“Hasta ela, siempre”, de Gustavo Krämer

“Hasta ela, siempre”, de Gustavo Krämer

Tradução: Marília Moschkovich (para S. em uma despedida na estação de trem, no verão parisiense de dois mil e dezessete)

*

Te amo porque você me diz camarada,
Amadurecendo lutas por encontrar outros rumos, quando o abraço e o beijo são da honestidade da escolha, de abandonar imposições, de nos livrarmos das condições culturais e ver como as ruas se engrandecem contigo;

Te amo pela potência de tua voz,
Gritando os pulmões por novos ares e novos seres, por mais bandeiras e eternos amanheceres, lançando o véu militante que se eleva sobre o asfalto frio da violência das cidades de fúria;

E te amo também por teu ânimo irreverente,
Redentor meu frente à dureza de meus pré-juízos, humildade tua para entender meus conflitos, trazendo calma e respeitando meu passo, sorrindo cúmplice ao me ver gozar aquilo que negava;

Te amo sem eternidade ou prazos fixos,
Pois tua geografia corrói os mapas do romantismo, leva crise às economias e me permite pensar novas regras e antropologias. Regras subvertidas. Um mundo sem bancos ou promessas vazias;

Te amo até os confins de tua ideologia,
Pelo egoísmo de querer estar bem e ser melhor, cravado na contradição de me saciar para me solidarizar, e percebendo que sem próximo não há eu, nem festas nem banquetes nem manhãs nem o rosado do céu;

Te amo porque não há objeto, nem amos nem domínio,
Porque não existe outro tempo que não o momento, marcado na memória que registra o trajeto, para lembrar sempre que vivemos para ser um constante novo projeto.

Te amo

Até sermos livres

E te espero

Para que tragas em teus braços

A vitória de todos

Até ela, te amo

Hasta ela, siempre.

*


HASTA ELLA, SIEMPRE
(poema de Gustavo Krämer, originalmente em seu blog)

Te amo porque me llamás compañero..
Madurando luchas por encontrar otro rumbo, cuando el abrazo y el beso son por la honestidad que estructura la elección, de abandonar las imposiciones, de librarnos de la condición cultural y ver cómo las calles se ensanchan con vos.

Te amo por lo potentente de tu voz..
Gritando los pulmones por nuevos aires y nuevos seres, por más banderas y eternos amaneceres, bancando el lienzo militante que se alza sobre el asfalto frío de la violencia de las ciudades de furia.

Et amo también por tu ánimo irreverente..
Redentor mío ante la dureza de mis prejuicios, humildad tuya para entender mis conflictos, dándome calma, respetando mi ritmo, sonriendo cómplice al verme disfrutar de lo que antes negaba.

Te amo, sin eternidad ni plazos fijos…
Porque tu geografía deteriora los mapas del romanticismo, lleva a crisis las economías y me permite pensar nuevas reglas y antropologías. Reglas subvertidas. Un mundo sin bancos ni promesas vacías.

Te amo hasta los confines de tu ideología
Por el egoismo de querer estar bien y ser mejor, enclavado en la contradicción de saciarme para solidarizarme, trayendo a cuentas que sin prójimo no hay uno, ni fiestas ni banquetes ni mañanas ni rocío.

Te amo porque no hay objeto, ni amos ni dominios.
Porque no existe otro tiempo que el del momento, afianzado en memoria que registre el trayecto, para siempre tener en cuenta que vivimos para ser un constante nuevo proyecto.

Te amo

Hasta ser libres

Y te espero

Para que traigas en brazos

La victoria de todxs.

Hasta ella, te amo.

Hasta ella, siempre.

A Revolução Não Acontecerá Pela Internet (cover de Gil Scott-Heron), de Ezequiel Zaidenwerg

Tradução: Lubi Prates

Você não vai poder ficar em casa, amigo.
Você não vai poder desativar o roaming ou roubar o wi-fi do vizinho.
Você não vai poder continuar jogando Candy Crush
ou olhando as fotos de gatinhos no Facebook
porque a revolução não acontecerá pela internet.

A revolução não acontecerá pela internet.

A revolução não será vista com filtros do Snapchat ou Instagram,
num p&b vintage ou, previsivelmente, apenas em branco.
A revolução não virá por drone ou se organizará pela deep web
ou estourará quando vazar o sex tape onde Donald Trump, Marine Le Pen e Putin
gozam como porcos com as mãos de Perón restauradas,
com nail art e germicida gel.

A revolução não acontecerá pela internet.

A revolução não sairá, com exclusividade, no Netflix, produzida pelo Tom Hanks, dirigida pelo Oliver Stone e protagonizada pelo Gael García Bernal porque ser progressista não diminui a elegância.
A revolução não esculpirá milimetricamente em você o abdômen com o qual sempre sonhou,
ou te dotará com um milagroso pau com garras,
ou te fará crescer uma barba de lenhador mais forte e mais sedosa,
porque a revolução não acontecerá pela internet, amigo.
A revolução não apagará por dermobrasão
essa tatuagem do Che que você fez nos anos noventa.
Não aumentará o tráfego do seu site, não te dará mil likes,
não te transformará em um Twitterstar ou num garanhão do Tinder.
A revolução, se acontecer, não será coisa de machões.

A revolução não acontecerá pela internet.

Não verá por streaming a polícia reprimindo,
metendo bala de borracha e gás lacrimogênio,
porque minha avó contou que um taxista lhe disse
que escutou no rádio que esses manifestantes
não gostam de trabalhar, mas precisamos de um país sério,
uma revolução de alegria.
Ninguém deixará comentários anônimos
nos sites dos jornais e ninguém assistirá
Dança dos famosos ou Almoço com as estrelas
ou a Primeira Divisão, ninguém falará sobre o Fantástico
ou sobre o Fala que eu escuto.
E as crianças, em vez de caçar Pokémon,
estarão nas ruas buscando algo melhor.

Não será trending topic ou tema de algum documentário
coproduzido pela UNESCO e pela Goldman Sachs, que mencione de passagem o #NiUnaMenos,
e seja narrado pelos filhos importados de Brad Pitt e Angelina.
O soundtrack não será U2 nem Mano Chao.
Calle 13 também não fará seu “grãozinho de areia” pela paz e se falará de Silvio Rodriguez menos ainda:
ele estará procurando seu unicórnio.

A revolução não acontecerá pela internet.

A revolução não será monetizada pelo Adsense, mas se você quiser
poderá inseri-la no seu perfil do Linkedin que, como todo mundo sabe,
é a mentira mais piedosa do capitalismo.
A revolução não passará no desafio da brancura.
A revolução não arrancará o tigre que há em você, nem o empresário.
A revolução não limpará sua privada ou sua mente liberal.
A revolução não te vestirá a camiseta ou a calça.
A revolução vai te pilhar.

A revolução não estará em todos os seus dispositivos, amigo.
A revolução será ao vivo.


LA REVOLUCIÓN NO VA A SER POR INTERNET (CÓVER DE GIL SCOTT-HERON)

No te vas a poder quedar en casa, amigo.
No vas a poder desactivar el roaming ni colgarte al Wi-Fi del vecino.
No vas a poder colgarte jugando al Candy Crush,
ni mirando las fotos de gatitos en Facebook,
porque la revolución no va a ser por internet.

La revolución no va a ser por internet.

La revolución no se va a ver con filtros de Snapchat o de Instagram,
en blanco y negro vintage o predeciblemente sólo en blanco.
La revolución no va ser por drone, ni se va a organizar en la deep web,
ni va a estallar cuando se filtre el sex tape de Donald Trump, Marine Le Pen y Putin
gozando como chanchos con las manos de Perón restauradas
con nail art colorinche y germicida en gel.

La revolución no va a ser por internet.

La revolución no va a salir en exclusiva en Netflix, producida por Tom Hanks, dirigida por Oliver Stone y protagonizada por Gael García Bernal, porque lo progre no quita lo coqueto.
La revolución no te va a esculpir milimétricamente los abdominales que siempre soñaste,
ni te va a dotar de un portentoso miembro prensil,
ni te va a hacer crecer la barba de leñador más fuerte y más sedosa,
porque la revolución no va a ser por internet, amigo.
La revolución no te va a borrar por dermoabrasión
ese tatuaje del Che que te hiciste en los noventa.
No va aumentar el tráfico de tu página web, no te va a dar miles de likes,
no te va a hacer un tuítstar ni un semental de Tinder.
La revolución, si es, no va a ser cosa de varones.

La revolución no va a ser por internet.

No vas a ver por streaming a la yuta reprimiendo,
meta bala de goma y gases lacrimógenos,
porque dice mi abuela que le dijo un taxista
que lo escuchó en la radio que a esos cabecitas negras
al final no les gusta laburar, y acá necesitamos un país en serio,
una revolución de la alegría.
Ya nadie va a dejar comentarios anónimos
en la web de los diarios, y nadie va a mirar
Bailando por un sueño ni Almorzando con Mirtha
ni Fútbol de primera, y ni hablar de La noche del domingo
y las Gatitas y ratones de Porcel.
Y los pibes, en vez de cazar Pokemones,
van a estar en la calle buscando algo mejor.

La revolución no va a ser por internet.

No va a ser trending topic, ni van a hablar de ella en un documental
coproducido por la UNESCO y Goldman Sacks que mencione al pasar a #NiUnaMenos,
narrado por los hijos importados de Brad Pitt y Angelina.
La banda de sonido no va a ser de U2 ni Manu Chao.
Calle 13 tampoco va a poner su granito de arena, y de Silvio ni hablar:
todavía va a estar buscando su unicornio.

La revolución no va a ser por internet.

La revolución no va a ser monetizable por Adsense, pero si vos querés
vas a poder ponerla en tu perfil de LinkedIn que, como todo el mundo sabe,
es la mentira más piadosa del capitalismo.
La revolución no va a pasar el desafío de la blancura.
La revolución no va a sacar el tigre que hay en vos, ni el empresario.
La revolución no te va a limpiar el inodoro, ni la conciencia biempensante.
La revolución no te va a poner la camiseta, ni los pantalones.
La revolución te va a obligar a ponerte las pilas.

La revolución no va a estar en todos tus dispositivos, amigo.
La revolución va a ser en vivo.

Ao meu Partido, de Pablo Neruda

pcb

Ao meu Partido, de Pablo Neruda

Ao meu Partido, poema de Pablo Neruda
Tradução por 
Marília Moschkovich
Imagem: ato de inauguração do PCB (Partido Comunista Brasileiro), em 25 de março de 1922.
(Publicação especial em homenagem aos 95 anos do Partido).

Você me deu a fraternidade com aquilo que não conheço.
Você me agregou à força de todos os que vivem.
Você me deu novamente a pátria, como em um nascimento.
Você me deu a liberdade que o solitário não tem.
Você me ensinou a acender, como fogo, a bondade.
Você me deu a retidão de que precisa a árvore.
Você me ensinou a ver a unidade e a diferença entre os homens.
Você me mostrou como a dor de um ser morreu na vitória de todos.
Você me ensinou a dormir nas camas duras de meus irmãos.
Você me fez construir sobre a realidade como sobre uma rocha.
Você me fez adversário do mau e muro do frenético.
Você me fez ver a claridade do mundo e a possibilidade da alegria.
Você me fez indestrutível porque contigo não termino em mim.


A MI PARTIDO (PABLO NERUDA)

Me has dado la fraternidad hacia el que no conozco.
Me has agregado la fuerza de todos los que viven.
Me has vuelto a dar la patria como en un nacimiento.
Me has dado la libertad que no tiene el solitario.
Me enseñaste a encender la bondad, como el fuego.
Me diste la rectitud que necesita el árbol.
Me enseñaste a ver la unidad y la diferencia de los hombres.
Me mostraste cómo el dolor de un ser ha muerto en la victoria de todos.
Me enseñaste a dormir en las camas duras de mis hermanos.
Me hiciste construir sobre la realidad como sobre una roca.
Me hiciste adversario del malvado y muro del frenético.
Me has hecho ver la claridad del mundo y la posibilidad de la alegría.
Me has hecho indestructible porque contigo no termino en mí mismo.


[as traduções que sempre vi espalhadas deste poema me incomodavam um pouco. talvez fosse a distorção causada pelo uso do tempo verbal que, em português, não tem o mesmo sentido que em espanhol – por isso usei o passado em sua possibilidade mais cotidiana e corriqueira, traduzindo o efeito do uso do tempo verbal escolhido pelo poeta em espanhol; comentários são sempre bem-vindos]

Sentado sobre os mortos, de Miguel Hernández

hernandez

Sentado sobre os mortos
Tradução por Franklin Morais

Sentado sobre os mortos
que silenciariam em dois meses,
beijo sapatos vazios
e empunho raivoso
a mão do coração
e a alma que o sustém.
Que minha voz vá aos montes
e chegue à terra e estrondeie,
isso pede minha garganta,
agora e para sempre.
Achegues ao meu clamor,
povo de meu mesmo leite,
árvore que com suas raízes
enclausurado me tens,
que aqui estou eu para te amar,
e para te defender,
com o sangue e com a boca,
como dos fiéis fuzis.
Se saí da terra,
se nasci de um ventre,
desgraçado e com pobreza,
não foi senão para fazer-me
rouxinol das desgraças,
rumor de má sorte,
e cantar e repetir
a quem me escutar deve
nas lástimas, nas misérias,
no que a terra concerne.
Outrora alvoreceu o povo,
maltrapilho e miserável,
faminto e desgraçado,
e o dia de hoje alvorece
miseravelmente revolto
e sangrento miseravelmente.
Em suas mãos os fuzis
leões querem tomar
para acabar com as feras
que tantas vezes têm sido.
Ainda que te faltem as armas,
povo de cem mil poderes,
não desfaleçam seus ossos,
castiga a quem te golpeie
ainda que te faltem punhos,
unhas, saliva, e te traiam
coração, entranhas, tripas
coisas viris, e dentes.
Feroz como o vento feroz,
leve como o ar leve,
assassina ao que assassina,
aborrece ao que aborrece
a paz de seu coração
e o ventre de suas mulheres.
Não te firam com a espada,
vive cara a cara e morres
com o peito diante das balas,
largo como as paredes.
Canto com a voz de luto,
povo meu, por teus heróis:
suas dores como as minhas,
suas desgraças que têm
do mesmo metal o pranto,
as dores do mesmo calor,
e da mesma madeira
seu pensamento e minha testa,
seu coração e meu sangue,
sua fadiga e meus lauréis.
Antemuro do nada
essa vida me parece.
Aqui estou para viver
enquanto a alma ressoa
e aqui estou para morrer,
quando o tempo me venha,
nos veios do povo
agora e para sempre.
Vários tragos é a vida
e um só trago é a morte.

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Sentado sobre los muertos
Miguel Hernández

Sentado sobre los muertos
que se han callado en dos meses,
beso zapatos vacíos
y empuño rabiosamente
la mano del corazón
y el alma que lo mantiene.
Que mi voz suba a los montes
y baje a la tierra y truene,
eso pide mi garganta
desde ahora y desde siempre.
Acércate a mi clamor,
pueblo de mi misma leche,
árbol que con tus raíces
encarcelado me tienes,
que aquí estoy yo para amarte
y estoy para defenderte
con la sangre y con la boca
como dos fusiles fieles.
Si yo salí de la tierra,
si yo he nacido de un vientre
desdichado y con pobreza,
no fue sino para hacerme
ruiseñor de las desdichas,
eco de la mala suerte,
y cantar y repetir
a quien escucharme debe
cuanto a penas, cuanto a pobres,
cuanto a tierra se refiere.
Ayer amaneció el pueblo
desnudo y sin qué comer,
y el día de hoy amanece
justamente aborrascado
y sangriento justamente.
En su mano los fusiles
leones quieren volverse:
para acabar con las fieras
que lo han sido tantas veces.
Aunque le faltan las armas,
pueblo de cien mil poderes,
no desfallezcan tus huesos,
castiga a quien te malhiere
mientras que te queden puños,
uñas, saliva, y te queden
corazón, entrañas, tripas,
cosas de varón y dientes.
Bravo como el viento bravo,
leve como el aire leve,
asesina al que asesina,
aborrece al que aborrece
la paz de tu corazón
y el vientre de tus mujeres.
No te hieran por la espalda,
vive cara a cara y muere
con el pecho ante las balas,
ancho como las paredes.
Canto con la voz de luto,
pueblo de mí, por tus héroes:
tus ansias como las mías,
tus desventuras que tienen
del mismo metal el llanto,
las penas del mismo temple,
y de la misma madera
tu pensamiento y mi frente,
tu corazón y mi sangre,
tu dolor y mis laureles.
Antemuro de la nada
esta vida me parece.
Aquí estoy para vivir
mientras el alma me suene,
y aquí estoy para morir,
cuando la hora me llegue,
en los veneros del pueblo
desde ahora y desde siempre.
Varios tragos es la vida
y un solo trago es la muerte.

Quatro poemas de Nicanor Parra

nicanor

Traduções por Frank Morais

ADVERTÊNCIAS
Proíbe-se rezar, espirrar,
Cuspir, elogiar, ajoelhar,
Venerar, grunhir, expectorar.

Neste recinto é proibido dormir
Inocular, falar, excomungar
Compor, fugir, interceptar.

Rigorosamente proíbe-se correr.
É proibido fumar e fornicar.
ADVERTENCIAS
Se prohíbe rezar, estornudar
Escupir, elogiar, arrodillarse,
Venerar, aullar, expectorar.

En este recinto se prohíbe dormir
Inocular, hablar, excomulgar
Armonizar, huir, interceptar.

Estrictamente se prohíbe correr.
Se prohíbe fumar y fornicar.
O TÚNEL

Passei um tempo de juventude na casa de umas tias
A raiz da morte de um senhor intimamente ligado
a elas
Cujo fantasma as perturbava sem piedade
Fazia-lhes impossível a vida.

No início me mantive silencioso aos seus telegramas
Às suas cartas forjadas em uma linguagem de outra época,
Repletas de alusões mitológicas
E de nomes próprios desconhecidos para mim
Vários deles pertencentes a sábios da antiguidade
A filósofos medievais de menor valor
A simples moradores da localidade em que habitavam.

Abandonar de chofre a universidade
Romper com os encantos da vida galante
Interrompê-lo de todo
Com o objetivo de satisfazer os caprichos de três velhas
histéricas
Cheias de toda sorte de problemas pessoais
Resultava, para uma pessoa de meu temperamento,
Um porvir pouco lisonjeiro
Uma ideia disparatada.

Quatro anos vivi n’O Túnel, contudo,
Na companhia daquelas terríveis senhoras
Quatro anos de martírio constante
Da manhã à noite.
As horas de alegria que passei debaixo das árvores
Tornaram-se tão logo em semanas de enfado,
Em meses de angústia que tratava de dissimular
completamente
Com o intuito de não despertar curiosidade sobre
mim,
Em anos de ruína e miséria,
Séculos de prisão vividos por minha alma
No interior de uma jarra de mesa.

Minha concepção espiritualista do mundo
Deixou-me diante dos acontecidos numa situação de franca
inferioridade:
Eu tudo via através de um prisma
No fundo do qual as imagens de minhas tias se entrelaçavam
como fios vivos
Formando uma espécie de rede impenetrável
Que feria minha visão a tornando cada vez mais ineficaz.

Um jovem de escassos recursos não se dá conta das coisas.
Ele vive numa redoma de vidro que se chama de Arte
Que se chama Luxúria, que se chama Ciência
Tratando de estabelecer contato com um mundo de
relações
Que somente existe para ele e para um pequeno grupo de
amigos.

Sob os efeitos de uma espécie de vapor d´água
Que penetrava pelo piso da casa
Inundando a atmosfera até o tornar de todo invisível
Eu passava as noites sobre minha mesa de trabalho
Absorvido na prática da escrita automática.

Mas por que aprofundar nesses assuntos desagradáveis!
Aquelas matronas zombaram miseravelmente de mim
Com suas falsas promessas, com suas estranhas fantasias
Com suas dores sabiamente falseadas
Souberam-me conter em suas redes durante anos
Obrigando-me tacitamente a trabalhar para elas
Em fainas de agricultura
Em transações de animais
Até que uma noite, olhando pela maçaneta
Infligiu-se a mim que uma delas,
Minha tia paralítica!
Caminhava perfeitamente por sobre a ponta das pernas
E voltei à realidade com um sentimento dos demônios.

EL TÚNEL

Pasé una época de mi juventud en casa de unas tías
A raíz de la muerte de un señor íntimamente ligado a ellas
Cuyo fantasma las molestaba sin piedad
Haciéndoles imposible la vida.

En el principio yo me mantuve sordo a sus telegramas
A sus epístolas concebidas en un lenguaje de otra época
Llenas de alusiones mitológicas
Y de nombres propios desconocidos para mí
Varios de ellos pertenecientes a sabios de la antigüedad
A filósofos medievales de menor cuantía
A simples vecinos de la localidad que ellas habitaban.

Abandonar de buenas a primeras la universidad
Romper con los encantos de la vida galante
Interrumpirlo todo
Con el objeto de satisfacer los caprichos de tres ancianas histéricas
Llenas de toda clase de problemas personales
Resultaba, para una persona de mi carácter,
Un porvenir poco halagador
Una idea descabellada.

Cuatro años viví en El Túnel, sin embargo,
En comunidad con aquellas temibles damas
Cuatro años de martirio constante
De la mañana a la noche.
Las horas de regocijo que pasé debajo de los árboles
Tornáronse pronto en semanas de hastío
En meses de angustia que yo trataba de disimular al máximo
Con el objeto de no despertar curiosidad en torno a mi persona,
Tornáronse en años de ruina y de miseria
¡En siglos de prisión vividos por mi alma
En el interior de una botella de mesa!

Mi concepción espiritualista del mundo
Me situó ante los hechos en un plano de franca inferioridad:
Yo lo veía todo a través de un prisma
En el fondo del cual las imágenes de mis tías se entrelazaban como hilos vivientes
Formando una especie de malla impenetrable
Que hería mi vista haciéndola cada vez más ineficaz.

Un joven de escasos recursos no se da cuenta de las cosas.
Él vive en una campana de vidrio que se llama Arte
Que se llama Lujuria, que se llama Ciencia
Tratando de establecer contacto con un mundo de relaciones
Que sólo existen para él y para un pequeño grupo de amigos.

Bajo los efectos de una especie de vapor de agua
Que se filtraba por el piso de la habitación
Inundando la atmósfera hasta hacerlo todo invisible
Yo pasaba las noches ante mi mesa de trabajo
Absorbido en la práctica de la escritura automática.

Pero para qué profundizar en estas materias desagradables
Aquellas matronas se burlaron miserablemente de mí
Con sus falsas promesas, con sus extrañas fantasías
Con sus dolores sabiamente simulados
Lograron retenerme entre sus redes durante años
Obligándome tácitamente a trabajar para ellas
En faenas de agricultura
En compraventa de animales
Hasta que una noche, mirando por la cerradura
Me impuse que una de ellas
¡Mi tía paralítica!
Caminaba perfectamente sobre la punta de sus piernas
Y volví a la realidad con un sentimiento de los demonios.

 

SOLILÓQUIO DO INDIVÍDUO
Eu sou o Indivíduo.
Primeiro vivi em uma rocha
(Ali inscrevi algumas figuras).
Logo busquei um lugar mais apropriado.
Eu sou o Indivíduo.
Primeiro tive que procurar alimentos,
Buscar peixes, pássaros, buscar lenha
(Logo me preocuparia dos demais assuntos).
Fazer uma fogueira,
Lenha, lenha, onde encontrar um pouco de lenha,
Alguma lenha pra fazer uma fogueira,
Eu sou o Indivíduo.
Ao mesmo tempo me perguntei,
Fui a um abismo cheio de ar;
Respondeu-me uma voz:
Eu sou o Indivíduo.
Depois tratei de mudar-me a outra rocha,
Ali também inscrevi figuras,
Inscrevi um rio, búfalos,
Eu sou o Indivíduo.
Mas não. Enfastiei-me das coisas que fazia,
O fogo me maçava,
Queria ver mais,
Eu sou o Indivíduo.
Desci a um vale banhado por um rio,
Ali encontrei o que necessitava,
Encontrei um povo selvagem,
Uma tribo,
Eu sou o Indivíduo.
Vi que ali faziam algumas coisas,
Figuras inscreviam nas rochas,
Faziam fogo, também faziam fogo!
Eu sou o Indivíduo.
Perguntaram-me de onde vinha,
Respondi sim, que não tinha planos determinados,
Respondi não, que daqui em diante.
Bem.
Peguei então uma pedra que encontrei em um rio
E comecei a trabalhar com ela,
Comecei a lapidar-lhe,
Dela fiz uma parte de minha própria vida.
Isso está demais.
Cortei umas árvores pra navegar,
Buscava peixes,
Buscava diferentes coisas,
(Eu sou o Indivíduo).

Até que comecei a enfastiar-me novamente,
As tempestades enfastiam,
Os trovões, os relâmpagos,
Eu sou o Indivíduo.
Bem. Pus-me a pensar um pouco,
Perguntas estúpidas me vinham à cabeça,
Falsos problemas.
Então comecei a vagar por uns bosques,
Cheguei a uma árvore e a outra,
Cheguei a uma nascente,
A uma vala em que se viam alguns ratos,
Aqui estou eu, disse então,
Haveis visto por aqui uma tribo,
Um povo selvagem que faz fogo?
Assim me desloquei rumo ao oeste,
Acompanhado por outros seres
Ou tanto melhor sozinho.
Para avistar há que acreditar, diziam-me,
Eu sou o Indivíduo.
Formas entrevia na penumbra,
Nuvens talvez,
Talvez entrevisse nuvens, entrevisse relâmpagos,
Enquanto isso, já dias havia passado,
Sentia-me morrer.
Inventei umas máquinas,
Construí relógios,
Armas, veículos,
Eu sou o Indivíduo.
Só havia tempo para enterrar meus mortos,
Só havia tempo para semear,
Eu sou o Indivíduo.
Anos mais tarde concebi umas coisas,
Umas formas,
Cruzei as fronteiras,
E permaneci parado em uma espécie de galé,
Um barco que navegou quarenta dias,
Quarenta noites,
Eu sou o Indivíduo.
Logo vieram umas secas,
Vieram umas guerras,
Espécies de raios invadiram o vale,
Mas devia seguir a diante,
Devia produzir.
Produzi ciência, verdades imutáveis,
Produzi tânagras,
Dei luz a livros de milhares páginas,
Inchou-me o rosto,
Construí um gramofone,
A máquina de costura,
Começaram a aparecer os primeiros automóveis,

Eu sou o Indivíduo.
Alguém segregava planetas,
Árvores segregavam!
Mas eu segregava ferramentas,
Móveis, objetos de escrivaninha,
Eu sou o Indivíduo.
Construíram-se também cidades,
Rotas,
Instituições religiosas saíram de moda,
Buscavam ventura, buscavam felicidade,
Eu sou o Indivíduo.
Depois, me dediquei a viajar melhor,
A praticar, praticar idiomas,
Idiomas,
Eu sou o Indivíduo.
Olhei por uma fechadura,
Sim, olhei, o que falo, olhei,
Por trás de umas cortinas,
Eu sou o Indivíduo,
Bem.
Melhor é talvez que se volte a esse vale,
E comece a inscrever novamente,
De trás para frente inscrever,
O mundo ao contrário.
Mas não: a vida não tem sentido.

SOLILOQUIO DEL INDIVIDUO

Yo soy el Individuo.
Primero viví en una roca
(Allí grabé algunas figuras).
Luego busqué un lugar más apropiado.
Yo soy el Individuo.
Primero tuve que procurarme alimentos,
Buscar peces, pájaros, buscar leña,
(Ya me preocuparía de los demás asuntos).
Hacer una fogata,
Leña, leña, dónde encontrar un poco de leña,
Algo de leña para hacer una fogata,
Yo soy el Individuo.
Al mismo tiempo me pregunté,
Fui a un abismo lleno de aire;
Me respondió una voz:
Yo soy el Individuo.
Después traté de cambiarme a otra roca,
Allí también grabé figuras,
Grabé un río, búfalos,
Yo soy el Individuo.
Pero no. Me aburrí de las cosas que hacía,
El fuego me molestaba,
Quería ver más,
Yo soy el Individuo.
Bajé a un valle regado por un río,
Allí encontré lo que necesitaba,
Encontré un pueblo salvaje,
Una tribu,
Yo soy el Individuo.
Vi que allí se hacían algunas cosas,
Figuras grababan en las rocas,
Hacían fuego, ¡también hacían fuego!
Yo soy el Individuo.
Me preguntaron que de dónde venía.
Contesté que sí, que no tenía planes determinados,
Contesté que no, que de allí en adelante.
Bien.
Tomé entonces un trozo de piedra que encontré en un río
Y empecé a trabajar con ella,
Empecé a pulirla,
De ella hice una parte de mi propia vida.
Pero esto es demasiado largo.
Corté unos árboles para navegar,
Buscaba peces,
Buscaba diferentes cosas,
(Yo soy el Individuo).

Hasta que me empecé a aburrir nuevamente.
Las tempestades aburren,
Los truenos, los relámpagos,
Yo soy el Individuo.
Bien. Me puse a pensar un poco,
Preguntas estúpidas se me venían a la cabeza.
Falsos problemas.
Entonces empecé a vagar por unos bosques.
Llegué a un árbol y a otro árbol;
Llegué a una fuente,
A una fosa en que se veían algunas ratas:
Aquí vengo yo, dije entonces,
¿Habéis visto por aquí una tribu,
Un pueblo salvaje que hace fuego?
De este modo me desplacé hacia el oeste
Acompañado por otros seres,
O más bien solo.
Para ver hay que creer, me decían,
Yo soy el Individuo.
Formas veía en la obscuridad,
Nubes tal vez,
Tal vez veía nubes, veía relámpagos,
A todo esto habían pasado ya varios días,
Yo me sentía morir;
Inventé unas máquinas,
Construí relojes,
Armas, vehículos,
Yo soy el Individuo.
Apenas tenía tiempo para enterrar a mis muertos,
Apenas tenía tiempo para sembrar,
Yo soy el Individuo.
Años más tarde concebí unas cosas,
Unas formas,
Crucé las fronteras
y permanecí fijo en una especie de nicho,
En una barca que navegó cuarenta días,
Cuarenta noches,
Yo soy el Individuo.
Luego vinieron unas sequías,
Vinieron unas guerras,
Tipos de color entraron al valle,
Pero yo debía seguir adelante,
Debía producir.
Produje ciencia, verdades inmutables,
Produje tanagras,
Di a luz libros de miles de páginas,
Se me hinchó la cara,
Construí un fonógrafo,
La máquina de coser,
Empezaron a aparecer los primeros automóviles,

Yo soy el Individuo.
Alguien segregaba planetas,
¡Árboles segregaba!
Pero yo segregaba herramientas,
Muebles, útiles de escritorio,
Yo soy el Individuo.
Se construyeron también ciudades,
Rutas
Instituciones religiosas pasaron de moda,
Buscaban dicha, buscaban felicidad,
Yo soy el Individuo.
Después me dediqué mejor a viajar,
A practicar, a practicar idiomas,
Idiomas,
Yo soy el Individuo.
Miré por una cerradura,
Sí, miré, qué digo, miré,
Para salir de la duda miré,
Detrás de unas cortinas,
Yo soy el Individuo.
Bien.
Mejor es tal vez que vuelva a ese valle,
A esa roca que me sirvió de hogar,
Y empiece a grabar de nuevo,
De atrás para adelante grabar
El mundo al revés.
Pero no: la vida no tiene sentido.

A MONTANHA RUSSA

Durante meio século
A poesia foi
O paraíso do tonto solene
Até que vim eu
E me instalei com minha montanha russa.

Subam, se lhes parece.
Claro que não respondo se descerem
Vertendo sangue pela boca e nariz.

LA MONTANHA RUSA
Durante medio siglo
La poesía fue
El paraíso del tonto solemne
Hasta que vine yo
Y me instale com mi montaña rusa.

Suban, si les parece.
Claro que yo no respondo si bajan
Echando sangre por boca y narices.
 

 

 

O jardim das delícias, de Olga Orozco

olga

Tradução: Jeff Vasques, originalmente publicada no Eu passarin.

Acaso é nada mais que uma zona de abismos e vulcões em
plena ebulição, predestinada às cegas para as cerimônias da
espécie nesta inexplicável travessia para baixo? Ou talvez um
atalho, uma emboscada obscura onde o demônio aspira a inocência
e sela à sangue e fogo sua condenação na estirpe da alma? Ou
quiça tão somente uma região marcada como uma cruz de encontro
e desencontro entre dois corpos submissos como sóis?
Não. Nem viveiro da Perpetuação, nem frágua do pecado original,
nem armadilha do instinto, por mais que apenas um vento exasperado
propague por sua vez a fumaça, a combustão e a cinza. Nem sequer
um lugar, ainda que se precipite o firmamento e haja um céu que
foje, inumerável, como todo instantâneo paraíso.
Sozinha, só um número insensato, uma prega nas membranas
da ausência, um relâmpago sepultado em um jardim.
Mas basta o desejo, o sobressalto do amor, a sirena da
viagem, e então é mais um nó tenso em torno do feixe de
todos os sentidos e suas múltiplas ramas ramificadas até a
árvore da primeira tentação, até o jardim das delícias e
suas secretas ciências de extravio que se expandem de repente
da cabeça até os pés igual que um sorriso, o mesmo
que uma rede de ansiosos filamentos arrancados dum raio, a
corrente eriçada arrastando-se em busca do extermínio ou da saída,
escorrendo-se para dentro, rastejada por esses sortilégios que são
como tentáculos de mar e que arrebatem com vertigem indizível
até o fundo do tato, até o centro sem fim que se desfunda
caindo desde do alto, enquanto passa e trespassa essa orgânica
noite interrogante de cristas e focinhos e buzinas, com
ofegar de besta fugitiva, com seu flanco atiçado pelo chicote
do horizonte inalcançável, com seus olhos abertos aos mistério
da dupla treva, derrubando com cada sacudida a nebulosa
maquinaria do planeta, pondo em suspensão corolas como
lábios, esferas como frutos palpitantes, borbulhas onde pulsa
a espuma de outro mundo, constelações extraídas vivas de seu
prado natal, um êxodo de galáxias semelhantes a plumas girando
loucamente em um grande aluvião, nesse torvelinho estrondoso que
já se precipita pelo funil da morte com todo o universo
em expansão, com todo o universo em contração para o parto
do céu, e faz estalar de repente a redoma e dispersa no
sangue a criação.
O sexo, sim,
melhor, uma medida:
a metade do desejo, que é apenas a metade do amor.

 

***

El jardín de las delicias
Olga Orozco

¿Acaso es nada más una zona de abismos y volcanes en plena ebullición, predestinada a ciegas para las ceremonias de la especie en esta inexplicable travesía hacia abajo? ¿O tal vez un atajo, una emboscada oscura donde el demonio aspira la inocencia y sella a sangre y fuego su condena en la estirpe del alma? ¿O tan sólo quizás una región marcada como un cruce de encuentro y desencuentro entre dos cuerpos sumisos como soles?
.
No. Ni vivero de la perpetuación, ni fragua del pecado original, ni trampa del instinto, por más que un soIo viento exasperado propague a la vez el humo, la combustión y la ceniza. Ni siquiera un lugar, aunque se precipite el firmamento y haya un cielo que huye, innumerable, como todo instantáneo paraíso.A solas, sólo un número insensato, un pliegue en las membranas de la ausencia, un relámpago sepultado en un jardín.
.
Pero basta el deseo, el sobresalto del amor, la sirena del viaje, y entonces es más bien un nudo tenso en torno al haz de todos los sentidos y sus múltiples ramas ramificadas hasta el árbol de la primera tentación, hasta el jardín de las delicias y sus secretas ciencias de extravío que se expanden de pronto de la cabeza hasta los pies igual que una sonrisa, lo mismo que una red de ansiosos filamentos arrancados al rayo, la corriente erizada reptando en busca del exterminio o la salida, escurriéndose adentro, arrastrada por esos sortilegios que son como tentáculos de mar y arrebatan con vértigo indecible hasta el fondo del tacto, hasta el centro sin fin que se desfonda cayendo hacia lo alto, mientras pasa y traspasa esa orgánica noche interrogante de crestas y de hocicos y bocinas, con jadeo de bestia fugitiva, con su flanco azuzado por el látigo del horizonte inalcanzable, con sus ojos abiertos al misterio de la doble tiniebla, derribando con cada sacudida la nebulosa maquinaria del planeta, poniendo en suspensión corolas como labios, esferas como frutos palpitantes, burbujas donde late la espuma de otro mundo, constelaciones extraídas vivas de su prado natal, un éxodo de galaxias semejantes a plumas girando locamente en el gran aluvión, en ese torbellino atronador que ya se precipita por el embudo de la muerte con todo el universo en expansión, con todo el universo en contracción para el parto del cielo, y hace estallar de pronto la redoma y dispersa en la sangre la creación.
.
El sexo, sí,
más bien una medida:
la mitad del deseo, que es apenas la mitad del amor.

a poesia terminou comigo, de Nicanor Parra

La Poesía Terminó Conmigo

Yo no digo que ponga fin a nada
no me hago ilusiones al respecto
yo quería seguir poetizando
pero se terminó la inspiración.
La poesía se ha portado bien
yo me he portado horriblemente mal.

Qué gano con decir
yo me he portado bien
la poesía se ha portado mal
cuando saben que yo soy el culpable.

¡Está bien que me pase por imbécil!

La poesía se ha portado bien
yo me he portado horriblemente mal
la poesía terminó conmigo.

 

*

 

A poesia terminou comigo

 

Não digo que pus fim em nada

não trago ilusões a respeito

eu queria seguir poetizando

mas a inspiração acabou.

A poesia se comportou bem

eu que me comportei horrivelmente mal.

 

Ganho o quê em dizer

que me comportei bem

e a poesia se comportou mal

quando todos já sabem que sou culpado.

 

Tudo bem que eu me passe por idiota!

 

A poesia se comportou bem

eu que me comportei horrivelmente mal

a poesia terminou comigo.