Confissão sobre a nossa língua, Gershom Scholem

* Esta carta, escrita em 26 de dezembro de 1926, foi encontrada por Stéphane Mosès em março de 1985 entre os papéis de Gershom Scholem.

Bekenntnis über unsere Sprache – Gershom Scholem

An Franz Rosenzweig

Dies Land ist ein Vulkan: Es beherbergt die Sprache. Man spricht hier von vielen Dingen, an denen wir scheitern können, man spricht heute mehr als je von den Arabern. Aber unheimlicher als das arabische Volk steht eine andere Drohung vor uns, die das zionistische Unterfangen mit Notwendigkeit heraufbeschworen hat: Was ist es mit der „Aktualisierung“ des Hebräischen? Muss nicht dieser Abgrund einer heiligen Sprache, die in unsere Kinder gesenkt wird, wieder aufbrechen? Freilich, man weiß nicht, was man tut. Man glaubt die Sprache verweltlicht zu haben. Aber das ist ja nicht wahr, die Verweltlichung der Sprache ist ja nur eine façon de parler, eine Phrase. Es ist schlechthin unmöglich, die zum Bersten erfüllten Worte zu entleeren, es sei denn um den Preis der Sprache selbst. Das gespenstische Volapük, das wir hier auf der Gasse sprechen, bezeichnet genau jene ausdrucklose Sprachwelt, in der die „Säkularisierung“ der Sprache möglich, allein möglich werden konnte. Überliefern wir aber unseren Kindern die Sprache, die uns überliefert worden ist, machen wir, das Geschlecht des Übergangs, die Sprache der alten Bücher lebendig in ihnen, so dass sie sich an ihnen neu offenbaren kann – muss denn dann nicht die religiöse Gewalt dieser Sprache eines Tages ausbrechen? Und welches Geschlecht wird dieser Ausbruch finden? Wir leben ja in dieser Sprache über einem Abgrund, fast alle mit der Sicherheit des Blinden, aber werden wir nicht, wir oder die nach uns kommen, hineinstürzen, wenn wir sehen werden. Und niemand weiß, ob das Opfer Einzelner, die in diesem Abgrund zugrunde gehen werden, genügen wird, um ihn zu schließen. Die Schöpfer der neuen Sprachbewegung glaubten blind, bis zur Verbohrtheit, an die Wunderkraft der Sprache, und das war ihr Glück. Kein Sehender hätte den dämonischen Mut aufgebracht, eine Sprache da zu beleben, wo nur ein Esperanto entstehen konnte. Jene gingen, und gehen noch heute, gebannt über den Abgrund, er schwieg, und sie haben ihn, die alten Namen und Sigel, weitergegeben an die Jugend. Nun graust es uns manchmal, wenn aus einer gedankenlosen Rede des Sprechers ein Wort der Religion uns erschrickt. Unheilsschwer ist dies Hebräisch: in seinem jetzigen Zustand kann und wird es nicht bleiben, unsere Kinder haben keine andere Sprache mehr und es [ist] nur wahr zu sagen, dass sie und allein sie die Begegnung werden bezahlen müssen, die wir ihnen, ohne zu fragen, ohne uns selbst zu fragen, verschafft haben werden. Wenn die Sprache sich gegen ihre Sprecher wenden wird – auf Minuten tut sie es schon in unserem Leben, und das sind schwer vergessliche Minuten, in denen sich die Vermessenheit unseres Unterfangens uns offenbart – werden wir dann eine Jugend haben, die im Aufstand einer heiligen Sprache bestehen können wird?

Sprache ist Namen. Im Namen ist die Macht der Sprache beschlossen, ist ihr Abgrund versigelt. Es steht nicht mehr in unserer Hand, die alten Namen tagtäglich zu beschwören, ohne ihre Potenzen wachzurufen. Sie werden erscheinen, denn wir haben sie ja freilich mit großer Gewalt beschworen. Wir freilich sprechen in Rudimenten, wir freilich sprechen eine gespenstische Sprache: in unseren Sätzen gehen die Namen um, in Schriften und Zeitungen spielt der oder jener mit ihnen, und lügt sich oder Gott vor, es habe nichts zu bedeuten und oft springt aus der gespenstischen Schande unserer Sprache die Kraft des Heiligen hervor. Denn die Namen haben ihr Leben und hätten sie es nicht, wehe unseren Kindern, die hoffnungslos der Leere ausgeliefert werden.

Jedes Wort, das nicht eben neu geschaffen wird, sondern aus dem „guten alten“ Schatz entnommen wird, ist zum Bersten voll. Ein Geschlecht, das die fruchtbarste unserer heutigen Traditionen: unsere Sprache, übernimmt, kann nicht und mag es auch tausendfach wollen, ohne Tradition leben. Jener Moment, wo sich die in der Sprache gelagerte Macht entfalten wird, wo das „Gesprochene“ der Inhalt der Sprache, wieder Gestalt annehmen wird, wird jene heilige Tradition wieder als entscheidendes Zeichen vor unser Volk stellen, vor dem es nur die Wahl haben wird: sich zu beugen oder unterzugehen. Gott wird in einer Sprache, in der er tausendfach in unser Leben zurückbeschworen wird, nicht stumm bleiben. Diese unausbleibliche Revolution der Sprache aber, in der die Stimme vernommen wird, ist der einzige Gegenstand, von dem in diesem Lande nicht gesprochen wird, denn die, die die hebräische Sprache zum Leben wieder aufriefen, glaubten nicht an das Gericht, das sie damit über uns beschworen. Möge uns dann nicht der Leichtsinn, der uns auf diesem apokalyptischen Weg geleitet, zum Verderb werden.

Jerusalem, den 7. Teweth 5687

Gerhard Scholem

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Confissão sobre a nossa língua

A Franz Rosenzweig,

Este país é um vulcão: ele encobre a língua. Aqui se fala de muitas coisas nas quais podemos fracassar, fala-se mais hoje do que nunca sobre os árabes. Mas uma ameaça, muito mais assustadora do que o povo árabe, coloca-se diante de nós, invocada com urgência pela empreitada sionista: o que acontece com a “atualização” do Hebraico? Este abismo de uma língua sagrada, que é estreitado sobre nossas crianças, não precisa ser novamente rompido? Evidentemente, ninguém sabe o que está fazendo. Acredita-se que a língua foi secularizada. Mas já isto não é verdade, a secularização de uma língua é uma maneira de dizer, uma frase. Como tal, é impossível esvaziar palavras prestes a explodir e se isto acontecesse seria às custas da própria língua. O Volapuque fantasmagórico que nós falamos aqui nestes becos refere-se exatamente àquele mundo linguístico inexprimível, no qual, apenas lá, a “secularização” da língua seria possível. Transmitamos, no entanto, para nossas crianças a língua que nos foi transmitida, tornemos nós, a geração da transição, viva neles a língua dos velhos livros, de forma que ela possa se revelar de maneira nova para eles – não precisaria, então, irromper um dia a violência religiosa desta língua? E qual geração encontrará esta erupção? Nós vivemos nesta língua sobre um abismo, quase todos com a segurança de um cego, mas nós, ou aqueles que vierem depois de nós, não tropeçaremos para dentro quando pudermos ver? E ninguém sabe se o sacrificado que for para baixo da terra neste abismo bastará para fechá-lo. Os criadores dos novos movimentos linguísticos acreditam cegamente, até o limite da teimosia, na força milagrosa da língua, e esta foi sua sorte. Nenhum visionário teria podido aplicar a coragem demoníaca necessária para reviver uma língua, onde apenas um Esperanto poderia ter surgido. Alguns iam, e vão ainda hoje, enfeitiçados por sobre o abismo; ele se cala, e eles o passaram, os antigos nomes e selos, adiante para a juventude. Então, às vezes, somos estremecidos quando vem nos assustar, de uma conversa irrefletida dos falantes, uma palavra da religião. Este Hebraico é de um peso profano: em sua situação de agora não pode e não ficará, nossas crianças não tem mais nenhuma outra língua e é simplesmente dizer a verdade que elas, e apenas elas, é que terão de pagar o encontro que nós, sem perguntar, sem perguntar a nós mesmos, lhes proporcionamos. Quando a língua se virar contra seus falantes – em alguns momentos ela já o faz em nossas vidas, e são momentos difíceis de esquecer, nos quais se nos revela a presunção do nosso empreendimento – teremos nós, então, uma juventude que conseguirá se sair bem sucedida diante da insurgência de uma língua sagrada?

A língua são nomes. Nos nomes está encerrado o poder da língua, está selado o abismo. Não está mais em nossas mãos, dia após dia, invocar os nomes antigos sem despertar suas potências. Elas aparecerão, pois nós as invocamos livremente com grande violência. Nós falamos livremente em rudimentos, nós falamos livremente uma língua fantasmagórica: em nossas frases as palavras dão voltas, em escritos e jornais brinca esse ou aquele com elas, e mente-se para si mesmo ou para Deus, como se não significasse nada e, frequentemente, salta diante de nós da desonra fantasmagórica da nossa língua a força do sagrado. Pois os nomes tem sua vida e caso não tivessem, ai de nossas crianças, estariam irremediavelmente à mercê do vazio.

Cada palavra que não tiver acabado de ser criada, mas tiver sido tomada do “bom e velho” tesouro, está prestes a explodir. Uma geração que toma a mais frutífera das nossas tradições de hoje, nossa língua, não pode, por mais que deseje mil vezes o contrário, viver sem tradição. Cada momento em que o poder armazenado na língua for liberado, em que o “falado” do conteúdo da língua novamente tomar forma, esta tradição sagrada se colocará novamente como sinal decisivo diante de nosso povo, diante do qual haverá apenas esta escolha: submeter-se ou desaparecer. Deus não permanecerá em silêncio em uma língua em que é invocado milhares de vezes de volta para nossas vidas. Esta inevitável revolução da língua, porém, na qual a voz é ouvida, é o único tema sobre o qual não se ouve nada neste país, pois aqueles que chamaram a língua hebraica de volta à vida, não acreditaram no Juízo que eles juntamente invocam sobre nós. Oxalá a imprudência que nos conduziu a este caminho apocalíptico não leve ao perecimento.

Jerusalém, 7 de Tevet de 5687

Gerhard Scholem