Ficção, de Beatriz Bracher

Ficção

de Beatriz Bracher

Estava parada em um engarrafamento, no final de um dia poluído. O homem surgiu e bateu na janela com uma arma preta. O movimento de sua boca berrava e a voz chegava baixa. Passa o dinheiro, passa o dinheiro ou vai morrer. Agora, abre a janela, agora, agora, ou vai morrer, ou vai morrer. Olhava louco para mim, olhava louco para mim. Ou vai morrer, ou vai morrer. Olhava sua boca, seus olhos, a arma preta, a aflição e a raiva e me convencia que era cinema. Não tentei explicar-lhe, ele entenderia. O vidro blindado transformava sua ação, eu podia olhar, observar os detalhes de sua roupa, a língua escura e o tamanho pequeno das mãos agarrando a arma preta. A arma preta apontada contra meus olhos, o canal oco da arma preta tremendo, argumento claro, abre, sua vaca, eu vou atirar. Minha curiosidade apática minava sua decisão, o argumento oscilava.
O rapaz entendeu sua impossibilidade, titubeou, apoiou as mãos no vidro, uma fechada na arma, aproximou o rosto e cuspiu minha morte mais uma vez. Eram de um animal os olhos, a palma da mão suada e a saliva. Furioso, enjaulado, um fila brasileiro latindo e pulando atrás das grades enquanto caminhamos na calçada. Ele segurou a arma com as duas mãos e mirou meu rosto. Eu mirava calma e hipnotizada, intrigada com o fim.
Um frio monstruoso me sobe do estômago e para meu coração. Hoje é dia de rodízio, eu não estou no blindado. Meus olhos pulam de horror, as mãos crispadas na boca aberta e hirta, sem qualquer possibilidade de voz, pedi piedade. Ele entendeu e riu. Num só golpe, quebrou o vidro com a mão da arma, esmurrou meu rosto e sumiu deixando o revólver de brinquedo no meu colo manchado com o nosso sangue.

(trecho do livro Meu Amor. Ed 34. São Paulo 2009. pág 52)

 

 

Fiction

I was stuck in a traffic jam, in the late smoggy afternoon. The lad showed up and hit the car window with a black gun. His moving mouth was yelling, and his voice was coming out in a low tune. Gimme the money, gimme the money or you’re dead. Now, open the window, now, do it, or you’re dead. He stared mad at me, stared mad at me. You’re dead, you’re dead. I stared at his mouth, his eyes, the black gun, anger, rage, and I convinced myself that it was a movie scene. I didn’t try to tell him, he’d get that. The armored glass altered his action, I could stare, observe his outfit in details, his dark tongue and the tiny size of his hands grasping the black gun. The black gun was aimed at my eyes, the hollow muzzle of that trembling black gun, crystal clear argument, open, you bitch, I’m goinna shoot. My unsuspected curiosity was underminig his decision, the argument was oscillating.
The lad learned that it was impossible. He faltered. He leaned both hands over the glass, one of which still holding the gun, approached his face and vindicated me to death once again. Those eyes, they were from a beast, sweaty palms and saliva. Furious, caged, a Brazilian hound, barking and jumping behind cages while one passes by on the sidewalk. He held the gun with both hands and aimed it at my face. I sat still and stared mesmerized, intrigued about the upshot.
A waving scare chills up from my stomach and blocks my heartbeat. I’m on my traffic restriction day, thus I’m not driving the armoured car. My eyes jump horrified, twitched hands on my stiff open mouth, without any voicing, I begged for mercy. He got that and laughed. In a single stroke, he broke the glass with the gun hand, punched my face and left, dropping his fake revolver on my lap, which got stained with our blood.