15 Poemas de Vladímir Maiakóvski

 

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Foto: Maiakóvski declama para os auditórios da União Soviética em 1930. Ao fundo uma faixa: “Proletários de todo o mundo, uni-vos!” Obs.: os desenhos nesta publicação são cartazes de Maiakóvski projetados para a ROSTA, Agência Telegráfica Russa. Eles não constituem originalmente ilustrações dos poemas que se seguem.
   

15 POEMAS DE VLADÍMIR MAIAKÓVSKI

Traduções e notas: André Nogueira (2017)


O IMPERADOR

Lembro –
……….  …isso foi talvez na páscoa,
ou quem sabe –
…………………..no natal.
Estava limpa
……………….e preparada
………………………………toda a praça
para a marcha
 ………………..triunfal.
Os soldados,
…………….. .desde os rasos
………………………………….aos tenentes-coronéis:
na Tviérskaia se vê
……………………….do pelotão
……………………………………..fileira tensa.
Oficial torce o bigode,
…………………………..grita e bate com os pés:
– Às suas ordens! –
………………  ………eles batem continência.
De repente –
………………. a carruagem a deslizar,
……………………………………………..sob a capota
com bem asseada barba
……………………………..está sentado um militar,
quatro filhotas
………………….como tábuas
…………………………………..atrás dele
……………….  ……………………………..a acenar.
Sobre o asfalto
………………….à via larga,
como sobre
  …………….as nossas costas,
……………………………………o cortejo
e hasteados para o alto
…………………………….os brasões e as águias –
eu da turba
……………..tudo vejo.
As senhoras se empurram,
…………………………………toca o sino na campana
e encobre
……………– Urra, urra! –
………………………………os gritinhos com os quais
elas recebem sua nobre
…………………………….majestade Nikolai,
“nosso tsar-imperador,
..  …………………………de toda a Rússia o soberano!”

A neve cai
……………sobre os telhados,
…………………………………..a nós todos soterrando.
A se arrastar pelos Urais,
………………………………pela extensão siberiana,
pelo Iset
………….de margens íngremes e minas,
pelo Iset
………….das ventanias glaciais –
essa intempérie insana
. ……………    …………..em Sverdlóvsk termina. 1
O trenó do comitê
………………..   …..já a cidade
…………………..    ……………..ultrapassa.
Por azar,
  ………..a neve cobre
.. ………………………..o mundo todo –
não se vê a coisa alguma,
…  …………………………..só dos lobos
o seu rastro
……………..atrás da caça.
Estacionamos,
…………………finalmente,
………………………………..há vinte verstas.
O exército dos cedros
.. … …………………….se perfila
… … ………………………………..até ao longe.
Paramánov à frente,
……. ………………….penetramos na floresta,
caminhamos pela trilha,
…. …. ……………………..para onde?
Mais pesado
………  ……..que da mina
…..  ……   ………………….a bruta pedra,
um tesouro
………… . ..nunca achado.
Toda a glória e majestade
……………………………….do tsar-imperador
em que buraco
…….. ……  …..se esconde…
Dentre os cedros
…………….. …….uma marca
……. ………..   ………………..de machado…
– Aqui!? –
……………Não.
………………….Pelo menos por enquanto.
Nossas botas
……………….que escavem
………………………………..noutro canto.
Nalgum lugar
………………..sob os cascalhos
……………………………………..da estrada,
sob as raízes
…… ……….. dessas árvores,
a última estada
………………. …de seus míseros
……………………………………….cadáveres.
No alto,
…………sobre as nuvens hasteado,
o dia rápido amanheça,
e uma ave
 …………..malfazeja –
negro corvo
……..  ……..de uma única cabeça –
lamentando-se pragueja.

Vos seduz
……………o esplendor
……………………………de uma coroa?
Descobris
…………..como essa luz
……………………………..vos ilumina,
pela última das vezes,
…………………………..quando enfim
.   ……   …………………………………..se amontoa
a sepulta realeza
………. …………..no escuro destas minas.

Sverdlovsk, 1928

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1 Em janeiro de 1928 Vladímir Maiakóvski visitou Sverdlóvsk, nome pelo qual foi rebatizada, em 1924, a cidade de Ekaterinburg. Nessa cidade foram fuzilados o último imperador da Rússia, Nikolai Romanov (o tsar Nicolau II) e sua família: a tsarina Aleksandra, o tsariévitch Aleksei, as quatro filhas, Anastássia, Maria, Tatiana e Olga; também os empregados e amigos que os acompanhavam no exílio. Sabe-se que isso aconteceu em 17 de julho de 1918, na Casa Ipátiev, residência onde estavam feitos prisioneiros. Mas ao longo de muitas décadas não se soube ao certo a localidade de seus corpos. Suspeitava-se que os tivessem lançado no fosso de uma mina abandonada, às margens do rio Iset, ou enterrado na floresta de Koptiaki, à beira da estrada que dava acesso à cidade.

Maiakóvski atendeu ao convite de Anatoli Ivánovitch Paramánov, presidente do comitê executivo distrital de Sverdlóvsk, para conhecer a cidade, onde chegou no dia 27 de janeiro. Durante os três dias de sua estadia, participou de reuniões com os estudantes e leu seus poemas aos trabalhadores das indústrias e mineiros. Teve tempo, também, de conhecer a Casa Ipátiev. Paramánov disse saber o local onde haviam enterrado o corpo do “Imperador” e Maiakóvski o quis ver pessoalmente. O trenó do comitê executivo os levou pela trilha nevada ao meio da floresta entre os cedros com marcações que indicariam o local exato. No entanto, resta dúvidas se nesse dia realmente encontraram o que procuravam. A Pavel Lavut, seu amigo e secretário, Maiakóvski confessou:

“Claro que ver a sepultura do tsar não tem a mínima importância. E, para falar a verdade, nada há para se ver. É difícil de encontrar, encontram ela por sinais, sendo um segredo conhecido só por certo grupo de pessoas. Mas para mim o que importa é passar a sensação de que, nesse lugar, partiu daqui o último réptil rastejante da última dinastia, que tanto sangue bebeu ao longo dos séculos”. (Lavut, 1963, p. 182)

O poema O Imperador divide-se em três estrofes. Na primeira, ao estilo de uma memória pessoal, o registro de um desfile, pela rua Tviérskaia em Moscou, da família Románov antes de sua queda. Na segunda, Maiakóvski descreve sua visita à sepultura do imperador em Sverdlóvsk. Diz, em tradução mais ao pé da letra: “Aqui há cedros/ com marcas de machado…/ e, sob os cedros,/ uma estrada/ e, nela –/ o imperador está enterrado”; assim, parodia uma passagem de Mikhail Liérmontov em O navio fantasma [Vozduchni korábl] (1840): “Há uma ilha nesse oceano…/ Nessa ilha há uma sepultura/ E nela o imperador está enterrado”. Liérmontov fala de Napoleão, enterrado na ilha de Santa Helena; ao se aproximar o navio fantasma, levantando-se de sua sepultura, o imperador embarca na viagem miraculosa. Maiakóvski contrapõe, na seqüência do poema, a imagem do corvo de uma única cabeça, ironia com o símbolo da águia bicéfala, que estampava os brasões do Império russo. Quanto à sinistra moral da história, encerrada na última estrofe, uma observação interessante: nas anotações do poeta existe um rascunho diferente para o final, que soa muito ao contrário da versão escolhida para a publicação. Abaixo, uma tradução mais ou menos literal:

Com certeza que levanto as duas mãos
e voto contra.
Ousa as tuas levantar
para pôr fim à vida humana.
Eu não quero errar na curva.
Eles vivos poderiam ser mantidos num zoológico
entre a jaula da hiena e a do lobo.
Se o mínimo sentido não faziam como vivos,
tanto menos eles fazem sendo mortos desse jeito.
O jogo da história nós viramos,
para sempre se despeçam do que é velho:
um comunista, sendo homem,
não terá as suas mãos sujas de sangue.

ИМПЕРАТОР

Помню –
…………..то ли пасха,
то ли –
……. …рождество:
вымыто
………….и насухо
расчищено торжество.
По Тверской
………………..шпалерами
………………………………..стоят рядовые,
перед рядовыми –
………………………..пристава.
Приставов
……………..глазами
…………………………едят городовые:
– Вае благородие,
……………………….арестовать? –
Крутит
…………полицмейстер
………………………………за уши ус.
Пристав козыряет:
…………………………– Слушаюсь! –
И вижу –
……………катится ландо,
и в этой вот ланде
сидит
……….военный молодой
в холеной бороде.
Перед ним,
……………….как чурки,
четыре дочурки.
И на спинах булыжных,
……………………………….как на наших горбах,
свита
…….. за ним
……………….в орлах и в гербах.
И раззвонившие колокола
расплылись
……………….в дамском писке:
Уррра!
………..царь-государь Николай,
император
……………..и самодержец всероссийский!

Снег заносит
…………………косые кровельки,
серебрит
……………телеграфную сеть,
он схватился
…………………за холод проволоки
и остался
……………на ней
……………………..висеть.
На вбирь,
……………на весь Урал
метельная мура.
За Исетью,
……………..где шахты и кручи,
за Исетью,
……………..где ветер свистел,
приумолк
…………….исполкомовский кучер
и встал
…………на девятой версте.
Вселенную
………………снегом заволокло.
Ни зги не видать –
…………………………как на зло.
И только
…………..следы
  ………………….от брюха волков
по следу
…………..диких козлов.
Шесть пудов
…………………(для веса ровного!),
будто правит
…………………кедров полком он,
снег хрустит
.. … …………..под Парамоновым,
председателем
…………………..исполкома.
Распахнулся весь,
роют
……..снег
…………..пимы.
– Будто было здесь?!
Нет, не здесь.
………………….Мимо! –
Здесь кедр
……………..топором перетроган,
зарубки
………….под корень коры,
у корня,
………….под кедром,
…………………………..дорога,
а в ней –
…….. …..император зарыт.
Лишь тучи
……………..флагами плавают,
да в тучах
…………….птичье вранье,
крикливое и одноглавое,
ругается воронье.

Прельщают
………………многих
…………………………короны лучи.
Пожалте,
… ………..дворяне и шляхта,
корону
………..можно
………………….у нас получить,
но только
……………вместе с шахтой.

Свердловск, 1928

[O rascunho não publicado da última estrofe]:

Я вскину две моих пятерни
Я сразу вскину две пятерни
Что я голосую против
Я голосую против
Спросите руку твою протяни
казнить или нет человечьи дни
не встать мне на повороте
Живые так можно в зверинец их
Промежду гиеной и волком
И как не крошечен толк от живых
от мертвого меньше толку
Мы повернули истории бег
Старье навсегда провожайте
Коммунист и человек
Не может быть кровожаден

…………………….~//~


A APARIÇÃO DO CRISTO

Tragam rosas
………………..e tulipas
……………………………para a festa,
de branco vistam
……………………..as crianças.
À Europa
….. ………um novo Cristo
………………………………..manifesta-se
em Kellog, 1
…………….ministro
…….. …………………de ilustres alianças.
Esse Cristo
……………..caminhando pelas águas
……………………………………………..não se viu.
De última hora,
……. …………….vestindo um smoking,
chegava  a Paris
……………………de navio.
Esse Kellogg
……………….que pintam de Cristo
…………………………………………..não cola:
esse Cristo não tem
………………………..nem coroa ou casula.
Não obstante,
…………………a cartola está
…………………………………..laureada de dólar.
Mister Cristo
……………….as nações
…………………………….congratula.
Do sagrado coração,
em seu banquete
…………………….com os grandes
…………………………………………capitães,
erguem-se à paz
……………………na humanidade
suas taças
……………de champanhe.
Enquanto a nós
…………………..nos aparece
…………………………………..claramente
o que esconde
…………………esse Cristo
………………………………..em sua manga.
A sua manga
………………..está repleta…
…………………………………..adivinha:
de ianques,
……………..a mais forte
……………………………..frota aérea
e marinha,
…………….muito gás
………………………….em seus balões,
munições
……………em seus tanques.
Preparado
…………….o Cristo tem
…….. ……………………..um respeitável arsenal;
porém a pedra
…………………principal
……………………………..em sua manga
é que de ódio
………………..ele sangra,
dentre todas as nações,
…………………………….sobretudo
contra nós,
……………..os bolcheviques.
Antes que o Cristo,
……………………….sob o leque
………………………………………da palmeira,
abra a boca
……………..e uma guerra ele decrete, –
operário,
…………..camponês,
…………………………alerta fique!
Cerrai fileiras,
…………………Sovietes!

1928

rosta34

1 Frank B. Kellog – político, Secretário de Estado norte-americano e um dos autores, junto com o ministro francês Aristide Briand, do Pacto Kellog-Briand, ou “Tratado Geral para a Renúncia à Guerra como Instrumento de Política Nacional”. Ao acordo da França com os Estados Unidos, assinado também pela Alemanha em agosto de 1928, adeririram as principais potências mundiais. A União Soviética o assinou no ano seguinte. Kellog recebeu, ao mérito pelo seu Tratado, uma série de honrarias, incluindo o Prêmio Nobel da Paz em 1929. Maiakóvski esteve nos Estados Unidos em 1925, viu a sociedade capitalista em pleno funcionamento e se inteirou de seu poder industrial e bélico, o qual denuncia neste poema, discernindo o caráter precário da paz assinada nos tratados e a posição estratégica do exército na defesa nacional. De igual maneira procede em outro poema de 1928, Máximas-rimas [Lozungi-rifmi], ao dizer:

(…)
Já dez anos se passaram,
……………………………..o furor se aquieta.
Mas a guerra não cessou, 
……………………………..o inimigo está alerta.
Os dias rápido se agitam,
………………………………a batalha à porta bate.
Aprendei
………….como se marcha
………………………………nas fileiras do combate. (…)

Já a Tríplice Entente
………………………..movimenta o braço armado.
Baionetas sustentem,
…………………………em riste,
……………………………………soldados!

Debandou o inimigo…
…………………………..À distância o contemplais?
Aprendei,
………….cavalaria,
………………………a perseguir os generais.

Ouvis o vil sabotador
…………………………que sorrateiro ele se move?
Aprendei,
………….trabalhador,
………………………….a manejar vosso revólver.

Nosso século desfaz-se
…………………………..pelas mãos de homens de fraque.
Segurai,
………..frota vermelha,
…………………………..não deixai que ele naufrague!

A batalha não cessou,
………………………….é ilusório o armistício.
Pois se munam,
…………………comunistas,
……………………………….não com fogos
…………………………………………………de artifício.

O coração de toda pátria
……………………………..ao exército de funde.
Nosso Exército Vermelho
……………………………..é o poder desta República.
Mais firme liga
…………………não existe
……………………………..neste mundo.
Viva o Exército Vermelho,
………………………………viva nossa glória rubra.

ЯВЛЕНИЕ ХРИСТА

Готовьте
………….возы
…………………тюльпанов и роз,
детишкам —
………………..фиалки в локон.
Европе
………..является
…………………….новый Христос
в виде
………. министра Келлога.
Христос
……… …не пешком пришел по воде,
подметки
……………мочить
………………………неохота.
Христос новоявленный,
………………………………..смокинг надев,
приехал
………….в Париж
………………………пароходом.
С венком
…………..рисуют
……………………..бога-сынка.
На Келлоге
……………..нет
…………………..никакого венка.
Зато
……..над цилиндром
…………………………..тянется —
долларное сияньице.
Поздравит
……………..державы
…………………………..мистер Христос
и будет
…………от чистого сердца
вздымать
……………на банкетах
…………………………….шампанский тост
за мир
……….во человецех.
Подпишут мир
……………………на глади листа,
просохнут
……………..фамилии
…………………………..на́сухо, —
а мы
……..посмотрим,
………………………что у Христа
припрятано за пазухой.
За пазухой,
………………полюбуйтесь
…………………………………вот,
ему
……наложили янки —
сильнейший
………………..морской
…………………………….и воздушный флот,
и газы в баллонах,
………………………..и танки.
Готов
………у Христа
…………………..на всех арсенал;
но главный
………………за пазухой
………………………………камень —
злоба,
……….которая припасена
для всех,
…………..кто с большевиками.
Пока
……..Христос
…………………отверзает уста
на фоне
………….пальмовых веток —
рабочий,
…………..крестьянин,
……………………………плотнее стань
на страже
…………….свободы Советов.

1928

[Trecho de…]

ЛОЗУНГИ-РИФМЫ

(…)

Десять лет боевых прошло.
Вражий раж —
…………………..еще не утих.
Может,
…………скоро
…………………дней эшелон
пылью
………..всклубит
…………………….боевые пути.
Враг наготове.
…………………..Битвы грядут.
Учись
………шагать
………………..в боевом ряду. (…)

Готовится

……………к штурму
…………………………Антанта чертова —
учись
………атакам,
…………………штык повертывая.
  
Враг разбежится —
…………………………кто погонится?
Гнать златопогонников
………………………………учись, конница.
  
Слышна
………….у заводов
……………………….врага нога нам.
Учись,
……….товарищ,
…………………….владеть наганом.

Не век
………..стоять
………………….у залива в болотце.
Крепите
………….советский флот,
………………………………..краснофлотцы!
  
Битва не кончена,
……………………….только смолкла —
готовься, комсомолец
…………………………….и комсомолка.
  
Сердце
………..республика
………………………..с армией слила,
нету
…….на свете
………………..тверже сплава.
Красная Армия —
……………………….наша сила.
Нашей
………..Красной Армии
………………………………слава!

 …………………..~//~


SOBRE COMO CERTOS SECTÁRIOS

CHAMAM OS OPERÁRIOS PARA DANÇAR

“Nas alas da fábrica têxtil de Khalturin (Leningrado)
disseminou-se o panfleto com uma chamada
para ingressar em certa seita religiosa. 1
Os sectários prometem, a todos que entrarem em sua tribo secreta,
interessantes divertimentos; relações com a ‘boa’ sociedade;
noites com danças (foxtrot e charleston); etc.”

…………………………..(Da carta de um correspondente operário)

Choram
…………na fábrica –
…………………………de tanto dar risada.
Lêem-se as palavras
…………………………da chamada.
Convidam-nos,
…………………..a nós
………………………….os operários,
para um charleston
………………………..dançar
…………………………………com sectários.
A operária
…………….em manto brim,
todo bordado
………………..de corolas.
Quase não na principesca sociedade,
tu assim
…………ingressarás
……………………….para os carolas.
Com um foxtrot desse,
……………………………coração já regozija,
hás de virar
…. ………….oncinha e raposinha,
pernas bambas
………………….com o chicotinho em riste…
Apenas finja
……………….que a cabeça
………………………………..não existe.
Desnecessário
…………………insistir muito.
Operários
……………de todo o mundo,
…………………………………..para o baile!
Entrai
………para a dança,
pés à lambada
…………………e línguas à lambança.

Fácil o baú
……………..abrir do idólatra.
Basta tu
………….lançar a ele
…………………………um americano dólar.

1928

rosta20

   1 Havia na Rússia um grande número de “seitas”* religiosas. A maioria delas se formou no século XVII, após um cisma, na igreja ortodoxa russa, que levou à separação de grupos oposicionistas. O surgimento desses grupos, no seio da cultura camponesa, fez eclodir manifestações de religiosidade popular dos mais diversos matizes que, não obstante a perseguição de que eram vítimas, permaneceram ativas no medievo russo. A Rússia se modernizou de maneira abrupta e desigual; ao mesmo tempo em que nas cidades o movimento operário conduzia a Rússia, à frente de todas as nações, para a vanguarda da revolução socialista (que deveria ser uma superação do modo capitalista de produção), o país mal tivera tempo de superar o sistema feudal (visto que só em 1861 a servidão foi abolida no campo) e no geral continuava um país agrário e regido pelas tradições nacionais, incluindo um folclore muito presente na vida do povo e uma aguda concepção religiosa de mundo. Os acontecimentos históricos, submetidos a uma leitura escatológica pelo campesinato, fizeram multiplicar essas seitas e o número de seus integrantes que, segundo estimou o sociólogo Vatro Murvar, chegaria a ¼ da população russa na virada do século XIX para o XX (Agúrski, 1988, p. 492). Pressentindo que a ruptura revolucionária anunciava um novo mundo prometido, com esperança de cessar o jugo da Igreja, que ia abaixo junto à autocracia, e enfim conquistar a liberdade religiosa, os “sectários” participaram massivamente das revoluções de 1905 e 1917. Contudo, a perseguição voltou durante o regime soviético e, principalmente no período da coletivização forçada do campo entre 1928 e 1931, com a repressão à resistência camponesa, as seitas se dissiparam e muitos de seus fiéis desapareceram nas prisões.

Segundo se pode depreender deste poema, Maiakóvski se refere àquela seita que entrou para a história sob o nome de “flagelantes”, khlisti ou khlistovki. Na língua russa a palavra khlist significa flagelo, chicote. Entretanto, trata-se de uma corruptela do nome Khristi, que significa “Cristos” (era assim que se designavam seus líderes religiosos e profetas. Também em outros grupos existiam esses Cristos russos, um produto sincrético do messianismo herdado da igreja oriental em seu encontro com crenças panteístas remanescentes do antigo paganismo) (Cf. Etkind, 2013). Os rituais de êxtase dos khlisti incluíam manifestações excêntricas, como danças circulares, incorporações, glossolalia; mas os boatos de auto-flagelação e orgias sexuais (assim como o nome atribuído a eles foi, provavelmente, um trocadilho malicioso de seus inimigos) são obra das más línguas.

Por outro lado, Maiakóvski emprega um jogo de palavras entre batist, que designa um tecido conhecido em português, também pelo mesmo nome, e mais comumente por “cambraia” (segundo Houaiss, “tecido muito fino, translúcido e levemente lustroso, de algodão ou de linho, usado em lenços, adornos, roupa íntima feminina”) e baptisti, os cristãos batistas. Os batistas eram listados pelos russos no rol das “seitas” evangélicas, juntamente aos luteranos, adventistas, menonitas, metodistas, testemunhas de Jeová (pelo que se vê, a tolerância religiosa nunca foi, e até hoje não é, o forte da cultura russa). Na tradução, reproduzi esse jogo por meio do par “[tecido bordado de] corolas”, em referência às vestes camponesas, e “carolas”.

Maiakóvski muitas vezes usou de material jornalístico para criação de poesia. Nesse caso, ele se baseia na carta de um “correspondente operário”, um rabkor (sigla de rabotchni korespondiént). Rabkor, na União Soviética daquele tempo, era um operário que redigia artigos para os jornais sobre o cotidiano de sua empresa, o estado da produção, reportava problemas vivenciados pelos trabalhadores, etc. A carta, portanto, do correspondente operário sobre o panfleto dos sectários e a piada que gerou no ambiente da fábrica, revela algo da tensão experimentada por esses grupos religiosos em sua contradição com o ideal de um país cada vez mais avançado na modernidade, na ciência, na técnica industrial, etc. Maiakóvski, um apologeta desse ideal, procura separar, por meio de um chiste, a cultura operária e urbana da camponesa, arcaica, supersticiosa. A incompreensão, que gera a piada, como se os sectários chamassem os operários para um baile (foxtrot e charleston são danças de salão americanas), faz crer que o êxtase religioso, o espírito que animava as danças rituais, cujas raízes se desgarraram da antiga Rússia e não devem encontrar solo na Soviética, tornou-se incompatível com o conjunto da sociedade, perdeu seu sentido sob o novo ritmo da produção e não pode sequer ser reconhecido pelos operários da fábrica.

Mas há razões para crer que a carta do correspondente operário tenha sido inventada por Maiakóvski; nesse caso, o alvo da piada parece ser o poeta Andrei Biéli e seu livro Depois da Estrela [Pósle Zvezdí], publicado em 1923, em cujo prefácio consta o seguinte: “Atrai-me agora um tema diferente: à música como ‘via de iniciação’ sucedeu, para mim, o foxtrot, o boston, o jimmy; uma boa jazz band preferirei ao sino do Parsifal. Gostaria futuramente de escrever versos sob medida para o foxtrot” (Biéli, 1988, p.471). Quando de sua emigração da União Soviética em 1922, Biéli renunciou ao projeto místico que, em sua obra, fora representado principalmente pela influência da antroposofia. Mas foi em A Paloma de Prata [Serebriáni Golúb], seu romance publicado em 1910, que Biéli se interessara pelos flagelantes e o universo do sectarismo russo, tudo isso o que chamou “via de iniciação”, ao sugerir que o êxtase religioso das danças rituais se desencantava em jazz.

* Optei por traduzir literalmente do jargão russo sekta. Já o termo sektanti [sectários] foi ligeiramente alterado por Maiakóvski, no título do poema, para rimar com tantsi [danças], sektantsi.

О ТОМ, КАК НЕКИЕ СЕКТАНТЦЫ
ЗОВУТ РАБОЧЕГО НА ТАНЦЫ…

В цехах текстильной фабрики им.
Халтурина (Ленинград) сектанты разбрасывают
прокламации с призывом вступить в религиозные
секты. Сектанты сулят всем вступившим в их
секты различного рода интересные развлечения;
знакомство с “хорошим” обществом, вечера с
танцами (фокстротом и чарльстоном) и др.

………………………………………(Из письма рабкора).

От смеха
…………..на заводе –
…………………………..стон.
Читают
…………листья прокламаций.
К себе
………сектанты
……………………на чарльстон
зовут
………рабочего
…………………..ломаться.
Работница,
………………манто накинь
на туалеты
………………из батиста!
Чуть-чуть не в общество княгинь
ты
…..попадаешь
…………………..у баптистов.
Фокстротом
………………..сердце веселя,
ходи себе
……………лисой и пумой,
плети
………ногами
…………………вензеля,
и только…
……………..головой не думай.
Не нужны
…………….уговоры многие.
Айда,
………бегом
………………на бал, рабочие!
И отдавите
………………в танцах ноги
и языки
………….и прочее.

Открыть нетрудно
………………………..баптистский ларчик –
американский
…………………..в ларце
……………………………..долларчик.

1928

…………….~//~


ASSISTÊNCIA AO MINISTÉRIO

DOS ARTISTAS INSALUBRES
SOBRE O INCÔMODO MISTÉRIO,
O MISTÉRIO DE SEU CLUBE.

“A federação dos escritores soviéticos obteve uma casa
e organizará em Moscou o primeiro clube dos escritores” 1

…………………………………………………..(Notícia de jornal)

Não sei –
…………..se canto,
………………………se danço,
o sorriso
………….do rosto não sai.
Eis que enfim
………………..também terão
…………………………………..os escritores
o seu clube!
……………..Boa nova…
…………………………….Organizai!
Que desabroche
……………………e não broche
…………………………………….vossa trupe.
Escolher
………….bela mobília,
…………………………..porém sem exacerbar:
o gasto veludo
………………….de preço modesto.
Sentar
……….e com todo conforto
………………………………….por horas ouvir
do camarada Averbakh
……………………………a palestra.
A seguir,
………….em paixões imersos
os olhinhos
 ……………..se reviram
……………………………para dimensões outras:
simplório e ingênuo,
………………………….Moltchánov
………………………………………….lê versos
sob aplausos das garotas.
Cada qual
……………se sinta bem
…………………………….e à vontade.
E se levante –
…………………no momento crucial –
Vsiévolod Ivánov:
……………………..com seus contos
…………………………………………..nos agrade.
O século
………….em casinhas de estorninho
…………………………………………….não sentemos
como sentam
………………..os poetas
…………………………….nos saraus.
Quereis
…………ter com Tolstói
……………………………..e Oriéchin,
conversar
…………..entre garrafas
……………………………..de cerveja?
Simplória bebida,
……………………..a comida – igual,
como servida
………………..na bandeja.
Entreguemos
………………..a cantina
…………………………….à Narpita – 2
nada há
…………para o jantar!
O foxtrot
………….não se repita
e o jazz
………..com seus pandeiros
………………………………….não estorve
nossa obra…
……………….E com vocês
……………………………….conversará
o camarada Rodóv,
……………………….que ao tédio
………………………………………..não se dobra.
Que não haja
………………..esses jogos
……………………………….de bilhares,
nem ouçamos
…………………as bobagens
…………………………………dos inatos menestréis,
esses bardos vermelhos
……………………………..decorados de lauréis.
Tudo isso derrubem!
…………………………Ou deixem
……………………………………….que desabe
como os sábios
………………….escritores
………………………………no sofá.
Eis que vocês
………………..organizaram
…………………………………o tal clube…
E eis que eu
………………não tenho pernas
para os ver
…………….filosofar.

1928

rosta18

1 No título original em língua russa, Maiakóvski se refere às instituições soviéticas Narkompros e Glaviskusstvo, abreviações respectivamente de Narodni Komissariat Prosvechtchenia (Comissariado Popular da Educação) e Glavnoie Upravliénie po Diélam Khudójestvennoi Literaturi i Iskusstvo (Diretoria Geral para Assuntos de Literatura e Arte). A Glaviskusstvo, enquanto órgão governamental, consistia em um segmento da Narkompros. Já na epígrafe do poema se menciona uma associação literária, a Federação dos Escritores Soviéticos (FOSP). Criada em 1926 pela fusão da Associação dos Escritores Proletários de Toda a Rússia (VAPP) com a Sociedade dos Escritores Camponeses de Toda a Rússia (VOKP) e a União dos Escritores de Toda a Rússia (VSP), a “federação” centralizava uma série de organizações literárias que existiam na época e que, mais alinhadas com o governo, começavam a dar seus passos para trás. Maiakóvski então organizava-se na LEF, Assotsiatsia Rabotnikov Liévovo Fronta Iskusstva (Associação dos Trabalhadores da Frente de Esquerda da Arte). Como máximo representante do futurismo russo, forjado nos dias gloriosos da Revolução, Maiakóvski assumiu uma postura radical de denúncia contra a estagnação em que caíam as instituíções artísticas, um prenúncio da guinada conservadora nos órgãos estatais que, não demoraria muito, imporiam aos artistas mais experimentais uma ferrenha censura e perseguição. No tempo em que o poema foi escrito (1928), perdurava certa pluralidade de idéias, o suficiente para os poetas trocarem essas farpas; foi nesse contexto de debates ideológicos em torno da arte soviética que ocorreram as disputas entre Maiakóvski e seus rivais na vida artística e política. Os escritores e críticos de visão mais estreita, muitos deles invejosos de seu sucesso com as massas, dirigiam ataques a Maiakóvski nos jornais, infiltravam provocadores em suas apresentações, para o insultar. O poeta também era provocador, respondia brilhantemente aos bilhetinhos do público durante os debates em auditórios e golpeava seus adversários com toda a fúria de seus versos. Maiakóvski satirizou a burocratização da arte soviética e seu gradativo aburguesamento, do qual o “Clube” de escritores seria, em sua opinião, um sintoma. Neste poema, dá nome a alguns de seus adversários: Leopold Averbakh, Ivan Moltchánov, Vsiévolod Ivánov, Alexei Tolstói, Piótr Oriéchin. Sua rivalidade com Moltchánov, por exemplo, foi tema de disputas em jornais, onde Maiakóvski publicou poemas como Carta à amada de Moltchánov ou Reflexões sobre Ivan Moltchánov e a poesia. Quanto ao camarada (Semion Abramovitch) Rodov, formou um bloco à esquerda da RAPP (Associação Russa dos Escritores Proletários), quando esta se dividiu em 1926; por isso ganha uma menção positiva de Maiakóvski, que tem muitos inimigos na RAPP. Em 1929 o Comissário do Povo para a Educação, Anatoli Lunatchárski, sob cuja proteção Maiakóvski escrevia e a quem se devia a permanência de certas liberdades de expressão, foi substituído. Após as dissidências no seu próprio grupo e sentindo o cerco se fechar, Maiakóvski dissolveu a LEF e ingressou na RAPP. Isso não o impediu de ser ainda mais hostilizado pelos seus companheiros de ofício. A exposição organizada por Maiakóvski aos vinte anos de sua carreira literária, montada nas salas do Clube dos Escritores em Moscou, recebeu um duro boicote em fevereiro de 1930. Um mês e meio depois, seria também em uma dessas salas onde, ao longo de três dias ininterruptamente, as multidões passariam para se despedir do poeta que, de uma vez por todas, fechou seus ouvidos para os insultos. Em seu livro Maiakóvski, o Poeta da Revolução, Aleksandr Mikhailov registra um detalhe hilário da exposição, em que o poeta ridiculariza o ambiente almofadinha do Clube: “Maiakóvski introduziu um elemento de humor na organização e, em cada cupido modelado sobre as portas da segunda sala, colocou um lenço de pioneiro* de papel vermelho brilhoso” (Mikhailov, 2008, p. 506).**

* Pioneiros, organizações de comunistas-mirins nas escolas primárias da União Soviética.

** Sobre o debate de Maiakóvski e os futuristas no ambiente artístico aos primeiros anos da União Soviética, nunca é demais recomendar a obra de Boris Schnaiderman, A Poética de Maiakóvski através de sua Prosa, que inclui vários de seus manifestos traduzidos e comentados.  

2 Narpit, abreviatura de Narodnoie Pitanie (Alimentação Popular), projeto para a criação de cantinas populares com refeições a preços acessíveis para os trabalhadores (o “bandejão” soviético). A referência torna a aparecer no poema a seguir, O mais Sério Conselho a uma Dona de Casa.

ПОМОЩЬ НАРКОМПРОСУ,
ГЛАВИСКУССТВУ В КУБЕ,
ПО ЖГУЧЕМУ ВОПРОСУ,
ВОПРОСУ О КЛУБЕ

Федерация советских писателей получила дом
и организует в Москве первый писательский клуб.

……………………………………….. (Из газет).

Не знаю –
…………….петь,
……………………плясать ли,
улыбка
………..не сходит с губ.
Наконец-то
……………….и у писателя
будет
………свой
…………….клуб.
Хорошая весть.
Организовать
так,
……чтобы цвесть
и не завять.
Выбрать
………….мебель
……………………красивую самую,
оббитую
…………..в недорогой бархат,
чтоб сесть
…………….и удобно
…………………………слушать часами
доклад
………..товарища Авербаха.
Потом,
………..понятен,
…………………….прост
…………………………….и нехитр,
к небу
……….глаза воздевши,
пусть
………Молчанов
……………………читает стихи
под аплодисменты девушек.
Чтоб каждому
………………….чувствовалось
………………………………………хорошо и вольно,
пусть –
…………если выйдет оказийка –
встанет
…………и прочитает
………………………….Всеволод Иванов
пару, другую рассказиков.
Чтоб нам не сидеть
…………………………по своим скворешням –
так,
……как писатель
……………………..сидел века.
Хочется
………….встретиться
…………………………..с Толстым,
………………………………………….с Орешиным
поговорить
………………за бутылкой пивка.
Простая еда.
………………..Простой напиток.
Без скатертей
………………….и прочей финтифлюжины.
Отдать
………..столовую
……………………..в руки Нарпита –
нечего
………..разводить ужины!
Чтоб не было
…………………этих
……………………….разных фокстротов,
чтоб джазы
………………творчеству
………………………………не мешали, бубня, –
а с вами
………….беседовал бы
…………………………….товарищ Родов,
не надоедающий
………………………в течение дня.
Чтоб не было
…………………этих
……………………….разных биллиардов,
чтоб мы
………….на пустяках не старели,
а слушали
…………….бесхитростных
…………………………………красных бардов
и прочих
…………..самородков менестрелей.
Писателю
……………классику
………………………..мил и люб
не грохот,
…………….а покой…
Вот вы
………..организуйте
…………………………такой клуб,
а я
….туда…
…………..ни ногой.

1928

……………….~//~


O MAIS SÉRIO CONSELHO A UMA DONA DE CASA

A dona de casa
………………….camarada Brocolina 1
está hoje
…………..no pior
…………………….de seus humores.
E como haveria de ser diferente?
Na cozinha
…………….empesteada de vapores,
dezessete monstruosas
…………………………….e ferventes barbatanas
arreganham
………………uma multidão de dentes.
Dezessete
……………dos piores fogareiros
fumegando
……………..como fossem dezessete
……………………………………………os Vesúvios.
Da testa enxugando
………………………..o suor no avental,
camarada Brocolina
………………………..dá um grito
……………………………………….insolúvel:
“Tragam,
…………..sem elevador,
…………………………….ao 5º andar
18 quilos
…………..de batata!”
As rixas,
………….o lixo,
………………….os mexericos:
desde a louça acumulada
………………………………umas antenas se esticam…
De repente, uma delas
……………………………bate asas
………………………………………..e decola.
Pois comam a sopa
……………………….apesar das baratas!
Mal se encontra
……………………onde está a caçarola…
Esfregar
…………o dia inteiro
…………………………essas panelas!
Para os livros
………………..e jornais
……………………………o tempo falta.
Camarada Brocolina
…………………………já foi bela…
Porém isto não se enxuga:
seu rosto
…………..precoce
…………………….se enche de rugas!
São os ossos
………………do ofício?
O teu sofrimento é nosso,
camarada,
……………e todos têm a ver com isso.
Prometemos,
……………….nem que hajamos de comprar
promissórias de industrialização, 2
que uma fábrica ergueremos
……………………………………de alimento.
Nas cantinas da Narpita
………………………………o operário tome assento
e sem esforço nem sujeira
………………………………..a comer
………………………………………….na mesa bata:
“Eis uma bela refeição,
…………………………….boa e barata!”

1928

rosta40

1 Borchtchina, o nome bufo usado por Maiakóvski para designar sua personagem neste poema, deriva de borchtch, sopa de beterraba tradicional da culinária russa.

2 Zaióm industrializatsia, promissórias ou, mais ao pé da letra, “empréstimos de industrialização”, foi um sistema de crédito financeiro adotado pelo governo soviético em meados da década de 1920. Tinha por objetivo acelerar o processo de industrialização. Com o isolamento econômico do país pela imposição de sanções internacionais, ao passo em que se recuperava da crise após a guerra civil, o governo procurou captar recursos internamente mediante o investimento da população. Além de debater a condição da mulher sob a opressão do trabalho doméstico e a esperança de sua emancipação pela modernização da vida, que a indústria deveria prover, este poema de Maiakóvski é uma peça publicitária para a campanha de crédito financeiro. Em contrapartida, no lugar da cozinha improvisada nas habitações coletivas, a Narpit representa os benefícios da industrialização, a serem usufruídos pelo povo. Esquerdista radical, Maiakóvski sentia as contradições da Nova Política Econômica (NEP) e destilou o melhor de seu veneno (por exemplo, nos personagens de O Percevejo, 1928) contra a capitalização do Estado soviético. Por outro lado, sempre se dispôs a cooperar com a propaganda. O esquema propagandístico deste poema fica mais claro em vista de outro, escrito no mesmo ano de 1928, Produzam-se automóveis!, em que Maiakóvski se dirige aos pedestres e usuários do bonde e diz:

(…)
Inútil é
……….fingir pobreza
………………………..e por aí bufar a pé.
Agora falha-te a certeza?
Acaso pensas
……………….que um sonho
…………………………………isto é?
Tu hás de ter
………………um velocípede,
hás de ter
…………..um automóvel.
Que assim seja,
………………….se desejas
………………………………esta realização.
Pois participe de
…………………..uma iniciativa nova:
compre promissórias,
…………………………promissórias de industrialização. (…)

ВАЖНЕЙШИЙ СОВЕТ ДОМАШНЕЙ ХОЗЯЙКЕ

Домашней хозяйке
…………………………товарищу Борщиной
сегодня
…………испорчено
………………………..все настроение.
А как настроению быть не испорченным?
На кухне
…………..от копоти
…………………………в метр наслоения!
Семнадцать чудовищ
……………………………из сажи усов
оскалили
…………..множество
………………………….огненных зубьев.
Семнадцать
……………….паршивейших примусов
чадят и коптят,
……………………как семнадцать Везувиев.
Товарищ Борщина
………………………..даже орала,
фартуком
……………пот
…………………оттирая с физии –
«Без лифта
……………..на 5-й этаж
……………………………..пешкодралом
тащи
……..18 кило провизии!»
И ссоры,
………….и сор,
………………….и сплетни с грязищей,
посуда с едой
………………….в тараканах и в копоти.
Кастрюлю
…………….едва
……………………под столом разыщешь.
Из щей
………..прусаки
……………………шевелят усища –
хоть вылейте,
………………….хоть с тараканами лопайте!
Весь день
……………горшки
………………………на примусе двигай.
Заняться нельзя
…………………….ни газетой,
…………………………………….ни книгой.
Лицо молодое
………………….товарища Борщиной
от этих дел
………………преждевременно сморщено.
Товарищ хозяйка,
……………………….в несчастье твое
обязаны
………….мы
………………ввязаться.
Что делать тебе?
……………………..Купить заем,
Заем индустриализации.
Займем
…………и выстроим фабрики пищи,
чтобы в дешевых
………………………столовых Нарпита,
рассевшись,
……………….без грязи и без жарищи,
поев,
……..сказали рабочие тыщи:
«Приятно поедено,
…………………………чисто попито».

1928

[Trecho de…]

ДАЕШЬ АВТОМОБИЛЬ!

(…)
Нечего прибедниваться
……………………………….и пешком сопеть!
У тебя —
…………..не в сон, а в быль —
должен
…………быть
………………..велосипед,
быть
……..автомобиль.
Чтоб осуществилось
…………………………..дело твое
и сказкой
……………не могло казаться,
товарищ,
……………немедля
……………………….купи заем,
заем индустриализации.   (…)

………………..~//~


UMA DOENÇA UNIVERSAL

A Spartakiada Vermelha 1
………………………………a todo mundo contagia.
Nas casas
…………..o esporte
……………………….introduz-se hoje em dia.
O fortão e o fracote,
………………………..rapagão e rapazelho,
todo e cada cidadão
………………………..já mal contém a alegria.
Dispensando
……………….o caderno escolar
e espalhando pelo chão
…………………………….sumo vermelho,
o futebol
………….vês o filho
……………………….jogar
com a redonda melancia.
Mais roliço que a caleça,
alçando vôo
………………como fosse uma andorinha,
encontra forças não sei onde
o pai,
……..que tão depressa
uma corrida venceria
………………………….contra o bonde.
E o que é
…………..esse de águas
…………………………….burburinho,
a tarde inteira,
………………….no apartamento ao lado?
Vai saber nosso vizinho
no aperto da banheira
……………………………se meteu
numa competição a nado.
E para a filha
……………….com a palma
………………………………..caso acenes,
espumando atrás da mesa
………………………………..ela saca uma gaveta
para um súbito duelo
…………………………..de tênis.
Já mamãe
……………errou a curva,
……………………………..extraviou-se na loucura!
A empunhar,
……………….como uma lança,
……………………………………..o guarda-chuva,
o retrato na parede ela perfura.
E caso um forte estardalhaço
na cozinha
…………….tu ouvires,
é que tenta
……………..a cozinheira
……………………………..com o pires
treinar
……….lançamento de disco.
A esse encontro de família
…………………………………não me arrisco.
E ao sossego
……………….dê adeus,
……………………………se a doença prosseguir.
E, a despeito
……………….do verão,
……………………………para melhor correr daqui
deixo no jeito,
…………………ao alcance da mão,
………………………………………….meu esqui.
Nas casas
……………o esporte
………………………..introduz-se hoje em dia.
O fortão e o fracote,
………………………..rapagão e rapazelho,
a todo mundo contagia
…………………………….a Spartakiada Vermelha.

1928

rosta26

 1 Krasnaia Spartakiada, Spartakiada Vermelha. Spartakiadas eram campeonatos desportivos internacionais organizados pela Sportintern, associação ligada à Comintern, Internacional Comunista. A designação deriva do nome Spartaco, gladiador romano líder da maior revolta de escravos que Roma conheceu, no século I a.C. Spartaco foi representado na cultura soviética como o herói em que se prefiguraram, na antigüidade, os ideais do proletariado na luta de classes (conferir, por exemplo, o ballet de mesmo nome composto por Aram Khatchatúrian). A primeira das Spartakiadas aconteceu em Moscou, no verão de 1928. Maiakóvski voltou da turnê na Criméia para Moscou no dia 11 de agosto e presenciou essa “febre do esporte” na cidade. O evento abrangia diversas modalidades desportivas e procurava competir com os Jogos Olímpicos Internacionais. No inverno de 1928 a Spartakiada foi sediada em Oslo, no verão de 1931 em Berlin, em 1937 na Bélgica. Mais tarde a Sportintern se dissolveu e a União Soviética aderiu aos Jogos Olímpicos. O evento perdeu então sua dimensão internacional, dando lugar às “Spartakiadas dos Povos da União Soviética”.

ПОВАЛЬНАЯ БОЛЕЗНЬ

Красная Спартакиада
населенье заразила:
нынче,
………..надо иль не надо,
каждый
………….спорт
………………….заносит на дом
и тщедушный
………………….и верзила.
Красным
…………..соком
…………………..крася пол,
бросив
………..школьную обузу,
сын
……завел
…………..игру в футбол
приобретенным арбузом.
Толщину забыв
……………………и хворость,
легкой ласточкой взмывая,
папа
……..взял бы
………………..приз на скорость,
обгоняя все трамваи.
Целый день
……………….задорный плеск
раздается
…………….в тесной ванне,
кто-то
……….с кем-то
…………………..в ванну влез
в плавальном соревнованьи.
Дочь,
………лихим азартом вспенясь,
позабывши
………………все другое,
за столом
……………играет в теннис
всем
……..лежащим под рукою.
А мамаша
…………….всех забьет,
ни за что не урезоните!
В коридоре,
……………….как копье,
в цель
……….бросает
………………….рваный зонтик.
Гром на кухне.
…………………..Громше,
………………………………больше.
Звон посуды,
…………………визгов трельки,
то
….кухарка дискоболша
мечет
……….мелкие тарелки.
Бросив
…………матч семейный этот,
склонностью
…………………к покою
…………………………….движим,
спешно
…………несмотря на лето,
навострю
……………из дома
……………………….лыжи.
Спорт
……….к себе
………………..заносит на дом
и тщедушный
………………….и верзила.
Красная Спартакиада
населенье заразила.

1928

…………. ~//~


A GALOPE NA GARUPA DOS POETAS

Na revista
……………“Krasnaia nov”
………………………………..certo Tálnikov 1
escreve,
…………jocoso e audaz,
……………………………..de meus poemas
que a lira
…………..eu troquei
…………………………pelo lambaz
e agitador
……………na Europa
…………………………minha pena
sem propósito agitei
………………………….às estribeiras,
como só palavra imprópria
………………………………….eu dizia
e por acaso,
……………..se avistasse alguma freira
(ou quem sabe
…………………alguém do naipe
……………………………………….de Chaliápin)
redobrava a grosseria…
……………………………..Com a barba
vemos, pois,
……………….crescer também
…………………………………….sabedoria.

Ensinai-me dois mais dois,
………………………………….cabeças cultas
que adorais
……………..sob a tutela
……………………………..da querida governanta
passear
………..de calças curtas.
A patifes e moleques
………………………….eu sem dó
reduziria esses senhores,
……………………………….numa pincelada só.
Porém não quero praguejar,
…………………………………..pelo contrário –
o que desejo é compreender
…………………………………..e perdoar o adversário.
E por que ofenderia esses boçais?
Vinde aprender,
…………………..almofadinhas,
……………………………………..escutai!
Pudesse a governanta
…………………………..informar-vos
(sobre isso também cantam
…………………………………..as canções),
saberíeis
………….que há dez anos
……………………………….entre nós
ocorreu a maior
……………………das revoluções.
Foi a lira
………….esmagada
……………………….pelo aço
…………………………………..dos fuzis.
E, levando embora
………………………seus líricos dons,
escapuliu Severiánin,
………………………….escapuliu Balmont 2
e todos vós
……………..que só melaço
………………………………..produzis.
Lambaz, agitação
……………………..na Europa
…………………………………..não se atura.
Tudo o que têm
…………………..é alta costura
…………………………………….de baixa estatura.
Para vós
………….e para nós,
para ambos o que havia
eram coreus,
……………….eram iambos…
Pressionava, todavia,
……………….    ………o exército branco,
de norte a sul
………………..do caído império,
e precisávamos gritar
a turbilhões,
……………….a canhões
…………………………….e impropérios.
Doces versos
……………….podeis ler
…………………………….de cortesãs
e entreter vossas visitas
……………………………..recostados em divãs…
Ensinou-nos
……………….a história
……………………………a escrever
como diante
……………….de uma grande escarradeira –
e na escória
……………..escarrar
………………………..há quem não queira?
Nós te vamos perseguir
…………………………….por todos os países
onde pises
…………….tu, larápio
que de dólares nutrido,
e teus queridos
…………………..Chaliápins.

Não às velhas
………………..vossas trovas
lançarei
…………a minha âncora –
às lustrosas orelhas
………………………..meus versos estorvam,
um escândalo
………………..as rimas
…………………………..às escâncaras.
A esmo não ando
……………………..de queixo caído
pelos vossos coliseus,
…………………………..museus
…………………………………….e templos.
Pasmem.
…………..Que a revolução
………………………………..não vos dê paz nem
o marasmo
……………..de outros tempos.
Das maravilhas que criei
………………………………não me envaideço:
dos poemas
………………penso às vezes
que é como
……………..se mordesse,
se apenas mordesse
………………………..o pior dos burgueses.
A meu ver,
…………….é um medíocre confesso
o poeta
………..que ao século
………………………….seus olhos arregala.
Adeus Tálnikov,
…………………..que tenho pressa!
Chilreie
…………sem mim
……………………..em seu traje de gala.
A galope
………….na garupa
……………………….dos poetas,
dar com eles
……………….testa a testa.
Com os versos
…………………enlaçá-los,
………………………………..feito asnos.
E a quê
………..há de servir
……………………….herança desta?
Nas revisas
……………..vosso poço
……………………………de marasmo.

1928

rosta22

1 Maiakóvski colaborava com a revista Krasnaia nov desde sua fundação em 1921. Em agosto de 1928 a mesma revista publicou de um jovem escritor, David Tálnikov, um artigo bombástico onde criticava as crônicas de Maiakóvski sobre suas viagens ao estrangeiro, referindo-se a elas como “falsidade vermelha”. Maiakóvski demitiu-se da revista e fez publicar nos jornais este seu poema.    

2 A Revolução de 1917 e os anos da guerra civil provocaram uma “onda” de emigrantes que saíram do país para tentar a vida no estrangeiro. A comunidade dos emigrados russos era especialmente numerosa em certos países como a França e os Estados Unidos. Entre eles havia ex-oficiais do Exército Branco derrotados na guerra, ex-nobres e ex-donos de terra, famílias que tiveram posses ou cargos importantes no Império russo, muitos clérigos e fiéis ortodoxos, perseguidos políticos do novo regime… Havia ainda uma variada gama de artistas e intelectuais de opiniões diversas (na época começavam a surgir os eurasianos e russos emigrados simpatizantes do bolchevismo). Maiakóvski viajou para a América (Cuba, México, Estados Unidos)* e Europa (Espanha, França, Alemanha, Inglaterra…) como uma espécie de embaixador da cultura soviética. A encargo da ROSTA, companhia de notícias e propaganda estatal, o poeta projetava seus cartazes – Maiakóvski era artista plástico de formação –, lia seus poemas, discursava, respondia a entrevistas, etc. Naturalmente, deparou-se com artistas refratários aos ideais de Outubro e ao futurismo engajado; o poeta cita os nomes de alguns: Fiórdor Chaliápin, Ígor Severiánin, Konstantin Balmont; todos estes que, àquele tempo, viviam em Paris.

* Conferir o livro de Maiakóvski Minha Descoberta da América, traduzido para a língua portuguesa por Graziela Schneider (Martins Fontes, 2007).

ГАЛОПЩИК ПО ПИСАТЕЛЯМ
  
Тальников
……………..в «Красной нови»
………………………………………про меня
пишет
……….задорно и храбро,
что лиру
…………..я
……………..на агит променял,
перо
……..променял на швабру.
Что я
………по Европам
……………………….болтался зря,
в стихах
………….ни вздохи, ни ахи,
а только
………….грублю,
…………………….случайно узря
Шаляпина
……………..или монахинь.
Растет добродушие
………………………….с ростом бород.
Чего
……..обижать
…………………маленького?!
Хочу не ругаться,
………………………а, наоборот,
понять
…………и простить Тальникова.
Вы молоды, верно,
…………………………сужу по мазкам,
такой
……….резвун-шалунишка.
Уроки
……….сдаете
………………..приятным баском
и любите
……………с бонной,
…………………………на радость мозгам,
гулять
………..в коротких штанишках.
Чему вас учат,
…………………..милый барчук, –
я
..вас
……..расспросить хочу.
Успела ли
…………….бонна
…………………….вам рассказать
(про это –
……………..и песни поются) –
вы знаете,
…………….10 лет назад
у нас
……..была
…………….революция.
Лиры
………крыл
……………..пулемет-обормот,
и, взяв
………..лирические манатки,
сбежал Северянин,
…………………………сбежал Бальмонт
и прочие
……………фабриканты патоки.
В Европе
……………у них
……………………ни агиток, ни швабр –
чиста
……….ажурная строчка без шва.
Одни –
…………хореи да ямбы,
туда бы,
………….к ним бы,
………………………..да вам бы.
Оставшихся
……………….жала
………………………белая рать
и с севера
…………….и с юга.
Нам
…….требовалось переорать
и вьюги,
…………..и пушки,
……………………….и ругань!
Их стих,
………….как девица,
………………………….читай на диване,
как сахар
…………….за чаем с блюдца, –
а мы
……..писали
………………..против плеваний,
ведь, сволочи –
……………………..все плюются.
Отбившись,
……………….мы ездим
…………………………….по странам по всем,
которые
…………..в картах наляпаны,
туда,
……..где пасутся
……………………..долларным посевом
любимые вами –
………………………..Шаляпины.
Не для романсов,
……………………….не для баллад
бросаем
…………..свои якоря мы –
лощеным ушам
…………………….наш стих грубоват
и рифмы
……………будут корявыми.
Не лезем
……………мы
………………..по музеям,
на колизеи глазея.
Мой лозунг –
………………….одну разглазей-ка
к революции лазейку…
Теперь
………..для меня
…………………….равнодушная честь,
что чудные
……………….рифмы рожу я.
Мне
…….как бы
………………только
………………………..почище уесть,
уесть покрупнее буржуя.
Поэту,
……….по-моему,
……………………..слабый плюс
торчать
………….у веков на выкате.
Прощайте, Тальников,
……………………………..я тороплюсь,
а вы
……..без меня чирикайте.
С поэта
…………и на поэта
………………………..в галоп
скачите,
…………..сшибайтесь лоб о лоб.
Но
….скидывайте галоши,
скача
……….по стихам, как лошадь.
А так скакать –
…………………….неопрятно:
от вас
……….по журналам…
…………………………….пятна.
  
1928

………………~//~


JÚBILO DAS ARTES

Pobre,
……….pobre Púchkin!
Nas rosadas orelhinhas
……………………………..de uma dama
os seus versos
…………………se derramam.
Que à alta
……………e restrita
……………………….sociedade,
aos salões de visita
……………………….ele brade.
Tenho pena
………………desses lábios
que entre alfombras e almofadas
…………………………………………se consomem.
Para eles
………….eu daria
…………………….um microfone.

Mússorgski?
……………….Pobre, pobre dele!
Esse som de pianola
…………………………de que vai adiantar?
Que rodopia no aperto
…………………………….e nas cortinas se enrola
dessas salas de concerto
………………………………ou de jantar.

Pobre,
……….pobre Herzen!
Como sino na campana,
………………………………seu vibrante miocárdio.

À toda a Rússia vibraria,
………………………………se houvesse então
……………………………………………………….o rádio.

Pois jubilem de alegria,
escritores,
……………musicistas,
………………………….artesãos do pensamento!
Hoje o rádio
………………os ressuscita
……………………………….do mortal esquecimento!
As palavras de ordem
…………………………..e canções hoje correm
pela inteira extensão
………………………….do mapa mundi. 1
Próximos estamos
………………………das orelhas
……………………………………..de milhões –
o brasileiro,
……………..o esquimó,
……………………………o espanhol,
…………………………………………..o urdmurti.
Abaixo
………..os estofados
…………………………dos salões!
Que murmure
…………………solitário
…………………………….o bacharel…
Estou contente
…………………..por vivermos neste tempo
em que se canta
…………………..pelos céus.

1928

rosta21

1 Aleksandr Mikhailov relata o seguinte episódio:
  
Vladímir Vladímirovitch [Maiakóvski] se apresentava com a leitura de poemas no rádio. Tal possibilidade de se comunicar com um público grande ainda o seduzia. Perguntou ao diretor da rádio se muita gente iria ouvi-lo. A resposta foi solene: ‘O mundo inteiro!’ Maiakóvski respondeu: ‘Não preciso de mais’” (Mikhailov, 2008, p. 476)
  
СЧАСТЬЕ ИСКУССТВ
  
Бедный,
………….бедный Пушкин!
Великосветской тиной
дамам
……….в холеные ушки
читал
……….стихи
……………….для гостиной.
Жаль –
…………губы.
Дам
…….да вон!
Да в губы
……………ему бы
да микрофон!
  
Мусоргский –
………………….бедный, бедный!
Робки
……….звуки роялишек:
концертный зал
……………………..да обеденный
обойдут –
…………….и ни метра дальше.
  
Бедный,
………….бедный Герцен!
Слабы
……….слова красивые.
По радио
…………..колокол-сердце
расплескивать бы
………………………..ему
………………………………по России!
 
Человечьей
………………отсталости
………………………………жертвы –
радуйтесь
…………….мысли-громаде!
Вас
……из забытых и мертвых
воскрешает
………………нынче
………………………..радио!
Во все
……….всехсветные лона
и песня
…………и лозунг текут.
Мы
……близки
……………..ушам миллионов –
бразильцу
……………..и эскимосу,
………………………………испанцу
…………………………………………..и вотяку.
Долой
……….салонов жилье!
Наш день
……………прекрасней, чем небыль…
Я счастлив,
………………что мы
………………………..живем
в дни
………распеваний по небу
  
1928

………………~//~  


SOBRE AS DIFERENÇAS DE GOSTO

Põe-se
……….o cavalo ao camelo
………………………………..a aborrecê-lo:
“Não fosse o bastante,
……………………………um jegue-gigante!”
Põe-se
……….o camelo ao cavalo
………………………………..a estorvá-lo:
“Acaso um cavalo tu és?
………………………………Está claro que não.
Dentre os mais reles pangarés,
………………………………………um camelo-anão”.
E só o deus,
………………velho barbudo,
………………………………….compreende:
Eles são,
………….mais do que tudo,
………………………………….de espécies diferentes.

1928

rosta13

СТИХИ О РАЗНИЦЕ ВКУСОВ

Лошадь
………..  сказала,
………….  ……….взглянув на верблюда:
«Какая
………..гигантская
……………………….лошадь-ублюдок».
Верблюд же
……………….вскричал:
……………………………..«Да лошадь разве ты?!
Ты
…..просто-напросто —
………………………………верблюд недоразвитый».
И знал лишь
………………..бог седобородый,
что это —
……………животные
………………………….разной породы.

1928

……………~//~


CARTA DE PARIS AO CAMARADA KOSTRÓV SOBRE A NATUREZA DO AMOR

Queira desculpar-me,
…………………………..camarada Kostróv, 1
com sua inconfundível
…………..                   ….presença de espírito,
que hoje
………….eu desperdice essas estrofes

em Paris
………….neste imprevisto jorro lírico.

Caso assim imaginares:
……………………………..um poeta
………………………………………….desse porte,
como pode
…………….assim portar-se?
Belo talhe,
…………….toda ornada
…………………………….de pelagens
……………………………………………e colares,
no recinto entra uma dama.
Devo a verdade informar-lhe:
Camarada!
…………….Eu na Rússia
……………………………..já galguei o rol da fama.
Já tive
………as mais belas
………………………..garotas.
Todas elas
…………….dos poetas
………………………….se enamoram.
Bem mais que cantadas marotas,
apreciam
…………..o vigor
…………………….da voz sonora.
Mas a mínima não dou
…………………………….a passageiros sentimentos, –  
para isso
…………..estou já gasto.
Eu, ferido
……………para sempre
…………………………….de amor,
a muito custo
…………………que me arrasto.
O amor não meço pelo casamento.
Deixou de amar?   
…………………….Até nunca mais!
Da altura em que estou,
……………………………..camarada,
eu
….nas cúpulas de tuas catedrais
lanço celeste
……………….cusparada.
As mulheres,
……………….custaria conquistar-lhes?
Se quiseres
……………..entrar em detalhes,
a zombar
…………..livre se sinta,
o nome meu
………………no mundo caia.
Eu
….no auge dos meus trinta
não me rendo
…………………a qualquer rabo de saia.
Não se pode
………………com carvões
……………………………….abrasar,
ferver tampouco
……………………o amor
……………………………..em samovar.
Às montanhas
………………….do meu peito
e à selva dos cabelos
………………………….o amor se sobrepôs.
Se quiseres
……………..do amor
………………………..o meu conceito,
ei-lo pois:
……………só poderei acreditar
em um amor
……………….que força tenha
de a noite
………,…..atravessar
…………………………como relâmpago
e no golpe
…………….do machado
…………………………….cortar lenha
como se de brincadeira
…………………………….na vereda do meu âmago.
Amar
……..é despencar
……………………..pelos buracos do lençol –
cair do sol
……………e não da cama!
Enciumar-se de Copérnico
e não
……..de qualquer verme com
dinheiro e belas damas.
Amor
……..é o que age
……………………revivendo as engrenagens 
no motor
…………..do coração.
Tu rompeste
……………….com Moscou
………………………………..a ligação…
Os anos passam,
……………………a distância se amplia…
Poderias
………….sobre isso
……………………….dar alguma explicação?
Do inferno
…………….o fosso
………………………aos celestes
……………………………………..azuis, –
poeta não fosse,
……………………eu astrônomo seria.
Já a rua alvoroçou-se,
…………………………..o trânsito flui.
Eu vou
……….no caderno
………………………escrevendo poesia
e, por mais
…………….que pela via
…………………………….os carros zanzem,
não o vão deitar por terra.
Se alguém
……………me vê na praça:
…………………………………esse aí
…………………………………………está em transe!
De idéias e visões
……………………..toda a massa
que no crânio
………………..até as tampas
………………………………….se encerra.
E quem sabe até num urso
…………………………………crescerá um par de asas?
De repente,
……………..no ordinário refeitório,
……………………………………………um susto:
aquilo tudo que fervia
…………………………..entre a alma e a caderneta
da garganta
………………às estrelas
…………………………….extravaza:
um cometa
……………..o verbo em brasa.
Ele brilha
…………..com seu rabo
…………………………….sideral:
a ardente plumagem
…………………………que atravessa o universo.
Se à noite
……………na relva
………………………deitar um casal,
a olhar para o céu
………………………o convide meu verso.
O cometa levanta
……………………..e conduz
…………………………………e fustiga –
com sede de luz
…………………..os olhos se abrem.
Para que rolem
…………………..dos pescoços
……………………………………as cabeças inimigas,
o rabo
………reluz
……………..como um sabre.
Até que a última batida
……………………….,…..soe em meu interior,
terei certeza –
…………………estou amando.
Eis o zumbido do amor:
…………………………….simples, humano.
Quase explode
………………….o caldeirão
………………………………..de pedra e lava,
o estrondo
…………….do vulcão
…………………………é iminente.
Há quem possa
………………….dominá-lo
………………………………..com palavras?
Podes tu?
……………Pois vai em frente.

1928

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

1 Maiakóvski desembarcou em Paris no dia 15 de outubro de 1928. O objetivo da viagem era o de costume: ler para os russos emigrados seus poemas vermelhos, anunciar a nova realidade soviética, etc. Decerto que o amor não estava previsto como tema oficial. Entretanto, o férreo Maiakóvski estava amando. Sobre esse sentimento fala em sua Carta ao Camarada Kostróv e também no poema que se lerá a seguir, Carta a Tatiana Iákovlevna. Este último não se publicou em vida. Mas a Carta a Kostróv foi incluída pelo próprio Taras Kostróv (pseudônimo de Aleksandr Martinóvski) na revista, da qual era editor, Molodáia Gvárdia. Kostróv já editava os poemas de Maiakóvski na Komsomólskaia Pravda e tinha com ele, além da relação profissional, uma sincera amizade. A crítica reagiu com ferocidade à publicação, denunciando um suposto desvio em relação à conduta que o poeta deveria ostentar enquanto divulgador do ideário soviético e embaixador do país no estrangeiro. Mesmo porque Tatiana Iákovlevna era uma russa emigrada: ela deixou a União Soviética em 1925. Em Paris, participou na cena da moda em Monteparnasse, confeccionando chapéus, e sua beleza atraiu a atenção da alta sociedade parisiense. Uma união tão antitética como a dela com Maiakóvski gerou burburinho. A indomável explosão lírica (como não se via desde seus poemas dedicados a Lília Brik em 1923), sobrepondo-se ao caráter pragmático de seu verso social, conferiu a essas duas Cartas um lugar de destaque na obra de Maiakóvski, testemunho de seu profundo envolvimento amoroso. Os dois passaram um mês e meio juntos em Paris; Maiakóvski pretendia se casar com Tatiana Iákovlevna, desde que satisfeita uma condição: ela deveria voltar com ele para a União Soviética. O poeta combinou de voltar a Paris para buscá-la em fevereiro próximo. O que se sabe a respeito dessa tenção diplomática entre o casal provém de algumas cartas que se preservaram daquele tempo. Tatiana Iákovlevna correspondia-se com a mãe, que permaneceu na União Soviética: “Maiakóvski me fustigou, me obrigou a pensar e, o mais importante, a me lembrar da Rússia”, disse ela, “Ele estimulou em mim a saudade pela Rússia e por todos vocês. Quase voltei” (MIKHAILOV, p. 470). Maiakóvski escreveu a Tatiana um telegrama: “Pense e concentre as idéias (depois junte seus pertences) e teste com o coração minha esperança de agarrá-la com as patas e levá-la para minha casa, para Moscou” (Idem, pág. 483). Ademais, é essencialmente essa a mensagem de sua Carta a Tatiana Iákovlevna. Maiakóvski não conseguiu trazê-la consigo da nova estadia em Paris de fevereiro a abril de 1929. Prometeu voltar mais uma vez em outubro e depositava esperanças nesse terceiro encontro. Mas aconteceu algo inesperado: seu passaporte foi retido e o poeta não pôde deixar a União Soviética. Supõe-se que as autoridades o impediram de viajar a fim de evitar um eventual casamento em Paris. Maiakóvski informou Iákovlevna sobre o cancelamento da viagem. Soube, pouco depois, que ela se tornara noiva de um janota francês, Du Plessis. O esgotameto emocional (inclusive por um novo desastre afetivo com Verônika Polónskaia), reflexo também de um recrudecimento na esfera política e profissional (que culminou no boicote à exposição sobre os vinte anos de sua carreira), levou o poeta ao suicídio em 14 de abril de 1930. Os jornais se preocuparam em estampar seu poema de despedida, sobre o barquinho destroçado do amor, ressaltando que “seu suicídio foi provocado por motivos de ordem estritamente particular e não tem nenhuma ligação com a atividade social e literária do poeta” (Idem, pág. 533).

Obs.: ambos os poemas, Carta ao Camarada Kostróv e Carta a Tatiana Iákovlevna, já foram traduzidos para a língua portuguesa; o primeiro por Augusto de Campos, publicado originalmente na antologia Poesia Russa Moderna (Perspectiva, 1968 1ª ed.) e incluído recentemente na edição ampliada de Maiakóvski – Poemas (Perspectiva, 2017); o segundo por Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman, cf. Maiakóvski – Poemas (Idem). Seus últimos fragmentos, alguns dos quais Maiakóvski incluiu em seu bilhete de despedida (“a canoa do amor se quebrou no cotidiano…”), foram também traduzidos por Augusto de Campos na mesma edição.

ПИСЬМО ТОВАРИЩУ КОСТРОВУ ИЗ ПАРИЖА О СУЩНОСТИ ЛЮБВИ

Простите
……………меня,
……………………товарищ Костров,
с присущей
……………….душевной ширью,
что часть
……………на Париж отпущенных строф
на лирику
…………….я
……………….растранжирю.
Представьте:
…………………входит
…………………………..красавица в зал,
в меха
……….и бусы оправленная.
Я
..эту красавицу взял
……………………………и сказал:
— правильно сказал
………………………….или неправильно?—
Я, товарищ, —
…………………..из России,
знаменит в своей стране я,
я видал
…………девиц красивей,
я видал
…………девиц стройнее.
Девушкам
…………….поэты любы.
Я ж умен
…………..и голосист,
заговариваю зубы —
только
………..слушать согласись.
Не поймать
………………меня
……………………..на дряни,
на прохожей
………………..паре чувств.
Я ж
……навек
……………любовью ранен —
еле-еле волочусь.
Мне
…….любовь
………………не свадьбой мерить:
разлюбила —
…………………уплыла.
Мне, товарищ,
…………………..в высшей мере
наплевать
…………….на купола.
Что ж в подробности вдаваться,
шутки бросьте-ка,
мне ж, красавица,
……………………….не двадцать,—
тридцать…
……………..с хвостиком.
Любовь
………….не в том,
……………………..чтоб кипеть крутей,
не в том,
…………..что жгут угольями,
а в том,
…………что встает за горами грудей
ад
….волосами-джунглями.
Любить —
…………….это значит:
…………………………….в глубь двора
вбежать
………….и до ночи грачьей,
блестя топором,
…………………….рубить дрова,
силой
………своей
………………играючи.
Любить —
…………….это с простынь,
………………………………….бессонницей рваных,
срываться,
……………..ревнуя к Копернику,
его,
……а не мужа Марьи Иванны,
считая
………..своим
………………..соперником.
Нам
…….любовь
………………..не рай да кущи,
нам
……любовь
……………..гудит про то,
что опять
…………….в работу пущен
сердца
………..выстывший мотор.
Вы
…..к Москве
……………….порвали нить.
Годы —
…………расстояние.
Как бы
………..вам бы
………………….объяснить
это состояние?
На земле
…………..огней — до неба…
В синем небе
…………………звезд —
…………………………….до черта.
Если бы я
…………….поэтом не был,
я б
….стал бы
……………..звездочетом.
Подымает площадь шум,
экипажи движутся,
я хожу,
………..стишки пишу
в записную книжицу.
Мчат
………авто
…………….по улице,
а не свалят наземь.
Понимают
……………..умницы:
человек —
……………..в экстазе.
Сонм видений
…………………..и идей
полон
……….до крышки.
Тут бы
……….и у медведей
выросли бы крылышки.
И вот
……..с какой-то
……………………грошовой столовой,
когда
………докипело это,
из зева
………..до звезд
……………………взвивается слово
золоторожденной кометой.
Распластан
………………хвост
……………………..небесам на треть,
блестит
…………и горит оперенье его,
чтоб двум влюбленным
………………………………на звезды смотреть
из ихней
……………беседки сиреневой.
Чтоб подымать,
…………………….и вести,
………………………………..и влечь,
которые глазом ослабли.
Чтоб вражьи
………………..головы
………………………….спиливать с плеч
хвостатой
…………….сияющей саблей.
Себя
……..до последнего стука в груди,
как на свиданье,
……………………..простаивая.
прислушиваюсь:
……………………..любовь загудит —
человеческая,
…………………простая.
Ураган,
…………огонь,
…………………вода
подступают в ропоте.
Кто
…..сумеет совладать?
Можете?
………….Попробуйте…

1928

……………~//~

CARTA A TATIANA IAKOVLEVNA

No beijo, quer seja
……………………….das mãos ou dos lábios,
no corpo fremente
………………………ao qual junto me deito,
a cor rubra
……………flameje
……………………..das repúblicas que trago
como um lábaro
……………………ao peito.
Eu não amo
………………esse amor parisiense,
cadelinha aristocrata.
…………………………..Espreguiçando-me o dispense.
Aos cães raivosos
……………………..da paixão
…………………………………..eu digo “Senta! Dá a pata!”
Meu instinto não atura
…………………………….tanta seda
nem os leques
…………………nos cafés
…………………………….que se abanam.
Sobrancelha a sobrancelha,
só você
………..é quem está
………………………..à minha altura,
e sobre esta
……………..grande noite
………………………………me conceda
que eu narre
………………em voz humana.
Madrugada,
………………cinco horas.
………………………………A cidade populosa
está deserta
………………como um bosque.
……………………………………..Abandona-se ao sono.
Dos atritos
……………..ouço só os que
apitam
………..com os trens
…………………………que rumam para
………………………………………………Barcelona.
Clarão  
……….que arranha
……………………….o cume
…………………………………do céu,
trovão de injúrias
……………………..no drama da noite…
Não é furacão
…………………o imenso escarcéu,
mas só o ciúme
…………………..movendo montanhas.
Não calo
………….o calão
……………………das palavras afoitas.
Não receie
…………….esta besta
………………………….em que cavalgo –
porei freio,
…………….porei rédea
……………………………a sentimento como este,
um arrebento
…………………de fidalgos.
Esse drama
……………..em prosa e verso
……………………………………não se encarna
sem que em crostas ele caia,
……………………………………feito sarna.
Ao diabo
………….com as lágrimas
……………………………….ciumentas que verti,
como das pálpebras inchadas
……………………………………..de um Vii. 1
Sinto ciúme
………………não por mim,
………………………………..mas pela Rússia Soviética.
A tísica eu vi
……………….lamber das costas os remendos,
cem milhões
……………….na mais porca
………………………………….das misérias
na moléstia apodrecendo.
………………………………..Não é culpa minha…
Nós fizemos nossa parte,
……………………………….sem modéstia –
os problemas
………………..que hoje temos
……………………………………são fichinha.
Mas nem tudo
…………………se endireita
………………………………..com esporte, –
nós de ti
………….necessitamos
……………………………em Moscou:
um par de pernas
……………………..desse porte
…………………………………….raridade se mostrou.
Após a tifo
…………….atravessares,
……………………………..todo tipo
………………………………………….de imundícia,
haverás de
…………….essas pernas
…………………………….passear
………………………………………no estrangeiro
e entregá-las
……………….nos jantares
………………………………..às carícias
dos barões
……………..petroleiros?
Não virás
…………..para meus grandes
……………………………………e desajeitados braços?
Apartada,
……………há de encalhar
……………………………….quem não me quis.
Da afronta
…………….a conta faço, 
……………………………..e não seja por isto…
Qualquer dia
……………….eu a conquisto,
…………………………………..quer sozinha
……………………………………………………ou com Paris.

1928

rosta

1 Segundo a mitologia eslava, chama-se Vii uma criatura maligna, que teria o poder de matar com um só olhar; no entanto, o Vii mal pode abrir os olhos, por causa das pálpebras grandes e pesadas, quase chegando a tocar o chão. Este personagem do folclore foi imortalizado na literatura pelo conto homônimo de Nikolai Gogol.

ПИСЬМО ТАТЬЯНЕ ЯКОВЛЕВОЙ

В поцелуе рук ли,
……………………..губ ли,
в дрожи тела
………………..близких мне
красный
………….цвет
……………….моих республик
тоже
……..должен
………………..пламенеть.
Я не люблю
……………….парижскую любовь:
любую самочку
…………………….шелками разукрасьте,
потягиваясь, задремлю,
……………………………….сказав —
……………………………………………тубо —
собакам
………….озверевшей страсти.
Ты одна мне
………………..ростом вровень,
стань же рядом
…………………….с бровью брови,
дай
……про этот
……………….важный вечер
рассказать
……………..по-человечьи.
Пять часов,
………………и с этих пор
стих
…….людей
……………..дремучий бор,
вымер
……….город заселенный,
слышу лишь
………………..свисточный спор
поездов до Барселоны.
В черном небе
…………………..молний поступь,
гром
…….ругней
………………в небесной драме, —
не гроза,
…………..а это
………………….просто
ревность двигает горами.
Глупых слов
……………….не верь сырью,
не пугайся
……………..этой тряски,-
я взнуздаю,
………………я смирю
чувства
………….отпрысков дворянских.
Страсти корь
…………………сойдет коростой,
но радость
……………..неиссыхаемая,
буду долго,
……………..буду просто
разговаривать стихами я.
Ревность,
……………жены,
…………………….слезы…
………………………………ну их! —
вспухнут веки,
…………………..впору Вию.
Я не сам,
…………..а я
……………….ревную
за Советскую Россию.
Видел
……….на плечах заплаты,
их
….чахотка
…………….лижет вздохом.
Что же,
…………мы не виноваты —
ста мильонам
………………….было плохо.
Мы
…..теперь
……………к таким нежны —
спортом
………….выпрямишь не многих,—
вы и нам
…………..в Москве нужны
не хватает
…………….длинноногих.
Не тебе,
…………в снега
…………………..и в тиф
шедшей
………….этими ногами,
здесь
……..на ласки
…………………выдать их
в ужины
…………..с нефтяниками.
Ты не думай,
…………………щурясь просто
из-под выпрямленных дуг.
Иди сюда,
…………….иди на перекресток
моих больших
…………………..и неуклюжих рук.
Не хочешь?
………………Оставайся и зимуй,
и это
……..оскорбление
……………………….на общий счет нанижем.
Я все равно
………………тебя
…………………….когда-нибудь возьму —
одну
…….или вдвоем с Парижем.

1928

………………….~//~


CONVERSA COM O CAMARADA LÊNIN

Depois da jornada
………………………o tumulto serena,
o dia se foi,
……………..a noite inicia.
No cômodo, dois:
……………………..Eu
…………………………e Lênin – 
na branca parede
…………………….a fotografia. 1
Com a boca
……………..entreaberta
…………………………….a discursar
e o bigode
……………eriçando-se
…………………………..ao vento,
a testa
……….enrugada,
…………………….exemplar:
para uma testa grandiosa
……………………………….um grandioso pensamento.
Entre nós
…………..talvez estejam
……………………………..multidões invisíveis
caminhando,
……………….uma floresta de bandeiras
farfalhando…
Num lampejo
………………..me levanto
………………………………da cadeira:
quero ir
…………cumprimentar
……………………………meu companheiro!
“Camarada Lênin,
……………………..vim aqui vos relatar
não por ofício –
……………………pela alma.
Camarada Lênin,
…………………….um trabalho infernal na
nossa pátria temos feito:
………………………………iluminar.
Vestimos os pobres,
………………………..cessou a miséria.
De carvão
…………..e de minério
…………………………..ampliou-se a produção.
Mas também temos,
………………………..é verdade,
……………………………………..uma série
de piores miseráveis,
…………………………todo tipo
……………………………………..de canalha e fanfarrão.
Cansarias de
……………….com eles
…………………………..quebrar a cabeça.
Muitos
……….sem ti
……………….se puseram rebeldes.
E por causa
……………..dessa gente
…………………………….tão avessa
nossa pátria,
……………….infelizmente,
………………………………..retrocede.
Não há número
…………………..nem nomes
………………………………….o bastante
para deles
……………compreender
……………………………..de que se trata:
kulaki, 2
……….sectários,
……………………meliantes,
beberrões,
……………puxa-sacos,
…………………………..burocratas.
Braços cruzados
……………………e peito estufado, ei-los:
como ostentam,
……………………sondam,
……………………………….blefam.
Nós vamos,
……………..é verdade,
…………………………..esmagar a todos eles.
Mas como é difícil,
……………………….difícil demais
…………………………………………a tarefa.
Camarada Lênin,
…………………….pelas fábricas suadas
e campos arados,
…………………….pela pátria
…………………………………..de extremo a extremo,
pelo vosso coração
……………………….e vosso nome,
………………………………………….camarada,
nós pensamos,
………………….respiramos,
…………………………………batalhamos
………………………………………………..e vivemos!..”
Depois da jornada
………………………o tumulto serena,
o dia se foi,
……………..a noite inicia.
No cômodo, dois:
……………………..Eu
…………………………e Lênin –
na branca parede
…………………….a fotografia.

1929

rosta31

1 Poema escrito em memória de Vladímir Ílitch Lênin, ao quinto ano de sua morte, e publicado no Komsomólskaia Pravda em 20 de janeiro de 1929. Na edição de suas obras reunidas em 13 volumes (Maiakóvski, 1955, p. 534), consta que “a fotografia, a que se refere Maiakóvski neste poema – permanentemente pendurada à parede de seu gabinete de trabalho –, é aquela, em que V. I. Lênin discursa na praça Sverdlov em 5 de maio de 1920”. Sobre sua deferência ao líder da revolução bolchevique, cf. o poema Vladímir Ílitch Lênin (1924), para o português traduzido por Zóia Prestes.

2 Kuláki eram donos de terras privadas de médio porte que existiram na primeira década do Estado Soviético. Contra essa elite de proprietários levantou-se uma violenta campanha, nos fins dos anos de 1920, com a coletivização forçada do campo. Os kuláki resistiram à expropriação de suas terras destruindo ou escondendo safras e materiais agrículas, o que ocasionou o colapso no abastecimento e uma crise de fome no país. Em contrapartida, o Estado usou da força militar para reprimir esses camponeses e com eles engordou consideravelmente seu sistema prisional.

РАЗГОВОР С ТОВАРИЩЕМ ЛЕНИНЫМ

Грудой дел,
………………суматохой явлений
день отошел,
………………..постепенно стемнев.
Двое в комнате.
…………………….Я
……………………….и Ленин –
фотографией
…………………на белой стене.
Рот открыт
……………..в напряженной речи,
усов
…….щетинка
…………………вздернулась ввысь,
в складках лба
…………………..зажата
…………………………….человечья,
в огромный лоб
…………………….огромная мысль.
Должно быть,
…………………под ним
…………………………….проходят тысячи.
Лес флагов…
………………..рук трава…
Я встал со стула,
……………………..радостью высвечен,
хочется –
……………идти,
……………………приветствовать,
…………………………………………..рапортовать!
«Товарищ Ленин,
………………………я вам докладываю
не по службе,
…………………а по душе.
Товарищ Ленин,
…………………….работа адовая
будет
……..сделана
…………………и делается уже.
Освещаем,
……………..одеваем нищь и оголь,
ширится
…………..добыча
……………………..угля и руды…
А рядом с этим,
……………………конешно,
…………………………………много,
много
……….разной
………………….дряни и ерунды.
Устаешь
………….отбиваться и отгрызаться.
Многие
…………без вас
……………………отбились от рук.
Очень
……….много
………………..разных мерзавцев
ходят
………по нашей земле
…………………………….и вокруг.
Нету
……..им
…………ни числа,
………………………ни клички,
елая
…….лента типов
………………………тянется.
Кулаки
…………и волокитчики,
подхалимы,
………………сектанты
…………………………..и пьяницы, –
ходят,
……….гордо
……………….выпятив груди,
в ручках сплошь
……………………..и в значках нагрудных…
Мы их
……….всех,
………………конешно, скрутим,
но всех
………..скрутить
…………………….ужасно трудно.
Товарищ Ленин,
…………………….по фабрикам дымным,
по землям,
……………..покрытым
……………………………и снегом
………………………………………..и жнивьём,
вашим,
………..товарищ,
…………………….сердцем
………………………………..и именем
думаем,
………….дышим,
…………………….боремся
………………………………..и живем!..»
Грудой дел,
………………суматохой явлений
день отошел,
…………………постепенно стемнев.
Двое в комнате.
…………………….Я
……………………….и Ленин –
фотографией
…………………на белой стене.

1929

………………..~//~


A MULHER PARISIENSE

Representas a imagem
……………………………da mulher parisiense,
ostentando braceletes
……………………………e colares de rubis.
Delirante ilusão!
…………………….Caso assim penses,
saibas como
………………é dura a vida
……………………………….das mulheres em Paris.
Mademoiselle!
………………….Num instante
……………………………………represento essa mulher…
Palavra que não sei
………………………..se ela é jovem
………………………………………….ou se velha, –
sob o pó da maquiagem
……………………………..sua pele é amarela.
Uma “servente”
……………………ela é
………………………….na Grande Chaumière. 1
Com um Borgonha
……………………….ela sonha,
…………………………………….mas sejamos realistas…
Vinhos são para, talvez, a garçonete.
Esta mulher
………………em seu trabalho
……………………………………é simplesmente uma artista:
uma toalha oferecer
…………………………no corredor do toilette.
Ao espelho
…………….espremeis
………………………….uma espinha?
Enquanto isso ela sorri,
…………………………….para depois
oferecer a toalhinha
…………………………e polvilhar o pó-de-arroz.
Mas a vida
…………….da mulher
………………………….não se resume
a borrifar
…………..vossas perucas
……………………………..com perfume.
Serva da sutil gastronomia,
………………………………….ela encara
noite e dia
…………….o vaso ilustre da latrina
a respirar
……………deste requinte
………………………………a poção rara
que deitastes
………………..onde o sol não ilumina.
Por mais que lave esse lavabo,
desinfete bem a fossa,
……………………………enxague,
……………………………………….seque,
quando o dia chega ao cabo
não recebe
…………….trinta cêntimos
…………………………………(na nossa
unidade,
………….duas dúzias
…………………………de copeques).

Eu,
…..perplexo,
………………tua dor,
………………………..mademoiselle,
sinto como em minha pele,
mas perdoe
……………..lhe dizer
…………………………dessa maneira:
– Não há glamour assim
……………………….. ……em da miséria
………………………………………………..estar à beira.
Pois em sonho
………………….representas
…………………………………glamourosos camarins, 
mas segues tu
…………………a mais tristonha
………………………………………camareira.
Ou mentiram para mim
……………………………..sobre as mulheres de Paris,
ou não és tu
………………parisiense.
Olha bem,
……………mademoiselle,
………………………………como vives infeliz:
Meias de lã…
……………….Por quê razão
…………………………………não as de seda
……………………………………………………te pertencem?
Por que a ti
……………..vasos de flores
………………………………..não regalam
esses nobres monsenhores
…………………………………de abarrotados bolsos?
Mademoiselle cala,
……………………….mas seus pensamentos ouço.
Aquilo tudo
………………à nossa cara
………………………………ela lançasse
que, em seu rico carnaval, Montparnasse
em doses diárias
……………………ministrou
às funcionárias
…………………..dos bistrôs.  
Me desculpo por lembrar as frias poças
que à mulher parisiense
……………………………..regalou
……………………………………….a burguesia.
Que as serventes
…………………….de Paris
……………………………….um dia possam
conquistar sua alforria.

1929

rosta16

1 Grande-Chaumière, academia de belas-artes em Monteparnasse, Paris. Além de suas famosas declarações de amor, as últimas passagens de Maiakóvski pela capital francesa renderam versos de tom sarcástico sobre o luxo da vida intelectual parisiense. É o caso, também, do poema que leremos a seguir, Krassávitsi, subintitulado “Reflexões na estréia da Grand Opéra”. Ambos foram publicados na Jenski jurnal [Revista de mulheres], o primeiro em fevereiro, o segundo em julho de 1929.

ПАРИЖАНКА

Вы себе представляете
……………………………..парижских женщин
с шеей разжемчуженной,
…………………………………разбриллиантенной
…………………………………………………………….рукой…
Бросьте представлять себе!
……………………………………Жизнь —
………………………………………………..жестче —
у моей парижанки
………………………..вид другой.
Не знаю, право,
……………………молода
……………………………..или стара она,
до желтизны
…………………отшлифованная
……………………………………….в лощеном хамье.
Служит
…………она
………………в уборной ресторана —
маленького ресторана —
…………………………………Гранд-Шомьер.
Выпившим бургундского
………………………………….может захотеться
для облегчения
…………………….пойти пройтись.
Дело мадмуазель
………………………подавать полотенце,
она
……в этом деле
……………………просто артист.
Пока
……..у трюмо
…………………разглядываешь прыщик,
она,
……разулыбив
…………………..облупленный рот,
пудрой подпудрит,
…………………………духами попрыщет,
подаст пипифакс
………………………и лужу подотрет.
Раба чревоугодий
……………………….торчит без солнца,
в клозетной шахте
………………………..по суткам
………………………………………клопея,
за пятьдесят сантимов!
……………………………….(По курсу червонца
с мужчины
……………..около
……………………..четырех копеек.)
Под умывальником
………………………….ладони омывая,
дыша
………диковиной
……………………..парфюмерных зелий,
над мадмуазелью
……………………….недоумевая,
хочу
…….сказать
……………….мадмуазели:
— Мадмуазель,
……………………ваш вид,
……………………………….извините,
……………………………………………..жалок.
На уборную молодость
………………………………губить не жалко вам?
Или
……мне
…………наврали про парижанок,
или
……вы, мадмуазель,
………………………….не парижанка.
Выглядите вы
………………….туберкулезно
…………………………………….и вяло.
Чулки шерстяные…
………………………….Почему не шелка?
Почему
…………не шлют вам
…………………………..пармских фиалок
благородные мусью
…………………………..от полного кошелька? —
Мадмуазель молчала,
…………………………….грохот наваливал
на трактир,
………………на потолок,
………………………………на нас.
Это,
……кружа
……………веселье карнавалово,
весь
…….в парижанках
………………………..гудел Монпарнас.
Простите, пожалуйста,
……………………………..за стих раскрежещенный
и
..за описанные
…………………..вонючие лужи,
но очень
…………..трудно
…………………….в Париже
………………………………….женщине,
если
…….женщина
…………………не продается,
……………………………………а служит.

1929

……………….~//~


COQUETERIA

(Reflexões na estréia da Grand Opéra)

A Grand ópera se abra
para o verdadeiramente grande.
Da mal-feita minha barba
a me gabar,
……………..por ela eu ande.
No intervalo, –
…………………..uma coquete…
Esta tocou meu ponto fraco!
O coração
……………já se derrete
no surrado meu casaco.
Suas unhas
……………..com esmalte,
sobre os lábios
………………….o batom –
sutil pintura que ressalte
a cor de rosas em botão.
Azul-lazúli
……………..sobre os cílios…
A cintura –
……………..uma taça!
Nuas costas que mal passam
no funil
…………do espartilho.
 Sobre as peles
………………….de chinchila
como as pérolas refulgem!
No vestido
…………….em que desfila
é de morsa
…………….a pelugem.
Que esplêndidos tecidos! –
de veludo,
……………seda,
…………………..crepe.
Um cochicho ao pé do ouvido,
ela se assanha,
………………….serelepe.
Broches,
………….filigranas… –
de ourivesaria
…………………estelar.
A tal beleza sobre-humana
ousarias
………….conquistar?
Não hesito:
……………..mãos à obra!
Com vestido
………………ou talvez sem.
Os adereços
………………tem de sobra…
Uma pena
……………que cabeça
………………………….ela não tem.

1929

rosta33

КРАСАВИЦЫ

(Раздумье на открытии Grand Opéra)

В смокинг вштопорен,
побрит что надо,
По гранд
…………..по опере
гуляю грандом.
Смотрю
………….в антракте –
красавка на красавице.
Размяк характер –
всё мне
…………нравится.
Талии –
………….кубки.
Ногти –
………;…в глянце.
Крашеные губки
розой убиганятся.
Ретушь –
……………у глаза,
Оттеняет синь его.
Спины
………..из газа
цвета лососиньего.
Упадая
………..с высоты,
пол
……метут
……………шлейфы.
От такой
…………..красоты
сторонитесь, рефы.
Повернет –
………………в брильянтах уши.
Пошевелится шаля –
на грудинке
……………….ряд жемчужин
обнажают
…………….шеншиля.
Платье –
……………пухом.
…………………….Не дыши.
Аж на старом
…………………на морже
только фай
………………да крепдешин,
только
………..облако жоржет.
Брошки – блещут…
………………………….на тебе! –
с платья
………….с полуголого.
Эх,
…..к такому платью бы
да еще бы…
……………….голову.

1929

………….. ~//~


VERSOS SOBRE O PASSAPORTE SOVIÉTICO

Os diabos que carreguem,
………………………………..servidores da boçal burocracia,
os papéis
…………..que prescrevestes.
Com os dentes,
………………….como um lobo,
……………………………………..os morderia.
Porém este…
Se do trem
…………….pelas cabines
………………………………e compridos camarotes
o fiscal toma caminho,
entregueis
…………….os passaportes;
eu
….entrego
……………meu purpúreo livrinho.
Uns passaportes
……………………para eles
……………………………….pouco importam;
outras vezes
………………há que riem
……………………………..ou desdenham.
Com respeito,
………………..por exemplo,
…………………………………se comportam
se nas capas dos ingleses
o brasão
…………com dois leões
……………………………se desenha.
No vagão, 
…………..primeira classe,
o tiozinho americano
………………………….se recolhe
……………………………………….para o leito.
Como a ele
…………….com os olhos devorassem,
o abordam
…………….com trejeitos
……………………………..e etiquetas –
pegam dele o passaporte
………………………………como fosse uma gorjeta.
Ao polonês,
……………..ao polonês o fiscal pega
e olha fixo,
…………….como um burro a um cartaz;
com militar estupidez,
……………………………para o colega
franze a testa
………………..e solta a gafe:
………………………………….“Saberás
o que é esta
……………..novidade geográfica?”
Quando pegam
………………….passaportes de suecos
nenhum eco de idéia
………………………….ou sentimento,
para bem
…………..ou para mal,
…………………………..os impressiona.
De repente
…………….fica pálido o fiscal;
como que eletrocutada,
…………………………….sua boca convulsiona.
Com que assombro
……………………….ele pegou
……………………………………o meu vermelho passaporte! –
como fosse
…………….muito mais
……………………………do que papéis –
ele o pegou
……………..como uma bomba,
da navalha
……………..o duplo corte, –
…………………………………..ele o pegou
como um ouriço
……………………ou a pior
………………………………..das cascavéis.
Carregadores!
…………………Piscadela
……………………………..com malícia,
e de graça
……………minhas coisas
………………………………eles guardam.
Olhadela
………….do polícia
………………………para o guarda
e do guarda
……………..o mesmo olhar
………………………………..para o polícia.
Essa raça de gendarmes!
………………………………Que prazer teria ela
em fustigar-me
…………………..com flagelos
…………………………………..e pregar-me
…………………………………………………..numa cruz…
E só porque
……………..nas mãos eu tenho
……………………………………..com a foice
……………………………………………………e o martelo
o mais brilhante documento:
…………………………………….Soviétski Soiúz. 1
Os diabos que carreguem,
………………………………..servidores da boçal burocracia,
os papéis
…………..que prescrevestes.
Com os dentes,
………………….como um lobo,
…………………………………….os morderia.
Porém este…
Eu do bolso
……………..saco este
………………………….muito mais que passaporte –
esta carga
……………explosiva
………………………..e elétrica.
Pois leiam,
…………….pelos séculos invejem
…………………………………………minha sorte:
sou cidadão
………………da União Soviética.

1929

rosta6
1 Soviétski Soiúz, transliteração do nome que em russo significa União Soviética. O passaporte equivale na Rússia ao documento de identidade, não só para os deslocamentos internos e externos ao país, como para a identificação em geral. Já existe uma tradução deste poema, por Emílio Carrera Guerra, em Maiacovski, Antologia Poética (Max Limonad, 1987).

СТИХИ О СОВЕТСКОМ ПАСПОРТЕ

Я волком бы
……………….выгрыз
………………………….бюрократизм.
К мандатам
……………….почтения нету.
К любым
…………..чертям с матерями
……………………………………..катись
любая бумажка.
……………………Но эту…
По длинному фронту
……………………………купе
………………………………….и кают
чиновник
…………….учтивый
…………………………движется.
Сдают паспорта,
……………………..и я
………………………….сдаю
мою
…….пурпурную книжицу.
К одним паспортам –
…………………………….улыбка у рта.
К другим –
………………отношение плевое.
С почтеньем
………………..берут, например,
………………………………………..паспорта
с двухспальным
…………………….английским левою.
Глазами
………….доброго дядю выев,
не переставая
………………….кланяться,
берут,
……….как будто берут чаевые,
паспорт
………….американца.
На польский –
…………………..глядят,
…………………………….как в афишу коза.
На польский –
…………………..выпяливают глаза
в тугой
………..полицейской слоновости –
откуда, мол,
……………….и что это за
географические новости?
И не повернув
…………………..головы кочан
и чувств
………….никаких
……………………..не изведав,
берут,
………не моргнув,
………………………паспорта датчан
и разных
…………..прочих
…………………….шведов.
И вдруг,
………….как будто
……………………….ожогом,
…………………………………..рот
скривило
……………господину.
Это
……господин чиновник
……………………………….берет
мою
…….краснокожую паспортину.
Берет –
…………как бомбу,
………………………..берет –
…………………………………..как ежа,
как бритву
………………обоюдоострую,
берет,
……….как гремучую
…………………………..в 20 жал
змею
………двухметроворостую.
Моргнул
………….многозначаще
………………………………глаз носильщика,
хоть вещи
…………….снесет задаром вам.
Жандарм
……………вопросительно
………………………………..смотрит на сыщика,
сыщик
………..на жандарма.
С каким наслажденьем
………………………………жандармской кастой
я был бы
…………..исхлестан и распят
за то,
………что в руках у меня
………………………………..молоткастый,
серпастый
……………..советский паспорт.
Я волком бы
………………..выгрыз
…………………………..бюрократизм.
К мандатам
………………почтения нету.
К любым
…………..чертям с матерями
……………………………………..катись
любая бумажка.
…………………….Но эту…
Я
достаю
…………..из широких штанин
дубликатом
……………….бесценного груза.
Читайте,
…………..завидуйте,
…………………………..я –
……………………………….гражданин
Советского Союза.

1929

……………….~//~

Referências:

AGURSKY, Mikhail. L’ aspect millénariste de La révolution bolchevique. In: Cahiers du monde russe et soviétique, vol. 29, n. 3-4, Juillet-Décembre 1988.

BIÉLI, Andrei. Стихотворения. Москва «книга», 1988.

CAMPOS, Haroldo de; CAMPOS, Augusto de; SCHNAIDERMAN, Boris.  Poesia Russa Moderna. São Paulo: Ed. Perspectiva, 2001.

ETKIND, Aleksandr. Хлыст: Секты, литература и революция. Москва: Новое литературное обозрение, 2013.

LAVUT, Pavel. Маяковский едет по Союзу: воспоминания. Москва: Советская Россия, 1963.

LIÉRMONTOV, Mikhail. Cобрание сочинений в 4 т. T 1. Стихотворения. Издательство Пушкинского Дома, 2014.

MAIAKÓVSKI, Vladímir. Полное собрание сочинений в тринадцати томах. Т.2. Москва: Государственное Издательство Художественной Литературы, 1955.

_____________________ Antologia poética. São Paulo: Max Limonad, 1987.

_____________________ Minha Descoberta da América. São Paulo, 2007.

_____________________ Percevejo, O. São Paulo: Ed. 34, 2012.

_____________________ Vladímir Ílitch Lênin. São Paulo: Anita Garibaldi & Fundação Maurício Grabois, 2012.

_____________________ Облако в штанах. Во весь голос. Люблю. Стихотворения. Поэмы. Пьесы. Cанкт-Петербург: Азбука-Аттикус, 2014.

_____________________ Poemas. São Paulo: Perspectiva, 2017.

MIKHAILOV, Aleksandr. Maiakóvski, o Poeta da Revolução. Rio de Janeiro: Record, 2008.

SCHNAIDERMAN, Boris. Poética de Maiakóvski através de sua Prosa, A. São Paulo: Perspectiva, 1984

 

Briggflatts [trecho], de Basil Bunting

Tradução de Jefferson Dias *

(As the player's breath), from Briggflatts, by Basil Bunting (translation)

* Jefferson Dias (nascido em Monte Sião – MG; vive e trabalha em Ribeirão Preto – SP). Formou-se em Letras pela Universidade Federal de São Carlos. Poeta e prosador, publicou o livro de poemas Último festim (editora Multifoco, 2013); em 2014 teve o poema “Dédalo” publicado na segunda edição da revista “euOnça” (editora Medita). Em 2015 veio a lume seu segundo livro de poesia, Silenciosa maneira, que integra a Coleção Galo Branco da editora Medita (mediante o edital nº 34/2014 do Programa de Ação Cultural “Concurso de apoio a projetos de publicação de livros – coleção de obras inéditas no estado de São Paulo”). Escreveu, ademais, Qualquer lugar (poesia, inédito), Sonata do Diabo (romance, inédito) e trabalha na tradução do poema Briggflatts, de Basil Bunting.

aves(, de e.e. cummings

Tradução de Jefferson Dias *

birds( - e. e. cummings (Translation)

* Jefferson Dias (nascido em Monte Sião – MG; vive e trabalha em Ribeirão Preto – SP). Formou-se em Letras pela Universidade Federal de São Carlos. Poeta e prosador, publicou o livro de poemas Último festim (editora Multifoco, 2013); em 2014 teve o poema “Dédalo” publicado na segunda edição da revista “euOnça” (editora Medita). Em 2015 veio a lume seu segundo livro de poesia, Silenciosa maneira, que integra a Coleção Galo Branco da editora Medita (mediante o edital nº 34/2014 do Programa de Ação Cultural “Concurso de apoio a projetos de publicação de livros – coleção de obras inéditas no estado de São Paulo”). Escreveu, ademais, Qualquer lugar (poesia, inédito), Sonata do Diabo (romance, inédito) e trabalha na tradução do poema Briggflatts, de Basil Bunting.

 

Apenas andando por aí, de John Ashbery

ashbary

 

John Ashbery (1927 – 2017) foi um dos mais conhecidos poetas americanos do século XX. Considerado o principal representante da poesia da chamada “Escola de Nova Iorque”. Seus versos representam em inúmeras vezes o que Ezra Pound nominou de logopeia: jogava com as ideias, antes de qualquer coisa. Ahsbery foi um dos poetas que mais venderam poesia nos Estados Unidos, tendo ganho prêmios importantes como o Pulitzer.

Alguns de seus livros mais celebrados: Self-portrait in a Convex Mirror (1975, ganhador do Prêmio Pulitzer), A Wave (1984, ganhador dos Prêmios Lenore Marshall e Bollingen), Where Shall I Wander (2005) (finalista do Prêmio National Book), Notes from the Air: Selected Later Poems (2007, ganhador do Griffin Poetry Prize).

Faleceu em 3 de setembro de 2017, aos 90 anos de idade.

 

Em relação à tradução, me organizei tentando uma equivalência harmônica entre os quesitos métrica, ritmo e rima, procurando não comprometer o ideal do poeta: um diálogo sustenido e auspicioso, da ideia para a forma, da forma para a essência do eu-lírico.

Mariana Basílio*

 

Apenas andando por aí

Que nome eu tenho para você?
Certamente não há nome para você
No sentido em que estrelas têm nomes
De alguma forma adequados. Apenas andando por aí,

Um objeto de curiosidade para alguns,
Mas você anda muito preocupado
Pela mancha secreta por detrás de sua alma
Para dizer muito e vagar por aí,

Sorrindo para si e para os outros.
Chega a ser meio solitário.
Mas ao mesmo tempo desconcertante.
Contraproducente, como você percebe novamente

Que o caminho mais longo é o mais eficiente,
Aquele que circula entre ilhas, e
Parece sempre percorrer um círculo.
E agora que o fim está próximo

Os gomos da viagem se abrem como uma laranja.
Lá dentro há luz e mistério e comida.
Venha vê-la. Não por mim, mas por ela.
Mas se eu ainda estiver lá, garanto que veremos um ao outro.

**************************************************************

Just walking around

What name do I have for you?
Certainly there is not name for you
In the sense that the stars have names
That somehow fit them. Just walking around,

An object of curiosity to some,
But you are too preoccupied
By the secret smudge in the back of your soul
To say much and wander around,

Smiling to yourself and others.
It gets to be kind of lonely
But at the same time off-putting.
Counterproductive, as you realize once again

That the longest way is the most efficient way,
The one that looped among islands, and
You always seemed to be traveling in a circle.
And now that the end is near

The segments of the trip swing open like an orange.
There is light in there and mystery and food.
Come see it. Come not for me but it.
But if I am still there, grant that we may see each other.

Em: Selected Poems (Carcanet, 1998).

 

*Mariana Basílio nasceu em Bauru, interior de São Paulo, em 1989. Escritora, poeta e tradutora. Licenciada em Pedagogia em 2012, concluiu Mestrado em Educação em 2015 – ambos pela Universidade Estadual Paulista (UNESP).
Dedica-se à área literária desde 2014. Traduzindo diversos autores americanos e latino-americanos, entre eles, Alejandra Pizarnik, Denise Levertov, Edna St. Vincent Millay, Emily Dickinson, May Swenson, Silvina OCampo e Williams Carlos Williams. É colaboradora de portais nacionais e internacionais, escrevendo também ensaios.
Publicou seu primeiro livro de poesia, Nepente, em 2015 (Giostri). O segundo livro de poemas, Sombras & Luzes, dedicado ao poeta português Herberto Helder, foi publicado no Brasil (Penalux, 2016) e em Portugal (prelo, 2018).
Tem publicações de seus poemas em inúmeras revistas nacionais e internacionais.
É vencedora do prêmio ProAC 32/2017 do Governo de São Paulo pelo seu terceiro livro de poesia, Tríptico Vital (prelo, 2018), dedicado à escritora e poeta paulista, Hilda Hilst.
Site para contato: http://www.marianabasilio.com.br

“Desperto e sinto – as sombras descem, não o sol”, de Gerard Manley Hopkins

Gerard-Manley-Hokins-e1420299358491

Tradução: Victor Martins Queiroz

Desperto e sinto – as sombras descem, não o sol.
Quais horas, negras horas, quais! foram perdidas
Na noite! Coração, quais visões, idas-vias
E mais mister: delonga-ao-longe o arrebol.

Eu testemunho. Mas onde diz o texto só
“Horas” — “eras” e “vida”, eu digo. Jeremio
Queixas-sem-conto, um poemorto dado ao imo
Amigo alá o mais distante, ohime! de nós.

Sou félstula, sou miocáustico. Meu Deus
Decrép’ta-me o amargor do gosto: e o fel sou Eu;
Ossagruras e carnavates, maldissangue.

Autânimo fermento obra somente o breu.
E assim quem ‘stá perdido: o seu flagelo — e o meu —
É ser-se, o suardor; e pior, d o r a v a n t e.

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Gerard Manley Hopkins

I wake and feel the fell of dark, not day.
What hours, O what black hours we have spent
This night! what sights you, heart, saw; ways you went!
And more must, in yet longer light’s delay.
With witness I speak this. But where I say
Hours I mean years, mean life. And my lament
Is cries countless, cries like dead letters sent
To dearest him that lives alas! away.

I am gall, I am heartburn. God’s most deep decree
Bitter would have me taste: my taste was me;
Bones built in me, flesh filled, blood brimmed the curse.
Selfyeast of spirit a dull dough sours. I see
The lost are like this, and their scourge to be
As I am mine, their sweating selves; but worse.

 

A canção de amor de J. Alfredo Prufrock, de T.S. Eliot

eliot

A canção de amor de J. Alfredo Prufrock
Tradução: Victor Martins Queiroz

Vamos, então, você e eu,
Quando se espalha a noite contra o céu,
Como se, sobre a mesa, um paciente eterizado;
Vamos, então, por entre certas ruas que, demidesertas,
Murmuram, enquanto acobertam
As noites insones em hotéis-de-pouso toscos,
Restaurantes onde a serragem se mistura às ostras:
Ruas que seguem, como um tedioso argumento
De insidioso intento,
Levando-a rumo a uma questão aterradora.
Oh! não pergunte “qual seria?”.
Vamos, então, render nossa visita.

No salão, mulheres vão e vêm, falando
Sobre Miguel Ângelo.

A névoa loura que esfrega as costas nas vidraças,
O fumo louro que esfrega as fuças nas vidraças:
A sua língua fez lamber da noite entre as esquinas;
Languesceu sobre as poças restantes nos ralos;
Deixou pousar nas costas a fuligem dos fumeiros, que fugia;
Escapuliu pelo terraço, escapulou
E, sendo uma noite de Outubro, macia,
Dobrou-se sobre a casa e descansou.

E decerto haverá tempo
Para o louro fumo, que se esgueira pela rua
E esfrega as costas nas vidraças;
Haverá tempo, haverá tempo
De encarar as faces que você encara, uma a uma;
Tempo de cura e de assassinato,
Para o trabalho e os dias de todos os braços
Que erguem e pousam dúvida em seu prato;
Tempo para você e para mim
E tempo ainda para indecisões, centenas!
Para visões e revisões sem fim
Antes do erguer de uma torrada e uma chavena.

No salão, mulheres vão e vêm, falando
Sobre Miguel Ângelo.

E decerto haverá tempo
De indagar “eu ouso? eu ouso?”,
De virar, descer a escada, com um ponto
Calvo bem no meio do meu couro
Cabeludo – (dirão “seus cabelos vão sumindo!”)
Meu fraque, a minha gola alta, subindo
Ao queixo; a gravata, humilde e rica, um broche simples
A firma – (dirão “seus braços, pernas, vão sumindo!”)
Eu ouso
Perturbar o universo?
Há tempo num minuto
Para visões e revisões de que um minuto faça o inverso.

Pois conheci-os todos, já conheci todos;
Conheci as tardes e as manhãs e as noites,
Eu medi-me a vida em colheres de chá;
Conheço a voz que morre com um tombo
Surdo, sob a música de uma sala, atrás.
Mas, então, como presumiria?

E eu já conheci os olhos, já conheci todos;
Olhos que miram-no na frase formulada;
E quando formulado, pregado num pino,
Quando empinado e na parede eu me contorço,
Como, então, dar início
Ao tiroteio de ciladas da mi’a vida e sua estrada?
Como presumiria?

E eu já conheci os braços, já conheci todos –
Com seus braceletes, braços nus e brancos
(Mas que, sob a luz, mostram pêlos castanhos).
É o perfume de um vestido
Que me faz tão digressivo?
Braços que à mesa deitam, ou envoltos num manto.
Como presumiria?
Como, então, dar início?

Deveria dizer “andei, no ocaso, por magras vielas
E vi erguer-se o fumo fora dos cachimbos
De homens em mangas-de-camisa, à beira das janelas?…”

Fora melhor ter sido um par de parcas pinças
Que pelo fundo se arrastassem, do mar mudo.

E a tarde, a noite, dorme tão tranquila!
Acalentam-na longos dedos…
Sono… cansaço… ou fingimento,
Ela se, ao lado de você, de mim, perfila.
Eu deveria, após o chá e o bolo e os gelos
Ter força de impingir a crise a tal momento?
Mas apesar de privação e pranto, prece e pranto,
E apesar de ver minha cabeça (ainda mais calva) ser trazida a mim numa bandeja,
Não sou nenhum profeta – nem assunto sério aqui se enseja;
Vi meu momento de grandeza tiritando,
E o eterno Pagem segurar meu fraque, gargalhando,
E, sem rodeios, tive medo.

E valeria a pena tudo isso, apesar de,
Após as taças, marmeladas, chás,
Por entre as porcelanas, junto a nosso prosear,
Valeria a pena tudo isso,
Mastigar o assunto sob o riso,
O universo espremer numa bola, e fazer
Com que ela role sobre uma questão aterradora,
Dizer: “Sou Lázaro, e estive morto,
Mas retornei para dizer-lhes tudo, eu deverei dizer” –
Se alguém, dela sob a nuca a ajeitar o encosto,
Dissesse: “Não foi isso o que intentei, há nada a ver;
Não há nada, nada a ver.”

E valeria a pena tudo isso, apesar de,
Valeria a pena tudo isso,
Após ocasos, paços, orvalhadas ruas,
Depois das novelas, das chavenas, mesmo após as saias que se arrastam junto ao piso –
E tudo isso e mais que isso? –
É impossível eu dizer só o que intento!
Mas projetassem-se padrões de nervos sobre a tela, num momento:
Valeria a pena tudo isso,
Se alguém, que ajeita um travesseiro ou lança um lenço,
E vira-se à janela, se esse alguém dissesse:
“Não há nada, nada a ver;
Não foi isso o que intentei, há nada a ver.”

Não! Eu não sou Hamlet, e nem deveria sê-lo;
Sou um lorde-na-fila que, em busca
Do sucesso, até faria cena ou duas,
Aconselharia o príncipe; o mão-na-roda,
Distinto, e que se presta ao uso,
Cauto, político, meticuloso;
Cheio de presunção, mas um pouco obtuso;
Por vez, até, alvo de glosa –
Quase, por vez, o Tolo.

Eu envelheço… Eu envelheço…
Devo dobrar a calça atrás dos tornozelos.

Devo partir-me os cabelos? Pêssegos, ouso comê-los?
Vestirei calças brancas de flanela, irei à praia a passeio.
Eu as ouvi cantando, uma sereia a outras sereias.

Não creio para mim hão de cantar.

Vi-as nadando rumo ao mar, por sobre as ondas,
Penteando-lhe os cabelos brancos, quando o vento
Os soprava para trás do aguaçal alvinegro.
Languescemos junto das sereias, nos bolsões do mar,
Com seus lauréis de algas, rubros e castanhos,
‘Té que humanas vozes despertaram-nos, e afogamos.

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The love song of J. Alfred Prufrock

Let us go then, you and I,
When the evening is spread out against the sky
Like a patient etherized upon a table;
Let us go, through certain half-deserted streets,
The muttering retreats
Of restless nights in one-night cheap hotels
And sawdust restaurants with oyster-shells:
Streets that follow like a tedious argument
Of insidious intent
To lead you to an overwhelming question …
Oh, do not ask, “What is it?”
Let us go and make our visit.

In the room the women come and go
Talking of Michelangelo.

The yellow fog that rubs its back upon the window-panes,
The yellow smoke that rubs its muzzle on the window-panes,
Licked its tongue into the corners of the evening,
Lingered upon the pools that stand in drains,
Let fall upon its back the soot that falls from chimneys,
Slipped by the terrace, made a sudden leap,
And seeing that it was a soft October night,
Curled once about the house, and fell asleep.

And indeed there will be time
For the yellow smoke that slides along the street,
Rubbing its back upon the window-panes;
There will be time, there will be time
To prepare a face to meet the faces that you meet;
There will be time to murder and create,
And time for all the works and days of hands
That lift and drop a question on your plate;
Time for you and time for me,
And time yet for a hundred indecisions,
And for a hundred visions and revisions,
Before the taking of a toast and tea.

In the room the women come and go
Talking of Michelangelo.

And indeed there will be time
To wonder, “Do I dare?” and, “Do I dare?”
Time to turn back and descend the stair,
With a bald spot in the middle of my hair —
(They will say: “How his hair is growing thin!”)
My morning coat, my collar mounting firmly to the chin,
My necktie rich and modest, but asserted by a simple pin —
(They will say: “But how his arms and legs are thin!”)
Do I dare
Disturb the universe?
In a minute there is time
For decisions and revisions which a minute will reverse.

For I have known them all already, known them all:
Have known the evenings, mornings, afternoons,
I have measured out my life with coffee spoons;
I know the voices dying with a dying fall
Beneath the music from a farther room.
So how should I presume?

And I have known the eyes already, known them all—
The eyes that fix you in a formulated phrase,
And when I am formulated, sprawling on a pin,
When I am pinned and wriggling on the wall,
Then how should I begin
To spit out all the butt-ends of my days and ways?
And how should I presume?

And I have known the arms already, known them all—
Arms that are braceleted and white and bare
(But in the lamplight, downed with light brown hair!)
Is it perfume from a dress
That makes me so digress?
Arms that lie along a table, or wrap about a shawl.
And should I then presume?
And how should I begin?

Shall I say, I have gone at dusk through narrow streets
And watched the smoke that rises from the pipes
Of lonely men in shirt-sleeves, leaning out of windows? …

I should have been a pair of ragged claws
Scuttling across the floors of silent seas.

And the afternoon, the evening, sleeps so peacefully!
Smoothed by long fingers,
Asleep … tired … or it malingers,
Stretched on the floor, here beside you and me.
Should I, after tea and cakes and ices,
Have the strength to force the moment to its crisis?
But though I have wept and fasted, wept and prayed,
Though I have seen my head (grown slightly bald) brought in upon a platter,
I am no prophet — and here’s no great matter;
I have seen the moment of my greatness flicker,
And I have seen the eternal Footman hold my coat, and snicker,
And in short, I was afraid.

And would it have been worth it, after all,
After the cups, the marmalade, the tea,
Among the porcelain, among some talk of you and me,
Would it have been worth while,
To have bitten off the matter with a smile,
To have squeezed the universe into a ball
To roll it towards some overwhelming question,
To say: “I am Lazarus, come from the dead,
Come back to tell you all, I shall tell you all”—
If one, settling a pillow by her head
Should say: “That is not what I meant at all;
That is not it, at all.”

And would it have been worth it, after all,
Would it have been worth while,
After the sunsets and the dooryards and the sprinkled streets,
After the novels, after the teacups, after the skirts that trail along the floor—
And this, and so much more?—
It is impossible to say just what I mean!
But as if a magic lantern threw the nerves in patterns on a screen:
Would it have been worth while
If one, settling a pillow or throwing off a shawl,
And turning toward the window, should say:
“That is not it at all,
That is not what I meant, at all.”

No! I am not Prince Hamlet, nor was meant to be;
Am an attendant lord, one that will do
To swell a progress, start a scene or two,
Advise the prince; no doubt, an easy tool,
Deferential, glad to be of use,
Politic, cautious, and meticulous;
Full of high sentence, but a bit obtuse;
At times, indeed, almost ridiculous—
Almost, at times, the Fool.

I grow old … I grow old …
I shall wear the bottoms of my trousers rolled.

Shall I part my hair behind? Do I dare to eat a peach?
I shall wear white flannel trousers, and walk upon the beach.
I have heard the mermaids singing, each to each.

I do not think that they will sing to me.

I have seen them riding seaward on the waves
Combing the white hair of the waves blown back
When the wind blows the water white and black.
We have lingered in the chambers of the sea
By sea-girls wreathed with seaweed red and brown
Till human voices wake us, and we drown.

Brasília – de Sylvia Plath

Brasília – de Sylvia Plath

Brasília, de Sylvia Plath (1962), traduzido por Marília Moschkovich (2017). Homenagem ao 85º aniversário da poeta, que se suicidaria dois meses após escrever este poema e exatamente quarenta dias antes do terceiro aniversário da cidade. Na imagem, Sylvia Plath, vulto, em Yorkshire.


 

Elas acontecem? –
essas pessoas com torso de aço
cotovelos alados e órbitas

Esperam missas, massas
de nuvens que concedem expressão,
Essa super-gente! –
E meu bebê um prego
enfiado, enfiado.
Ganindo em sua banha

Ossos fuçando distância.
E eu, quase extinta,
Seus três dentes cortantes

Abocanham meu dedão –
E a estrela,
História velha

Nessa rua encontro ovelhas e carros,
Terra vermelha, sangue de mãe
Ó, tu que comes

Pessoas como raios de luz, deixe
só este
a salvo do espelho, sem redenção

Com a aniquilação da pomba,
A glória
O poder, a glória


Brasilia_SP

Will they occur,
These people with torso of steel
Winged elbows and eyeholes

Awaiting masses
Of cloud to give them expression,
These super-people! –
And my baby a nail
Driven, driven in.
He shrieks in his grease

Bones nosing for distance.
And I, nearly extinct,
His three teeth cutting

Themselves on my thumb –
And the star,
The old story.

In the lane I meet sheep and wagons,
Red earth, motherly blood.
O You who eat

People like light rays, leave
This one
Mirror safe, unredeemed

By the dove’s annihilation,
The glory
The power, the glory.