AO TSAR – À PÁSCOA, de Marina Tsvetáieva

Tsar And Son

AO TSAR – À PÁSCOA

dois poemas de “Acampamento de Cisnes”, Marina Tsvetáieva.
Tradução, André Nogueira (2017)
Imagem: tsar Nicolau II e o tsariévitch Alexei (1910).

AO TSAR – À PÁSCOA

Abram, abram alas ao Tsar!
Recua a escuridão da noite.
Acendam velas no altar
E tudo aprontem.
– Cristo há de ressuscitar,
E o tsar que havia ontem!

Caiu sem auréola
A águia bicéfala.
– Tsar! – Não honraste a tarefa.

Nos olhos teus, azuis e traidores
Como dos bizantinos reis,
Hão de fitar teus sucessores,
Pela derradeira vez.

Nos tribunais tua sentença –
Um turbilhão de causar pena.
Tsar! – O povo? – pensas,
Mas é Deus quem te condena!

Enfim chegou a Páscoa
No país por toda parte,
Dorme em paz com
Tua Aldeia* a consolar-te,
Em teu sonho não se hasteiem
Os vermelhos estandartes.

Tsar! – A tua estirpe
Se abriga – no teu sono.
Toma o saco – de mendigo,
Já que extirpam – o teu trono.

Moscou, 2 de abril 1917,
primeiro dia da Páscoa.

     * * *

Pelo menino – o pombinho – o filho do rei,
Pelo jovem tsariévitch Alexei,
Rússia devota, vossos círios acendei!

Pombinhos dois, angelicais,
Como Dmitri de Ivan, Alexei de Nikolai,**
Os olhos deles enxugai.

Rússia, mãe benévola, a criança
Sob o véu de vossa bem-aventurança
Cobrireis, até que as feras se amansem?

Por mais vil que seja o crime de seu pai,
Oh, Rússia pastoril, vós perdoai
O cordeirinho Alexei de Nikolai!

4 de abril 1917
terceiro dia da Páscoa.

 * “Dorme em paz com/ Tua Aldeia a consolar-te…”// Aldeia do Tsar, Tsárskoie Seló, residência da família imperial russa, a 26 km de São Petersburgo. Quando a revolução de 1917 derrubou Nicolau II, então imperador da Rússia, ele e sua família foram feitos prisioneiros, primeiramente, no palácio de Alexandre, situado na Aldeia.
** “Como Dmitri de Ivan, Alexei de Nikolai”// Refere-se a Alexei Nikolaievitch, o tsariévitch, isto é, o príncipe Alexei, filho de Nicolau II. Dmitri, filho de Ivan, foi Dmitri de Uglitch, filho de Ivan, o Terrível, morto aos 10 anos de idade em 1591 na cidade de Uglitch. Marina Tsvetáieva, recorrendo a essa referência histórica, clama pela vida do tsariévitch Alexei, então com 13 anos de idade. Nicolau II, a tsarina Alexandra e seus cinco filhos, Alexei, Anastássia, Maria, Tatiana e Olga, junto com demais parentes e empregados da casa, foram mortos em Ekaterimburg no dia 17 de julho de 1918.

 
Царю — на Пасху

Настежь, настежь Царские врата!
Сгасла, схлынула чернота.
Чистым жаром
Горит алтарь.
— Христос Воскресе,
Вчерашний царь!

Пал без славы
Орёл двуглавый.
— Царь! — Вы были неправы.

Помянет потомство
Ещё не раз —
Византийское вероломство
Ваших ясных глаз.

Ваши судьи —
Гроза и вал!
Царь! Не люди —
Вас Бог взыскал.

Но нынче Пасха
По всей стране,
Спокойно спите
В своём Селе,
Не видьте красных
Знамён во сне.

Царь! — Потомки
И предки — сон.
Есть — котомка,
Коль отнят — трон.

<2 апреля 1917>,
Москва,
первый день Пасхи

* * *

За Отрока — за Голубя — за Сына,
За царевича младого Алексия
Помолись, церковная Россия!

Очи ангельские вытри,
Вспомяни, как пал на плиты
Голубь углицкий — Димитрий.

Ласковая ты, Россия, матерь!
Ах, ужели у тебя не хватит
На него — любовной благодати?

Грех отцовский не карай на сыне.
Сохрани, крестьянская Россия,
Царскосельского ягнёнка — Алексия!

4 апреля 1917,
третий день Пасхи

DIAMBA-SARABAMBA (Konopel-Konopelka), Ivan Novikov

1

IVAN NOVIKOV
(tradução: André Nogueira, nov.-dez. 2016)

DIAMBA-SARABAMBA

(KONOPEL-KONOPELKA)

EDITORA DO ESTADO da URSS, 1926.

2

NOVA BIBLIOTECA INFANTIL
PEQUENA IDADE
…………………………………………………….

IVAN NOVIKOV

DIAMBA-SARABAMBA
(KONOPEL-KONOPELKA)

EM VERSOS

ILUSTRADO POR
P. PAVLINOVA
………………………………………………..

EDITORA DO ESTADO
MOSCOU – 1926 – LENINGRADO

3

1.DIAMBA NO BERÇO

A diamba criança
no berço descansa:
em suave repouso
no solo do chouso.

Os grãozinhos se enfileiram
como sob o travesseiro, –
repousando lado a lado
pelos sulcos do arado.

Quietinha em seu leito
a diamba se deita,
e como tenro cobertor
a terra embala sua flor!

Mas o solo, por si só,
milagre não faz:
tem de amanhecer o sol
e o lavrador regando atrás!

4

2.QUANDO OS OLHOS DELA ABREM

Bem de perto observem
como a natureza é sábia:
quando brota é só um gérmen,
logo os olhos dela abrem…

Libertada da semente
se contorce a raizinha,
o brotinho já rebenta
ainda preso na bainha.

Um tempinho que suceda,
te dobrando de joelhos
sobre a tão verde vereda,
os olhos teus poderão vê-los:

E do chão também te vendo
os verdes olhos se revelam.
Da caçula estão crescendo
à cacheada irmã mais velha.

5

3.ALEGRE PRIMAVERA

A primavera é rápida assim:
um dia antes não havia
construído para si
tão verdejante moradia!

A primavera faz alegre
as campinas e aldeias
onde quer que ela empregue
seus arroios e floreios.

Mas não chegou a obra ao ponto,
por mais bela que rebente…
Toma fôlego e desponta
a diamba adolescente.

Tão bonitos e verdes,
seus cachos crescem e crescem…
Mas a guardada sua flor, vede:
é ainda uma promessa.

6

4.AS PARENTES DA DIAMBA

A diamba também tem parentes:
multiplicam-se no diambeiral!
Mas não são de sua gente
cacheada e fraternal…
São talvez suas sobrinhas,
não exatamente amigas,
mais precisamente ervas daninhas,
as chamadas de urtigas!

De tão venenosa e má,
não se pode com esta laia
a diamba misturar,
como num só mesmo balaio!
Raivosas, com espinhos,
experimente tocá-las e… ai, ai!
Nem serão boas vizinhas,
mas concorrentes desleais!

7

5.A MENINA-SARABAMBA

Menina Kátia tem sardas,
os orelhas rosadinhas,
cabelos ruivos entrançados
como de uma raposinha…
As ovelhas conduzindo aos campos,
quando escapa uma madeixa,
pelos ares vai seu grampo
e tão embaraçada a deixa…

Os pés descalços da menina
de olhinhos meio vesgos,
pastoreando sob a neblina
com os seus cabelos crespos…
Vocês bem já adivinham
como dela vão falar!
Bons apelidos com carinho
poderíamos lhe dar…

Mas não, chegamos tarde!
De nossa amiga já fazem graça:
“A camponesinha de sardas
pelos campos faz fumaça!”…
As crianças com maldade tagarelam
sobre Kátia e a maconha:
“Diamba-sarabamba!”, zombam elas –
como isso fosse uma vergonha!

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9

6.PRIMEIRA LOA DA DIAMBA
(Verão)

Diamba-sarabamba –
de fragrância perfumosa!
Diamba-sarabamba –
de ramagens tão viçosas!
Flor diamba, menina sarabamba:
benditas sejam ambas.

No verão e no outono,
filha humilde da lavoura,
ela dá seu rico aroma
para quem humilde lavra,
como flor de verde ouro
que cresceu entre tratores
e entre cercas de alambre,
numa única palavra:
diamba-sarabamba!

Como há campos de aveia,
a diamba tem seus campos
e eles são paisagens amplas
onde os pássaros gorjeiam,
e os homens que a plantam
têm repletos de esperança
os corações transbordantes
de sentir sua fragrância…

Diamba-sarabamba –
de cheirosa e forte fibra!
Diamba-sarabamba –
ninguém nunca te proíba!
Flor diamba, menina sarabamba:
benditas sejam ambas.

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7.É TEMPO DE FLORIR

Vejam como voa o pardal
de um salgueiro para o outro!
E logo mais todo o quintal
no aguaceiro está envolto.

O verão esquenta mais e mais…
Com vivas cores e fresco âmbar,
há flores e mais flores aonde vais…
Pois flore também, crespa diamba!

Flore, diamba, flore,
com teu verde tão modesto,
brota sob o manto arbóreo,
perfumosa flor agreste!

Na natureza, observa,
há meninos e meninas,
como os frutos desta erva
a duas casas se destinam.

Observa atentamente
da diamba como florem
umas flores com sementes,
outras flores com o pólen…

Enfim o alegre tempo da seara:
em tua palma as flores deitas,
das sementes a pipoca tu preparas…
E se faça bom proveito!

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8. INVENÇÕES

Apelidada de diamba,
sempre atenta, ouve Kátia
o que se diz a seu respeito:
eles julgam, só com base em preconceito,
insinuam, só dislates-disparates
e diamba-sarabamba não aceitam.

As mentiras, deixem eles que as inventem!
Da diamba inventaremos bons proveitos:
ao pilar suas sementes
extraímos bom azeite,
e são melhores vestimentas
com a fibra dela feitas…

Tapam-se os buracos dos paióis
e até casa se constrói
com a matéria da diamba…
E até chicote se faz dela,
arreios, rédeas, selas
e outras cordas nada bambas!

E certa vez um marinheiro
em segredo admitiu:
“Diamba corre o mundo inteiro…”,
e num instante ele sorriu:
“Adiante, como hasteada bandeira,
de cânhamo é a vela do navio!”

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9. A FLOR-MENINO

Estava Kátia ali plantada
à espera da carroça…
A flor menino, estocada,
ficou murcha, macilenta…
– Puxa! – Experimenta!
Eles de novo se alvoroçam…

Entre cotoveladas e sorrisos,
seus irmãos não se continham:
– Para quem a calça? E a camisa?
O chicote e o chicotinho? –
E começou o empurra-empurra:
– Urra! Urra!

Que arteiro esse Greguinho!
Isso, irmão, não é brinquedo!
Essa flor-menina é minha…
Este aqui, eu te concedo:
amassa, asseia este folhedo
e fabrica para ti teu chicotinho!

Greguinho era mesmo um traquinas.
Rosadinhas as bochechas,
lembram, quase, as da menina…
Menos fartas as madeixas.
Mas com olhos tão azuis…
– Da cor do mar! – Ui, ui!

Kátia olhava admirada:
também a flor-menino é útil à beça!
Velas, para que os barcos nadem… –
Nem milagre, nem promessa,
é a puríssima verdade!
O mundo inteiro, se soubesse…

Como os pássaros viajam para o sul,
as plantas também amam o céu azul.
Passarinho, decola!
A plantinha tiraremos da gaiola!
Greguinho estala seu chicote –
Um futuro marinheiro no seu bote.

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10. A BATEÇÃO

Separados os melhores ramos,
o cânhamo no leito ressequiu…
A bateção nós começamos…
E não solta nenhum piu!
Com amor tudo suporte,
e terá vida em vez de morte.

Os grãozinhos, secos e picantes,
nas cabecinhas toc-toc,
em todo canto eles pipocam.
Quantos ramos num só monte!
Mas a poeira que levanta
é ruim demais da conta!

Ajuntem as crianças mais um pouco
e batam, batam com os tocos,
com alegria batam em nós!
E aproveitem nossas sementes,
estourem pipoca e escutem contentes
as histórias de seus avós!

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11.A CAMISA NO RIO

Tu, camisa minha, no fundo do rio!
Tanto que te espero, e até quando?
Só penso, na noite febril:
a diamba no rio afundando!

Como cantam e gargalham,
amarrando, colocando-a na água!
Com uma pedra presa aos galhos,
a diamba naufraga!

Mamãe pediu que eu me console,
vovó explicou para que serve:
precisa ir de molho, até ficar mole!
Verás tua diambinha em breve!

Para isso te batizam,
camisa minha tão esperada?
Que idéia, lavar uma camisa
que sequer foi costurada!

16

12. DIAMBA NO PRENSOR

Outono acinzentou os arvoredos
e a diamba já está encharcada:
pela manhã bem cedo
retiraram ela da água.

Bem, agora o trabalho é rápido:
a diamba secar e prensar.
E como a fibra está um trapo!
Sarabamba sarará…

Primeiro no prensor tu a colocas
e começas a pular sobre a alavanca…
Em seguida, numa roca,
um belo tufo tu arrancas!

Sobretudo é preciso rapidez…
Mas no prensor não tem segredo:
Sacode tudo de uma vez!
E cuidado com o dedo!

Vê como eles prensam e prensam –
E a diamba, quietinha, lá embaixo…
Eu sento com vovó em silêncio
e penteio os amados cachos!

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13. ESPADELAR E PENTEAR

Não gosto muito da espadela:
como sacodem e sacodem a diamba!
Rolam pelos cantos tufos dela
enquanto a lâmina esculhamba.

Mas eu amo pentear seus cachos…
Desemaranho e desemaranho,
e já mais sedosa se acha
minha futura camisa de cânhamo.

Para tascar, as espadelas,
para pentear, os pentes,
como dando a uma donzela
um penteado diferente…

Emaranhados os seus ramos
no prensor que estalavam…
Agora na mão a pegamos –
suave, suave…

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14. FRIO E NEVE

Com o inverno cai a neve
e o vento logo se enerva:
No telhado alguém que chora?
A nogueira de frio agoniza?
Deixem o vento brincar lá fora,
não vão congelar os narizes!

É hora de o tempo livre
aproveitar com um bom livro…
Kátia, debruçada sobre as figuras,
sem saber ainda as letras, memoriza,
prediletos da gaveta, os de aventura
sobre outros mares e países…

Com o alfinete vovô trabalha
trançando uma sandália…
pensas, com fio de palha?
Sobre as águas e cordas-bambas,
por quais bandas tanto andas,
sandalinha sarabamba?

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15. SEGUNDA LOA DA DIAMBA
 (Inverno)

Diamba-sarabamba –
de vida sofrida!
Diamba-sarabamba –
de bonito penteado!
Quando tornares-te tecido,
estará tudo perdoado!

Inverno cruel, –
as nuvens formam uma cortina
que encobre todo o céu
enquanto afora murmurinham
os teus ventos prepotentes!
Mas divertem-se os meninos
com mãos cheias de sementes
que saltitam, como fossem joaninhas,
e estalam entre os dentes!

Vovó coroca
de cócoras se aninha,
a seu lado uma cumbuca de pipoca,
e num novelo enrola as linhas
que começam a silvar:
tu diamba, diambinha,
sarabamba saravá!

Flor diamba, menina sarabamba –
benditas sejam ambas!

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16. A MÁQUINA ASSIM VIBRA

Os pássaros já fazem pilhéria,
o degelo a tudo encharca,
outra vez é primavera
e mamãe montou a máquina.

Vem chegando a roupa nova!
Mamãe pôs a urdidura,
e como fosse dura prova
vibra a máquina de costura!

A diamba novamente se emaranha,
enquanto a máquina assim vibra,
talvez não teia de aranha,
mas tecido, fibra a fibra!

E tudo sem despentear,
tece, tece sem parar, maquinaria…
Uma mosca que grudasse no tear
decerto não escaparia…

Depressa, pombinha! Ainda faz frio
e é preciso agasalhar o meu nariz!
E venha o tempo bom primaveril
iluminar nosso país!

21

17.  TERCEIRA LOA DA DIAMBA
(Primavera)

A diamba no quintal
acordou de uma soneca, –
como os tecidos no varal
sob o solzinho ela seca.
Seu verde, só, descoloriu
com o todo-poderoso frio…

Ah, a primavera vem chegando!
E além da neve e do gelo,
a diamba e seus cabelos
ao redor vão gotejando e estalando!
E nossa gente tem no rosto
um sorriso de dar gosto
de prazer desabrochando,
como quando no paiol
sob um raiozinho de sol
ouves o canto da calhandra.

Vamos, meninos, em fileira!
Vamos, meninas, dançar uma mazurca!
Eles saltam para perto da lareira
e batucam nas cumbucas.
Pés no chão, mãos na cintura!
Um salto à frente, um giro em torno!
E os sorrisos que fulguram
como a diamba no forno.

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18. TESOURAS E FIOS

Mamãe colocou tudo sobre a mesa,
separando os tecidos um por um,
e se pôs a cortar com destreza
a tesoura: zum-zum!

É de cair o queixo:
também os fios vêm dessa safra!
E pensar que são as mesmas as madeixas
cujo azeite está servido na garrafa…

Às agulhas! Não preciso nem falar.
Por toda a casa, como andorinhas
costuramos, para lá e para cá,
e para o tanque à tardezinha…

Agora todos na aldeia têm camisa:
Kátia sarabambinha
e a vesguinha Lisa,
o irmão Paulinho
e Dária moleca,
e também o careca
vovô Aluízio,
uma xale para a corcova
de vovó Praskóvia,
sandálias para as descalças
Natália e Eduarda,
e ainda costuraram calças
para o Greguinho de sardas.

Esse verão Greguinho vai pastorear,
os rebanhos conduzir às campinas…
“E algum dia, para o mar!”,
o chicote rasgou a neblina.

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19. GREGUINHO PASTOR

Abril já passou, tu mesmo vês:
há diambas novinhas por onde fores.
A primavera trabalhou mais uma vez
e foi embora deixando as flores…

E entrando em maio tu verás
como as ovelhas conduzindo pelos campos
e perdendo no caminho os seus grampos
Kátia vai, Greguinho atrás.

De camisa nova, o novo pastor
e futuro marinheiro, –
basta à Kátia ele propôr
alguma nova brincadeira.

E nas mãos os seu chicote:
Pastor! – E tenho dito!
E com estalos cada vez mais fortes
por dez vezes se repita!

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20. A DIAMBA E A CORDA

Penteados e lavados seus cabelos,
sopra o vento, eles dançam.
Se alguém pensar torcê-los,
eis a mais bela das tranças.

A diamba nos bazares vai à venda,
as cordas para as tarefas difíceis,
o chicote pelos ares socorrendo
o cavaleiro em seu ofício.

Não se vive nem um dia sem diamba
e sem as cordas de seus cachos…
Um dia no campo descamba,
sem ela, barranco abaixo!

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21. POR TODA A PARTE A DIAMBA ESTÁ

Kátia foi ao monte
sem levar o seu rebanho,
olhou ao longe o horizonte…
Há algo estranho…

Derramando seu calor
por toda a terra e todo o mar,
o sol está para se pôr  –
e Kátia… pronta a navegar!

E onde houver terra
a diamba está,
e sarabamba se encerra
onde houver mar…

Só uma história, ou o futuro?
Assim, sem nenhum aviso
a aldeia inteira flutua
bem diante de nossos narizes!

E onde vemos Kátia,
na verdade, é uma sereia!
E no barco da pátria
está Greguinho, o marinheiro!

O mar com suas ondas se alegrou,
a vela se ergueu alto no mastro
e o barquinho, como um grou,
no horizonte se afasta…

E a terra toda redonda
floresceu como a diamba!
E a saudou o sol se pondo:
salve, salve, sarabamba!

33

SEPARAÇÃO, de Marina Tsvetáieva

efron-tsv

 

SEPARAÇÃO

Poema de Marina Tsvetáieva (1892 – 1941).
Dedicado a Serguei Efron (8 de outubro 1893 – 16 de outubro 1941)
Tradução de André Nogueira, set. 2016.
Imagem, ver nota ao final do poema.

Separação

(Marina Tsvetáieva)

para Serioja *

1
     
Guerra de torres
Longe no Kremlin.
Onde na terra,
Onde –

Solidez minha,
Placidez minha,
Intrepidez minha,
Piedade de mim?

Guerra de torres.
Guerra sem fim.
Onde na terra –
Minha
Casa,
Minha – graça,
Minha – alvorada,
Onde a pegada
De sola apertada,
Onde – meu sono?

Caída por terra
À noite esta guerra
Com os braços desmorono.

– Oh, não me abandones!

maio 1921

2

Como de um longo desmaio
Ergo meus braços.
Pelo buraco negro da janela
Contra a batalha da meia-noite
Inúteis braços que duelam.
Com apelos de socorro o atraio
Para casa. – E ei-lo: a cabeça que cai
Da torre! – Para casa!

Estende da batalha
Para mim, não para o cascalho
Da praça, soldado raso,
O rasante de tua asa.

maio 1921

3

Tudo torcido, tudo torcido
Como os braços sem amparo.
Entre nós não são terrestres
Estas verstas que nos separam,
Celestes rios, terras anil,
O inalienável bem-querer de toda a vida –
Por qual via que partiu?

Em prateados arreios
Pela estrada real ele voou.
Meus braços não despedaçam!
Arrastei-os
– Sem um piu! –,
Finquei meus pulsos
Como uma árvore para o impulso
De uma ave que migrou.

Voa, amado grou,
Voa, sumindo de vista.
Não abro mão do meu prumo:
Bem me visto para uma morte
Rápida como suas plumas douradas
E equilibro-me no último suporte
Meio às vastidões devastadas.

junho 1921

4

Cortada, como oliva madura,
A cabeceira da cama.
O divino ciúme
Sobre a paixão humana.

Cada murmúrio para os deuses
É rezado bem baixinho.
Toda a idade em flor perdeu-se,
Além de ti, pelo caminho.

A primaveril luxúria
A todos eles enfurece.
O céu te viu algures,
Pois redobra tuas preces.

=========

Acreditas – que as vozes
De tão glorioso cobre
E os sinais dos albatrozes
Tua rota manobram

Do penhasco à emboscada –
Com o peito na lança?
Que a onda sublevada
– Acreditas – te alcança?

Que os aguilhões da floresta
– Crês? – te vão cravar?
Maior que toda peste
É a piedade do tzar!

A gota fermenta
De teu pranto na terra.
Não temas a gente
Terrena, – misérrima!

Como antigamente,
Milhares de olhos a vê-lo.
Preso ao divino pente
Cada fio de cabelo.

Não temas de Zeus
A abóbada oca
Do insaciável céu
Do coração da boca.

12 de junho 1921

5

De mansinho
Com a débil mão franzina
Desemaranharei os caminhos:
Das mãos minhas – aos relinchos teus,
Amazona obediente, murmurinho
Pelos díssonos degraus do derradeiríssimo adeus.

Relinchas e escoicinhas,
Meu alado, no caminho
Iluminado. – No olhar uma alvorada.
Dai-me as mãozinhas, as mãozinhas! –
Inútil alarido tu repetes.
Entre nós – a prestes queda d’ água do Letes.

14 de junho 1921

6

Cabelos brancos não verás
Em mim, nem eu em ti.
Sem que olhes para trás
Tu nem saudades vais sentir.

Diante de tua desgraça
Este pranto me escapa:
– Sacode o braço!
Deixa cair a capa!

Sob os olhos frios
De um camafeu de dura pedra,
Como as mães esperam a cria,
Desta porta não arredo.

(Com o peso do sangue, a aridez
Dos joelhos, a retesa tez –
Pela derradeiríssima terrestre
Vez!)

Não como furtivo e articulado animal, –
Não, como sólido bloco
Passarei por esta porta –
Esta vida. – Afinal,
Eu só em lágrimas derroco,
Uma vez que tuas costas
São de pedra mais polida.

De repente, já não és pedra!
Mas como a larga asa da águia –
A capa largada e esta queda
Pelo abismo da ilharga
Para o luzeiro da cidade
Onde busco minha cria
E pela maternidade
Não sorrio.

15 de junho 1921

7

Como um broto no cepo
Te afloras.
Que não te perceba
Zeus. –
Implora!

Tua flor germine
Devagar e com cuidado.
Teu encanto masculino
É por eles invejado.

Os maxilares hiantes
E o chamado deles…
A invejar o teu encanto –
Um ninho de deuses.

Te atraem à peleja
Com louros e glórias.
Que não te eleja
Zeus. –
Implora!

As asas da águia
No céu em estrondo.
Teu grito propaga –
Que não te escondas!

Com sangue no bico
Te pinçou o raptor!
Cordeirinho nanico,
Deixa cair – o amor…

Com o peito cabeludo –
Beija o chão!
E implora ajuda…
Zeus,
Compaixão!

16 de junho 1921

8

Eu sei, eu sei,
Que nessa terra nosso amado,
Que esse cálice encantado,
É menos nosso
Do que deles –
Dos caminhos,
Das estrelas
E dos ninhos
Pendurados na encarnada.

Eu sei, eu sei
Quem é o dono desse cálice!
Como a altura da águia roçasse-a
A torre de meu braço para o céu,
Esse cálice eu sei como bebeu
A terrível e rosácea
Boca de Deus!

17 de junho 1921

~// ~

* Na foto, o casamento de Marina Tsvetáieva com Serguei Efron em 1911. Serioja, como se lê na dedicatória de ‘Separação’, trata-se de uma forma diminutiva e carinhosa do nome Serguei. Com a derrubada do governo provisório de A. Kerensky pelo Exército Vermelho em outubro de 1917, Efron alistou-se nas fileiras do Exército Branco, que resistiu contra a revolução em guerra civil. Entre os anos de 1920 e 1921, os voluntários Brancos foram derrotados em suas diversas frentes. Estes poemas foram escritos por Tsvetáieva em Moscou entre maio e junho de 1921, quando havia quatro anos de sua separação, sem notícias de Efron, se vivo ou morto. Um período de atribulações para a poeta, sozinha com as duas filhas do casal, além de exposta à guerra e suas privações. Em 1919 a família passava fome, e obrigada a entregar as filhas ao orfanato, Tsvetáieva perdeu a mais nova, Irina, por desnutrição. Além de longos poemas consagrados à batalha do Exército Branco, Tsvetáieva dedicou neste tempo poemas a Efron, um dos quais é o ciclo ‘Separação’. No mês seguinte, julho de 1921, a poeta receberá a notícia de que seu esposo está vivo, em Praga. Marina Tsvetáieva e sua filha, Ariadna, deixarão a Rússia quase um ano depois, em maio de 1922, para ir a seu encontro.

Nesta publicação de hoje lembramos a pessoa de Serguei Efron e seu amor com Marina Tsvetáieva. Conhecida por seu trágico desenlace, a história de ambos culminou em mais um gesto de dedicação da poeta, ao seguir Serioja desta vez de volta para a Rússia, isto é, para a União Soviética, em 1939, possivelmente sabendo como isso resultaria em sua morte. Estabelecido em Paris com a família, Efron convertera-se em agente secreto e trabalhara, sem o conhecimento da esposa, para a NKVD, a polícia soviética infiltrada entre os emigrados “brancos”. Seu nome fora implicado no assassinato de Ignace Reiss, ex-colaborador da NKVD, e Efron saiu foragido em um navio soviético em 1937, novamente deixando desamparada Tsvetáieva. Para ela se fecham todas as portas em Paris. Conseguirá embarcar, dois anos depois, para a Rússia, mas já não encontrará Efron, detido por acusação de traição. Ariadna, também detida, passará oito anos na prisão. Antes de fuzilado em 16 de outubro de 1941, Efron sob tortura recusou-se terminantemente a delatar o nome de Tsvetáieva, afirmando sempre que esta “por toda a sua vida só fez escrever poemas e prosa”. Nos relatórios da NKVD, lê-se a seguinte observação de seus torturadores: “Internado a partir do dia 7 de novembro de 1939 no setor psiquiátrico da prisão de Butýrki, devido a alucinações reativas agudas e uma tentativa de suicídio. No momento, sofre de alucinações auditivas, pensa que escuta falar dele pelos corredores, que sua mulher morreu, que ele ouve o título de um poema conhecido apenas por ele e sua mulher etc. Apresenta-se ansioso e pensa em suicídio. Sente-se oprimido, assustado, como quem aguarda alguma coisa de horrível” (em ‘Vivendo sob o Fogo’, ed. Martins Fontes, 2008, pág. 705). Como se sabe, seu pressentimento acerca de Marina Tsvetáieva se realizou, da pior forma, em 31 de agosto de 1941.

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РАЗЛУКА

Марина Цветaева

Сереже


1

Башенный бой
Где-то в Кремле.
Где на земле,
Где –

Крепость моя,
Кротость моя,
Доблесть моя,
Святость моя.

Башенный бой.
Брошенный бой.
Где на земле –
Мой
Дом,
Мой – сон,
Мой – смех,
Мой – свет,
Узких подошв – след.

Точно рукой
Сброшенный в ночь –
Бой.

– Брошенный мой!

Май 1921

2

Уроненные так давно
Вздымаю руки.
В пустое черное окно
Пустые руки
Бросаю в полуночный бой
Часов, – домой
Хочу! – Вот так: вниз головой
– С башни! – Домой!

Не о булыжник площадной:
В шепот и шелест…
Мне некий Воин молодой
Крыло подстелет.

Май 1921

3

Всё круче, всё круче
Заламывать руки!
Меж нами не версты
Земные, – разлуки
Небесные реки, лазурные земли,
Где Друг мой навеки уже –
Неотъемлем.

Стремит столбовая
В серебряных сбруях.
Я рук не ломаю!
Я только тяну их
– Без звука! –
Как дерево-машет-рябина
В разлуку,
Во след журавлиному клину.

Стремит журавлиный,
Стремит безоглядно.
Я спеси не сбавлю!
Я в смерти – нарядной
Пребуду – твоей быстроте златоперой
Последней опорой
В потерях простора!

Июнь 1921

4

Смуглой оливой
Скрой изголовье.
Боги ревнивы
К смертной любови.

Каждый им шелест
Внятен и шорох.
Знай, не тебе лишь
Юноша дорог.

Роскошью майской
Кто-то разгневан.
Остерегайся
Зоркого неба.

=======

Думаешь – скалы
Манят, утесы,
Думаешь, славы
Медноголосый

Зов его – в гущу,
Грудью на копья?
Вал восстающий
– Думаешь – топит?

Дольнее жало
– Веришь – вонзилось?
Пуще опалы –
Царская милость!

Плачешь, что поздно
Бродит в низинах.
Не земнородных
Бойся, – незримых!

Каждый им волос
Ведом на гребне.
Тысячеоки
Боги, как древле.

Бойся не тины, –
Тверди небесной!
Ненасытимо –
Сердце Зевеса!

25 июня 1921

5

Тихонько
Рукой осторожной и тонкой
Распутаю путы:
Ручонки – и ржанью
Послушная, зашелестит амазонка
По звонким, пустым ступеням расставанья.

Топочет и ржет
В осиянном пролете
Крылатый. – В глаза – полыханье рассвета.
Ручонки, ручонки!
Напрасно зовете:
Меж ними – струистая лестница Леты.

27 июня 1921

6

Седой – не увидишь,
Большим – не увижу.
Из глаз неподвижных
Слезинки не выжмешь.

На всю твою муку,
Раззор – плач:
– Брось руку!
Оставь плащ!

В бесстрастии
Каменноокой камеи,
В дверях не помедлю,
Как матери медлят:

(Всей тяжестью крови,
Колен, глаз –
В последний земной
Раз!)

Не крадущимся перешибленным зверем, –
Нет, каменной глыбою
Выйду из двери –
Из жизни. – О чем же
Слезам течь,
Раз – камень с твоих
Плеч!

Не камень! – Уже
Широтою орлиною –
Плащ! – и уже по лазурным стремнинам
В тот град осиянный,
Куда – взять
Не смеет дитя
Мать.

28 июня 1921

7

Ростком серебряным
Рванулся ввысь.
Чтоб не узрел его
Зевес –
Молись!

При первом шелесте
Страшись и стой.
Ревнивы к прелести
Они мужской.

Звериной челюсти
Страшней – их зов.
Ревниво к прелести
Гнездо богов.

Цветами, лаврами
Заманят ввысь.
Чтоб не избрал его
Зевес –
Молись!

Все небо в грохоте
Орлиных крыл.
Всей грудью грохайся –
Чтоб не сокрыл.

В орлином грохоте
– О клюв! О кровь! –
Ягненок крохотный
Повис – Любовь…

Простоволосая,
Всей грудью – ниц…
Чтоб не вознес его
Зевес –
Молись!

29 июня 1921

8

Я знаю, я знаю,
Что прелесть земная,
Что эта резная,
Прелестная чаша –
Не более наша,
Чем воздух,
Чем звезды,
Чем гнезда,
Повисшие в зорях.

Я знаю, я знаю,
Кто чаше – хозяин!
Но легкую ногу вперед – башней
В орлиную высь!
И крылом – чашу
От грозных и розовых уст –
Бога!

30 июня 1921

 

 

 

 

PREFÁCIO PARA A EDIÇÃO COMPLETA DAS MINHAS OBRAS, de Dmitri Shostakóvich.

Shostakovich
Dmitri Shostakovich (1906 – 1975).

PREFÁCIO PARA A EDIÇÃO COMPLETA DAS MINHAS OBRAS E UMA BREVE CONSIDERAÇÃO A PROPÓSITO DE TAL PREFÁCIO  *

Peça para baixo e piano, 1966, op.123.
Epigrama de Alexander Púchkin.
Texto e música de Dmitri Shostakóvich.
Tradução a partir do russo, André Nogueira,
25 de setembro de 2016, em homenagem aos 110 anos do compositor.
Obs.: acompanha vídeo com execução da peça, excertos explicativos de bibliografia existente e textos originais em língua russa. Inclui nossa tradução a partir do inglês de trecho do livro “Shostakovich, a Life”, de Laurel E. Fay.

Prefácio para a Edição Completa das Minhas Obras e uma Breve Consideração a Propósito de tal Prefácio:

 “Com um único espirro eu sujo o papel.
 Com a orelha costumeira escuto o escarcéu.
 Do mundo inteiro eu torturo seus ouvidos.
 Depois publico e – bum! – sou esquecido.”

Este prefácio poderia ter sido escrito
não somente para a edição completa das minhas obras,
senão também para a edição completa das obras
de muitos, muitos outros compositores,
tanto soviéticos como estrangeiros.
E eis a assinatura: Dmitri Shostakóvich.
Artista do Povo da URSS,
um grande número de títulos honorários,
Primeiro-Secretário da União dos Compositores da RSFSR,
simplesmente Secretário da União dos Compositores da URSS,
assim como vários outros cargos
e posições extremamente respeitáveis.

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CLIQUE AQUI PARA OUVIR A PEÇA MUSICAL

* Fazemos acompanhar em citação um excerto do livro “Shostakóvich: Vida, Música, Tempo”, de Lauro Machado Coelho (Ed. Perspectiva, 2006, págs. 372-373):

<< Em 28 de maio de 1966, Shostakóvich participou, pela última vez como pianista, de um concerto dedicado às suas obras. Acompanhou Galina Vishniévskaia e Ievgueni Nesterenko numa série de ciclo de canções, que incluíam duas estréias. Transcrevera para soprano as ‘Canções Judaicas’, para que Galina pudesse cantá-las. Nesterenko fez as ‘Romanças sobre Poemas Ingleses’. Para ele, também, Shostakóvich escrevera o texto e a música de uma canção satírica, ‘Prefácio à Edição Completa de Minhas Obras […]’. Os irônicos comentários à sua obra e funções oficiais – para os quais Shostakóvich inspira-se em um epigrama de Púchkin chamado ‘A História de um Versificador’ – são um belo exemplo de autoparódia. Nesterenko estava tão nervoso, que perdeu a sua entrada. Dmitri recomeçou e, mais uma vez, o cantor perdeu a entrada. Só na terceira vez conseguiu acertar… Nesterenko não foi o único a estar nervoso. Em sua biografia, Vishniévskaia conta que, nos ensaios, Dmitri estava apavorado, devido ao problema nos músculos das mãos, a ponto de cometer, três vezes seguidas, o mesmo erro na execução do soneto LXVI, de Shakespeare. No recital, apesar de estar em pânico, tudo correu maravilhosamente, o que o deixou excitadíssimo… Horas depois, porém, sofreu um enfarto, e tiveram de hospitalizá-lo novamente. Ao receber alta, foi mandado para um sanatório em Mielnítchnyi Rutchiei, perto de Leningrado, onde, por coincidência, o puseram no mesmo quarto que, no passado, costumava ser ocupado por Andrei Jdanov (1) >>.

(1) (nota do trad.) Andrei Jdanov, político influente no Partido Comunista da União Soviética, um dos protagonistas no cenário de perseguições e censuras que, na época de Stálin, atormentou Shostakóvich como a muitos outros artistas do país. As diretrizes que regiam a fiscalização das obras artísticas ficaram conhecidas como “jdanovismo”, e os longos anos de seu vigor, como “jdanovtchina”, isto é, a “era Jdanov”. Depois de sua morte em 1948, ou melhor, depois da morte de Joseph Stálin em 1953, com as denúncias dos crimes políticos destes, iniciou-se um processo gradual de “des-jdanovização”. No universo da música, tal processo passou pelo encerramento da União dos Compositores da URSS e criação de uma União dos Compositores da RSFSR (República Socialista Federativa Soviética Russa), em 1960.

Compreende-se melhor a ironia deste Prefácio, bem como a natureza do nervosismo sentido na estréia da peça, em vista das ambigüidades que cercaram a atuação de Shostakóvich na política institucional da União Soviética, a partir da relativa abertura no fim da década de 50, com sua gradual participação na União dos Compositores da URSS, na criação da União dos Compositores da RSFSR, e culminando no seu polêmico ingresso ao Partido Comunista em 1960, então sob governo de Nikita Khrushtchióv. Para efeitos de contextualização, citamos aqui primeiramente um trecho do mesmo livro acima de L. M. Coelho (págs. 293-299):

<< O processo de libertação dos presos políticos, e da reabilitação das vítimas do terror stalinista… foi lento e laborioso. Em 1956, milhares deles começaram a sair do Gúlag2. ‘Nossa casa virou um hotel para a gente que voltava’, contou Maksím [filho de D. Shostakóvich], referindo-se a todos os libertados a quem Dmitri hospedou e ajudou a recolocar na vida social. Usando o prestígio que seus títulos de deputado da República Russa e de Artista do Povo da URSS lhe conferiam, Shostakóvich empenhou-se na defesa de uma ampla gama de indivíduos, que iam desde a família de Guenrietta Dombróvskaia – deixada na miséria pela execução de seu marido – até a reabilitação de Vsiévolod Meyerkhold…

Foi no domínio das artes que se manifestaram com mais clareza as esperanças de que estivesse a caminho um processo de democratização. Morto Stálin, desapareceu a necessidade de produzir, em série, documentários históricos como ‘A Queda de Berlin’. Um novo capítulo na história do cinema soviético se abre com filmes como ‘Quando Voam as Cegonhas’, de Mikhail Kalatózov, premiado em Cannes em 1958 […] Livros por muito tempo engavetados começaram a vir a lume; as montagens do ‘Sovriemiennikh Teatr’ (Teatro Contemporâneo), de Moscou, provocaram debates; o conselho de Ministros criou uma Comissão Nacional de Intercâmbios Culturais com o exterior; poetas que há tempos estavam no desvio – Yevgueni Yevtuchenko, Andrei Vinokhúrov, Andrei Vozniessiénski, Bulát Okudjáva, ou o veterano Nikolai Zabolótski – puderam voltar a publicar […]

Essas mudanças bruscas não eram de todo aprovadas por Khrushtchióv. Numa reunião em meados de 1957 com diversos intelectuais, ele se opôs violentamente às idéias literárias mais audaciosas. E tratou brutalmente a poeta Margarita Aliguér, que reclamava contra o fechamento do anuário ‘Literatúrnaia Moskvá’. Apesar de seus modos bruscos, Khrushtchióv desfrutava de certa popularidade nos meios artísticos. Entre os que o apoiavam, estava Anna Akhmátova, grata a ele por ter ordenado a libertação de seu filho, Liév Gumilióv, preso desde antes da II Guerra Mundial. Isso não impediu que se desencadeasse, em 1958, uma campanha sem precedentes contra o poeta Boris Pasternak. […] Apesar da prisão de sua amante, Olga Ivínskaia,… no inverno de 1945 Pasternak começou a escrever a que haveria de considerar sua obra mais importante: o romance ‘Dr. Jivago’, vasto panorama das atribulações da intelectualidade russa sob a Revolução e o stalinismo… Recusado por todos os editores soviéticos, o romance foi contrabandeado para o exterior e publicado na Itália em novembro de 1957, já em plena era Khrushtchióv. Como o sucesso imediato do livro não foi muito grande, a imprensa soviética conseguiu silenciar o escândalo por algum tempo. No ano seguinte, quando Pasternak tornou-se o primeiro escritor soviético a ganhar o Prêmio Nobel e o livro foi traduzido em todas as línguas do mundo, o Pravda publicou um longo artigo de David Ióssifovich Zaslávski intitulado ‘As Vociferações da Propaganda Reacionária a Propósito de uma Erva Daninha Literária’. Embora ninguém tivesse lido uma só palavra do romance na URSS, os jornais foram inundados de manifestações ‘espontâneas’ dos leitores, pedindo para o escritor a mais dura das punições. Em outubro, uma sessão especial da União dos Escritores condenou Pasternak por ‘cuspir na cara do povo’… e Alexander Biezymiênski… pedira sua deportação: “Arranquemos a erva daninha pela raiz!”. Obrigado a recusar o Nobel, traído por muitos de seus colegas escritores, Pasternak morreu sozinho e amargurado, em maio de 1960…

Na música, o processo de degelo foi ainda mais laborioso. O artigo de Khrénnikov, no primeiro número da ‘Soviétskaia Muzika’ de 1957, preparando o II Congresso da União dos Compositores… esmerava-se em dar uma no cravo outra na ferradura: “O principal erro da secretaria da União dos Compositores foi freqüentemente ter adotado posições dogmáticas na luta contra o formalismo, atribuindo esse conceito a obras… que não o mereciam. Ouvimos recentemente, depois de muito tempo, a Oitava Sinfonia de Shostakóvich que, ao lado de muita coisa criticável, tem numerosas passagens artisticamente fortes e impressionantes… A experiência demonstra que a classificação da Oitava… no grupo das obras formalistas foi errônea e sem fundamento”.

O II Congresso da União dos Compositores [da URSS], iniciado em 23 de março [1957], recenseou as obras escritas entre 1946-1956, fez o balanço da criação musical soviética e apontou os rumos a seguir. Assim como Jdanov no I Congresso [19-25 de abril de 1948], a figura central aqui foi Dmitri Shepílov, representando o Partido. Surpreendendo os liberais, Khrénnikov defendeu os princípios do Realismo Socialista, atacando violentamente o chamado ‘Outono de Varsóvia’: a decisão dos músicos poloneses de romper com essas diretrizes… Krzysztof Penderecki, Witold Lutoslawski, Grazyna Bacewicz… O dogmatismo de Khrénnikov, partidário do respeito à resolução de 1948, não o impediu de ser re-eleito secretário-geral [da União dos Compositores da URSS]… Apesar das conclusões indefinidas e insatisfatórias do II Congresso, pareceu animadora a atitude do Partido que, em fevereiro de 1958, emitiu uma resolução sobre “os erros cometidos na avaliação de ‘Grande Amizade’, de Muradélli, do ‘Bagdán Khmielnítski’, de Konstantin Dankiévitch, e ‘Do fundo do meu Coração’, de Guerman Jukóvski”. Embora afirmando que a resolução de 1948 “desempenhara papel positivo no desenvolvimento de conjunto da música soviética”, essa nova resolução admitia que “o julgamento da obra de determinados compositores foi, muitas vezes, infundado e injusto” (o camarada Shostakóvich era mencionado nesse contexto, juntamente com Prokófiev, Khatchatúrian, Shebalín, Popóv e Miaskóvski): “A obra desses compositores, que apresentava algumas tendências equivocadas, foi globalmente denunciada… Algumas avaliações injustificadas, contidas na resolução de então, eram resultado das opiniões subjetivas de I. V. Stálin a respeito de certas obras de arte e da criação de determinados artistas”…

O Concurso Internacional Tchaikóvski, de interpretação, acabara de ser criado, e a presidência do júri fora confiada a Shostakóvich, grande pianista e maior compositor soviético vivo, detentor do Prêmio Lênin. Ora, aos olhos da comunidade internacional, essa honraria não poderia ser concedida a um artista oficialmente colocado no índex, como inimigo do povo. Era, portanto, necessário reincorporá-lo à máquina de propaganda cultural do Estado. Por isso foi ele, e não Khrénnikov, o escolhido para pronunciar, durante a recepção oferecida no Krêmlin, em 8 de fevereiro de 1958, o discurso – preparado por outros – em que fazia um brinde à nova liderança partidária – cerimônia que, na realidade, preparou o terreno para a recisão parcial da resolução de 1948, no Congresso de março. Da mesma forma, o governo o mandaria aos Estados Unidos, em 1959, como parte da delegação liderada por seu arqui-inimigo Khrénnikov. Descrito pela ‘Musical America’ como “um homem nervoso, de olhos brilhantes e mãos inquietas, que fuma sem parar”, as suas cautelosas declarações, bem ensaiadas, confirmariam a impressão que se tinha, no Ocidente, de que ele se convertera em um comunista ortodoxo >>

2 (nota do trad.) Gúlag, complexo penitenciário na Sibéria destinado a presos políticos oriundos de toda a URSS, em operação de 1930 a 1956. Para o momento, dispensamos maiores apresentações. Vale consulta ao livro de Alexander Soljenítsin, “O Arquipélago Gúlag” (Círculo do Livro, 1975).

Sobre o ingresso de Shostakóvich para o Partido Comunista em 1960, citamos trecho do livro de Laurel E. Fay, “Shostakóvich, a Life” (Oxford University Press, 2000, págs. 216-219, nossa tradução do inglês):

<< A realização artística de Shostakóvich foi ofuscada pela sua nova atuação como servidor público. Na primeira semana de abril de 1960, o Primeiro Congresso de Compositores da Federação Russa (RSFSR) teve lugar em Moscou. Apesar de estabelecer formalmente a União dos Compositores no nível da república, a sua comissão organizadora operava desde 1958 e patrocinou plenárias oficiais. Enquanto isso, a organização dos compositores da cidade de Moscou foi criada em 1959. Destaque para o Primeiro Congresso Constituinte, incluindo uma recepção no teatro do Krêmlin com a participação de líderes soviéticos e do corpo diplomático, começando com uma performance de ‘O Sol Brilha sobre a Pátria Mãe’ [opus 90 de D. Shostakóvich]. Em 9 de abril de 1960, Shostakóvich foi eleito primeiro-secretário, convocado para a mais elevada posição de liderança da recém-fundada União. Em 30 de abril, dele foi uma das saudações para a nação por ocasião do 1º de Maio, publicada no Pravda: “Estamos alcançando o comunismo. Louvar a mais justa sociedade humana na história é uma digna missão e satisfação para os compositores… Neste 1º de Maio de 1960 eu verdadeiramente ouço a música do comunismo. E, olhando para frente, gostaria de convidar todos os compositores soviéticos, meus caros amigos, para um trabalho ainda mais intenso e um novo sucesso criativo. Avante amigos, rumo ao comunismo!”. Na vida privada, contudo, Shostakóvich se mostrou freqüentemente mais cínico a respeito das aspirações e promessas do comunismo. Assim ele contradisse, numa conversa em 1956 com Flora Litvínova, a convicção desta de que o compositor compartilharia das sua idéias de comunismo: “Não, o comunismo é impossível!”.

Sua imprevista entrada como membro no Partido Comunista em 1960… resultou um dos mais enigmáticos episódios de sua biografia. No fim de junho de 1960, Shostakóvich se encontrava em Leningrado, onde sofreu um colapso nervoso, provocado pela iminência da convocatória que o levaria a Moscou para efetuar sua iniciação como membro do Partido. As versões contadas por Glikman e Lebedinski – que testemunharam sua crise – são contraditórias. Segundo relata Glikman, a decisão de Khrushtchióv em fazer de Shostakóvich a cabeça da recém-fundada União dos Compositores da Federação Russa implicou no requerimento de sua filiação ao Partido. À honraria oferecida por um presidente do Comitê Central, delegado a recrutá-lo, o compositor se manteve resistente, e manobrou a situação o quanto possível antes de consentir. Já Lebedinski, ele mesmo um membro do Partido desde 1919, defende que não houve um grande plano para recrutar Shostakóvich, que a pressão para aderir proveio de um escalão mais baixo de funcionários… Ele observou que Shostakóvich não chegou a dizer o nome de quem o forçara a assinar a inscrição, mas lhe deu a entender, envergonhado, que a tanto sucumbiu sob a influência do álcool…

Tal acontecimento foi mistificado por vários colegas e amigos de Shostakóvich. E deixou muitos intelectuais desapontados. Alguns cogitam seriamente a possibilidade de que a partir daquele momento pendia, sobre Shostakóvich e sua família, a espada de Dâmocles, o que sem dúvida seria o caso na era de Stálin. É verdade que, para melhorar a imagem do Partido Comunista sob governo de Khrushtchióv, houve uma campanha para recrutar às suas fileiras sangue novo da inteligentzia… Que houve algum grau de coerção, é evidente. Mais comumente compreende-se o consentimento de Shostakóvich como um produto do pavor crônico, o terror que deformou toda a sua vida. >>

A nova fase não poria fim às sanções sofridas por Shostakóvich por meio da censura partidária. Mesmo com a relativa liberdade dos anos 60 – notável nos ciclos de canções compostas sobre poemas de Marina Tsvetáieva, Alexander Blok, Yevgueni Yevtuchenko, além de poetas estrangeiros como García Lorca, Rainer Maria Rilke, Guillaume Apollinaire, bem como das peças satíricas que tomaram parte decisiva em sua obra neste período final de sua vida – mesmo assim Shostakóvich se viu obrigado, por exemplo, a assentir em trechos onde a comissão do Partido interveio revisando os poemas de Yevtuchenko** usados em sua 13ª Sinfonia em 1962.

Quanto à estréia do Prefácio em 1966, aconteceu já sob a era Brejniev. Não obstante os novos tempos soviéticos, pode-se sentir o peso psicológico dessas “transgressões” em uma série de indícios. Lauro M. Coelho lembra que, para a apresentação da 14ª Sinfonia de Shostakóvich, “as autoridades não enviaram nenhum representante. Estava lá apenas Pável Apostolóv, stalinista de coração…

“O violinista Mark Lubótski, que assistiu à estréia, conta que, embora Shostakóvich tivesse pedido silêncio à platéia, pois seria feita uma gravação privada daquele concerto, durante o quinto movimento [com o poema ‘Os Sentinelas’, de Apollinaire], Apostolóv retirou-se ruidosamente da sala: ‘Quando a sinfonia terminou, as primeiras pessoas a sair viram um homem ser retirado do prédio, numa maca, para dentro de uma ambulância. Apostolóv tinha tido um ataque do coração enquanto a música estava sendo tocada’” (Op. Cit. 385).

** Em março de 2015 publicamos, neste mesmo endereço eletrônico, nossa tradução de um dos poemas de Yevtuchenko usados por Shostakóvich na sua 13ª Sinfonia, igualmente acompanhada por vídeo com a execução da peça e originais na língua russa. Clique aqui para ver a tradução

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ПРЕДИСЛОВИЕ К ПОЛНОМУ СОБРАНИЮ МОИХ СОЧИНЕНИЙ И КРАТКОЕ РАЗМЫШЛЕНИЕ ПО ПОВОДУ ЭТОГО ПРЕДИСЛОВИЯ

(Для баса и фортепиано, 1966, op.123.
Эпиграмма Пушкина. Текст Шостаковича).

“Мараю я единым духом лист.
Внимаю я привычным ухом свист.
Потом всему терзаю свету слух.
Потом печатаюсь – и в Лету Бух!”

Такое предисловие можно было б написать
не только к полному собранию моих сочинений,
но и к полному собранью сочинений
многих, очень, очень многих композиторов,
как и советских, так и зарубежных.
А вот и подпись: Дмитрий Шостакович.
Народный артист СССР,
очень много и других почетных званий,
первый секретарь Союза композиторов РСФСР,
просто секретарь Союза композиторов СССР,
а так же очень много других весьма
ответственных нагрузок и должностей.

 

 

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ANNA AKHMÁTOVA (POEMAS)

AnnaAkhmtova. rosário

ANNA AKHMÁTOVA (POEMAS)

Traduções, André Nogueira (2015)

Obs. Esta publicação acontece na data de hoje, 05.03.2016, ao se completarem 50 anos da passagem de Akhmátova.

* * *

Torcia as mãos sob o xale escuro…
“Por que hoje estás tão pálida?”
– Fui dar a ele de beber minha amargura
Até deixá-lo embriagado.

Como esquecer? Ele saiu, cambaleando,
Nos lábios uma horrenda contorção…
Desci correndo, sem pegar no corrimão,
E no portão segurei ele pela manga.

Sufocada, eu gritei: “O que se deu
Foi brincadeira. Se tu fores, não agüento.”
Ele então com toda calma respondeu
E com frieza: “Não te exponhas tanto ao vento”.

1911

* * *

Сжала руки под тёмной вуалью…
“Отчего ты сегодня бледна?”
– Оттого, что я терпкой печалью
Напоила его допьяна.

Как забуду? Он вышел, шатаясь,
Искривился мучительно рот…
Я сбежала, перил не касаясь,
Я бежала за ним до ворот.

Задыхаясь, я крикнула: “Шутка
Всё, что было. Уйдешь, я умру.”
Улыбнулся спокойно и жутко
И сказал мне: “Не стой на ветру”

1911

* * *

Porta aberta, luz acesa,
As tílias com doçura murmurinham…
Esquecidos sobre a mesa
Estão a luva e o chicotinho.

Amarela, a auréola do lustre…
Escuto, atenta, os murmúrios.
Por que correste tu de susto?
Nem sequer conjecturo.

Com alegria, o clarão
Do novo dia amanhecendo.
Esta vida é estupenda
E seja sábio o coração.

Te amortece a dor horrenda
E o espasmos se acalmam…
Sabe, estive lendo
Que é eterna nossa alma.

1911

* * *

Дверь полуоткрыта,
Веют липы сладко…
На столе забыты
Хлыстик и перчатка.

Круг от лампы желтый…
Шорохам внимаю.
Отчего ушел ты?
Я не понимаю…

Радостно и ясно
Завтра будет утро.
Эта жизнь прекрасна,
Сердце, будь же мудро.

Ты совсем устало,
Бьешься тише, глуше…
Знаешь, я читала,
Что бессмертны души.

1911

* * *

Seu vizinho, perdi as estribeiras!
Tardezinha, quarta-feira.
Uma vespa foi quem veio me zoar…
Picou no meio do meu dedo, o anelar.

Foi sem querer que a apertei
E, pelo visto, morrerá.
Se seu ferrão terá veneno, eu não sei,
Como a agulha do tear.

Em teu colo, seu vizinho, vim chorar.
Tu me darás algum sorriso?
Olha isso: em meu dedo, anular
O tão bonito meu anel de compromisso.

18-19 de março 1911

* * *

Я сошла с ума, о мальчик странный,
В среду, в три часа!
Уколола палец безымянный
Мне звенящая оса.

Я ее нечаянно прижала,
И, казалось, умерла она,
Но конец отравленного жала
Был острей веретена.

О тебе ли я заплачу, странном,
Улыбнется ль мне твое лицо?
Посмотри! На пальце безымянном
Так красиво гладкое кольцо.

18-19 марта 1911

A CÂMARA NOTURNA

Estas palavras de antemão que pronuncio
Atingiram meu espírito em cheio,
Uma abelha no crisântemo zuniu
E um sachê envelhecido exala cheiros.

Na câmara, tu vês, não há janelas, só um vão.
Torso de colecionador, o amor exposto nu
E sobre a cama, em francês, uma inscrição:
“Seigneur, ayez pitie de nous”.*

Velhas histórias, com seus tristes desenlaces,
Minha alma a este horror não submetas.
Sob a capa desgastada, em realce,
Arranhões no verniz da estatueta.

No buquê que sobre a mesa estiola
O raio último de sol petrificou-se.
Como em sonho um acorde de viola
E o som do clavicorde ainda ouço.

* “Senhor, tenha piedade de nós” (franc.)

1912

ВЕЧЕРНЯЯ КОМНАТА

Я говорю сейчас словами теми,
Что только раз рождаются в душе.
Жужжит пчела на белой хризантеме,
Так душно пахнет старое саше.

И комната, где окна слишком узки,
Хранит любовь и помнит старину,
А над кроватью надпись по-французски
Гласит: “Seigneur, ayez pitie de nous»*.

Ты сказки давней горестных заметок,
Душа моя, не тронь и не ищи…
Смотрю, блестящих севрских статуэток
Померкли глянцевитые плащи.

Последний луч, и желтый и тяжелый,
Застыл в букете ярких георгин,
И как во сне я слышу звук виолы
И редкие аккорды клавесин.

* Господи, смилуйся над нами (франц.).

1912

Anna-Akhmatova-with-her-husband-Nikolay-Gumilev-and-son-Lev-Gumilev-1913                (Akhmátova em 1913 com seu esposo, Nikolai Gumiliov, e seu filho, Liev Gumiliov)

* * *

“Onde está teu ciganinho, excelência?
Teu pequeno e primogênito neném,
A quem conheces bem melhor do que ninguém
E, quando chora, tu enrolas em negro lenço.”

“O destino de uma mãe, iluminar-se na tortura.
Não considero que eu dela seja digna.
A cancela se abriu a um paraíso prematuro
E no colo é Madalena quem segura seu estigma.

Cada dia bem vivido em meus tempos alegres
Esquecido sobre a neve eu abandono.
Os meus braços sofredores que o carreguem
E seu choro despedace com meu sono.

O coração se apagou, igual a luz do abajur.
Esqueço tudo o que for da minha conta
Enquanto ando pelo cômodo escuro
Onde procuro pelo berço e não encontro”.

1914

* * *

“Где, высокая, твой цыганенок,
Тот, что плакал под черным платком,
Где твой маленький первый ребенок,
Что ты знаешь, что помнишь о нем?”

“Доля матери – светлая пытка,
Я достойна ее не была.
В белый рай растворилась калитка,
Магдалина сыночка взяла.

Каждый день мой – веселый, хороший,
Заблудилась я в длинной весне,
Только руки тоскуют по ноше,
Только плач его слышу во сне.

Станет сердце тревожным и томным,
И не помню тогда ничего,
Все брожу я по комнатам темным,
Все ищу колыбельку его”.

1914

CANÇÃO DE NINAR

Longe mata adentro,
Atravessando o remoinho,
Um chalé sem acalento,
Um lenhador bem pobrezinho.

O caçula reclamava por papá, –
De que forma fazê-lo parar?
Dorme, meu filhinho, dorme,
Eu sou uma mãe má.

Ouve cantar o passarinho
Que pousou nestes umbrais…
Foi dada uma cruzinha,
De presente, a teu pai.

A fome vem, a fome vai,
E fome em casa se aloja.
Que São Jorge
Livre e guarde teu papai.

1915, Tsárskoe Seló.

КОЛЫБЕЛЬНАЯ

Далеко в лесу огромном,
Возле синих рек,
Жил с детьми в избушке темной
Бедный дровосек.

Младший сын был ростом с пальчик,
-Как тебя унять,
Спи, мой тихий, спи, мой мальчик,
Я дурная мать.

Долетают редко вести
К нашему крыльцу,
Подарили белый крестик
Твоему отцу.

Было горе, будет горе,
Горю нет конца,
Да хранит святой Егорий
Твоего отца.

1915, Царское Село

* * *

Por que tu te disfarças
De pássaro, de seixo, de sarça?
Por que tu te divertes
Com lampejos cravejando-me celestes?

Deixa-me, não mais me assedies…
Vai cuidar de tuas próprias bruxarias!
No pântano, embebido de penumbra,
Bruxuleia o ébrio vislumbre.

E eis a Musa, num esburacado véu,
Que arrasta cânticos tristonhos.
Do poder de suportar dor tão cruel
Vem o milagre deste sonho.

1915

* * *

Зачем притворяешься ты
То ветром, то камнем, то птицей?
Зачем улыбаешься ты
Мне с неба внезапной зарницей?

Не мучь меня больше, не тронь!
Пусти меня к вещим заботам…
Шатается пьяный огонь
По высохшим серым болотам.

И Муза в дырявом платке
Протяжно поет и уныло.
В жестокой и юной тоске
Ее чудотворная сила.

1915

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                                (Akhmátova desenhada por Amedeo Modigliani, 1911)

 

ÉPICOS MOTIVOS

Eu canto, e o bosque verdeja…
B. A.

1

Naquele tempo eu era hóspede na terra.
O nome que me deram de batismo – Anna,
Era dulcíssimo aos ouvidos e aos lábios dos humanos.
Assim eu por milagre conhecia o júbilo terrestre
E, nem sequer contando vinte aniversários,
Eram tantas minhas festas quantos dias há no ano.
E, obedecendo a certo ímpeto secreto,
Eleger bem poderia um desprendido pretendente,
Mas o sol, apenas, eu amava, e as árvores.
Foi quando, num verão, se bem me lembro,
Encontrei uma estrangeira em duvidosa hora do dia
E juntas, no morno mar, nós nos banhávamos.
Estranho pareceu-me o seu traje de banho,
E ainda mais estranhos os seus lábios e palavras –
Raras, como estrelas cadentes em setembro.
Com as mãos me apoiando por debaixo,
Ensinava-me a boiar, e como os membros
Do meu corpo, sobre as ondas, se relaxam.
De repente estatelei naquelas águas azul-claras
E, com ar meio gaiato, ela a mim se dirigiu,
E pareceu-me que as copas da floresta
Farfalhavam, a areia derrocou sob meus pés
E, como o fole de uma gaita, num assobio
A despedida anunciou-se, pois o sol ia se pondo.
Suas palavras, não podia me lembrar,
Caía noite sombreando seu perfil,
O cabelo molhado circundando seu olhar,
Uma frestra que na boca entreabriu.
Como perante eu estivesse à profetiza do divino,
Suplicante, proferi para a menina: “Diz-me,
Para quê me surrupias a memória,
E sussurras-me ao ouvido, se a glória
De cantar o que ouvi, tu retiraste-a de mim?”
Só uma vez, eu passeando na vindima,
Enchi o meu de estimação cesto de vime
E, bronzeada, me sentei sobre o capim.
Pálpebras cerradas, os cabelos destrançava,
Lânguida estava e dos perfumes estafada
Que exalavam desde os figos azulados
E do hálito picante das silvestres hortelãs.
Ela, no relicário da memória, delicada derramou
Esta delícia de palavras, como doce de licor,
E o cesto cheio eu lançando pelos ares
Caí de joelhos sobre o orvalho da manhã,
Como a amante sobre os pés de seu amor.

Outono 1913

ЭПИЧЕСКИЕ МОТИВЫ

                   Я пою, и лес зеленеет.

                                                                Б. А.

1

В то время я гостила на земле.
Мне дали имя при крещенье — Анна,
Сладчайшее для губ людских и слуха.
Так дивно знала я земную радость
И праздников считала не двенадцать,
А столько, сколько было дней в году.
Я, тайному велению покорна,
Товарища свободного избрав,
Любила только солнце и деревья.
Однажды поздним летом иностранку
Я встретила в лукавый час зари,
И вместе мы купались в теплом море,
Ее одежда странной мне казалась,
Еще страннее — губы, а слова —
Как звезды падали сентябрьской ночью.
И стройная меня учила плавать,
Одной рукой поддерживая тело
Неопытное на тугих волнах.
И часто, стоя в голубой воде,
Она со мной неспешно говорила,
И мне казалось, что вершины леса
Слегка шумят, или хрустит песок,
Иль голосом серебряным волынка
Вдали поет о вечере разлук.
Но слов ее я помнить не могла
И часто ночью с болью просыпалась.
Мне чудился полуоткрытый рот,
Ее глаза и гладкая прическа.
Как вестника небесного, молила
Я девушку печальную тогда:
«Скажи, скажи, зачем угасла память
И, так томительно лаская слух,
Ты отняла блаженство повторенья?..»
И только раз, когда я виноград
В плетеную корзинку собирала,
А смуглая сидела на траве,
Глаза закрыв и распустивши косы,
И томною была и утомленной
От запаха тяжелых синих ягод
И пряного дыханья дикой мяты,—
Она слова чудесные вложила
В сокровищницу памяти моей,
И, полную корзину уронив,
Припала я к земле сухой и душной,
Как к милому, когда поет любовь.

Осень 1913
Akhmatova_by_Altman

                                           (Akhmátova retratada por Nathan Altman, 1914)

2

Despedindo-me do bosque meu natal e sacrossanto
E da casa, onde a Musa Soluçante já não vai,
Eu, em silêncio, ia feliz levando a vida
Numa ilha toda plana, como fosse uma jangada
Encalhada sobre o barro do Nievá.
Oh, mistério desses dias invernais,
Os prazerosos afazeres, sensações de fadiga
E rosas colocadas em um jarro no lavabo!
A rua sob a neve acabava na esquina
Bem diante de uma árvore e a parede do altar
Da igreja de Santa Catarina.
Cedo eu saía para rua a procurar
Como da amada algum vestígio
E esmiuçava sobre a pálida camada
De uma neve ainda virgem.
À beira do Nievá, os veleiros, como pombas,
Se tocavam ombro a ombro, mas a praia
Só fazia prantear com cínzeas ondas.
Outra vez a velha ponte me atrai.
Mais semelhante a uma gaiola
Do que a um lar, existe ali certo lugar
Cujo habitante, como fosse um sabiá,
Me cantarola, eu perante o cavalete só aguardo,
Como diante do espelho, estupefata,
O seu trabalho ver nascer, feliz e árduo.
Eis o quadro, esta cada vez mais cínzea
Imagem e semelhança do retrato
Com a minha vida, sôfrega e narcísea.
Já não sei onde estará o meu artista predileto
Que galgou pela janela da mansarda
Ao perigo das cornijas e dos tetos
E sobre abismos caminhou junto comigo
A contemplar a neve, o Nievá e sua névoa –
Mas, sei, as nossas Musas são amigas,
Como moças que ainda desconhecem o amor
E que portanto são fraternas e benévolas.

2

Покинув рощи родины священной
И дом, где Муза Плача изнывала,
Я, тихая, веселая, жила
На низком острове, который, словно плот,
Остановился в пышной невской дельте.
О, зимние таинственные дни,
И милый труд, и легкая усталость,
И розы в умывальном кувшине!
Был переулок снежным и недлинным.
И против двери к нам стеной алтарной
Воздвигнут храм святой Екатерины.
Как рано я из дома выходила,
И часто по нетронутому снегу,
Свои следы вчерашние напрасно
На бледной, чистой пелене ища,
И вдоль реки, где шхуны, как голубки,
Друг к другу нежно, нежно прижимаясь,
О сером взморье до весны тоскуют,—
Я подходила к старому мосту.
Там комната, похожая на клетку,
Под самой крышей в грязном, шумном доме,
Где он, как чиж, свистал перед мольбертом,
И жаловался весело, и грустно
О радости небывшей говорил.
Как в зеркало, глядела я тревожно
На серый холст, и с каждою неделей
Все горше и страннее было сходство
Мое с моим изображеньем новым.
Теперь не знаю, где художник милый,
С которым я из голубой мансарды
Через окно на крышу выходила
И по карнизу шла над смертной бездной,
Чтоб видеть снег, Неву и облака,—
Но чувствую, что Музы наши дружны
Беспечной и пленительною дружбой,
Как девушки, не знавшие любви.

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                         (Akhmátova retratada por Olga Della-Vos-Kardovskaya, 1914)

3

Anoitecia o escuro azul do céu, lá onde antes
A igreja de Jerusalém, que se esconde declinante,
Gerava luz do além, dando-nos raios magníficos.
Estrelas duas, só, havia sobre as copas
E a neve revoava com um vento que não sopra
Lá de cima, mas da terra se levanta
Ocioso, afável e pacífico.
Passear num tempo desse, parecia-me impróprio.
Quando saí, os olhos, tive de fechá-los:
Um revérbero de luz brilhou nas coisas e nas faces,
Como pétalas de rosa em toda parte se deitassem
De amarela cor recém-desabrochada
Me deixando para sempre sem palavras.
Mas esse ar calmo, seco e gélido,
Embalando outra vez a cornamusa e sons angélicos,
Calar diante disso, para mim é insuportável.
A ponte cruza, tencionando enferrujados corrimãos,
Frinchas de gelo onde os patos cambalhotam,
As crianças, com luvinhas protegendo suas mãos,
A eles dando de comer umas bolotas.
Pensei: não pode ser que algum dia esqueça isso.
Não importa meu caminho ser difícil,
Se esta cruz couber que eu leve,
Suportável e até leve, e na velhice,
Na doença e, quem sabe, na indigência,
Com a luz de um arrebol o sol revele
Como a vida se declina no silêncio
Mas o espírito é eterno e indelével.

1914-1916

3

Смеркается, и в небе темно-синем,
Где так недавно храм Ерусалимский
Таинственным сиял великолепьем,
Лишь две звезды над путаницей веток,
И снег летит откуда-то не сверху,
А словно подымается с земли,
Ленивый, ласковый и осторожный.
Мне странною в тот день была прогулка.
Когда я вышла, ослепил меня
Прозрачный отблеск на вещах и лицах,
Как будто всюду лепестки лежали
Тех желто-розовых некрупных роз,
Название которых я забыла.
Безветренный, сухой, морозный воздух
Так каждый звук лелеял и хранил,
Что мнилось мне: молчанья не бывает.
И на мосту, сквозь ржавые перила
Просовывая руки в рукавичках,
Кормили дети пестрых жадных уток,
Что кувыркались в проруби чернильной.
И я подумала: не может быть,
Чтоб я когда-нибудь забыла это.
И если трудный путь мне предстоит,
Вот легкий груз, который мне под силу
С собою взять, чтоб в старости, в болезни,
Быть может, в нищете — припоминать
Закат неистовый, и полноту
Душевных сил, и прелесть милой жизни.

1914-1916 

Anna Akhmatova - 06

PRECE
  
Dai-me febre, dor, insônia,
Amargos anos sufocando com a peste,
E levai de mim meu filho, o matrimônio,
O dom divino destes cânticos celestes.
Após dias de tão numerosas cruzes,
Assim rogo em vossos santos oratórios:
Pela nuvem que faz sombra sobre a Rússia,
Descarregai em nós vossa relampejante glória.

1915, Dia de Pentecostes, Petersburgo, Ponte da Trindade

МОЛИТВА

Дай мне горькие годы недуга,
Задыханья, бессонницу, жар,
Отыми и ребенка, и друга,
И таинственный песенный дар —
Так молюсь за Твоей литургией
После стольких томительных дней,
Чтобы туча над темной
РоссиейСтала облаком в славе лучей.

1915, Духов день, Петербург, Троицкий мост

                 * * *

O povo esperava, sob uma ânsia
De suicídio, a exército alemão,
E o espírito ortodoxo de Bizâncio
Em templos russos não tomava comunhão.

O Nievá presenciou sua cidade,
Que da febre do poder quedava enferma,
Esquecendo-se da sua majestade
E sem saber quem tomaria seu governo.

Uma voz me apareceu naquele tempo,
Consolou-me e me ofereceu ajuda:
“Deixa tua terra, tão pecaminosa e surda.
A Rússia abandona para sempre.

Vem, eu lavo o sangue de tuas mãos
E essa vergonha que teu coração coage,
Com um novo nome limparei a tua imagem
Do ultraje e da passada humilhação”.

Com um gesto indiferente e sóbrio
Os ouvidos eu tapei com as mãos hirtas.
Que assim esse discurso ignóbil
Não profane meu espírito aflito.

Outono 1917, Petersburgo

 * * *

Когда в тоске самоубийства
Народ гостей немецких ждал,
И дух суровый византийства
От русской церкви отлетал,

Когда приневская столица,
Забыв величие своё,
Как опьяневшая блудница,
Не знала, кто берёт ее,-

Мне голос был. Он звал утешно,
Он говорил: “Иди сюда,
Оставь свой край, глухой и грешный,
Оставь Россию навсегда.

Я кровь от рук твоих отмою,
Из сердца выну черный стыд,
Я новым именем покрою
Боль поражений и обид”.

Но равнодушно и спокойно
Руками я замкнула слух,
Чтоб этой речью недостойной
Не осквернился скорбный дух.

Осень 1917, Петербург

A MUSA

Enquanto à noite sua vinda me ilude
A vida me parece por um fio segura a mim.
O que são honra, liberdade, juventude
Quando ela me visita, no assobio de um clarim?
E eis que, do véu se desfazendo, apareceu
E sobre mim impôs os olhos dardejantes.
Eu pergunto: “Foste tu que ditaste a Dante
As páginas do Inferno?” Ela responde: “Eu!”.

1924

МУЗА

Когда я ночью жду ее прихода,
Жизнь, кажется, висит на волоске.
Что почести, что юность, что свобода
Пред милой гостьей с дудочкой в руке.
И вот вошла. Откинув покрывало,
Внимательно взглянула на меня.
Ей говорю: “Ты ль Данту диктовала
Страницы Ада?” Отвечает: ” Я!”.

1924

EM MEMÓRIA DE SERGUEI IESSIÊNIN

Pode a vida se extinguir apenas, como a vela:
Indolor, serena, acaba a flâmula amarela.
Mas a Rússia não concede a seus poetas
Uma lúcida passagem como esta.

À mais fiel e alada alma deste mundo
Recebem-na no céu salvas de chumbo,
Ou sob o horror da pata cósmica oprimido
O coração, como uma esponja, cospe a vida.

1925

ПАМЯТИ СЕРГЕЯ ЕСЕНИНА

Так просто можно жизнь покинуть эту,
Бездумно и безбольно догореть.
Но не дано Российскому поэту
Такою светлой смертью умереть.

Всего верней свинец душе крылатой
Небесные откроет рубежи,
Иль хриплый ужас лапою косматой
Из сердца, как из губки, выжмет жизнь.

1925

MAIAKOVSKI NO ANO DE 1913

Nada sei do tempo de tua notoriedade,
Lembro só de tua impetuosa flor da idade.
E queira agora dignar-me a tomar nota
Em memória desses anos mais remotos.
Em tua voz acumulavam-se destroços
Pavimentados por teus versos vigorosos.
Sem preguiça, com os dois braços em riste,
A terríficos andaimes erigiste.
Tudo quanto resvalasse em tuas vestes
Com o tranco se achava a uma versta
E tudo aquilo que de pronto aniquilavas
Com a sentença de uma única palavra.
Solitário e insatisfeito, como sempre,
Aceleravas com despeito o breve tempo
Em que, com férvida alegria, para a luta
Ingressarias, consumindo o pavio curto.
O longínquo rumor dos altos mares
Numa síncope auscultando ao recitares,
Sob a chuva revirando irados olhos
Tu dobravas da cidade seus imbróglios.
Num cômodo da alma um relâmpago penetra:
É teu nome, ecoando sempre alerta.
E até hoje a nossa pátria toda treme
Sob tal convocatória da vocálica sirene.

3-10 de março 1940

МАЯКОВСКИЙ В 1913 ГОДУ

Я тебя в твоей не знала славе,
Помню только бурный твой расцвет,
Но, быть может, я сегодня вправе
Вспомнить день тех отдаленных лет.
Как в стихах твоих крепчали звуки,
Новые роились голоса…
Не ленились молодые руки,
Грозные ты возводил леса.
Все, чего касался ты, казалось
Не таким, как было до тех пор,
То, что разрушал ты,- разрушалось,
В каждом слове бился приговор.
Одинок и часто недоволен,
С нетерпеньем торопил судьбу,
Знал, что скоро выйдешь весел, волен
На свою великую борьбу.
И уже отзывный гул прилива
Слышался, когда ты нам читал,
Дождь косил свои глаза гневливо,
С городом ты в буйный спор вступал.
И еще не слышанное имя
Молнией влетело в душный зал,
Чтобы ныне, всей страной хранимо,
Зазвучать, как боевой сигнал.

3-10 марта 1940

RESPOSTA TARDIA
para M. I. Tsvetáieva

Diabinha de brancas mãos… Zombas,
Invisível, gênia, te escondendo meio às sombras
Dos arbustos, nas casinhas de estorninho,
Entre cruzes depredadas tu caminhas
E gritas, da torre Marinka, saudando-nos:
“Hoje volto aos campos meus.
Me admirem, conterrâneos,
Pelo que me aconteceu.
Minha família foi tragada pelo pântano
E a casa de meu pai cai em ruínas”.
Iremos hoje atrás de ti, Marina,
Na capital em procissão à meia-noite,
E mais milhões de suas moitas
Vão saindo para as ruas de Moscou
A retinir fúnebre sino,
A nevasca com seu grito nos trespassa
Mas, discreta, apagando nossos passos
Ao dobrarmos a esquina.

Março 1940

ПОЗДНИЙ ОТВЕТ
                                     М. И. Цветаевой

Белорученька моя, чернокнижница…
Невидимка, двойник, пересмешник,
Что ты прячешься в черных кустах,
То забьешься в дырявый скворечник,
То мелькнешь на погибших крестах,
То кричишь из Маринкиной башни:
“Я сегодня вернулась домой.
Полюбуйтесь, родимые пашни,
Что за это случилось со мной.
Поглотила любимых пучина,
И разрушен родительский дом”.
Мы с тобою сегодня, Марина,
По столице полночной идем,
А за нами таких миллионы,
И безмолвнее шествия нет,
А вокруг погребальные звоны
Да московские дикие стоны
Вьюги, наш заметающей след.

  Март 1940
a1938


REQUIEM

EM LUGAR DE UM PREFÁCIO

Nos anos desgraçados da iejóvtchina eu passei dezessete meses nas filas da prisão em Leningrado. Certa vez alguém me “identificou”. Então atrás de mim uma mulher de lábios azuis e que, é claro, nunca na vida ouviu falar meu nome, despertou do torpor, peculiar a todas nós, e me perguntou ao pé do ouvido (lá só aos sussurros se falava):

– E isso, tu és capaz de descrever?

E eu disse:

– Sou.

Então algo semelhante a um sorriso passou por aquilo, que algum dia foi seu rosto.

1º de abril 1957, Leningrado.

РЕКВИЕМ

ВМЕСТО ПРЕДИСЛОВИЯ

В страшные годы ежовщины я провела семнадцать месяцев в тюремных очередях в Ленинграде. Как-то раз кто-то «опознал» меня. Тогда стоящая за мной женщина с голубыми губами, которая, конечно, никогда в жизни не слыхала моего имени, очнулась от свойственного нам всем оцепенения и спросила меня на ухо (там все говорили шепотом):

– А это вы можете описать?

И я сказала:

– Могу.

Тогда что-то вроде улыбки скользнуло по тому, что некогда было ее лицом.

1 апреля 1957 г., Ленинград

DEDICATÓRIA

De tanta mágoa, as montanhas se recolham,
E as águas não mais fluam pelo rio.
Tudo estremece com a dureza do ferrolho
E, atrás dele, os confinados no covil.
E, dos portões da prisão, dores de morte…
Para quem sopra o vento suave,
O pôr do sol a quem conforta,
Não sabemos; para nós o som das chaves
A ranger por entre abomináveis portas
E ecos dos soldados com o seu bater de botas.
Cedo levantávamos, como para ir à missa,
Andávamos na capital hostil,
Nos encontrávamos, mortiças,
Ainda mal nascido o sol, adormecido o rio,
Mas o fio de uma esperança ainda em mente.
A sentença… Lágrimas jorram, de repente.
A vida, com as dores do calvário,
Extraída de nós todas do arrombado coração,
No chão de costas derrubada brutalmente…
Mas soergue, atordoada, e segue… solitária.
Por onde andarão as companheiras forçadas
Dos dois anos que passamos no inferno?
Que intempérie na Sibéria elas enfrentam,
Que sinais elas enxergam numa lua maculada?
Eu a elas me prosterno, neste adeus ajoelhada.

Março, 1940.

ПОСВЯЩЕНИЕ

Перед этим горем гнутся горы,
Не течет великая река,
Но крепки тюремные затворы,
А за ними «каторжные норы»
И смертельная тоска.
Для кого-то веет ветер свежий,
Для кого-то нежится закат —
Мы не знаем, мы повсюду те же,
Слышим лишь ключей постылый скрежет
Да шаги тяжелые солдат.
Подымались как к обедне ранней.
По столице одичалой шли,
Там встречались, мертвых бездыханней,
Солнце ниже и Нева туманней,
А надежда все поет вдали.
Приговор. И сразу слезы хлынут,
Ото всех уже отделена,
Словно с болью жизнь из сердца вынут,
Словно грубо навзничь опрокинут,
Но идет… шатается… одна…
Где теперь невольные подруги
Двух моих осатанелых лет?
Что им чудится в сибирской вьюге,
Что мерещится им в лунном круге?
Им я шлю прощальный мой привет.

Март 1940

INTRODUÇÃO

Isso aconteceu quando os cadáveres
Felizes, descansavam de bom grado.
Pendurada em seus cárceres, inútil balançava,
Como um peso morto, Leningrado.
E, no auge louco do tormento,
Como lacônicas canções de adeus,
Entre as filas destacadas dos detentos,
Camburões cantavam pneus.
Estrelas de morte à nossa volta
E a Rússia inocente em carne viva
Sob ensangüentadas botas
E o trote das locomotivas.

ВСТУПЛЕНИЕ

Это было, когда улыбался
Только мертвый, спокойствию рад.
И ненужным привеском болтался
Возле тюрем своих Ленинград.
И когда, обезумев от муки,
Шли уже осужденных полки,
И короткую песню разлуки
Паровозные пели гудки.
Звезды смерти стояли над нами,
И безвинная корчилась Русь
Под кровавыми сапогами
И под шинами черных марусь.

IV.

Se tivessem te mostrado, à zombeteira
Dos amigos preferida
E alegre pecadora da Tsárskoe Seló,
O que seria de tua vida…
Que, o gelo a derreter sob a goteira
Do teu choro de dar dó,
Sob a Cruzes, tricentésima da fila,
Ficarias, tendo em mãos o pacotinho.
No pátio do presídio, um trêmulo pinheiro,
Sem ruído. Quantos são os prisioneiros
Cujas vidas a esta hora lá definham…

IV.

Показать бы тебе, насмешнице
И любимице всех друзей,
Царскосельской веселой грешнице,
Что случилось с жизнью твоей.
Как трехсотая, с передачею,
Под Крестами будешь стоять
И своей слезою горячею
Новогодний лед прожигать.
Там тюремный тополь качается,
И ни звука. А сколько там
Неповинных жизней кончается…

V.

Faz dezessete meses que me arrasto,
Aos pés do teu carrasco me atiro
E grito, que tu voltes para casa, –
Tu, meu filho e meu martírio.
Tudo confundiu-se para sempre,
Não consigo mais fazer a distinção
De quem é bicho, quem é gente,
E quanto tempo até que venha a execução.
De pano a flor de não sei quando,
O som dos incensórios, os meus passos
De algum lugar à parte alguma
E, direto nos olhos me fitando,
De morte próxima me ameaça
Uma estrela de incomensurável lume.

V.

Семнадцать месяцев кричу,
Зову тебя домой.
Кидалась в ноги палачу —
Ты сын и ужас мой.
Все перепуталось навек,
И мне не разобрать
Теперь, кто зверь, кто человек,
И долго ль казни ждать.
И только пышные цветы,
И звон кадильный, и следы
Куда-то в никуда.
И прямо мне в глаза глядит
И скорой гибелью грозит
Огромная звезда.

VI.

As semanas passam voando.
O que aconteceu, não entendo.
As noites brancas te observam,
Ainda agora em hora matutina,
A ti, no cárcere, filhote.
Com olhos ávidos de ave de rapina
Sobre tua alta cruz elas conversam
E sobre tua morte.

1939

VI.

Легкие летят недели,
Что случилось, не пойму.
Как тебе, сынок, в тюрьму
Ночи белые глядели,
Как они опять глядят
Ястребиным жарким оком,
О твоем кресте высоком
И о смерти говорят.

1939

VIII.

PARA A MORTE

Vens decerto, pouco importa – por que tardas?
Eu te aguardo – para mim tudo vai mal.
Deixei a porta entreaberta, a lâmpada apagada
Para ti, tão simples, tão original.
Assume para isso a forma que te agrada:
Com astúcia de ladrão, em casa adentra
Irrompendo como a seta envenenada,
Ou me sufoca com a tifo pestilenta.
Ou como a fábula, que a foste inventar
E que todos já se enojam de saber, –
Que eu veja a aba do boné da KGB
E do porteiro apavorado o pálido esgar.
A mim agora é indiferente. A Estrela Polar
Para mim pisca, o Ienissei Sibéria adentro
A escoar, e encoberto pelo derradeiro horror
O nele refletido olho azul do meu amor.

19 de agosto 1939, Casa Fontanka

VIII.

К СМЕРТИ

Ты все равно придешь – зачем же не теперь?
Я жду тебя – мне очень трудно.
Я потушила свет и отворила дверь
Тебе, такой простой и чудной.
Прими для этого какой угодно вид,
Ворвись отравленным снарядом
Иль с гирькой подкрадись, как опытный бандит,
Иль отрави тифозным чадом.
Иль сказочкой, придуманной тобой
И всем до тошноты знакомой, —
Чтоб я увидела верх шапки голубой
И бледного от страха управдома.
Мне все равно теперь. Клубится Енисей,
Звезда Полярная сияет.
И синий блеск возлюбленных очей
Последний ужас застилает.

19 августа 1939, Фонтанный Дом

IX.

A asa da loucura
A alma já cobriu pela metade.
E bebe vinhos escarlates
Convidando-me a ir ao vale escuro.

Já compreendi que a ela devo
A vitória conceder.
Ouço o delírio nos meus nervos
Como a voz de um outro ser.

E coisa alguma ela permite
Que daqui leve comigo
(Por mais súplicas que eu grite
E com mais preces que a persiga)!

Nem do filho o seu terrível olho
Petrificado de dor,
Nem o dia em que me veio este terror,
Nem a hora que o encontrei sob ferrolhos,

Nem as mãos que apertei por entre grilhos,
Nem as sombras trêmulas das tílias,
Nem o fugitivo som, como o vôo de uma rola,
Da palavra de meu último consolo.

4 de março 1940, Casa Fontanka.

IX.

Уже безумие крылом
Души накрыло половину,
И поит огненным вином,
И манит в черную долину.

И поняла я, что ему
Должна я уступить победу,
Прислушиваясь к своему
Уже как бы чужому бреду.

И не позволит ничего
Оно мне унести с собою
(Как ни упрашивай его
И как ни докучай мольбою)!

Ни сына страшные глаза 
каменелое страданье,
Ни день, когда пришла гроза,
Ни час тюремного свиданья,

Ни милую прохладу рук,
Ни лип взволнованные тени,
Ни отдаленный легкий звук 
Слова последних утешений.

4 мая 1940, Фонтанный Дом

CRUCIFICAÇÃO

“Não chores por mim, Mãe,
No túmulo estou…”

1

O fogo, na abóbada celeste, se alastra.
O coro dos arcanjos glorifica o grande fim.
Ele diz ao Pai: “Por que me abandonaste?”
E à Mãe: “Oh, não chores por mim…”

2

Madalena, a soluçar, se debatia.
O discípulo amado ali ficou petrificado.
De erguer a vista ninguém teve a ousadia
Para a Mãe, que se segurou calada.

Х. РАСПЯТИЕ

«Не рыдай Мене, Мати,
во гробе зрящи».

1

Хор ангелов великий час восславил,
И небеса расплавились в огне.
Отцу сказал: «Почто Меня оставил?»
А Матери: «О, не рыдай Мене…»

2

Магдалина билась и рыдала,
Ученик любимый каменел,
А туда, где молча Мать стояла,
Так никто взглянуть и не посмел.

EPÍLOGO

I.

Agora sei como amortiza-se o aspecto da gente:
A este pêsame as bochechas se conformam,
Sob as pálpebras espia o sofrimento
Duras páginas de escrita cuneiforme.
Agora sei como os cabelos já se tornam,
De castanho ou negro, argênteos.
Como nos lábios submissos uma droga
De sorriso, trêmulo de medo, se escava.
Não só por mim eu rogo,
Mas por todas que comigo lá estavam –
Ao frio de gelo expostas e ao tórrido verão
Aos pés do cego e vermelho paredão.

ЭПИЛОГ

I.

Узнала я, как опадают лица,
Как из-под век выглядывает страх,
Как клинописи жесткие страницы
Страдание выводит на щеках,
Как локоны из пепельных и черных
Серебряными делаются вдруг,
Улыбка вянет на губах покорных,
И в сухоньком смешке дрожит испуг.
И я молюсь не о себе одной,
А обо всех, кто там стоял со мною,
И в лютый холод, и в июльский зной
Под красною, ослепшею стеною.

II.

O dia de finados aproxima-se outra vez.
Eu vejo, ouço, sinto a cada uma de vocês:

Esta uma, que levá-la para fora era difícil;
Esta outra, que não mais pisou a terra natalícia;

E aquela que disse, com a cabeça que balouça:
“Como em casa, eu chego ao calabouço”.

Quem me dera ter seus nomes em meus lábios,
Mas a lista me tomam, e em lugar algum se sabe.

Com palavras que as ouvi chorarem pelos cantos
Para elas eu teci um grande manto.

Lembrarei delas para sempre em toda parte
Mesmo que à frente outro flagelo me aguarde,

E se taparem minha boca tão aflita
Pela qual o povo solta o milionésimo dos gritos,

Peço então por meu espírito rogarem
Quando à hora dos meus ritos funerários.

E caso um dia nesta pátria se intente
Em minha honra levantar um monumento,

Eu consinto que assim me agraciem,
Mas somente se me erguerem a honraria

Não lá onde eu nasci, beirando a praia:
Já basta que esse tempo na memória se esvaia,

Ou junto ao tronco predileto no jardim do tzar,
Cuja sombra ainda hoje está por mim a procurar,

E sim aqui, onde passei trezentas horas de suplício
Sem que as trancas para mim eles abrissem.

Pois minha alma atormentada ainda teme
Esquecer dos camburões as sirenes,

Ou da porta abominável o estalido
E a velha que urrava, como bicho malferido.

A pingar da imóvel pálpebra de bronze
Uma lágrima de gelo derretido me response,

Ao longe arrulhe o pombo do presídio
E os barcos passem no Nievá sem dar ouvidos.

Março 1940, Casa Fontanka.

II.

Опять поминальный приблизился час.
Я вижу, я слышу, я чувствую вас:

И ту, что едва до окна довели,
И ту, что родимой не топчет земли,

И ту, что красивой тряхнув головой,
Сказала: «Сюда прихожу, как домой».

Хотелось бы всех поименно назвать,
Да отняли список, и негде узнать.

Для них соткала я широкий покров
Из бедных, у них же подслушанных слов.

О них вспоминаю всегда и везде,
О них не забуду и в новой беде,

И если зажмут мой измученный рот,
Которым кричит стомильонный народ,

Пусть так же они поминают меня
В канун моего поминального дня.

А если когда-нибудь в этой стране
Воздвигнуть задумают памятник мне,

Согласье на это даю торжество,
Но только с условьем – не ставить его

Ни около моря, где я родилась:
Последняя с морем разорвана связь,

Ни в царском саду у заветного пня,
Где тень безутешная ищет меня,

А здесь, где стояла я триста часов
И где для меня не открыли засов.

Затем, что и в смерти блаженной боюсь
Забыть громыхание черных марусь,

Забыть, как постылая хлопала дверь
И выла старуха, как раненый зверь.

И пусть с неподвижных и бронзовых век,
Как слезы, струится подтаявший снег,

И голубь тюремный пусть гулит вдали,
И тихо идут по Неве корабли.

Март 1940, Фонтанный Дом

anna
PRIMEIRO PROJÉTIL DE LONGO ALCANCE EM LENINGRADO

O variado rebuliço das pessoas
De repente se alterou de natureza.
Este barulho já não soa
Citadino, nem tampouco ele é rural.
Da surpresa ribombante de um trovão
É, com certeza, irmão de sangue, seu igual.
Mas no trovão há a umidade
Que habita frescas nuvens
E que vem trazer aos prados
Boas novas de uma chuva.
Porém este nos trazia uma estação daninha
E não queriam os ouvidos tensos
Crer, porquanto vinha
Acabando com o suspense
E com crescente indiferença
Para sempre me ceifar o meu filhinho.

1941

ПЕРВЫЙ ДАЛЬНОБОЙНЫЙ В ЛЕНИНГРАДЕ

И в пестрой суете людской
Все изменилось вдруг.
Но это был не городской,
Да и не сельский звук.
На грома дальнего раскат
Он, правда, был похож, как брат,
Но в громе влажность есть
Высоких свежих облаков
И вожделение лугов –
Веселых ливней весть.
А этот был, как пекло, сух,
И не хотел смятенный слух
Поверить – по тому,
Как расширялся он и рос,
Как равнодушно гибель нес
Ребенку моему.

1941

* * *

O pássaro desintegrado pelo canhão antiaéreo?
Quem, Leningrado, há de salvar-te da miséria?

Quando não roncam os canhões em plena luta,
A cidade vive um pouco, toma fôlego, escuta:

Os seus filhos sobre a neve se debatem com
Gemidos como os frios ventos do Báltico.

Das profundezas os seus gritos: “Dai-me pão!”
Até o sétimo dos céus se elevarão,

Esse cético céu, sem compaixão de nossa sorte…
Eu, de todas as janelas, vendo a morte,

Sempre ela, a espreitar as portinholas
E alma apavorada na gaiola.

28 de setembro 1941, a bordo do avião.

* * *

Птицы смерти в зените стоят.
Кто идет выручать Ленинград?

Не шумите вокруг — он дышит,
Он живой еще, он все слышит:

Как на влажном балтийском дне
Сыновья его стонут во сне,

Как из недр его вопли: «Хлеба!»
До седьмого доходят неба…

Но безжалостна эта твердь.
И глядит из всех окон — смерть.

И стоит везде на часах
И уйти не пускает страх.

28 сентября 1941, самолет

PELA JANELA DO AVIÃO

1

Por milhas às centenas e por verstas,
Por quilômetros afora
Jaz o sal, e se agitam as florestas
Com as suas fauna e flora.
Como antes nunca à altura de estar nela,
Eu vejo a Pátria, pelo vão de uma janela:
Meu corpo, minha alma, eu penso:
Isso tudo a mim pertence.

2

Com pedrinhas demarquei aquele dia
Em que a vitória anunciei.
Enquanto, ao encontro da vitória, eu ia,
Adiantando-me ao sol, voei.

3

Quando pisei a pista de pouso,
Sob meus pés a relva pôs-se a farfalhar.
Minha casa, minha casa e meu repouso!
Como nova tu me és, e mesmo assim familiar.
A cabeça, ainda tonta, a rodar
E esse pesar no coração também é novo…
O estrondo do trovão parece ainda ressoar –
Mas a vitória é de Moscovo!

Maio 1944

С САМОЛЕТА

1

На сотни верст, на сотни миль,
На сотни километров
Лежала соль, шумел ковыль,
Чернели рощи кедров.
Как в первый раз я на нее,
На Родину, глядела.
Я знала: это все мое —
Душа моя и тело.

2

Белым камнем тот день отмечу,
Когда я о победе пела,
Когда я победе навстречу,
Обгоняя солнце, летела.

3

И весеннего аэродрома
Шелестит под ногой трава.
Дома, дома — ужели дома!
Как все ново и как знакомо,
И такая в сердце истома,
Сладко кружится голова…
В свежем грохоте майского грома —
Победительница Москва!

Май 1944

* * *

Cinco anos se passaram. Já curei minhas feridas –
Cicatrizes dessa guerra depravada.
Minha pátria,
e outra vez nos russos prados
O silêncio de seu gelo remordido.

Vê o marinheiro em boa rota como ardem
Os faróis na escuridão marítima,
E este fogo que arde neles sem alarde
É como os olhos de um amigo íntimo.

Um pacífico trator, onde tanques disparavam.
Onde o incêndio crepitava, o jardim se regenera.
Os automóveis fendem o ar em disparada
Pela estrada outrora cheia de crateras.

Antes decepados, a agitar braços de gesso,
E agora, sobre o cepo, um novo álamo germina.
E lá, onde a separação cortou a alma, o menino
É embalado pela mãe no fofo berço.

Agora em boa têmpera estás livre,
Minha pátria!
E para sempre os vivos
Na memória dos povos cicatrizem
Esses tempos de dor, pólvora e cinzas.

As novas gerações, tenham paz e vida longa.
As modernas e monumentais cidades,
Em homenagem às aldeias massacradas,
Marcarão o monumento a ferro e fogo.

Maio 1950

 * * *

Прошло пять лет,— и залечила раны,
Жестокой нанесенные войной,
Страна моя,
и русские поляны
Опять полны студеной тишиной.

И маяки сквозь мрак приморской ночи,
Путь указуя моряку, горят.
На их огонь, как в дружеские очи,
Далеко с моря моряки глядят.

Где танк гремел — там ныне мирный трактор,
Где выл пожар — благоухает сад,
И по изрытому когда-то тракту
Автомобили легкие летят.

Где елей искалеченные руки
Взывали к мщенью — зеленеет ель,
И там, где сердце ныло от разлуки,—
Там мать поет, качая колыбель.

Ты стала вновь могучей и свободной,
Страна моя!
Но живы навсегда
В сокровищнице памяти народной
Войной испепеленные года.

Для мирной жизни юных поколений,
От Каспия и до полярных льдов,
Как памятники выжженных селений,
Встают громады новых городов.

Май 1950

MÚSICA
D. D. Sh.*

Alguma coisa milagrosa ela desperta,
Uma visão do ultrapassado limiar.
Somente ela ainda ouço a me falar
Não existindo mais quem ouse chegar perto.

O último amigo em retirada se coloque
E no túmulo comigo ainda soa a sua prece,
Como em prantos trovoadas se pusessem
E as flores começassem seu colóquio.

* para D. D. Shostakovich

1958


МУЗЫКА
Д. Д. Ш.*

В ней что-то чудотворное горит,
И на глазах ее края гранятся.
Она одна со мною говорит,
Когда другие подойти боятся.

Когда последний друг отвел глаза,
Она была со мной в моей могиле
И пела словно первая гроза
Иль будто все цветы заговорили.

* Д. Д. Шостаковичу

1958

* * *

Não me atormentes com destino tão terrível
Nem com o enorme tédio setentrião.
Hoje passamos contigo o primeiro dia festivo
E esta festa recebe o nome – separação.
Não te importes, que não haja aqui aurora
E nem a lua sobre nós redunde,
Eu te presentearei agora
Com relíquias nunca vistas neste mundo:
O reflexo meu nas águas de um rio
Numa hora em que o sono não turve o fundo;
Um olhar tal, que à estrela cadente não ajude
A voltar até de onde ela caiu;
O eco de uma voz que purifica
No verão que a luz da tarde refrescou, –
Sem tremor possas ouvir os mexericos
De um corvo dos redores de Moscou;
Para que a umidade de outubro tenha gosto
Mais salubre que o bem-estar de maio…
Te lembra, anjo meu, deste meu rosto,
Te lembra, até que a primeira neve caia.

1959

* * *

Не стращай меня грозной судьбой
И великою северной скукой.
Нынче праздник наш первый с тобой,
И зовут этот праздник — разлукой.
Ничего, что не встретим зарю,
Что луна не блуждала над нами,
Я сегодня тебя одарю
Небывалыми в мире дарами:
Отраженьем моим на воде
В час, как речке вечерней не спится.
Взглядом тем, что падучей звезде
Не помог в небеса возвратиться,
Эхом голоса, что изнемог,
Л тогда был и свежий и летний,—
Чтоб ты слышать без трепета мог
Воронья подмосковного сплетни,
Чтобы сырость октябрьского дня
Стала слаще, чем майская нега…
Вспоминай же, мой ангел, меня,
Вспоминай хоть до первого снега.

1959

Anna Akhmatova - 11

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Poeta e o Tzar, Marina Tsvetaeva *

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Poema de Marina Tsvetaeva
Tradução por André Nogueira

(O POETA E O TZAR) **

1 (5)

Ressurgido morto-vivo
Dos salões dos tzares.
– E posto assim inflexível
No bloco de mármore?

Com todo este charme
Em ombreiras de ouro.
Um mísero gendarme
Coroando-se dos louros
De Pushkin.

O escritor – meteu-o preso,
O manuscrito – tesourou-o.
Fez da terra polonesa –
Um brutal abatedouro.

Observem mais de perto
Qual o nome do açougueiro:
O assassino do poeta
É o Tzar Nicolau
Primeiro.

12 de julho 1931

2 (6)

Não, frente à torpe tropa o tambor desperta
Enquanto à tumba acompanhamos nosso guia:
Esses dentes do tzar, por sobre o corpo do poeta
Tilintando como em sua honraria.

Tamanha é a honra, os amigos mais chegados
Não se vê – nem à esquerda, à direita,
Nem aos pés, à cabeceira – só as caras, peitos
E continentes mãos atadas dos soldados.

Não admira, até no mais silente leito
Que o precisem vigiar como um moleque?
Embora tantas honrarias que lhe deitam
Até demais, até demais para esta exéquia!

Veja, cidadão, como, apesar do rebuliço,
O tzar se preocupa com o poeta.
E o honra – honra – e ponha honra nisso!
De honras destas – o inferno está repleto!

Quem é então, precisa e horrorosamente
Esse ladrão, que os ladrões sobre ele se debruçam?
Um traidor? Não. Do pátio de fuzilamento –
O homem mais lúcido da Rússia.

Meudon, 19 de julho 1931

3 (7)

Para o poder popular, que o trono derruba
E o terror não suprime:
Não delegar aos autores do crime
Que velem suas vítimas à tumba,

Nem aos carrascos que chorem nos túmulos
Dos Pushkins, para evitar tumultos.
Não deixar que pelo tenebroso túnel
Furtem-no à surdina os gatunos.

À pior escuridão do mundo
Não condenar o corpo surdo-mudo,
Recortado por tesouras
Como o poema outrora fora.

19 de julho 1933

* Publicação comemorativa aos 123 anos de Marina Tsvetaeva no dia de hoje, 08.10.2015
** O poema “O Poeta e o Tzar”, com as subdivisões 1, 2 e 3, corresponde à parte final (5, 6 e 7) do poema “Versos para Pushkin”.

(ПОЭТ И ЦАРЬ)

1(5)

Потусторонним
Залом царей.
– А непреклонный
Мраморный сей?

Столь величавый
В золоте барм.
– Пушкинской славы
Жалкий жандарм.

Автора – хаял,
Рукопись – стриг.
Польского края –
Зверский мясник.

Зорче вглядися!
Не забывай:
Певцоубийца
Царь Николай
Первый.

12 июля 1931

2(6) Нет, бил барабан перед смутным полком,
Когда мы вождя хоронили:
То зубы царёвы над мертвым певцом
Почетную дробь выводили.

Такой уж почет, что ближайшим друзьям –
Нет места. В изглавьи, в изножьи,
И справа, и слева – ручищи по швам –
Жандармские груди и рожи.

Не диво ли – и на тишайшем из лож
Пребыть поднадзорным мальчишкой?
На что-то, на что-то, на что-то похож
Почет сей, почетно – да слишком!

Гляди, мол, страна, как, молве вопреки,
Монарх о поэте печется!
Почетно – почетно – почетно – архи-
Почетно, – почетно – до черту!

Кого ж это так – точно воры вора
Пристреленного – выносили?
Изменника? Нет. С проходного двора –
Умнейшего мужа России. Медон,

19 июля 1931

3(7)

Народоправству, свалившему трон,
Не упразднившему – тренья:
Не поручать палачам похорон
Жертв, цензорам – погребенья

Пушкиных. В непредуказанный срок,
В предотвращение смуты.
Не увозить под (великий!) шумок
По воровскому маршруту –

Не обрекать на последний мрак,
Полную глухонемость
Тела, обкарнанного и так
Ножницами – в поэмах.

19 июля 1933

NO MERCADO, de Yevgueny Yevtuchenko

yevgeny
NO MERCADO

Poema de Yevgueny Yevtuchenko (1956),
Tradução por André Nogueira (2015).

Para qual trabalho, para qual batalha
entram as mulheres no mercado,
cobertas com véus e xales,
uma por uma, todas caladas.

Oh, o tilintar das caçarolas,
o barulho das garrafas e panelas!
A molho de salada e a cebola,
a pepino cheiram elas.

Tremo, demorando em ir ao caixa,
pois enquanto eu espero
o mercado todo se encharca
com a respiração dessas mulheres.

Heroínas de seus filhos e netos,
em silêncio, se enfileiram
e nas mãos elas apertam
o seu suado dinheiro.

Eis, Rússia, a honra ao mérito
que a vossas filhas lhes deram.
A elas, que misturaram concreto,
e semearam, e ceifaram…
por tudo passaram essas mulheres
e a tudo suportaram.

Tudo no mundo lhes é possível, –
a elas pertence toda a força.
Enganá-las por um níquel
é mau e vergonhoso.

E eu as vejo, mudo e melancólico,
escolhendo alguma peça de segunda,
cansadas de segurar suas sacolas com
as mãos mais gloriosas deste mundo.

1956

trad. 8 de março de 2015.


В МАГАЗИНЕ

Кто в платке, а кто в платочке,
как на подвиг, как на труд,
в магазин поодиночке
молча женщины идут.

О бидонов их бряцанье,
звон бутылок и кастрюль!
Пахнет луком, огурцами,
пахнет соусом «Кабуль».

Зябну, долго в кассу стоя,
но покуда движусь к ней,
от дыханья женщин стольких
в магазине все теплей.

Они тихо поджидают —
боги добрые семьи,
и в руках они сжимают
деньги трудные свои.

Это женщины России.
Это наша честь и суд.
И бетон они месили,
и пахали, и косили…
Bсе они переносили,
все они перенесут.

Все на свете им посильно,—
столько силы им дано.
Их обсчитывать постыдно.
Их обвешивать грешно.

И, в карман пельмени сунув,
я смотрю, смущен и тих,
на усталые от сумок
руки праведные их.

1956