro das roupas nas gavetas. Todas pareciam ter acabado de serem lavadas e secadas ao sol. Ela pegou uma camiseta cinza e lisa, desdobrou-a, e a pressionou contra seu rosto. Não haveria restado um pouco de seu suor embaixo dos braços? Não sentiu nada. Não obstante, a pressionou por algum tempo, cheirando. Queria pegar a camiseta para si. Mas seria muito arriscado. As roupas dele eram meticulosamente arrumadas e mantidas. Ele (ou sua mãe) provavelmente sabia o número exato de camisetas dentro da gaveta. Se uma faltasse, seria um deus-nos-acuda. Scheherazade, com cautela, dobrou a camiseta e a colocou de volta em seu devido lugar. Em troca, pegou uma pequena medalha, no formato de uma bola de futebol, que encontrou em uma das gavetas da escrivaninha. Parecia pertencer aos tempos da escola primária. Ela temia que ele desse falta. Pelo menos, demoraria um pouco para ele perceber que tinha desaparecido. Enquanto estava na escrivaninha, verificou o fundo da gaveta procurando pelo tampão. Ainda estava lá.

Scheherazade tentou imaginar o que aconteceria se a mãe dele encontrasse o tampão. O que ela pensaria? Exigiria uma explicação de porque diabos havia um tampão na escrivaninha dele? Ou ela manteria a descoberta em segredo, remoendo suas tenebrosas suspeitas? Afinal de contas, havia sido seu primeiro objeto dado em troca.
Para comemorar sua segunda visita, Scheherazade deixou para trás três fios do cabelo dela. Na noite anterior, ela tinha os arrancado, os guardado num plástico, e selado num pequeno envelope. Agora ela tirava o envelope de sua mochila e o enfiava dentro de um de seus velhos cadernos de matemática que estava na gaveta. Os três fios eram lisos e pretos, nem tão longos nem tão curtos. Ninguém saberia de quem seriam sem um teste de DNA, embora eles pertencessem claramente a uma garota.

Ela foi da casa dele direto para a escola, chegando a tempo para a primeira aula da tarde. Mais uma vez, ficou contente por uns dez dias. Sentiu que ele pertencia mais a ela. Mas, como esperado, esta sucessão de acontecimentos não terminaria sem algum incidente. Porque, como Scheherazade dissera, invadir a casa de um estranho era extremamente viciante.

Nesta altura da história Scheherazade deu uma espiada no relógio ao lado da cama e viu que eram 4h32 da tarde. “Tenho que ir,” ela disse, de si para si. Pulou da cama e vestiu sua calcinha branca e lisa e o sutiã, deslizou dentro da calça jeans, e colocou seu moletom azul-marinho da Nike. Depois lavou as mãos no banheiro, penteou os cabelos, e foi embora em seu Mazda azul.

Ao ser deixado sozinho e sem nada para fazer, Habara deitou na cama e ficou ruminando a história que ela tinha acabado de contar, saboreando-a pedaço por pedaço, como uma vaca mastigando o alimento regurgitado. Onde isso acabaria? Perguntou-se. Assim como todas as histórias dela, ele não fazia ideia. Achava difícil imaginar Scheherazade como uma estudante do colegial. Ela era mais magra nesse tempo, sem a flacidez de hoje? O uniforme escolar, as meias brancas, o seu cabelo em tranças?

Ele ainda não tinha fome, de modo que deixou o jantar de lado e voltou para o livro que estava lendo, apenas para descobrir que não conseguia se concentrar. A imagem de Scheherazade entrando no quarto de seu colega de sala e afundando o rosto na camisa dele ainda estava fresca na cabeça. Ele estava impaciente para ouvir o que aconteceu em seguida.

A próxima visita de Scheherazade aconteceria em três dias, depois de passado o final de semana. Como sempre, ela chegou carregando grandes sacos de papel cheios de mantimentos. Analisou a comida que estava na geladeira, repondo aquilo que passara da data de validade, examinou os enlatados e as garrafas do armário, checou a quantidade de condimentos e temperos para ver se estavam acabando, e escreveu uma lista de compras. Ela colocou algumas garrafas de Perrier na geladeira para gelarem. Por fim, empilhou na mesa os novos livros e DVDs que trouxera.

“Tem mais alguma coisa que você precise ou queira?”

“Não consigo pensar em nada,” Habara respondeu.

Então, como de costume, os dois foram para cama e transaram. Depois de uma boa quantidade de preliminares, ele colocou a camisinha, a penetrou, e, após um bom tempo, ejaculou. Depois de analisar cuidadosamente o conteúdo da camisinha, Scheherazade começou a contar o último desdobramento de sua história.

Ela tinha perdido todo o interesse nos trabalhos escolares. Na aula, ou ela perdia tempo com a medalha e o lápis ou caía em devaneios. Quando voltou para casa, não tinha condições mentais de resolver seu dever de casa. As notas de Scheherazade nunca tinham sido um problema. Ela não era uma das melhores alunas, mas uma garota séria que sempre fazia suas tarefas. Por isso, quando o professor lhe fez uma pergunta durante a aula e ela viu-se incapaz de dar uma resposta adequada, ele ficou mais surpreso do que enfurecido. Eventualmente, ele a chamou para sua sala durante o intervalo. “O que há de errado?” perguntou. “Tem alguma coisa te incomodando?” Ela só conseguiu murmurar vagamente qualquer coisa sobre não estar se sentindo bem. Seu segredo era muito sério e tenebroso para ser revelado a alguém – ela precisava aguentá-lo sozinha.

“Eu tive que invadir a casa dele,” Scheherazade disse. “Fui levada a isso. Como você pode imaginar, era bastante arriscado. Até eu sabia disso. Mais cedo ou mais tarde, alguém me encontraria lá, e chamariam a polícia. A ideia me fez tremer nas bases. Mas não tinha mais volta, não conseguia parar. Dez dias depois da minha segunda ‘visita,’ voltei pra lá de novo. Eu não tive escolha. Senti que se não fizesse, enlouqueceria. Quando olho pra trás, vejo que realmente eu era um pouco louca.”

“Isso não te causou problemas na escola, matar aula tantas vezes?” Habara perguntou.

“Meus pais tinham o seu próprio negócio, por isso estavam muito ocupados para prestar atenção em mim. Eu nunca tinha causado problemas até então, nunca tinha desafiado a autoridade deles. De modo que acharam melhor se retirarem. Falsificar as notas era fácil. Expliquei para o professor representante da minha turma que eu tinha um problema de saúde que me fazia passar metade do dia no hospital de tempos em tempos. Uma vez que os professores estavam quebrando a cabeça para saber o que fazer com os alunos que não iam para a escola há séculos, não se incomodaram com o fato de eu ter de passar metade do dia fora de vez em quando.”

Scheherazade olhou rapidamente para o relógio ao lado da cama antes de continuar.

“Peguei a chave embaixo do tapete e entrei na casa pela terceira vez. Estava tão silenciosa quanto antes – não, ainda mais silenciosa por alguma razão. Tremi quando ouvi a geladeira ligando – parecia um monstro enorme respirando fundo. O telefone tocou enquanto eu estava lá. O toque era tão alto e áspero que pensei que meu coração ia parar. Estava coberta de suor. Ninguém atendeu, é claro, e ele parou depois de ter tocado umas dez vezes. E então a casa ficou ainda mais silenciosa.

Naquele dia, Scheherazade passou um bom tempo espreguiçando-se na cama dele. Desta vez seu coração não bateu tão rápido, e ela pôde respirar normalmente. Ela conseguiu imaginá-lo dormindo tranquilamente ao seu lado, e até mesmo sentir como se o observasse dormindo. Sentiu que, se ela se esticasse, poderia roçar no braço musculoso dele. Ele não estava seu lado, obviamente. Ela encontrava-se apenas imersa em devaneios.

Sentiu um desejo avassalador de cheirá-lo. Ao levantar da cama, andou até a cômoda dele, abriu uma gaveta, e examinou as camisas de dentro. Todas haviam sido lavadas e cuidadosamente dobradas. Estavam impecáveis, e cheirosas, como antes.

E então ela teve uma ideia. Desceu correndo as escadas até o primeiro andar. Lá, no quarto próximo ao banheiro, encontrou um cesto de roupas e removeu a tampa. As roupas sujas de toda família – mãe, filha, e filho – estavam misturadas. Roupas acumuladas de um dia inteiro, era o que parecia. Scheherazade tirou uma peça de roupa masculina. Uma camiseta branca de gola redonda. Deu uma cheirada. O cheiro inconfundível de um rapaz. Um cheiro úmido que ela já conhecia, de quando seus colegas se aproximavam. Nada de excepcional, é claro. Mas o fato de o cheiro ser dele deixou Scheherazade extremamente feliz. Quando colocou o nariz perto das axilas e inalou, sentiu como se o abraçasse, seus braços apertados em volta dela.

Com a camiseta na mão, Scheherazade subiu as escadas para o segundo andar e mais uma vez deitou na cama dele. Enterrou o rosto em sua camisa e aspirou avidamente. Dessa vez, conseguiu sentir uma volúpia nas partes íntimas. Seus mamilos estavam intumescidos também. Estaria perto de menstruar? Não, ainda estava bem longe. Era desejo sexual? Se era, o que poderia fazer a respeito? Não tinha ideia. Entretanto, uma coisa era certa – não havia nada a ser feito diante destas circunstâncias. Não aqui no quarto dele, em sua cama.

No fim, Scheherazade decidiu levar a camisa para casa. Era arriscado, claro. A mãe dele era do tipo que perceberia uma camisa faltando. Mesmo se ela não adivinhasse que tinha sido roubada, ela ainda ficaria se perguntando para onde tinha ido. Qualquer mulher que deixasse a casa brilhando daquele jeito era certamente uma maníaca por limpeza de primeira mão. Quando algo ficava faltando, ela revirava a casa procurando, como um cão farejador, até encontrar. Sem dúvidas, ela descobriria os rastros de Scheherazade no quarto de seu amado filhinho. Mas, mesmo Scheherazade sabendo disso, ela não queria deixar a camisa. O seu cérebro era impotente para persuadir seu coração.

Ao invés disso, ela começou a pensar no que deixar para trás. Sua calcinha parecia a melhor escolha. Era uma calcinha comum, simples, relativamente nova, e havia sido vestida naquela manhã. Ela poderia escondê-la bem no fundo de seu guarda-roupa. Haveria coisa melhor para deixar em troca? Mas, quando a tirou, o tecido estava úmido. Acho que isso tem a ver com o desejo, também, ela pensou. Não adiantaria deixar no quarto dele algo manchado de gozo. Seria uma humilhação para ela. Vestiu-a de volta e começou a pensar em outra coisa para deixar.

Scheherazade interrompeu a história. Por um longo tempo, não disse uma palavra. Deitou de olhos fechados e respirou tranquilamente. Ao seu lado, Habara fez o mesmo, esperando que ela retomasse.

Por fim, ela abriu os olhos e falou. “Ei, senhor Habara,” disse. Foi a primeira vez que ela se dirigiu a ele pelo nome.

Habara olhou para ela.

“Você acha que podemos fazer mais uma vez?”

“Acho que consigo,” ele disse.

E então transaram novamente. Esta vez, no entanto, foi muito diferente da outra. Violento, apaixonado, e extenuante. Não havia dúvidas de que ela atingira o clímax no fim. Uma série de fortes contrações que a deixaram tremendo. Até mesmo seu rosto estava transformado. Para Habara, era como ter um vislumbre da jovem Scheherazade: a mulher em seus braços agora era uma garota perturbada em seus dezessete anos que tinha, de alguma maneira, ficado presa no corpo de uma dona-de-casa de trinta e cinco. Habara podia senti-la, com seus olhos fechados, de corpo trêmulo, cheirando a camiseta suada do garoto.

Desta vez, Scheherazade não lhe contou nenhuma história depois do sexo. E nem checou o conteúdo do preservativo. Eles se deitaram e ficaram em silêncio um ao lado do outro. Os olhos dela estavam bem abertos, e miravam o teto. Assim como uma lampreia deslumbrada com a superfície iluminada da água. O quão maravilhoso seria, Habara pensou, se ele, também, pudesse habitar outro tempo ou espaço – deixar para trás esta clara figura humana e sozinha cujo nome era Nobutaka Habara e tornar-se uma lampreia sem nome. Imaginou ele e Scheherazade lado a lado, suas ventosas presas numa rocha, seus corpos balançando na água, observando a superfície enquanto esperavam que uma truta suculenta passasse.

“E então o que deixou em troca da camisa?” Habara quebrou o silêncio.

Ela não respondeu de imediato.

“Nada,” falou, por fim. “Nada que eu trouxera comigo se equiparava a uma camisa com o cheiro dele. De modo que eu só peguei e fui embora. Foi quando me tornei uma ladra, pura e simplesmente.”

Doze dias depois, quando Scheherazade voltou à casa do garoto pela quarta vez, havia uma nova tranca na porta da frente. A sua cor dourada cintilava no sol do meio dia, como se estivesse se gabando da sua grande solidez. E não tinha nenhuma chave embaixo do tapete. Era nítido que o desaparecimento da camisa havia despertado suspeitas na mãe dele. Ela devia ter procurado por toda parte e ter cruzado com outros sinais que lhe disseram que algo estranho acontecia em sua casa. Seus instintos nunca mentiam, e ela agiu de prontidão.

Scheherazade estava, obviamente, desapontada com este acontecimento, mas ao mesmo tempo ficou aliviada. Era como se alguém aparecesse atrás dela e retirasse um grande peso de seus ombros. Isso significa que eu não tenho que continuar invadindo a casa dele, pensou. Não havia dúvidas de que, se a tranca não tivesse sido mudada, suas “visitas” continuariam indefinidamente. E nem havia dúvidas de que ela aumentaria o número de ações a cada visita. Uma hora ou outra, um membro da família apareceria enquanto ela estivesse no segundo andar. Não haveria por onde escapar. Não poderia se queixar. Era este o futuro que lhe aguardava, mais cedo ou mais tarde, e o resultado poderia ser devastador. Agora ela escapara. Talvez devesse agradecer à mãe dele – embora nunca tivesse a encontrado – por ter olhos de águia.

Scheherazade cheirava a camiseta dele toda noite antes de deitar na cama. Ela dormia com a camiseta do lado. Embrulhava-a num papel e a escondia antes de ir para a escola de manhã. E então, depois do jantar, a desembrulhava cuidadosamente e a cheirava. Ficou preocupada que o cheiro saísse ao longo dos dias, mas isso não aconteceu. O cheiro de suor permanecera na camisa para sempre.

Agora que “visitas” futuras estavam fora de questão, a mente de Scheherazade lentamente voltava ao normal. Ela já não sonhava tanto acordada na aula, e as palavras de seu professor começaram a fazer sentido. Entretanto, seu principal foco não era a voz do professor, mas o comportamento do colega. Ela discretamente permaneceu olhando para ele, tentando detectar uma mudança, qualquer indicação de que ele estivesse nervoso com alguma coisa. Mas ele agiu exatamente do mesmo jeito de sempre. Ele inclinou a cabeça para trás e riu tão naturalmente como antes, e respondeu prontamente quando chamado. Ele gritou alto como de costume durante o treino de futebol e ficou igualmente suado. Ela não conseguia ver nada diferente – só um rapazinho ali em pé, levando uma vida aparentemente despreocupada.

Mesmo assim, Scheherazade percebeu que uma nuvem escura pairava sobre ele. Ou qualquer coisa parecida. Muito provavelmente, ninguém mais sabia. Apenas ela (e, pensando bem, possivelmente sua mãe). Em sua terceira “visita”, ela se deparara com algumas revistas pornográficas meticulosamente escondidas nas partes mais fundas do guarda-roupa dele. Eram repletas de fotos de mulheres nuas, abrindo suas pernas e oferecendo uma visão privilegiada de suas genitálias. Algumas fotos mostravam o ato sexual: homens penetrando corpos femininos com pênis grandes como varas, nas posições mais estranhas. Scheherazade nunca pusera o olho em fotos desse tipo. Ela sentou na escrivaninha dele e folheou as revistas devagar, estudando cada foto com grande interesse. Imaginou que ele se masturbasse enquanto as via. Mas a ideia não lhe parecia exatamente repulsiva. Ela via a masturbação como uma atividade perfeitamente normal. Todo aquele esperma deveria ir para algum lugar, assim como garotas precisavam menstruar. Em outras palavras, ele era um adolescente comum. Nem herói nem santo. Saber disso era meio que um alívio.

“Quando parei com as minhas ‘visitas’, minha paixão por ele começou a esfriar. Foi aos poucos, como a maré diminuindo na superfície longa e inclinada da praia. De alguma forma, eu me vi cheirando a camisa dele com menos frequência e passando menos tempo acariciando seu lápis e sua medalha. A febre estava passando. O que eu contraíra não se parecia com uma doença, era a própria doença. No tempo que durou, eu não conseguia pensar direito. Talvez todo mundo passe por um período de loucura similar uma hora ou outra. Ou talvez fosse algo que só acontecera comigo. E você? Já teve uma experiência assim?”

Habara tentou lembrar, mas lhe deu um branco. “Não, nada tão marcante, eu acho,” disse.

Scheherazade pareceu um pouco desapontada com a resposta dele.

“De qualquer forma, eu esqueci dele assim que me formei. Tão rápida e facilmente que foi estranho. O que eu vi nele que fez minha adolescente de dezessete anos se apaixonar tanto? Por mais que tentasse, não conseguia lembrar. A vida é estranha, não é? Você pode estar totalmente envolvida com algo num minuto, querer sacrificar tudo para fazer essa coisa ser sua, mas então um tempinho passa, ou sua perspectiva muda um pouco, e de repente você fica surpreso como aquilo perdeu o encanto. O que eu estava vendo? Você deve se perguntar. E então esta é a história de quando eu invadia casas.”

Ela fez com que se parecesse com o “Período Azul” de Picasso, Habara pensou. Mas ele entendeu o que ela tentara transmitir.

Ela espiou o relógio ao lado da cama. Já era quase hora de ir.

“Para dizer a verdade,” ela disse finalmente, “a história não acaba aqui. Uns anos atrás, quando estava no meu segundo ano da escola de enfermagem, a força do destino nos uniu novamente. A mãe dele contribuiu pra isso; na realidade, tinha algo de assustador naquilo tudo – se parecia com aquelas histórias de fantasma. Os acontecimentos tomaram um rumo inacreditável. Você gostaria de ouvir?”

“Eu adoraria,” Habara disse.

“É melhor esperar até minha próxima visita,” Scheherazade disse. “Está ficando tarde. Tenho que ir pra casa preparar o jantar.”

Ela desceu da cama e se vestiu – calcinhas, meias, regata, e, por fim, sua saia e blusa. Habara distraidamente assistiu da cama aos seus movimentos. Ficava impressionado porque o jeito das mulheres se vestirem podia ser mais interessante do que o jeito de elas se despirem.

“Tem algum livro em particular que você queira que eu traga?” ela perguntou, no caminho até a porta.

“Não, nada que consiga lembrar,” ele respondeu. O que ele realmente queria, pensou, era que ela lhe contasse o resto da história, mas não disse. Se o fizesse, poderia diminuir suas chances de ouvi-la.

Habara foi para cama cedo naquela noite e pensou em Scheherazade. Talvez ele nunca mais a visse de novo. Isso o deixou preocupado. É que a possibilidade era muito real. Nenhum laço – nenhum voto, nenhum acordo implícito – os unia. A relação entre eles era uma relação casual, criada por alguém, e poderia terminar se essa pessoa assim quisesse. Em outras palavras, eles estavam unidos por um fio delicado. Era provável – não, era certo – de que esse fio uma hora se rompesse e todas as histórias estranhas e peculiares que ela teria lhe contado fossem perdidas. A única pergunta era quando.
Era também possível que, em algum momento, ele fosse totalmente privado de liberdade, neste caso, não só Scheherazade, mas todas as mulheres desapareceriam de sua vida. Nunca mais ele poderia penetrar seus corpos quentes e úmidos. Nunca mais ele sentiria suas tremulações em resposta. Talvez uma perspectiva ainda mais assustadora para Habara do que o fim do sexo, porém, era a perda daqueles momentos de troca de intimidade. Os momentos que passava com as mulheres eram a oportunidade de viver a realidade, por um lado, enquanto eram uma espécie de negação da realidade, por outro. Isso Scheherazade tinha lhe dado até demais – de fato, sua capacidade era inesgotável. Só de pensar em perder tudo aquilo, ficava extremamente triste.

Habara fechou os olhos e parou de pensar em Scheherazade. Ao invés disso, pensou em lampreias. Lampreias sem mandíbulas presas nas rochas, se escondendo entre as plantas aquáticas, balançando para lá e para cá nas águas. Ele imaginou ser uma delas, esperando uma truta aparecer. Mas nenhuma truta passava por ele, não importava o quanto esperasse. Nenhuma gorda, nenhuma magra, nenhuma truta no geral. Em certo momento, o sol se pôs e o mundo dele desdobrou-se em escuridão.

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Scheherazade
Haruki Murakami

Each time they had sex, she told Habara a strange and gripping story afterward. Like Queen Scheherazade in “A Thousand and One Nights.” Though, of course, Habara, unlike the king, had no plan to chop off her head the next morning. (She never stayed with him till morning, anyway.) She told Habara the stories because she wanted to, because, he guessed, she enjoyed curling up in bed and talking to a man during those languid, intimate moments after making love. And also, probably, because she wished to comfort Habara, who had to spend every day cooped up indoors.
Because of this, Habara had dubbed the woman Scheherazade. He never used the name to her face, but it was how he referred to her in the small diary he kept. “Scheherazade came today,” he’d note in ballpoint pen. Then he’d record the gist of that day’s story in simple, cryptic terms that were sure to baffle anyone who might read the diary later.
Habara didn’t know whether her stories were true, invented, or partly true and partly invented. He had no way of telling. Reality and supposition, observation and pure fancy seemed jumbled together in her narratives. Habara therefore enjoyed them as a child might, without questioning too much. What possible difference could it make to him, after all, if they were lies or truth, or a complicated patchwork of the two?
Whatever the case, Scheherazade had a gift for telling stories that touched the heart. No matter what sort of story it was, she made it special. Her voice, her timing, her pacing were all flawless. She captured her listener’s attention, tantalized him, drove him to ponder and speculate, and then, in the end, gave him precisely what he’d been seeking. Enthralled, Habara was able to forget the reality that surrounded him, if only for a moment. Like a blackboard wiped with a damp cloth, he was erased of worries, of unpleasant memories. Who could ask for more? At this point in his life, that kind of forgetting was what Habara desired more than anything else.
Scheherazade was thirty-five, four years older than Habara, and a full-time housewife with two children in elementary school (though she was also a registered nurse and was apparently called in for the occasional job). Her husband was a typical company man. Their home was a twenty-minute drive away from Habara’s. This was all (or almost all) the personal information she had volunteered. Habara had no way of verifying any of it, but he could think of no particular reason to doubt her. She had never revealed her name. “There’s no need for you to know, is there?” Scheherazade had asked. Nor had she ever called Habara by his name, though of course she knew what it was. She judiciously steered clear of the name, as if it would somehow be unlucky or inappropriate to have it pass her lips.
On the surface, at least, this Scheherazade had nothing in common with the beautiful queen of “A Thousand and One Nights_._” She was on the road to middle age and already running to flab, with jowls and lines webbing the corners of her eyes. Her hair style, her makeup, and her manner of dress weren’t exactly slapdash, but neither were they likely to receive any compliments. Her features were not unattractive, but her face lacked focus, so that the impression she left was somehow blurry. As a consequence, those who walked by her on the street, or shared the same elevator, probably took little notice of her. Ten years earlier, she might well have been a lively and attractive young woman, perhaps even turned a few heads. At some point, however, the curtain had fallen on that part of her life and it seemed unlikely to rise again.
Scheherazade came to see Habara twice a week. Her days were not fixed, but she never came on weekends. No doubt she spent that time with her family. She always phoned an hour before arriving. She bought groceries at the local supermarket and brought them to him in her car, a small blue Mazda hatchback. An older model, it had a dent in its rear bumper and its wheels were black with grime. Parking it in the reserved space assigned to the house, she would carry the bags to the front door and ring the bell. After checking the peephole, Habara would release the lock, unhook the chain, and let her in. In the kitchen, she’d sort the groceries and arrange them in the refrigerator. Then she’d make a list of things to buy for her next visit. She performed these tasks skillfully, with a minimum of wasted motion, and saying little throughout.
Once she’d finished, the two of them would move wordlessly to the bedroom, as if borne there by an invisible current. Scheherazade quickly removed her clothes and, still silent, joined Habara in bed. She barely spoke during their lovemaking, either, performing each act as if completing an assignment. When she was menstruating, she used her hand to accomplish the same end. Her deft, rather businesslike manner reminded Habara that she was a licensed nurse.
After sex, they lay in bed and talked. More accurately, she talked and he listened, adding an appropriate word here, asking the occasional question there. When the clock said four-thirty, she would break off her story (for some reason, it always seemed to have just reached a climax), jump out of bed, gather up her clothes, and get ready to leave. She had to go home, she said, to prepare dinner.
Habara would see her to the door, replace the chain, and watch through the curtains as the grimy little blue car drove away. At six o’ clock, he made a simple dinner and ate it by himself. He had once worked as a cook, so putting a meal together was no great hardship. He drank Perrier with his dinner (he never touched alcohol) and followed it with a cup of coffee, which he sipped while watching a DVD or reading. He liked long books, especially those he had to read several times to understand. There wasn’t much else to do. He had no one to talk to. No one to phone. With no computer, he had no way of accessing the Internet. No newspaper was delivered, and he never watched television. (There was a good reason for that.) It went without saying that he couldn’t go outside. Should Scheherazade’s visits come to a halt for some reason, he would be left all alone.
Habara was not overly concerned about this prospect. If that happens, he thought, it will be hard, but I’ll scrape by one way or another. I’m not stranded on a desert island. No, he thought, I am a desert island. He had always been comfortable being by himself. What did bother him, though, was the thought of not being able to talk in bed with Scheherazade. Or, more precisely, missing the next installment of her story.
“I was a lamprey eel in a former life,” Scheherazade said once, as they lay in bed together. It was a simple, straightforward comment, as offhand as if she had announced that the North Pole was in the far north. Habara hadn’t a clue what sort of creature a lamprey was, much less what one looked like. So he had no particular opinion on the subject.
“Do you know how a lamprey eats a trout?” she asked.
He didn’t. In fact, it was the first time he’d heard that lampreys ate trout.
“Lampreys have no jaws. That’s what sets them apart from other eels.”
“Huh? Eels have jaws?”
“Haven’t you ever taken a good look at one?” she said, surprised.
“I do eat eel now and then, but I’ve never had an opportunity to see if they have jaws.”
“Well, you should check it out sometime. Go to an aquarium or someplace like that. Regular eels have jaws with teeth. But lampreys have only suckers, which they use to attach themselves to rocks at the bottom of a river or lake. Then they just kind of float there, waving back and forth, like weeds.”
Habara imagined a bunch of lampreys swaying like weeds at the bottom of a lake. The scene seemed somehow divorced from reality, although reality, he knew, could at times be terribly unreal.
“Lampreys live like that, hidden among the weeds. Lying in wait. Then, when a trout passes overhead, they dart up and fasten on to it with their suckers. Inside their suckers are these tonguelike things with teeth, which rub back and forth against the trout’s belly until a hole opens up and they can start eating the flesh, bit by bit.”
“I wouldn’t like to be a trout,” Habara said.
“Back in Roman times, they raised lampreys in ponds. Uppity slaves got chucked in and the lampreys ate them alive.”
Habara thought that he wouldn’t have enjoyed being a Roman slave, either.
“The first time I saw a lamprey was back in elementary school, on a class trip to the aquarium,” Scheherazade said. “The moment I read the description of how they lived, I knew that I’d been one in a former life. I mean, I could actually remember—being fastened to a rock, swaying invisibly among the weeds, eying the fat trout swimming by above me.”
“Can you remember eating them?”
“No, I can’t.” [cartoon id=”a18531″]
“That’s a relief,” Habara said. “But is that all you recall from your life as a lamprey—swaying to and fro at the bottom of a river?”
“A former life can’t be called up just like that,” she said. “If you’re lucky, you get a flash of what it was like. It’s like catching a glimpse through a tiny hole in a wall. Can you recall any of your former lives?”
“No, not one,” Habara said. Truth be told, he had never felt the urge to revisit a former life. He had his hands full with the present one.
“Still, it felt pretty neat at the bottom of the lake. Upside down with my mouth fastened to a rock, watching the fish pass overhead. I saw a really big snapping turtle once, too, a humongous black shape drifting past, like the evil spaceship in ‘Star Wars.’ And big white birds with long, sharp beaks; from below, they looked like white clouds floating across the sky.”
“And you can see all these things now?”
“As clear as day,” Scheherazade said. “The light, the pull of the current, everything. Sometimes I can even go back there in my mind.”
“To what you were thinking then?”
“Yeah.”
“What do lampreys think about?”
“Lampreys think very lamprey-like thoughts. About lamprey-like topics in a context that’s very lamprey-like. There are no words for those thoughts. They belong to the world of water. It’s like when we were in the womb. We were thinking things in there, but we can’t express those thoughts in the language we use out here. Right?”
“Hold on a second! You can remember what it was like in the womb?”
“Sure,” Scheherazade said, lifting her head to see over his chest. “Can’t you?”
No, he said. He couldn’t.
“Then I’ll tell you sometime. About life in the womb.”
“Scheherazade, Lamprey, Former Lives” was what Habara recorded in his diary that day. He doubted that anyone who came across it would guess what the words meant.
Habara had met Scheherazade for the first time four months earlier. He had been transported to this house, in a provincial city north of Tokyo, and she had been assigned to him as his “support liaison.” Since he couldn’t go outside, her role was to buy food and other items he required and bring them to the house. She also tracked down whatever books and magazines he wished to read, and any CDs he wanted to listen to. In addition, she chose an assortment of DVDs—though he had a hard time accepting her criteria for selection on this front.
A week after he arrived, as if it were a self-evident next step, Scheherazade had taken him to bed. There had been condoms on the bedside table when he arrived. Habara guessed that sex was one of her assigned duties—or perhaps “support activities” was the term they used. Whatever the term, and whatever her motivation, he’d gone with the flow and accepted her proposal without hesitation.
Their sex was not exactly obligatory, but neither could it be said that their hearts were entirely in it. She seemed to be on guard, lest they grow too enthusiastic—just as a driving instructor might not want his students to get too excited about their driving. Yet, while the lovemaking was not what you’d call passionate, it wasn’t entirely businesslike, either. It may have begun as one of her duties (or, at least, as something that was strongly encouraged), but at a certain point she seemed—if only in a small way—to have found a kind of pleasure in it. Habara could tell this from certain subtle ways in which her body responded, a response that delighted him as well. After all, he was not a wild animal penned up in a cage but a human being equipped with his own range of emotions, and sex for the sole purpose of physical release was hardly fulfilling. Yet to what extent did Scheherazade see their sexual relationship as one of her duties, and how much did it belong to the sphere of her personal life? He couldn’t tell.
This was true of other things, too. Habara often found Scheherazade’s feelings and intentions hard to read. For example, she wore plain cotton panties most of the time. The kind of panties he imagined housewives in their thirties usually wore—though this was pure conjecture, since he had no experience with housewives of that age. Some days, however, she turned up in colorful, frilly silk panties instead. Why she switched between the two he hadn’t a clue.
The other thing that puzzled him was the fact that their lovemaking and her storytelling were so closely linked, making it hard to tell where one ended and the other began. He had never experienced anything like this before: although he didn’t love her, and the sex was so-so, he was tightly bound to her physically. It was all rather confusing.
“I was a teen-ager when I started breaking into empty houses,” she said one day as they lay in bed.
Habara—as was often the case when she told stories—found himself at a loss for words.
“Have you ever broken into somebody’s house?” she asked.
“I don’t think so,” he answered in a dry voice.
“Do it once and you get addicted.”
“But it’s illegal.”
“You betcha. It’s dangerous, but you still get hooked.”
Habara waited quietly for her to continue.
“The coolest thing about being in someone else’s house when there’s no one there,” Scheherazade said, “is how silent it is. Not a sound. It’s like the quietest place in the world. That’s how it felt to me, anyway. When I sat on the floor and kept absolutely still, my life as a lamprey came back to me. I told you about my being a lamprey in a former life, right?”
“Yes, you did.”
“It was just like that. My suckers stuck to a rock underwater and my body waving back and forth overhead, like the weeds around me. Everything so quiet. Though that may have been because I had no ears. On sunny days, light shot down from the surface like an arrow. Fish of all colors and shapes drifted by above. And my mind was empty of thoughts. Other than lamprey thoughts, that is. Those were cloudy but very pure. It was a wonderful place to be.”
The first time Scheherazade broke into someone’s house, she explained, she was a high-school junior and had a serious crush on a boy in her class. Though he wasn’t what you would call handsome, he was tall and clean-cut, a good student who played on the soccer team, and she was powerfully attracted to him. But he apparently liked another girl in their class and took no notice of Scheherazade. In fact, it was possible that he was unaware she existed. Nevertheless, she couldn’t get him out of her mind. Just seeing him made her breathless; sometimes she felt as if she were going to throw up. If she didn’t do something about it, she thought, she might go crazy. But confessing her love was out of the question.
One day, Scheherazade skipped school and went to the boy’s house. It was about a fifteen-minute walk from where she lived. She had researched his family situation beforehand. His mother taught Japanese language at a school in a neighboring town. His father, who had worked at a cement company, had been killed in a car accident some years earlier. His sister was a junior-high-school student. This meant that the house should be empty during the day.
Not surprisingly, the front door was locked. Scheherazade checked under the mat for a key. Sure enough, there was one there. Quiet residential communities in provincial cities like theirs had little crime, and a spare key was often left under a mat or a potted plant.
To be safe, Scheherazade rang the bell, waited to make sure there was no answer, scanned the street in case she was being observed, opened the door, and entered. She locked the door again from the inside. Taking off her shoes, she put them in a plastic bag and stuck it in the knapsack on her back. Then she tiptoed up the stairs to the second floor.
His bedroom was there, as she had imagined. His bed was neatly made. On the bookshelf was a small stereo, with a few CDs. On the wall, there was a calendar with a photo of the Barcelona soccer team and, next to it, what looked like a team banner, but nothing else. No posters, no pictures. Just a cream-colored wall. A white curtain hung over the window. The room was tidy, everything in its place. No books strewn about, no clothes on the floor. The room testified to the meticulous personality of its inhabitant. Or else to a mother who kept a perfect house. Or both. It made Scheherazade nervous. Had the room been sloppier, no one would have noticed whatever little messes she might make. Yet, at the same time, the very cleanliness and simplicity of the room, its perfect order, made her happy. It was so like him.
Scheherazade lowered herself into the desk chair and sat there for a while. This is where he studies every night, she thought, her heart pounding. One by one, she picked up the implements on the desk, rolled them between her fingers, smelled them, held them to her lips. His pencils, his scissors, his ruler, his stapler—the most mundane objects became somehow radiant because they were his. [cartoon id=”a18532″]
She opened his desk drawers and carefully checked their contents. The uppermost drawer was divided into compartments, each of which contained a small tray with a scattering of objects and souvenirs. The second drawer was largely occupied by notebooks for the classes he was taking at the moment, while the one on the bottom (the deepest drawer) was filled with an assortment of old papers, notebooks, and exams. Almost everything was connected either to school or to soccer. She’d hoped to come across something personal—a diary, perhaps, or letters—but the desk held nothing of that sort. Not even a photograph. That struck Scheherazade as a bit unnatural. Did he have no life outside of school and soccer? Or had he carefully hidden everything of a private nature, where no one would come across it?
Still, just sitting at his desk and running her eyes over his handwriting moved Scheherazade beyond words. To calm herself, she got out of the chair and sat on the floor. She looked up at the ceiling. The quiet around her was absolute. In this way, she returned to the lampreys’ world.
“So all you did,” Habara asked, “was enter his room, go through his stuff, and sit on the floor?”
“No,” Scheherazade said. “There was more. I wanted something of his to take home. Something that he handled every day or that had been close to his body. But it couldn’t be anything important that he would miss. So I stole one of his pencils.”
“A single pencil?”
“Yes. One that he’d been using. But stealing wasn’t enough. That would make it a straightforward case of burglary. The fact that I had done it would be lost. I was the Love Thief, after all.”
The Love Thief? It sounded to Habara like the title of a silent film.
“So I decided to leave something behind in its place, a token of some sort. As proof that I had been there. A declaration that this was an exchange, not a simple theft. But what should it be? Nothing popped into my head. I searched my knapsack and my pockets, but I couldn’t find anything appropriate. I kicked myself for not having thought to bring something suitable. Finally, I decided to leave a tampon behind. An unused one, of course, still in its plastic wrapper. My period was getting close, so I was carrying it around just to be safe. I hid it at the very back of the bottom drawer, where it would be difficult to find. That really turned me on. The fact that a tampon of mine was stashed away in his desk drawer. Maybe it was because I was so turned on that my period started almost immediately after that.”
A tampon for a pencil, Habara thought. Perhaps that was what he should write in his diary that day: “Love Thief, Pencil, Tampon.” He’d like to see what they’d make of that!
“I was there in his home for only fifteen minutes or so. I couldn’t stay any longer than that: it was my first experience of sneaking into a house, and I was scared that someone would turn up while I was there. I checked the street to make sure that the coast was clear, slipped out the door, locked it, and replaced the key under the mat. Then I went to school. Carrying his precious pencil.”
Scheherazade fell silent. From the look of it, she had gone back in time and was picturing the various things that had happened next, one by one.
“That week was the happiest of my life,” she said after a long pause. “I scribbled random things in my notebook with his pencil. I sniffed it, kissed it, rubbed my cheek with it, rolled it between my fingers. Sometimes I even stuck it in my mouth and sucked on it. Of course, it pained me that the more I wrote the shorter it got, but I couldn’t help myself. If it got too short, I thought, I could always go back and get another. There was a whole bunch of used pencils in the pencil holder on his desk. He wouldn’t have a clue that one was missing. And he probably still hadn’t found the tampon tucked away in his drawer. That idea excited me no end—it gave me a strange ticklish sensation down below. It didn’t bother me anymore that in the real world he never looked at me or showed that he was even aware of my existence. Because I secretly possessed something of his—a part of him, as it were.”
Ten days later, Scheherazade skipped school again and paid a second visit to the boy’s house. It was eleven o’clock in the morning. As before, she fished the key from under the mat and opened the door. Again, his room was in flawless order. First, she selected a pencil with a lot of use left in it and carefully placed it in her pencil case. Then she gingerly lay down on his bed, her hands clasped on her chest, and looked up at the ceiling. This was the bed where he slept every night. The thought made her heart beat faster, and she found it difficult to breathe normally. Her lungs weren’t filling with air and her throat was as dry as a bone, making each breath painful.
Scheherazade got off the bed, straightened the covers, and sat down on the floor, as she had on her first visit. She looked back up at the ceiling. I’m not quite ready for his bed, she told herself. That’s still too much to handle.
This time, Scheherazade spent half an hour in the house. She pulled his notebooks from the drawer and glanced through them. She found a book report and read it. It was on “Kokoro,” a novel by Soseki Natsume, that summer’s reading assignment. His handwriting was beautiful, as one would expect from a straight-A student, not an error or an omission anywhere. The grade on it was Excellent. What else could it be? Any teacher confronted with penmanship that perfect would automatically give it an Excellent, whether he bothered to read a single line or not.
Scheherazade moved on to the chest of drawers, examining its contents in order. His underwear and socks. Shirts and pants. His soccer uniform. They were all neatly folded. Nothing stained or frayed. Had he done the folding? Or, more likely, had his mother done it for him? She felt a pang of jealousy toward the mother, who could do these things for him each and every day.
Scheherazade leaned over and sniffed the clothes in the drawers. They all smelled freshly laundered and redolent of the sun. She took out a plain gray T-shirt, unfolded it, and pressed it to her face. Might not a whiff of his sweat remain under the arms? But there was nothing. Nevertheless, she held it there for some time, inhaling through her nose. She wanted to keep the shirt for herself. But that would be too risky. His clothes were so meticulously arranged and maintained. He (or his mother) probably knew the exact number of T-shirts in the drawer. If one went missing, all hell might break loose.Scheherazade carefully refolded the T-shirt and returned it to its proper place. In its stead, she took a small badge, shaped like a soccer ball, that she found in one of the desk drawers. It seemed to date back to a team from his grade-school years. She doubted that he would miss it. At the very least, it would be some time before he noticed that it was gone. While she was at it, she checked the bottom drawer of the desk for the tampon. It was still there.
Scheherazade tried to imagine what would happen if his mother discovered the tampon. What would she think? Would she demand that he explain what on earth a tampon was doing in his desk? Or would she keep her discovery a secret, turning her dark suspicions over and over in her mind? Scheherazade had no idea. But she decided to leave the tampon where it was. After all, it was her very first token.
To commemorate her second visit, Scheherazade left behind three strands of her hair. The night before, she had plucked them out, wrapped them in plastic, and sealed them in a tiny envelope. Now she took this envelope from her knapsack and slipped it into one of the old math notebooks in his drawer. The three hairs were straight and black, neither too long nor too short. No one would know whose they were without a DNA test, though they were clearly a girl’s.
She left his house and went straight to school, arriving in time for her first afternoon class. Once again, she was content for about ten days. She felt that he had become that much more hers. But, as you might expect, this chain of events would not end without incident. For, as Scheherazade had said, sneaking into other people’s homes is highly addictive.
At this point in the story Scheherazade glanced at the bedside clock and saw that it was 4:32 p.m. “Got to get going,” she said, as if to herself. She hopped out of bed and put on her plain white panties, hooked her bra, slipped into her jeans, and pulled her dark-blue Nike sweatshirt over her head. Then she scrubbed her hands in the bathroom, ran a brush through her hair, and drove away in her blue Mazda.
Left alone with nothing in particular to do, Habara lay in bed and ruminated on the story she had just told him, savoring it bit by bit, like a cow chewing its cud. Where was it headed? he wondered. As with all her stories, he hadn’t a clue. He found it difficult to picture Scheherazade as a high-school student. Was she slender then, free of the flab she carried today? School uniform, white socks, her hair in braids? [cartoon id=”a18476″]
He wasn’t hungry yet, so he put off preparing his dinner and went back to the book he had been reading, only to find that he couldn’t concentrate. The image of Scheherazade sneaking into her classmate’s room and burying her face in his shirt was too fresh in his mind. He was impatient to hear what had happened next.
Scheherazade’s next visit to the house was three days later, after the weekend had passed. As always, she came bearing large paper bags stuffed with provisions. She went through the food in the fridge, replacing everything that was past its expiration date, examined the canned and bottled goods in the cupboard, checked the supply of condiments and spices to see what was running low, and wrote up a shopping list. She put some bottles of Perrier in the fridge to chill. Finally, she stacked the new books and DVDs she had brought with her on the table.
“Is there something more you need or want?”
“Can’t think of anything,” Habara replied.
Then, as always, the two went to bed and had sex. After an appropriate amount of foreplay, he slipped on his condom, entered her, and, after an appropriate amount of time, ejaculated. After casting a professional eye on the contents of his condom, Scheherazade began the latest installment of her story.
As before, she felt happy and fulfilled for ten days after her second break-in. She tucked the soccer badge away in her pencil case and from time to time fingered it during class. She nibbled on the pencil she had taken and licked the lead. All the time she was thinking of his room. She thought of his desk, the bed where he slept, the chest of drawers packed with his clothes, his pristine white boxer shorts, and the tampon and three strands of hair she had hidden in his drawer.
She had lost all interest in schoolwork. In class, she either fiddled with the badge and the pencil or gave in to daydreams. When she went home, she was in no state of mind to tackle her homework. Scheherazade’s grades had never been a problem. She wasn’t a top student, but she was a serious girl who always did her assignments. So when her teacher called on her in class and she was unable to give a proper answer, he was more puzzled than angry. Eventually, he summoned her to the staff room during the lunch break. “What’s the problem?” he asked her. “Is anything bothering you?” She could only mumble something vague about not feeling well. Her secret was too weighty and dark to reveal to anyone—she had to bear it alone.
“I had to keep breaking into his house,” Scheherazade said. “I was compelled to. As you can imagine, it was a very risky business. Even I could see that. Sooner or later, someone would find me there, and the police would be called. The idea scared me to death. But, once the ball was rolling, there was no way I could stop it. Ten days after my second ‘visit,’ I went there again. I had no choice. I felt that if I didn’t I would go off the deep end. Looking back, I think I really was a little crazy.”
“Didn’t it cause problems for you at school, skipping class so often?” Habara asked.
“My parents had their own business, so they were too busy to pay much attention to me. I’d never caused any problems up to then, never challenged their authority. So they figured a hands-off approach was best. Forging notes for school was a piece of cake. I explained to my homeroom teacher that I had a medical problem that required me to spend half a day at the hospital from time to time. Since the teachers were racking their brains over what to do about the kids who hadn’t come to school in ages, they weren’t too concerned about me taking half a day off every now and then.”
Scheherazade shot a quick glance at the clock next to the bed before continuing.
“I got the key from under the mat and entered the house for a third time. It was as quiet as before—no, even quieter for some reason. It rattled me when the refrigerator turned on—it sounded like a huge beast sighing. The phone rang while I was there. The ringing was so loud and harsh that I thought my heart would stop. I was covered with sweat. No one picked up, of course, and it stopped after about ten rings. The house felt even quieter then.”
Scheherazade spent a long time stretched out on his bed that day. This time her heart did not pound so wildly, and she was able to breathe normally. She could imagine him sleeping peacefully beside her, even feel as if she were watching over him as he slept. She felt that, if she reached out, she could touch his muscular arm. He wasn’t there next to her, of course. She was just lost in a haze of daydreams.
She felt an overpowering urge to smell him. Rising from the bed, she walked over to his chest of drawers, opened one, and examined the shirts inside. All had been washed and neatly folded. They were pristine, and free of odor, just like before.
Then an idea struck her. She raced down the stairs to the first floor. There, in the room beside the bath, she found the laundry hamper and removed the lid. Mixed together were the soiled clothes of the three family members—mother, daughter, and son. A day’s worth, from the looks of it. Scheherazade extracted a piece of male clothing. A white crew-neck T-shirt. She took a whiff. The unmistakable scent of a young man. A mustiness she had smelled before, when her male classmates were close by. Not a scintillating odor, to be sure. But the fact that this smell was his brought Scheherazade unbounded joy. When she put her nose next to the armpits and inhaled, she felt as though she were in his embrace, his arms wrapped firmly about her.
T-shirt in hand, Scheherazade climbed the stairs to the second floor and lay on his bed once more. She buried her face in his shirt and greedily breathed in. Now she could feel a languid sensation in the lower part of her body. Her nipples were stiffening as well. Could her period be on the way? No, it was much too early. Was this sexual desire? If so, then what could she do about it? She had no idea. One thing was for sure, though—there was nothing to be done under these circumstances. Not here in his room, on his bed.
In the end, Scheherazade decided to take the shirt home with her. It was risky, for sure. His mother was likely to figure out that a shirt was missing. Even if she didn’t realize that it had been stolen, she would still wonder where it had gone. Any woman who kept her house so spotless was bound to be a neat freak of the first order. When something went missing, she would search the house from top to bottom, like a police dog, until she found it. Undoubtedly, she would uncover the traces of Scheherazade in her precious son’s room. But, even as Scheherazade understood this, she didn’t want to part with the shirt. Her brain was powerless to persuade her heart.
Instead, she began thinking about what to leave behind. Her panties seemed like the best choice. They were of an ordinary sort, simple, relatively new, and fresh that morning. She could hide them at the very back of his closet. Could there be anything more appropriate to leave in exchange? But, when she took them off, the crotch was damp. I guess this comes from desire, too, she thought. It would hardly do to leave something tainted by her lust in his room. She would only be degrading herself. She slipped them back on and began to think about what else to leave.
Scheherazade broke off her story. For a long time, she didn’t say a word. She lay there breathing quietly with her eyes closed. Beside her, Habara followed suit, waiting for her to resume.
At last, she opened her eyes and spoke. “Hey, Mr. Habara,” she said. It was the first time she had addressed him by name.
Habara looked at her.
“Do you think we could do it one more time?”
“I think I could manage that,” he said.
So they made love again. This time, though, was very different from the time before. Violent, passionate, and drawn out. Her climax at the end was unmistakable. A series of powerful spasms that left her trembling. Even her face was transformed. For Habara, it was like catching a brief glimpse of Scheherazade in her youth: the woman in his arms was now a troubled seventeen-year-old girl who had somehow become trapped in the body of a thirty-five-year-old housewife. Habara could feel her in there, her eyes closed, her body quivering, innocently inhaling the aroma of a boy’s sweaty T-shirt.
This time, Scheherazade did not tell him a story after sex. Nor did she check the contents of his condom. They lay there quietly next to each other. Her eyes were wide open, and she was staring at the ceiling. Like a lamprey gazing up at the bright surface of the water. How wonderful it would be, Habara thought, if he, too, could inhabit another time or space—leave this single, clearly defined human being named Nobutaka Habara behind and become a nameless lamprey. He pictured himself and Scheherazade side by side, their suckers fastened to a rock, their bodies waving in the current, eying the surface as they waited for a fat trout to swim smugly by. [cartoon id=”a18541″]
“So what did you leave in exchange for the shirt?” Habara broke the silence.
She did not reply immediately.
“Nothing,” she said at last. “Nothing I had brought along could come close to that shirt with his odor. So I just took it and sneaked out. That was when I became a burglar, pure and simple.”
When, twelve days later, Scheherazade went back to the boy’s house for the fourth time, there was a new lock on the front door. Its gold color gleamed in the midday sun, as if to boast of its great sturdiness. And there was no key hidden under the mat. Clearly, his mother’s suspicions had been aroused by the missing shirt. She must have searched high and low, coming across other signs that told of something strange going on in her house. Her instincts had been unerring, her reaction swift.
Scheherazade was, of course, disappointed by this development, but at the same time she felt relieved. It was as if someone had stepped behind her and removed a great weight from her shoulders. This means I don’t have to go on breaking into his house, she thought. There was no doubt that, had the lock not been changed, her invasions would have gone on indefinitely. Nor was there any doubt that her actions would have escalated with each visit. Eventually, a member of the family would have shown up while she was on the second floor. There would have been no avenue of escape. No way to talk herself out of her predicament. This was the future that had been waiting for her, sooner or later, and the outcome would have been devastating. Now she had dodged it. Perhaps she should thank his mother—though she had never met the woman—for having eyes like a hawk.
Scheherazade inhaled the aroma of his T-shirt each night before she went to bed. She slept with it next to her. She would wrap it in paper and hide it before she left for school in the morning. Then, after dinner, she would pull it out to caress and sniff. She worried that the odor might fade as the days went by, but that didn’t happen. The smell of his sweat had permeated the shirt for good.
Now that further break-ins were out of the question, Scheherazade’s state of mind slowly began to return to normal. She daydreamed less in class, and her teacher’s words began to register. Nevertheless, her chief focus was not on her teacher’s voice but on her classmate’s behavior. She kept her eye discreetly trained on him, trying to detect a change, any indication at all that he might be nervous about something. But he acted exactly the same as always. He threw his head back and laughed as unaffectedly as ever, and answered promptly when called upon. He shouted as loudly in soccer practice and got just as sweaty. She could see no trace of anything out of the ordinary—just an upright young man, leading a seemingly unclouded existence.
Still, Scheherazade knew of one shadow that was hanging over him. Or something close to that. No one else knew, in all likelihood. Just her (and, come to think of it, possibly his mother). On her third break-in, she had come across a number of pornographic magazines cleverly concealed in the farthest recesses of his closet. They were full of pictures of naked women, spreading their legs and offering generous views of their genitals. Some pictures portrayed the act of sex: men inserted rodlike penises into female bodies in the most unnatural of positions. Scheherazade had never laid eyes on photographs like these before. She sat at his desk and flipped slowly through the magazines, studying each photo with great interest. She guessed that he masturbated while viewing them. But the idea did not strike her as especially repulsive. She accepted masturbation as a perfectly normal activity. All those sperm had to go somewhere, just as girls had to have periods. In other words, he was a typical teen-ager. Neither hero nor saint. She found that knowledge something of a relief.
“When my break-ins stopped, my passion for him began to cool. It was gradual, like the tide ebbing from a long, sloping beach. Somehow or other, I found myself smelling his shirt less often and spending less time caressing his pencil and badge. The fever was passing. What I had contracted was not something like sickness but the real thing. As long as it lasted, I couldn’t think straight. Maybe everybody goes through a crazy period like that at one time or another. Or maybe it was something that happened only to me. How about you? Did you ever have an experience like that?”
Habara tried to remember, but drew a blank. “No, nothing that extreme, I don’t think,” he said.
Scheherazade looked somewhat disappointed by his answer.
“Anyway, I forgot all about him once I graduated. So quickly and easily, it was weird. What was it about him that had made the seventeen-year-old me fall so hard? Try as I might, I couldn’t remember. Life is strange, isn’t it? You can be totally entranced by something one minute, be willing to sacrifice everything to make it yours, but then a little time passes, or your perspective changes a bit, and all of a sudden you’re shocked at how its glow has faded. What was I looking at? you wonder. So that’s the story of my ‘breaking-and-entering’ period.”
She made it sound like Picasso’s Blue Period, Habara thought. But he understood what she was trying to convey.
She glanced at the clock next to the bed. It was almost time for her to leave.
“To tell the truth,” she said finally, “the story doesn’t end there. A few years later, when I was in my second year of nursing school, a strange stroke of fate brought us together again. His mother played a big role in it; in fact, there was something spooky about the whole thing—it was like one of those old ghost stories. Events took a rather unbelievable course. Would you like to hear about it?”
“I’d love to,” Habara said.
“It had better wait till my next visit,” Scheherazade said. “It’s getting late. I’ve got to head home and fix dinner.”
She got out of bed and put on her clothes—panties, stockings, camisole, and, finally, her skirt and blouse. Habara casually watched her movements from the bed. It struck him that the way women put on their clothes could be even more interesting than the way they took them off.
“Any books in particular you’d like me to pick up?” she asked, on her way out the door.
“No, nothing I can think of,” he answered. What he really wanted, he thought, was for her to tell him the rest of her story, but he didn’t put that into words. Doing so might jeopardize his chances of ever hearing it.
Habara went to bed early that night and thought about Scheherazade. Perhaps he would never see her again. That worried him. The possibility was just too real. Nothing of a personal nature—no vow, no implicit understanding—held them together. Theirs was a chance relationship created by someone else, and might be terminated on that person’s whim. In other words, they were attached by a slender thread. It was likely—no, certain—that that thread would eventually be broken and all the strange and unfamiliar tales she might have told would be lost to him. The only question was when.
It was also possible that he would, at some point, be deprived of his freedom entirely, in which case not only Scheherazade but all women would disappear from his life. Never again would he be able to enter the warm moistness of their bodies. Never again would he feel them quiver in response. Perhaps an even more distressing prospect for Habara than the cessation of sexual activity, however, was the loss of the moments of shared intimacy. What his time spent with women offered was the opportunity to be embraced by reality, on the one hand, while negating it entirely on the other. That was something Scheherazade had provided in abundance—indeed, her gift was inexhaustible. The prospect of losing that made him saddest of all.
Habara closed his eyes and stopped thinking of Scheherazade. Instead, he thought of lampreys. Of jawless lampreys fastened to rocks, hiding among the waterweeds, swaying back and forth in the current. He imagined that he was one of them, waiting for a trout to appear. But no trout passed by, no matter how long he waited. Not a fat one, not a skinny one, no trout at all. Eventually the sun went down, and his world was enfolded in darkness.

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Você na América, de Chimamanda Ngozi Adichie

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Você na América
Tradução: Tomaz Amorim Izabel

Você achava que todo mundo na América tinha um carro e uma arma. Seus tios e tias e primos achavam também. Logo depois que você ganhou a loteria do visto americano, eles te disseram: “Em um mês você terá um carrão. Em breve, um casarão. Mas não compre uma arma como aqueles americanos”.

Eles marcharam para dentro do barraco na favela em Lagos, ficando de pé do lado das paredes de zinco cravejadas de pregos porque as cadeiras não davam para todo mundo, para dar tchau com vozes altas e te dizerem com vozes baixas o que eles queriam que você mandasse para eles. Em comparação com o carrão e o casarão (e possivelmente a arma), as coisas que eles queriam era menores: bolsas e sapatos e suplementos vitamínicos. Você disse tudo bem, sem problemas.

Seu tio na América disse que você poderia viver com ele até conseguir se virar. Ele te buscou no aeroporto e te comprou um grande cachorro quente com mostarda amarela que te deixou enjoada. Apresentando a América, ele disse com um sorriso. Ele vivia em uma pequena cidade de brancos em Maine, em uma casa de trinta anos junto ao lago. Ele te disse que a companhia para a qual ele trabalhava tinha oferecido a ele alguns milhares a mais junto com ações porque eles estavam tentando desesperadamente ter mais diversidade. Eles incluíam ele em todos os folhetos, até naqueles que não tinham nada a ver com engenharia. Ele ria e dizia que o trabalho era bom, que valia a pena morar em uma cidade toda de brancos mesmo que sua esposa tivesse que dirigir por uma hora até encontrar um salão de cabeleireiro que trabalhasse com cabelos negros. O truque era entender a América, saber que na América era dar e receber. Você abria mão de muito, mas ganhava muito também.

Ele te mostrou como se candidatar para uma vaga de caixa no posto de gasolina da rua principal e te inscreveu em uma faculdade comunitária onde as meninas ficaram curiosas com o seu cabelo. Ele fica para cima ou para baixo quando você tira as tranças? Ele fica todo para cima? Como? Por que? Você usa pente?

Você dava um sorriso cerrado quando elas perguntavam essas coisas. Seu tio disse para você esperar por isso: uma mistura de ignorância e arrogância, ele chamou assim. Então ele te contou que os vizinhos disseram, poucos meses depois que ele se mudou para a casa dele, que os esquilos tinham começado a desaparecer. Eles tinham ouvido que os africanos comem todo o tipo de animais selvagens.

Você riu com seu tio e sentiu que a casa dele era um lar, a esposa dele te chamava de nwanne – irmã – e os dois filhos dele em idade escolar te chamavam de Titia. Eles falavam igbo e comiam garri no almoço e era como um lar. Até que seu tio entrou no porão estreito onde você dormia com velhos baús e rodas e livros e agarrou os seus seios, como se ele estivesse colhendo mangas de uma árvore, gemendo. Ele não era mesmo seu tio, ele era na verdade um primo distante do marido da sua tia, não parente de sangue.

Enquanto você fazia suas malas naquela noite, ele sentou na sua cama – era a casa dele afinal – e riu e disse que você não tinha para onde ir. Se você deixasse, ele faria muitas coisas por você. Mulheres inteligentes faziam isso o tempo inteiro. Como você acha que aquelas mulheres lá em Lagos com trabalhos que pagam bem conseguiram? Ou mesmo as mulheres em Nova Iorque?

Você se trancou no banheiro e na manhã seguinte você partiu, caminhando no vento pela longa estrada, cheirando os bebês-peixe no lago. Você viu ele passar dirigindo, ele sempre te deixava na Rua Principal, e ele não buzinou. Você se perguntou o que ele iria dizer para a sua esposa, por que você tinha partido. E você se lembrou do que ele disse, que a América era dar e receber.

Você acabou em Connecticut, numa outra cidade pequena, porque era o ponto final do ônibus Bonanza em que você subiu. Bonanza era o ônibus mais barato. Você entrou em um restaurante por perto e disse que trabalharia por dois dólares menos que as outras garçonetes. O dono, Juan, tinha um cabelo pintado de preto e sorriu mostrando um brilhante dente amarelo. Ele disse que nunca tinha tido uma empregada nigeriana, mas que todos os imigrantes trabalhavam duro. Ele sabia, já tinha passado por isso. Ele te pagaria um dólar a menos, mas por debaixo dos panos. Ele não gostava de todos os impostos que eles estavam fazendo ele pagar.

Você não tinha condições de pagar uma escola, porque agora você pagava aluguel pelo pequeno quarto com o carpete manchado. Além disso, a cidadezinha de Connecticut não tinha uma faculdade comunitária e o empréstimo para a Universidade Estadual custava muito. Então você ia para a Biblioteca Pública, você procurava pelas ementas dos cursos nos sites das escolas e lia alguns dos livros. Às vezes você se sentava no colchão esburacado da sua cama de solteiro e pensava sobre seu lar.

Seus pais, seus tios e tias, seus primos, seus amigos. As pessoas que nunca tinham conseguido lucrar com as mangas e akara dos quais eles cuidavam, cujas casas – folhas de zinco precariamente presas por pregos – desmontavam durante a temporada de chuvas. As pessoas que vieram dizer tchau, que se alegraram porque você ganhou a loteria do visto americano, para confessar a sua inveja. As pessoas que mandavam seus filhos para o colegial em que os professores davam um A quando alguém lhes passava envelopes marrons.

Você nunca precisou pagar por um A, nunca passou um envelope marrom para um professor no colegial. Mesmo assim, você escolheu envelopes marrons compridos para mandar metade do que você recebia para os seus pais. As notas que o Juan te dava eram mais amassadas do que as de gorjeta. Todo mês. Você não escrevia nenhuma carta. Não tinha nada sobre o que escrever.

Nas primeiras semanas, no entanto, você queria escrever, porque você tinha histórias para contar. Você queria escrever sobre a abertura surpreendente das pessoas na América, o quão avidamente as pessoas te contavam sobre as mães delas lutando contra o câncer, sobre o parto prematuro da cunhada delas – coisas que as pessoas deveriam esconder, revelar apenas para membros da família que as queriam bem. Você queria escrever sobre a maneira com que as pessoas deixavam tanta comida nos seus pratos e enfiavam algumas notas de dólar embaixo, como se fosse uma oferenda, uma expiação pela comida desperdiçada. Você queria escrever sobre a criança que começou a chorar e a puxar os cabelos loiros e em vez de os pais fazerem ela se calar, eles suplicaram para ela e então todos se levantaram e saíram.

Você queria escrever que nem todo mundo na América tinha um casarão ou um carrão, você só não tinha ainda certeza sobre as armas porque eles poderiam tê-las dentro de suas bolsas e bolsos.

Não era só para os seus pais que você queria escrever, mas para os seus amigos e primos e tias e tios. Mas você nunca teria condições de comprar tantas bolsas e tênis e suplementos vitamínicos por aí e ainda pagar seu aluguel, então você não escrevia para ninguém.

Ninguém sabia onde você estava porque você não contou para ninguém. Às vezes você se sentia invisível e tentava atravessar a parede do seu quarto para o corredor e quando você batia contra a parede ficavam marcas nos seus braços. Uma vez, o Juan te perguntou se você tinha um homem que batia em você porque ele iria dar um jeito nele e você riu um riso misterioso. Em algumas noites, alguma coisa se enrolava em volta do seu pescoço, alguma coisa que sempre quase te enforcava antes de você acordar.

~

Algumas pessoas pensavam que você era da Jamaica porque eles pensavam que todas as pessoas negras com um sotaque eram jamaicanas. Ou alguns que adivinhavam que você era africana perguntavam se você conhecia tal ou tal pessoa do Quênia ou tal ou tal pessoa do Zimbábue porque eles pensavam que a África era um país onde todo mundo conhecia todo mundo.

Então, quando ele te perguntou, no escuro do restaurante depois que você recitou os pratos do dia, de qual país africano você era, você disse Nigéria e esperou que ele perguntasse se você conhecia um amigo que ele tinha feito no Peace Corps no Senegal ou em Botsuana. Mas ele perguntou se você era yorubá ou igbo porque você não tinha um rosto de fulani. Você ficou surpresa – você pensou, ele deve ser um professor de antropologia, um pouco jovem mas sei lá? Igbo, você disse. Ele perguntou seu nome e disse que Akunna era bonito. Ele não perguntou o que significava, felizmente, porque você estava cansada de como as pessoas diziam: – Fortuna do Pai? Você quer dizer, tipo, que seu pai vai realmente te vender para um marido?

Ele tinha ido para Gana e Quênia e Tanzânia, ele tinha lido tudo sobre os outros países africanos, suas histórias, suas complexidades. Você queria sentir desdém, mostrá-lo

ao trazer o pedido dele, porque pessoas brancas que gostavam demais da África e que gostavam de menos da África eram o mesmo: condescendentes.

Mas ele não agia como se soubesse demais, não balançava sua cabeça de um jeito superior como o professor lá da Faculdade Comunitária fez uma vez enquanto falava sobre Angola, não mostrou nenhuma condescendência. Ele entrou no dia seguinte e se sentou na mesma mesa e quando você perguntou se o frango estava bom, ele te perguntou algo sobre Lagos. Ele entrou no segundo dia e falou por tanto tempo – te perguntando com frequência se você não achava que Mobutu e Idi Amim eram parecidos – que você teve que dizer para ele que isto era contra as regras do restaurante. Ele acariciou sua mão quando você colocou o café na mesa. No terceiro dia, você disse ao Juan que não queria mais aquela mesa.

Depois do seu turno naquele dia, ele estava te esperando do lado de fora, apoiado num poste, te pedindo para sair com ele porque seu nome rimava com hakuna matata e O Rei Leão era o único filme melodramático de que ele gostava. Você não sabia o que era O Rei Leão. Você olhou para ele na luz forte e percebeu que os olhos dele eram da cor do azeite de oliva extra-virgem, um ouro esverdeado. Azeite de oliva extra-virgem era a única coisa de que você gostava, realmente gostava, na América.

Ele era estudante na Universidade Estadual. Ele te disse quantos anos tinha e você perguntou porque ele não tinha se graduado ainda. Era a América, afinal, não era como lá em casa em que as universidades fechavam com tanta frequência que as pessoas adicionavam três anos a mais nos seus planos de estudo e as aulas entravam em greve depois de greve e ainda não eram pagas. Ele disse que ficou algum tempo fora, alguns anos depois do colégio, para se descobrir e viajar, principalmente através da África e da Ásia. Você perguntou onde é que ele tinha finalmente se encontrado e ele riu. Você não riu. Você não sabia que as pessoas podiam simplesmente escolher não ir para a escola, que as pessoas podiam ditar para a vida. Você estava acostumada a aceitar o que a vida dava, a escrever o que a vida ditava.

Você disse não nos três dias seguintes sobre isso sair com ele, porque você não achava certo, porque você ficava desconfortável com a maneira com que ele olhava nos seus olhos, a maneira com que você ria tão facilmente do que ele dizia. E então na quarta noite você entrou em pânico quando viu que ele não estava esperando na porta, depois do seu turno. Você rezou pela primeira vez em muito tempo e quando ele apareceu por trás de você e disse, ei, você disse, sim, você sairia com ele, mesmo antes de ele perguntar. Você tinha medo de que ele não perguntaria de novo.

No próximo dia, ele te levou ao Chang’s e o seu bolinho da sorte veio com duas fitinhas de papel. As duas estavam em branco.

~

Você soube que você ficou confortável quando você contou para ele a verdadeira razão pela qual você pediu outra mesa para o Juan – Jeopardy! Quando você assistia Jeopardy na TV do restaurante, você torcia para os seguintes, nesta ordem: mulheres de cor, mulheres brancas, homens negros e, finalmente, homens brancos, o que significava que você nunca torcia para homens brancos. Ele riu e disse que estava costumado a não ter torcida, porque sua mãe ensinava Estudos Feministas.

E você soube que vocês tinham ficado próximos quando você disse para ele que o seu pai na verdade não era professor de escola em Lagos, mas motorista de taxi. E você contou para ele sobre aquele dia no trânsito em Lagos no carro do seu pai, estava chovendo e a sua poltrona estava molhada por causa do furo comido de ferrugem no teto. O trânsito estava pesado,o trânsito estava sempre pesado em Lagos, e quando chovia era um caos. As estradas eram tão mal drenadas que alguns carros ficavam presos em buracos de lama e alguns dos seus primos ganhavam dinheiro rebocando os carros. A chuva e a estrada pantanosa – você pensava – fizeram com que seu pai pisasse nos freios tarde demais naquele dia. Você ouviu o barulho antes de senti-lo. O carro contra o qual o seu pai colidiu era grande, estrangeiro e verde escuro, com faróis amarelos como os olhos de um gato. Seu pai começou a chorar e implorar antes mesmo de sair do carro e se deitou inteiro na estrada, parando o trânsito. Desculpa, senhor, desculpa senhor, se você vender minha família e eu, mesmo assim você não vai conseguir comprar nem uma roda para o seu carro, ele cantou. Desculpa, senhor.

O homem grande sentado no banco de trás não saiu. Seu motorista, sim, examinando os danos, olhando para a figura esparramada do seu pai com o canto do olho, como se a súplica fosse uma canção de que ele estava envergonhado de admitir que gostava. Finalmente, ele deixou seu pai ir. Gesticulou para que ele saísse. Os outros carros buzinavam e os motoristas xingavam. Quando seu pai voltou para dentro do carro, você se recusou a olhar para ele porque ele estava como os porcos que chafurdavam nos brejos perto do mercado. Seu pai parecia nsi. Merda.

Depois que você contou isso para ele, ele franziu os lábios e segurou a sua mão e disse que entendia. Você soltou sua mão, incomodada, porque ele achava que o mundo era, ou deveria ser, cheio de gente como ele. Você disse para ele que não tinha nada para entender, era só como as coisas eram.

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Ele não comia carne porque achava que era errada a forma com que eles matavam os animais. Ele disse que eles liberavam toxinas do medo nos animais e que toxinas do medo te deixavam paranóico. Lá em casa, os pedaços de carne que você comia, quando tinha carne, eram do tamanho da metade do seu dedo. Mas você não contou isso para ele. Você também não contou que os cubos de dawadawa com que sua mãe cozinhava tudo, porque curry e tomilho eram muito caros, tinham glutamato monossódico, eram glutamato monossódico. Ele disse que glutamato causava câncer e que era por isso que ele gostava do Chang’s – o Chang não cozinhava com glutamato.

Uma vez, no Chang, ele disse ao garçom que viveu em Xangai por um ano, que falava um pouco de mandarim. O garçom se alegrou e disse para ele qual sopa estava melhor e então perguntou a ele: “Você tem uma namorada em Xangai?”. E ele sorriu e não disse nada.

Você perdeu seu apetite, a região abaixo dos seus seios pareceu entupida por dentro. Naquela noite, você não gemeu quando ele estava dentro de você, você mordeu seus lábios e fingiu que não gozou porque você sabia que ele se preocuparia. Finalmente você disse para ele porque estava chateada, porque o homem chinês pressupôs que você nunca poderia ser a namorada dele, e ele sorriu e não disse nada.

Antes de se desculpar, ele te olhou com os olhos vazios e você soube que ele não entendeu.

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Ele te comprava presentes e quando você se opôs por causa do preço, ele disse que tinha uma poupança, que estava tudo bem. Os presentes dele te enfeitiçavam. Uma bola do tamanho de um punho que você balançava para assistir à neve cair sobre uma casinha, ou uma bailarina de plástico vestida de rosa girando sobre um palquinho. Uma pedra brilhante. Um lenço mexicano caro pintado à mão que você nunca ia poder usar por causa da cor. Finalmente, você disse para ele que os presentes do Terceiro Mundo eram sempre úteis. A pedra, por exemplo, funcionaria se você conseguisse esmagar coisas com ela, ou usá-la no corpo. Ele riu alta e longamente, mas você não riu. Você percebeu que na vida dele, ele podia comprar presentes que eram apenas presentes e nada mais, nada útil. Quando ele começou a te comprar sapatos e roupas e livros, você pediu para ele que não, você não queria nenhum presente.

Mesmo assim, você não brigaram. Não de verdade. Vocês discutiam e aí se reconciliavam e faziam amor e passavam as mãos pelos cabelos um do outro, o dele macio e amarelo como as bandeiras dançantes do milho crescendo, o seu escuro e volúvel como o enchimento de um travesseiro. Você se sentiu segura nos braços dele, a mesma segurança que você sentia lá em casa, no barraco de zinco na favela.

Quando ele tomava sol demais e a pele dele ficava da cor de uma melancia madura, você beijava partes das costas dele antes de aplicar a loção devagarinho. Era mais íntimo do que o sexo. Você se sentia envolvida, ainda assim, era uma experiência que vocês dois nunca poderiam compartilhar. Você se escurecia no sol, mas era escura demais para se queimar algum dia.

Ele achou a loja africana nas páginas amarelas de Hartford e dirigiu com você até lá. O dono da loja, um ganês, perguntou a ele se ele era africano, como os quenianos e sul-africanos brancos, e ele riu e disse que sim, mas que estava na América por bastante tempo, que sentia saudades da comida da sua infância. Você cozinhou para ele, ele gostou do arroz jollof mas depois que comeu o garri e a sopa onugbu ele vomitou na sua pia. Você não se importou porque agora você podia cozinhar sopa de onugbu com carne.

A coisa que se enrolava no seu pescoço, que quase sempre te enforcava antes de você dormir, começou a afrouxar, a se soltar.

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Você sabia pelas reações das pessoas que vocês eram anormais – a maneira com que os ruins eram ruins demais e os gentis, gentis demais. A maneira com que as velhas mulheres brancas murmuravam e encaravam ele, os homens negros que balançavam suas cabeças para você, as mulheres negras, cujos olhos piedosos lamentavam sua falta de auto-estima, sua auto-aversão. Ou as mulheres negras que sorriam rapidamente, sorrisos secretos de solidariedade, os homens negros que se esforçavam demais para te perdoar, diziam um oi óbvio demais para ele, as mulheres brancas que diziam: “que casal bonito”, muito claramente, muito alto, como se estivessem tentando provar para si mesmas sua tolerância.

Você não disse para ele, mas você desejava ter uma pele mais clara porque assim eles não ficariam olhando tanto. Você pensou na sua irmã lá em casa, sobre a pele cor-de-mel dela, e você queria ter saído como ela. Você quis isso de novo na noite em que conheceu os pais dele. Mas você não disse para ele, porque ele te olharia solene e seguraria sua mão e te diria que foi a cor lustrosa da sua pele que chamou a atenção dele primeiro. Você não queria que ele segurasse a sua mão e dissesse que entendia porque, de novo, não tinha nada para ser entendido, era assim que as coisas eram.

Você desejava ter a pele clara o bastante para ser confundida como uma porto-riquenha, clara o bastante para que, na meia-luz do restaurante indiano onde vocês compartilhavam samosas com os pais dele de uma bandeja colocada no centro, você quase se parecesse com eles.

A mãe dele te disse que amava as suas tranças, te perguntou se os búzios presos nelas eram de verdade e quais escritores mulheres você lia. O pai dele perguntou o quão parecida era a comida indiana com a comida nigeriana e brincou com você sobre pagar quando a conta chegou. Você olhou para eles e se sentiu grata por eles não terem te examinado como um troféu exótico, uma presa de marfim.

A mãe dele te disse que ele nunca tinha trazido uma moça para eles conhecerem, com exceção do par na festa de formatura do colégio e ele sorriu tenso e segurou sua mão. A toalha de mesa escondia as suas mãos entrelaçadas. Ele apertou sua mão e você apertou de volta e se perguntou porque ele estava tão tenso, por que os seus olhos de azeite extra-virgem se escureciam quando ele falava com os pais. Ele te falou depois sobre os problemas dele com os pais, como eles repartiam o amor como um bolo de aniversário, como eles dariam um pedaço maior se ele fosse para a Faculdade de Direito. Você queria ser compreensiva. Mas ao invés disso ficou irritada.

Você ficou mais irritada quando ele te disse que ele tinha se recusado a ir para o Canadá com eles por uma semana ou duas, para a cabana de verão no interior de Quebec. Eles tinham até pedido para ele te levar. Ele te mostrou fotos da cabana e você se perguntou o porquê de ela se chamar cabana, porque os prédios tão grandes quanto aquele, perto da sua vizinhança lá em casa, eram bancos e igrejas. Você derrubou um copo e ele se despedaçou na madeira de lei do chão do apartamento dele e ele perguntou o que é que estava errado e você não disse nada, embora você pensasse que havia muita coisa errada. Os seus mundos estavam errados.

Depois, no chuveiro, você começou a chorar, você via a água diluir suas lágrimas e você não sabia porque estava chorando.

~

Você finalmente escreveu para casa, quando a coisa em volta do seu pescoço tinha quase completamente ido embora. Uma carta curta para os seus pais e irmãos e irmãs, enfiada entre as notas de dólares amassadas, e você incluiu seu endereço. Você recebeu uma carta poucos dias depois, por correio expresso. Sua mãe mesma escreveu a carta, você soube pela caligrafia aracnídea, pelos erros de ortografia.

Seu pai tinha morrido, ele desabou por cima do volante do taxi dele. Cinco meses agora, ela escreveu. Eles tinham usado parte do dinheiro que você mandou para dar um bom funeral a ele. Eles mataram uma cabra para os convidados e o enterraram em um caixão de verdade, não só com tábuas de madeira.

Você se enrolou na cama, apertou com força seus joelhos no peito e chorou. Ele te segurou enquanto você chorava, alisou seu cabelo e se ofereceu para ir junto com você, de volta para casa na Nigéria. Você disse que não, você precisava ir sozinha. Ele perguntou se você voltaria e te lembrou que você tinha um visto permanente e que você o perderia se não voltasse em um ano. Ele disse que você sabia o que ele estava querendo dizer, você iria voltar, volta?

Você se virou e não disse nada e ele dirigiu com você até o aeroporto, você abraçou ele firme, agarrando os músculos das costas dele até suas costelas doerem. E você disse obrigada.

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You in America
Chimamanda Ngozi Adichie

You believed that everybody in America had a car and a gun. Your uncles and aunts and cousins believed it too. Right after you won the American visa lottery, they told you, “In a month, you will have a big car. Soon, a big house. But don’t buy a gun like those Americans.”
They trooped into the shantytown house in Lagos, standing beside the nail-studded zinc walls because chairs did not go round, to say good bye in loud voices and tell you with lowered voices what they wanted you to send them. In comparison to the big car and house (and possibly gun), the things they wanted were minor—handbags and shoes and vitamin supplements. You said okay, no problem.
Your uncle in America said you could live with him until you got on your feet. He picked you up at the airport and bought you a big hot dog with yellow mustard that nauseated you. Introduction to America, he said with a laugh. He lived in a small white town in Maine, in a thirty-year-old house by a lake. He told you that the company he worked for had offered him a few thousand more plus stocks because they were desperately trying to look diverse. They included him in every brochure, even those that had nothing to do with engineering. He laughed and said the job was good, was worth living in an all-white town even though his wife had to drive an hour to find a hair salon that did black hair. The trick was to understand America, to know that America was give and take. You gave up a lot but you gained a lot too.
He showed you how to apply for a cashier job in the gas station on Main Street, and he enrolled you in a community college, where the girls were curious about your hair. Does it stand up or fall down when you take the braids out? All of it stands up? How? Why? Do you use a comb?
You smiled tightly when they asked those questions. Your uncle told you to expect it; a mixture of ignorance and arrogance, he called it. Then he told you how the neighbors said, a few months after he moved into his house, that the squirrels had started to disappear. They had heard Africans ate all kinds of wild animals.
You laughed with your uncle and you felt at home in his house, his wife called you nwanne—sister—and his two school-age children called you Aunty. They spoke Igbo and ate garri for lunch and it was like home. Until your uncle came into the cramped basement where you slept with old trunks and wheels and books and grabbed your breasts, as though he was plucking mangoes from a tree, moaning. He wasn’t really your uncle, he was actually a distant cousin of your aunt’s husband, not related by blood.
As you packed your bags that night, he sat on your bed—it was his house after all—and laughed and said you had nowhere to go. If you let him, he would do many things for you. Smart women did it all the time. How did you think those women back home in Lagos with well-paying jobs made it? Even women in New York?
You locked yourself in the bathroom and the next morning you left, walking the long windy road, smelling the baby fish in the lake. You saw him drive past, he had always dropped you off at Main Street, and he didn’t honk. You wondered what he would tell his wife, why you had left. And you remembered what he said, that America was give and take.
You ended up in Connecticut, another little town, because it was the last stop of the Bonanza bus you got on. Bonanza was the cheapest bus. You walked into the restaurant nearby and said you would work for two dollars less than the other waitresses. The owner, Juan, had inky black hair and smiled to show a bright yellowish tooth. He said he had never had a Nigerian employee but all immigrants worked hard. He knew, he’d been there. He’d pay you a dollar less, but under the table. He didn’t like all the taxes they were making him pay.
You could not afford to go to school, because now you paid rent for the tiny room with the stained carpet. Besides, the small Connecticut town didn’t have a community college and a credit in the State University cost too much. So you went to the Public Library, you looked up course syllabi on school web sites and read some of the books. Sometimes you sat on the lumpy mattress of your twin bed and thought about home.
Your parents, your uncles and aunts, your cousins, your friends. The people who never broke a profit from the mangoes and akara they hawked, whose houses—zinc sheets precariously held by nails—fell apart in the rainy season. The people who came out to say goodbye, to rejoice because you won the American visa lottery, to confess their envy. The people who sent their children to the secondary school where teachers gave an A when someone slipped them brown envelopes.
You had never needed to pay for an A, never slipped a brown envelope to a teacher in secondary school. Still, you chose long brown envelopes to send half your month’s earning to your parents. The bills that Juan gave you which were crisper than the tips. Every month. You didn’t write a letter. There was nothing to write about.
The first weeks you wanted to write though, because you had stories to tell. You wanted to write about the surprising openness of people in America, how eagerly they told you about their mother fighting cancer, about their sister-in-law’s preemie—things people should hide, should reveal only to the family members who wished them well. You wanted to write about the way people left so much food on their plates and crumpled a few dollar bills down, as though it was an offering, expiation for the wasted food. You wanted to write about the child who started to cry and pull at her blond hair and instead of the parents making her shut up, they pleaded with her and then they all got up and left.
You wanted to write that everybody in America did not have a big house and car, you still were not sure about the guns though because they might have them inside their bags and pockets.
It wasn’t just your parents you wanted to write, it was your friends and cousins and aunts and uncles. But you could never afford enough handbags and shoes and vitamin supplements to go around and still pay your rent, so you wrote nobody.
Nobody knew where you were because you told no one. Sometimes you felt invisible and tried to walk through your room wall into the hallway and when you bumped into the wall, it left bruises on your arms. Once, Juan asked if you had a man that hit you because he would take care of him and you laughed a mysterious laugh. At nights, something wrapped itself around your neck, something that very nearly always choked you before you woke up.

~

Some people thought you were from Jamaica because they thought that every black person with an accent was Jamaican. Or some who guessed that you were African asked if you knew so and so from Kenya or so and so from Zimbabwe because they thought Africa was a country where everyone knew everyone else.
So when he asked you, in the dimness of the restaurant after you recited the daily specials, what African country you were from, you said Nigeria and expected him to ask if you knew a friend he had made in the Peace Corps in Senegal or Botswana. But he asked if you were Yoruba or Igbo, because you didn’t have a Fulani face. You were surprised—you thought he must be a professor of anthropology, a little young but who was to say? Igbo, you said. He asked your name and said Akunna was pretty. He did not ask what it meant, fortunately, because you were sick of how people said, Father’s Wealth? You mean, like, your father will actually sell you to a husband?
He had been to Ghana and Kenya and Tanzania, he had read about all the other African countries, their histories, their complexities. You wanted to feel disdain, to show it as you brought his order, because white people who liked Africa too much and who liked Africa too little were the same—condescending.
But he didn’t act like he knew too much, didn’t shake his head in the superior way a professor back in the community college once did as he talked about Angola, didn’t show any condescension. He came in the next day and sat at the same table and when you asked if the chicken was okay, he asked you something about Lagos. He came in the second day and talked for so long—asking you often if you didn’t think Mobutu and Idi Amin were similar—you had to tell him it was against restaurant policy. He brushed your hand when you placed the coffee down. The third day, you told Juan you didn’t want that table anymore.
After your shift that day, he was waiting outside, leaning by a pole, asking you to go out with him because your name rhymed with hakuna matata and The Lion King was the only maudlin movie he’d ever liked. You didn’t know what The Lion King was. You looked at him in the bright light and realized that his eyes were the color of extra virgin olive oil, a greenish gold. Extra-virgin olive oil was the only thing you enjoyed, truly enjoyed, in America.
He was a senior at the State University. He told you how old he was and you asked why he had not graduated yet. This was America, after all, it was not like back home where Universities closed so often that people added three years to their normal course of study and Lecturers went on strike after strike and were still not paid. He said he had taken time off, a couple of years after high school, to discover himself and travel, mostly to Africa and Asia. You asked him where he ended up finding himself and he laughed. You did not laugh. You did not know that people could simply choose not to go to school, that people could dictate to life. You were used to accepting what life gave, writing down what life dictated.
You said no the following three days, to going out with him, because you didn’t think it was right, because you were uncomfortable with the way he looked in your eyes, the way you laughed so easily at what he said. And then the fourth night, you panicked when he was not standing at the door, after your shift. You prayed for the first time in a long time and when he came up behind you and said, hey, you said yes, you would go out with him, even before he asked. You were scared he would not ask again.
The next day, he took you to Chang’s and your fortune cookie had two strips of paper. Both of them were blank.

~

You knew you had become comfortable when you told him the real reason you asked Juan for a different table—Jeopardy. When you watched Jeopardy on the restaurant TV, you rooted for the following, in this order—women of color, white women, black men, and finally white men, which meant you never rooted for white men. He laughed and told you he was used to not being rooted for, his mother taught Women’s Studies.
And you knew you had become close when you told him that your father was really not a school teacher in Lagos, that he was a taxi driver. And you told him about that day in Lagos traffic in your father’s car, it was raining and your seat was wet because of the rust-eaten hole in the roof. The traffic was heavy, the traffic was always heavy in Lagos, and when it rained it was chaos. The roads were so badly drained some cars would get stuck in muddy potholes and some of your cousins got paid to push the cars out. The rain and the swampy road—you thought—made your father step on the brakes too late that day. You heard the bump before you felt it. The car your father rammed into was big, foreign and dark green, with yellow headlights like the eyes of a cat. Your father started to cry and beg even before he got out of the car and laid himself flat on the road, stopping the traffic. Sorry sir, sorry sir, if you sell me and my family you cannot even buy one tire in your car, he chanted. Sorry sir.
The big man seated at the back did not come out. His driver did, examining the damage, looking at your father’s sprawled form from the corner of his eye as though the pleading was a song he was ashamed to admit he liked. Finally, he let your father go. Waved him away. The other cars honked and drivers cursed. When your father came back in the car, you refused to look at him because he was just like the pigs that waddled in the marshes around the market. Your father looked like nsi. Shit.
After you told him this, he pursed his lips and held your hand and said he understood. You shook your hand free, annoyed, because he thought the world was, or ought to be, full of people like him. You told him there was nothing to understand, it was just the way it was.

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He didn’t eat meat, because he thought it was wrong the way they killed animals. He said they released fear toxins into the animals and the fear toxins made people paranoid. Back home, the meat pieces you ate, when there was meat, were the size of half your finger. But you did not tell him that. You did not tell him either that the dawadawa cubes your mother cooked everything with, because curry and thyme were too expensive, had MSG, was MSG. He said MSG caused cancer, and that was the reason he liked Chang’s—Chang didn’t cook with MSG.
Once, at Chang’s, he told the waiter he lived in Shanghai for a year, that he spoke some Mandarin. The waiter warmed up and told him what soup was best and then asked him, “you have girlfriend in Shanghai?” And he smiled and said nothing.
You lost your appetite, the region beneath your breasts felt clogged inside. That night, you didn’t moan when he was inside you, you bit your lips and pretended that you didn’t come because you knew he would worry. Finally you told him why you were upset, that the Chinese man assumed you could not possibly be his girlfriend, and that he smiled and said nothing
Before he apologized, he gazed at you blankly and you knew that he did not understand.

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He bought you presents and when you objected about the cost, he said he had a trust fund, it was okay. His presents mystified you. A fist-sized ball that you shook to watch snow fall on a tiny house, or a plastic ballerina in pink spinning around on a tiny stage. A shiny rock. An expensive scarf hand-painted in Mexico that you could never wear because of the color. Finally you told him that Third World presents were always useful. The rock, for instance, would work if you could grind things with it, or wear it. He laughed long and hard, but you did not laugh. You realized that in his life, he could buy presents that were just presents and nothing else, nothing useful. When he started to buy you shoes and clothes and books, you asked him not to, you didn’t want any presents at all.
Still, you did not fight. Not really. You argued and then you made up and made love and ran your hands through each other’s hair, his soft and yellow like the swinging tassels of growing corncobs, yours dark and bouncy like the filling of a pillow. You felt safe in his arms, the same safeness you felt back home, in the shantytown house of zinc.
When he got too much sun and his skin turned the color of a ripe watermelon, you kissed portions of his back before you rubbed lotion on it slowly. It was more intimate than sex. You felt involved, yet it was one experience you both could never share. You darkened in the sun but you were too dark to ever get burned.
He found the African store in the Hartford Yellow Pages and drove you there. The store owner, a Ghanaian, asked him if he was African, like the white Kenyans or South Africans and he laughed and said yes, but he’d been in America for a long time, had missed the food of his childhood. You cooked for him; he liked jollof rice but after he ate garri and onugbu soup, he threw up in your sink. You didn’t mind, because now you could cook onugbu soup with meat.
The thing that wrapped itself around your neck, that nearly always choked you before you fell asleep, started to loosen, to let go.

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You knew by people’s reactions that you were abnormal—the way the nasty ones were too nasty and the nice ones too nice. The old white women who muttered and glared at him, the black men who shook their heads at you, the black women whose pitiful eyes bemoaned your lack of self-esteem, your self-loathing. Or the black women who smiled swift, secret solidarity smiles, the black men who tried too hard to forgive you, saying a too-obvious hi to him, the white women who said, “what a good looking pair,” too brightly, too loudly, as though to prove their own tolerance to themselves.
You did not tell him but you wished you were lighter-skinned so they would not stare so much. You thought about your sister back home, about her skin the color of honey, and wished you had come out like her. You wished that again the night you first met his parents. But you did not tell him because he would look solemn and hold your hand and tell you it was your burnished skin color that first attracted him. You didn’t want him to hold your hand and say he understood because again there was nothing to understand, it was just the way things were.
You wished you were light-skinned enough to be mistaken for Puerto-Rican, light-skinned enough so that, in the dim light of the Indian restaurant where you both shared samosas with his parents from a centrally placed tray, you would seem almost like them.
His mother told you she loved your braids, asked if those were real cowries strung through them and what female writers you read. His father asked how similar Indian food was to Nigerian food and teased you about paying when the check came. You looked at them and felt grateful that they did not examine you like an exotic trophy, an ivory tusk.
His mother told you that he had never brought a girl to meet them, except for his High School prom date and he smiled stiffly and held your hand. The tablecloth shielded your clasped hands. He squeezed your hand and you squeezed back and wondered why he was so stiff, why his extra virgin olive-colored eyes darkened as he spoke to his parents. He told you about his issues with his parents later, how they portioned out love like a birthday cake, how they would give him a bigger slice if only he’d go to Law School. You wanted to sympathize. But instead you were angry.
You were angrier when he told he had refused to go up to Canada with them for a week or two, to their summer cottage in the Quebec countryside. They had even asked him to bring you. He showed you pictures of the cottage and you wondered why it was called a cottage because the buildings that big around your neighborhood back home were banks and churches. You dropped a glass and it shattered on the hardwood of his apartment floor and he asked what was wrong and you said nothing, although you thought a lot was wrong. Your worlds were wrong.
Later, in the shower, you started to cry, you watched the water dilute your tears and you didn’t know why you were crying.

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You wrote home finally, when the thing around your neck had almost completely let go. A short letter to your parents and brothers and sisters, slipped in between the crisp dollar bills, and you included your address. You got a reply only days later, by courier. Your mother wrote the letter herself, you knew from the spidery penmanship, from the misspelled words.
Your father was dead, he had slumped over the steering wheel of his taxi. Five months now, she wrote. They had used some of the money you sent to give him a nice funeral. They killed a goat for the guests and buried him in a real coffin, not just planks of wood.
You curled up in bed, pressed your knees tight to your chest and cried. He held you while you cried, smoothed your hair, and offered to go with you, back home to Nigeria. You said no, you needed to go alone. He asked if you would come back and you reminded him that you had a green card and you would lose it if you did not come back in one year. He said you knew what he meant, would you come back, come back?
You turned away and said nothing and when he drove you to the airport, you hugged him tight, clutching to the muscles of his back until your ribs hurt. And you said thank you.