15 Poemas de Vladímir Maiakóvski (traduções e notas por André Nogueira)

 

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Foto: Maiakóvski declama para os auditórios da União Soviética em 1930. Ao fundo uma faixa: “Proletários de todo o mundo, uni-vos!” Obs.: os desenhos nesta publicação são cartazes de Maiakóvski projetados para a ROSTA, Agência Telegráfica Russa. Eles não constituem originalmente ilustrações dos poemas que se seguem.
   

15 POEMAS DE VLADÍMIR MAIAKÓVSKI

Traduções e notas: André Nogueira (2017)


O IMPERADOR

Lembro –
……….  …isso foi talvez na páscoa,
ou quem sabe –
…………………..no natal.
Estava limpa
……………….e preparada
………………………………toda a praça
para a marcha
 ………………..triunfal.
Os soldados,
…………….. .desde os rasos
………………………………….aos tenentes-coronéis:
na Tviérskaia se vê
……………………….do pelotão
……………………………………..fileira tensa.
Oficial torce o bigode,
…………………………..grita e bate com os pés:
– Às suas ordens! –
………………  ………eles batem continência.
De repente –
………………. a carruagem a deslizar,
……………………………………………..sob a capota
com bem asseada barba
……………………………..está sentado um militar,
quatro filhotas
………………….como tábuas
…………………………………..atrás dele
……………….  ……………………………..a acenar.
Sobre o asfalto
………………….à via larga,
como sobre
  …………….as nossas costas,
……………………………………o cortejo
e hasteados para o alto
…………………………….os brasões e as águias –
eu da turba
……………..tudo vejo.
As senhoras se empurram,
…………………………………toca o sino na campana
e encobre
……………– Urra, urra! –
………………………………os gritinhos com os quais
elas recebem sua nobre
…………………………….majestade Nikolai,
“nosso tsar-imperador,
..  …………………………de toda a Rússia o soberano!”

A neve cai
……………sobre os telhados,
…………………………………..a nós todos soterrando.
A se arrastar pelos Urais,
………………………………pela extensão siberiana,
pelo Iset
………….de margens íngremes e minas,
pelo Iset
………….das ventanias glaciais –
essa intempérie insana
. ……………    …………..em Sverdlóvsk termina. 1
O trenó do comitê
………………..   …..já a cidade
…………………..    ……………..ultrapassa.
Por azar,
  ………..a neve cobre
.. ………………………..o mundo todo –
não se vê a coisa alguma,
…  …………………………..só dos lobos
o seu rastro
……………..atrás da caça.
Estacionamos,
…………………finalmente,
………………………………..há vinte verstas.
O exército dos cedros
.. … …………………….se perfila
… … ………………………………..até ao longe.
Paramánov à frente,
……. ………………….penetramos na floresta,
caminhamos pela trilha,
…. …. ……………………..para onde?
Mais pesado
………  ……..que da mina
…..  ……   ………………….a bruta pedra,
um tesouro
………… . ..nunca achado.
Toda a glória e majestade
……………………………….do tsar-imperador
em que buraco
…….. ……  …..se esconde…
Dentre os cedros
…………….. …….uma marca
……. ………..   ………………..de machado…
– Aqui!? –
……………Não.
………………….Pelo menos por enquanto.
Nossas botas
……………….que escavem
………………………………..noutro canto.
Nalgum lugar
………………..sob os cascalhos
……………………………………..da estrada,
sob as raízes
…… ……….. dessas árvores,
a última estada
………………. …de seus míseros
……………………………………….cadáveres.
No alto,
…………sobre as nuvens hasteado,
o dia rápido amanheça,
e uma ave
 …………..malfazeja –
negro corvo
……..  ……..de uma única cabeça –
lamentando-se pragueja.

Vos seduz
……………o esplendor
……………………………de uma coroa?
Descobris
…………..como essa luz
……………………………..vos ilumina,
pela última das vezes,
…………………………..quando enfim
.   ……   …………………………………..se amontoa
a sepulta realeza
………. …………..no escuro destas minas.

Sverdlovsk, 1928

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1 Em janeiro de 1928 Vladímir Maiakóvski visitou Sverdlóvsk, nome pelo qual foi rebatizada, em 1924, a cidade de Ekaterinburg. Nessa cidade foram fuzilados o último imperador da Rússia, Nikolai Romanov (o tsar Nicolau II) e sua família: a tsarina Aleksandra, o tsariévitch Aleksei, as quatro filhas, Anastássia, Maria, Tatiana e Olga; também os empregados e amigos que os acompanhavam no exílio. Sabe-se que isso aconteceu em 17 de julho de 1918, na Casa Ipátiev, residência onde estavam feitos prisioneiros. Mas ao longo de muitas décadas não se soube ao certo a localidade de seus corpos. Suspeitava-se que os tivessem lançado no fosso de uma mina abandonada, às margens do rio Iset, ou enterrado na floresta de Koptiaki, à beira da estrada que dava acesso à cidade.

Maiakóvski atendeu ao convite de Anatoli Ivánovitch Paramánov, presidente do comitê executivo distrital de Sverdlóvsk, para conhecer a cidade, onde chegou no dia 27 de janeiro. Durante os três dias de sua estadia, participou de reuniões com os estudantes e leu seus poemas aos trabalhadores das indústrias e mineiros. Teve tempo, também, de conhecer a Casa Ipátiev. Paramánov disse saber o local onde haviam enterrado o corpo do “Imperador” e Maiakóvski o quis ver pessoalmente. O trenó do comitê executivo os levou pela trilha nevada ao meio da floresta entre os cedros com marcações que indicariam o local exato. No entanto, resta dúvidas se nesse dia realmente encontraram o que procuravam. A Pavel Lavut, seu amigo e secretário, Maiakóvski confessou:

“Claro que ver a sepultura do tsar não tem a mínima importância. E, para falar a verdade, nada há para se ver. É difícil de encontrar, encontram ela por sinais, sendo um segredo conhecido só por certo grupo de pessoas. Mas para mim o que importa é passar a sensação de que, nesse lugar, partiu daqui o último réptil rastejante da última dinastia, que tanto sangue bebeu ao longo dos séculos”. (Lavut, 1963, p. 182)

Depois do preâmbulo, em que recorda um desfile, pela rua Tviérskaia em Moscou, da família Románov antes de sua queda, na seqüência do poema Maiakóvski registra sua visita à sepultura do imperador em Sverdlóvsk. A imagem do corvo de uma única cabeça, ironia com o símbolo da águia bicéfala, que estampava os brasões do Império russo, sela a sinistra moral da história; no entanto, nas anotações do poeta existe o rascunho de uma versão diferente para o final, que soa muito ao contrário da versão escolhida para a publicação:

Com certeza que levanto as duas mãos
e voto contra.
Ousa as tuas levantar
para pôr fim à vida humana.
Eu não quero errar na curva.
Eles vivos poderiam ser mantidos num zoológico
entre a jaula da hiena e a do lobo.
Se o mínimo sentido não faziam como vivos,
tanto menos eles fazem sendo mortos desse jeito.
O jogo da história nós viramos,
para sempre se despeçam do que é velho:
um comunista, sendo homem,
não terá as suas mãos sujas de sangue.

ИМПЕРАТОР

Помню –
…………..то ли пасха,
то ли –
……. …рождество:
вымыто
………….и насухо
расчищено торжество.
По Тверской
………………..шпалерами
………………………………..стоят рядовые,
перед рядовыми –
………………………..пристава.
Приставов
……………..глазами
…………………………едят городовые:
– Вае благородие,
……………………….арестовать? –
Крутит
…………полицмейстер
………………………………за уши ус.
Пристав козыряет:
…………………………– Слушаюсь! –
И вижу –
……………катится ландо,
и в этой вот ланде
сидит
……….военный молодой
в холеной бороде.
Перед ним,
……………….как чурки,
четыре дочурки.
И на спинах булыжных,
……………………………….как на наших горбах,
свита
…….. за ним
……………….в орлах и в гербах.
И раззвонившие колокола
расплылись
……………….в дамском писке:
Уррра!
………..царь-государь Николай,
император
……………..и самодержец всероссийский!

Снег заносит
…………………косые кровельки,
серебрит
……………телеграфную сеть,
он схватился
…………………за холод проволоки
и остался
……………на ней
……………………..висеть.
На вбирь,
……………на весь Урал
метельная мура.
За Исетью,
……………..где шахты и кручи,
за Исетью,
……………..где ветер свистел,
приумолк
…………….исполкомовский кучер
и встал
…………на девятой версте.
Вселенную
………………снегом заволокло.
Ни зги не видать –
…………………………как на зло.
И только
…………..следы
  ………………….от брюха волков
по следу
…………..диких козлов.
Шесть пудов
…………………(для веса ровного!),
будто правит
…………………кедров полком он,
снег хрустит
.. … …………..под Парамоновым,
председателем
…………………..исполкома.
Распахнулся весь,
роют
……..снег
…………..пимы.
– Будто было здесь?!
Нет, не здесь.
………………….Мимо! –
Здесь кедр
……………..топором перетроган,
зарубки
………….под корень коры,
у корня,
………….под кедром,
…………………………..дорога,
а в ней –
…….. …..император зарыт.
Лишь тучи
……………..флагами плавают,
да в тучах
…………….птичье вранье,
крикливое и одноглавое,
ругается воронье.

Прельщают
………………многих
…………………………короны лучи.
Пожалте,
… ………..дворяне и шляхта,
корону
………..можно
………………….у нас получить,
но только
……………вместе с шахтой.

Свердловск, 1928

[O rascunho não publicado da última estrofe]:

Я вскину две моих пятерни
Я сразу вскину две пятерни
Что я голосую против
Я голосую против
Спросите руку твою протяни
казнить или нет человечьи дни
не встать мне на повороте
Живые так можно в зверинец их
Промежду гиеной и волком
И как не крошечен толк от живых
от мертвого меньше толку
Мы повернули истории бег
Старье навсегда провожайте
Коммунист и человек
Не может быть кровожаден

…………………….~//~


A APARIÇÃO DO CRISTO

Tragam rosas
………………..e tulipas
……………………………para a festa,
de branco vistam
……………………..as crianças.
À Europa
….. ………um novo Cristo
………………………………..manifesta-se
em Kellog, 1
…………….ministro
…….. …………………de ilustres alianças.
Esse Cristo
……………..caminhando pelas águas
……………………………………………..não se viu.
De última hora,
……. …………….vestindo um smoking,
chegava  a Paris
……………………de navio.
Esse Kellogg
……………….que pintam de Cristo
…………………………………………..não cola:
esse Cristo não tem
………………………..nem coroa ou casula.
Não obstante,
…………………a cartola está
…………………………………..laureada de dólar.
Mister Cristo
……………….as nações
…………………………….congratula.
Do sagrado coração,
em seu banquete
…………………….com os grandes
…………………………………………capitães,
erguem-se à paz
……………………na humanidade
suas taças
……………de champanhe.
Enquanto a nós
…………………..nos aparece
…………………………………..claramente
o que esconde
…………………esse Cristo
………………………………..em sua manga.
A sua manga
………………..está repleta…
…………………………………..adivinha:
de ianques,
……………..a mais forte
……………………………..frota aérea
e marinha,
…………….muito gás
………………………….em seus balões,
munições
……………em seus tanques.
Preparado
…………….o Cristo tem
…….. ……………………..um respeitável arsenal;
porém a pedra
…………………principal
……………………………..em sua manga
é que de ódio
………………..ele sangra,
dentre todas as nações,
…………………………….sobretudo
contra nós,
……………..os bolcheviques.
Antes que o Cristo,
……………………….sob o leque
………………………………………da palmeira,
abra a boca
……………..e uma guerra ele decrete, –
operário,
…………..camponês,
…………………………alerta fique!
Cerrai fileiras,
…………………Sovietes!

1928

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1 Frank B. Kellog – político, Secretário de Estado norte-americano e um dos autores, junto com o ministro francês Aristide Briand, do Pacto Kellog-Briand, ou “Tratado Geral para a Renúncia à Guerra como Instrumento de Política Nacional”. Ao acordo da França com os Estados Unidos, assinado também pela Alemanha em agosto de 1928, adeririram as principais potências mundiais. A União Soviética o assinou no ano seguinte. Kellog recebeu, ao mérito pelo seu Tratado, uma série de honrarias, incluindo o Prêmio Nobel da Paz em 1929. Maiakóvski esteve nos Estados Unidos em 1925, viu a sociedade capitalista em pleno funcionamento e se inteirou de seu poder industrial e bélico, o qual denuncia neste poema, discernindo o caráter precário da paz assinada nos tratados e a posição estratégica do exército na defesa nacional. De igual maneira procede em outro poema de 1928, Máximas-rimas [Lozungi-rifmi], ao dizer:

(…)
Já dez anos se passaram,
……………………………..o furor se aquieta.
Mas a guerra não cessou, 
……………………………..o inimigo está alerta.
Os dias rápido se agitam,
………………………………a batalha à porta bate.
Aprendei
………….como se marcha
………………………………nas fileiras do combate. (…)

Já a Tríplice Entente
………………………..movimenta o braço armado.
Baionetas sustentem,
…………………………em riste,
……………………………………soldados!

Debandou o inimigo…
…………………………..À distância o contemplais?
Aprendei,
………….cavalaria,
………………………a perseguir os generais.

Ouvis o vil sabotador
…………………………que sorrateiro ele se move?
Aprendei,
………….trabalhador,
………………………….a manejar vosso revólver.

Nosso século desfaz-se
…………………………..pelas mãos de homens de fraque.
Segurai,
………..frota vermelha,
…………………………..não deixai que ele naufrague!

A batalha não cessou,
………………………….é ilusório o armistício.
Pois se munam,
…………………comunistas,
……………………………….não com fogos
…………………………………………………de artifício.

O coração de toda pátria
……………………………..ao exército de funde.
Nosso Exército Vermelho
……………………………..é o poder desta República.
Mais firme liga
…………………não existe
……………………………..neste mundo.
Viva o Exército Vermelho,
………………………………viva nossa glória rubra.

ЯВЛЕНИЕ ХРИСТА

Готовьте
………….возы
…………………тюльпанов и роз,
детишкам —
………………..фиалки в локон.
Европе
………..является
…………………….новый Христос
в виде
………. министра Келлога.
Христос
……… …не пешком пришел по воде,
подметки
……………мочить
………………………неохота.
Христос новоявленный,
………………………………..смокинг надев,
приехал
………….в Париж
………………………пароходом.
С венком
…………..рисуют
……………………..бога-сынка.
На Келлоге
……………..нет
…………………..никакого венка.
Зато
……..над цилиндром
…………………………..тянется —
долларное сияньице.
Поздравит
……………..державы
…………………………..мистер Христос
и будет
…………от чистого сердца
вздымать
……………на банкетах
…………………………….шампанский тост
за мир
……….во человецех.
Подпишут мир
……………………на глади листа,
просохнут
……………..фамилии
…………………………..на́сухо, —
а мы
……..посмотрим,
………………………что у Христа
припрятано за пазухой.
За пазухой,
………………полюбуйтесь
…………………………………вот,
ему
……наложили янки —
сильнейший
………………..морской
…………………………….и воздушный флот,
и газы в баллонах,
………………………..и танки.
Готов
………у Христа
…………………..на всех арсенал;
но главный
………………за пазухой
………………………………камень —
злоба,
……….которая припасена
для всех,
…………..кто с большевиками.
Пока
……..Христос
…………………отверзает уста
на фоне
………….пальмовых веток —
рабочий,
…………..крестьянин,
……………………………плотнее стань
на страже
…………….свободы Советов.

1928

[Trecho de…]

ЛОЗУНГИ-РИФМЫ

(…)

Десять лет боевых прошло.
Вражий раж —
…………………..еще не утих.
Может,
…………скоро
…………………дней эшелон
пылью
………..всклубит
…………………….боевые пути.
Враг наготове.
…………………..Битвы грядут.
Учись
………шагать
………………..в боевом ряду. (…)

Готовится

……………к штурму
…………………………Антанта чертова —
учись
………атакам,
…………………штык повертывая.
  
Враг разбежится —
…………………………кто погонится?
Гнать златопогонников
………………………………учись, конница.
  
Слышна
………….у заводов
……………………….врага нога нам.
Учись,
……….товарищ,
…………………….владеть наганом.

Не век
………..стоять
………………….у залива в болотце.
Крепите
………….советский флот,
………………………………..краснофлотцы!
  
Битва не кончена,
……………………….только смолкла —
готовься, комсомолец
…………………………….и комсомолка.
  
Сердце
………..республика
………………………..с армией слила,
нету
…….на свете
………………..тверже сплава.
Красная Армия —
……………………….наша сила.
Нашей
………..Красной Армии
………………………………слава!

 …………………..~//~


SOBRE COMO CERTOS SECTÁRIOS

CHAMAM OS OPERÁRIOS PARA DANÇAR

“Nas alas da fábrica têxtil de Khalturin (Leningrado)
disseminou-se o panfleto com uma chamada
para ingressar em certa seita religiosa. 1
Os sectários prometem, a todos que entrarem em sua tribo secreta,
interessantes divertimentos; relações com a ‘boa’ sociedade;
noites com danças (foxtrot e charleston); etc.”

…………………………..(Da carta de um correspondente operário)

Choram
…………na fábrica –
…………………………de tanto dar risada.
Lêem-se as palavras
…………………………da chamada.
Convidam-nos,
…………………..a nós
………………………….os operários,
para um charleston
………………………..dançar
…………………………………com sectários.
A operária
…………….em manto brim,
todo bordado
………………..de corolas.
Quase não na principesca sociedade,
tu assim
…………ingressarás
……………………….para os carolas.
Com um foxtrot desse,
……………………………coração já regozija,
hás de virar
…. ………….oncinha e raposinha,
pernas bambas
………………….com o chicotinho em riste…
Apenas finja
……………….que a cabeça
………………………………..não existe.
Desnecessário
…………………insistir muito.
Operários
……………de todo o mundo,
…………………………………..para o baile!
Entrai
………para a dança,
pés à lambada
…………………e línguas à lambança.

Fácil o baú
……………..abrir do idólatra.
Basta tu
………….lançar a ele
…………………………um americano dólar.

1928

rosta20

   1 Havia na Rússia um grande número de “seitas”* religiosas. A maioria delas se formou no século XVII, após um cisma, na igreja ortodoxa russa, que levou à separação de grupos oposicionistas. O surgimento desses grupos, no seio da cultura camponesa, fez eclodir manifestações de religiosidade popular dos mais diversos matizes que, não obstante a perseguição de que eram vítimas, permaneceram ativas no medievo russo. A Rússia se modernizou de maneira abrupta e desigual; ao mesmo tempo em que nas cidades o movimento operário conduzia a Rússia, à frente de todas as nações, para a vanguarda da revolução socialista (que deveria ser uma superação do modo capitalista de produção), o país mal tivera tempo de superar o sistema feudal (visto que só em 1861 a servidão foi abolida no campo) e no geral continuava um país agrário e regido pelas tradições nacionais, incluindo um folclore muito presente na vida do povo e uma aguda concepção religiosa de mundo. Os acontecimentos históricos, submetidos a uma leitura escatológica pelo campesinato, fizeram multiplicar essas seitas e o número de seus integrantes que, segundo estimou o sociólogo Vatro Murvar, chegaria a ¼ da população russa na virada do século XIX para o XX (Agúrski, 1988, p. 492). Pressentindo que a ruptura revolucionária anunciava um novo mundo prometido, com esperança de cessar o jugo da Igreja, que ia abaixo junto à autocracia, e enfim conquistar a liberdade religiosa, os “sectários” participaram massivamente das revoluções de 1905 e 1917. Contudo, a perseguição voltou durante o regime soviético e, principalmente no período da coletivização forçada do campo entre 1928 e 1931, com a repressão à resistência camponesa, as seitas se dissiparam e muitos de seus fiéis desapareceram nas prisões.

Segundo se pode depreender deste poema, Maiakóvski se refere àquela seita que entrou para a história sob o nome de “flagelantes”, khlisti ou khlistovki. Na língua russa a palavra khlist significa flagelo, chicote. Entretanto, trata-se de uma corruptela do nome Khristi, que significa “Cristos” (era assim que se designavam seus líderes religiosos e profetas. Também em outros grupos existiam esses Cristos russos, um produto sincrético do messianismo herdado da igreja oriental em seu encontro com crenças panteístas remanescentes do antigo paganismo) (Cf. Etkind, 2013). Os rituais de êxtase dos khlisti incluíam manifestações excêntricas, como danças circulares, incorporações, glossolalia; mas os boatos de auto-flagelação e orgias sexuais (assim como o nome atribuído a eles foi, provavelmente, um trocadilho malicioso de seus inimigos) são obra das más línguas.

De outro lado, Maiakóvski emprega um jogo de palavras entre batist, que designa um tecido conhecido em português, também pelo mesmo nome, e mais comumente por “cambraia” (segundo Houaiss, “tecido muito fino, translúcido e levemente lustroso, de algodão ou de linho, usado em lenços, adornos, roupa íntima feminina”) e baptisti, os cristãos batistas. Os batistas eram listados pelos russos no rol das “seitas” evangélicas, juntamente aos luteranos, adventistas, menonitas, metodistas, testemunhas de Jeová (pelo que se vê, a tolerância religiosa nunca foi, e até hoje não é, o forte da cultura russa). Na tradução, reproduzi esse jogo por meio do par “[tecido bordado de] corolas”, em referência às vestes camponesas, e “carolas”.

Maiakóvski muitas vezes usou de material jornalístico para criação de poesia. Nesse caso, ele se baseia na carta de um “correspondente operário”, um rabkor (sigla de rabotchni korespondiént). Rabkor, na União Soviética daquele tempo, era um operário que redigia artigos para os jornais sobre o cotidiano de sua empresa, o estado da produção, reportava problemas vivenciados pelos trabalhadores, etc. A carta, portanto, do correspondente operário sobre o panfleto dos sectários e a piada que gerou no ambiente da fábrica, revela algo da tensão experimentada por esses grupos religiosos em sua contradição com o ideal de um país cada vez mais avançado na modernidade, na ciência, na técnica industrial, etc. Maiakóvski, um apologeta desse ideal, procura separar, por meio de um chiste, a cultura operária e urbana da camponesa, arcaica, supersticiosa. A incompreensão, que gera a piada, como se os sectários chamassem os operários para um baile (foxtrot e charleston são danças de salão americanas), faz crer que o êxtase religioso, o espírito que animava as danças rituais, cujas raízes se desgarraram da antiga Rússia e não devem encontrar solo na Soviética, tornou-se incompatível com o conjunto da sociedade, perdeu seu sentido sob o novo ritmo da produção e não pode sequer ser reconhecido pelos operários da fábrica.

Provavelmente a carta do correspondente operário fez parte do invento poético. Verdade que no contexto dos anos 20 soviéticos, com a reestruturação da economia (NEP), que permitiu certo enriquecimento de uma parcela da população, por diversas vezes apareceram na imprensa críticas “à Nova Política Econômica, que inundou o país com seus foxtrot e seda dos salões”. Não obstante, este caso inclui ainda uma possível referência literária: no livro do famoso poeta simbolista Andrei Biéli, Depois da Estrela [Pósle Zvezdí], publicado em 1923, consta o seguinte prefácio: “Atrai-me agora um tema diferente: à música como ‘via de iniciação’ sucedeu, para mim, o foxtrot, o boston, o jimmy; uma boa jazz band preferirei ao sino do Parsifal. Gostaria futuramente de escrever versos sob medida para o foxtrot” (Biéli, 1988, p.471). Quando de sua emigração da União Soviética em 1922, Biéli renunciou ao projeto místico que, em sua obra, fora representado principalmente pela influência da antroposofia. Mas foi em A Pomba de Prata [Serebriáni Golúb], seu romance publicado em 1910, que Biéli se interessou pelos flagelantes e o universo do sectarismo russo, tudo isso o que chamou “via de iniciação”, ao sugerir que o êxtase religioso das danças rituais se desencantava em jazz

* Optei por traduzir literalmente do jargão russo sekta. Já o termo sektanti [sectários] foi ligeiramente alterado por Maiakóvski, no título do poema, para rimar com tantsi [danças], sektantsi.

О ТОМ, КАК НЕКИЕ СЕКТАНТЦЫ
ЗОВУТ РАБОЧЕГО НА ТАНЦЫ…

В цехах текстильной фабрики им.
Халтурина (Ленинград) сектанты разбрасывают
прокламации с призывом вступить в религиозные
секты. Сектанты сулят всем вступившим в их
секты различного рода интересные развлечения;
знакомство с “хорошим” обществом, вечера с
танцами (фокстротом и чарльстоном) и др.

………………………………………(Из письма рабкора).

От смеха
…………..на заводе –
…………………………..стон.
Читают
…………листья прокламаций.
К себе
………сектанты
……………………на чарльстон
зовут
………рабочего
…………………..ломаться.
Работница,
………………манто накинь
на туалеты
………………из батиста!
Чуть-чуть не в общество княгинь
ты
…..попадаешь
…………………..у баптистов.
Фокстротом
………………..сердце веселя,
ходи себе
……………лисой и пумой,
плети
………ногами
…………………вензеля,
и только…
……………..головой не думай.
Не нужны
…………….уговоры многие.
Айда,
………бегом
………………на бал, рабочие!
И отдавите
………………в танцах ноги
и языки
………….и прочее.

Открыть нетрудно
………………………..баптистский ларчик –
американский
…………………..в ларце
……………………………..долларчик.

1928

…………….~//~


ASSISTÊNCIA AO MINISTÉRIO

DOS ARTISTAS INSALUBRES
SOBRE O INCÔMODO MISTÉRIO,
O MISTÉRIO DE SEU CLUBE.

“A federação dos escritores soviéticos obteve uma casa
e organizará em Moscou o primeiro clube dos escritores” 1

…………………………………………………..(Notícia de jornal)

Não sei –
…………..se canto,
………………………se danço,
o sorriso
………….do rosto não sai.
Eis que enfim
………………..também terão
…………………………………..os escritores
o seu clube!
……………..Boa nova…
…………………………….Organizai!
Que desabroche
……………………e não broche
…………………………………….vossa trupe.
Escolher
………….bela mobília,
…………………………..porém sem exacerbar:
o gasto veludo
………………….de preço modesto.
Sentar
……….e com todo conforto
………………………………….por horas ouvir
do camarada Averbakh
……………………………a palestra.
A seguir,
………….em paixões imersos
os olhinhos
 ……………..se reviram
……………………………para dimensões outras:
simplório e ingênuo,
………………………….Moltchánov
………………………………………….lê versos
sob aplausos das garotas.
Cada qual
……………se sinta bem
…………………………….e à vontade.
E se levante –
…………………no momento crucial –
Vsiévolod Ivánov:
……………………..com seus contos
…………………………………………..nos agrade.
O século
………….em casinhas de estorninho
…………………………………………….não sentemos
como sentam
………………..os poetas
…………………………….nos saraus.
Quereis
…………ter com Tolstói
……………………………..e Oriéchin,
conversar
…………..entre garrafas
……………………………..de cerveja?
Simplória bebida,
……………………..a comida – igual,
como servida
………………..na bandeja.
Entreguemos
………………..a cantina
…………………………….à Narpit – 2
nada há
…………para o jantar!
Que não haja
……………… esses foxtrot
e o jazz
………..com seus pandeiros
………………………………….não estorve
nossa obra…
……………….E com vocês
……………………………….conversará
o camarada Rodóv,
……………………….que ao tédio
………………………………………..não se dobra.
Que não haja
………………..esses jogos
……………………………….de bilhares,
nem ouçamos
…………………as bobagens
…………………………………dos inatos menestréis,
esses bardos vermelhos
……………………………..decorados de lauréis.
Tudo isso derrubem!
…………………………Ou deixem
……………………………………….que desabe
como os sábios
………………….escritores
………………………………no sofá.
Eis que vocês
………………..organizaram
…………………………………o tal clube…
E eis que eu
………………não tenho pernas
para os ver
…………….filosofar.

1928

rosta18

1 No título original em língua russa, Maiakóvski se refere às instituições soviéticas Narkompros e Glaviskusstvo, abreviações respectivamente de Narodni Komissariat Prosvechtchenia (Comissariado Popular da Educação) e Glavnoie Upravliénie po Diélam Khudójestvennoi Literaturi i Iskusstvo (Diretoria Geral para Assuntos de Literatura e Arte). A Glaviskusstvo, enquanto órgão governamental, consistia em um segmento da Narkompros. Já na epígrafe do poema se menciona uma associação literária, a Federação dos Escritores Soviéticos (FOSP). Criada em 1926 pela fusão da Associação dos Escritores Proletários de Toda a Rússia (VAPP) com a Sociedade dos Escritores Camponeses de Toda a Rússia (VOKP) e a União dos Escritores de Toda a Rússia (VSP), a “federação” centralizava uma série de organizações literárias que existiam na época e que, mais alinhadas com o governo, começavam a dar seus passos para trás. Maiakóvski então organizava-se na LEF, Assotsiatsia Rabotnikov Liévovo Fronta Iskusstva (Associação dos Trabalhadores da Frente de Esquerda da Arte). Como máximo representante do futurismo russo, forjado nos dias gloriosos da Revolução, Maiakóvski assumiu uma postura radical de denúncia contra a estagnação em que caíam as instituíções artísticas, um prenúncio da guinada conservadora nos órgãos estatais que, não demoraria muito, imporiam aos artistas mais experimentais uma ferrenha censura e perseguição. No tempo em que o poema foi escrito (1928), perdurava certa pluralidade de idéias, o suficiente para os poetas trocarem essas farpas; foi nesse contexto de debates ideológicos em torno da arte soviética que ocorreram as disputas entre Maiakóvski e seus rivais na vida artística e política. Os escritores e críticos de visão mais estreita, muitos deles invejosos de seu sucesso com as massas, dirigiam ataques a Maiakóvski nos jornais, infiltravam provocadores em suas apresentações, para o insultar. O poeta também era provocador, respondia brilhantemente aos bilhetinhos do público durante os debates em auditórios e golpeava seus adversários com toda a fúria de seus versos. Maiakóvski satirizou a burocratização da arte soviética e seu gradativo aburguesamento, do qual o “Clube” de escritores seria, em sua opinião, um sintoma. Neste poema, dá nome a alguns de seus adversários: Leopold Averbakh, Ivan Moltchánov, Vsiévolod Ivánov, Alexei Tolstói, Piótr Oriéchin. Sua rivalidade com Moltchánov, por exemplo, foi tema de disputas em jornais, onde Maiakóvski publicou poemas como Carta à amada de Moltchánov ou Reflexões sobre Ivan Moltchánov e a poesia. Quanto ao camarada (Semion Abramovitch) Rodov, formou um bloco à esquerda da RAPP (Associação Russa dos Escritores Proletários), quando esta se dividiu em 1926; por isso ganha uma menção positiva de Maiakóvski, que tem muitos inimigos na RAPP. Em 1929 o Comissário do Povo para a Educação, Anatoli Lunatchárski, sob cuja proteção Maiakóvski escrevia e a quem se devia a permanência de certas liberdades de expressão, foi substituído. Após as dissidências no seu próprio grupo e sentindo o cerco se fechar, Maiakóvski dissolveu a LEF e ingressou na RAPP. Isso não o impediu de ser ainda mais hostilizado pelos seus companheiros de ofício. A exposição organizada por Maiakóvski aos vinte anos de sua carreira literária, montada nas salas do Clube dos Escritores em Moscou, recebeu um duro boicote em fevereiro de 1930. Um mês e meio depois, seria também em uma dessas salas onde, ao longo de três dias ininterruptamente, as multidões passariam para se despedir do poeta que, de uma vez por todas, fechou seus ouvidos para os insultos. Em seu livro Maiakóvski, o Poeta da Revolução, Aleksandr Mikhailov registra um detalhe hilário da exposição, em que o poeta ridiculariza o ambiente almofadinha do Clube: “Maiakóvski introduziu um elemento de humor na organização e, em cada cupido modelado sobre as portas da segunda sala, colocou um lenço de pioneiro* de papel vermelho brilhoso” (Mikhailov, 2008, p. 506).**

* Pioneiros, organizações de comunistas-mirins nas escolas primárias da União Soviética.

** Sobre o debate de Maiakóvski e os futuristas no ambiente artístico aos primeiros anos da União Soviética, nunca é demais recomendar a obra de Boris Schnaiderman, A Poética de Maiakóvski através de sua Prosa, que inclui vários de seus manifestos traduzidos e comentados.  

2 Narpit, abreviatura de Narodnoie Pitanie (Alimentação Popular), projeto para a criação de cantinas populares com refeições a preços acessíveis para os trabalhadores (o “bandejão” soviético). A referência torna a aparecer no poema a seguir, O mais Sério Conselho a uma Dona de Casa.

ПОМОЩЬ НАРКОМПРОСУ,
ГЛАВИСКУССТВУ В КУБЕ,
ПО ЖГУЧЕМУ ВОПРОСУ,
ВОПРОСУ О КЛУБЕ

Федерация советских писателей получила дом
и организует в Москве первый писательский клуб.

……………………………………….. (Из газет).

Не знаю –
…………….петь,
……………………плясать ли,
улыбка
………..не сходит с губ.
Наконец-то
……………….и у писателя
будет
………свой
…………….клуб.
Хорошая весть.
Организовать
так,
……чтобы цвесть
и не завять.
Выбрать
………….мебель
……………………красивую самую,
оббитую
…………..в недорогой бархат,
чтоб сесть
…………….и удобно
…………………………слушать часами
доклад
………..товарища Авербаха.
Потом,
………..понятен,
…………………….прост
…………………………….и нехитр,
к небу
……….глаза воздевши,
пусть
………Молчанов
……………………читает стихи
под аплодисменты девушек.
Чтоб каждому
………………….чувствовалось
………………………………………хорошо и вольно,
пусть –
…………если выйдет оказийка –
встанет
…………и прочитает
………………………….Всеволод Иванов
пару, другую рассказиков.
Чтоб нам не сидеть
…………………………по своим скворешням –
так,
……как писатель
……………………..сидел века.
Хочется
………….встретиться
…………………………..с Толстым,
………………………………………….с Орешиным
поговорить
………………за бутылкой пивка.
Простая еда.
………………..Простой напиток.
Без скатертей
………………….и прочей финтифлюжины.
Отдать
………..столовую
……………………..в руки Нарпита –
нечего
………..разводить ужины!
Чтоб не было
…………………этих
……………………….разных фокстротов,
чтоб джазы
………………творчеству
………………………………не мешали, бубня, –
а с вами
………….беседовал бы
…………………………….товарищ Родов,
не надоедающий
………………………в течение дня.
Чтоб не было
…………………этих
……………………….разных биллиардов,
чтоб мы
………….на пустяках не старели,
а слушали
…………….бесхитростных
…………………………………красных бардов
и прочих
…………..самородков менестрелей.
Писателю
……………классику
………………………..мил и люб
не грохот,
…………….а покой…
Вот вы
………..организуйте
…………………………такой клуб,
а я
….туда…
…………..ни ногой.

1928

……………….~//~


O MAIS SÉRIO CONSELHO A UMA DONA DE CASA

A dona de casa
………………….camarada Brocolina 1
está hoje
…………..no pior
…………………….de seus humores.
E como haveria de ser diferente?
Na cozinha
…………….empesteada de vapores,
dezessete monstruosas
…………………………….e ferventes barbatanas
arreganham
………………uma multidão de dentes.
Dezessete
……………dos piores fogareiros
fumegando
……………..como fossem dezessete
……………………………………………os Vesúvios.
Da testa enxugando
………………………..o suor no avental,
camarada Brocolina
………………………..dá um grito
……………………………………….insolúvel:
“Tragam,
…………..sem elevador,
…………………………….ao 5º andar
18 quilos
…………..de batata!”
As rixas,
………….o lixo,
………………….os mexericos:
desde a louça acumulada
………………………………umas antenas se esticam…
De repente, uma delas
……………………………bate asas
………………………………………..e decola.
Pois comam a sopa
……………………….apesar das baratas!
Mal se encontra
……………………onde está a caçarola…
Esfregar
…………o dia inteiro
…………………………essas panelas!
Para os livros
………………..e jornais
……………………………o tempo falta.
Camarada Brocolina
…………………………já foi bela…
Porém isto não se enxuga:
seu rosto
…………..precoce
…………………….se enche de rugas!
São os ossos
………………do ofício?
O teu sofrimento é nosso,
camarada,
……………e todos têm a ver com isso.
Prometemos,
……………….nem que hajamos de comprar
promissórias de industrialização, 2
que uma fábrica ergueremos
……………………………………de alimento.
Nas cantinas da Narpit
…………………………….o operário tome assento
e sem esforço nem sujeira
………………………………..a comer
………………………………………….na mesa bata:
“Eis uma bela refeição,
…………………………….boa e barata!”

1928

rosta40

1 Borchtchina, o nome bufo usado por Maiakóvski para designar sua personagem neste poema, deriva de borchtch, sopa de beterraba tradicional da culinária russa.

2 Zaióm industrializatsia, promissórias ou, mais ao pé da letra, “empréstimos de industrialização”, foi um sistema de crédito financeiro adotado pelo governo soviético em meados da década de 1920. Tinha por objetivo acelerar o processo de industrialização. Com o isolamento econômico do país pela imposição de sanções internacionais, ao passo em que se recuperava da crise após a guerra civil, o governo procurou captar recursos internamente mediante o investimento da população. Além de debater a condição da mulher sob a opressão do trabalho doméstico e a esperança de sua emancipação pela modernização da vida, que a indústria deveria prover, este poema de Maiakóvski é uma peça publicitária para a campanha de crédito financeiro. Em contrapartida, no lugar da cozinha improvisada nas habitações coletivas, a Narpit representa os benefícios da industrialização, a serem usufruídos pelo povo. Esquerdista radical, Maiakóvski sentia as contradições da Nova Política Econômica (NEP) e destilou o melhor de seu veneno (por exemplo, nos personagens de O Percevejo, 1928) contra a capitalização do Estado soviético. Por outro lado, sempre se dispôs a cooperar com a propaganda. O esquema propagandístico deste poema fica mais claro em vista de outro, escrito no mesmo ano de 1928, Produzam-se automóveis!, em que Maiakóvski se dirige aos pedestres e usuários do bonde e diz:

(…)
Inútil é
……….fingir pobreza
………………………..e por aí bufar a pé.
Agora falha-te a certeza?
Acaso pensas
……………….que um sonho
…………………………………isto é?
Tu hás de ter
………………um velocípede,
hás de ter
…………..um automóvel.
Que assim seja,
………………….se desejas
………………………………esta realização.
Pois participe de
…………………..uma iniciativa nova:
compre promissórias,
…………………………promissórias de industrialização. (…)

ВАЖНЕЙШИЙ СОВЕТ ДОМАШНЕЙ ХОЗЯЙКЕ

Домашней хозяйке
…………………………товарищу Борщиной
сегодня
…………испорчено
………………………..все настроение.
А как настроению быть не испорченным?
На кухне
…………..от копоти
…………………………в метр наслоения!
Семнадцать чудовищ
……………………………из сажи усов
оскалили
…………..множество
………………………….огненных зубьев.
Семнадцать
……………….паршивейших примусов
чадят и коптят,
……………………как семнадцать Везувиев.
Товарищ Борщина
………………………..даже орала,
фартуком
……………пот
…………………оттирая с физии –
«Без лифта
……………..на 5-й этаж
……………………………..пешкодралом
тащи
……..18 кило провизии!»
И ссоры,
………….и сор,
………………….и сплетни с грязищей,
посуда с едой
………………….в тараканах и в копоти.
Кастрюлю
…………….едва
……………………под столом разыщешь.
Из щей
………..прусаки
……………………шевелят усища –
хоть вылейте,
………………….хоть с тараканами лопайте!
Весь день
……………горшки
………………………на примусе двигай.
Заняться нельзя
…………………….ни газетой,
…………………………………….ни книгой.
Лицо молодое
………………….товарища Борщиной
от этих дел
………………преждевременно сморщено.
Товарищ хозяйка,
……………………….в несчастье твое
обязаны
………….мы
………………ввязаться.
Что делать тебе?
……………………..Купить заем,
Заем индустриализации.
Займем
…………и выстроим фабрики пищи,
чтобы в дешевых
………………………столовых Нарпита,
рассевшись,
……………….без грязи и без жарищи,
поев,
……..сказали рабочие тыщи:
«Приятно поедено,
…………………………чисто попито».

1928

[Trecho de…]

ДАЕШЬ АВТОМОБИЛЬ!

(…)
Нечего прибедниваться
……………………………….и пешком сопеть!
У тебя —
…………..не в сон, а в быль —
должен
…………быть
………………..велосипед,
быть
……..автомобиль.
Чтоб осуществилось
…………………………..дело твое
и сказкой
……………не могло казаться,
товарищ,
……………немедля
……………………….купи заем,
заем индустриализации.   (…)

………………..~//~


UMA DOENÇA UNIVERSAL

A Spartakiada Vermelha 1
………………………………a todo mundo
………………………………………………..contagia.

Nas casas
…………..o esporte
……………………….introduz-se hoje em dia.
O fortão e o fracote,
………………………..rapagão e rapazelho,
todo e cada cidadão
………………………..já mal contém a alegria.
Dispensando
……………….o caderno escolar
e espalhando pelo chão
…………………………….sumo vermelho,
o futebol
………….vês o filho
……………………….jogar
com a redonda melancia.
Mais roliço que a caleça,
alçando vôo
………………como fosse uma andorinha,
encontra forças não sei onde
o pai,
……..que tão depressa
uma corrida venceria
………………………….contra o bonde.
E o que é
…………..esse de águas
…………………………….burburinho,
a tarde inteira,
………………….no apartamento ao lado?
Vai saber nosso vizinho
no aperto da banheira
……………………………se meteu
numa competição a nado.
E para a filha
……………….com a palma
………………………………..caso acenes,
espumando atrás da mesa
………………………………..ela saca uma gaveta
para um súbito duelo
…………………………..de tênis.
Já mamãe
……………errou a curva,
……………………………..extraviou-se na loucura!
A empunhar,
……………….como uma lança,
……………………………………..o guarda-chuva,
o retrato na parede ela perfura.
E caso um forte estardalhaço
na cozinha
…………….tu ouvires,
é que tenta
……………..a cozinheira
……………………………..com o pires
treinar
……….lançamento de disco.
A esse encontro de família
…………………………………não me arrisco.
E ao sossego
……………….dê adeus,
……………………………se a doença prosseguir.
E, a despeito
……………….do verão,
……………………………para melhor correr daqui
deixo no jeito,
…………………ao alcance da mão,
………………………………………….meu esqui.
Nas casas
……………o esporte
………………………..introduz-se hoje em dia.
O fortão e o fracote,
………………………..rapagão e rapazelho,
a todo mundo contagia
…………………………….a Spartakiada Vermelha.

1928

rosta26

 1 Krasnaia Spartakiada, Spartakiada Vermelha. Spartakiadas eram campeonatos desportivos internacionais organizados pela Sportintern, associação ligada à Comintern, Internacional Comunista. A designação deriva do nome Spartaco, gladiador romano líder da maior revolta de escravos que Roma conheceu, no século I a.C. Spartaco foi representado na cultura soviética como o herói em que se prefiguraram, na antigüidade, os ideais do proletariado na luta de classes (cf., por exemplo, o ballet de mesmo nome composto por Aram Khatchatúrian). Chamava-se Spartak, além disso, a equipe de futebol pela qual Maiakóvski era aficcionado. A primeira das Spartakiadas aconteceu em Moscou, no verão de 1928. Maiakóvski voltou da turnê na Criméia para Moscou no dia 11 de agosto e presenciou essa “febre do esporte” na cidade. O evento abrangia diversas modalidades desportivas e procurava competir com os Jogos Olímpicos Internacionais. No inverno de 1928 a Spartakiada foi sediada em Oslo, no verão de 1931 em Berlin, em 1937 na Bélgica. Mais tarde a Sportintern se dissolveu e a União Soviética aderiu aos Jogos Olímpicos. O evento perdeu então sua dimensão internacional, dando lugar às “Spartakiadas dos Povos da União Soviética”. Maiakóvski neste poema brinca com o uso dos verbos russos, que podderjivat ou privietstvovat podem significar torcer, aplaudir alguém ou apoiar uma equipe, a não ser em se tratando de esportes, caso em que a palavra usada é boliét, que significa adoecer, estar doente de… 

ПОВАЛЬНАЯ БОЛЕЗНЬ

Красная Спартакиада
населенье заразила:
нынче,
………..надо иль не надо,
каждый
………….спорт
………………….заносит на дом
и тщедушный
………………….и верзила.
Красным
…………..соком
…………………..крася пол,
бросив
………..школьную обузу,
сын
……завел
…………..игру в футбол
приобретенным арбузом.
Толщину забыв
……………………и хворость,
легкой ласточкой взмывая,
папа
……..взял бы
………………..приз на скорость,
обгоняя все трамваи.
Целый день
……………….задорный плеск
раздается
…………….в тесной ванне,
кто-то
……….с кем-то
…………………..в ванну влез
в плавальном соревнованьи.
Дочь,
………лихим азартом вспенясь,
позабывши
………………все другое,
за столом
……………играет в теннис
всем
……..лежащим под рукою.
А мамаша
…………….всех забьет,
ни за что не урезоните!
В коридоре,
……………….как копье,
в цель
……….бросает
………………….рваный зонтик.
Гром на кухне.
…………………..Громше,
………………………………больше.
Звон посуды,
…………………визгов трельки,
то
….кухарка дискоболша
мечет
……….мелкие тарелки.
Бросив
…………матч семейный этот,
склонностью
…………………к покою
…………………………….движим,
спешно
…………несмотря на лето,
навострю
……………из дома
……………………….лыжи.
Спорт
……….к себе
………………..заносит на дом
и тщедушный
………………….и верзила.
Красная Спартакиада
населенье заразила.

1928

…………. ~//~


A GALOPE NA GARUPA DOS POETAS

Na revista
……………“Krasnaia nov”
………………………………..certo Tálnikov 1
escreve,
…………jocoso e audaz,
……………………………..de meus poemas
que a lira
…………..eu troquei
…………………………pelo lambaz
e agitador
……………na Europa
…………………………minha pena
sem propósito agitei
………………………….às estribeiras,
como só palavra imprópria
………………………………….eu dizia
e por acaso,
……………..se avistasse alguma freira
(ou quem sabe
…………………alguém do naipe
……………………………………….de Chaliápin)
redobrava a grosseria…
……………………………..Com a barba
vemos, pois,
……………….crescer também
…………………………………….sabedoria.

Ensinai-me dois mais dois,
………………………………….cabeças cultas
que adorais
……………..sob a tutela
……………………………..da querida governanta
passear
………..de calças curtas.
A patifes e moleques
………………………….eu sem dó
reduziria esses senhores,
……………………………….numa pincelada só.
Porém não quero praguejar,
…………………………………..pelo contrário –
o que desejo é compreender
…………………………………..e perdoar o adversário.
E por que ofenderia esses boçais?
Vinde aprender,
…………………..almofadinhas,
……………………………………..escutai!
Pudesse a governanta
…………………………..informar-vos
(sobre isso também cantam
…………………………………..as canções),
saberíeis
………….que há dez anos
……………………………….entre nós
ocorreu a maior
……………………das revoluções.
Foi a lira
………….esmagada
……………………….pelo aço
…………………………………..dos fuzis.
E, levando embora
………………………seus líricos dons,
escapuliu Severiánin,
………………………….escapuliu Balmont 2
e todos vós
……………..que só melaço
………………………………..produzis.
Lambaz, agitação
……………………..na Europa
…………………………………..não se atura.
Tudo o que têm
…………………..é alta costura
…………………………………….de baixa estatura.
Para vós
………….e para nós,
para ambos o que havia
eram coreus,
……………….eram iambos…
Pressionava, todavia,
……………….    ………o exército branco,
de norte a sul
………………..do caído império,
e precisávamos gritar
a turbilhões,
……………….a canhões
…………………………….e impropérios.
Doces versos
……………….podeis ler
…………………………….de cortesãs
e entreter vossas visitas
……………………………..recostados em divãs…
Ensinou-nos
……………….a história
……………………………a escrever
como diante
……………….de uma grande escarradeira –
e na escória
……………..escarrar
………………………..há quem não queira?
Nós te vamos perseguir
…………………………….por todos os países
onde pises
…………….tu, larápio
que de dólares nutrido,
e teus queridos
…………………..Chaliápins.

Não às velhas
………………..vossas trovas
lançarei
…………a minha âncora –
às lustrosas orelhas
………………………..meus versos estorvam,
um escândalo
………………..as rimas
…………………………..às escâncaras.
A esmo não ando
……………………..de queixo caído
pelos vossos coliseus,
…………………………..museus
…………………………………….e templos.
Pasmem.
…………..Que a revolução
………………………………..não vos dê paz nem
o marasmo
……………..de outros tempos.
Das maravilhas que criei
………………………………não me envaideço:
dos poemas
………………penso às vezes
que é como
……………..se mordesse,
se apenas mordesse
………………………..o pior dos burgueses.
A meu ver,
…………….é um medíocre confesso
o poeta
………..que ao século
………………………….seus olhos arregala.
Adeus Tálnikov,
…………………..que tenho pressa!
Chilreie
…………sem mim
……………………..em seu traje de gala.
A galope
………….na garupa
……………………….dos poetas,
dar com eles
……………….testa a testa.
Com os versos
…………………enlaçá-los,
………………………………..feito asnos.
E a quê
………..há de servir
……………………….herança desta?
Nas revisas
……………..vosso poço
……………………………de marasmo.

1928

rosta22

1 Maiakóvski colaborava com a revista Krasnaia nov desde sua fundação em 1921. Em agosto de 1928 a mesma revista publicou de um jovem escritor, David Tálnikov, um artigo bombástico onde criticava as crônicas de Maiakóvski sobre suas viagens ao estrangeiro, referindo-se a elas como “falsidade vermelha”. Maiakóvski demitiu-se da revista e fez publicar nos jornais este seu poema.    

2 A Revolução de 1917 e os anos da guerra civil provocaram uma “onda” de emigrantes que saíram do país para tentar a vida no estrangeiro. A comunidade dos emigrados russos era especialmente numerosa em certos países como a França e os Estados Unidos. Entre eles havia ex-oficiais do Exército Branco derrotados na guerra, ex-nobres e ex-donos de terra, famílias que tiveram posses ou cargos importantes no Império russo, muitos clérigos e fiéis ortodoxos, perseguidos políticos do novo regime… Havia ainda uma variada gama de artistas e intelectuais de opiniões diversas (na época começavam a surgir os eurasianos e russos emigrados simpatizantes do bolchevismo). Maiakóvski viajou para a América (Cuba, México, Estados Unidos)* e Europa (Espanha, França, Alemanha, Inglaterra…) como uma espécie de embaixador da cultura soviética. A encargo da ROSTA, companhia de notícias e propaganda estatal, o poeta projetava seus cartazes – Maiakóvski era artista plástico de formação –, lia seus poemas, discursava, respondia a entrevistas, etc. Naturalmente, deparou-se com artistas refratários aos ideais de Outubro e ao futurismo engajado; o poeta cita os nomes de alguns: Fiórdor Chaliápin, Ígor Severiánin, Konstantin Balmont; todos estes que, àquele tempo, viviam em Paris.

* Conferir o livro de Maiakóvski Minha Descoberta da América, traduzido para a língua portuguesa por Graziela Schneider (Martins Fontes, 2007).

ГАЛОПЩИК ПО ПИСАТЕЛЯМ
  
Тальников
……………..в «Красной нови»
………………………………………про меня
пишет
……….задорно и храбро,
что лиру
…………..я
……………..на агит променял,
перо
……..променял на швабру.
Что я
………по Европам
……………………….болтался зря,
в стихах
………….ни вздохи, ни ахи,
а только
………….грублю,
…………………….случайно узря
Шаляпина
……………..или монахинь.
Растет добродушие
………………………….с ростом бород.
Чего
……..обижать
…………………маленького?!
Хочу не ругаться,
………………………а, наоборот,
понять
…………и простить Тальникова.
Вы молоды, верно,
…………………………сужу по мазкам,
такой
……….резвун-шалунишка.
Уроки
……….сдаете
………………..приятным баском
и любите
……………с бонной,
…………………………на радость мозгам,
гулять
………..в коротких штанишках.
Чему вас учат,
…………………..милый барчук, –
я
..вас
……..расспросить хочу.
Успела ли
…………….бонна
…………………….вам рассказать
(про это –
……………..и песни поются) –
вы знаете,
…………….10 лет назад
у нас
……..была
…………….революция.
Лиры
………крыл
……………..пулемет-обормот,
и, взяв
………..лирические манатки,
сбежал Северянин,
…………………………сбежал Бальмонт
и прочие
……………фабриканты патоки.
В Европе
……………у них
……………………ни агиток, ни швабр –
чиста
……….ажурная строчка без шва.
Одни –
…………хореи да ямбы,
туда бы,
………….к ним бы,
………………………..да вам бы.
Оставшихся
……………….жала
………………………белая рать
и с севера
…………….и с юга.
Нам
…….требовалось переорать
и вьюги,
…………..и пушки,
……………………….и ругань!
Их стих,
………….как девица,
………………………….читай на диване,
как сахар
…………….за чаем с блюдца, –
а мы
……..писали
………………..против плеваний,
ведь, сволочи –
……………………..все плюются.
Отбившись,
……………….мы ездим
…………………………….по странам по всем,
которые
…………..в картах наляпаны,
туда,
……..где пасутся
……………………..долларным посевом
любимые вами –
………………………..Шаляпины.
Не для романсов,
……………………….не для баллад
бросаем
…………..свои якоря мы –
лощеным ушам
…………………….наш стих грубоват
и рифмы
……………будут корявыми.
Не лезем
……………мы
………………..по музеям,
на колизеи глазея.
Мой лозунг –
………………….одну разглазей-ка
к революции лазейку…
Теперь
………..для меня
…………………….равнодушная честь,
что чудные
……………….рифмы рожу я.
Мне
…….как бы
………………только
………………………..почище уесть,
уесть покрупнее буржуя.
Поэту,
……….по-моему,
……………………..слабый плюс
торчать
………….у веков на выкате.
Прощайте, Тальников,
……………………………..я тороплюсь,
а вы
……..без меня чирикайте.
С поэта
…………и на поэта
………………………..в галоп
скачите,
…………..сшибайтесь лоб о лоб.
Но
….скидывайте галоши,
скача
……….по стихам, как лошадь.
А так скакать –
…………………….неопрятно:
от вас
……….по журналам…
…………………………….пятна.
  
1928

………………~//~


JÚBILO DAS ARTES

Pobre,
……….pobre Púchkin!
Nas rosadas orelhinhas
……………………………..de uma dama
os seus versos
…………………se derramam.
Que à alta
……………e restrita
……………………….sociedade,
aos salões de visita
……………………….ele brade.
Tenho pena
………………desses lábios
que entre alfombras e almofadas
…………………………………………se consomem.
Para eles
………….eu daria
…………………….um microfone.

Mússorgski?
……………….Pobre, pobre dele!
Esse som de pianola
…………………………de que vai adiantar?
Que rodopia no aperto
…………………………….e nas cortinas se enrola
dessas salas de concerto
………………………………ou de jantar.

Pobre,
……….pobre Herzen!
Como sino na campana,
………………………………seu vibrante miocárdio.

À toda a Rússia vibraria,
………………………………se houvesse então
……………………………………………………….o rádio.

Pois jubilem de alegria,
escritores,
……………musicistas,
………………………….artesãos do pensamento!
Hoje o rádio
………………os ressuscita
……………………………….do mortal esquecimento!
As palavras de ordem
…………………………..e canções hoje correm
pela inteira extensão
………………………….do mapa mundi. 1
Próximos estamos
………………………das orelhas
……………………………………..de milhões –
o brasileiro,
……………..o esquimó,
……………………………o espanhol,
…………………………………………..o urdmurti.
Abaixo
………..os estofados
…………………………dos salões!
Que murmure
…………………solitário
…………………………….o bacharel…
Estou contente
…………………..por vivermos neste tempo
em que se canta
…………………..pelos céus.

1928

rosta21

1 Aleksandr Mikhailov relata o seguinte episódio:
  
Vladímir Vladímirovitch [Maiakóvski] se apresentava com a leitura de poemas no rádio. Tal possibilidade de se comunicar com um público grande ainda o seduzia. Perguntou ao diretor da rádio se muita gente iria ouvi-lo. A resposta foi solene: ‘O mundo inteiro!’ Maiakóvski respondeu: ‘Não preciso de mais’” (Mikhailov, 2008, p. 476)
  
СЧАСТЬЕ ИСКУССТВ
  
Бедный,
………….бедный Пушкин!
Великосветской тиной
дамам
……….в холеные ушки
читал
……….стихи
……………….для гостиной.
Жаль –
…………губы.
Дам
…….да вон!
Да в губы
……………ему бы
да микрофон!
  
Мусоргский –
………………….бедный, бедный!
Робки
……….звуки роялишек:
концертный зал
……………………..да обеденный
обойдут –
…………….и ни метра дальше.
  
Бедный,
………….бедный Герцен!
Слабы
……….слова красивые.
По радио
…………..колокол-сердце
расплескивать бы
………………………..ему
………………………………по России!
 
Человечьей
………………отсталости
………………………………жертвы –
радуйтесь
…………….мысли-громаде!
Вас
……из забытых и мертвых
воскрешает
………………нынче
………………………..радио!
Во все
……….всехсветные лона
и песня
…………и лозунг текут.
Мы
……близки
……………..ушам миллионов –
бразильцу
……………..и эскимосу,
………………………………испанцу
…………………………………………..и вотяку.
Долой
……….салонов жилье!
Наш день
……………прекрасней, чем небыль…
Я счастлив,
………………что мы
………………………..живем
в дни
………распеваний по небу
  
1928

………………~//~  


SOBRE AS DIFERENÇAS DE GOSTO

Põe-se
……….o cavalo ao camelo
………………………………..a aborrecê-lo:
“Não fosse o bastante,
……………………………um jegue-gigante!”
Põe-se
……….o camelo ao cavalo
………………………………..a estorvá-lo:
“Acaso um cavalo tu és?
………………………………Está claro que não.
Dentre os mais reles pangarés,
………………………………………um camelo-anão”.
E só o deus,
………………velho barbudo,
………………………………….compreende:
Eles são,
………….mais do que tudo,
………………………………….de espécies diferentes.

1928

rosta13

СТИХИ О РАЗНИЦЕ ВКУСОВ

Лошадь
………..  сказала,
………….  ……….взглянув на верблюда:
«Какая
………..гигантская
……………………….лошадь-ублюдок».
Верблюд же
……………….вскричал:
……………………………..«Да лошадь разве ты?!
Ты
…..просто-напросто —
………………………………верблюд недоразвитый».
И знал лишь
………………..бог седобородый,
что это —
……………животные
………………………….разной породы.

1928

……………~//~


CARTA DE PARIS AO CAMARADA KOSTRÓV SOBRE A NATUREZA DO AMOR

Queira desculpar-me,
…………………………..camarada Kostróv, 1
com sua inconfundível
…………..                   ….presença de espírito,
que hoje
………….eu desperdice essas estrofes

em Paris
………….neste imprevisto jorro lírico.

Caso assim imaginares:
……………………………..um poeta
………………………………………….desse porte,
como pode
…………….assim portar-se?
Belo talhe,
…………….toda ornada
…………………………….de pelagens
……………………………………………e colares,
no recinto entra uma dama.
Devo a verdade informar-lhe:
Camarada!
…………….Eu na Rússia
……………………………..já galguei o rol da fama.
Já tive
………as mais belas
………………………..garotas.
Todas elas
…………….dos poetas
………………………….se enamoram.
Bem mais que cantadas marotas,
apreciam
…………..o vigor
…………………….da voz sonora.
Mas a mínima não dou
…………………………….a passageiros sentimentos, –  
para isso
…………..estou já gasto.
Eu, ferido
……………para sempre
…………………………….de amor,
a muito custo
…………………que me arrasto.
O amor não meço pelo casamento.
Deixou de amar?   
…………………….Até nunca mais!
Da altura em que estou,
……………………………..camarada,
eu
….nas cúpulas de tuas catedrais
lanço celeste
……………….cusparada.
As mulheres,
……………….custaria conquistar-lhes?
Se quiseres
……………..entrar em detalhes,
a zombar
…………..livre se sinta,
o nome meu
………………no mundo caia.
Eu
….no auge dos meus trinta
não me rendo
…………………a qualquer rabo de saia.
Não se pode
………………com carvões
……………………………….abrasar,
ferver tampouco
……………………o amor
……………………………..em samovar.
Às montanhas
………………….do meu peito
e à selva dos cabelos
………………………….o amor se sobrepôs.
Se quiseres
……………..do amor
………………………..o meu conceito,
ei-lo pois:
……………só poderei acreditar
em um amor
……………….que força tenha
de a noite
………,…..atravessar
…………………………como relâmpago
e no golpe
…………….do machado
…………………………….cortar lenha
como se de brincadeira
…………………………….na vereda do meu âmago.
Amar
……..é despencar
……………………..pelos buracos do lençol –
cair do sol
……………e não da cama!
Enciumar-se de Copérnico
e não
……..de qualquer verme com
dinheiro e belas damas.
Amor
……..é o que age
……………………revivendo as engrenagens 
no motor
…………..do coração.
Tu rompeste
……………….com Moscou
………………………………..a ligação…
Os anos passam,
……………………a distância se amplia…
Poderias
………….sobre isso
……………………….dar alguma explicação?
Do inferno
…………….o fosso
………………………aos celestes
……………………………………..azuis, –
poeta não fosse,
……………………eu astrônomo seria.
Já a rua alvoroçou-se,
…………………………..o trânsito flui.
Eu vou
……….no caderno
………………………escrevendo poesia
e, por mais
…………….que pela via
…………………………….os carros zanzem,
não o vão deitar por terra.
Se alguém
……………me vê na praça:
…………………………………esse aí
…………………………………………está em transe!
De idéias e visões
……………………..toda a massa
que no crânio
………………..até as tampas
………………………………….se encerra.
E quem sabe até num urso
…………………………………crescerá um par de asas?
De repente,
……………..no ordinário refeitório,
……………………………………………um susto:
aquilo tudo que fervia
…………………………..entre a alma e a caderneta
da garganta
………………às estrelas
…………………………….extravaza:
um cometa
……………..o verbo em brasa.
Ele brilha
…………..com seu rabo
…………………………….sideral:
a ardente plumagem
…………………………que atravessa o universo.
Se à noite
……………na relva
………………………deitar um casal,
a olhar para o céu
………………………o convide meu verso.
O cometa levanta
……………………..e conduz
…………………………………e fustiga –
com sede de luz
…………………..os olhos se abrem.
Para que rolem
…………………..dos pescoços
……………………………………as cabeças inimigas,
o rabo
………reluz
……………..como um sabre.
Até que a última batida
……………………….,…..soe em meu interior,
terei certeza –
…………………estou amando.
Eis o zumbido do amor:
…………………………….simples, humano.
Quase explode
………………….o caldeirão
………………………………..de pedra e lava,
o estrondo
…………….do vulcão
…………………………é iminente.
Há quem possa
………………….dominá-lo
………………………………..com palavras?
Podes tu?
……………Pois vai em frente.

1928

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

1 Maiakóvski desembarcou em Paris no dia 15 de outubro de 1928. O objetivo da viagem era o de costume: ler para os russos emigrados seus poemas vermelhos, anunciar a nova realidade soviética, etc. Decerto que o amor não estava previsto como tema oficial. Entretanto, o férreo Maiakóvski estava amando. Sobre esse sentimento fala em sua Carta ao Camarada Kostróv e também no poema que se lerá a seguir, Carta a Tatiana Iákovlevna. Este último não se publicou em vida. Mas a Carta a Kostróv foi incluída pelo próprio Taras Kostróv (pseudônimo de Aleksandr Martinóvski) na revista, da qual era editor, Molodáia Gvárdia. Kostróv já editava os poemas de Maiakóvski na Komsomólskaia Pravda e tinha com ele, além da relação profissional, uma sincera amizade. A crítica reagiu com ferocidade à publicação, denunciando um suposto desvio em relação à conduta que o poeta deveria ostentar enquanto divulgador do ideário soviético e embaixador do país no estrangeiro. Mesmo porque Tatiana Iákovlevna era uma russa emigrada: ela abandonou a União Soviética em 1925. Em Paris, participou na cena da moda em Monteparnasse, confeccionando chapéus, e sua beleza atraiu a atenção da alta sociedade parisiense. Uma união tão antitética como a dela com Maiakóvski gerou burburinho. A indomável explosão lírica (como não se via desde seus poemas dedicados a Lília Brik em 1923), sobrepondo-se ao caráter pragmático de seu verso social, conferiu a essas duas Cartas um lugar de destaque na obra de Maiakóvski, testemunho de seu profundo envolvimento amoroso. Os dois passaram um mês e meio juntos em Paris; Maiakóvski pretendia se casar com Tatiana Iákovlevna, desde que satisfeita uma condição: ela deveria voltar com ele para a União Soviética. O poeta combinou de voltar a Paris para buscá-la em fevereiro próximo. O que se sabe a respeito dessa tenção diplomática entre o casal provém de algumas cartas que se preservaram daquele tempo. Tatiana Iákovlevna correspondia-se com a mãe, que permanecera na União Soviética: “Maiakóvski me fustigou, me obrigou a pensar e, o mais importante, a me lembrar da Rússia”, disse ela, “Ele estimulou em mim a saudade pela Rússia e por todos vocês. Quase voltei” (MIKHAILOV, p. 470). Maiakóvski escreveu a Tatiana um telegrama: “Pense e concentre as idéias (depois junte seus pertences) e teste com o coração minha esperança de agarrá-la com as patas e levá-la para minha casa, para Moscou” (Idem, pág. 483). Maiakóvski não conseguiu trazê-la consigo da nova estadia em Paris de fevereiro a abril de 1929. Prometeu voltar mais uma vez em outubro e depositava esperanças nesse terceiro encontro. Mas aconteceu algo inesperado: seu passaporte foi retido e o poeta não pôde deixar a União Soviética. Supõe-se que as autoridades o impediram de viajar a fim de evitar um eventual casamento em Paris. Maiakóvski informou Iákovlevna sobre o cancelamento da viagem. Soube, pouco depois, que ela se tornara noiva de um janota francês, Du Plessis. O esgotameto emocional (inclusive por um novo desastre afetivo com Verônika Polónskaia), reflexo também de um recrudecimento na esfera política e profissional (que culminou no boicote à exposição sobre os vinte anos de sua carreira), levou o poeta ao suicídio em 14 de abril de 1930. Os jornais se preocuparam em estampar seu poema de despedida, sobre o barquinho destroçado do amor, ressaltando que “seu suicídio foi provocado por motivos de ordem estritamente particular e não tem nenhuma ligação com a atividade social e literária do poeta” (Idem, pág. 533).

Obs.: Ambos os poemas, Carta ao Camarada Kostróv e Carta a Tatiana Iákovlevna, já foram traduzidos para a língua portuguesa; o primeiro por Augusto de Campos, publicado originalmente na antologia Poesia Russa Moderna (Perspectiva, 1968 1ª ed.) e incluído recentemente na edição ampliada de Maiakóvski – Poemas (Perspectiva, 2017); o segundo por Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman, cf. Maiakóvski – Poemas (Idem). Seus últimos fragmentos, alguns dos quais Maiakóvski incluiu em seu bilhete de despedida (“a canoa do amor se quebrou no cotidiano…”), foram também traduzidos por Augusto de Campos na mesma edição.

ПИСЬМО ТОВАРИЩУ КОСТРОВУ ИЗ ПАРИЖА О СУЩНОСТИ ЛЮБВИ

Простите
……………меня,
……………………товарищ Костров,
с присущей
……………….душевной ширью,
что часть
……………на Париж отпущенных строф
на лирику
…………….я
……………….растранжирю.
Представьте:
…………………входит
…………………………..красавица в зал,
в меха
……….и бусы оправленная.
Я
..эту красавицу взял
……………………………и сказал:
— правильно сказал
………………………….или неправильно?—
Я, товарищ, —
…………………..из России,
знаменит в своей стране я,
я видал
…………девиц красивей,
я видал
…………девиц стройнее.
Девушкам
…………….поэты любы.
Я ж умен
…………..и голосист,
заговариваю зубы —
только
………..слушать согласись.
Не поймать
………………меня
……………………..на дряни,
на прохожей
………………..паре чувств.
Я ж
……навек
……………любовью ранен —
еле-еле волочусь.
Мне
…….любовь
………………не свадьбой мерить:
разлюбила —
…………………уплыла.
Мне, товарищ,
…………………..в высшей мере
наплевать
…………….на купола.
Что ж в подробности вдаваться,
шутки бросьте-ка,
мне ж, красавица,
……………………….не двадцать,—
тридцать…
……………..с хвостиком.
Любовь
………….не в том,
……………………..чтоб кипеть крутей,
не в том,
…………..что жгут угольями,
а в том,
…………что встает за горами грудей
ад
….волосами-джунглями.
Любить —
…………….это значит:
…………………………….в глубь двора
вбежать
………….и до ночи грачьей,
блестя топором,
…………………….рубить дрова,
силой
………своей
………………играючи.
Любить —
…………….это с простынь,
………………………………….бессонницей рваных,
срываться,
……………..ревнуя к Копернику,
его,
……а не мужа Марьи Иванны,
считая
………..своим
………………..соперником.
Нам
…….любовь
………………..не рай да кущи,
нам
……любовь
……………..гудит про то,
что опять
…………….в работу пущен
сердца
………..выстывший мотор.
Вы
…..к Москве
……………….порвали нить.
Годы —
…………расстояние.
Как бы
………..вам бы
………………….объяснить
это состояние?
На земле
…………..огней — до неба…
В синем небе
…………………звезд —
…………………………….до черта.
Если бы я
…………….поэтом не был,
я б
….стал бы
……………..звездочетом.
Подымает площадь шум,
экипажи движутся,
я хожу,
………..стишки пишу
в записную книжицу.
Мчат
………авто
…………….по улице,
а не свалят наземь.
Понимают
……………..умницы:
человек —
……………..в экстазе.
Сонм видений
…………………..и идей
полон
……….до крышки.
Тут бы
……….и у медведей
выросли бы крылышки.
И вот
……..с какой-то
……………………грошовой столовой,
когда
………докипело это,
из зева
………..до звезд
……………………взвивается слово
золоторожденной кометой.
Распластан
………………хвост
……………………..небесам на треть,
блестит
…………и горит оперенье его,
чтоб двум влюбленным
………………………………на звезды смотреть
из ихней
……………беседки сиреневой.
Чтоб подымать,
…………………….и вести,
………………………………..и влечь,
которые глазом ослабли.
Чтоб вражьи
………………..головы
………………………….спиливать с плеч
хвостатой
…………….сияющей саблей.
Себя
……..до последнего стука в груди,
как на свиданье,
……………………..простаивая.
прислушиваюсь:
……………………..любовь загудит —
человеческая,
…………………простая.
Ураган,
…………огонь,
…………………вода
подступают в ропоте.
Кто
…..сумеет совладать?
Можете?
………….Попробуйте…

1928

……………~//~

CARTA A TATIANA IAKOVLEVNA

No beijo, quer seja
……………………….das mãos ou dos lábios,
no corpo fremente
………………………ao qual junto me deito,
a cor rubra
……………flameje
……………………..das repúblicas que trago
como um lábaro
……………………ao peito.
Eu não amo
………………esse amor parisiense,
cadelinha aristocrata.
…………………………..Espreguiçando-me o dispense.
Aos cães raivosos
……………………..da paixão
…………………………………..eu digo “Senta! Dá a pata!”
Meu instinto não atura
…………………………….tanta seda
nem os leques
…………………nos cafés
…………………………….que se abanam.
Sobrancelha a sobrancelha,
só você
………..é quem está
………………………..à minha altura,
e sobre esta
……………..grande noite
………………………………me conceda
que eu narre
………………em voz humana.
Madrugada,
………………cinco horas.
………………………………A cidade populosa
está deserta
………………como um bosque.
……………………………………..Abandona-se ao sono.
Dos atritos
……………..ouço só os que
apitam
………..com os trens
…………………………que rumam para
………………………………………………Barcelona.
Clarão  
……….que arranha
……………………….o cume
…………………………………do céu,
trovão de injúrias
……………………..no drama da noite…
Não é furacão
…………………o imenso escarcéu,
mas só o ciúme
…………………..movendo montanhas.
Não calo
………….o calão
……………………das palavras afoitas.
Não receie
…………….esta besta
………………………….em que cavalgo –
porei freio,
…………….porei rédea
……………………………a sentimento como este,
um arrebento
…………………de fidalgos.
Esse drama
……………..em prosa e verso
……………………………………não se encarna
sem que em crostas ele caia,
……………………………………feito sarna.
Ao diabo
………….com as lágrimas
……………………………….ciumentas que verti,
como das pálpebras inchadas
……………………………………..de um Vii. 1
Sinto ciúme
………………não por mim,
………………………………..mas pela Rússia Soviética.
A tísica eu vi
……………….lamber das costas os remendos,
cem milhões
……………….na mais porca
………………………………….das misérias
na moléstia apodrecendo.
………………………………..Não é culpa minha…
Nós fizemos nossa parte,
……………………………….sem modéstia –
os problemas
………………..que hoje temos
……………………………………são fichinha.
Mas nem tudo
…………………se endireita
………………………………..com esporte, –
nós de ti
………….necessitamos
……………………………em Moscou:
um par de pernas
……………………..desse porte
…………………………………….raridade se mostrou.
Após a tifo
…………….atravessares,
……………………………..todo tipo
………………………………………….de imundícia,
haverás de
…………….essas pernas
…………………………….passear
………………………………………no estrangeiro
e entregá-las
……………….nos jantares
………………………………..às carícias
dos barões
……………..petroleiros?
Não virás
…………..para meus grandes
……………………………………e desajeitados braços?
Apartada,
……………há de encalhar
……………………………….quem não me quis.
Da afronta
…………….a conta faço, 
……………………………..e não seja por isto…
Qualquer dia
……………….eu a conquisto,
…………………………………..quer sozinha
……………………………………………………ou com Paris.

1928

rosta

1 Segundo a mitologia eslava, chama-se Vii uma criatura maligna, que teria o poder de matar com um só olhar; no entanto, o Vii mal pode abrir os olhos, por causa das pálpebras grandes e pesadas, quase chegando a tocar o chão. Este personagem do folclore foi imortalizado na literatura pelo conto homônimo de Nikolai Gogol.

ПИСЬМО ТАТЬЯНЕ ЯКОВЛЕВОЙ

В поцелуе рук ли,
……………………..губ ли,
в дрожи тела
………………..близких мне
красный
………….цвет
……………….моих республик
тоже
……..должен
………………..пламенеть.
Я не люблю
……………….парижскую любовь:
любую самочку
…………………….шелками разукрасьте,
потягиваясь, задремлю,
……………………………….сказав —
……………………………………………тубо —
собакам
………….озверевшей страсти.
Ты одна мне
………………..ростом вровень,
стань же рядом
…………………….с бровью брови,
дай
……про этот
……………….важный вечер
рассказать
……………..по-человечьи.
Пять часов,
………………и с этих пор
стих
…….людей
……………..дремучий бор,
вымер
……….город заселенный,
слышу лишь
………………..свисточный спор
поездов до Барселоны.
В черном небе
…………………..молний поступь,
гром
…….ругней
………………в небесной драме, —
не гроза,
…………..а это
………………….просто
ревность двигает горами.
Глупых слов
……………….не верь сырью,
не пугайся
……………..этой тряски,-
я взнуздаю,
………………я смирю
чувства
………….отпрысков дворянских.
Страсти корь
…………………сойдет коростой,
но радость
……………..неиссыхаемая,
буду долго,
……………..буду просто
разговаривать стихами я.
Ревность,
……………жены,
…………………….слезы…
………………………………ну их! —
вспухнут веки,
…………………..впору Вию.
Я не сам,
…………..а я
……………….ревную
за Советскую Россию.
Видел
……….на плечах заплаты,
их
….чахотка
…………….лижет вздохом.
Что же,
…………мы не виноваты —
ста мильонам
………………….было плохо.
Мы
…..теперь
……………к таким нежны —
спортом
………….выпрямишь не многих,—
вы и нам
…………..в Москве нужны
не хватает
…………….длинноногих.
Не тебе,
…………в снега
…………………..и в тиф
шедшей
………….этими ногами,
здесь
……..на ласки
…………………выдать их
в ужины
…………..с нефтяниками.
Ты не думай,
…………………щурясь просто
из-под выпрямленных дуг.
Иди сюда,
…………….иди на перекресток
моих больших
…………………..и неуклюжих рук.
Не хочешь?
………………Оставайся и зимуй,
и это
……..оскорбление
……………………….на общий счет нанижем.
Я все равно
………………тебя
…………………….когда-нибудь возьму —
одну
…….или вдвоем с Парижем.

1928

………………….~//~


CONVERSA COM O CAMARADA LÊNIN

Depois da jornada
………………………o tumulto serena,
o dia se foi,
……………..a noite inicia.
No cômodo, dois:
……………………..Eu
…………………………e Lênin – 
na branca parede
…………………….a fotografia. 1
Com a boca
……………..entreaberta
…………………………….a discursar
e o bigode
……………eriçando-se
…………………………..ao vento,
a testa
……….enrugada,
…………………….exemplar:
para uma testa grandiosa
……………………………….um grandioso pensamento.
Entre nós
…………..talvez estejam
……………………………..multidões invisíveis
caminhando,
……………….uma floresta de bandeiras
farfalhando…
Num lampejo
………………..me levanto
………………………………da cadeira:
quero ir
…………cumprimentar
……………………………meu companheiro!
“Camarada Lênin,
……………………..vim aqui vos relatar
não por ofício –
……………………pela alma.
Camarada Lênin,
…………………….um trabalho infernal na
nossa pátria temos feito:
………………………………iluminar.
Vestimos os pobres,
………………………..cessou a miséria.
De carvão
…………..e de minério
…………………………..ampliou-se a produção.
Mas também temos,
………………………..é verdade,
……………………………………..uma série
de piores miseráveis,
…………………………todo tipo
……………………………………..de canalha e fanfarrão.
Cansarias de
……………….com eles
…………………………..quebrar a cabeça.
Muitos
……….sem ti
……………….se puseram rebeldes.
E por causa
……………..dessa gente
…………………………….tão avessa
nossa pátria,
……………….infelizmente,
………………………………..retrocede.
Não há número
…………………..nem nomes
………………………………….o bastante
para deles
……………compreender
……………………………..de que se trata:
kulaki, 2
……….sectários,
……………………meliantes,
beberrões,
……………puxa-sacos,
…………………………..burocratas.
Braços cruzados
……………………e peito estufado, ei-los:
como ostentam,
……………………sondam,
……………………………….blefam.
Nós vamos,
……………..é verdade,
…………………………..esmagar a todos eles.
Mas como é difícil,
……………………….difícil demais
…………………………………………a tarefa.
Camarada Lênin,
…………………….pelas fábricas suadas
e campos arados,
…………………….pela pátria
…………………………………..de extremo a extremo,
pelo vosso coração
……………………….e vosso nome,
………………………………………….camarada,
nós pensamos,
………………….respiramos,
…………………………………batalhamos
………………………………………………..e vivemos!..”
Depois da jornada
………………………o tumulto serena,
o dia se foi,
……………..a noite inicia.
No cômodo, dois:
……………………..Eu
…………………………e Lênin –
na branca parede
…………………….a fotografia.

1929

rosta31

1 Poema escrito em memória de Vladímir Ílitch Lênin, ao quinto ano de sua morte, e publicado no Komsomólskaia Pravda em 20 de janeiro de 1929. Na edição de suas obras reunidas em 13 volumes (Maiakóvski, 1955, p. 534), consta que “a fotografia, a que se refere Maiakóvski neste poema – permanentemente pendurada à parede de seu gabinete de trabalho –, é aquela, em que V. I. Lênin discursa na praça Sverdlov em 5 de maio de 1920”. Sobre sua deferência ao líder da revolução bolchevique, cf. o poema Vladímir Ílitch Lênin (1924), para o português traduzido por Zóia Prestes.

2 Kuláki eram donos de terras privadas de médio porte que existiram na primeira década do Estado Soviético. Contra essa elite de proprietários levantou-se uma violenta campanha, nos fins dos anos de 1920, com a coletivização forçada do campo. Os kuláki resistiram à expropriação de suas terras destruindo ou escondendo safras e materiais agrículas, o que ocasionou o colapso no abastecimento e uma crise de fome no país. Em contrapartida, o Estado usou da força militar para reprimir esses camponeses e com eles engordou consideravelmente seu sistema prisional.

РАЗГОВОР С ТОВАРИЩЕМ ЛЕНИНЫМ

Грудой дел,
………………суматохой явлений
день отошел,
………………..постепенно стемнев.
Двое в комнате.
…………………….Я
……………………….и Ленин –
фотографией
…………………на белой стене.
Рот открыт
……………..в напряженной речи,
усов
…….щетинка
…………………вздернулась ввысь,
в складках лба
…………………..зажата
…………………………….человечья,
в огромный лоб
…………………….огромная мысль.
Должно быть,
…………………под ним
…………………………….проходят тысячи.
Лес флагов…
………………..рук трава…
Я встал со стула,
……………………..радостью высвечен,
хочется –
……………идти,
……………………приветствовать,
…………………………………………..рапортовать!
«Товарищ Ленин,
………………………я вам докладываю
не по службе,
…………………а по душе.
Товарищ Ленин,
…………………….работа адовая
будет
……..сделана
…………………и делается уже.
Освещаем,
……………..одеваем нищь и оголь,
ширится
…………..добыча
……………………..угля и руды…
А рядом с этим,
……………………конешно,
…………………………………много,
много
……….разной
………………….дряни и ерунды.
Устаешь
………….отбиваться и отгрызаться.
Многие
…………без вас
……………………отбились от рук.
Очень
……….много
………………..разных мерзавцев
ходят
………по нашей земле
…………………………….и вокруг.
Нету
……..им
…………ни числа,
………………………ни клички,
елая
…….лента типов
………………………тянется.
Кулаки
…………и волокитчики,
подхалимы,
………………сектанты
…………………………..и пьяницы, –
ходят,
……….гордо
……………….выпятив груди,
в ручках сплошь
……………………..и в значках нагрудных…
Мы их
……….всех,
………………конешно, скрутим,
но всех
………..скрутить
…………………….ужасно трудно.
Товарищ Ленин,
…………………….по фабрикам дымным,
по землям,
……………..покрытым
……………………………и снегом
………………………………………..и жнивьём,
вашим,
………..товарищ,
…………………….сердцем
………………………………..и именем
думаем,
………….дышим,
…………………….боремся
………………………………..и живем!..»
Грудой дел,
………………суматохой явлений
день отошел,
…………………постепенно стемнев.
Двое в комнате.
…………………….Я
……………………….и Ленин –
фотографией
…………………на белой стене.

1929

………………..~//~


A MULHER PARISIENSE

Representas a imagem
……………………………da mulher parisiense,
ostentando braceletes
……………………………e colares de rubis.
Delirante ilusão!
…………………….Caso assim penses,
saibas como
………………é dura a vida
……………………………….das mulheres em Paris.
Mademoiselle!
………………….Num instante
……………………………………represento essa mulher…
Palavra que não sei
………………………..se ela é jovem
………………………………………….ou se velha, –
sob o pó da maquiagem
……………………………..sua pele é amarela.
Uma “servente”
……………………ela é
………………………….na Grande Chaumière. 1
Com um Borgonha
……………………….ela sonha,
…………………………………….mas sejamos realistas…
Vinhos são para, talvez, a garçonete.
Esta mulher
………………em seu trabalho
……………………………………é simplesmente uma artista:
uma toalha oferecer
…………………………no corredor do toilette.
Ao espelho
…………….espremeis
………………………….uma espinha?
Enquanto isso ela sorri,
…………………………….para depois
oferecer a toalhinha
…………………………e polvilhar o pó-de-arroz.
Mas a vida
…………….da mulher
………………………….não se resume
a borrifar
…………..vossas perucas
……………………………..com perfume.
Serva da sutil gastronomia,
………………………………….ela encara
noite e dia
…………….o vaso ilustre da latrina
a respirar
……………deste requinte
………………………………a poção rara
que deitastes
………………..onde o sol não ilumina.
Por mais que lave esse lavabo,
desinfete bem a fossa,
……………………………enxague,
……………………………………….seque,
quando o dia chega ao cabo
não recebe
…………….trinta cêntimos
…………………………………(na nossa
unidade,
………….duas dúzias
…………………………de copeques).

Eu,
…..perplexo,
………………tua dor,
………………………..mademoiselle,
sinto como em minha pele,
mas perdoe
……………..lhe dizer
…………………………dessa maneira:
– Não há glamour assim
……………………….. ……em da miséria
………………………………………………..estar à beira.
Pois em sonho
………………….representas
…………………………………glamourosos camarins, 
mas segues tu
…………………a mais tristonha
………………………………………camareira.
Ou mentiram para mim
……………………………..sobre as mulheres de Paris,
ou não és tu
………………parisiense.
Olha bem,
……………mademoiselle,
………………………………como vives infeliz:
Meias de lã…
……………….Por quê razão
…………………………………não as de seda
……………………………………………………te pertencem?
Por que a ti
……………..vasos de flores
………………………………..não regalam
esses nobres monsenhores
…………………………………de abarrotados bolsos?
Mademoiselle cala,
……………………….mas seus pensamentos ouço.
Aquilo tudo
………………à nossa cara
………………………………ela lançasse
que, em seu rico carnaval, Montparnasse
em doses diárias
……………………ministrou
às funcionárias
…………………..dos bistrôs.  
Me desculpo por lembrar as frias poças
que à mulher parisiense
……………………………..regalou
……………………………………….a burguesia.
Que as serventes
…………………….de Paris
……………………………….um dia possam
conquistar sua alforria.

1929

rosta16

1 Grande-Chaumière, academia de belas-artes em Monteparnasse, Paris. Além de suas famosas declarações de amor, as últimas passagens de Maiakóvski pela capital francesa renderam versos de tom sarcástico sobre o luxo da vida intelectual parisiense. É o caso, também, do poema que leremos a seguir, Krassávitsi, subintitulado “Reflexões na estréia da Grand Opéra”. Ambos foram publicados na Jenski jurnal [Revista de mulheres], o primeiro em fevereiro, o segundo em julho de 1929.

ПАРИЖАНКА

Вы себе представляете
……………………………..парижских женщин
с шеей разжемчуженной,
…………………………………разбриллиантенной
…………………………………………………………….рукой…
Бросьте представлять себе!
……………………………………Жизнь —
………………………………………………..жестче —
у моей парижанки
………………………..вид другой.
Не знаю, право,
……………………молода
……………………………..или стара она,
до желтизны
…………………отшлифованная
……………………………………….в лощеном хамье.
Служит
…………она
………………в уборной ресторана —
маленького ресторана —
…………………………………Гранд-Шомьер.
Выпившим бургундского
………………………………….может захотеться
для облегчения
…………………….пойти пройтись.
Дело мадмуазель
………………………подавать полотенце,
она
……в этом деле
……………………просто артист.
Пока
……..у трюмо
…………………разглядываешь прыщик,
она,
……разулыбив
…………………..облупленный рот,
пудрой подпудрит,
…………………………духами попрыщет,
подаст пипифакс
………………………и лужу подотрет.
Раба чревоугодий
……………………….торчит без солнца,
в клозетной шахте
………………………..по суткам
………………………………………клопея,
за пятьдесят сантимов!
……………………………….(По курсу червонца
с мужчины
……………..около
……………………..четырех копеек.)
Под умывальником
………………………….ладони омывая,
дыша
………диковиной
……………………..парфюмерных зелий,
над мадмуазелью
……………………….недоумевая,
хочу
…….сказать
……………….мадмуазели:
— Мадмуазель,
……………………ваш вид,
……………………………….извините,
……………………………………………..жалок.
На уборную молодость
………………………………губить не жалко вам?
Или
……мне
…………наврали про парижанок,
или
……вы, мадмуазель,
………………………….не парижанка.
Выглядите вы
………………….туберкулезно
…………………………………….и вяло.
Чулки шерстяные…
………………………….Почему не шелка?
Почему
…………не шлют вам
…………………………..пармских фиалок
благородные мусью
…………………………..от полного кошелька? —
Мадмуазель молчала,
…………………………….грохот наваливал
на трактир,
………………на потолок,
………………………………на нас.
Это,
……кружа
……………веселье карнавалово,
весь
…….в парижанках
………………………..гудел Монпарнас.
Простите, пожалуйста,
……………………………..за стих раскрежещенный
и
..за описанные
…………………..вонючие лужи,
но очень
…………..трудно
…………………….в Париже
………………………………….женщине,
если
…….женщина
…………………не продается,
……………………………………а служит.

1929

……………….~//~


COQUETERIA

(Reflexões na estréia da Grand Opéra)

A Grand ópera se abra
para o verdadeiramente grande.
Da mal-feita minha barba
a me gabar,
……………..por ela eu ande.
No intervalo, –
…………………..uma coquete…
Esta tocou meu ponto fraco!
O coração
……………já se derrete
no surrado meu casaco.
Suas unhas
……………..com esmalte,
sobre os lábios
………………….o batom –
sutil pintura que ressalte
a cor de rosas em botão.
Azul-lazúli
……………..sobre os cílios…
A cintura –
……………..uma taça!
Nuas costas que mal passam
no funil
…………do espartilho.
 Sobre as peles
………………….de chinchila
como as pérolas refulgem!
No vestido
…………….em que desfila
é de morsa
…………….a pelugem.
Que esplêndidos tecidos! –
de veludo,
……………seda,
…………………..crepe.
Um cochicho ao pé do ouvido,
ela se assanha,
………………….serelepe.
Broches,
………….filigranas… –
de ourivesaria
…………………estelar.
A tal beleza sobre-humana
ousarias
………….conquistar?
Não hesito:
……………..mãos à obra!
Com vestido
………………ou talvez sem.
Os adereços
………………tem de sobra…
Uma pena
……………que cabeça
………………………….ela não tem.

1929

rosta33

КРАСАВИЦЫ

(Раздумье на открытии Grand Opéra)

В смокинг вштопорен,
побрит что надо,
По гранд
…………..по опере
гуляю грандом.
Смотрю
………….в антракте –
красавка на красавице.
Размяк характер –
всё мне
…………нравится.
Талии –
………….кубки.
Ногти –
………;…в глянце.
Крашеные губки
розой убиганятся.
Ретушь –
……………у глаза,
Оттеняет синь его.
Спины
………..из газа
цвета лососиньего.
Упадая
………..с высоты,
пол
……метут
……………шлейфы.
От такой
…………..красоты
сторонитесь, рефы.
Повернет –
………………в брильянтах уши.
Пошевелится шаля –
на грудинке
……………….ряд жемчужин
обнажают
…………….шеншиля.
Платье –
……………пухом.
…………………….Не дыши.
Аж на старом
…………………на морже
только фай
………………да крепдешин,
только
………..облако жоржет.
Брошки – блещут…
………………………….на тебе! –
с платья
………….с полуголого.
Эх,
…..к такому платью бы
да еще бы…
……………….голову.

1929

………….. ~//~


VERSOS SOBRE O PASSAPORTE SOVIÉTICO

Os diabos que carreguem,
………………………………..servidores da boçal burocracia,
os papéis
…………..que prescrevestes.
Com os dentes,
………………….como um lobo,
……………………………………..os morderia.
Porém este…
Se do trem
…………….pelas cabines
………………………………e compridos camarotes
o fiscal toma caminho,
entregueis
…………….os passaportes;
eu
….entrego
……………meu purpúreo livrinho.
Uns passaportes
……………………para eles
……………………………….pouco importam;
outras vezes
………………há que riem
……………………………..ou desdenham.
Com respeito,
………………..por exemplo,
…………………………………se comportam
se nas capas dos ingleses
o brasão
…………com dois leões
……………………………se desenha.
No vagão, 
…………..primeira classe,
o tiozinho americano
………………………….se recolhe
……………………………………….para o leito.
Como a ele
…………….com os olhos devorassem,
o abordam
…………….com trejeitos
……………………………..e etiquetas –
pegam dele o passaporte
………………………………como fosse uma gorjeta.
Ao polonês,
……………..ao polonês o fiscal pega
e olha fixo,
…………….como um burro a um cartaz;
com militar estupidez,
……………………………para o colega
franze a testa
………………..e solta a gafe:
………………………………….“Saberás
o que é esta
……………..novidade geográfica?”
Quando pegam
………………….passaportes de suecos
nenhum eco de idéia
………………………….ou sentimento,
para bem
…………..ou para mal,
…………………………..os impressiona.
De repente
…………….fica pálido o fiscal;
como que eletrocutada,
…………………………….sua boca convulsiona.
Com que assombro
……………………….ele pegou
……………………………………o meu vermelho passaporte! –
como fosse
…………….muito mais
……………………………do que papéis –
ele o pegou
……………..como uma bomba,
da navalha
……………..o duplo corte, –
…………………………………..ele o pegou
como um ouriço
……………………ou a pior
………………………………..das cascavéis.
Carregadores!
…………………Piscadela
……………………………..com malícia,
e de graça
……………minhas coisas
………………………………eles guardam.
Olhadela
………….do polícia
………………………para o guarda
e do guarda
……………..o mesmo olhar
………………………………..para o polícia.
Essa raça de gendarmes!
………………………………Que prazer teria ela
em fustigar-me
…………………..com flagelos
…………………………………..e pregar-me
…………………………………………………..numa cruz…
E só porque
……………..nas mãos eu tenho
……………………………………..com a foice
……………………………………………………e o martelo
o mais brilhante documento:
…………………………………….Soviétski Soiúz. 1
Os diabos que carreguem,
………………………………..servidores da boçal burocracia,
os papéis
…………..que prescrevestes.
Com os dentes,
………………….como um lobo,
…………………………………….os morderia.
Porém este…
Eu do bolso
……………..saco este
………………………….muito mais que passaporte –
esta carga
……………explosiva
………………………..e elétrica.
Pois leiam,
…………….pelos séculos invejem
…………………………………………minha sorte:
sou cidadão
………………da União Soviética.

1929

rosta6
1 Soviétski Soiúz, transliteração do nome que em russo significa União Soviética. O passaporte equivale na Rússia ao documento de identidade, não só para os deslocamentos internos e externos ao país, como para a identificação em geral. Este poema já foi traduzido anteriormente por Emílio Carrera Guerra em Maiacovski, Antologia Poética (Max Limonad, 1987).

СТИХИ О СОВЕТСКОМ ПАСПОРТЕ

Я волком бы
……………….выгрыз
………………………….бюрократизм.
К мандатам
……………….почтения нету.
К любым
…………..чертям с матерями
……………………………………..катись
любая бумажка.
……………………Но эту…
По длинному фронту
……………………………купе
………………………………….и кают
чиновник
…………….учтивый
…………………………движется.
Сдают паспорта,
……………………..и я
………………………….сдаю
мою
…….пурпурную книжицу.
К одним паспортам –
…………………………….улыбка у рта.
К другим –
………………отношение плевое.
С почтеньем
………………..берут, например,
………………………………………..паспорта
с двухспальным
…………………….английским левою.
Глазами
………….доброго дядю выев,
не переставая
………………….кланяться,
берут,
……….как будто берут чаевые,
паспорт
………….американца.
На польский –
…………………..глядят,
…………………………….как в афишу коза.
На польский –
…………………..выпяливают глаза
в тугой
………..полицейской слоновости –
откуда, мол,
……………….и что это за
географические новости?
И не повернув
…………………..головы кочан
и чувств
………….никаких
……………………..не изведав,
берут,
………не моргнув,
………………………паспорта датчан
и разных
…………..прочих
…………………….шведов.
И вдруг,
………….как будто
……………………….ожогом,
…………………………………..рот
скривило
……………господину.
Это
……господин чиновник
……………………………….берет
мою
…….краснокожую паспортину.
Берет –
…………как бомбу,
………………………..берет –
…………………………………..как ежа,
как бритву
………………обоюдоострую,
берет,
……….как гремучую
…………………………..в 20 жал
змею
………двухметроворостую.
Моргнул
………….многозначаще
………………………………глаз носильщика,
хоть вещи
…………….снесет задаром вам.
Жандарм
……………вопросительно
………………………………..смотрит на сыщика,
сыщик
………..на жандарма.
С каким наслажденьем
………………………………жандармской кастой
я был бы
…………..исхлестан и распят
за то,
………что в руках у меня
………………………………..молоткастый,
серпастый
……………..советский паспорт.
Я волком бы
………………..выгрыз
…………………………..бюрократизм.
К мандатам
………………почтения нету.
К любым
…………..чертям с матерями
……………………………………..катись
любая бумажка.
…………………….Но эту…
Я
достаю
…………..из широких штанин
дубликатом
……………….бесценного груза.
Читайте,
…………..завидуйте,
…………………………..я –
……………………………….гражданин
Советского Союза.

1929

……………….~//~

Referências:

AGURSKY, Mikhail. L’ aspect millénariste de La révolution bolchevique. In: Cahiers du monde russe et soviétique, vol. 29, n. 3-4, Juillet-Décembre 1988.

BIÉLI, Andrei. Стихотворения. Москва «книга», 1988.

CAMPOS, Haroldo de; CAMPOS, Augusto de; SCHNAIDERMAN, Boris.  Poesia Russa Moderna. São Paulo: Ed. Perspectiva, 2001.

ETKIND, Aleksandr. Хлыст: Секты, литература и революция. Москва: Новое литературное обозрение, 2013.

LAVUT, Pavel. Маяковский едет по Союзу: воспоминания. Москва: Советская Россия, 1963.

LIÉRMONTOV, Mikhail. Cобрание сочинений в 4 т. T 1. Стихотворения. Издательство Пушкинского Дома, 2014.

MAIAKÓVSKI, Vladímir. Полное собрание сочинений в тринадцати томах. Т.2. Москва: Государственное Издательство Художественной Литературы, 1955.

_____________________ Antologia poética. São Paulo: Max Limonad, 1987.

_____________________ Minha Descoberta da América. São Paulo, 2007.

_____________________ Percevejo, O. São Paulo: Ed. 34, 2012.

_____________________ Vladímir Ílitch Lênin. São Paulo: Anita Garibaldi & Fundação Maurício Grabois, 2012.

_____________________ Облако в штанах. Во весь голос. Люблю. Стихотворения. Поэмы. Пьесы. Cанкт-Петербург: Азбука-Аттикус, 2014.

_____________________ Poemas. São Paulo: Perspectiva, 2017.

MIKHAILOV, Aleksandr. Maiakóvski, o Poeta da Revolução. Rio de Janeiro: Record, 2008.

SCHNAIDERMAN, Boris. Poética de Maiakóvski através de sua Prosa, A. São Paulo: Perspectiva, 1984

 

AO TSAR – À PÁSCOA, de Marina Tsvetáieva (tradução por André Nogueira)

Tsar And Son

AO TSAR – À PÁSCOA

Dois poemas de Acampamento de Cisnes, Marina Tsvetáieva.
Traduções por André Nogueira (2017)
Imagem: tsar Nicolau II e tsariévitch Aleksei em 1910.

AO TSAR – À PÁSCOA

Abram, abram alas ao Tsar!
Recua a escuridão da noite.
Acendam velas no altar
E tudo aprontem.
– Cristo ressuscitou,
Tsar que havia ontem!
  
Caiu sem auréola
A águia bicéfala.
– Tsar! – Não honraste a tarefa.
  
Nos olhos teus, azuis e traidores
Como dos bizantinos reis,
Hão de fitar teus sucessores,
Pela derradeira vez.
  
Nos tribunais tua sentença –
Um turbilhão de causar pena.
Tsar! – O povo? – pensas,
Mas é Deus quem te condena!
  
Enfim chegou a Páscoa
No país por toda parte,
Dorme em paz com
Tua Aldeia* a consolar-te,
Em teu sonho não se hasteiem
Os vermelhos estandartes.
  
Tsar! – A tua estirpe
Se abriga – no teu sono.
Toma o saco – de mendigo,
Já que extirpam – o teu trono.
  
Moscou, 2 de abril 1917,
primeiro dia da Páscoa.

……….~//~

     * * *

Pelo menino – o pombinho – o filho do rei,
Pelo jovem tsariévitch Aleksei,
Rússia devota, vossos círios acendei!
  
Pombinhos dois, angelicais,
Como Dmitri de Ivan, Aleksei de Nikolai,**
Os olhos deles enxugai.
  
Rússia, mãe benévola, a criança
Sob o véu de vossa bem-aventurança
Cobrireis, até que as feras se amansem?
  
Por mais vil que seja o crime de seu pai,
Oh, Rússia pastoril, vós perdoai
O cordeirinho Aleksei de Nikolai!
  
4 de abril 1917
terceiro dia da Páscoa.

…………………~//~

* “Dorme em paz com/ Tua Aldeia a consolar-te…”// Aldeia do Tsar, Tsárskoie Seló, residência da família imperial russa, a 26 km de São Petersburgo. Quando a revolução de 1917 derrubou Nicolau II, então imperador da Rússia, ele e sua família foram feitos prisioneiros, primeiramente, no palácio de Alexandre, situado na Aldeia.

** “Como Dmitri de Ivan, Aleksei de Nikolai”// Refere-se a Aleksei Nikoláievitch, o tsariévitch, isto é, o príncipe Aleksei, filho de Nicolau II. Dmitri, filho de Ivan, foi Dmitri de Uglitch, filho de Ivan, o Terrível, assassinado aos 10 anos de idade em 1591 na cidade de Uglitch. Marina Tsvetáieva, recorrendo a essa referência histórica, clama pela vida do tsariévitch Aleksei, então com 13 anos de idade. Nicolau II, a tsarina Aleksandra e seus cinco filhos, Aleksei, Anastássia, Maria, Tatiana e Olga, foram mortos em Ekaterimburg no dia 17 de julho de 1918.
  
Царю — на Пасху

Настежь, настежь Царские врата!
Сгасла, схлынула чернота.
Чистым жаром
Горит алтарь.
— Христос Воскресе,
Вчерашний царь!
  
Пал без славы
Орёл двуглавый.
— Царь! — Вы были неправы.
  
Помянет потомство
Ещё не раз —
Византийское вероломство
Ваших ясных глаз.
  
Ваши судьи —
Гроза и вал!
Царь! Не люди —
Вас Бог взыскал.
  
Но нынче Пасха
По всей стране,
Спокойно спите
В своём Селе,
Не видьте красных
Знамён во сне.
  
Царь! — Потомки
И предки — сон.
Есть — котомка,
Коль отнят — трон.

<2 апреля 1917>,
Москва,
первый день Пасхи

……………….~//~

* * *
  
За Отрока — за Голубя — за Сына,
За царевича младого Алексия
Помолись, церковная Россия!
  
Очи ангельские вытри,
Вспомяни, как пал на плиты
Голубь углицкий — Димитрий.
  
Ласковая ты, Россия, матерь!
Ах, ужели у тебя не хватит
На него — любовной благодати?
  
Грех отцовский не карай на сыне.
Сохрани, крестьянская Россия,
Царскосельского ягнёнка — Алексия!

4 апреля 1917,
третий день Пасхи

……………………~//~

DIAMBA-SARABAMBA (Konopel-Konopelka), Ivan Novikov

1

IVAN NOVIKOV
(traduções: André Nogueira, nov.-dez. 2016)

DIAMBA-SARABAMBA

(KONOPEL-KONOPELKA)

EDITORA DO ESTADO da URSS, 1926.

2

NOVA BIBLIOTECA INFANTIL
PEQUENA IDADE
…………………………………………………….

IVAN NOVIKOV

DIAMBA-SARABAMBA
(KONOPEL-KONOPELKA)

EM VERSOS

ILUSTRADO POR
P. PAVLINOVA
………………………………………………..

EDITORA DO ESTADO
MOSCOU – 1926 – LENINGRADO

3

1. DIAMBA NO BERÇO

A diamba criança
no berço descansa:
em suave repouso
no solo do chouso.

Os grãozinhos se enfileiram
como sob o travesseiro, –
repousando lado a lado
pelos sulcos do arado.

Quietinha em seu leito
a diamba se deita
e, como tenro cobertor,
a terra embala sua flor!

Mas o solo, por si só,
milagre não faz:
tem de amanhecer o sol
e o lavrador regando atrás!

4

2. QUANDO OS OLHOS DELA ABREM

Bem de perto observem
como a natureza é sábia:
quando brota é só um gérmen,
logo os olhos dela abrem…

Libertada da semente
se contorce a raizinha,
o brotinho já rebenta
ainda preso na bainha.

Um tempinho que suceda,
te dobrando de joelhos
sobre a tão verde vereda,
os olhos teus poderão vê-los:

E do chão também te vendo
os verdes olhos se revelam.
Da caçula estão crescendo
à cacheada irmã mais velha.

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3. ALEGRE PRIMAVERA

A primavera é rápida assim:
um dia antes não havia
construído para si
tão verdejante moradia!

A primavera deixa alegre
as campinas e aldeias
onde quer que ela empregue
seus arroios e floreios.

Mas não chegou a obra ao ponto,
por mais bela que rebente…
Toma fôlego e desponta
a diamba adolescente.

Tão bonitos e verdes,
seus cachos crescem e crescem…
Mas a guardada sua flor, vede:
é ainda uma promessa.

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4. AS PARENTES DA DIAMBA

A diamba também tem parentes:
multiplicam-se no diambeiral!
Mas não são de sua gente
cacheada e fraternal…
São talvez suas sobrinhas,
não exatamente amigas,
mais precisamente ervas daninhas,
as chamadas de urtigas!

De tão venenosa e má,
não se pode com esta laia
a diamba misturar,
como num só mesmo balaio!
Raivosas, com espinhos,
experimente tocá-las e… ai, ai!
Nem serão boas vizinhas,
mas concorrentes desleais!

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5. A MENINA-SARABAMBA

Menina Kátia tem sardas,
os orelhas rosadinhas,
cabelos ruivos entrançados
como de uma raposinha…
Conduzindo as ovelhas aos campos,
quando escapa uma madeixa,
pelos ares vai seu grampo
e tão embaraçada a deixa…

Os pés descalços da menina
de olhinhos meio vesgos,
pastoreando sob a neblina
com os seus cabelos crespos…
Vocês bem já adivinham
como dela vão falar!
Bons apelidos com carinho
poderíamos lhe dar…

Mas não, chegamos tarde!
De nossa amiga já fazem graça:
“A camponesinha de sardas
pelos campos faz fumaça!”…
As crianças com maldade tagarelam
sobre Kátia e a maconha:
“Diamba-sarabamba!”, zombam elas –
como fosse uma vergonha!

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6. PRIMEIRA LOA DA DIAMBA
(Verão)

Diamba-sarabamba –
de fragrância perfumosa!
Diamba-sarabamba –
de ramagens tão viçosas!
Flor diamba, menina sarabamba:
benditas sejam ambas.

No verão e no outono,
filha humilde da lavoura,
ela dá seu rico aroma
para quem humilde lavra,
como flor de verde ouro
que cresceu entre tratores
e entre cercas de alambre,
numa única palavra:
diamba-sarabamba!

Como há campos de aveia,
a diamba tem seus campos
e eles são paisagens amplas
onde os pássaros gorjeiam,
e os homens que a plantam
têm repletos de esperança
os corações transbordantes
de sentir sua fragrância…

Diamba-sarabamba –
de cheirosa e forte fibra!
Diamba-sarabamba –
ninguém nunca te proíba!
Flor diamba, menina sarabamba:
benditas sejam ambas.

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7. É TEMPO DE FLORIR

Vejam como voa o pardal
de um salgueiro até o outro!
E logo mais todo o quintal
no aguaceiro está envolto.

O verão esquenta mais e mais…
Com vivas cores e fresco âmbar,
há flores e mais flores onde vais…
Pois flore também tu, crespa diamba!

Flore, diamba, flore,
com teu verde tão modesto,
brota sob o manto arbóreo,
perfumosa flor agreste!

Na natureza, observa,
há meninos e meninas,
como os frutos desta erva
a duas casas se destinam.

Observa atentamente
da diamba como florem
umas flores com sementes,
outras flores com o pólen…

Enfim o alegre tempo da seara:
em tua palma flores deitas,
das sementes a pipoca tu preparas…
E se faça bom proveito!

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8.  INVENÇÕES

Apelidada de diamba,
sempre atenta, ouve Kátia
o que se diz a seu respeito:
eles julgam, só com base em preconceito,
insinuam, só dislates-disparates
e diamba-sarabamba não aceitam.

As mentiras, deixem eles que as inventem!
Da diamba inventaremos bons proveitos:
ao pilar suas sementes
extraímos bom azeite,
e são melhores vestimentas
com a fibra dela feitas…

Tapam-se os buracos dos paióis
e até casa se constrói
com a matéria da diamba…
E até chicote se faz dela,
arreios, rédeas, selas
e outras cordas nada bambas!

E certa vez um marinheiro
em segredo admitiu:
“Diamba corre o mundo inteiro…”,
e num instante ele sorriu:
“Adiante, como hasteada bandeira,
de cânhamo é a vela do navio!”

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9. A FLOR-MENINO

Estava Kátia ali plantada
à espera da carroça…
A flor menino, estocada,
ficou murcha, macilenta…
– Puxa! – Experimenta!
Eles de novo se alvoroçam…

Entre cotoveladas e sorrisos,
seus irmãos não se continham:
– Para quem a calça? E a camisa?
O chicote e o chicotinho? –
E começou o empurra-empurra:
– Urra! Urra!

Que arteiro esse Greguinho!
Isso, irmão, não é brinquedo!
Essa flor-menina é minha…
Este aqui, eu te concedo:
amassa, asseia este folhedo
e fabrica para ti teu chicotinho!

Greguinho era mesmo um traquinas.
Rosadinhas as bochechas,
lembram, quase, as da menina…
Menos fartas as madeixas.
Mas com olhos tão azuis…
– Da cor do mar! – Ui, ui!

Kátia olhava admirada:
também a flor-menino é útil à beça!
Velas, para que os barcos nadem… –
Nem milagre, nem promessa,
é a puríssima verdade!
O mundo inteiro, se soubesse…

Como os pássaros viajam para o sul,
as plantas também amam o céu azul.
Passarinho, decola!
A plantinha tiraremos da gaiola!
Greguinho estala seu chicote –
Um futuro marinheiro no seu bote.

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10. A BATEÇÃO

Separados os melhores ramos,
o cânhamo no leito ressequiu…
A bateção nós começamos…
E não solta nenhum piu!
Com amor tudo suporte,
e terá vida em vez de morte.

Os grãozinhos, secos e picantes,
nas cabecinhas toc-toc,
em todo canto eles pipocam.
Quantos ramos num só monte!
Mas a poeira que levanta
é ruim demais da conta!

Ajuntem as crianças mais um pouco
e batam, batam com os tocos,
com alegria batam em nós!
E aproveitem nossas sementes,
estourem pipoca e escutem contentes
as histórias de seus avós!

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11. A CAMISA NO RIO

Tu, camisa minha, no fundo do rio!
Tanto que te espero, até quando?
Só penso, na noite febril:
a diamba no rio afundando!

Como cantam e gargalham,
amarrando, colocando-a na água!
Com uma pedra presa aos galhos,
a diamba naufraga!

Mamãe pediu que eu me console,
vovó explicou para que serve:
precisa ir de molho, até ficar mole!
Verás tua diambinha em breve!

Para isso te batizam,
camisa minha tão esperada?
Que idéia, lavar uma camisa
que sequer foi costurada!

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12. DIAMBA NO PRENSOR

Outono acinzentou os arvoredos
e a diamba já está encharcada:
pela manhã bem cedo
retiraram ela da água.

Bem, agora o trabalho é rápido:
a diamba secar e prensar.
E como a fibra está um trapo!
Sarabamba sarará…

Primeiro no prensor tu a colocas
e começas a pular sobre a alavanca…
Em seguida, numa roca,
um belo tufo tu arrancas!

Sobretudo é preciso rapidez…
Mas no prensor não tem segredo:
Sacode tudo de uma vez!
E cuidado com o dedo!

Vê como eles prensam e prensam –
E a diamba, quietinha, lá embaixo…
Eu sento com vovó em silêncio
e penteio os amados cachos!

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13. ESPADELAR E PENTEAR

Não gosto muito da espadela:
como sacodem e sacodem a diamba!
Rolam pelos cantos tufos dela
enquanto a lâmina esculhamba.

Mas eu amo pentear seus cachos…
Desemaranho e desemaranho,
e já mais sedosa se acha
minha futura camisa de cânhamo.

Para tascar, as espadelas,
para pentear, os pentes,
como dando a uma donzela
um penteado diferente…

Emaranhados os seus ramos
no prensor que estalavam…
Agora na mão a pegamos –
suave, suave…

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14. FRIO E NEVE

Com o inverno cai a neve
e o vento logo se enerva:
No telhado alguém que chora?
A nogueira de frio agoniza?
Deixem o vento brincar lá fora,
não vão congelar os narizes!

É hora de o tempo livre
aproveitar com um bom livro…
Kátia, debruçada sobre as figuras,
sem saber ainda as letras, memoriza,
prediletos da gaveta, os de aventura
sobre outros mares e países…

Com o alfinete vovô trabalha
trançando uma sandália…
pensas, com fio de palha?
Sobre as águas e cordas-bambas,
por quais bandas tanto andas,
sandalinha sarabamba?

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15. SEGUNDA LOA DA DIAMBA
 (Inverno)

Diamba-sarabamba –
de vida sofrida!
Diamba-sarabamba –
de bonito penteado!
Quando tornares-te tecido,
estará tudo perdoado!

Inverno cruel, –
as nuvens formam uma cortina
que encobre todo o céu
enquanto afora murmurinham
os teus ventos prepotentes!
Mas divertem-se os meninos
com mãos cheias de sementes
que saltitam, como fossem joaninhas,
e estalam entre os dentes!

Vovó coroca
de cócoras se aninha,
a seu lado uma cumbuca de pipoca,
e num novelo enrola as linhas
que começam a silvar:
tu diamba, diambinha,
sarabamba saravá!

Flor diamba, menina sarabamba –
benditas sejam ambas!

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16. A MÁQUINA ASSIM VIBRA

Os pássaros já fazem pilhéria,
o degelo a tudo encharca,
outra vez é primavera
e mamãe montou a máquina.

Vem chegando a roupa nova!
Mamãe pôs a urdidura,
e como fosse dura prova
vibra a máquina de costura!

A diamba novamente se emaranha,
enquanto a máquina assim vibra,
talvez não teia de aranha,
mas tecido, fibra a fibra!

E tudo sem despentear,
tece, tece sem parar, maquinaria…
Uma mosca que grudasse no tear
decerto não escaparia…

Depressa, pombinha! Ainda faz frio
e é preciso agasalhar o meu nariz!
E venha o tempo bom primaveril
iluminar nosso país!

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17.  TERCEIRA LOA DA DIAMBA
(Primavera)

A diamba no quintal
acordou de uma soneca, –
como os tecidos no varal
sob o solzinho ela seca.
Seu verde, só, descoloriu
com o todo-poderoso frio…

Ah, a primavera vem chegando!
Além da neve e do gelo,
a diamba e seus cabelos
ao redor vão gotejando e estalando!
E nossa gente tem no rosto
um sorriso de dar gosto
de prazer desabrochando,
como quando no paiol
sob um raiozinho de sol
ouves o canto da calhandra.

Vamos, meninos, em fileira!
Vamos, meninas, dançar uma mazurca!
Eles saltam para perto da lareira
e batucam nas cumbucas.
Pés no chão, mãos na cintura!
Um salto à frente, um giro em torno!
E os sorrisos que fulguram
como a diamba no forno.

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18. TESOURAS E FIOS

Mamãe colocou tudo sobre a mesa,
separando os tecidos um por um,
e se pôs a cortar com destreza
a tesoura: zum-zum!

É de cair o queixo:
também os fios vêm dessa safra!
E pensar que são as mesmas as madeixas
cujo azeite está servido na garrafa…

Às agulhas! Não preciso nem falar.
Por toda a casa, como andorinhas
costuramos, para lá e para cá,
e para o tanque à tardezinha…

Agora todos na aldeia têm camisa:
Kátia sarabambinha
e a vesguinha Lisa,
o irmão Paulinho
e Dária moleca,
e também o careca
vovô Aluízio,
uma xale para a corcova
de vovó Praskóvia,
sandálias para as descalças
Natália e Eduarda,
e ainda costuraram calças
para o Greguinho de sardas.

Esse verão Greguinho vai pastorear,
os rebanhos conduzir pelas campinas…
“E algum dia, para o mar!”,
o chicote rasgou a neblina.

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19. GREGUINHO PASTOR

Abril já passou, tu mesmo vês:
há diambas novinhas por onde fores.
A primavera trabalhou mais uma vez
e foi embora deixando as flores…

E entrando em maio tu verás
como as ovelhas conduzindo pelos campos
e perdendo no caminho os seus grampos
Kátia vai, Greguinho atrás.

De camisa nova, o novo pastor
e futuro marinheiro, –
basta à Kátia ele propôr
alguma nova brincadeira.

E nas mãos os seu chicote:
Pastor! – E tenho dito!
E com estalos cada vez mais fortes
por dez vezes se repita!

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20. A DIAMBA E A CORDA

Penteados e lavados seus cabelos,
sopra o vento, eles dançam.
Se alguém pensar torcê-los,
eis a mais bela das tranças.

A diamba nos bazares vai à venda,
as cordas para as tarefas difíceis,
o chicote pelos ares socorrendo
o cavaleiro em seu ofício.

Não se vive nem um dia sem diamba
e sem as cordas de seus cachos…
Um dia no campo descamba,
sem ela, barranco abaixo!

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21. POR TODA A PARTE A DIAMBA ESTÁ

Kátia foi ao monte
sem levar o seu rebanho,
olhou ao longe o horizonte…
Há algo estranho…

Derramando seu calor
por toda a terra e todo o mar,
o sol está para se pôr  –
e Kátia… pronta a navegar!

E onde houver terra
a diamba está,
e sarabamba se encerra
onde houver mar…

Só uma história, ou o futuro?
Assim, sem nenhum aviso
a aldeia inteira flutua
bem diante de nossos narizes!

E onde vemos Kátia,
na verdade, é uma sereia!
E no barco da pátria
está Greguinho, o marinheiro!

O mar com suas ondas se alegrou,
a vela se ergueu alto no mastro
e o barquinho, como um grou,
no horizonte se afasta…

E a terra toda redonda
floresceu como a diamba!
E a saudou o sol se pondo:
salve, salve, sarabamba!

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PREFÁCIO PARA A EDIÇÃO COMPLETA DAS MINHAS OBRAS, de Dmitri Chostakóvitch.

 

Shostakovich

PREFÁCIO PARA A EDIÇÃO COMPLETA DAS MINHAS OBRAS E UMA BREVE CONSIDERAÇÃO SOBRE TAL PREFÁCIO  *

Peça para baixo e piano, 1966, op.123.
Epigrama baseado em versos de Aleksandr Púchkin (1799-1837).
Texto e música de Dmitri Chostakóvitch.
Tradução do russo por André Nogueira,
25 de setembro de 2016, em homenagem aos 110 anos do compositor.
(Acompanha arquivo de áudio e breve comentário a partir de trechos de “Shostakóvich: Vida, Música, Tempo”, de Lauro Machado Coelho, e “Shostakóvich, a Life”, de Laurel E. Fay, em tradução do inglês).
.
Prefácio para a Edição Completa das Minhas Obras e uma Breve Consideração sobre tal Prefácio:

 “Com um único espirro eu sujo o papel.
 Com a orelha costumeira eu escuto o escarcéu.
 Do mundo inteiro eu torturo seus ouvidos.
 Depois publico e – bum! – sou esquecido.”

Este prefácio poderia ter sido escrito
não somente para a edição completa das minhas obras,
senão também para a edição completa das obras
de muitos, muitos outros compositores,
tanto soviéticos como estrangeiros.
E eis a assinatura: Dmitri Chostakóvitch.
Artista do Povo da URSS,
um grande número de títulos honorários,
Primeiro-Secretário da União dos Compositores da RSFSR,
simplesmente Secretário da União dos Compositores da URSS,
assim como vários outros cargos
e posições extremamente respeitáveis.

……………………………..~ // ~

ПРЕДИСЛОВИЕ К ПОЛНОМУ СОБРАНИЮ МОИХ СОЧИНЕНИЙ И КРАТКОЕ РАЗМЫШЛЕНИЕ ПО ПОВОДУ ЭТОГО ПРЕДИСЛОВИЯ

(Для баса и фортепиано, 1966, op.123.
Эпиграмма Пушкина. Текст Шостаковича).

“Мараю я единым духом лист.
Внимаю я привычным ухом свист.
Потом всему терзаю свету слух.
Потом печатаюсь – и в Лету Бух!”

Такое предисловие можно было б написать
не только к полному собранию моих сочинений,
но и к полному собранью сочинений
многих, очень, очень многих композиторов,
как и советских, так и зарубежных.
А вот и подпись: Дмитрий Шостакович.
Народный артист СССР,
очень много и других почетных званий,
первый секретарь Союза композиторов РСФСР,
просто секретарь Союза композиторов СССР,
а так же очень много других весьма
ответственных нагрузок и должностей.

……………….~//~

* Faço acompanhar em citação um excerto do livro “Shostakóvich: Vida, Música, Tempo”, de Lauro Machado Coelho (Ed. Perspectiva, 2006, págs. 372-373):

<< Em 28 de maio de 1966, Shostakóvich participou, pela última vez como pianista, de um concerto dedicado às suas obras. Acompanhou Galina Vishniévskaia e Ievgueni Nesterenko numa série de ciclo de canções, que incluíam duas estréias. Transcrevera para soprano as ‘Canções Judaicas’, para que Galina pudesse cantá-las. Nesterenko fez as ‘Romanças sobre Poemas Ingleses’. Para ele, também, Shostakóvich escrevera o texto e a música de uma canção satírica, ‘Prefácio à Edição Completa de Minhas Obras […]’. Os irônicos comentários à sua obra e funções oficiais – para os quais Shostakóvich inspira-se em um epigrama de Púchkin chamado ‘A História de um Versificador’ – são um belo exemplo de autoparódia. Nesterenko estava tão nervoso, que perdeu a sua entrada. Dmitri recomeçou e, mais uma vez, o cantor perdeu a entrada. Só na terceira vez conseguiu acertar… Nesterenko não foi o único a estar nervoso. Em sua biografia, Vishniévskaia conta que, nos ensaios, Dmitri estava apavorado, devido ao problema nos músculos das mãos, a ponto de cometer, três vezes seguidas, o mesmo erro na execução do soneto LXVI, de Shakespeare. No recital, apesar de estar em pânico, tudo correu maravilhosamente, o que o deixou excitadíssimo… Horas depois, porém, sofreu um enfarto, e tiveram de hospitalizá-lo novamente. Ao receber alta, foi mandado para um sanatório em Mielnítchnyi Rutchiei, perto de Leningrado, onde, por coincidência, o puseram no mesmo quarto que, no passado, costumava ser ocupado por Andrei Jdanov *>>.

* Andrei Jdánov, braço direito de Iossif Stálin na fiscalização de obras artísticas, perseguidor de Chostakóvitch muitos outros artistas soviéticos. As diretrizes da censura, no período de maior repressão, ficaram conhecidas como jdanovismo, e os longos anos de seu vigor, como jdanovtchina, isto é, a “era Jdanov”. Depois de sua morte em 1948 e de Stálin em 1953, com as denúncias de seus crimes e o subseqüente “degelo” da cultura soviética, iniciou-se um processo gradual de “des-jdanovização”. No universo da música, tal processo passou pelo encerramento da União dos Compositores da URSS e criação de uma União dos Compositores da RSFSR (República Socialista Federativa Soviética Russa), em 1960. No fim da década de 50 Chostakóvitch passou a integrar a União dos Compositores da URSS, participou da criação da União dos Compositores da RSFSR e foi condecorado Artista do Povo da União Soviética. Parecem ter sido esses os acontecimentos que levaram Chostakóvitch a ingressar, em 1960, no Partido Comunista, então sob governo de Nikita Khrushtchióv. Mas há uma série de circunstâncias que nos ajudam a compreender melhor a profunda ironia deste seu Prefácio, bem como o nervosismo que o acometeu em sua execução. Volto a citar L. M. Coelho (págs. 293-299):

<< O processo de libertação dos presos políticos, e da reabilitação das vítimas do terror stalinista… foi lento e laborioso. Em 1956, milhares deles começaram a sair do Gúlag [os campos soviéticos de trabalhos forçados]. ‘Nossa casa virou um hotel para a gente que voltava’, contou Maksím [filho de D. Chostakóvitch], referindo-se a todos os libertados a quem Dmitri hospedou e ajudou a recolocar na vida social. Usando o prestígio que seus títulos de deputado da República Russa e de Artista do Povo da URSS lhe conferiam, Shostakóvich empenhou-se na defesa de uma ampla gama de indivíduos, que iam desde a família de Guenrietta Dombróvskaia – deixada na miséria pela execução de seu marido – até a reabilitação de Vsiévolod Meyerkhold…

Foi no domínio das artes que se manifestaram com mais clareza as esperanças de que estivesse a caminho um processo de democratização. Morto Stálin, desapareceu a necessidade de produzir, em série, documentários históricos como ‘A Queda de Berlin’. Um novo capítulo na história do cinema soviético se abre com filmes como ‘Quando Voam as Cegonhas’, de Mikhail Kalatózov, premiado em Cannes em 1958 […] Livros por muito tempo engavetados começaram a vir a lume; as montagens do ‘Sovriemiennikh Teatr’ (Teatro Contemporâneo), de Moscou, provocaram debates; o conselho de Ministros criou uma Comissão Nacional de Intercâmbios Culturais com o exterior; poetas que há tempos estavam no desvio – Yevgueni Yevtuchenko, Andrei Vinokhúrov, Andrei Vozniessiénski, Bulát Okudjáva, ou o veterano Nikolai Zabolótski – puderam voltar a publicar […]

Essas mudanças bruscas não eram de todo aprovadas por Khrushtchióv. Numa reunião em meados de 1957 com diversos intelectuais, ele se opôs violentamente às idéias literárias mais audaciosas. E tratou brutalmente a poeta Margarita Aliguér, que reclamava contra o fechamento do anuário ‘Literatúrnaia Moskvá’. Apesar de seus modos bruscos, Khrushtchióv desfrutava de certa popularidade nos meios artísticos. Entre os que o apoiavam, estava Anna Akhmátova, grata a ele por ter ordenado a libertação de seu filho, Liév Gumilióv, preso desde antes da II Guerra Mundial. Isso não impediu que se desencadeasse, em 1958, uma campanha sem precedentes contra o poeta Boris Pasternak. […] Apesar da prisão de sua amante, Olga Ivínskaia,… no inverno de 1945 Pasternak começou a escrever a que haveria de considerar sua obra mais importante: o romance ‘Dr. Jivago’, vasto panorama das atribulações da intelectualidade russa sob a Revolução e o stalinismo… Recusado por todos os editores soviéticos, o romance foi contrabandeado para o exterior e publicado na Itália em novembro de 1957, já em plena era Khrushtchióv. Como o sucesso imediato do livro não foi muito grande, a imprensa soviética conseguiu silenciar o escândalo por algum tempo. No ano seguinte, quando Pasternak tornou-se o primeiro escritor soviético a ganhar o Prêmio Nobel e o livro foi traduzido em todas as línguas do mundo, o Pravda publicou um longo artigo de David Ióssifovich Zaslávski intitulado ‘As Vociferações da Propaganda Reacionária a Propósito de uma Erva Daninha Literária’. Embora ninguém tivesse lido uma só palavra do romance na URSS, os jornais foram inundados de manifestações ‘espontâneas’ dos leitores, pedindo para o escritor a mais dura das punições. Em outubro, uma sessão especial da União dos Escritores condenou Pasternak por ‘cuspir na cara do povo’… e Alexander Biezymiênski… pedira sua deportação: “Arranquemos a erva daninha pela raiz!”. Obrigado a recusar o Nobel, traído por muitos de seus colegas escritores, Pasternak morreu sozinho e amargurado, em maio de 1960…

Na música, o processo de degelo foi ainda mais laborioso. O artigo de Khrénnikov, no primeiro número da ‘Soviétskaia Muzika’ de 1957, preparando o II Congresso da União dos Compositores… esmerava-se em dar uma no cravo outra na ferradura: “O principal erro da secretaria da União dos Compositores foi freqüentemente ter adotado posições dogmáticas na luta contra o formalismo, atribuindo esse conceito a obras… que não o mereciam. Ouvimos recentemente, depois de muito tempo, a Oitava Sinfonia de Shostakóvich que, ao lado de muita coisa criticável, tem numerosas passagens artisticamente fortes e impressionantes… A experiência demonstra que a classificação da Oitava… no grupo das obras formalistas foi errônea e sem fundamento”.

O II Congresso da União dos Compositores [da URSS], iniciado em 23 de março [1957], recenseou as obras escritas entre 1946-1956, fez o balanço da criação musical soviética e apontou os rumos a seguir. Assim como Jdanov no I Congresso [19-25 de abril de 1948], a figura central aqui foi Dmitri Shepílov, representando o Partido. Surpreendendo os liberais, Khrénnikov defendeu os princípios do Realismo Socialista, atacando violentamente o chamado ‘Outono de Varsóvia’: a decisão dos músicos poloneses [Krzysztof Penderecki, Witold Lutoslawski, Grazyna Bacewicz] de romper com essas diretrizes… O dogmatismo de Khrénnikov, partidário do respeito à resolução de 1948, não o impediu de ser re-eleito secretário-geral [da União dos Compositores da URSS]… Apesar das conclusões indefinidas e insatisfatórias do II Congresso, pareceu animadora a atitude do Partido que, em fevereiro de 1958, emitiu uma resolução sobre “os erros cometidos na avaliação de ‘Grande Amizade’, de Muradélli, do ‘Bagdán Khmielnítski’, de Konstantin Dankiévitch, e ‘Do fundo do meu Coração’, de Guerman Jukóvski”. Embora afirmando que a resolução de 1948 “desempenhara papel positivo no desenvolvimento de conjunto da música soviética”, essa nova resolução admitia que “o julgamento da obra de determinados compositores foi, muitas vezes, infundado e injusto” (o camarada Shostakóvich era mencionado nesse contexto, juntamente com Prokófiev, Khatchatúrian, Shebalín, Popóv e Miaskóvski): “A obra desses compositores, que apresentava algumas tendências equivocadas, foi globalmente denunciada… Algumas avaliações injustificadas, contidas na resolução de então, eram resultado das opiniões subjetivas de I. V. Stálin a respeito de certas obras de arte e da criação de determinados artistas”…

O Concurso Internacional Tchaikóvski, de interpretação, acabara de ser criado, e a presidência do júri fora confiada a Shostakóvich, grande pianista e maior compositor soviético vivo, detentor do Prêmio Lênin. Ora, aos olhos da comunidade internacional, essa honraria não poderia ser concedida a um artista oficialmente colocado no índex, como inimigo do povo. Era, portanto, necessário reincorporá-lo à máquina de propaganda cultural do Estado. Por isso foi ele, e não Khrénnikov, o escolhido para pronunciar, durante a recepção oferecida no Krêmlin, em 8 de fevereiro de 1958, o discurso – preparado por outros – em que fazia um brinde à nova liderança partidária – cerimônia que, na realidade, preparou o terreno para a recisão parcial da resolução de 1948, no Congresso de março. Da mesma forma, o governo o mandaria aos Estados Unidos, em 1959, como parte da delegação liderada por seu arqui-inimigo Khrénnikov. Descrito pela ‘Musical America’ como “um homem nervoso, de olhos brilhantes e mãos inquietas, que fuma sem parar”, suas cautelosas declarações, bem ensaiadas, confirmariam a impressão que se tinha, no Ocidente, de que ele se convertera em um comunista ortodoxo >>

Sobre o polêmico ingresso de Chostakóvitch para o Partido Comunista em 1960, traduzi do inglês uma passagem de Laurel E. Fay, “Shostakóvich, a Life” (Oxford University Press, 2000, págs. 216-219):

<< A realização artística de Chostakóvitch foi ofuscada pela sua nova atuação como servidor público. Na primeira semana de abril de 1960, o Primeiro Congresso de Compositores da Federação Russa (RSFSR) teve lugar em Moscou. Apesar de estabelecer formalmente a União dos Compositores no nível da república, a sua comissão organizadora operava desde 1958 e patrocinou plenárias oficiais. Enquanto isso, a organização dos compositores da cidade de Moscou foi criada em 1959. Destaque para o Primeiro Congresso Constituinte, incluindo uma recepção no teatro do Krêmlin com a participação de líderes soviéticos e do corpo diplomático, começando com uma performance de ‘O Sol Brilha sobre a Pátria Mãe’ [opus 90 de D. Chostakóvitch]. Em 9 de abril de 1960, Chostakóvitch foi eleito primeiro-secretário, convocado para a mais elevada posição de liderança da recém-fundada União. Em 30 de abril, dele foi uma das saudações para a nação por ocasião do 1º de Maio, publicada no Pravda: “Estamos alcançando o comunismo. Louvar a mais justa sociedade humana na história é uma digna missão e satisfação para os compositores… Neste 1º de Maio de 1960 eu verdadeiramente ouço a música do comunismo. E, olhando para frente, gostaria de convidar todos os compositores soviéticos, meus caros amigos, para um trabalho ainda mais intenso e um novo sucesso criativo. Avante amigos, rumo ao comunismo!”. Na vida privada, contudo, Chostakóvitch se mostrou freqüentemente mais cínico a respeito das aspirações e promessas do comunismo. Assim ele contradisse Flora Litvínova numa conversa em 1956: “Não, o comunismo é impossível!”.

Sua imprevista entrada como membro no Partido Comunista em 1960… resultou um dos mais enigmáticos episódios de sua biografia. No fim de junho de 1960, Chostakóvitch se encontrava em Leningrado, onde sofreu um colapso nervoso, provocado pela iminência da convocatória que o levaria a Moscou para efetuar sua iniciação como membro do Partido. As versões contadas por Glikman e Lebedinski – que testemunharam sua crise – são contraditórias. Segundo relata Glikman, a decisão de Khrushtchióv em fazer de Chostakóvitch a cabeça da recém-fundada União dos Compositores da Federação Russa implicou no requerimento de sua filiação ao Partido. À honraria oferecida por um presidente do Comitê Central, delegado a recrutá-lo, o compositor se manteve resistente, e manobrou a situação o quanto possível antes de consentir. Já Lebedinski, ele mesmo um membro do Partido desde 1919, defende que não houve um grande plano para recrutar Chostakóvitch, que a pressão para aderir proveio de um escalão mais baixo de funcionários… Ele observou que Shostakóvich não chegou a dizer o nome de quem o forçara a assinar a inscrição, mas lhe deu a entender, envergonhado, que a tanto sucumbiu sob a influência do álcool…

Tal acontecimento foi mistificado por vários colegas e amigos de Chostakóvitch. E deixou muitos intelectuais desapontados. Alguns cogitam seriamente a possibilidade de que a partir daquele momento pendia, sobre Chostakóvitch e sua família, a espada de Dâmocles, o que sem dúvida seria o caso na era de Stálin. É verdade que, para melhorar a imagem do Partido Comunista sob governo de Khrushtchióv, houve uma campanha para recrutar às suas fileiras sangue novo da intelligentzia… Que houve algum grau de coerção, é evidente. Mais comumente compreende-se o consentimento de Chostakóvitch como um produto do pavor crônico, o terror que deformou toda a sua vida. >>

A nova fase não significou o fim da censura partidária às obras de Chostakóvitch. É verdade que o compositor se tornou mais livre, por exemplo, para se exprimir por meio da poesia, musicando versos de Marina Tsvetáieva, Aleksandr Blok, Ievgueni Ievtuchenko, além de poetas estrangeiros, García Lorca, Rainer Maria Rilke, Guillaume Apollinaire, ou então compondo peças satíricas como as Romanças sobre extratos da revista Krokodil ou Sátiras sobre textos de Sacha Tchiórni. Mesmo assim, Chostakóvitch se viu obrigado a assentir em trechos onde a comissão do Partido interveio revisando os poemas de Ievtuchenko usados em sua 13ª Sinfonia em 1962. A estréria do Prefácio, em 1966, aconteceu já na era Brejniev. O pavor de Chostakóvitch e seus músicos na execução da peça revela o peso psicológico dessas “transgressões” num ambiente político ainda muito repressivo. Lauro M. Coelho lembra que, para a apresentação da 14ª Sinfonia de Chostakóvitch, “as autoridades não enviaram nenhum representante. Estava lá apenas Pável Apostolóv, stalinista de coração…

O violinista Mark Lubótski, que assistiu à estréia, conta que, embora Chostakóvitch tivesse pedido silêncio à platéia, pois seria feita uma gravação privada daquele concerto, durante o quinto movimento, Apostolóv retirou-se ruidosamente da sala: ‘Quando a sinfonia terminou, as primeiras pessoas a sair viram um homem ser retirado do prédio, numa maca, para dentro de uma ambulância. Apostolóv tinha tido um ataque do coração enquanto a música estava sendo tocada’” (Op. Cit. 385).

A referida 14ª Sinfonia de Chostakóvitch, com versos de Lorca a Apollinaire, rompeu com todos os limites do que, até então, podia ser falado na União Soviética. Já traduzi para esta revista (Clique aqui) um desses poemas de Apollinaire, Resposta dos Cossacos Zaporojes ao Sultão de Constantinopla, infalivelmente associado, na Sinfonia, à figura de Stálin: “Cem vezes mais cruel que Barrabás,/ Com o corno diabólico na testa,/ Encostado a Belzebu aí estás…/ Não iremos ter contigo em tuas festas (…)/ Mestre-sala de uma corja filistéia,/ Empanturras-te de tudo que é imundo…/ Contorcendo-se em terrível diarréia/ Aos coices tua mãe te pôs no mundo… etc.”. Que efeitos poderia ter, sobre um “stalinista de coração”, tão crua enunciação de uma verdade mortalmente interditada? Trinta anos antes, por uns versos assim, em que comparava os bigodes do ditador a antenas de barata, Óssip Mandelstam fora preso e torturado até a morte; e agora os stalinistas enfartam ao os ouvir. O nervosismo de Chostakóvitch e Nesterenko na estréia do Prefácio confirma o quanto, mesmo com a abertura dos anos 60, era grave o rompiamento que se operava no âmbito da linguagem musical, e a coragem que precisou ter, nesta e em tantas ocasiões, esse grande Artista do Povo soviético.      

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Anna Akhmátova. Poemas (traduções por André Nogueira)

AnnaAkhmtova. rosário

ANNA AKHMÁTOVA (POEMAS)

Traduções, André Nogueira (2015)

Obs. Esta publicação acontece hoje, 05.03.2016, ao se completarem 50 anos da passagem de Akhmátova.

* * *

Torço as mãos sob o negro xale…
“Por que tanto te censuras?”
— Fiz que me ouvisse até deixá-lo
Embriagado de amargura.

Como esquecer? Ele saiu, cambaleando,
Nos lábios uma horrenda contorção…
Desci correndo, sem pegar no corrimão,
E no portão segurei ele pela manga.

Sufocada, eu gritei: “O que se deu
Foi brincadeira. Se tu fores, não agüento.”
Ele então com toda calma respondeu
E com frieza: “Não te exponhas tanto ao vento”.

1911

* * *

Сжала руки под тёмной вуалью…
“Отчего ты сегодня бледна?”
— Оттого, что я терпкой печалью
Напоила его допьяна.

Как забуду? Он вышел, шатаясь,
Искривился мучительно рот…
Я сбежала, перил не касаясь,
Я бежала за ним до ворот.

Задыхаясь, я крикнула: “Шутка
Всё, что было. Уйдешь, я умру.”
Улыбнулся спокойно и жутко
И сказал мне: “Не стой на ветру”

1911

* * *

Porta aberta, luz acesa,
Doces tílias murmurinham…
Esquecidos sobre a mesa
Estão a luva e o chicotinho.

Amarela a auréola do lustre…
Escuto, atenta, os murmúrios.
Por que correste tu de susto?
Nem sequer conjecturo.
    
Com alegria, o clarão
Do novo dia amanhecendo.
Esta vida é estupenda
E seja sábio o coração.
    
Te amortece a dor horrenda
E os espasmos se acalmam…
Sabe, estive lendo
Que é eterna nossa alma.

1911

* * *

Дверь полуоткрыта,
Веют липы сладко…
На столе забыты
Хлыстик и перчатка.

Круг от лампы желтый…
Шорохам внимаю.
Отчего ушел ты?
Я не понимаю…

Радостно и ясно
Завтра будет утро.
Эта жизнь прекрасна,
Сердце, будь же мудро.

Ты совсем устало,
Бьешься тише, глуше…
Знаешь, я читала,
Что бессмертны души.

1911

NA TSÁRSKOIE SELÓ

1

Na alameda balançando longas crinas
Cavalinhos, cavaleiros às garupas.
A cidade dos mistérios me fascina,
Eu amar-te tanto assim, me procupa.

Estranho: eu gemia, contorcendo-me de medo
Ao pensar em algum dia a ausência tua,
E agora me tornei como um brinquedo
Igual o róseo meu amigo catatua.

Já pressinto que me vou não sei aonde,
Mas de lágrimas não encho os olhos meus.
Só não gosto quando o sol já vai se pondo
Enquanto os ventos a silvar como um adeus.

22 de fevereiro 1911, Tsárskoie Seló

2

… Sob o bordo, ar perplexo,
Eis meu gêmeo marmóreo.
O rosto entregue a seu reflexo,
O lago treme em sua memória.

Vão as chuvas em minério
Transformar a cicatriz de sua carne
Fria, pálida… espere…
Eu também serei de mármore!

1911

3

Na alameda a caminhar rapaz moreno
Junto à margem mal-ferido de paixão.
Todo o globo para nós será pequeno,
Nossos pés parecem mal tocar o chão.

Sob os cepos, as agulhas dos pinheiros
Para o chão pronto retornem.
Tu, meu Par, despenteado cavaleiro…
Aqui jaz o teu tricórnio.

24 de fevereiro 1911, Tsárskoie Seló.

В ЦАРСКОМ СЕЛЕ

1

По аллее проводят лошадок
Длинны волны расчесанных грив.
О, пленительный город загадок,
Я печальна, тебя полюбив.

Странно вспомнить: душа тосковала,
Задыхалась в предсмертном бреду,
А теперь я игрушечной стала,
Как мой розовый друг какаду.

Грудь предчувствием боли не сжата,
Если хочешь, в глаза погляди.
Не люблю только час пред закатом,
Ветер с моря и слово «уйди».

22 февраля 1911, Царское Село

2

…А там мой мраморный двойник,
Поверженный под старым клёном,
Озёрным водам отдал лик,
Внимает шорохам зелёным.

И моют светлые дожди
Его запекшуюся рану…
Холодный, белый, подожди,
Я тоже мраморною стану.

1911

3

Смуглый отрок бродил по аллеям,
У озёрных грустил берегов,
И столетие мы лелеем
Еле слышный шелест шагов.

Иглы сосен густо и колко
Устилают низкие пни…
Здесь лежала его треуголка
И растрепанный том Парни.

24 февраля 1911, Царское Село

* * *

Seu vizinho, eu perdi as estribeiras!
Tardezinha, quarta-feira.
Uma vespa foi quem veio me zoar…
Picou no meio do meu dedo, o anelar.

Foi sem querer que a apertei
E, pelo visto, morrerá.
Se seu ferrão terá veneno, eu não sei,
Como a agulha do tear.

Em teu colo, seu vizinho, vim chorar.
Tu me darás algum sorriso?
Olha isso: no meu dedo, anular
O tão bonito meu anel de compromisso.

18-19 de março 1911

* * *

Я сошла с ума, о мальчик странный,
В среду, в три часа!
Уколола палец безымянный
Мне звенящая оса.

Я ее нечаянно прижала,
И, казалось, умерла она,
Но конец отравленного жала
Был острей веретена.

О тебе ли я заплачу, странном,
Улыбнется ль мне твое лицо?
Посмотри! На пальце безымянном
Так красиво гладкое кольцо.

18-19 марта 1911

PARA A MUSA

Musa-irmã, em meus olhos fitou,
Tão claro é seu olhar, tão reluzente.
De mim tomou o anel de ouro,
A flor de um primeiro presente.

Musa! Vês, meninas e esposas
E viúvas, todas elas são alegres…
Morrer de velha é melhor coisa,
Só tal peça não me pregues!

Devo colher, já adivinho,
A tenra flor da margarida
E enfrentar tudo sozinha,
A terrestre provação da minha vida.

Vejo da janela a primavera:
Viver só — é meu destino, que assim seja.
Só não quero, só não quero, só não quero
É saber, que a outra beijam.

Amanhã me vão zombar detrás do espelho:
“Não é claro teu olhar, nem reluzente…”
Eu direi: “A Musa-irmã veio colhê-lo,
O divino meu presente”.

10 de outubro 1911, Tsárskoie Seló

МУЗE

Муза-сестра заглянула в лицо,
Взгляд ее ясен и ярок.
И отняла золотое кольцо,
Первый весенний подарок.

Муза! ты видишь, как счастливы все –
Девушки, женщины, вдовы…
Лучше погибну на колесе,
Только не эти оковы.

Знаю: гадая, и мне обрывать
Нежный цветок маргаритку.
Должен на этой земле испытать
Каждый любовную пытку.

Жгу до зари на окошке свечу
И ни о ком не тоскую,
Но не хочу, не хочу, не хочу
Знать, как целуют другую.

Завтра мне скажут, смеясь, зеркала:
«Взор твой не ясен, не ярок…»
Тихо отвечу: «Она отняла
Божий подарок».

10 октября 1911, Царкое Село

A CÂMARA NOTURNA

Estas palavras de antemão que pronuncio
Atingiram meu espírito em cheio,
Uma abelha no crisântemo zuniu
E um sachê envelhecido exala cheiros.

Na câmara, tu vês, não há janelas, só um vão.
Torso de colecionador, o amor exposto nu
E sobre a cama, em francês, uma inscrição:
“Seigneur, ayez pitie de nous”.*

Velhas histórias, com seus tristes desenlaces,
Minha alma a este horror não submetas.
Sob a capa desgastada, em realce,
Arranhões no verniz da estatueta.

No buquê que sobre a mesa estiola
O raio último de sol petrificou-se.
Como em sonho um acorde de viola
E o som do clavicorde ainda ouço.

* “Senhor, tenha piedade de nós” (franc.)

1912

ВЕЧЕРНЯЯ КОМНАТА

Я говорю сейчас словами теми,
Что только раз рождаются в душе.
Жужжит пчела на белой хризантеме,
Так душно пахнет старое саше.

И комната, где окна слишком узки,
Хранит любовь и помнит старину,
А над кроватью надпись по-французски
Гласит: “Seigneur, ayez pitie de nous»*.

Ты сказки давней горестных заметок,
Душа моя, не тронь и не ищи…
Смотрю, блестящих севрских статуэток
Померкли глянцевитые плащи.

Последний луч, и желтый и тяжелый,
Застыл в букете ярких георгин,
И как во сне я слышу звук виолы
И редкие аккорды клавесин.

* Господи, смилуйся над нами (франц.).

1912

Anna-Akhmatova-with-her-husband-Nikolay-Gumilev-and-son-Lev-Gumilev-1913                (Akhmátova em 1913 com seu esposo, Nikolai Gumiliov, e seu filho, Liev Gumiliov)

* * *

“Onde está teu ciganinho, excelência?
Teu pequeno e primogênito neném,
A quem conheces bem melhor do que ninguém
E, quando chora, enrolas tu em negro lenço.”

“O destino de uma mãe, iluminar-se na tortura.
Não considero que eu dela seja digna.
A cancela se abriu a um paraíso prematuro
E no colo é Madalena quem segura seu estigma.

Cada dia bem vivido em meus tempos alegres
Esquecido sobre a neve eu abandono.
Os meus braços sofredores que o carreguem
E seu choro despedace com meu sono.

O coração se apagou, igual a luz do abajur.
Esqueço tudo o que for da minha conta
Enquanto ando pelo cômodo escuro
Onde procuro pelo berço e não encontro”.

1914

* * *

“Где, высокая, твой цыганенок,
Тот, что плакал под черным платком,
Где твой маленький первый ребенок,
Что ты знаешь, что помнишь о нем?”

“Доля матери — светлая пытка,
Я достойна ее не была.
В белый рай растворилась калитка,
Магдалина сыночка взяла.

Каждый день мой — веселый, хороший,
Заблудилась я в длинной весне,
Только руки тоскуют по ноше,
Только плач его слышу во сне.

Станет сердце тревожным и томным,
И не помню тогда ничего,
Все брожу я по комнатам темным,
Все ищу колыбельку его”.

1914

CANÇÃO DE NINAR

Longe mata adentro,
Atravessando o remoinho,
Um chalé sem acalento,
Um lenhador bem pobrezinho.

O caçula reclamava por papá, —
De que forma fazê-lo parar?
Dorme, meu filhinho, dorme,
Eu sou uma mãe má.

Ouve cantar o passarinho
Que pousou nestes umbrais…
Foi dada uma cruzinha,
De presente, a teu pai.

A fome vem, a fome vai,
E fome em casa se aloja.
Que São Jorge
Livre e guarde teu papai.

1915, Tsárskoe Seló.

КОЛЫБЕЛЬНАЯ

Далеко в лесу огромном,
Возле синих рек,
Жил с детьми в избушке темной
Бедный дровосек.

Младший сын был ростом с пальчик,
— Как тебя унять,
Спи, мой тихий, спи, мой мальчик,
Я дурная мать.

Долетают редко вести
К нашему крыльцу,
Подарили белый крестик
Твоему отцу.

Было горе, будет горе,
Горю нет конца,
Да хранит святой Егорий
Твоего отца.

1915, Царское Село

* * *

Por que te disfarças
De ave, de seixo, de sarça?
Por que te divertes
Com lampejos cravejando-me celestes?

Deixa! Para quê me assedias?
Vai cuidar de tuas próprias bruxarias!
No pântano, embebido de penumbra,
Bruxuleia o ébrio vislumbre.

E eis a Musa, num esburacado véu,
Que arrasta cânticos tristonhos.
Do poder de suportar dor tão cruel
Vem o milagre deste sonho.

1915

* * *

Зачем притворяешься ты
То ветром, то камнем, то птицей?
Зачем улыбаешься ты
Мне с неба внезапной зарницей?

Не мучь меня больше, не тронь!
Пусти меня к вещим заботам…
Шатается пьяный огонь
По высохшим серым болотам.

И Муза в дырявом платке
Протяжно поет и уныло.
В жестокой и юной тоске
Ее чудотворная сила.

1915

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                                (Akhmátova desenhada por Amedeo Modigliani, 1911)

 

ÉPICOS MOTIVOS

Eu canto, e o bosque verdeja…
B. A.

< 1 >

Naquele tempo eu era hóspede na terra.
O nome que me deram de batismo — Anna,
Era doce aos ouvidos e aos lábios dos humanos.
Assim eu por milagre vi o júbilo terrestre
E, nem sequer contando vinte aniversários,
Eram tantas minhas festas quantos dias há no ano.
Obediente a certo ímpeto secreto,
Elegendo um desprendido pretendente,
O sol, apenas, eu amava, e as árvores.
Encontrei, certo verão, uma estrangeira
E àquela hora nas marés de águas quentes
Em que juntas nos banhávamos
Estranho pareceu-me o seu traje de banho
E mais estranhos os seus lábios e palavras —
Raras, como estrelas cadentes em setembro.
Delicada, ensinava-me a nadar
Com sua mão me apoiando por debaixo
O corpo inábil sobre as ansiosas ondas.
De repente estatelei naquelas águas azul-claras
Calmamente ela a mim se dirigiu,
E pareceu-me que a floresta com as frondes
Farfalhava, que a areia abria fendas
Ou que o fole de uma gaita, num assobio,
Anunciava a despedida, pois o sol ia se pondo.
Suas palavras, não podia me lembrar,
Caía a noite sombreando seu perfil,
O cabelo molhado circundando seu olhar,
Uma frestra que na boca entreabriu.
Como perante uma divina mensageira,
Implorei para a menina: “Diz-me,
Para quê me surrupias a memória,
E sussurras-me ao ouvido, se a glória
De cantar o que ouvi, tu retiraste-a de mim?”
Só uma vez, eu passeando na vindima,
Enchi o meu de estimação cesto de vime
E, bronzeada, me sentei sobre o capim.
Pálpebras cerradas, os cabelos destrançava,
Lânguida estava e dos perfumes estafada
Que exalavam desde os figos azulados
E do hálito picante das silvestres hortelãs.
Do relicário da memória aproximou-se,
Essa delícia de palavras derramou,
E o cesto cheio eu lançando pelos ares
Para a terra me joguei como se fosse
Certo amado, a quem canta meu amor.

Outono 1913

ЭПИЧЕСКИЕ МОТИВЫ

                   Я пою, и лес зеленеет.

                                                                Б. А.

1

В то время я гостила на земле.
Мне дали имя при крещенье — Анна,
Сладчайшее для губ людских и слуха.
Так дивно знала я земную радость
И праздников считала не двенадцать,
А столько, сколько было дней в году.
Я, тайному велению покорна,
Товарища свободного избрав,
Любила только солнце и деревья.
Однажды поздним летом иностранку
Я встретила в лукавый час зари,
И вместе мы купались в теплом море,
Ее одежда странной мне казалась,
Еще страннее — губы, а слова —
Как звезды падали сентябрьской ночью.
И стройная меня учила плавать,
Одной рукой поддерживая тело
Неопытное на тугих волнах.
И часто, стоя в голубой воде,
Она со мной неспешно говорила,
И мне казалось, что вершины леса
Слегка шумят, или хрустит песок,
Иль голосом серебряным волынка
Вдали поет о вечере разлук.
Но слов ее я помнить не могла
И часто ночью с болью просыпалась.
Мне чудился полуоткрытый рот,
Ее глаза и гладкая прическа.
Как вестника небесного, молила
Я девушку печальную тогда:
«Скажи, скажи, зачем угасла память
И, так томительно лаская слух,
Ты отняла блаженство повторенья?..»
И только раз, когда я виноград
В плетеную корзинку собирала,
А смуглая сидела на траве,
Глаза закрыв и распустивши косы,
И томною была и утомленной
От запаха тяжелых синих ягод
И пряного дыханья дикой мяты,—
Она слова чудесные вложила
В сокровищницу памяти моей,
И, полную корзину уронив,
Припала я к земле сухой и душной,
Как к милому, когда поет любовь.

Осень 1913
Akhmatova_by_Altman

                                           (Akhmátova retratada por Nathan Altman, 1914)

< 2 >

Despedindo-me do bosque meu, natal e sacrossanto,
E da casa, onde a Musa Soluçante já não vai,
Eu, em silêncio, ia feliz levando a vida
Numa ilha toda plana, como fosse uma jangada
Encalhada sobre o delta do Nievá.
Oh, mistério desses dias invernais,
Os prazerosos afazeres, sensações de fadiga
E rosas colocadas em um jarro no lavabo!
A rua sob a neve acabava na esquina
Bem diante de uma árvore e a parede do altar
Da igreja Santa Catarina.
Cedo eu saía para a rua a procurar
Como da amada algum vestígio
Esmiuçando aquela pálida camada
De uma neve ainda virgem.
À beira do Nievá, os veleiros, como pombos,
Se tocavam ombro a ombro, mas a praia
Só fazia prantear com cínzeas ondas.
E outra vez a velha ponte me atrai…
Mais semelhante a uma gaiola
Do que um lar, existe ali certo lugar
Cujo habitante, como fosse um sabiá,
Me cantarola. Eu perante o cavalete só aguardo,
Como em frente do espelho, estupefata,
O seu trabalho ver nascer, feliz e árduo.
Eis o quadro, esta cada vez mais cínzea
Imagem e semelhança do retrato
Com a minha vida, sôfrega e narcísea.
Já não sei onde estará o meu artista predileto
Que galgou pela janela da mansarda
Ao perigo das cornijas e dos tetos
E comigo sobre abismos caminhou
A contemplar a neve, o Nievá e sua névoa —
Mas sei, as nossas Musas são amigas,
Como moças que ainda desconhecem o amor
E que portanto são fraternas e benévolas.

<1914>

2

Покинув рощи родины священной
И дом, где Муза Плача изнывала,
Я, тихая, веселая, жила
На низком острове, который, словно плот,
Остановился в пышной невской дельте.
О, зимние таинственные дни,
И милый труд, и легкая усталость,
И розы в умывальном кувшине!
Был переулок снежным и недлинным.
И против двери к нам стеной алтарной
Воздвигнут храм святой Екатерины.
Как рано я из дома выходила,
И часто по нетронутому снегу,
Свои следы вчерашние напрасно
На бледной, чистой пелене ища,
И вдоль реки, где шхуны, как голубки,
Друг к другу нежно, нежно прижимаясь,
О сером взморье до весны тоскуют, —
Я подходила к старому мосту.
Там комната, похожая на клетку,
Под самой крышей в грязном, шумном доме,
Где он, как чиж, свистал перед мольбертом,
И жаловался весело, и грустно
О радости небывшей говорил.
Как в зеркало, глядела я тревожно
На серый холст, и с каждою неделей
Все горше и страннее было сходство
Мое с моим изображеньем новым.
Теперь не знаю, где художник милый,
С которым я из голубой мансарды
Через окно на крышу выходила
И по карнизу шла над смертной бездной,
Чтоб видеть снег, Неву и облака, —
Но чувствую, что Музы наши дружны
Беспечной и пленительною дружбой,
Как девушки, не знавшие любви.

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                         (Akhmátova retratada por Olga Della-Vos-Kardovskaia, 1914)

PRECE

Dai-me febre, dor, insônia,
Amargos anos sufocando com a peste,
E levai de mim meu filho, o matrimônio,
O dom divino destes cânticos celestes.
Após dias de tão numerosas cruzes,
Assim rogo em vossos santos oratórios:
Pela nuvem que faz sombra sobre a Rússia,
Descarregai vossa relampejante glória.

1915, Dia de Pentecostes, Petersburgo, Ponte da Trindade

МОЛИТВА

Дай мне горькие годы недуга,
Задыханья, бессонницу, жар,
Отыми и ребенка, и друга,
И таинственный песенный дар —
Так молюсь за Твоей литургией
После стольких томительных дней,
Чтобы туча над темной
РоссиейСтала облаком в славе лучей.

1915, Духов день, Петербург, Троицкий мост

Anna Akhmatova - 06


* * *

O povo esperava, sob uma ânsia
De suicídio, a exército alemão,
E o espírito ortodoxo de Bizâncio
Em templos russos não tomava comunhão.

O Nievá presenciou sua cidade,
Que da febre do poder quedava enferma,
Esquecendo-se de sua majestade
E sem saber quem tomaria seu governo.

Uma voz me apareceu naquele tempo,
Consolou-me e me ofereceu ajuda:
“Deixa tua terra, tão pecaminosa e surda.
A Rússia abandona para sempre.

Vem, eu lavo o sangue de tuas mãos
E essa vergonha que teu coração coage,
Com um novo nome limparei a tua imagem
Do ultraje e da passada humilhação”.

Com um gesto indiferente e sóbrio
Os ouvidos eu tapei com as mãos hirtas.
Que assim esse discurso ignóbil
Não profane meu espírito aflito.

Outono 1917, Petersburgo

 * * *

Когда в тоске самоубийства
Народ гостей немецких ждал,
И дух суровый византийства
От русской церкви отлетал,

Когда приневская столица,
Забыв величие своё,
Как опьяневшая блудница,
Не знала, кто берёт ее, —

Мне голос был. Он звал утешно,
Он говорил: “Иди сюда,
Оставь свой край, глухой и грешный,
Оставь Россию навсегда.

Я кровь от рук твоих отмою,
Из сердца выну черный стыд,
Я новым именем покрою
Боль поражений и обид”.

Но равнодушно и спокойно
Руками я замкнула слух,
Чтоб этой речью недостойной
Не осквернился скорбный дух.

Осень 1917, Петербург

A MUSA

Enquanto à noite sua vinda me ilude
A vida me parece por um fio segura a mim.
O que são honra, liberdade, juventude
Quando ela me visita, no assobio de um clarim?
E eis que, do véu se desfazendo, apareceu
E sobre mim impôs os olhos dardejantes.
Eu pergunto: “Foste tu que ditaste a Dante
As páginas do Inferno?” Ela responde: “Eu!”.

1924

МУЗА

Когда я ночью жду ее прихода,
Жизнь, кажется, висит на волоске.
Что почести, что юность, что свобода
Пред милой гостьей с дудочкой в руке.
И вот вошла. Откинув покрывало,
Внимательно взглянула на меня.
Ей говорю: “Ты ль Данту диктовала
Страницы Ада?” Отвечает: ” Я!”.

1924

EM MEMÓRIA DE SERGUEI IESSIÊNIN

Pode a vida se extinguir apenas, como a vela:
Indolor, serena, acaba a flâmula amarela.
Mas a Rússia não concede a seus poetas
Uma lúcida passagem como esta.

À mais fiel e alada alma deste mundo
Recebem-na no céu salvas de chumbo,
Ou sob o horror da pata cósmica oprimido
O coração, como uma esponja, cospe a vida.

1925

ПАМЯТИ СЕРГЕЯ ЕСЕНИНА

Так просто можно жизнь покинуть эту,
Бездумно и безбольно догореть.
Но не дано Российскому поэту
Такою светлой смертью умереть.

Всего верней свинец душе крылатой
Небесные откроет рубежи,
Иль хриплый ужас лапою косматой
Из сердца, как из губки, выжмет жизнь.

1925

MAIAKOVSKI NO ANO DE 1913

Não sei de tua extemporã notoriedade,
Lembro só da impetuosa flor da idade.
E queira agora dignar-me a tomar nota
Em memória desses anos mais remotos.
Em tua voz acumulavam-se destroços
Asfaltados por teus versos vigorosos.
Sem preguiça, com os dois braços em riste,
A terríficos andaimes erigiste.
Tudo quanto resvalasse em tuas vestes
Com o tranco se achava a uma versta
E tudo aquilo que de pronto aniquilavas
Na sentença de uma única palavra.
Solitário e insatisfeito, como sempre,
Aceleravas com despeito o breve tempo
Em que, com férvida alegria, para a luta
Ingressarias, consumindo o pavio curto.
O longínquo rumor dos altos mares
Numa síncope auscultando ao recitares,
Sob a chuva revirando irados olhos
Tu dobravas da cidade seus imbróglios.
Num cômodo da alma um relâmpago penetra:
É teu nome, ecoando sempre alerta.
E até hoje a nossa pátria toda treme
Sob tal convocatória da vocálica sirene.

3-10 de março 1940

МАЯКОВСКИЙ В 1913 ГОДУ

Я тебя в твоей не знала славе,
Помню только бурный твой расцвет,
Но, быть может, я сегодня вправе
Вспомнить день тех отдаленных лет.
Как в стихах твоих крепчали звуки,
Новые роились голоса…
Не ленились молодые руки,
Грозные ты возводил леса.
Все, чего касался ты, казалось
Не таким, как было до тех пор,
То, что разрушал ты, — разрушалось,
В каждом слове бился приговор.
Одинок и часто недоволен,
С нетерпеньем торопил судьбу,
Знал, что скоро выйдешь весел, волен
На свою великую борьбу.
И уже отзывный гул прилива
Слышался, когда ты нам читал,
Дождь косил свои глаза гневливо,
С городом ты в буйный спор вступал.
И еще не слышанное имя
Молнией влетело в душный зал,
Чтобы ныне, всей страной хранимо,
Зазвучать, как боевой сигнал.

3-10 марта 1940

RESPOSTA TARDIA

para M. I. Tsvetáieva

Diabinha de brancas mãos… zombas,
Duplo invisível, te escondes nas sombras
Dos arbustos, nas casinhas de estorninho,
Entre cruzes depredadas tu caminhas
E gritas, da torre Marinka:
“Hoje volto aos campos meus.
Me admirem, conterrâneos,
Pelo que me aconteceu.
Minha família foi tragada pelo pântano
E a casa de meu pai cai em ruínas”.
Vamos hoje atrás de ti, Marina,
Em procissão à meia-noite pelas ruas
De Moscou, e a seguir a trilha tua
Vão milhões retinir fúnebre sino,
A nevasca com seu grito nos trespassa
Mas, discreta, apagando nossos passos
Ao dobrarmos a esquina.

Março 1940

ПОЗДНИЙ ОТВЕТ
                                     М. И. Цветаевой

Белорученька моя, чернокнижница…
Невидимка, двойник, пересмешник,
Что ты прячешься в черных кустах,
То забьешься в дырявый скворечник,
То мелькнешь на погибших крестах,
То кричишь из Маринкиной башни:
“Я сегодня вернулась домой.
Полюбуйтесь, родимые пашни,
Что за это случилось со мной.
Поглотила любимых пучина,
И разрушен родительский дом”.
Мы с тобою сегодня, Марина,
По столице полночной идем,
А за нами таких миллионы,
И безмолвнее шествия нет,
А вокруг погребальные звоны
Да московские дикие стоны
Вьюги, наш заметающей след.

Март 1940
a1938


REQUIEM

EM LUGAR DE UM PREFÁCIO

Nos anos desgraçados da iejóvtchina eu passei dezessete meses nas filas da prisão em Leningrado. Certa vez alguém me “identificou”. Então atrás de mim uma mulher de lábios azuis e que, é claro, nunca na vida ouviu falar meu nome, despertou do torpor, peculiar a todas nós, e me perguntou ao pé do ouvido (lá só aos sussurros se falava):

— E isso, és tu capaz de descrever?

E eu disse:

— Sou.

Então algo semelhante a um sorriso passou por aquilo, que algum dia foi seu rosto.

1º de abril 1957, Leningrado.

РЕКВИЕМ

ВМЕСТО ПРЕДИСЛОВИЯ

В страшные годы ежовщины я провела семнадцать месяцев в тюремных очередях в Ленинграде. Как-то раз кто-то «опознал» меня. Тогда стоящая за мной женщина с голубыми губами, которая, конечно, никогда в жизни не слыхала моего имени, очнулась от свойственного нам всем оцепенения и спросила меня на ухо (там все говорили шепотом):

— А это вы можете описать?

И я сказала:

— Могу.

Тогда что-то вроде улыбки скользнуло по тому, что некогда было ее лицом.

1 апреля 1957 г., Ленинград

DEDICATÓRIA

De tanta mágoa, as montanhas se recolham
E as águas não mais fluam pelo rio.
Tudo estremece sob a dureza do ferrolho
E, atrás dele, os confinados no covil.
E, aos portões da prisão, dores de morte…
Para quem sopra o vento suave,
O pôr do sol a quem conforta,
Não sabemos; para nós o som das chaves
A ranger por entre abomináveis portas
E os ecos dos soldados com o seu bater de botas.
Cedo levantávamos, como para a missa,
Andávamos na capital hostil,
Nos encontrávamos, mortiças,
Ainda mal nascido o sol, adormecido o rio,
Mas o fio de uma esperança ainda em mente.
A sentença… Lágrimas jorram, de repente.
A vida, com as dores do calvário,
Extraída de nós todas do arrombado coração,
No chão de costas derrubada brutalmente…
Mas soergue, atordoada, e segue… solitária.
Por onde andarão as companheiras forçadas
Dos dois anos que passamos no inferno?
Que intempérie na Sibéria elas enfrentam,
Que sinais elas enxergam numa lua maculada?
Eu a elas me prosterno, neste adeus ajoelhada.

Março, 1940.

ПОСВЯЩЕНИЕ

Перед этим горем гнутся горы,
Не течет великая река,
Но крепки тюремные затворы,
А за ними «каторжные норы»
И смертельная тоска.
Для кого-то веет ветер свежий,
Для кого-то нежится закат —
Мы не знаем, мы повсюду те же,
Слышим лишь ключей постылый скрежет
Да шаги тяжелые солдат.
Подымались как к обедне ранней.
По столице одичалой шли,
Там встречались, мертвых бездыханней,
Солнце ниже и Нева туманней,
А надежда все поет вдали.
Приговор. И сразу слезы хлынут,
Ото всех уже отделена,
Словно с болью жизнь из сердца вынут,
Словно грубо навзничь опрокинут,
Но идет… шатается… одна…
Где теперь невольные подруги
Двух моих осатанелых лет?
Что им чудится в сибирской вьюге,
Что мерещится им в лунном круге?
Им я шлю прощальный мой привет.

Март 1940

INTRODUÇÃO

Isso aconteceu quando os cadáveres
Felizes, descansavam de bom grado.
Pendurada em seus cárceres, inútil balançava,
Como um peso morto, Leningrado.
E, no auge louco do tormento,
Como lacônicas canções de adeus,
Entre as filas destacadas dos detentos,
Camburões cantavam pneus.
Estrelas de morte à nossa volta
E a Rússia inocente em carne viva
Sob ensangüentadas botas
E o trote das locomotivas.

ВСТУПЛЕНИЕ

Это было, когда улыбался
Только мертвый, спокойствию рад.
И ненужным привеском болтался
Возле тюрем своих Ленинград.
И когда, обезумев от муки,
Шли уже осужденных полки,
И короткую песню разлуки
Паровозные пели гудки.
Звезды смерти стояли над нами,
И безвинная корчилась Русь
Под кровавыми сапогами
И под шинами черных марусь.

IV.

Se tivessem te mostrado, à zombeteira
Dos amigos preferida
E alegre pecadora da Tsárskoe Seló,
O que seria de tua vida…
Que, o gelo a derreter sob a goteira
Do teu choro de dar dó,
Sob a Cruzes, tricentésima da fila,
Ficarias, tendo em mãos o pacotinho.
No pátio do presídio, um trêmulo pinheiro,
Sem ruído. Quantos são os prisioneiros
Cujas vidas nesta hora lá definham…

IV.

Показать бы тебе, насмешнице
И любимице всех друзей,
Царскосельской веселой грешнице,
Что случилось с жизнью твоей.
Как трехсотая, с передачею,
Под Крестами будешь стоять
И своей слезою горячею
Новогодний лед прожигать.
Там тюремный тополь качается,
И ни звука. А сколько там
Неповинных жизней кончается…

V.

Faz dezessete meses que me arrasto,
Aos pés do teu carrasco me atiro
E grito, que tu voltes para casa, —
Tu, meu filho e meu martírio.
Tudo confundiu-se para sempre,
Não consigo mais fazer a distinção
De quem é bicho, quem é gente,
E quanto tempo até que venha a execução.
De pano a flor de não sei quando,
O som dos incensórios, os meus passos
De algum lugar à parte alguma
E, direto nos olhos me fitando,
De morte próxima me ameaça
Uma estrela de incomensurável lume.

V.

Семнадцать месяцев кричу,
Зову тебя домой.
Кидалась в ноги палачу —
Ты сын и ужас мой.
Все перепуталось навек,
И мне не разобрать
Теперь, кто зверь, кто человек,
И долго ль казни ждать.
И только пышные цветы,
И звон кадильный, и следы
Куда-то в никуда.
И прямо мне в глаза глядит
И скорой гибелью грозит
Огромная звезда.

VI.

As semanas passam voando.
O que aconteceu, não entendo.
As noites brancas te observam,
Ainda agora em hora matutina,
A ti, no cárcere, filhote.
Com olhos ávidos de ave de rapina
Sobre tua alta cruz elas conversam
E sobre a morte.

1939

VI.

Легкие летят недели,
Что случилось, не пойму.
Как тебе, сынок, в тюрьму
Ночи белые глядели,
Как они опять глядят
Ястребиным жарким оком,
О твоем кресте высоком
И о смерти говорят.

1939

VIII.

PARA A MORTE

Vens decerto, pouco importa — por que tardas?
Eu te aguardo — para mim tudo vai mal.
Deixei a porta entreaberta, a lâmpada apagada
Para ti, tão simples, tão original.
Assume para isso a forma que te agrada:
Com astúcia de ladrão, em casa adentra
Irrompendo como a seta envenenada,
Ou me sufoca com a tifo pestilenta.
Ou como a fábula, que a foste inventar
E que todos já se enojam de saber, —
Que eu veja a aba do boné da KGB
E do porteiro apavorado o pálido esgar.
A mim agora é indiferente. A Estrela Polar
Para mim pisca, o Ienissei Sibéria adentro
A escoar, e encoberto pelo derradeiro horror
O nele refletido olho azul do meu amor.

19 de agosto 1939, Casa Fontanka

VIII.

К СМЕРТИ

Ты все равно придешь — зачем же не теперь?
Я жду тебя — мне очень трудно.
Я потушила свет и отворила дверь
Тебе, такой простой и чудной.
Прими для этого какой угодно вид,
Ворвись отравленным снарядом
Иль с гирькой подкрадись, как опытный бандит,
Иль отрави тифозным чадом.
Иль сказочкой, придуманной тобой
И всем до тошноты знакомой, —
Чтоб я увидела верх шапки голубой
И бледного от страха управдома.
Мне все равно теперь. Клубится Енисей,
Звезда Полярная сияет.
И синий блеск возлюбленных очей
Последний ужас застилает.

19 августа 1939, Фонтанный Дом

IX.

A asa da loucura
Já a alma encobriu pela metade.
E bebe vinhos escarlates
Convidando-me a ir ao vale escuro.

Já compreendi que a ela devo
A vitória conceder.
Ouço o delírio nos meus nervos
Como a voz de um outro ser.

E coisa alguma ela permite
Que daqui leve comigo
(Por mais súplicas que eu grite
E com mais preces que a persiga)!

Nem do filho o seu terrível olho
Petrificado de dor,
Nem o dia em que me veio este terror,
Nem a hora que o encontrei sob ferrolhos,

Nem as mãos que apertei por entre grilhos,
Nem as sombras trêmulas das tílias,
Nem o fugitivo som, vôo de rola,
Da palavra de meu último consolo.

4 de março 1940, Casa Fontanka.

IX.

Уже безумие крылом
Души накрыло половину,
И поит огненным вином,
И манит в черную долину.

И поняла я, что ему
Должна я уступить победу,
Прислушиваясь к своему
Уже как бы чужому бреду.

И не позволит ничего
Оно мне унести с собою
(Как ни упрашивай его
И как ни докучай мольбою)!

Ни сына страшные глаза 
каменелое страданье,

Ни день, когда пришла гроза,
Ни час тюремного свиданья,

Ни милую прохладу рук,
Ни лип взволнованные тени,
Ни отдаленный легкий звук 
Слова последних утешений.

4 мая 1940, Фонтанный Дом

CRUCIFICAÇÃO

“Não chores por mim, Mãe,
No túmulo estou…”

1

O fogo, na abóbada celeste, se alastra.
O coro dos arcanjos glorifica o grande fim.
Ele diz ao Pai: “Por que me abandonaste?”
E à Mãe: “Oh, não chores por mim…”

2

Madalena, a soluçar, se debatia.
O discípulo amado ali ficou petrificado.
De erguer a vista ninguém teve a ousadia
Para a Mãe, que se segurou calada.

Х. РАСПЯТИЕ

«Не рыдай Мене, Мати,
во гробе зрящи».

1

Хор ангелов великий час восславил,
И небеса расплавились в огне.
Отцу сказал: «Почто Меня оставил?»
А Матери: «О, не рыдай Мене…»

2

Магдалина билась и рыдала,
Ученик любимый каменел,
А туда, где молча Мать стояла,
Так никто взглянуть и не посмел.

EPÍLOGO

I.

Agora sei como amortiza-se o aspecto da gente:
A este pêsame as bochechas se conformam,
Sob as pálpebras espia o sofrimento
Duras páginas de escrita cuneiforme.
Agora sei como os cabelos já se tornam,
De castanho ou negro, argênteos.
Como nos lábios submissos uma droga
De sorriso, trêmulo de medo, se escava.
Não só por mim eu rogo,
Mas por todas que comigo lá estavam —
Ao frio de gelo expostas e ao tórrido verão
Aos pés do cego e vermelho paredão.

ЭПИЛОГ

I.

Узнала я, как опадают лица,
Как из-под век выглядывает страх,
Как клинописи жесткие страницы
Страдание выводит на щеках,
Как локоны из пепельных и черных
Серебряными делаются вдруг,
Улыбка вянет на губах покорных,
И в сухоньком смешке дрожит испуг.
И я молюсь не о себе одной,
А обо всех, кто там стоял со мною,
И в лютый холод, и в июльский зной
Под красною, ослепшею стеною.

II.

O dia de finados aproxima-se outra vez.
Eu vejo, ouço, sinto a cada uma de vocês:

Esta uma, que levá-la para fora era difícil;
Esta outra, que não mais pisou a terra natalícia;

E aquela que disse, com a cabeça que balouça:
“Como em casa, hoje chego ao calabouço”.

Quem me dera ter seus nomes em meus lábios,
Mas a lista me tomam, e em lugar algum se sabe.

Com palavras que as ouvi chorarem pelos cantos
Para elas eu teci um grande manto.

Lembrarei delas para sempre em toda parte
Mesmo que à frente outro flagelo me aguarde,

E se taparem minha boca tão aflita
Pela qual o povo solta o milionésimo dos gritos,

Peço então por meu espírito rogarem
Quando à hora dos meus ritos funerários.

E caso um dia nesta pátria se intente
Em minha honra levantar um monumento,

Eu consinto que assim me agraciem,
Mas somente se me erguerem a honraria

Não lá onde nasci, beirando a praia:
Já basta que a memória desse tempo se esvaia,

Ou junto ao tronco predileto no jardim do tzar,
Cuja sombra ainda hoje está por mim a procurar,

E sim aqui, onde passei trezentas horas de suplício
Sem que as trancas para mim eles abrissem.

Pois minha alma atormentada ainda teme
Esquecer dos camburões as sirenes,

Ou da porta abominável o estalido
E a velha que urrava, como bicho malferido.

A pingar da imóvel pálpebra de bronze
Uma lágrima de gelo derretido me response,

Ao longe arrulhe o pombo do presídio
E os barcos passem no Nievá sem dar ouvidos.

Março 1940, Casa Fontanka.

II.

Опять поминальный приблизился час.
Я вижу, я слышу, я чувствую вас:

И ту, что едва до окна довели,
И ту, что родимой не топчет земли,

И ту, что красивой тряхнув головой,
Сказала: «Сюда прихожу, как домой».

Хотелось бы всех поименно назвать,
Да отняли список, и негде узнать.

Для них соткала я широкий покров
Из бедных, у них же подслушанных слов.

О них вспоминаю всегда и везде,
О них не забуду и в новой беде,

И если зажмут мой измученный рот,
Которым кричит стомильонный народ,

Пусть так же они поминают меня
В канун моего поминального дня.

А если когда-нибудь в этой стране
Воздвигнуть задумают памятник мне,

Согласье на это даю торжество,
Но только с условьем — не ставить его

Ни около моря, где я родилась:
Последняя с морем разорвана связь,

Ни в царском саду у заветного пня,
Где тень безутешная ищет меня,

А здесь, где стояла я триста часов
И где для меня не открыли засов.

Затем, что и в смерти блаженной боюсь
Забыть громыхание черных марусь,

Забыть, как постылая хлопала дверь
И выла старуха, как раненый зверь.

И пусть с неподвижных и бронзовых век,
Как слезы, струится подтаявший снег,

И голубь тюремный пусть гулит вдали,
И тихо идут по Неве корабли.

Март 1940, Фонтанный Дом

anna
PRIMEIRO PROJÉTIL DE LONGO ALCANCE EM LENINGRADO

O variado rebuliço das pessoas
De repente se alterou de natureza.
Este barulho já não soa
Citadino, nem tampouco ele é rural.
Da surpresa ribombante de um trovão
É, com certeza, irmão de sangue, seu igual.
Mas no trovão há a umidade
Que habita frescas nuvens
E que vem trazer aos prados
Boas novas de uma chuva.
Porém este nos trazia uma estação daninha
E não queria o ouvido tenso
Acreditar, porquanto vinha
Acabando com o suspense
E com crescente indiferença
Para sempre me ceifar o meu filhinho.

1941

ПЕРВЫЙ ДАЛЬНОБОЙНЫЙ В ЛЕНИНГРАДЕ

И в пестрой суете людской
Все изменилось вдруг.
Но это был не городской,
Да и не сельский звук.
На грома дальнего раскат
Он, правда, был похож, как брат,
Но в громе влажность есть
Высоких свежих облаков
И вожделение лугов —
Веселых ливней весть.
А этот был, как пекло, сух,
И не хотел смятенный слух
Поверить — по тому,
Как расширялся он и рос,
Как равнодушно гибель нес
Ребенку моему.

1941

* * *

Os desintegrados pássaros na linha anti-aérea?
Leningrado, se pudessem te salvar dessa miséria…

Quando não roncam os canhões em plena luta,
A cidade vive um pouco, toma fôlego, escuta:

Os seus filhos sobre a neve se debatem com
Gemidos como os frios ventos do Báltico.

Das profundezas os seus gritos: “Dai-me pão!”
Até o sétimo dos céus se elevarão,

Esse céu cético, sem dó de nossa sorte…
Eu, de todas as janelas, vendo a morte,

Sempre ela, a espreitar as portinholas
E alma apavorada na gaiola.

28 de setembro 1941, a bordo do avião.

* * *

Птицы смерти в зените стоят.
Кто идет выручать Ленинград?

Не шумите вокруг — он дышит,
Он живой еще, он все слышит:

Как на влажном балтийском дне
Сыновья его стонут во сне,

Как из недр его вопли: «Хлеба!»
До седьмого доходят неба…

Но безжалостна эта твердь.
И глядит из всех окон — смерть.

И стоит везде на часах
И уйти не пускает страх.

28 сентября 1941, самолет


PELA JANELA DO AVIÃO

1

Por milhas às centenas e por verstas,
Por quilômetros afora
Jaz o sal, e se agitam as florestas
Com as suas fauna e flora.
Como nunca à altura de estar nela,
Vejo a Pátria, pelo vão de uma janela:
Meu corpo, minha alma, penso:
Isso tudo a mim pertence.

2

Com pedrinhas demarquei aquele dia
Em que a vitória anunciei.
Enquanto, ao encontro da vitória, eu ia,
Adiantando-me ao sol, voei.

3

Quando pisei a pista de pouso,
Sob meus pés a relva pôs-se a farfalhar.
Minha casa, minha casa e meu repouso!
Como nova tu me és, e mesmo assim familiar.
A cabeça, ainda tonta, a rodar
E esse pesar no coração também é novo…
O estrondo do trovão parece ainda ressoar —
Mas a vitória é de Moscovo!

Maio 1944

С САМОЛЕТА

1

На сотни верст, на сотни миль,
На сотни километров
Лежала соль, шумел ковыль,
Чернели рощи кедров.
Как в первый раз я на нее,
На Родину, глядела.
Я знала: это все мое —
Душа моя и тело.

2

Белым камнем тот день отмечу,
Когда я о победе пела,
Когда я победе навстречу,
Обгоняя солнце, летела.

3

И весеннего аэродрома
Шелестит под ногой трава.
Дома, дома — ужели дома!
Как все ново и как знакомо,
И такая в сердце истома,
Сладко кружится голова…
В свежем грохоте майского грома —
Победительница Москва!

Май 1944

* * *

Cinco anos se passaram. Já curei minhas feridas —
Cicatrizes dessa guerra depravada.
Minha pátria,
…………………e outra vez nos russos prados
O silêncio de seu gelo remordido.

Vê o marinheiro em boa rota como ardem
Os faróis na escuridão marítima,
E este fogo que arde neles sem alarde
É como os olhos de um amigo íntimo.

Um pacífico trator, onde tanques disparavam.
Onde o incêndio crepitava, o jardim se regenera.
O automóvel fende o ar em disparada
Pela estrada outrora cheia de crateras.

Antes decepados, a agitar braços de gesso,
E agora, sobre o cepo, um novo álamo germina.
E lá, onde a separação cortou a alma, o menino
É embalado pela mãe no fofo berço.

Agora em boa têmpera estás livre,
Minha pátria!
………………….E para sempre os vivos
Na memória dos povos cicatrizem
Esses tempos de dor, pólvora e cinzas.

As novas gerações, tenham paz e vida longa.
As modernas e monumentais cidades,
Em homenagem às aldeias massacradas,
Marcarão o monumento a ferro e fogo.

Maio 1950

 * * *

Прошло пять лет, — и залечила раны,
Жестокой нанесенные войной,
Страна моя,
……………….и русские поляны
Опять полны студеной тишиной.

И маяки сквозь мрак приморской ночи,
Путь указуя моряку, горят.
На их огонь, как в дружеские очи,
Далеко с моря моряки глядят.

Где танк гремел — там ныне мирный трактор,
Где выл пожар — благоухает сад,
И по изрытому когда-то тракту
Автомобили легкие летят.

Где елей искалеченные руки
Взывали к мщенью — зеленеет ель,
И там, где сердце ныло от разлуки, —
Там мать поет, качая колыбель.

Ты стала вновь могучей и свободной,
Страна моя!
………………..Но живы навсегда
В сокровищнице памяти народной
Войной испепеленные года.

Для мирной жизни юных поколений,
От Каспия и до полярных льдов,
Как памятники выжженных селений,
Встают громады новых городов.

Май 1950

MÚSICA
D. D. Sh.*

Alguma coisa milagrosa ela desperta,
Uma visão do ultrapassado limiar.
Somente ela ainda ouço a me falar
Não existindo mais quem ouse chegar perto.

O último amigo em retirada se coloque
E no túmulo comigo ainda soa a sua prece,
Como em prantos trovoadas se pusessem
E as flores começassem seu colóquio.

* para D. D. Chostakovitch

1958

МУЗЫКА
Д. Д. Ш.*

В ней что-то чудотворное горит,
И на глазах ее края гранятся.
Она одна со мною говорит,
Когда другие подойти боятся.

Когда последний друг отвел глаза,
Она была со мной в моей могиле
И пела словно первая гроза
Иль будто все цветы заговорили.

* Д. Д. Шостаковичу

1958

* * *

Não me atormentes com um destino terrível
Nem com o enorme tédio setentrião.
Hoje passamos contigo o primeiro dia festivo
E essa festa recebe o nome — separação.
Não te importes, que não haja aqui aurora
E nem a lua sobre nós redunde,
Eu te presentearei agora
Com relíquias nunca vistas neste mundo:
O reflexo meu nas águas de um rio
Numa hora em que o sono não turve o fundo;
Um olhar tal, que à estrela cadente não ajude
A voltar até de onde ela caiu;
O eco de uma voz que purifica
No verão que a luz da tarde refrescou, —
Sem tremor possas ouvir os mexericos
De um corvo dos redores de Moscou;
Para que a umidade de outubro tenha gosto
Mais salubre que o bem-estar de maio…
Te lembra, anjo meu, deste meu rosto,
Te lembra, até que a primeira neve caia.

1959

* * *

Не стращай меня грозной судьбой
И великою северной скукой.
Нынче праздник наш первый с тобой,
И зовут этот праздник — разлукой.
Ничего, что не встретим зарю,
Что луна не блуждала над нами,
Я сегодня тебя одарю
Небывалыми в мире дарами:
Отраженьем моим на воде
В час, как речке вечерней не спится.
Взглядом тем, что падучей звезде
Не помог в небеса возвратиться,
Эхом голоса, что изнемог,
Л тогда был и свежий и летний,—
Чтоб ты слышать без трепета мог
Воронья подмосковного сплетни,
Чтобы сырость октябрьского дня
Стала слаще, чем майская нега…
Вспоминай же, мой ангел, меня,
Вспоминай хоть до первого снега.

1959

Anna Akhmatova - 11

 

 

 

 

NO MERCADO, de Ievgueni Ievtuchenko

yevgeny
NO MERCADO

Poema de Ievgueni Ievtuchenko,
Tradução por André Nogueira (2015).

Para qual trabalho, para qual batalha
entram as mulheres no mercado,
cobertas com véus e xales,
uma por uma, todas caladas.

Oh, o tilintar das caçarolas,
o barulho das garrafas e panelas!
A molho de salada e a cebola,
a pepino cheiram elas.

Tremo, demorando em ir ao caixa,
e ao passo em que espero
ao mercado todo encharca
o respirar dessas mulheres.

Heroínas de filhos e netos,
em silêncio, se enfileiram
e nas mãos elas apertam
o suado seu dinheiro.

Rússia, eis a honra ao mérito
que a vossas filhas deram.
A elas, que misturaram concreto,
e semearam, e ceifaram…
por tudo passaram essas mulheres
e a tudo suportaram.

Tudo no mundo lhes é possível, –
a elas pertence toda a força.
Enganá-las por um níquel
é mau e vergonhoso.

E eu as vejo, mudo e melancólico,
escolhendo alguma peça de segunda,
cansadas de segurar suas sacolas com
as mãos mais gloriosas deste mundo.

1956

trad. 8 de março de 2015.

 


В МАГАЗИНЕ

Кто в платке, а кто в платочке,
как на подвиг, как на труд,
в магазин поодиночке
молча женщины идут.

О бидонов их бряцанье,
звон бутылок и кастрюль!
Пахнет луком, огурцами,
пахнет соусом «Кабуль».

Зябну, долго в кассу стоя,
но покуда движусь к ней,
от дыханья женщин стольких
в магазине все теплей.

Они тихо поджидают —
боги добрые семьи,
и в руках они сжимают
деньги трудные свои.

Это женщины России.
Это наша честь и суд.
И бетон они месили,
и пахали, и косили…
Bсе они переносили,
все они перенесут.

Все на свете им посильно,—
столько силы им дано.
Их обсчитывать постыдно.
Их обвешивать грешно.

И, в карман пельмени сунув,
я смотрю, смущен и тих,
на усталые от сумок
руки праведные их.

1956

Liubliú / Amo, de Vladímir Maiakóvski

 

LIUBLIÚ *

(Amo)

Poema de Vladimir Maiakóvski,
Tradução, André Nogueira (2013) 

* “Todas as homenagens que o poeta rendeu a Lília (em poemas como ‘Lílitchka!’, ‘A Fláuta-Vértebra’, ‘O homem’, ‘Disto’) se resumem numa única palavra que ele transformou no que hoje chamaríamos de poema concreto. Maiakóvski fez gravar num anel, que deu a ela de presente, as letras ‘L’, ‘IU’ e ‘B’ – as iniciais do nome completo de sua amada: Lília IÚrieva Brik. Em disposição circular elas formam a palavra LIUBLIÚ (amo)”.

Geralmente é assim

O amor é dado
a todos que vêm ao mundo, –
mas entre encargos,
rendimentos
e tudo,
de um dia para o outro,
o coração se amortiza.
Vestimos no coração o corpo
e no corpo a camisa.
Mas ainda é pouco.
Alguém
– um idiota! –
fez mangas compridas
e até cobriu o peito
com o ferro de passar roupa!
Na velhice é que se nota:
por mais que a mulher se maquie
e o homem
no maquinário de Müller
se exercite,
já não tem volta:
o invólucro encheu-se de rugas.
A passadeira dos anos
repugna o amor
balizando botões de flor.

Quando menino

Eu fui feito sob medida para o amor.
É que as pessoas
são trituradas pelo trabalho
desde a infância.
Já eu –
fugia para as margens do Rioni
nem o diabo sabe por que atalho
e ficava na andança.
Mamãe se irritava:
«menino mal-criado!».
A cinta de papai zunia.
Mas eu
mais rápido prestidigitava
com três rublos falsos
jogando «montes de três»
com os fardados da infantaria.
E eis:
sem o peso das botas
nem o fardo das camisas,
me bronzeava à beira rio.
Virava para o sol as costas
e a barriga –
de estômago vazio.
O sol se maravilhava:
«Onde já se viu?
Pudera, com um coração desse tamanho!
Quase que desaba.
Incrível que caiba
em tão pequena criatura
eu,
o cinturão do rio
e mais três verstas de montanhas!»

Juventude

A juventude põe a mão na massa
dos dicionários
para estudar a gramática dos burros
exibicionistas.

Já eu, expulso do 5º ano do ginásio
fui jogar atrás dos muros
das prisões moscovitas.
No mundinho
de vossos apartamentos
brotam,
no chão de seus cubículos,
montículos de lírica.
O que nela tricotas?
Ao mesmo tempo
que a mim estudam
como melhor amar
nos calabouços da Butirka!
Que saudades terei eu
dos bosques de Bolonha?
Que cultos prestarei
à imensidão marinha?
Eis que meu coração, enamorado, sonha
no «escritório de processos sepultos»
da 103ª cela
pelo vão da janelinha.
Muitos olham o sol diário
e desdenham:
«Estes raiozinhos, de que valem?»
Enquanto eu daria o mundo
para que uma desta lebre amarela
que no muro se desenha
me resvale.

Minha universidade

Vocês sabem francês.
Dividem,
multiplicam,
declinam perfeitamente.
Pois declinem!
Me digam: vocês
com os edifícios
sabem cantar?
A língua dos trens vocês compreendem?
Os discípulos
as mãos estendem
somente aos livros
e cadernos de tabuada.
Eu
aprendi o alfabeto nas placas
folheando páginas de ferro e alumínio.
Os mestres
nas mãos apertam
a terra
arrancando-lhe cascas,
gomos;
mas toda ela não passa
de um globo
em escala.
Eu
de bruços aprendi geografia –
e não foi por acaso: dormia
no chão
deitando-me nas tábuas
do mais regular declínio.
A Ilovaiski tortura uma questão:
– Seria mesmo ruiva a barba do Barba-ruiva? –
Não me importa essa burrice de holofotes.
Qualquer história das ruas
para mim é mais digna de nota.
Estudam Boaventuras,
para odiar os desventurados,
e patíbulo é de nomes consagrados
o prestigioso pódio.
Eu
aos gordos
desde a infância aprendi a sentir ódio.
Eu era pobre
e me vendia pelo almoço.
Depois retinirão ideiazinhas
como tostões de cobre
para levar também as moças.
Eu somente com os edifícios me entretinha
e só me respondiam os encanamentos.
À espera do que eu lhes lançasse à orelha
as calhas se esticavam dos telhados.
Depois, uns contra os outros
e todos contra as estrelas,
em línguas que eu lhes tenha alumiado,
estalavam cata-ventos.

Quando adulto

Adultos têm negócios a tratar.
E dinheiro no bolso.
Amar?
Pode ser arranjado
por cem rublos.
Enquanto eu meto
as mãos nos bolsos furados
e, sem-teto, perambulo.
Noite. É hora
de vestir o melhor terno.
E descansar a alma
nos braços
das esposas ou viúvas.
Enquanto a mim
em abraços de rotatória
Moscou me estrangula
em suas inúmeras praças!
Nos corações e reloginhos
das gurias acelera o tique-taque
e no leito a comoção de seus amantes.
Das capitais
a selvagem taquicardia amei eu
deitado num coreto apaixonante!
Coloco o coração para fora
e me abro
para o sol e as poças d’ água.
Penetrai-me como os apaixonados!
Ensopai-me como os transbordos de amor!
A partir de agora
não mais serei, do coração, governador.
Lá dentro do peito
na casinha do cuco
dos outros eu sei o coração onde se acha.
Mas comigo
a anatomia ficou maluca –
sou totalmente um só coração
apitando de cima a baixo!
Oh, a quantos deles,
nessas vinte primaveras,
consumiram brasas quentes?
Ao porte deste fardo
não se pode abdicar,
ainda que ele seja insuportável.
Insuportável não assim,
como num verso,
e sim
literalmente.

No que deu

Mais que a rigor
mais que a rodo –
como um sonhador de poesia
que ainda dorme
perdido a quadras do bom-senso –
no coração um caroço
foi crescendo, até ficar enorme –
um enorme amor,
um enorme ódio.
Sob o peso, eu cedo
e as pernas se desviam
para uma duvidosa direção.
Tu sabes, sou vigoroso;
mesmo assim, me apóio
– eu, um apêndice do coração! –
em tensas vigas do esqueleto.
Encho-me com leite de versos
– e não derramo
(não tem saída conveniente) –
e por isso continuo inflando.
Estou enfartado de lírica –
esta ama do universo
que amamenta hiperbolicamente
e que criou
todos os personagens de Maupassant.

Clamo

Levanto, custe o que for.
Agarro, igual um acrobata.
Como a sirene na aldeia
repercute
enquanto o incêndio a consome;
como em tempos de eleições
trombeteiam os comícios;
desse jeito é que arrebata-me o clamor:
«Ei-lo! Ei-lo!
Tomem-no!»
As damas, sem olhar
o misto de sujeira e neve,
tão logo assim vim apitando,
zarparam como um míssil:
«Para nós algo mais leve!
Para nós, passos de tango…»
Difícil arcar com esta barra
e arco com ela.
Longe gostaria de lançá-la
mas não:
as barricadas não contêm
o carrilhão das costelas;
a jaula do peito estala
com tamanha percussão.

Tu

Chegaste perto
do tamanhão
do rugido
e certeiramente
ao mirar
tu simplesmente viste a um menino.
Pegaste do peito aberto
o coração
removido
e simplesmente
foste jogar
como uma menina à sua bola.
Avassaladora, como fosses dum domínio
miraculoso,
tu deixaste estarrecidas
senhoritas e senhoras:
«Como ousa amar aquilo?
Vai devorá-la!
É, decerto, domadora,
sim, decerto, de animais!»
Eu rejubilo:
aquela vida de vassalo – nunca mais!
De alegria, ao despedir o coração
saltei pela argola
nem sequer apercebendo.
Tão leve me sentia, galopava
como um índio
liberado de um grilhão
por um anel de casamento.

Impossível

Sozinho não posso
carregar um fortepiano
(menos ainda
um caixa-forte).
E, se um caixa-forte não posso
nem um fortepiano,
de que jeito poderia
carregar meu coração, se o retomasse?
Os banqueiros já resolvem o impasse:

«Se não há bolso que suporte,
os muito ricos
guardam num cofre».
Em ti o amor
– como uma riqueza blindada pelo ferro –
eu encerro
e sigo os meus passos, como o rei mais rico.
Se preciso for
retiro um sorriso,
meio sorriso
ou menos que isso
e, destilando com os outros
numa meia-noite de farra
corrosivo, escarro
quinze rublos de troco lírico.

E assim me aconteceu:

Os navios para o porto navegam.
Os trens para as estações trafegam.
Assim, tão mais depressa
– afinal, eu amo! –
para ti, minha desembocadura, sou entregue.
O cavaleiro avaro de Púchkin,
adorando seu ouro no porão,
cava e enterra.
Assim eu
para ti, amor, regresso.
Meu coração aí está
e minha adoração é essa.
Ao regressar à casa
já estamos mais contentes –
nos lavamos, fazemos a barba.
Assim eu
para ti regresso –
acaso, para ti indo
não estou voltando para casa?
São, as criaturas terrestres,
de volta recolhidas para a terra;
cada qual termina lá
onde tudo começa.
Assim eu
por ti
sou tragado continuamente –
mal nos separamos
é em ti que se acaba.

Conclusão

O amor não me lavarão
nem lonjuras
nem desentendimentos.
Em auto-evidente
testemunho e testamento
levanto, solene, este verso
escrito nas linhas da mão
e juro –
amo,
inadulterável e fidelmente.

Novembro de 1921 – fevereiro de 1922.

……………………~//~ 

Люблю

Обыкновенно так

Любовь любому рожденному дадена,—
но между служб,
доходов
и прочего
со дня на день
очерствевает сердечная почва.
На сердце тело надето,
на тело — рубаха.
Но и этого мало!
Один —
идиот!—
манжеты наделал
и груди стал заливать крахмалом.
Под старость спохватятся.
Женщина мажется.
Мужчина по Мюллеру мельницей машется.
Но поздно.
Морщинами множится кожица.
Любовь поцветет,
поцветет —
и скукожится.

Мальчишкой

Я в меру любовью был одаренный.
Но с детства
людьё
трудами муштровано.
А я —
убег на берег Риона
и шлялся,
ни чёрта не делая ровно.
Сердилась мама:
«Мальчишка паршивый!»
Грозился папаша поясом выстегать.
А я,
разживясь трехрублевкой фальшивой,
играл с солдатьём под забором в «три листика».
Без груза рубах,
без башмачного груза
жарился в кутаисском зное.
Вворачивал солнцу то спину,
то пузо —
пока под ложечкой не заноет.
Дивилось солнце:
«Чуть виден весь-то!
А тоже —
с сердечком.
Старается малым!
Откуда
в этом
в аршине
место —
и мне,
и реке,
и стовёрстым скалам?!»

Юношей

Юношеству занятий масса.
Грамматикам учим дурней и дур мы.
Меня ж
из 5-го вышибли класса.
Пошли швырять в московские тюрьмы.
В вашем
квартирном
маленьком мирике
для спален растут кучерявые лирики.
Что выищешь в этих болоночьих лириках?!
Меня вот
любить
учили
в Бутырках.
Что мне тоска о Булонском лесе?!
Что мне вздох от видов на море?!
Я вот
в «Бюро похоронных процессий»
влюбился
в глазок 103 камеры.
Глядят ежедневное солнце,
зазнаются.
«Чего, мол, стоют лучёнышки эти?»
А я
за стенного
за желтого зайца
отдал тогда бы — всё на свете.

Мой университет

Французский знаете.
Делите.
Множите.
Склоняете чудно.
Ну и склоняйте!
Скажите —
а с домом спеться
можете?
Язык трамвайский вы понимаете?
Птенец человечий
чуть только вывелся —
за книжки рукой,
за тетрадные дести.
А я обучался азбуке с вывесок,
листая страницы железа и жести.
Землю возьмут,
обкорнав,
ободрав ее,—
учат.
И вся она — с крохотный глобус.
А я
боками учил географию,—
недаром же
наземь
ночёвкой хлопаюсь!
Мутят Иловайских больные вопросы:
— Была ль рыжа борода Барбароссы?—
Пускай!
Не копаюсь в пропыленном вздоре я —
любая в Москве мне известна история!
Берут Добролюбова (чтоб зло ненавидеть),—
фамилья ж против,
скулит родовая.
Я
жирных
с детства привык ненавидеть,
всегда себя
за обед продавая.
Научатся,
сядут —
чтоб нравиться даме,
мыслишки звякают лбёнками медненькими.
А я
говорил
с одними домами.
Одни водокачки мне собеседниками.
Окном слуховым внимательно слушая,
ловили крыши — что брошу в уши я.
А после
о ночи
и друг о друге
трещали,
язык ворочая — флюгер.

Взрослое

У взрослых дела.
В рублях карманы.
Любить?
Пожалуйста!
Рубликов за сто.
А я,
бездомный,
ручищa
в рваный
в карман засунул
и шлялся, глазастый.
Ночь.
Надеваете лучшее платье.
Душой отдыхаете на женах, на вдовах.
Меня
Москва душила в объятьях
кольцом своих бесконечных Садовых.
В сердца,
в часишки
любовницы тикают.
В восторге партнеры любовного ложа.
Столиц сердцебиение дикое
ловил я,
Страстною площадью лёжа.
Враспашку —
сердце почти что снаружи —
себя открываю и солнцу и луже.
Входите страстями!
Любовями влазьте!
Отныне я сердцем править не властен.
У прочих знаю сердца дом я.
Оно в груди — любому известно!
На мне ж
с ума сошла анатомия.
Сплошное сердце —
гудит повсеместно.
О, сколько их,
одних только вёсен,
за 20 лет в распалённого ввалено!
Их груз нерастраченный — просто несносен.
Несносен не так,
для стиха,
а буквально.

Что вышло

Больше чем можно,
больше чем надо —
будто
поэтовым бредом во сне навис —
комок сердечный разросся громадой:
громада любовь,
громада ненависть.
Под ношей
ноги
шагали шатко —
ты знаешь,
я же
ладно слажен,—
и всё же
тащусь сердечным придатком,
плеч подгибая косую сажень.
Взбухаю стихов молоком
— и не вылиться —
некуда, кажется — полнится заново.
Я вытомлен лирикой —
мира кормилица,
гипербола
праобраза Мопассанова.

Зову

Поднял силачом,
понес акробатом.
Как избирателей сзывают на митинг,
как сёла
в пожар
созывают набатом —
я звал:
«А вот оно!
Вот!
Возьмите!»
Когда
такая махина ахала —
не глядя,
пылью,
грязью,
сугробом,—
дамьё
от меня
ракетой шарахалось:
«Нам чтобы поменьше,
нам вроде танго бы…»
Нести не могу —
и несу мою ношу.
Хочу ее бросить —
и знаю,
не брошу!
Распора не сдержат рёбровы дуги.
Грудная клетка трещала с натуги.

Ты

Пришла —
деловито,
за рыком,
за ростом,
взглянув,
разглядела просто мальчика.
Взяла,
отобрала сердце
и просто
пошла играть —
как девочка мячиком.
И каждая —
чудо будто видится —
где дама вкопалась,
а где девица.
«Такого любить?
Да этакий ринется!
Должно, укротительница.
Должно, из зверинца!»
А я ликую.
Нет его —
ига!
От радости себя не помня,
скакал,
индейцем свадебным прыгал,
так было весело,
было легко мне.

Невозможно

Один не смогу —
не снесу рояля
(тем более —
несгораемый шкаф).
А если не шкаф,
не рояль,
то я ли
сердце снес бы, обратно взяв.
Банкиры знают:
«Богаты без края мы.
Карманов не хватит —
кладем в несгораемый».
Любовь
в тебя —
богатством в железо —
запрятал,
хожу
и радуюсь Крезом.
И разве,
если захочется очень,
улыбку возьму,
пол-улыбки
и мельче,
с другими кутя,
протрачу в полночи
рублей пятнадцать лирической мелочи.

Так и со мной

Флоты — и то стекаются в гавани.
Поезд — и то к вокзалу гонит.
Ну а меня к тебе и подавней —
я же люблю!—
тянет и клонит.
Скупой спускается пушкинский рыцарь
подвалом своим любоваться и рыться.
Так я
к тебе возвращаюсь, любимая.
Мое это сердце,
любуюсь моим я.
Домой возвращаетесь радостно.
Грязь вы
с себя соскребаете, бреясь и моясь.
Так я
к тебе возвращаюсь,—
разве,
к тебе идя,
не иду домой я?!
Земных принимает земное лоно.
К конечной мы возвращаемся цели.
Так я
к тебе
тянусь неуклонно,
еле расстались,
развиделись еле.

Вывод

Не смоют любовь
ни ссоры,
ни вёрсты.
Продумана,
выверена,
проверена.
Подъемля торжественно стих строкопёрстый,
клянусь —
люблю
неизменно и верно!

Ноябрь 1921 — февраль 1922