Traduzindo Brecht, de Franco Fortini (tradução Cláudia Alves)

Franco Fortini
Franco Fortini

 

Traduzindo Brecht
Franco Fortini
Tradução Cláudia Alves

Um grande temporal,
durante toda a tarde, retorceu-se
por cima dos telhados antes de se romper em relâmpagos, água.
Eu fitava versos de cimento e de vidro
onde havia gritaria e escaras muradas e membros
também meus, aos quais sobrevivo. Com cautela, olhando
ora as telhas batalhadas, ora a página seca,
eu escutava morrer
a palavra de um poeta ou transformar-se
em outra, não mais por nós, voz. Os oprimidos
estão oprimidos e tranquilos, os opressores tranquilos
falam ao telefone, o ódio é educado, eu mesmo
acredito não saber mais de quem é a culpa.

Escreva, digo a mim mesmo, odeia
quem com doçura guia ao nada
os homens e as mulheres que te acompanham
e acreditam não saber. Entre os inimigos
escreva também o teu nome. O temporal
dissipou-se com ênfase. A natureza
ao imitar as batalhas é muito fraca. A poesia
não muda nada. Nada é certo, mas escreva.

(Una volta per sempre, 1963)

*

Traducendo Brecht
Franco Fortini

Un grande temporale
per tutto il pomeriggio si è attorcigliato
sui tetti prima di rompere in lampi, acqua.
Fissavo versi di cemento e di vetro
dov’erano grida e piaghe murate e membra
anche di me, cui sopravvivo. Con cautela, guardando
ora i tegoli battagliati ora la pagina secca,
ascoltavo morire
la parola d’un poeta o mutarsi
in altra, non per noi più, voce. Gli oppressi
sono oppressi e tranquilli, gli oppressori tranquilli
parlano nei telefoni, l’odio è cortese, io stesso
credo di non sapere più di chi è la colpa.

Scrivi mi dico, odia
chi con dolcezza guida al niente
gli uomini e le donne che con te si accompagnano
e credono di non sapere. Fra quelli dei nemici
scrivi anche il tuo nome. Il temporale
è sparito con enfasi. La natura
per imitare le battaglie è troppo debole. La poesia
non muta nulla. Nulla è sicuro, ma scrivi.

(Una volta per sempre, 1963)

Este tempo sabático, de Patrizia Cavalli (tradução Cláudia Alves)

Patrizia Cavalli por Dino Ignani

Patrizia Cavalli por Dino Ignani

 

Este tempo sabático

Patrizia Cavalli

Tradução Cláudia Alves

 

Este tempo sabático

antes de uma partida, este tempo

roubado do tempo, este tempo não meu

nem dos outros, o tempo da bagagem

e do atraso, este luxo suspenso,

esta rica margem

quando audaz e irresponsável posso

aquilo que nem mesmo os anos me concedem,

onde se apressam os pensamentos mais negligenciados

e são acolhidos, e entre um pijama

e uma camisa se instala majestoso

mas flexível o possível, onde eu poderia

até mesmo te telefonar e me declarar

louca de amor, este único tempo verdadeiro

involuntário que nos é dado

pela graça das partidas, este

que não é nada mais do que uma oração.

*

Questo tempo sabbatico 

Patrizia Cavalli

 

Questo tempo sabbatico

prima di una partenza, questo tempo

rubato al tempo, questo tempo non mio

né di altri, il tempo della valigia

e del ritardo, questo lusso sospeso,

questo margine ricco,

quando audace e irresponsabile posso

quello che neanche gli anni mi concedono,

dove accorrono i pensieri più negletti

e sono accolti, e tra un pigiama

e una camicia s’insedia maestoso

ma arrendevole il possibile, dove potrei

persino telefonarti e dichiararmi

folle d’amore, questo unico tempo vero

involontario che ci è dato

per grazia di partenze, questo

non è nient’altro che preghiera.

 

“Saudades da pátria”, três poemas de Marina Tsvetáieva no exílio

Marina Tsvetaeva, photo for passport on eve of return to Russia (France, 1939) cvetaeva

“Saudades da pátria”, três poemas de Marina Tsvetáieva no exílio;
Traduções por André Nogueira (2017),
Publicação em homenagem ao Dia Internacional do Refugiado, 20 de junho 2017.
Imagem: Marina Tsvetáieva, foto no passaporte de retorno para a União Soviética em 1939.

O PAÍS

O globo inteiro apalpa
E examina, palmo a palmo!
Esse país não há no mapa, –
Não existe. – Só na alma.

Da xícara bebida até o fim –
Reluz, límpido, o fundo.
Voltar – para uma casa assim,
Que foi varrida desse mundo?

Se renascer me preocupa, –
De novo – em um novo país?
Voltar – eu mesma quis!
E saltar sobre a garupa

Desse alazão convulso!
Sairei de ossos ilesos?
Voltasse eu ao país russo,
Só farelos – com desprezo,

O padeiro me daria, e um caixão
Não me faria o carpinteiro.
Aquela – de incontável imensidão,
De magníficos outeiros,

Aquela – de reinos celestiais
E dos meus anos juvenis,
Aquela Rússia – não há mais.

– Tampouco eu, sem meu país.

fins de junho 1931

СТРАНА

С фонарём обшарьте
Весь подлунный свет!
Той страны на карте —
Нет, в пространстве — нет.

Выпита как с блюдца, —
Донышко блестит.
Можно ли вернуться
В дом, который — срыт?

Заново родися —
В новую страну!
Ну-ка, воротися
На спину коню

Сбросившему! Кости
Целы-то — хотя?
Эдакому гостю
Булочник — ломтя

Ломаного, плотник —
Гроба не продаст!
Той её — несчётных
Вёрст, небесных царств,

Той, где на монетах —
Молодость моя,
Той России — нету.

— Как и той меня.

Конец июня 1931

…………~//~

PÁTRIA

Oh, meu implacável idioma!
Como ouvisse simplesmente uma campônia,
Uma rústica canção que murmurinha:
– Rússia, pátria minha!

No horizonte, atrás da cordilheira,
Pátria minha – e estrangeira! –
Ela mostrou-se para mim:
Terra distante, lá dos últimos confins!

Distância, minha sôfrega doença,
A tal ponto é minha pátria de nascença
Que carrego, aonde for, essa distância –
Minha parte que está fora do alcance.

Distância, que se afasta e não me solta,
Distância, que me diz: “Rápido volta
Para casa!
……………..No horizonte estrela branca
Que de todos os lugares me arranca!

Do suor da caminhada só me resta
Inundar a vastidão da minha testa.

Tu, hei de perder-me nos teus braços!
Com os lábios selarei, ao pé do cadafalso:
Pátria minha – prometida! –
Onde se encontra a perdição da minha vida.

12 de maio 1932

РОДИНА

  
О, неподатливый язык!
Чего бы попросту — мужик,
Пойми, певал и до меня:
«Россия, родина моя!»
  
Но и с калужского холма
Мне открывалася она —
Даль, тридевятая земля!
Чужбина, родина моя!
  
Даль, прирожденная, как боль,
Настолько родина и столь —
Рок, что повсюду, через всю
Даль — всю ее с собой несу!
  
Даль, отдалившая мне близь,
Даль, говорящая: «Вернись
Домой!»
……………..Со всех — до горних звезд —
Меня снимающая мест!
 
Недаром, голубей воды,
Я далью обдавала лбы.
  
Ты! Сей руки своей лишусь,—
Хоть двух! Губами подпишусь
На плахе: распрь моих земля —
Гордыня, родина моя!
  
12 мая 1932
 
……………..~//~

* * *
  
Saudades da pátria! Com esse mal
Há muito tempo que eu luto!
Para mim é absolutamente igual
Onde estar só em absoluto.
  
Quais cascalhos que eu arranhe
Arrastando o carrinho de feira
Para a casa, que me é de todo estranha –
Se hospital ou se caserna, como queira.
  
A mim é indiferente, qual o povo
Que há de ver em cativeiro
A leonina minha crespa cabeleira,
Ou me expulsar – de novo! –
  
Ao deserto dessa minha solidão.
Urso polar apartado do gelo
Onde não posso viver (e não faço questão!),
Tanto me faz – onde será o pesadelo.
  
Não me ilude o chamado longínquo
Da materna minha língua, que convida… –
Não me importa, em qual língua
Serei mal-compreendida.
  
(O leitor de jornais, o ouvinte
De notícias, fuçador de mexericos…)
Ele – é do século vinte,
E eu – de todo século abdico!
  
Como um tronco que a esmo
Vê na rua em seu redor passar a gente,
Para mim é indiferente, dá no mesmo –
E, talvez, de tudo o mais indiferente
  
Seja a pátria onde se acha.
Cada marca dela em mim que se esconde
Vou despir, de cima a baixo:
Eis a alma, que nasceu – tanto faz onde.
  
E eu também, para a pátria, tanto faço, –
De frente para trás, de trás para frente,
Investigue se encontra dela traço,
Inspetor, em minha alma indiferente!
  
Estranha é cada casa, vazios todos os templos, –
E tudo – indiferente, e tudo – igual.
Mas basta que um arbusto eu contemple, –
E da sorva me lembre – da terra natal…
  
1934
 
* * *

Тоска по родине! Давно
Разоблаченная морока!
Мне совершенно все равно —
Где — совершенно одинокой

Быть, по каким камням домой
Брести с кошелкою базарной
В дом, и не знающий, что — мой,
Как госпиталь или казарма.

Мне все равно, каких среди
Лиц ощетиниваться пленным
Львом, из какой людской среды
Быть вытесненной — непременно —

В себя, в единоличье чувств.
Камчатским медведем без льдины
Где не ужиться (и не тщусь!),
Где унижаться — мне едино.

Не обольщусь и языком
Родным, его призывом млечным.
Мне безразлично, на каком
Непонимаемой быть встречным!

(Читателем, газетных тонн
Глотателем, доильцем сплетен…)
Двадцатого столетья — он,
А я — до всякого столетья!

Остолбеневши, как бревно,
Оставшееся от аллеи,
Мне все — равны, мне всё — равно;
И, может быть, всего равнее —

Роднее бывшее — всего.
Все признаки с меня, все меты,
Все даты — как рукой сняло:
Душа, родившаяся — где-то.

Так край меня не уберег
Мой, что и самый зоркий сыщик
Вдоль всей души, всей — поперек!
Родимого пятна не сыщет!

Всяк дом мне чужд, всяк храм мне пуст,
И всё — равно, и всё — едино.
Но если по дороге — куст
Встает, особенно — рябина …

1934

……………..~//~