Brasília – de Sylvia Plath

Brasília – de Sylvia Plath

Brasília, de Sylvia Plath (1962), traduzido por Marília Moschkovich (2017). Homenagem ao 85º aniversário da poeta, que se suicidaria dois meses após escrever este poema e exatamente quarenta dias antes do terceiro aniversário da cidade. Na imagem, Sylvia Plath, vulto, em Yorkshire.


 

Elas acontecem? –
essas pessoas com torso de aço
cotovelos alados e órbitas

Esperam missas, massas
de nuvens que concedem expressão,
Essa super-gente! –
E meu bebê um prego
enfiado, enfiado.
Ganindo em sua banha

Ossos fuçando distância.
E eu, quase extinta,
Seus três dentes cortantes

Abocanham meu dedão –
E a estrela,
História velha

Nessa rua encontro ovelhas e carros,
Terra vermelha, sangue de mãe
Ó, tu que comes

Pessoas como raios de luz, deixe
só este
a salvo do espelho, sem redenção

Com a aniquilação da pomba,
A glória
O poder, a glória


Brasilia_SP

Will they occur,
These people with torso of steel
Winged elbows and eyeholes

Awaiting masses
Of cloud to give them expression,
These super-people! –
And my baby a nail
Driven, driven in.
He shrieks in his grease

Bones nosing for distance.
And I, nearly extinct,
His three teeth cutting

Themselves on my thumb –
And the star,
The old story.

In the lane I meet sheep and wagons,
Red earth, motherly blood.
O You who eat

People like light rays, leave
This one
Mirror safe, unredeemed

By the dove’s annihilation,
The glory
The power, the glory.

Os Bêbados e os Sonâmbulos, de Bernardo Carvalho

Não sei como surgiu aquela história de língua. Ele colocou a língua para fora. Estava toda manchada, como se tivesse sido desenhada, como o próprio corpo. “Está vendo esses desenhos?”, ele perguntou. Abri os olhos. “Também pensei que fossem uma doença quando os percebi pela primeira vez”, disse. “Fui ao médico. Ele chamou a enfermeira: ‘Venha ver um caso de língua geográfica’, disse. São casos raríssimos, de línguas desenhadas. Nasci assim, mas não sabia. Foi o Andy [estava falando do Warhol] que me falou pela primeira vez da minha língua. Queria muito fazer um filme sobre ela. Minha língua lambendo tinta e pintando uma tela por seis horas ininterruptas. Tive um choque quando descobri que tinha língua geográfica. Você vê?”, disse, colocando de novo a língua para fora, “são como países, continentes.” Depois, também sem quê nem por quê, voltou a falar do pintor brasileiro, de como, durante um ano, arquitetou seu plano para tirar a tela que retratava a mulher morta do depósito do Metropolitan, o museu?… E, no final, quando a manhã já vinha nascendo, virou-se para mim, com a cabeça recostada no travesseiro e as duas mãos na nuca, e arrematou: “Que língua eu tenho!”.

Os Bêbados e os Sonâmbulos. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, página 80

[into English]

I don’t know how that tongue talk came out. He stretched his tongue outwards. It was all marked, as if it had been scrawled, like his own body. “Do you see these scrawls?” he asked me. I opened my eyes. “I also thought they were a disease when I noticed them for the first time”, he said. “I went to the doctor’s. He called the nurse. ‘Come here to see a case of geographic tongue’, he told her. Those are really rare cases of scrawled tongues. I was born like this. I didn’t know a thing, though. It was Andy [he was mentioning Wahlrol] who first told me about my tongue. He insistently wanted to make a movie about it. My tongue licking ink and then painting on a canvas for six ongoing hours. I was shocked when I learned I had a geographic tongue. Can you see it?”, he said, bringing his tongue outwards one more time, “they’re like countries, continents.” Next, and again for no apparent reason, he continued to tell me of the Brazilian painter, and how he had designed, for a whole year, his plan to get the canvas depicting the dead woman out of the Metropolitan, Museum?… So, after all that, while morning was on the rise, he turned to me, his head lain on the pillow, both hands supporting his neck, and concluded: “What a tongue of mine!”

Kant (relido), de Orides Fontela

Kant (relido) Orides Fontela

Duas coisas admiro: a dura lei
cobrindo-me
e o estrelado céu
dentro de mim.

Kant (revisited)Tradução por Mariana Ruggieri

Two things I admire: the tough law
that covers me
and the starlit sky
within.

Ficção, de Beatriz Bracher

Ficção

de Beatriz Bracher

Estava parada em um engarrafamento, no final de um dia poluído. O homem surgiu e bateu na janela com uma arma preta. O movimento de sua boca berrava e a voz chegava baixa. Passa o dinheiro, passa o dinheiro ou vai morrer. Agora, abre a janela, agora, agora, ou vai morrer, ou vai morrer. Olhava louco para mim, olhava louco para mim. Ou vai morrer, ou vai morrer. Olhava sua boca, seus olhos, a arma preta, a aflição e a raiva e me convencia que era cinema. Não tentei explicar-lhe, ele entenderia. O vidro blindado transformava sua ação, eu podia olhar, observar os detalhes de sua roupa, a língua escura e o tamanho pequeno das mãos agarrando a arma preta. A arma preta apontada contra meus olhos, o canal oco da arma preta tremendo, argumento claro, abre, sua vaca, eu vou atirar. Minha curiosidade apática minava sua decisão, o argumento oscilava.
O rapaz entendeu sua impossibilidade, titubeou, apoiou as mãos no vidro, uma fechada na arma, aproximou o rosto e cuspiu minha morte mais uma vez. Eram de um animal os olhos, a palma da mão suada e a saliva. Furioso, enjaulado, um fila brasileiro latindo e pulando atrás das grades enquanto caminhamos na calçada. Ele segurou a arma com as duas mãos e mirou meu rosto. Eu mirava calma e hipnotizada, intrigada com o fim.
Um frio monstruoso me sobe do estômago e para meu coração. Hoje é dia de rodízio, eu não estou no blindado. Meus olhos pulam de horror, as mãos crispadas na boca aberta e hirta, sem qualquer possibilidade de voz, pedi piedade. Ele entendeu e riu. Num só golpe, quebrou o vidro com a mão da arma, esmurrou meu rosto e sumiu deixando o revólver de brinquedo no meu colo manchado com o nosso sangue.

(trecho do livro Meu Amor. Ed 34. São Paulo 2009. pág 52)

 

 

Fiction

I was stuck in a traffic jam, in the late smoggy afternoon. The lad showed up and hit the car window with a black gun. His moving mouth was yelling, and his voice was coming out in a low tune. Gimme the money, gimme the money or you’re dead. Now, open the window, now, do it, or you’re dead. He stared mad at me, stared mad at me. You’re dead, you’re dead. I stared at his mouth, his eyes, the black gun, anger, rage, and I convinced myself that it was a movie scene. I didn’t try to tell him, he’d get that. The armored glass altered his action, I could stare, observe his outfit in details, his dark tongue and the tiny size of his hands grasping the black gun. The black gun was aimed at my eyes, the hollow muzzle of that trembling black gun, crystal clear argument, open, you bitch, I’m goinna shoot. My unsuspected curiosity was underminig his decision, the argument was oscillating.
The lad learned that it was impossible. He faltered. He leaned both hands over the glass, one of which still holding the gun, approached his face and vindicated me to death once again. Those eyes, they were from a beast, sweaty palms and saliva. Furious, caged, a Brazilian hound, barking and jumping behind cages while one passes by on the sidewalk. He held the gun with both hands and aimed it at my face. I sat still and stared mesmerized, intrigued about the upshot.
A waving scare chills up from my stomach and blocks my heartbeat. I’m on my traffic restriction day, thus I’m not driving the armoured car. My eyes jump horrified, twitched hands on my stiff open mouth, without any voicing, I begged for mercy. He got that and laughed. In a single stroke, he broke the glass with the gun hand, punched my face and left, dropping his fake revolver on my lap, which got stained with our blood.