Só, de Edgar Allan Poe

Alone

From childhood’s hour I have not been
As others were; I have not seen
As others saw; I could not bring
My passions from a common spring.
From the same source I have not taken
My sorrow; I could not awaken
My heart to joy at the same tone;
And all I loved, I loved alone.

Then- in my childhood, in the dawn
Of a most stormy life- was drawn
From every depth of good and ill
The mystery which binds me still:
From the torrent, or the fountain,
From the red cliff of the mountain,
From the sun that round me rolled
In its autumn tint of gold,
From the lightning in the sky
As it passed me flying by,
From the thunder and the storm,
And the cloud that took the form
(When the rest of Heaven was blue)
Of a demon in my view.

 

tradução por Aline Zouvi
Desde a infância não fui
Como os outros foram; não vi
Como os outros viram;  não pude
apaixonar-me numa primavera comum.
Da mesma fonte não sorvi
Minha tristeza; não pude despertar
Meu coração à alegria no mesmo dó;
E o que amei, amei só.

Então- na minha infância, no madrugar
Da mais turva vida – fez-se retirar
De todo o bom e mal profundos
O mistério que ainda me põe sem mundo;
Da torrente, ou da fonte,
Do cume escarlate do monte,
Do sol que me entornou, rodado,
Em seu outonal tom dourado
Do raio no céu
A atravessar-me em seu véu
Do trovão e o temporal
E a nuvem corporal
(A contradizer o céu azul)
Fez-se demônio em meu vitral.

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Soneto — À Ciência, de Edgar Allan Poe

Sonnet — To Science

Science! true daughter of Old Time thou art!
Who alterest all things with thy peering eyes.
Why preyest thou thus upon the poet’s heart,
Vulture, whose wings are dull realities?
How should he love thee? or how deem thee wise?
Who wouldst not leave him in his wandering
To seek for treasure in the jewelled skies,
Albeit he soared with an undaunted wing?
Hast thou not dragged Diana from her car?
And driven the Hamadryad from the wood
To seek a shelter in some happier star?
Hast thou not torn the Naiad from her flood,
The Elfin from the green grass, and from me
The summer dream beneath the tamarind tree?

 

Soneto — À Ciência – tradução por Vinícius Cruz

Do Velho Tempo, ó Ciência, filha és tu!
Quem tudo altera com teu fino olhar.
Por que do poeta o coração, Urubu,
cuja asa é o baço fato, assim predar?
E como ele há de amar-te ou crer-te sá-
bia? Quem não deixaria ele a caçar
tesouros tais que nestes céus d’ouro há,
com asa audaz, embora, paire no ar?
Da sege Diana não havias puxado?
E a Hamadríade levado do mato
p’ra em estrela mais feliz buscar resguardo?
Não retiraras tu de seu regato
a Náiade, das relvas o Duende,
de mim o idílio abaixo do cipreste?

Silence, de Edgar Allan Poe

Silence
Edgar Allan Poe

There are some qualities- some incorporate things,
That have a double life, which thus is made
A type of that twin entity which springs
From matter and light, evinced in solid and shade.
There is a two-fold Silence- sea and shore-
Body and soul. One dwells in lonely places,
Newly with grass o’ergrown; some solemn graces,
Some human memories and tearful lore,
Render him terrorless: his name’s “No More.”
He is the corporate Silence: dread him not!
No power hath he of evil in himself;
But should some urgent fate (untimely lot!)
Bring thee to meet his shadow (nameless elf,
That haunteth the lone regions where hath trod
No foot of man,) commend thyself to God!

Silêncio
Leonardo Saraiva

Há certos atributos – incorpórea espécie –
que têm uma vida dupla, de onde surge então
um tipo de entidade gêmea que floresce
da matéria e da luz, substância e escuridão.
Há dualidade no Silêncio – mar e enseada –
corpo e alma. Parte mora nos ermos desvãos,
crescendo com o mato; uma graça ensaiada,
uma doutrina sofrida, uma recordação,
há muito que o desarme: seu nome é “O Não”.
Não o temas! É apenas Silêncio encarnado.
Nenhum poder malvado possui de seu;
mas caso teu destino (inoportuno fardo!)
faça-te conhecer sua sombra (elfo sem nome
que horroriza os longínquos lugares onde homem
jamais pisou), entrega-te à mercê de Deus!