Liubliú / Amo, de Vladimir Maiakovski

liu

Liubliú **

(Amo)

Poema de Vladimir Maiakovski,
Tradução, André Nogueira (2013)

 

** “Todas as homenagens que o poeta rendeu a Lília (em poemas como ‘Lílitchka!’, ‘A Fláuta-Vértebra’, ‘O homem’, ‘Disto’) se resumem numa única palavra que ele transformou no que hoje chamaríamos de poema concreto. Maiakovski fez gravar num anel, que deu a ela de presente, as letras ‘L’, ‘IU’ e ‘B’ – as iniciais do nome completo de sua amada: Lília IÚrieva Brik. Em disposição circular elas formam a palavra LIUBLIÚ (amo)”.

Geralmente é assim

O amor é dado
a todos que vêm ao mundo, –
mas entre encargos,
rendimentos
e tudo,
de um dia para outro,
o coração se amortiza.
Vestimos no coração o corpo
e no corpo a camisa.
Mas ainda é pouco.
Alguém
– um idiota! –
fez mangas compridas
e até cobriu o peito
com o ferro de passar roupa!
Na velhice é que se nota:
por mais que a mulher se maquie
e o homem
no maquinário de Müller
se exercite,
já não tem volta:
o invólucro encheu-se de rugas.
A passadeira dos anos
repugna o amor
balizando botões de flor.

Quando menino

Eu fui feito sob medida para o amor.
É que as pessoas
são trituradas pelo trabalho
desde a infância.
Já eu –
fugia para as margens do Rioni
nem o diabo sabe por que atalho
e ficava na andança.
Mamãe se irritava:
« menino mal-criado! ».
A cinta de papai zunia.
Mas eu
mais rápido prestidigitava
com três rublos falsos
jogando « montes de três »
com os fardados da infantaria.
E eis,
sem o peso das botas
nem o fardo das camisas,
eu a bronzear-me à beira rio.
Virava para o sol estas costas
e esta barriga –
de estômago vazio.
O sol se maravilhava:
« Onde já se viu?
Pudera, com um coração desse tamanho!
Quase que desaba.
Incrível que caiba
em tão pequena criatura
eu,
o cinturão do rio
e mais três verstas de montanhas! »

Juventude

A juventude põe a mão na massa
dos dicionários
para estudar a gramática dos burros
e vilões exibicionistas.
Já eu, expulso do 5º ano do ginásio
fui jogar atrás dos muros
das prisões moscovitas.
No mundinho
de vossos apartamentos
brotam,
no chão de seus cubículos,
montículos de lírica.
O que nela tu tricotas?
Ao mesmo tempo
que a mim estudam
como melhor amar
nos calabouços da Butyrka!
Que saudades terei eu
dos bosques de Bolonha?
Que cultos prestarei eu
à imensidão marinha?
Eis que meu coração, enamorado, sonha
no « escritório de processos sepultos »
da 103ª cela
pelo vão da janelinha.
Muitos olham o sol diário
e desdenham:
« Estes raiozinhos, de que valem? »
Enquanto eu daria o mundo
para que uma desta lebre amarela
que no muro se desenha
me resvale.

Minha universidade

Vocês sabem francês.
Dividem,
multiplicam,
declinam perfeitamente.
Pois declinem!
Me digam: vocês
com os edifícios
sabem cantar?
A língua dos trens vocês compreendem?
Os discípulos
estendem as mãos
somente aos livros
e cadernos de tabuada.
Eu
aprendi o alfabeto nas placas
folheando páginas de ferro e alumínio.
Os mestres
apertam em suas mãos
a terra
arrancando-lhe cascas,
gomos;
mas toda ela não passa
de um globo
em escala.
Eu
de bruços aprendi geografia –
e não foi por acaso: eu dormia
sobre o chão
deitando-me nas tábuas
de mais regular declínio.
A Ilovaiski tortura uma questão:
– Seria mesmo ruiva a barba do Barba-ruiva? –
Não me importa essa burrice de holofotes.
Qualquer história das ruas
para mim é mais digna de nota.
Estudam Boaventuras,
não esquecem de odiar desventurados,
e em patíbulo de nomes consagrados
converteu-se o prestigioso pódio.
Eu
aos gordos
desde a infância aprendi a sentir ódio.
Eu era pobre
e me vendia pelo almoço.
Depois retinirão ideiazinhas
como tostões de cobre
para levar também as moças.
Eu somente com os edifícios me entretinha
e só me respondiam os encanamentos.
À espera do que eu lhes lançasse na orelha
as calhas se esticavam dos telhados.
Depois, uns contra os outros
e todos contra as estrelas,
em línguas que eu lhes tenha alumiado,
estalavam cata-ventos.

Quando adulto

Adultos têm negócios a tratar.
E dinheiro no bolso.
Amar?
Pode ser arranjado
por cem rublos.
Enquanto eu meto
as mãos nos bolsos furados
e, sem-teto, perambulo.
Noite. É hora
de vestir o melhor terno.
E descansar a alma
nos braços
das esposas ou viúvas.
Enquanto a mim
em abraços de rotatória
Moscou me estrangula
em suas inúmeras praças!
O tic-tac que têm as gurias
nos corações e reloginhos,
da cabeceira do leito
têm, os seus amantes,
o toc-toc.
Das capitais
a selvagem taquicardia amei eu
deitado num coreto apaixonante!
Coloco o coração para fora
e me abro
para o sol e as poças d’ água.
Penetrai-me como os apaixonados!
Ensopai-me como os transbordos de amor!
A partir de agora
não mais serei, do meu coração, governador.
Lá dentro do peito
na casinha do cuco
dos outros eu sei o coração onde se acha.
Mas comigo
a anatomia ficou maluca –
sou totalmente um só coração
apitando de cima a baixo!
A quantos deles
nessas vinte primaveras
consumiram brasas quentes?
Renunciar ao porte deste fardo
não se pode,
mesmo que ele seja insuportável.
Insuportável não assim,
como num verso,
e sim literalmente.

No que deu

Mais que a rigor
menos que a rodo –
como um sonhador de poesia
que ainda dorme
perdido a quadras do bom-senso –
no coração um caroço
foi crescendo, até ficar enorme –
um enorme amor,
um enorme ódio.
Sob o peso, eu cedo
e as pernas se desviam
para uma duvidosa direção.
Tu sabes, sou vigoroso;
mesmo assim, me apóio
– eu, um apêndice do coração! –
em tensas vigas do esqueleto.
Encho-me com leite de versos
– e não derramo
(não tem saída conveniente) –
e por isso continuo inflando.
Estou enfartado de lírica –
esta ama do universo
que amamenta hiperbolicamente
e que criou
todos os personagens de Maupassant.

Eu clamo

Levanto, custe o que for.
Agarro, igual um acrobata.
Como a sirene na aldeia
repercute
com o incêndio que a consome;
como em tempos de eleições
trombeteiam os comícios;
desse jeito é que arrebata-me o clamor:
« Ei-lo! Ei-lo!
Tomem-no! »
As damas, sem olhar
o misto de sujeira e neve,
tão logo assim vim apitando,
zarparam como um míssil:
« Para nós algo mais leve!
Para nós, passos de tango… »
É difícil arcar com esta barra
e arco com ela.
Longe gostaria de lançá-la
mas não:
as barricadas não contêm
o carrilhão das costelas;
a jaula do peito estala
com tamanha percussão.

Tu

Chegaste perto
do tamanhão
do rugido
e certeiramente
ao mirar
tu simplesmente viste a um menino.
Pegaste do peito aberto
o coração
removido
e simplesmente
foste jogar
como uma menina com sua bola.
Avassaladora, como fosses dum domínio
miraculoso,
tu deixaste estarrecidas
senhoritas e senhoras:
« Como ousa amar aquilo?
Vai devorá-la!
É, decerto, domadora
sim, decerto, de animais! »
E eu rejubilo:
aquela vida de vassalo – nunca mais!
De alegria, ao despedir o coração
saltei pela argola
nem sequer apercebendo.
Tão leve me sentia, galopava
como um índio
liberado de um grilhão
por um anel de casamento.

Impossível

Sozinho não posso
carregar um fortepiano
(menos ainda
um caixa-forte).
E, se um caixa-forte não posso
nem um fortepiano,
de que jeito poderia
carregar meu coração, se o retomasse?
« Se não há bolso que suporte,
os muito ricos
guardam-no num cofre » –
os banqueiros já resolvem o impasse.
Em ti o amor
– como uma riqueza blindada pelo ferro –
eu encerro
e sigo os meus passos, como o rei mais rico.
Se preciso for
retiro um sorriso,
meio sorriso
ou menos que isso
e, destilando com os outros
numa meia-noite de farra
corrosivo, escarro
quinze rublos de troco lírico.

E assim me aconteceu:

Os navios para o porto navegam;
os trens trafegam para as estações.
Assim eu, tão mais depressa
– afinal, eu amo! –
para ti, minha desembocadura, sou entregue.
O cavaleiro avaro de Puchkin,
adorando seu ouro no porão,
cava e enterra.
Assim eu
para ti, amor, regresso.
Meu coração aí está
e minha adoração é essa.
Ao regressar à casa
já estamos mais contentes –
nos lavamos, fazemos a barba.
Assim eu
para ti regresso –
acaso, para ti indo
não estou voltando para casa?
São, as criaturas terrestres,
de volta recolhidas para a terra;
é infalível progredirmos para lá
onde tudo começa.
Assim eu
por ti
sou tragado continuamente –
mal nos separamos
é em ti que se acaba.

Conclusão

O amor não me lavarão
nem lonjuras
nem desentendimentos.
Em auto-evidente
testemunho e testamento
levanto, solene, este verso
escrito nas linhas da mão
e juro –
amo,
inadulterável e fidelmente.

Novembro de 1921 – fevereiro de 1922.

Люблю

    Обыкновенно так

Любовь любому рожденному дадена,—
но между служб,
доходов
и прочего
со дня на день
очерствевает сердечная почва.
На сердце тело надето,
на тело — рубаха.
Но и этого мало!
Один —
идиот!—
манжеты наделал
и груди стал заливать крахмалом.
Под старость спохватятся.
Женщина мажется.
Мужчина по Мюллеру мельницей машется.
Но поздно.
Морщинами множится кожица.
Любовь поцветет,
поцветет —
и скукожится.

Мальчишкой

Я в меру любовью был одаренный.
Но с детства
людьё
трудами муштровано.
А я —
убег на берег Риона
и шлялся,
ни чёрта не делая ровно.
Сердилась мама:
«Мальчишка паршивый!»
Грозился папаша поясом выстегать.
А я,
разживясь трехрублевкой фальшивой,
играл с солдатьём под забором в «три листика».
Без груза рубах,
без башмачного груза
жарился в кутаисском зное.
Вворачивал солнцу то спину,
то пузо —
пока под ложечкой не заноет.
Дивилось солнце:
«Чуть виден весь-то!
А тоже —
с сердечком.
Старается малым!
Откуда
в этом
в аршине
место —
и мне,
и реке,
и стовёрстым скалам?!»

Юношей

Юношеству занятий масса.
Грамматикам учим дурней и дур мы.
Меня ж
из 5-го вышибли класса.
Пошли швырять в московские тюрьмы.
В вашем
квартирном
маленьком мирике
для спален растут кучерявые лирики.
Что выищешь в этих болоночьих лириках?!
Меня вот
любить
учили
в Бутырках.
Что мне тоска о Булонском лесе?!
Что мне вздох от видов на море?!
Я вот
в «Бюро похоронных процессий»
влюбился
в глазок 103 камеры.
Глядят ежедневное солнце,
зазнаются.
«Чего, мол, стоют лучёнышки эти?»
А я
за стенного
за желтого зайца
отдал тогда бы — всё на свете.

Мой университет

Французский знаете.
Делите.
Множите.
Склоняете чудно.
Ну и склоняйте!
Скажите —
а с домом спеться
можете?
Язык трамвайский вы понимаете?
Птенец человечий
чуть только вывелся —
за книжки рукой,
за тетрадные дести.
А я обучался азбуке с вывесок,
листая страницы железа и жести.
Землю возьмут,
обкорнав,
ободрав ее,—
учат.
И вся она — с крохотный глобус.
А я
боками учил географию,—
недаром же
наземь
ночёвкой хлопаюсь!
Мутят Иловайских больные вопросы:
— Была ль рыжа борода Барбароссы?—
Пускай!
Не копаюсь в пропыленном вздоре я —
любая в Москве мне известна история!
Берут Добролюбова (чтоб зло ненавидеть),—
фамилья ж против,
скулит родовая.
Я
жирных
с детства привык ненавидеть,
всегда себя
за обед продавая.
Научатся,
сядут —
чтоб нравиться даме,
мыслишки звякают лбёнками медненькими.
А я
говорил
с одними домами.
Одни водокачки мне собеседниками.
Окном слуховым внимательно слушая,
ловили крыши — что брошу в уши я.
А после
о ночи
и друг о друге
трещали,
язык ворочая — флюгер.

Взрослое

У взрослых дела.
В рублях карманы.
Любить?
Пожалуйста!
Рубликов за сто.
А я,
бездомный,
ручищa
в рваный
в карман засунул
и шлялся, глазастый.
Ночь.
Надеваете лучшее платье.
Душой отдыхаете на женах, на вдовах.
Меня
Москва душила в объятьях
кольцом своих бесконечных Садовых.
В сердца,
в часишки
любовницы тикают.
В восторге партнеры любовного ложа.
Столиц сердцебиение дикое
ловил я,
Страстною площадью лёжа.
Враспашку —
сердце почти что снаружи —
себя открываю и солнцу и луже.
Входите страстями!
Любовями влазьте!
Отныне я сердцем править не властен.
У прочих знаю сердца дом я.
Оно в груди — любому известно!
На мне ж
с ума сошла анатомия.
Сплошное сердце —
гудит повсеместно.
О, сколько их,
одних только вёсен,
за 20 лет в распалённого ввалено!
Их груз нерастраченный — просто несносен.
Несносен не так,
для стиха,
а буквально.

Что вышло

Больше чем можно,
больше чем надо —
будто
поэтовым бредом во сне навис —
комок сердечный разросся громадой:
громада любовь,
громада ненависть.
Под ношей
ноги
шагали шатко —
ты знаешь,
я же
ладно слажен,—
и всё же
тащусь сердечным придатком,
плеч подгибая косую сажень.
Взбухаю стихов молоком
— и не вылиться —
некуда, кажется — полнится заново.
Я вытомлен лирикой —
мира кормилица,
гипербола
праобраза Мопассанова.

Зову

Поднял силачом,
понес акробатом.
Как избирателей сзывают на митинг,
как сёла
в пожар
созывают набатом —
я звал:
«А вот оно!
Вот!
Возьмите!»
Когда
такая махина ахала —
не глядя,
пылью,
грязью,
сугробом,—
дамьё
от меня
ракетой шарахалось:
«Нам чтобы поменьше,
нам вроде танго бы…»
Нести не могу —
и несу мою ношу.
Хочу ее бросить —
и знаю,
не брошу!
Распора не сдержат рёбровы дуги.
Грудная клетка трещала с натуги.

Ты

Пришла —
деловито,
за рыком,
за ростом,
взглянув,
разглядела просто мальчика.
Взяла,
отобрала сердце
и просто
пошла играть —
как девочка мячиком.
И каждая —
чудо будто видится —
где дама вкопалась,
а где девица.
«Такого любить?
Да этакий ринется!
Должно, укротительница.
Должно, из зверинца!»
А я ликую.
Нет его —
ига!
От радости себя не помня,
скакал,
индейцем свадебным прыгал,
так было весело,
было легко мне.

Невозможно

Один не смогу —
не снесу рояля
(тем более —
несгораемый шкаф).
А если не шкаф,
не рояль,
то я ли
сердце снес бы, обратно взяв.
Банкиры знают:
«Богаты без края мы.
Карманов не хватит —
кладем в несгораемый».
Любовь
в тебя —
богатством в железо —
запрятал,
хожу
и радуюсь Крезом.
И разве,
если захочется очень,
улыбку возьму,
пол-улыбки
и мельче,
с другими кутя,
протрачу в полночи
рублей пятнадцать лирической мелочи.

Так и со мной

Флоты — и то стекаются в гавани.
Поезд — и то к вокзалу гонит.
Ну а меня к тебе и подавней —
я же люблю!—
тянет и клонит.
Скупой спускается пушкинский рыцарь
подвалом своим любоваться и рыться.
Так я
к тебе возвращаюсь, любимая.
Мое это сердце,
любуюсь моим я.
Домой возвращаетесь радостно.
Грязь вы
с себя соскребаете, бреясь и моясь.
Так я
к тебе возвращаюсь,—
разве,
к тебе идя,
не иду домой я?!
Земных принимает земное лоно.
К конечной мы возвращаемся цели.
Так я
к тебе
тянусь неуклонно,
еле расстались,
развиделись еле.

Вывод

Не смоют любовь
ни ссоры,
ни вёрсты.
Продумана,
выверена,
проверена.
Подъемля торжественно стих строкопёрстый,
клянусь —
люблю
неизменно и верно!

Ноябрь 1921 — февраль 1922


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Uma Nuvem de Calças, Vladimir Maiakovski

Poet Vladimir Mayakovsky, 1929...BPAXTR Poet Vladimir Mayakovsky, 1929
UMA NUVEM DE CALÇAS

Vladimir Maiakovski

tradução*, André Nogueira (2012)

1 ‘“Começou a trabalhar neste poema em 1914. Na autobiografia “Eu mesmo” Maiakovski diz: “Começo de 1914. Sinto que tenho maestria. Posso acertar o tema. Na mosca. Fico a perguntar sobre o tema, sobre a revolução. Reflito na ‘Nuvem de calças’’. Termina em 1915, em Kuokkala (arredores de Moscou): “Vagueio pela praia. Escrevo a Nuvem. Fortalece-me a consciência da proximidade da revolução” Maiakovski recorda [em 1930]: “Primeiramente chamava-se ‘O Décimo Terceiro Apóstolo’. Quando compareci para a censura, disseram: ‘Qual é? Está querendo ir para os trabalhos forçados?’. Respondi que de jeito nenhum me convinha. Então riscaram-me seis páginas, inclusive aquele título e seu numeral. Perguntei por que confiscar logo o título, ao que disseram: ‘Como consegue misturar lírica e tanta grosseria?’. Eu lhes disse: ‘Está bem! Eu serei, se vocês querem, igual carne raivosa, se vocês querem, serei tão tenro – não homem, mas uma nuvem de calças!’’ (…) Na coletânea e no jornal [onde saíram alguns fragmentos do prólogo e da 4ª parte] chamou-se “Uma Tragédia”, até que Maiakovski por fim lhe deu o nome de “Tetráptico” (composição em quatro partes). (…) “A Nuvem saiu muito branquinha. A censura soprou nela. Seis páginas só de pontos. Daí provém o meu ódio aos pontos. E às vírgulas também” (“Eu mesmo”). (…) Estavam apreendidas palavras em destacado: “Mãe de Deus”, “Evangelho”, “Apóstolo”, “Jesus Cristo”, “Senhor Deus” (…) Depois de caída a monarquia Maiakovski o reeditou no jornal Novi Satyricon, n.11, 17 de março de 1917, incluindo os trechos proibidos das 2ª  e 3ª partes subintitulados “Restauração”, mediante seguinte prefácio: “Meu livro, Uma Nuvem de Calças, foi condenado à censura por originalmente chamar-se ‘O Décimo Terceiro Apóstolo’. (…) Eu o considero um catecismo para a arte atual; ‘abaixo vosso amor!’, ‘abaixo vossa arte!’, ‘abaixo vosso regime!’, ‘abaixo vossa religião!’ – são os quatro gritos das quatro partes.

TETRÁPTICO

(Prelúdio)

O vosso pensamento,
meditabundo no miolo mole,
igual a um lacaio gordo largado no estofado sujismundo,
eu vou chicotear, com um farrapo do ensangüentado coração
até, de tanto rir, que eu role e degringole
vagabundo e borrachão.

Minha alma não tem um só fio de cabelo branco
e muito menos a ternura das vovós.
O mundo eu absurdo
enquanto proclamo
o poder da minha voz
e, lindo, desfilo
no alto dos meus vinte e dois anos.

Os tenros!
O amor ao violino vós deitais.
Os brutos o deitam no bumbo.
Não podeis desrosquear igual eu faço,
ininterruptos lábios serdes, nada mais?

Venham aprender comigo –
das salas de visita, as que se vestem com rendinhas
e da liga angelical, as mais prendadas funcionárias.
E aquela, folhando lábios, que mitiga
igual a chefe de cozinha
a um livro de receitas culinárias.

Se vocês querem,
eu serei carne raivosa
– e, como o céu, com mil nuances e realces –
Se vocês querem,
eu serei de uma ternura impecável,
não homem, mas – uma nuvem de calças!
Não creio que exista
uma Nice de rosas
e cravos.

Comigo de novo tamborilarão
os homens, largados, como macas de hospitais
e as mulheres, gastadas, como palavras proverbiais.

1.

Vocês pensam
que isto é um delírio de malária?

Isto aconteceu,
aconteceu foi em Odessa.

“Chego às quatro”, – Maria falara.

Oito.
Nove.
Dez.

E eis que anoiteceu
e atravessa
a janela do quarto
um uivo
esgueirando-se do breu
e um macabro trotar de pés de cabra.
Dos ombros recurvos
relincham de rir candelabros.

Quem poderia imaginar?
Quase ele chora, torcendo
a tencionada imensidão.
Qual intenção que uma rocha dessas poderá?
Mas esta rocha está é cheia de tesão!

Não se arroga de ser badalado
este, feito de bronze
o coração de ferro frio.
Quando às onze cai a escuridão
quero guardar este badalo
em lugar tenro e feminil.

E eis, imenso
e corcovado na fenestra,
o vidro eu fundo com a testa.
Será amor ou não? Eu penso:
e de que tipo? – grande, minúsculo?
Grande de que jeito, tanto músculo que tenho?
Terá de ser pequeno, um amorzinho dócil.
Ela se assusta com buzinas de automóvel,
mas tem gosto
em ouvir sininhos no rodar de um carrossel.

Eu aguardo, enquanto a chuva cai do céu
catapultando gotas d’ água,
cataporas do seu rosto no meu rosto.
E ei-la, a meia-noite:
capturou,
decapitou
a espada de um último segundo.

Igual do cepo uma cabeça decepada
despencou a hora décimo segunda.

As gotas cinza na vidraça
que vidram
em caretas de derrame,
como uivo vindo de fantasmas
da Catedral de Notre Dame.

Maldita!
Então não basta disso tudo?
Logo a boca soltará um grito.

Escuto:
como um doente que salta do leito,
um nervo levantou-se sonolento.
E eis que, bambo, deu de andar
e logo ousa, bam bam bam, acelerar.
Enervado, contável,
já um terço deles se conter-se
arrasta em celerado tchá tchá tchá.

Desandou no andar debaixo a argamassa.

Grandes, pequenos –
pelo menos cem.
A raiva mostra seus efeitos:
bamboleiam e, mais dois passos –
bambeiam os braços também.

O olho pesado
não se afunda nesse pântano de sono,
a noite a se infiltrar pelos batentes.
Súbito, retinem as portas
como se todo o hotel batesse os dentes.

Tu entras
torcendo as luvas de camurça
como o mais gélido dos ventos
assoprando em baideirolas com balbúcie.
E dizes: “Vou casar-me”.

Pois case. Quem se importa?
Eu não ligo, e não vou nunca te ligar.
Estou tranqüilo, e muito.
Como o pulso
de um defunto
a desatar de suas carnes.

Lembras?
Dizias assim –
“Jack London, charme,
dinheiro e paixão”.
E eu, que só via a ti, Gioconda
a qual se podia furtar.

E furtaram então.

Mais uma vez malabarista neste jogo
vou arder na labareda enamorado.
Pois bem, eu me acostumo:
foi a casa consumida pelo fogo
e ainda há desabrigados vagabundos
os quais nela têm morado.

Tu atiças? “Estas tuas
esmeraldas de loucura
valem menos
que uns trocados que não tens”.
Te cuida: esse teu “vale” soterrando
o Vesúvio dá o troco
se Pompéia desavém.

Ei, senhores!
Diletantes do delito,
sacrílegos,
surrupiadores de dízimos –
vocês já viram algo tão aterrador
quanto
o rosto meu
quando
eu
estando
assim tranqüilo, tranqüilíssimo?

E sinto – eu em mim
já não me basto – bestas minhas
que se alastram.
E quem liga? … Alô??
Mamãe?
Mamãe!
Teu filho tem a mais esplêndida das febres.
Mamãe!
O coração com um incêndio me sufoca.
Diga às irmãs, Liúdia e Olga:
sou agora como a lebre
que perdeu a sua toca.

Cada versículo, versando uma lorota,
pula – do prostíbulo pelando
a toda pelada puta –
pela boca crepitante que o enxota.

Já o povo sente o cheio
que exata, de fritura.
Resgatar alguma coisa vão,
ou coisa alguma.
Capacete!
É proibido entrar de botas!

Digam isso aos bombeiros:
ao coração mais cálido de todos
só com carícias se escala.
Arregala-se o olho da cara
como o tonel do caminhão-pipa.
Tenta nas costelas sustentar…
Vou saltar! Vou saltar! Vou saltar!
E desabam-se elas –
do coração não te chispas.

Dos lábios cavernosos
um beijinho sujo de carvão
espiralou até o rosto que chamusca.

Mamãe!
Cantar não posso.
Na igrejinha do coração
todo um coral entoa música.

Centelhas figuras de números e nomes
despencam do meu crânio
como, do arranha-céus que fulgura,
toda uma prole cai, infanta.
Assim o medo
de agarrar-se ao céu
vai a pino, quando
do “Lusitânia” em brasas
os braços se levantam.
Para essa gente que treme
à parte, no silêncio dos apartamentos,
já um clarão de olhos cêntuplos explode do cais.
Grito último, –
tu, pelo menos, vai dizer
que eu ardo é pelo século dos levantes!

2.

Glorificai-me!
Não sirvo de par nem para os grandes.
Sobre tudo que se faz antes de mim
eu estaco o meu “nihil”.

Eu nunca quero ler a coisa alguma.
Livros?
Para a suma flatulência que os pariu.

Eu antes pensava
que os livros são feitos assim:
chegava o poeta
e à guisa da boca de favas aberta
já logo se punha a cantar
provincianas, inspiradas palavras.
Aí veio a descoberta:
antes de pôr-se a cantar
o poeta torce os punhos, longamente
andando pra lá e pra cá
e já não pode respirar
no entupido coração de lamaçal
da imaginação o estúpido peixe beta.
Logo ferve num guisado à provençal
qualquer sopa de rimas, rouxinóis e donzelas…
Vem ver, que a rua murmura, analfabeta –
não há que conversar ou levantar a voz a ela.

Da cidade as babilônicas torres,
cheios de vanglória,
outra vez nós soerguemos
e, rastelando as migalhas do castelo,
Deus dá termo embaralhando os termos.

Sem reclamar, a rua arrastava seu calvário,
até que o grito em pé saltou da epiglote.
Porém se aglomeraram,
socados goela adentro em transversal
roliços taxis e ossudas passarelas,
a apitar perambulâncias pelo tórax
e a perda foi total.

A cidade catarra
e não resgata o guincho
interditado pelo piche.
E quando, apesar de tudo isso, expectora
empurrando ao campanário da garganta a arruaça,
a turba, dizem, cuspindo-a na praça,
com seus coros de arcanjos,
p da vida, Deus castiga!

E, em posição, a urbe disse:
“A hora é chegada
de enchermos a barriga!”

A cidade é nestes termos descrita
pelos Krupp e sua trupe,
supercílios termômetros da ameaça.
Falências de palavras decompõe-se
igual cadáveres
que a boca mal mastiga –
duas delas vivem, apenas
e cada vez mais gordas: “miserável”
e “sopa”, ou qualquer coisa parecida.

Os poetas, desfalecidos
ensopados com o pranto e o soluço,
escapuliram-se da rua
desfazendo o penteado:
“Como, usando deste duo, cantaremos
as dondocas,
o amor
e as florezinhas ao sereno?”

E saem atrás dos poetas
mercadores,
estudantes,
prostitutas.

Senhores!
Esperem  um instante!
Reflitam por um minuto!
Vós sois mendigos, por acaso?
Vós viverdes de esmola ou de favores?

Vós, estirpe de sadios,
com passadas espaçadas,
já não tendes de escutar, mas extirpar o mal –
os malas, carrapatos de suplementos gratuitos
agarrados a toda e cada cama de casal.

Acaso a eles pediremos servilmente
“Acudam-nos!”, dobrando a cervical
rogando hinos, oratórios?
Vós mesmos sois os criadores
ao reger ardentes hinos, estes:
a fragor das fábricas e laboratórios!

Que tenho eu com o fantástico Fausto
em foguetões de artifício
deslizando com Mefistófeles no palanquete?
Eu sei –
o prego no meu sapato
é mais terrífico
que a imaginação de Goethe!

Eu,
crisostomíssimo,
que crio com palavras o efeito
de recém-nascer a alma
afeita ao corpo que a agasalha,
digo-vos:
o átomo mais ínfimo de vida
vale mais e é mais digno
do que todos meus trabalhos!

Escutai
meus lábios que, gritantes, se despregam.
O Zaratustra dos dias atuais
é quem vos prega.
Vós,
que nas cancrópolis vegetam
entre jóias e dejetos!
Vós,
de faces, dependuradas, como lençóis,
de lábios, dependurados, como lustres!
Vós, mas ilustres sois
do que o azul veneziano
após lavado por cem sóis,
cem oceanos.

Eu me lixo que não haja
em Ovídio, em Homero,
gente igual a gente,
a fuça esfumaçada já tomada de bexiga.
Eu duvido que o sol, vendo as nossas almas
cheias de valiosíssimos minérios,
não se extinga.

Músculos, tendões, ao invés de orações
cheias de sofreguidão!
Ora, vós, os proletários, implorando
por menos coléricos futuros?
Vós tendes o guidão em vossas mãos,
entre o dedão e o dedinho sustentando
o cabo teleférico dos mundos!

A mim vieram auditórios do Gólgota:
Odessa, Kiev, Petrogrado, Moscou,
e não houve um só que não gritasse:
“Pregai-o,
pregai-o na cruz!”
Mas as pessoas,
até mesmo a gente ingrata e retrógrada
que pronto me ultrajou,
são elas, sobre todas as coisas,
os meios raios
de luz.

Viram o cão
como lambe a mão que o socou?!

Rindo-me da raça de hoje,
como fosse uma escabrosa e cômica anedota,
eu, sobre o cume da montanha, tenho em vista
os dias do futuro que não vês.
O vosso olho não enxerga assim tão longe
sobre a onda virulenta
dos famintos e sonâmbulos,
mas eu vejo à frente de vocês,
no topo dessa crista,
uma coroa de galhos espinhentos
a revolução deitar-lhe em mil novecentos
e dezesseis.

Eu sou convosco.
Eu, seu precursor, convoco-vos.
Onde haja dor, eu doo.
Na cruz eu me coloco
onde quer que a lágrima goteje de uma bilha.
Nunca mais a coisa alguma se perdoe.
Eu passo a foice em toda alma
onde brotou o milharal de uma ternura.
E esse passo
é uma batalha dura
mais difícil que milhares de Bastilhas.

E quando ela chegar,
a anunciada insurreição,
aprochegai para ouvir a salva salvadora –
eu saco a minha alma para vós
e, para que seja maior,
em minhas mãos esmagarei-a
e ensangüentada dou-a
como fosse uma bandeira.

3.

Ah!
Para quê isso?
E de onde virá isso?
Agitar os punhos sujos
para os fúlgidos destroços da explosão!

Surgiu
e mutila o coração
só de lembrar que o internato
está sempre disponível
para quem quer ser maluco
com total convicção.

E –
com o espasmo de um espírito eletrocutado
a pular pela escotilha do encouraçado
que afunda, crepitando-se no fogo –
sobre todos, eclodindo o olho no gogó, ele galgou:
o enlouquecido Burliúk.
Quase estatelou a jugular do século
pisando-os na nunca contra o chão,
e escalou,
ergueu-se
e de pé, de modo inesperadamente terno
em se tratando de um gordo,
ele pegou e disse:
“Isso é bom!”

Isso é bom, ao mesmo tempo
em que oprimida sob a blusa amarela
é preciso a alma esconder do oficial.
Isso é bom, ao mesmo tempo
em que aquele se esgoela
enquanto sobe ao cadafalso:
“Beba Van Guten Cacau!”

E, estridente de sabre,
este segundo fatal
eu não trocaria por…
eu não trocaria nem…

Mas da fumaça de cigarro
e do pigarro de licor
já se esticou a face
do ébrio Severianine.

Como pode? Tanto brio
denominar-se de poeta
e, mole como um colibri,
chilrar!
Hoje
necessita
na marreta
a moleira deste mundo arrebentar!

Vocês, de bento pensamento,
só pensam: “É de gala, nesta valsa,
este passo?”
Arre! Vejam como, galinhão, eu me divirto
sem virtude, e virtuose cafetão
num jogo destes de trapaça.

De vocês arredo o pé,
bodas do século de ouro
que de lágrimas regados.
Eu, o sol como monóculo
coloco-o
no olho arregalado.

Inverossimilmente trajado,
viajando pelo mundo
ofertarei o meu verão.
E, adiante, como a um poodle,
em rédeas curtas guiarei Napoleão.

Toda a terra tremerá
como uma mulher querendo dar,
as carnes sacudindo.
As coisas bailarão,
os lábios delas em sussurro:
“Lindo, lindo, lindo!”

Até que, de repente, um urro
e em toda a extensão nublada
levantou-se a turbulência
como, sublevados contra o céu,
de todo o mundo os operários
declarando greve em escarcéu.

Soa o trovão, se endireita
por um segundo segurando-se
o rosto celeste a se crispar,
as narinas dilatadas assoa
e vira o cão:
a carranca de lata do Bismark.

E alguém
que embrenha o braço pela bruma
faz menção para o café –
é suave igual a pluma,
tenro como uma mulher,
qual um fuzil engatilhado.

Vocês pensam
que isso é um gentil raio ensolarado
puxando a alça da xícara de café?
É, de novo, a metralhar os sublevados
o general Galifet!

Descruzem, transeuntes, os braços!
Peguem a pedra, a faca ou a granada!
E quem não tiver braços
venha dar que seja cabeçadas!

Vocês, talher em mãos
sem nada que espetar no prato
e ainda carcomidos pelas pulgas!
Esfomeados, esfumaçados, esfarrapados,
saiam já das espeluncas para as ruas!

De sangue ressacadas, declarem
segunda e terça-feira, feriados.
No corte da facada, a terra inteira
se recorde
daqueles que ela quis ver rebaixados.

A terra, gorda e humilde
igual aquela amante, depois que a largou
Rotschild.

Os estandartes tremulem no tiroteio
a cada fanfarra, nos dias desta grande festa,
que desfile pela pista.
As carcaças, lá no alto, hasteiem,
postes de luz, em suas setas
sujas de sangue capitalista!

Xinguei,
abri a matraca,
carquei a faca,
subi atrás de alguém morder
o músculo do ombro inimigo.

No céu, rubro-Marselhesa, até morrer
o crepúsculo, para a sombra, míngua
até quando eu enlouqueça
e não sobrar mais pedra sobre pedra.
A noite ronda, encontra, quebra
e morde.
Olhai –
o céu, mais uma vez, tramando a morte,
como Judas, que trai
estrelas trazendo na concha das mãos!
Ela chegou, como Mamai,
assentando o seu traseiro no urbano cinturão.
Esta noite, negra como Azef,
olho algum agüenta olhá-la.

Num canto de taberna me encolho
em vinho aguando a alma e a toalha,
e vejo: do canto, olhando-me no olho
e envolvida no seu manto,
Santa Maria me dardeja.

A quem, a auréola pela moldura vulgar,
a esta galera da taberna, divulgarás?
Olha – como antes, agora
ao eterno benfazejo
que sempre ao Gólgota retorna,
eles preferem Barrabás!

Eu, talvez, meio ao amálgama humano
o rosto meu cobrindo esteja.
E eu, talvez, de todos filhos seus,
o mais bendito seja.

A eles,
estragados pelo prazer,
dai, de pronto, a hora grave
para que as crianças,
quando estiverem prontas,
venham a ser
os garotos – pais,
as garotas – grávidas.

Para que sejam grandes e professos,
como as brancas cabeleiras dos reis magos,
os novos rebentos desta prole;
para que sejam, pelos nomes dos meus versos,
batizados, Santa, olhe.

Eu, que idolatro
as máquinas e a Inglaterra, aposto:
neste, de hábito, evangelho, sou
o décimo terceiro apóstolo.

E quando minha voz,
hora após hora
e dias após, vir expirar
de tanta ofensiva,
talvez venha, Jesus Cristo, farejar
a minha alma inesquecível.

4.

Maria! Maria! Maria!
Deixa entrar, Maria, deixa!
Não posso dormir na rua.
Não queres que assim seja?
Tu desejas
com o arreganho das covinhas nas bochechas,
provado por todos, já sem gosto,
que eu chegue e, desdentado, gagueje:
“Eu sou hoje
de pureza à toda prova”?

Maria, veja:
em mim já surge uma corcova!

Na rua, uns olhinhos despontam
pregados do quadragésimo mal-dormido ano,
quando o povo dá com a britadeira na gordura.
E, chegando ao quarto andar de uma papada,
ainda por cima tiram uma onda
que, outra vez, sujando a dentadura,
há farelos das carícias ontem consagradas.

Ave, carpideira das calçadas!
É a chuva, lacônica, que se antecipa.
Ela lambe o cadáver da cidade,
oprimido como um paralelepípedo.
E, das grisalhas sobrancelhas –
sim! – como goteiras,
lágrima dos olhos –
sim! – dos olhos paralapsos
dos encanamentos com goteiras.

A tromba da água
suga adentro os transeuntes…
Nas corpulentas carruagens
que os ginastas de gordura se besuntem
e a gente, de tão gorda, se arrebente
até, da dobradiça, a banha que ressumbre
igual, da carruagem, riacho barrento
e, junto aos pãezinhos sem fermento,
a dobradinha de costume.

Maria, me diga:
como, nesta orelha gordurenta, enfiaremos
uma palavra gentil?

A avezinha,
desfiando cançõezinhas cor-de-rosa,
se embebeda numa fonte de piu-pius
como uma fome disfarçada de quaresma.
E eu, Maria, um homem
que não presta,
escarro da estrela tuberculosa
na concha das mãos da via Présnia.

Maria, um tipo desse quererás?
Maria, desce!
Os dedos convulsos, vou apertá-los
na garganta de latão da campainha!

Maria!

Na rua, o mato alto segue a lei do “matarás”
e, no pescoço, o vulto dos dedos
da dileta companhia.

Maria, dói!

Igual dente-de-leão, estoura
e, nas meninas dos olhos, alfinetes
do chapéu de uma senhora!

Já estou dentro!

Meu tesouro!
Não te assustes,
em minha nuca de touro,
a cordilheira chuvosa
de mulheres que se sentam!
Isto pela vida se armazena:
milhões de grandes companhias,
puras, limpas, como a sua
e, milhões vezes milhões, de pequenas
companheiras
que suam.
Não te assustes
que, outra vez, com a intempérie da traição
eu tenha meu consolo
nos rostos dessas tão lindas meninas:
“As amantes de Maiakovski”.
Esta série, no coração deste louco,
é uma nobre dinastia
de entronadas tzarinas.

Maria, sói!

Dá-me o sésamo dos lábios
de tesão despido
ou de terror, o arrepio.
É que meu coração
jamais chegou a maio
mas, a vida vivida,
um só centésimo abril.

Maria!
O poeta pia
supersticiosamente
seus sonetos a Tiana.
E eu,
como os cristãos conjugam:
“Dai-nos hoje
o pão de cada dia”,
cônjuge supérstite,
inteiro carne humana.

Maria, dai!

Maria!
Receio esquecer o nome teu
como o poeta receia
esquecer de Deus na santa ceia.

Maria, sai!

O corpo teu
vou amá-lo
e cuidá-lo tão bem
quanto um soldado
mutilado pela guerra,
inútil,
sem ninguém,
cuida
de sua única perna!

Maria!
Não queres?
Sim?

Não queres!

Que assim seja –
como o cão
a arrastar para a casinha
a pata atropelada pelo trem,
arrastarei o coração
que lágrimas goteja,
arrasado, outra vez, amém.

As pétalas grudam em minha bata
com o sangue que atapeta a pista.
Mil vezes dançará o sol
em volta da terra
como Salomé
em volta
da cabeça de João Batista.

Dançai
os anos de minha carne
para o fim
e guiai-me para a casa de meu Pai
por um mapa de varizes
em milhares de caminhos carmesins.

Que eu deslize
enlameado (de pernoitar na fossa)
e, lado a lado, possa
lhe dizer ao pé do ouvido:

– Escuta, senhor Deus!
Não te entedias lá no céu
nesse pudim de nuvens
descansando teu olhar dominical?
Construamos um carrossel
na árvore
do conhecimento do bem e do mal!

Onipresente, cada armário te hospede!
Serviremos sobre a mesa aquelas vinhas
de propósito, que incitem
a dançar a “garrafinha”
ao rabugento Pedro apóstolo!
Evas substitutas
nós traremos para o Éden:
uma palavra tua
e eu trago, do jardim, só para ti
as mais bonitas das mulheres.

Queres?

Não queres?

Tua cabeça pendes para o lado?
Fazes cara feia para mim, senhor?
Consideras
que esse aí, atrás de ti, de asas
entende o que é isso, comumente que é chamado
de “amor”?

Eu também sou anjo, já fui um –
açucarado e pastorinho
à maneira de um cupido.
Mas já chega de ser este
que serve
a éguas destas de presente
nuns vasinhos de Sèvres
meus suplícios esculpidos.

Todo-poderoso, déste
a cada um
uma cabeça sobre o torso
e inventaste o par de mãos.
Tu désses que pudéssemos
beijar, a outro par, salvos da dor
de uma paixão.

Criador onipotente, já se tona
que, deusinho pequerrucho,
és tu incompetente…
Espia só: do cano desta bota
eu tiro, ao passo que me curvo,
uma faca de trinchete…
Agachai-vos no paraíso!
Arrepiai as plumas dos rabichos!
Velhacos de asas!
Esses, que do incenso se defumam,
eu os destrincho
daqui até o Alasca.

Abram alas!

E não me segurem!
Certo ou errado,
tranqüilo é que não posso ficar!
Vem ver: de novo, as estrelas
nesse céu, ensagüentado como um açougue,
estão a decapitá-las.

Ei, você!
Céu!
Tire o chapéu
que estou entrando na conversa!

Sem chance de contato.

Dorme o universo,
a enorme orelha
cheia de carrapatos de estrela
encostada sobre a pata.

1914-15.
Облако в штанах

Тетраптих

(Вступление)

Вашу мысль,
мечтающую на размягченном мозгу,
как выжиревший лакей на засаленной кушетке,
буду дразнить об окровавленный сердца лоскут:
досыта изъиздеваюсь, нахальный и едкий.

У меня в душе ни одного седого волоса,
и старческой нежности нет в ней!
Мир огромив мощью голоса,
иду – красивый,
двадцатидвухлетний.

Нежные!
Вы любовь на скрипки ложите.
Любовь на литавры ложит грубый.
А себя, как я, вывернуть не можете,
чтобы были одни сплошные губы!

Приходите учиться –
из гостиной батистовая,
чинная чиновница ангельской лиги.

И которая губы спокойно перелистывает,
как кухарка страницы поваренной книги.

Хотите –
буду от мяса бешеный
– и, как небо, меняя тона –
хотите –
буду безукоризненно нежный,
не мужчина, а – облако в штанах!

Не верю, что есть цветочная Ницца!
Мною опять славословятся
мужчины, залежанные, как больница,
и женщины, истрепанные, как пословица.

1

Bы думаете, это бредит малярия?

Это было,
было в Одессе.

“Приду в четыре”,- сказала Мария.

Восемь.
Девять.
Десять.

Вот и вечер
в ночную жуть
ушел от окон,
хмурый,
декабрый.

В дряхлую спину хохочут и ржут
канделябры.

Меня сейчас узнать не могли бы:
жилистая громадинa
стонет,
корчится.
Что может хотеться этакой глыбе?
А глыбе многое хочется!

Ведь для себя не важно
и то, что бронзовый,
и то, что сердце – холодной железкою.
Ночью хочется звон свой
спрятать в мягкое,
в женское.

И вот,
громадный,
горблюсь в окне,
плавлю лбом стекло окошечное.
Будет любовь или нет?
Какая –
большая или крошечная?

Откуда большая у тела такого:
должно быть, маленький,
смирный любёночек.
Она шарахается автомобильных гудков.
Любит звоночки коночек.

Еще и еще,
уткнувшись дождю
лицом в его лицо рябое,
жду,
обрызганный громом городского прибоя.

Полночь, с ножом мечась,
догнала,
зарезала,-
вон его!

Упал двенадцатый час,
как с плахи голова казненного.
В стеклах дождинки серые
свылись,
гримасу громадили,
как будто воют химеры
Собора Парижской Богоматери.

Проклятая!
Что же, и этого не хватит?
Скоро криком издерется рот.

Слышу:
тихо,
как больной с кровати,
спрыгнул нерв.
И вот,-
начала прошелся
едва-едва,
потом забегал,
взволнованный,
четкий.

Tеперь и он и новые два
мечутся отчаянной чечеткой.

Рухнула штукатурка в нижнем этаже.

Hервы –
большие,
маленькие,
многие!-
скачут бешеные,
и уже
у нервов подкашиваются ноги!

А ночь по комнате тинится и тинится,-
из тины не вытянуться отяжелевшему глазу.
Двери вдруг заляскали,
будто у гостиницы
не попадает зуб на зуб.

Вошла ты,
резкая, как “нате!”,
муча перчатки замш,
сказала:
“Знаете –
я выхожу замуж”.

Что ж, выходите.
Ничего.
Покреплюсь.
Видите – спокоен как!
Как пульс
покойника.

Помните?
Вы говорили:
“Джек Лондон,
деньги,
любовь,
страсть”,-
а я одно видел:
Bы – Джоконда,
которую надо украсть!

И украли.

Опять влюбленный выйду в игры,
огнем озаряя бровей загиб.
Что же!
И в доме, который выгорел,
иногда живут бездомные бродяги!

Дразните?
“Меньше, чем у нищего копеек,
у вас изумрудов безумий”.
Помните!
Погибла Помпея,
когда раздразнили Везувий!

Эй!
Господа!
Любители
святотатств,
преступлений,
боен,-
а самое страшное
видели –
лицо мое,
когда
я
абсолютно спокоен?

И чувствую –
“я”
для меня мало.
Кто-то из меня вырывается упрямо.
Allo!
Кто говорит?
Мама?
Мама!
Ваш сын прекрасно болен!
Мама!
У него пожар сердца.
Скажите сестрам, Люде и Оле,-
ему уже некуда деться.
Каждое слово,
даже шутка,
которые изрыгает обгорающим ртом он,
выбрасывается, как голая проститутка
из горящего публичного дома.

Люди нюхают –
запахло жареным!
Нагнали каких-то.
Блестящие!
В касках!
Нельзя сапожища!
Скажите пожарным:
на сердце горящее лезут в ласках.
Я сам.
Глаза наслезнённые бочками выкачу.
Дайте о ребра опереться.
Выскочу! Выскочу! Выскочу! Выскочу!
Рухнули.
Не выскочишь из сердца!

На лице обгорающем
из трещины губ
обугленный поцелуишко броситься вырос.
Мама!
Петь не могу.
У церковки сердца занимается клирос!
Обгорелые фигурки слов и чисел
из черепа,
как дети из горящего здания.
Так страх
схватиться за небо
высил
горящие руки “Лузитании”.
Трясущимся людям
в квартирное тихо
стоглазое зарево рвется с пристани.
Крик последний,-
ты хоть
о том, что горю, в столетия выстони!

2

Славьте меня!
Я великим не чета.
Я над всем, что сделано,
ставлю “nihil”.

Никогда
ничего не хочу читать.
Книги?
Что книги!

Я раньше думал –
книги делаются так:
пришел поэт,
легко разжал уста,
и сразу запел вдохновенный простак –
пожалуйста!
А оказывается –
прежде чем начнет петься,
долго ходят, размозолев от брожения,
и тихо барахтается в тине сердца
глупая вобла воображения.
Пока выкипячивают, рифмами пиликая,
из любвей и соловьев какое-то варево,
улица корчится безъязыкая –
ей нечем кричать и разговаривать.

Городов вавилонские башни,
возгордясь, возносим снова,
а бог
города на пашни
рушит,
мешая слово.

Улица муку молча пёрла.
Крик торчком стоял из глотки.
Топорщились, застрявшие поперек горла,
пухлые taxi и костлявые пролетки
грудь испешеходили.

Чахотки площе.
Город дорогу мраком запер.

И когда –
все-таки!-
выхаркнула давку на площадь,
спихнув наступившую на горло паперть,
умалось:
в хорах архангелова хорала
бог, ограбленный, идет карать!

А улица присела и заорала:
“Идемте жрать!”

Гримируют городу Круппы и Круппики
грозящих бровей морщь,
а во рту
умерших слов разлагаются трупики,
только два живут, жирея –
“сволочь”
и еще какое-то,
кажется, “борщ”.

Поэты,
размокшие в плаче и всхлипе,
бросились от улицы, ероша космы:
“Как двумя такими выпеть
и барышню,
и любовь,
и цветочек под росами?”

А за поэтами –
уличные тыщи:
студенты,
проститутки,
подрядчики.

Господа!
Остановитесь!
Вы не нищие,
вы не смеете просить подачки!

Нам, здоровенным,
с шаго саженьим,
надо не слушать, а рвать их –
их,
присосавшихся бесплатным приложением
к каждой двуспальной кровати!

Их ли смиренно просить:
“Помоги мне!”
Молить о гимне,
oб оратории!
Мы сами творцы в горящем гимне –
шуме фабрики и лаборатории.

Что мне до Фауста,
феерией ракет
скользящего с Мефистофелем в небесном паркете!
Я знаю –
гвоздь у меня в сапоге
кошмарней, чем фантазия у Гете!

Я,
златоустейший,
чье каждое слово
душу новородит,
именинит тело,
говорю вам:
мельчайшая пылинка живого
ценнее всего, что я сделаю и сделал!

Слушайте!
Проповедует,
мечась и стеня,
сегодняшнего дня крикогубый Заратустра!


с лицом, как заспанная простыня,
с губами, обвисшими, как люстра,
мы,
каторжане города-лепрозория,
где золото и грязь изъязвили  проказу,-
мы чище венецианского лазорья,
морями и солнцами омытого сразу!

Плевать, что нет
у Гомеров и Овидиев
людей, как мы,
от копоти в оспе.
Я знаю –
солнце померкло б, увидев
наших душ золотые россыпи!

Жилы и мускулы – молитв верней.
Нам ли вымаливать милостей времени!
Мы –
каждый –
держим в своей пятерне
миров приводные ремни!

Это взвело на Голгофы аудиторий
Петрограда, Москвы, Одессы, Киева,
и не было ни одного,
который
не кричал бы:
“Распни,
распни его!”
Но мне –
люди,
и те, что обидели –
в ы мне всего дороже и ближе.

Видели,
как собака бьющую руку лижет?!

Я,
обсмеянный у сегодняшнего племени,
как длинный
скабрезный анекдот,
вижу идущего через горы времени,
которого не видит никто.
Где глаз людей обрывается куцый,
главой голодных орд,
в терновом венце революций
грядет шестнадцатый год.

А я у вас – его предтеча;
я – где боль, везде;
на каждой капле слёзовой течи
распял себя на кресте.
Уже ничего простить нельзя.
Я выжег души, где нежность растили.
Это труднее, чем взять
тысячу тысяч Бастилий!

И когда,
приход его
мятежом оглашая,
выйдете к спасителю –
вам я
душу вытащу,
растопчу,
чтоб большая!-
и окровавленную дам, как знамя.

        3

Ах, зачем это,
откуда это
в светлое весело
грязных кулачищ замах!

Пришла
и голову отчаянием занавесила
ысль о сумасшедших домах.

И –
как в гибель дредноута
от душащих спазм
бросаются в разинутый люк –
сквозь свой
до крика разодранный глаз
лез, обезумев, Бурлюк.
Почти окровавив исслезенные веки,
вылез,
встал,
пошел
и с нежностью, неожиданной в жирном человеке
взял и сказал:
“Хорошо!”

Хорошо, когда в желтую кофту
душа от осмотров укутана!
Хорошо,
когда брошенный в зубы эшафоту,
крикнуть:
“Пейте какао Ван-Гутена!”

И эту секунду,
бенгальскую,
громкую,
я ни на что б не выменял,
я ни на…
А из сигарного дыма
ликерною рюмкой
вытягивалось пропитое лицо Северянина.

Как вы смеете называться поэтом
и, серенький, чирикать, как перепел!
Сегодня
надо
кастетом
роиться миру в черепе!

Вы,
обеспокоенные мыслью одной –
“изящно пляшу ли”,-
смотрите, как развлекаюсь
я –
площадной
сутенер и карточный шулер.

От вас,
которые влюбленностью мокли,
от которых
в столетия слеза лилась,
уйду я,
солнце моноклем
вставлю в широко растопыренный глаз.

Невероятно себя нарядив,
пойду по земле,
чтоб нравился и жегся,
а впереди
на цепочке Наполеона поведу, как мопса.

Вся земля поляжет женщиной,
заерзает мясами, хотя отдаться;
вещи оживут –
губы вещины
засюсюкают:
“цаца, цаца, цаца!”

Вдруг
и тучи
и облачное прочее
подняло на небе невероятную качку,
как будто расходятся белые рабочие,
небу объявив озлобленную стачку.

Гром из-за тучи, зверея, вылез,
громадные ноздри задорно высморкая,
и небье лицо секунду кривилось
суровой гримасой железного Бисмарка.

И кто-то,
запутавшись в облачных путах,
вытянул руки к кафе –
и будто по-женски,
и нежный как будто,
и будто бы пушки лафет.

Вы думаете –
это солнце нежненько
треплет по щечке кафе?
Это опять расстрелять мятежников
грядет генерал Галифе!

Выньте, гулящие, руки из брюк –
берите камень, нож или бомбу,
а если у которого нету рук –
пришел чтоб и бился лбом бы!

Идите, голодненькие,
потненькие,
покорненькие,
закисшие в блохастом грязненьке!

Идите!
Понедельники и вторники
окрасим кровью в праздники!
Пускай земле под ножами припомнится,
кого хотела опошлить!

Земле,
обжиревшей, как любовница,
которую вылюбил Ротшильд!

Чтоб флаги трепались в горячке пальбы,
как у каждого порядочного праздника –
выше вздымайте, фонарные столбы,
окровавленные туши лабазников.

Изругивался,
вымаливался,
резал,
лез за кем-то
вгрызаться в бока.

На небе, красный, как марсельеза,
вздрагивал, околевая, закат.
Уже сумашествие.

Ничего не будет.

Ночь придет,
перекусит
и съест.

Видите –
небо опять иудит
пригоршнью обгрызанных предательством звезд?
Пришла.
Пирует Мамаем,
задом на город насев.
Эту ночь глазами не проломаем,
черную, как Азеф!

Ежусь, зашвырнувшись в трактирные углы,
вином обливаю душу и скатерть
и вижу:
в углу – глаза круглы,-
глазами в сердце въелась богоматерь.

Чего одаривать по шаблону намалеванному
сиянием трактирную ораву!
Видишь – опять
голгофнику оплеванному
предпочитают Варавву?

Может быть, нарочно я
в человечьем месиве
ицом никого не новей.
Я,
ожет быть,
самый красивый
з всех твоих сыновей.

Дай им,
заплесневшим в радости,
скорой смерти времени,
чтоб стали дети, должные подрасти,
мальчики – отцы,
девочки – забеременели.
И новым рожденным дай обрасти
пытливой сединой волхвов,
и придут они –
и будут детей крестить
именами моих стихов.

Я, воспевающий машину и Англию,
может быть, просто,
в самом обыкновенном Евангелии
тринадцатый апостол.

И когда мой голос
похабно ухает –
от часа к часу,
целые сутки,
может быть, Иисус Христос нюхает
моей души незабудки.

4

Мария! Мария! Мария!
Пусти, Мария!
Я не могу на улицах!
Не хочешь?
Ждешь,
как щеки провалятся ямкою
попробованный всеми,
пресный,
я приду
и беззубо прошамкаю,
что сегодня я
“удивительно честный”.

Мария,
видишь –
я уже начал сутулиться.

В улицах
люди жир продырявят в четырехэтажных зобах,
высунут глазки,
потертые в сорокгодовой таске,-
перехихикиваться,
что у меня в зубах
– опять!-
черствая булка вчерашней ласки.

Дождь обрыдал тротуары,
лужами сжатый жулик,
мокрый, лижет улиц забитый булыжником труп,
а на седых ресницах –
да!-
на ресницах морозных сосулек
слезы из глаз –
да!-
из опущенных глаз водосточных труб.

Всех пешеходов морда дождя обсосала,
а в экипажах лощился за жирным атлетом атлет;
лопались люди,
проевшись насквозь,
и сочилось сквозь трещины сало,
мутной рекой с экипажей стекала
вместе с иссосанной булкой
жевотина старых котлет.

Мария!
Как в зажиревшее ухо втиснуть им тихое слово?

Птица
побирается песней,
поет,
голодна и звонка,
а я человек, Мария,
простой,
выхарканный чахоточной ночью в грязную руку Пресни.
Мария, хочешь такого?
Пусти, Мария!
Судорогой пальцев зажму я железное горло звонка!

Мария!

Звереют улиц выгоны.
На шее ссадиной пальцы давки.

Открой!

Больно!

Видишь – натыканы
в глаза из дамских шляп булавки!

Пустила.

Детка!
Не бойся,
что у меня на шее воловьей
потноживотые женщины мокрой горою сидят,-
это сквозь жизнь я тащу
миллионы огромных чистых любовей
и миллион миллионов маленьких грязных любят.
Не бойся,
что снова,
в измены ненастье,
прильну я к тысячам хорошеньких лиц,-
“любящие Маяковского!”-
да ведь это ж династия
на сердце сумасшедшего восшедших цариц.

Мария, ближе!
В раздетом бесстыдстве,
в боящейся дрожи ли,
но дай твоих губ неисцветшую прелесть:
я с сердцем ни разу до мая не дожили,
а в прожитой жизни
лишь сотый апрель есть.

Мария!
Поэт сонеты поет Тиане,
а я –
весь из мяса,
еловек весь –
тело твое просто прошу,
как просят христиане –
“хлеб наш насущный
аждь нам днесь”.

Мария – дай!

Мария!
Имя твое я боюсь забыть,
как поэт боится забыть
какое-то
в муках ночей рожденное слово,
величием равное богу.

Тело твое
я буду беречь и любить,
как солдат,
обрубленный войною,
ненужный,
ничей,
бережет свою единственную ногу.

Мария –
не хочешь?

Не хочешь!

Ха!

Значит – опять
темно и понуро
сердце возьму,
слезами окапав,
нести,
как собака,
которая в конуру
несет
перееханную поездом лапу.

Кровью сердце дорогу радую,
липнет цветами у пыли кителя.
Тысячу раз опляшет Иродиадой
солнце землю –
голову Крестителя.

И когда мое количество лет
выпляшет до конца –
миллионом кровинок устелется след
к дому моего отца.

Вылезу
грязный (от ночевок в канавах),
стану бок о бок,
наклонюсь
и скажу ему на ухо:
– Послушайте, господин бог!
Как вам не скушно
в облачный кисель
ежедневно обмакивать раздобревшие глаза?
Давайте – знаете –
устроимте карусель
на дереве изучения добра и зла!

Вездесущий, ты будешь в каждом шкапу,
и вина такие расставим по столу,
чтоб захотелось пройтись в ки-ка-пу
хмурому Петру Апостолу.
А в рае опять поселим Евочек:
прикажи,-
сегодня ночью ж
со всех бульваров красивейших девочек
я натащу тебе.

Хочешь?

Не хочешь?

Мотаешь головою, кудластый?
Супишь седую бровь?
Ты думаешь –
этот,
за тобою, крыластый,
знает, что такое любовь?

Я тоже ангел, я был им –
сахарным барашком выглядывал в глаз,
но больше не хочу дарить кобылам
из сервской муки изваянных ваз.

Всемогущий, ты выдумал пару рук,
делал,
что у каждого есть голова,-
отчего ты не выдумал,
чтоб было без мук
целовать, целовать, целовать?!

Я думал – ты всесильный божище,
а ты недоучка, крохотный божик.
Видишь, я нагибаюсь,
из-за голенища
достаю сапожный ножик.
Крыластые прохвосты!
Жмитесь в раю!
Ерошьте перышки в испуганной тряске!
Я тебя, пропахшего ладаном, раскрою
отсюда до Аляски!

Пустите!

Меня не остановите.

Вру я,
в праве ли,
но я не могу быть спокойней.
Смотрите –
звезды опять обезглавили
небо окровавили бойней!

Эй, вы!
Небо!
Снимите шляпу!
Я иду!

Глухо.

Вселенная спит,
положив на лапу
с клещами звезд огромное ухо.

1914-1915