Walter Benjamin sobre cartilhas infantis e a não-chegada do Messias

benjamin

Cartilhas de ABC há cem anos
Tradução: Tomaz Amorim Izabel

Nenhum palácio real ou casa de campo de um milionário conheceu um milésimo do amor adorável que foi dirigido às letras no decorrer da história cultural. Então, por mera alegria à beleza e para honrá-la. Mas também com intenção astuta. As letras são as colunas de um portão, em cima do qual bem poderia estar escrito o que Dante leu sobre os portões do inferno, e lá sua dura forma primordial não deveria espantar os muitos pequenos que todo ano precisam atravessar este portão. Cada uma dessas pilastras é então carregada de guirlandas e arabescos. Mas percebeu-se só muito mais tarde que não se tornava as coisas mais fáceis para a criança quando se esticava o espaçamento entre os tipos com imensas decorações, para representá-las de forma mais atrativa.
Além disso, as letras começaram logo cedo a construir uma corte de objetos ao redor de si. Os mais velhos entre nós ainda têm pendurado prontamente o chapéu no c, têm visto a marmota roer inofensivamente o m e têm visto o r como a parte mais espinhosa da rosa. Com a dedicação dinâmica a povos estrangeiros, crianças e desclassificados que ocorreu durante o Iluminismo europeu, com os raios do Humanismo, do qual o Classicismo é na verdade apenas o eclipse solar, caiu então de uma vez uma luz completamente diferente sobre os livros didáticos. Os pequenos objetos ilustrativos, que até então tinham ficado envergonhadamente jogados de lado diante da majestade da letra, ou tinham sido espremidos em caixinhas, justos como as janelinhas das fachadas burguesas do século XVIII, liberaram subitamente bordões revolucionários. Os açougueiros, aviadores, artilheiros, águias e avestruzes, os garotos, garçons, gatos, goleiros, guerrilheiros, gaviões, os veterinários, Venezuela, vigias reconheceram sua solidariedade. Eles convocavam grandes convenções, apareciam grandes destacamentos de todos os As, Bs, Cs, etc., e em seus encontros iam-se às multidões. Quando Rousseau diz que toda a soberania se origina do povo, então estes círculos se expressam alto e com convicção: “O espírito das letras se origina das coisas. Nosso ser-assim-e-não-algo-outro, nós impregnamos nessas letras. Nós não somos os seus vassalos, elas é que são apenas nossa vontade comum dita em voz alta”.

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Ideia para um mistério
Tradução: Tomaz Amorim Izabel

Representar a História como um processo em que o Humano, simultaneamente como defensor da Natureza muda, presta queixa sobre a Criação e a ausência do Messias prometido. O Tribunal, no entanto, decide ouvir testemunhas sobre o que está por vir. Aparecem: o poeta, que o sente; o artista plástico, que o vê; o músico, que o ouve; e o filósofo, que o sabe. Seus testemunhos, portanto, não convergem, embora eles todos testemunhem pela Sua vinda. O Tribunal não ousa admitir sua indecisão. Assim, não há fim para as novas queixas e, tampouco, para as novas testemunhas. Há tortura e martírio. Os bancos dos jurados estão ocupados pelos vivos que ouvem o promotor Humano e as testemunhas com a mesma desconfiança. Os lugares dos jurados vão sendo herdados por seus filhos. Finalmente, desperta neles um medo de serem expulsos dos seus bancos. Ao fim, todos os jurados fogem e ficam apenas o querelante e as testemunhas.

 

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ABC-BÜCHER VOR HUNDERT JAHREN!
Walter Benjamin

Kein Königspalast und kein Cottage eines Milliardärs hat ein Tausendstel der schmückenden Liebe erfahren, die im Laufe der Kulturgeschichte den Buchstaben zugewandt worden ist. Einmal aus Freude am Schönen und um sie zu ehren. Aber auch in listiger Absicht. Die Buchstaben sind ja die Säulen eines Tores, über dem ganz gut geschrieben stehen könnte, was Dante über den Pforten der Hölle las, und da sollte ihre rauhe Urgestalt die vielen Kleinen, die alljährlich durch dieses Tor müssen, nicht abschrecken. Jeden einzelnen dieser Pilaster behing man also mit Girlanden und Arabesken. Doch man kam erst sehr spät darauf, daß man dem Kinde die Sache nicht leichter machte, wenn man die Gerüste der Lettern mit maßlosen Zierformen überspannte, um sie anziehender zu gestalten.
Daneben begannen die Buchstaben schon früh einen Hof von Gegenständen um sich zu bilden. Die Älteren unter uns haben noch den Hut dienstfertig beim h hängen, die Maus harmlos am m knabbern sehen und das r als den dornigsten Teil der Rose kennen gelernt. Mit der bewegenden Hingabe an fremde Völker, an Kinder, an Deklassierte, die durch die europäische Aufklärung ging, mit dem Strahlen des Humanismus, von dem die Klassik eigentlich nur die Sonnenfinsternis ist, fiel dann mit einem Mal ganz anderes Licht in die Lesebücher. Die kleinen illustrierenden Gegenstände, die bis dahin verlegen um den herrschaftlichen Buchstaben herumgelungert hatten, oder gar in Kassetten, eng wie die Fensterchen in bürgerlichen Hausfassaden des 18. Jahrhunderts, gepreßt worden waren, gaben plötzlich revolutionäre Losungen aus. Die Ammen, Apotheker, Artilleristen, Adler und Affen, die Kinder, Kellner, Katzen, Kegeljungen, Köchinnen, Karpfen, die Uhrmacher, Ungarn, Ulanen erkannten ihre Solidarität. Sie beriefen große Konvente ein, Abordnungen aller A’s, B’s, C’s usw. erschienen, und es ging auf ihren Versammlungen tumultuarisch zu. Wenn Rousseau sagt, daß alle Souveränität vom Volk stammt, so bekunden diese Tafeln es laut und entschieden: »Der Geist der Buchstaben stammt aus den Sachen. Uns, unser So-und-Nichtanders-Sein, haben wir in diesen Buchstaben ausgeprägt. Nicht wir sind ihre Vasallen, sondern sie sind nur unser lautgewordener gemeinsamer Wille.«

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Idee eines Mysteriums
Walter Benjamin

Die Geschichte darzustellen als einen Prozeß, in welchem der Mensch zugleich als Sachwalter der stummen Natur Klage führt über die Schöpfung und das Ausbleiben des verheißenen Messias. Der Gerichtshof aber beschließt Zeugen, für das Zukünftige zu hören. Es erscheint der Dichter der es fühlt, der Bildner der er sieht, der Musiker der es hört und der Philosoph der es weiß. Ihre Zeugnisse stimmen daher nicht überein, wiewohl sie alle für sein Kommen zeugen. Der Gerichtshof wagt seine Unschlüssigkeit nicht einzugestehen. Daher nehmen die neuen Klagen kein Ende, ebensowenig die neuen Zeugen. Es gibt die Folter und das Martyrium. Die Geschwornenbänke sind besetzt von den Lebenden, die den Mensch-Ankläger wie die Zeugen mit gleichem Mißtrauen hören. Die Geschwornenplätze erben sich bei ihren Söhnen fort. Endlich erwacht eine Angst in ihnen, sie könnten von ihren Bänken vertrieben werden. Zuletzt flüchten alle Geschwornen, nur der Kläger und die Zeugen bleiben.

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Dois poemas de James Wright

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James Arlington Wright (1927 –1980), poeta norte-americano, começou sua carreira com um trabalho mais formalista, recebendo influência da poesia surrealista espanhola e das poesias alemã e sul-americana (nas quais é reconhecidamente considerado um grande tradutor) até chegar ao verso livre. Em seu livro mais conhecido, The Branch Will Not Break, ele chega ao ápice de sua originalidade , além de ser considerado um contraponto à poesia Beat que dominava a cena norte-americana da época. Wright foi um inovador e seu trabalho se caracteriza, primeiramente, por ter nos títulos e nos versos iniciais e finais um tom de deslocamento do “lugar comum”. É possível observar em sua obra as fraturas de uma vida marcada pelo alcoolismo, além da bipolaridade e a depressão que o acompanharam até o fim.

 

Deitado em uma rede na fazenda William Duffy em Pine Island, Minnesota

Sobre minha cabeça, vejo a brônzea borboleta,
Adormecida no tronco negro,
Vibrando como uma folha na sombra verde.
Abaixo da ravina atrás da casa vazia,
Os sinos das vacas seguem-se uns aos outros
Na distância da tarde.
À minha direita,
Num campo luminoso entre dois pinheiros,
As fezes dos cavalos do ano passado
Brilham em pedras douradas.
Reclino-me, como a tarde escura que chega.
Um filhote de falcão sobrevoa, buscando um abrigo.
Eu desperdicei minha vida.

*

Próximo a Mansfield, Ohio

Os enormes cavalos todo-músculos do outono
Foram embora agora, para os negros celeiros,
Onde eles podem ser preguiçosos
Onde eles podem mastigar pequenas maçãs, preguiçosos
Em seus sonos.

E muitas estradas estão nuas.

Você, também, foi abandonado
Ao lado de uma rua, agora
Próximo a Mansfield, Ohio.
Uma vez nessa cidade, que se parece
Com uma puta de dezesseis anos vendendo papoulas
No Dia do Armistício, você morreu
Sozinho.

 

Tradução: Lucas Perito*

* Nasceu em São Paulo/ Brasil em 1985. É graduado em Comunicação em Multimeios pela PUC-SP. Trabalhou na editora Empresa das Artes, escrevendo livros ligados a história e fotografia, fazendo os textos de acompanhamento para o livro fotográfico “Caminhos da Mantiqueira” (2011) de Galileu Garcia Junior. Tem alguns poemas publicados na Revista Zunái, Escamandro, Diversos Afins, Benfazeja, na R. Nott Magazine, Caderno-Revista 7 Faces, Revista Parênteses, Revista Entreverbo, Jornal RelevO, Revista Saúva e Revista Gueto. Também participou como tradutor na Revista Parênteses e Escamandro.

 

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Lying in a Hammock at William Duffy’s Farm in Pine Island, Minnesota

Over my head, I see the bronze butterfly,
Asleep on the black trunk,
Blowing like a leaf in green shadow.
Down the ravine behind the empty house,
The cowbells follow one another
Into the distances of the afternoon.
To my right,
In a field of sunlight between two pines,
The droppings of last year’s horses
Blaze up into golden stones.
I lean back, as the evening darkens and comes on.
A chicken hawk floats over, looking for home.
I have wasted my life.

*

Near Mansfield, Ohio

The enormous muscle-bound dobbins of autumn
Are gone now, to dark barns,
Where they can be lazy,
Where they can munch little apples, lazy,
In their sleep.

And many highways are bare.

You, too, are abandoned
Beside a street, now,
Near Mansfield, Ohio.
Once in that town, that looks
Like a sixty-year-old whore selling poppies
On Armistice Day, you died
Alone.

 

etiqueta, de Hayes Davis

mano

Tradução: stella paterniani

depois de Yusef Komunyakaa

eu sentada aos oitos anos
à mesa da cozinha da vovó,
tentando pedir com licença.

joana e diana, minhas primas
encaram minha boca aberta
balbuciam “com… gli…

cença” como se eu não soubesse
o que eu devo dizer mas o que elas
é que não sabem é como “licença” é

uma das palavras que às vezes não saem,
como alô quando atendo o telefone,
boa noite quando meu pai sai

do meu quarto, meu nome quanto perguntam
como me chamo. elas não sabem que as con
sonantes às vezes voam,

feito passarinhos fugindo do frio.
eu encaro a boca de diana,
a boca de joana, a boca de ana

de volta tentando entender
como é que falar é tão fácil. quem sabe
quando eu crescer minha língua se solte,

porque tem gente no mercado
no ônibus e na loja de doces
que sempre me conta de quando

seus primos e irmãs e irmãos
hoje mais velhos que eu tinham
gagueiras como as minhas. as

deles não servem mais e eu espero
dar a minha embora logo logo daí
não vou perder tanto desenho depois do almoço

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Etiquette

After Yusef Komunyakaa

I am eight, sitting at my
grandmother’s kitchen table,
trying to ask to be excused.

My cousins Jennifer and Danielle
stare at my open mouth,
keep sounding out “Can… I… be

excused” like I don’t understand
what I’m supposed to say but they
don’t know that “can” is one

of the words I can’t say sometimes,
like hello when I answer the phone,
goodnight when my dad leaves

my room, my name when people
ask it. They don’t know that my
consonants fly away sometimes,

like birds when it gets too cold.
I stare back at Danielle’s mouth,
Jennifer’s mouth, Oma’s mouth

trying to figure out what makes talkinng
so easy for them. Maybe my stutter
will go away when I get older,

because people at the supermarket
on the bus and in the candy store
are always telling me about their

cousins and sisters and brothers
who are older than me and once
had stutters like mine. They’ve

out-grown theirs, and I hope mine
will disappear one day too, so I won’t
miss so many cartoons after lunch.

 

Obituário do Dr. Franz Kafka, por Milena Jesenská

milena

Milena Jesenská, no Národní Listy de Praga em 6 de Junho de 1924

Anteontem morreu no Sanatório de Kierling, nos arredores de Klosterneuburg em Viena, o Dr. Franz Kafka, um escritor alemão que viveu em Praga. Aqui poucos o conheciam porque ele era um solitário, uma pessoa que conhecia e se assustava com a vida. Ele esteve doente dos pulmões no último ano e, embora tenha tratado da doença, também a alimentou e incentivou conscientemente nos seus pensamentos. “Quando a alma e o coração não aguentam mais a carga, os pulmões pegam metade para si, para que o peso seja pelo menos dividido igualmente”, escreveu ele certa vez em uma carta, e assim foi também com a sua doença. Ela praticamente o dotou com uma delicadeza fantástica e uma sutileza espiritual terrivelmente inflexível. Humano, no entanto, ele descarregou sob os ombros de sua doença todo seu medo intelectual diante da vida. Ele era tímido, angustiado, sereno e bom, mas escreveu livros terríveis e dolorosos. Ele via o mundo cheio de demônios invisíveis que aniquilavam e despedaçavam as pessoas indefesas. Ele era perspicaz demais, sábio demais para poder viver e fraco demais para lutar com a fraqueza das pessoas nobres e belas que evitam a luta não por medo de desentendimentos, indelicadeza e mentira espiritual – embora saibam de antemão que são impotentes e que se submetem assim para expor o vencedor. Ele conhecia as pessoas como apenas um homem de grande sensibilidade nervosa podia conhecer, alguém que é solitário e que enxerga uma pessoa até no nível da profecia através de uma única pinta no rosto. Ele conhecia o mundo de uma maneira incomum e profunda, ele mesmo era um mundo incomum e profundo. Ele escrevia livros que fazem parte dos mais significativos da jovem literatura alemã. Neles está contida a luta da geração de hoje, ainda que sem palavras tendenciosas. Eles são tão verdadeiros, nus e dolorosos que funcionam realisticamente mesmo quando se expressam através de simbolismo. Eles estão cheios de zombaria seca e do assombro delicado de uma pessoa que tinha visto o mundo tão claramente que não o aguentou e precisou morrer, de uma pessoa que não queria retroceder e se salvar, como os outros em quaisquer erros intelectuais subconscientes, ainda que na melhor das intenções. Dr. Franz Kafka escreveu o fragmento “O foguista” (publicado em tcheco pela Červen de Neumann), o primeiro capítulo de um belo romance que ainda não foi publicado; “O Veredicto”, um conflito geracional; “A metamorfose”, o livro mais forte da moderna literatura alemã; “Na Colônia Penal”; “Um médico rural”; e os esboços de “Contemplação”. O último romance “Diante da lei” permanece em manuscrito, preparado já há anos para publicação. Ele pertence aos livros que após sua leitura deixam a impressão de um mundo completamente capturado, de forma que não se precisa inserir nem mais uma única palavra. Todos os seus livros descrevem o cinza dos desentendimentos secretos e da culpa involuntária entre as pessoas. Ele era uma pessoa e um artista de uma consciência tão fina que percebeu algo também lá, onde outros que não eram tão sensíveis se sentiam seguros.

* Milena Jesenská (1896-1944) foi uma jornalista, escritora, tradutora e militante que nasceu e passou a maior parte de sua vida em Praga. Traduziu parte da obra de Franz Kafka para o tcheco (que embora falasse tcheco fluentemente, escrevia em alemão) e teve com ele um curto relacionamento que rendeu à literatura alemã uma das suas mais belas e profundas correspondências, as célebres Cartas à Milena. Milena Jesenská fez parte de uma importante primavera feminista em Praga composta pelas alunas do Colégio Minerva. Adulta, foi perseguida pela família por casar com o escritor judeu Ernst Polak e por isso passou a viver em Viena. Ao retornar a Praga depois do divórcio, participou de coletivos feministas, socialistas e antifascistas. Teve uma filha, casou-se novamente, entrou e saiu do partido comunista, trabalhou como jornalista traduzindo (Rosa Luxemburgo, entre outros) e escrevendo artigos (agrupados na edição alemã em Alles ist Leben da editora Neue Kritik de Frankfurt em 1984). Com a ocupação nazista em 1939, perdeu o emprego e entrou na clandestinidade ajudando a organizar a fuga de refugiados judeus e não judeus da Tchecoslováquia, até ser ela mesma presa e enviada para o campo de concentração para mulheres de Ravensbrück onde morreu em 1944 com 47 anos. Margarete Buber-Neumann, que conheceu Jesenská no campo de concentração e teve com ela um relacionamento íntimo, sobreviveu e escreveu sobre ela uma bela biografia já traduzida para o português.

Tradução e nota: Tomaz Amorim Izabel

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Vorgestern starb im Sanatorium Kierling in der Nähe von Klosterneuburg bei Wien Dr. Franz Kafka, ein deutscher Schriftsteller, der in Prag lebte. Hier kannten ihn wenige, weil er ein Einzelgänger war, so ein wissender, vom Leben verschreckter Mensch; er war jahrelang lungenkrank, und obwohl er die Krankheit behandeln ließ, hat er sie doch wissentlich genährt und gedanklich gefördert. “Wenn die Seele und das Herz die Last nicht mehr ertragen, nimmt sie die Lunge zur Hälfte auf sich, damit das Gewicht wenigstens gleichmäßig verteilt ist”, schrieb er einmal in einem Brief, und so war auch seine Krankheit. Sie verlieh ihm eine geradezu wunderbare Zartheit und eine erschreckend kompromißlose geistige Subtilität; als Mensch lud er jedoch all seine intellektuelle Furcht vor dem Leben auf die Schultern seiner Krankheit. Er war scheu, ängstlich, sanft und gut, aber schrieb grausame und schmerzhafte Bücher. Die Welt sah er voller unsichtbarer Dämonen, die den ungeschützten Menschen vernichten und zerreißen. Er war zu hellsichtig, zu weise, um leben zu können, zu schwach, um mit der Schwäche der edlen, schönen Menschen zu kämpfen, die den Kampf nicht aus Furcht vor Mißverständnissen, Lieblosigkeiten und geistiger Lüge meiden, obwohl sie im voraus wissen, daß sie machtlos sind, und die so unterliegen, daß sie den Sieger bloßstellen. Er kannte die Menschen, wie sie nur ein Mann von großer nervlicher Empfindsamkeit zu kennen vermag, jemand, der einsam ist und einen Menschen sogar prophetisch an einem einzigen Aufflackern des Gesichts durchschaut. Er kannte die Welt auf ungewöhnliche und tiefe Weise, war selber eine ungewöhnliche und tiefe Welt. Er schrieb Bücher, die zum Bedeutendsten der jungen deutschen Literatur gehören; in ihnen ist der Kampf der heutigen Generation enthalten, jedoch ohne tendenziöse Worte. Sie sind so wahrhaft, nackt und schmerzlich, daß sie selbst dort, wo etwas symbolisch ausgedrückt wird, naturalistisch wirken. Sie sind voller trockenen Spotts und empfindsamen Erstaunens eines Menschen, der die Welt so klar gesehen hat, daß er das nicht ertrug und sterben mußte, denn er wollte nicht zurückweichen und sich wie andere in irgendwelche, wenn auch subjektiv ehrliche, unterbewußte intellektuelle Irrtümer retten. Dr. Franz Kafka schrieb das Fragment “Der Heizer” (es kam tschechisch in Neumanns Červen heraus), das erste Kapitel eines schönen Romans, der noch nicht veröffentlicht ist, “Das Urteil”, ein Generationenkonflikt, “Die Verwandlung”, das stärkste Buch der modernen deutsche Literatur, “In der Strafkolonie”, “Ein Landarzt” und die Skizzen “Betrachtung”. Der letzte Roman “Vor dem Gericht” liegt im Manuskript vor, schon jahrelang zum Druck vorbereitet. Er gehört zu den Büchern, die nach der Lektüre den Eindruck einer total erfaßten Welt hinterlassen, so daß man kein einziges Wort hinzuzufügen braucht. Alle seine Bücher schildern das Grauer heimlicher Mißverständnisse und unverschuldeter Schuld zwischen den Menschen. Er war ein Mensch und Künstler von so feinem Gewissen, daß er auch dort etwas spürte, wo sich andere, die nicht so empfindlich waren, ungefährdet fühlten.

* Edição consultada: JESENSKÁ, Milena. Alles ist Leben. Feuilletons und Reportagen 1919-1939. Tradução: Reinhard Fischer. Frankfurt: Neue Kritik KG, 1999, 105-106.

A mosca, A rosa doente e a A árv’re envenenada, de William Blake

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Traduções: Victor M. P. de Queiroz

A Mosca

Parva Mosca,
Vosso vão brincar
Minha mão estulta
Fez esfacelar.

Não serei
Mosca como vós?
Ou será não sois
Homem como nós?

Pois eu danço,
Bebo e também canto,
‘Té que cegas mãos
Me as asas alcançam.

Se é viver pensar,
Ter força, ter alento,
Se morrer é ter
Falto o pensamento;

Saída há pouca:
Serei uma mosca,
Ainda que viva,
Ainda que morra.

______

A Rosa doente

Rosa, estás doente!
O verme invisível,
Que voa na noite,
Na treva terrível,

Encontrou teu leito
De gozo escarlate;
E dele o secreto
Mau amor te abate.

______

A árv’re envenenada
Tradução dedicada a Núria Pratginestós

Enfureceu-me um amigo.
Disse-lho, a ira foi consigo.
Enfureceu-me o adversário.
Nada disse: houve o contrário.

Banhou-se-me a ira, tarde
E manhã, em pranto covarde;
Banhou-se em sol de sorrisos
E bem-quereres fingidos,

Manhã e tarde crescia,
‘Té virar maçã sadia,
Que viu brilhar meu imigo:
Invejou-me estar comigo

A maçã, que fez roubar
Do jardim, sob o luar.
Manhã. Feliz, vejo, ao lado
D’árv’re, o vilão ‘statelado.

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William Blake

The Fly

Little Fly,
Thy summer’s play
My thoughtless hand
Has brush’d away.

Am not I
A fly like thee?
Or art not thou
A man like me?

For I dance,
And drink, and sing,
Till some blind hand
Shall brush my wing.

If thought is life
And strength and breath,
And the want
Of thought is death;

Then am I
A happy fly,
If I live
Or if I die.

___________

The sick Rose

O Rose, thou art sick!
The invisible worm,
That flies in the night,
In the howling storm,

Has found out thy bed
Of crimson joy;
And his dark secret love
Does thy life destroy.

___________

A poison tree

I was angry with my friend:
I told my wrath, my wrath did end.
I was angry with my foe:
I told it not, my wrath did grow.

And I water’d it in fears,
Night and morning with tears;
And I sunned it with smiles,
And with soft deceitful wiles.

And it grew both day and night,
Till it bore an apple bright;
And my foe beheld it shine,
And he knew that it was mine,

And into my garden stole
When the night had veil’d the pole:
In the morning glad I see
My foe outstretch’d beneath the tree.

Seis poemas de Walt Whitman

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Traduções de Victor M. P. de Queiroz

A alguém que passa

Estranha que passa! nem sonha quão longo meu olhar delonga sobre si,
Deve você ser ele ou ela, ser quem busco (vem-me como se de um sonho),
Outrora, decerto, uma vida de gozo consigo eu vivi,
Tudo aflora, no entrecruzamento afetuoso, fluido, casto, amadurado, de nós:
Você cresceu comigo, foi guri comigo ou foi guria,
Eu fiz comer, dormir consigo, o corpo seu não mais foi seu, nem meu o meu foi mais,
apenas,
Você me dá o prazer dos olhos seus, da face, carne, quando passo, e tira-me das mãos, da
barba, peito, o estorno,
Não lhe devo falar, mas pensar em si, se sento só ou quando insone,
Devo esperar, sem duvidar que a venha ver de novo,
E disso ver surgir você, que eu não a perco.

*

Eu sou quem arde com amor ardente
Tradução dedicada a Levi Fernando

Eu sou quem arde com amor ardente;
A terra não gravita? Matéria não atrai, ardendo, mais matéria?
Pois bem meu corpo o que conhece, encontra…

*

Juventude, Dia, Velhice e Noite

Juventude, larga, de langor, de amor – plena de graça, força e fascínio,
Sabe você que a poderá seguir Velhice de igual graça, de igual força e igual fascínio?
Dia perflorescido e esplêndido – dia do imenso sol, de ação, de ambição, de júbilo,
A Noite o segue de perto com milhões de sóis, e sono, e a cura que vem no escuro.

*

Quando escutei o culto astrônomo
Tradução dedicada a Tamara Martinez

Quando escutei o culto astrônomo,
Quando provas, figuras, em colunas frente a mim foram içadas,
Quando se me mostraram cartas, diagramas, que somasse, dividisse, mensurasse,
Quando escutei, sentado, lecionar o astrônomo entre mil aplausos, na sala de aulas,
Quanto me não senti, breve, enfarado e febril,
‘Té que, por conta própria, levantei-me e fui, meti-me
Na umidade mística do ar da noite, e, de tempo em tempo,
Tudo em silêncio: eu contemplava estrelas.

*

O’ Capitão! meu Capitão!

O’ Capitão! meu Capitão! é finda a temível viagem,
O prêmio querido é ganho, a nau sobrevivera à voragem,
E é perto o porto: sinos que ouço, o povo todo que exulta,
Olhos seguindo a quilha firme, e a nave ousada e enxuta;
      Mas O’ peito! coração!
      O’ pinga o fluido acarminado
      Onde, convés, deita meu Capitão,
            Onde jaz frio, finado.

O’ Capitão! meu Capitão! levanta-te e ouve os sinos;
Levanta – por ti freme a flâmula, e as trompas trinam,
Para ti buquês, guirlandas, laços – por ti as praias se enchem
Por ti clama a massa que balança, virando os rostos tensos;
Capitão, aqui! O’ pai que amei!
Sob tua nuca, meu braço pousado!
És no convés um sonho que sonhei,
Teres caído frio, finado?

Meu Capitão não me responde: seu lábio é imóvel, baço…
Sem pulso ou ímpeto, meu pai sequer me sente o toque do braço.
É feito e findo o giro, salva e sã está a nau da voragem,
Vinda, co’o prêmio ganho à bordo, de tão temível viagem:
Exultai, praias! O’ sinos, dobrai!
Mas, aqui, andarei enlutado,
Convés onde jaz, Capitão, meu pai,
Onde jaz frio, finado.

*

Batam! batam! peles!

Batam! batam! peles! – Soprem! trompas! assoprem!
Varem portas, janelas, rude e impetuosamente
Adentrem templos solenes – e espantem os congregados -,
Escolas onde estudam doutores;
Não deixem noivos a sós – não haverá gôzo entre cônjuges
Nem paz aos fazendeiros pacatos, seja durante arada ou colheita:
Das peles tão feroz quizumba – e agudas soprem, trompas!

Batam! batam! peles! – Soprem! trompas! assoprem!
Sobre o tráfego urbano – sobre as rinhas de rodas nas ruas;
Há camas feitas para os que têm sono? Não haverá dormir sobre elas,
Não haverá barganhas de corretores ou agiotas, como prosperarão?
Palrará o palrador? O cantor, ele ousará cantar?
Na côrte se erguerá perante o júri o homem de leis de algo em defesa?
Pois rufem presto e forte, peles! – trompas, soprem ferozes!

Batam! batam! peles! – Soprem! trompas! assoprem!
Indiscutível, irrefreavelmente!
Irrelevantes tímidos, suplicantes ou carpideiras,
Os velhos implorando pelos jovens…
Não se ouça a voz das crianças, o apelo das mães,
Trema mesmo dos mortos o repouso último em que o saimento esperam:
Ó peles, golpes tão potentes – soprem, trompas, tão forte!

 

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To a stranger

Passing stranger! you do not know how longingly I look upon you,
You must be he I was seeking, or she I was seeking (it comes to me as of a dream),
I have somewhere surely lived a life of joy with you,
All is recall’d as we flit by each other, fluid, affectionate, chaste, matured,
You grew up with me, were a boy with me or a girl with me,
I ate with you and slept with you, your body has become not yours only nor left my body
mine only,
You give me the pleasure of your eyes, face, flesh, as we pass, you take of my beard, breast,
hands,in return,
I am not to speak to you, I am to think of you when I sit alone or wake at night alone,
I am to wait, I do not doubt I am to meet you again,
I am to see to it that I do not lose you.

*

I am he that aches with amorous love

I am he that aches with amorous love
Does the earth gravitate? does not all matter, aching, attract all matter?
So the body of me to all I meet or know.

*

Youth, Day, Old Age and Night

Youth, large, lusty, loving – youth full of grace, force, fascination,
Do you know that Old Age may come after you with equal grace, force, fascination?
Day full-blown and splendid – day of the immense sun, action, ambition, laughter,
The Night follows close with millions of suns, and sleep, and restoring darkness.

*

When I heard the learn’d astronomer

When I heard the learn’d astronomer,
When the proofs, the figures, were ranged in columns before me,
When I was shown the charts and diagrams, to add divide and measure them,
When I sitting heard the astronomer where he lectured with much applause in the lecture-room,
How soon unaccountable I became tired and sick,
Till rising and gliding out I wander’d off by myself,
In the mystical moist night-air, and from time to time,
Look’d up in perfect silence at the stars.

*

O captain! my captain!

O Captain! my Captain! our fearful trip is done,
The ship has weather’d every rack, the prize we sought is won,
The port is near, the bells I hear, the people all exulting,
While follow eyes the steady keel, the vessel grim and daring;
      But O heart! heart! heart!
      O the bleeding drops of red,
      Where on the deck my Captain lies,
                Fallen cold and dead.

O Captain! my Captain! rise up and rear the bells;
Rise up – for you the flag is flung – for you the bugle trills,
For you bouquets and ribbon’d wreaths – for you the shores a-crowding,
For you they call, the swaying mass, their eager faces turning;
      Here Captain! dear father!
      The arm beneath your head!
      It is some dream that on the deck,}
                You’ve fallen cold and dead.

My Captain does not answer, his lips are pale and still,
My father does not feel my arm, he has no pulse nor will,
The ship is anchor’d safe and sound, its voyage closed and done,
From fearful trip the victor ship comes in with object won:
      Exult O shores and ring O bells!
      But I with mournful tread,
      Walk the deck my Captain lies,
                Fallen cold and dead.

*

Beat! beat! drums!

Beat! beat! drums!—blow! bugles! blow!
Through the windows—through doors—burst like a ruthless force,
Into the solemn church, and scatter the congregation,
Into the school where the scholar is studying,
Leave not the bridegroom quiet—no happiness must he have now with his bride,
Nor the peaceful farmer any peace, ploughing his field or gathering his grain,
So fierce you whirr and pound you drums—so shrill you bugles blow.

Beat! beat! drums!—blow! bugles! blow!
Over the traffic of cities—over the rumble of wheels in the streets;
Are beds prepared for sleepers at night in the houses? no sleepers must sleep in those beds,
No bargainers’ bargains by day—no brokers or speculators—would they continue?
Would the talkers be talking? would the singer attempt to sing?
Would the lawyer rise in the court to state his case before the judge?
Then rattle quicker, heavier drums—you bugles wilder blow.

Beat! beat! drums!—blow! bugles! blow!
Make no parley—stop for no expostulation,
Mind not the timid—mind not the weeper or prayer,
Mind not the old man beseeching the young man,
Let not the child’s voice be heard, nor the mother’s entreaties,
Make even the trestles to shake the dead where they lie awaiting the hearses,
So strong you thump O terrible drums—so loud you bugles blow.

 

V, dos Sonetos do português, de Elizabeth Barrett Browning

beth

Sonetos do português, V
Tradução: Victor M. P. de Queiroz
Solenemente, eu ergo um coração que pesa,
tal qual outrora Electra a urna sepulcral,
e, olhando os olhos seus, eu faço derramal-
o: as cinzas aos seus pés. Contemple atento e veja

quão farta pira de pesar que em mim s’encerra,
e como tim’das chispas, de um ruivo feral,
queimam na massa cinza. E se seus pés, por mal,
fizerem desfazê-la inteiramente em trevas,

talvez não façam mal. Contudo, se, por vez,
esperar ao lado meu o vento vir soprar
o pó cinzento… os louros sobre a sua tez,

ó meu amado, não lhe haverão de escudar
de toda chama que lhe deva ferir, cres-
tar o cabelo abaixo. Afaste-se, então! Vá.

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I lift my heavy heart up solemnly,
As once Electra her sepulchral urn,
And, looking in thine eyes, I overturn
The ashes at thy feet. Behold and see

What a great heap of grief lay hid in me,
And how the red wild sparkles dimly burn
Through the ashen greyness. If thy foot in scorn
Could tread them out to darkness utterly,

It might be well perhaps. But if instead
Thou wait beside me for the wind to blow
The grey dust up,… those laurels on thine head,

O My beloved, will not shield thee so,
That none of all the fires shall scorch and shred
The hair beneath. Stand further off then! Go.