15 Poemas de Vladímir Maiakóvski (traduções e notas por André Nogueira)

 

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Foto: Maiakóvski declama para os auditórios da União Soviética em 1930. Ao fundo uma faixa: “Proletários de todo o mundo, uni-vos!” Obs.: os desenhos nesta publicação são cartazes de Maiakóvski projetados para a ROSTA, Agência Telegráfica Russa. Eles não constituem originalmente ilustrações dos poemas que se seguem.
   

15 POEMAS DE VLADÍMIR MAIAKÓVSKI

Traduções e notas: André Nogueira (2017)


O IMPERADOR

Lembro –
……….  …isso foi talvez na páscoa,
ou quem sabe –
…………………..no natal.
Estava limpa
……………….e preparada
………………………………toda a praça
para a marcha
 ………………..triunfal.
Os soldados,
…………….. .desde os rasos
………………………………….aos tenentes-coronéis:
na Tviérskaia se vê
……………………….do pelotão
……………………………………..fileira tensa.
Oficial torce o bigode,
…………………………..grita e bate com os pés:
– Às suas ordens! –
………………  ………eles batem continência.
De repente –
………………. a carruagem a deslizar,
……………………………………………..sob a capota
com bem asseada barba
……………………………..está sentado um militar,
quatro filhotas
………………….como tábuas
…………………………………..atrás dele
……………….  ……………………………..a acenar.
Sobre o asfalto
………………….à via larga,
como sobre
  …………….as nossas costas,
……………………………………o cortejo
e hasteados para o alto
…………………………….os brasões e as águias –
eu da turba
……………..tudo vejo.
As senhoras se empurram,
…………………………………toca o sino na campana
e encobre
……………– Urra, urra! –
………………………………os gritinhos com os quais
elas recebem sua nobre
…………………………….majestade Nikolai,
“nosso tsar-imperador,
..  …………………………de toda a Rússia o soberano!”

A neve cai
……………sobre os telhados,
…………………………………..a nós todos soterrando.
A se arrastar pelos Urais,
………………………………pela extensão siberiana,
pelo Iset
………….de margens íngremes e minas,
pelo Iset
………….das ventanias glaciais –
essa intempérie insana
. ……………    …………..em Sverdlóvsk termina. 1
O trenó do comitê
………………..   …..já a cidade
…………………..    ……………..ultrapassa.
Por azar,
  ………..a neve cobre
.. ………………………..o mundo todo –
não se vê a coisa alguma,
…  …………………………..só dos lobos
o seu rastro
……………..atrás da caça.
Estacionamos,
…………………finalmente,
………………………………..há vinte verstas.
O exército dos cedros
.. … …………………….se perfila
… … ………………………………..até ao longe.
Paramánov à frente,
……. ………………….penetramos na floresta,
caminhamos pela trilha,
…. …. ……………………..para onde?
Mais pesado
………  ……..que da mina
…..  ……   ………………….a bruta pedra,
um tesouro
………… . ..nunca achado.
Toda a glória e majestade
……………………………….do tsar-imperador
em que buraco
…….. ……  …..se esconde…
Dentre os cedros
…………….. …….uma marca
……. ………..   ………………..de machado…
– Aqui!? –
……………Não.
………………….Pelo menos por enquanto.
Nossas botas
……………….que escavem
………………………………..noutro canto.
Nalgum lugar
………………..sob os cascalhos
……………………………………..da estrada,
sob as raízes
…… ……….. dessas árvores,
a última estada
………………. …de seus míseros
……………………………………….cadáveres.
No alto,
…………sobre as nuvens hasteado,
o dia rápido amanheça,
e uma ave
 …………..malfazeja –
negro corvo
……..  ……..de uma única cabeça –
lamentando-se pragueja.

Vos seduz
……………o esplendor
……………………………de uma coroa?
Descobris
…………..como essa luz
……………………………..vos ilumina,
pela última das vezes,
…………………………..quando enfim
.   ……   …………………………………..se amontoa
a sepulta realeza
………. …………..no escuro destas minas.

Sverdlovsk, 1928

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1 Em janeiro de 1928 Vladímir Maiakóvski visitou Sverdlóvsk, nome pelo qual foi rebatizada, em 1924, a cidade de Ekaterinburg. Nessa cidade foram fuzilados o último imperador da Rússia, Nikolai Romanov (o tsar Nicolau II) e sua família: a tsarina Aleksandra, o tsariévitch Aleksei, as quatro filhas, Anastássia, Maria, Tatiana e Olga; também os empregados e amigos que os acompanhavam no exílio. Sabe-se que isso aconteceu em 17 de julho de 1918, na Casa Ipátiev, residência onde estavam feitos prisioneiros. Mas ao longo de muitas décadas não se soube ao certo a localidade de seus corpos. Suspeitava-se que os tivessem lançado no fosso de uma mina abandonada, às margens do rio Iset, ou enterrado na floresta de Koptiaki, à beira da estrada que dava acesso à cidade.

Maiakóvski atendeu ao convite de Anatoli Ivánovitch Paramánov, presidente do comitê executivo distrital de Sverdlóvsk, para conhecer a cidade, onde chegou no dia 27 de janeiro. Durante os três dias de sua estadia, participou de reuniões com os estudantes e leu seus poemas aos trabalhadores das indústrias e mineiros. Teve tempo, também, de conhecer a Casa Ipátiev. Paramánov disse saber o local onde haviam enterrado o corpo do “Imperador” e Maiakóvski o quis ver pessoalmente. O trenó do comitê executivo os levou pela trilha nevada ao meio da floresta entre os cedros com marcações que indicariam o local exato. No entanto, resta dúvidas se nesse dia realmente encontraram o que procuravam. A Pavel Lavut, seu amigo e secretário, Maiakóvski confessou:

“Claro que ver a sepultura do tsar não tem a mínima importância. E, para falar a verdade, nada há para se ver. É difícil de encontrar, encontram ela por sinais, sendo um segredo conhecido só por certo grupo de pessoas. Mas para mim o que importa é passar a sensação de que, nesse lugar, partiu daqui o último réptil rastejante da última dinastia, que tanto sangue bebeu ao longo dos séculos”. (Lavut, 1963, p. 182)

O poema O Imperador divide-se em três estrofes. Na primeira, ao estilo de uma memória pessoal, o registro de um desfile, pela rua Tviérskaia em Moscou, da família Románov antes de sua queda. Na segunda, Maiakóvski descreve sua visita à sepultura do imperador em Sverdlóvsk. Diz, ao pé da letra: “Aqui há cedros/ com marcas de machado…/ e, sob os cedros,/ uma estrada/ e, nela –/ o imperador está enterrado”; assim, parodia uma passagem de Mikhail Liérmontov em O navio fantasma [Vozduchni korábl] (1840): “Há uma ilha nesse oceano…/ Nessa ilha há uma sepultura/ E nela o imperador está enterrado”. Liérmontov nestes versos fala de Napoleão, enterrado na ilha de Santa Helena; ao se aproximar o navio fantasma, levantando-se de sua sepultura, o imperador embarca na viagem miraculosa. Maiakóvski contrapõe, na seqüência do poema, a imagem do corvo de uma única cabeça, ironia com o símbolo da águia bicéfala, que estampava os brasões do Império russo. Quanto à sinistra moral da história, encerrada na última estrofe, uma observação interessante: nas anotações do poeta existe um rascunho diferente para o final, que soa muito ao contrário da versão escolhida para a publicação:

Com certeza que levanto as duas mãos
e voto contra.
Ousa as tuas levantar
para pôr fim à vida humana.
Eu não quero errar na curva.
Eles vivos poderiam ser mantidos num zoológico
entre a jaula da hiena e a do lobo.
Se o mínimo sentido não faziam como vivos,
tanto menos eles fazem sendo mortos desse jeito.
O jogo da história nós viramos,
para sempre se despeçam do que é velho:
um comunista, sendo homem,
não terá as suas mãos sujas de sangue.

ИМПЕРАТОР

Помню –
…………..то ли пасха,
то ли –
……. …рождество:
вымыто
………….и насухо
расчищено торжество.
По Тверской
………………..шпалерами
………………………………..стоят рядовые,
перед рядовыми –
………………………..пристава.
Приставов
……………..глазами
…………………………едят городовые:
– Вае благородие,
……………………….арестовать? –
Крутит
…………полицмейстер
………………………………за уши ус.
Пристав козыряет:
…………………………– Слушаюсь! –
И вижу –
……………катится ландо,
и в этой вот ланде
сидит
……….военный молодой
в холеной бороде.
Перед ним,
……………….как чурки,
четыре дочурки.
И на спинах булыжных,
……………………………….как на наших горбах,
свита
…….. за ним
……………….в орлах и в гербах.
И раззвонившие колокола
расплылись
……………….в дамском писке:
Уррра!
………..царь-государь Николай,
император
……………..и самодержец всероссийский!

Снег заносит
…………………косые кровельки,
серебрит
……………телеграфную сеть,
он схватился
…………………за холод проволоки
и остался
……………на ней
……………………..висеть.
На вбирь,
……………на весь Урал
метельная мура.
За Исетью,
……………..где шахты и кручи,
за Исетью,
……………..где ветер свистел,
приумолк
…………….исполкомовский кучер
и встал
…………на девятой версте.
Вселенную
………………снегом заволокло.
Ни зги не видать –
…………………………как на зло.
И только
…………..следы
  ………………….от брюха волков
по следу
…………..диких козлов.
Шесть пудов
…………………(для веса ровного!),
будто правит
…………………кедров полком он,
снег хрустит
.. … …………..под Парамоновым,
председателем
…………………..исполкома.
Распахнулся весь,
роют
……..снег
…………..пимы.
– Будто было здесь?!
Нет, не здесь.
………………….Мимо! –
Здесь кедр
……………..топором перетроган,
зарубки
………….под корень коры,
у корня,
………….под кедром,
…………………………..дорога,
а в ней –
…….. …..император зарыт.
Лишь тучи
……………..флагами плавают,
да в тучах
…………….птичье вранье,
крикливое и одноглавое,
ругается воронье.

Прельщают
………………многих
…………………………короны лучи.
Пожалте,
… ………..дворяне и шляхта,
корону
………..можно
………………….у нас получить,
но только
……………вместе с шахтой.

Свердловск, 1928

[O rascunho não publicado da última estrofe]:

Я вскину две моих пятерни
Я сразу вскину две пятерни
Что я голосую против
Я голосую против
Спросите руку твою протяни
казнить или нет человечьи дни
не встать мне на повороте
Живые так можно в зверинец их
Промежду гиеной и волком
И как не крошечен толк от живых
от мертвого меньше толку
Мы повернули истории бег
Старье навсегда провожайте
Коммунист и человек
Не может быть кровожаден

…………………….~//~


A APARIÇÃO DO CRISTO

Tragam rosas
………………..e tulipas
……………………………para a festa,
de branco vistam
……………………..as crianças.
À Europa
….. ………um novo Cristo
………………………………..manifesta-se
em Kellog, 1
…………….ministro
…….. …………………de ilustres alianças.
Esse Cristo
……………..caminhando pelas águas
……………………………………………..não se viu.
De última hora,
……. …………….vestindo um smoking,
chegava  a Paris
……………………de navio.
Esse Kellogg
……………….que pintam de Cristo
…………………………………………..não cola:
esse Cristo não tem
………………………..nem coroa ou casula.
Não obstante,
…………………a cartola está
…………………………………..laureada de dólar.
Mister Cristo
……………….as nações
…………………………….congratula.
Do sagrado coração,
em seu banquete
…………………….com os grandes
…………………………………………capitães,
erguem-se à paz
……………………na humanidade
suas taças
……………de champanhe.
Enquanto a nós
…………………..nos aparece
…………………………………..claramente
o que esconde
…………………esse Cristo
………………………………..em sua manga.
A sua manga
………………..está repleta…
…………………………………..adivinha:
de ianques,
……………..a mais forte
……………………………..frota aérea
e marinha,
…………….muito gás
………………………….em seus balões,
munições
……………em seus tanques.
Preparado
…………….o Cristo tem
…….. ……………………..um respeitável arsenal;
porém a pedra
…………………principal
……………………………..em sua manga
é que de ódio
………………..ele sangra,
dentre todas as nações,
…………………………….sobretudo
contra nós,
……………..os bolcheviques.
Antes que o Cristo,
……………………….sob o leque
………………………………………da palmeira,
abra a boca
……………..e uma guerra ele decrete, –
operário,
…………..camponês,
…………………………alerta fique!
Cerrai fileiras,
…………………Sovietes!

1928

rosta34

1 Frank B. Kellog – político, Secretário de Estado norte-americano e um dos autores, junto com o ministro francês Aristide Briand, do Pacto Kellog-Briand, ou “Tratado Geral para a Renúncia à Guerra como Instrumento de Política Nacional”. Ao acordo da França com os Estados Unidos, assinado também pela Alemanha em agosto de 1928, adeririram as principais potências mundiais. A União Soviética o assinou no ano seguinte. Kellog recebeu, ao mérito pelo seu Tratado, uma série de honrarias, incluindo o Prêmio Nobel da Paz em 1929. Maiakóvski esteve nos Estados Unidos em 1925, viu a sociedade capitalista em pleno funcionamento e se inteirou de seu poder industrial e bélico, o qual denuncia neste poema, discernindo o caráter precário da paz assinada nos tratados e a posição estratégica do exército na defesa nacional. De igual maneira procede em outro poema de 1928, Máximas-rimas [Lozungi-rifmi], ao dizer:

(…)
Já dez anos se passaram,
……………………………..o furor se aquieta.
Mas a guerra não cessou, 
……………………………..o inimigo está alerta.
Os dias rápido se agitam,
………………………………a batalha à porta bate.
Aprendei
………….como se marcha
………………………………nas fileiras do combate. (…)

Já a Tríplice Entente
………………………..movimenta o braço armado.
Baionetas sustentem,
…………………………em riste,
……………………………………soldados!

Debandou o inimigo…
…………………………..À distância o contemplais?
Aprendei,
………….cavalaria,
………………………a perseguir os generais.

Ouvis o vil sabotador
…………………………que sorrateiro ele se move?
Aprendei,
………….trabalhador,
………………………….a manejar vosso revólver.

Nosso século desfaz-se
…………………………..pelas mãos de homens de fraque.
Segurai,
………..frota vermelha,
…………………………..não deixai que ele naufrague!

A batalha não cessou,
………………………….é ilusório o armistício.
Pois se munam,
…………………comunistas,
……………………………….não com fogos
…………………………………………………de artifício.

O coração de toda pátria
……………………………..ao exército de funde.
Nosso Exército Vermelho
……………………………..é o poder desta República.
Mais firme liga
…………………não existe
……………………………..neste mundo.
Viva o Exército Vermelho,
………………………………viva nossa glória rubra.

ЯВЛЕНИЕ ХРИСТА

Готовьте
………….возы
…………………тюльпанов и роз,
детишкам —
………………..фиалки в локон.
Европе
………..является
…………………….новый Христос
в виде
………. министра Келлога.
Христос
……… …не пешком пришел по воде,
подметки
……………мочить
………………………неохота.
Христос новоявленный,
………………………………..смокинг надев,
приехал
………….в Париж
………………………пароходом.
С венком
…………..рисуют
……………………..бога-сынка.
На Келлоге
……………..нет
…………………..никакого венка.
Зато
……..над цилиндром
…………………………..тянется —
долларное сияньице.
Поздравит
……………..державы
…………………………..мистер Христос
и будет
…………от чистого сердца
вздымать
……………на банкетах
…………………………….шампанский тост
за мир
……….во человецех.
Подпишут мир
……………………на глади листа,
просохнут
……………..фамилии
…………………………..на́сухо, —
а мы
……..посмотрим,
………………………что у Христа
припрятано за пазухой.
За пазухой,
………………полюбуйтесь
…………………………………вот,
ему
……наложили янки —
сильнейший
………………..морской
…………………………….и воздушный флот,
и газы в баллонах,
………………………..и танки.
Готов
………у Христа
…………………..на всех арсенал;
но главный
………………за пазухой
………………………………камень —
злоба,
……….которая припасена
для всех,
…………..кто с большевиками.
Пока
……..Христос
…………………отверзает уста
на фоне
………….пальмовых веток —
рабочий,
…………..крестьянин,
……………………………плотнее стань
на страже
…………….свободы Советов.

1928

[Trecho de…]

ЛОЗУНГИ-РИФМЫ

(…)

Десять лет боевых прошло.
Вражий раж —
…………………..еще не утих.
Может,
…………скоро
…………………дней эшелон
пылью
………..всклубит
…………………….боевые пути.
Враг наготове.
…………………..Битвы грядут.
Учись
………шагать
………………..в боевом ряду. (…)

Готовится

……………к штурму
…………………………Антанта чертова —
учись
………атакам,
…………………штык повертывая.
  
Враг разбежится —
…………………………кто погонится?
Гнать златопогонников
………………………………учись, конница.
  
Слышна
………….у заводов
……………………….врага нога нам.
Учись,
……….товарищ,
…………………….владеть наганом.

Не век
………..стоять
………………….у залива в болотце.
Крепите
………….советский флот,
………………………………..краснофлотцы!
  
Битва не кончена,
……………………….только смолкла —
готовься, комсомолец
…………………………….и комсомолка.
  
Сердце
………..республика
………………………..с армией слила,
нету
…….на свете
………………..тверже сплава.
Красная Армия —
……………………….наша сила.
Нашей
………..Красной Армии
………………………………слава!

 …………………..~//~


SOBRE COMO CERTOS SECTÁRIOS

CHAMAM OS OPERÁRIOS PARA DANÇAR

“Nas alas da fábrica têxtil de Khalturin (Leningrado)
disseminou-se o panfleto com uma chamada
para ingressar em certa seita religiosa. 1
Os sectários prometem, a todos que entrarem em sua tribo secreta,
interessantes divertimentos; relações com a ‘boa’ sociedade;
noites com danças (foxtrot e charleston); etc.”

…………………………..(Da carta de um correspondente operário)

Choram
…………na fábrica –
…………………………de tanto dar risada.
Lêem-se as palavras
…………………………da chamada.
Convidam-nos,
…………………..a nós
………………………….os operários,
para um charleston
………………………..dançar
…………………………………com sectários.
A operária
…………….em manto brim,
todo bordado
………………..de corolas.
Quase não na principesca sociedade,
tu assim
…………ingressarás
……………………….para os carolas.
Com um foxtrot desse,
……………………………coração já regozija,
hás de virar
…. ………….oncinha e raposinha,
pernas bambas
………………….com o chicotinho em riste…
Apenas finja
……………….que a cabeça
………………………………..não existe.
Desnecessário
…………………insistir muito.
Operários
……………de todo o mundo,
…………………………………..para o baile!
Entrai
………para a dança,
pés à lambada
…………………e línguas à lambança.

Fácil o baú
……………..abrir do idólatra.
Basta tu
………….lançar a ele
…………………………um americano dólar.

1928

rosta20

   1 Havia na Rússia um grande número de “seitas”* religiosas. A maioria delas se formou no século XVII, após um cisma, na igreja ortodoxa russa, que levou à separação de grupos oposicionistas. O surgimento desses grupos, no seio da cultura camponesa, fez eclodir manifestações de religiosidade popular dos mais diversos matizes que, não obstante a perseguição de que eram vítimas, permaneceram ativas no medievo russo. A Rússia se modernizou de maneira abrupta e desigual; ao mesmo tempo em que nas cidades o movimento operário conduzia a Rússia, à frente de todas as nações, para a vanguarda da revolução socialista (que deveria ser uma superação do modo capitalista de produção), o país mal tivera tempo de superar o sistema feudal (visto que só em 1861 a servidão foi abolida no campo) e no geral continuava um país agrário e regido pelas tradições nacionais, incluindo um folclore muito presente na vida do povo e uma aguda concepção religiosa de mundo. Os acontecimentos históricos, submetidos a uma leitura escatológica pelo campesinato, fizeram multiplicar essas seitas e o número de seus integrantes que, segundo estimou o sociólogo Vatro Murvar, chegaria a ¼ da população russa na virada do século XIX para o XX (Agúrski, 1988, p. 492). Pressentindo que a ruptura revolucionária anunciava um novo mundo prometido, com esperança de cessar o jugo da Igreja, que ia abaixo junto à autocracia, e enfim conquistar a liberdade religiosa, os “sectários” participaram massivamente das revoluções de 1905 e 1917. Contudo, a perseguição voltou durante o regime soviético e, principalmente no período da coletivização forçada do campo entre 1928 e 1931, com a repressão à resistência camponesa, as seitas se dissiparam e muitos de seus fiéis desapareceram nas prisões.

Segundo se pode depreender deste poema, Maiakóvski se refere àquela seita que entrou para a história sob o nome de “flagelantes”, khlisti ou khlistovki. Na língua russa a palavra khlist significa flagelo, chicote. Entretanto, trata-se de uma corruptela do nome Khristi, que significa “Cristos” (era assim que se designavam seus líderes religiosos e profetas. Também em outros grupos existiam esses Cristos russos, um produto sincrético do messianismo herdado da igreja oriental em seu encontro com crenças panteístas remanescentes do antigo paganismo) (Cf. Etkind, 2013). Os rituais de êxtase dos khlisti incluíam manifestações excêntricas, como danças circulares, incorporações, glossolalia; mas os boatos de auto-flagelação e orgias sexuais (assim como o nome atribuído a eles foi, provavelmente, um trocadilho malicioso de seus inimigos) são obra das más línguas.

Por outro lado, Maiakóvski emprega um jogo de palavras entre batist, que designa um tecido conhecido em português, também pelo mesmo nome, e mais comumente por “cambraia” (segundo Houaiss, “tecido muito fino, translúcido e levemente lustroso, de algodão ou de linho, usado em lenços, adornos, roupa íntima feminina”) e baptisti, os cristãos batistas. Os batistas eram listados pelos russos no rol das “seitas” evangélicas, juntamente aos luteranos, adventistas, menonitas, metodistas, testemunhas de Jeová (pelo que se vê, a tolerância religiosa nunca foi, e até hoje não é, o forte da cultura russa). Na tradução, reproduzi esse jogo por meio do par “[tecido bordado de] corolas”, em referência às vestes camponesas, e “carolas”.

Maiakóvski muitas vezes usou de material jornalístico para criação de poesia. Nesse caso, ele se baseia na carta de um “correspondente operário”, um rabkor (sigla de rabotchni korespondiént). Rabkor, na União Soviética daquele tempo, era um operário que redigia artigos para os jornais sobre o cotidiano de sua empresa, o estado da produção, reportava problemas vivenciados pelos trabalhadores, etc. A carta, portanto, do correspondente operário sobre o panfleto dos sectários e a piada que gerou no ambiente da fábrica, revela algo da tensão experimentada por esses grupos religiosos em sua contradição com o ideal de um país cada vez mais avançado na modernidade, na ciência, na técnica industrial, etc. Maiakóvski, um apologeta desse ideal, procura separar, por meio de um chiste, a cultura operária e urbana da camponesa, arcaica, supersticiosa. A incompreensão, que gera a piada, como se os sectários chamassem os operários para um baile (foxtrot e charleston são danças de salão americanas), faz crer que o êxtase religioso, o espírito que animava as danças rituais, cujas raízes se desgarraram da antiga Rússia e não devem encontrar solo na Soviética, tornou-se incompatível com o conjunto da sociedade, perdeu seu sentido sob o novo ritmo da produção e não pode sequer ser reconhecido pelos operários da fábrica.

Mas há razões para crer que a carta do correspondente operário tenha sido inventada por Maiakóvski; nesse caso, o alvo da piada parece ser o poeta Andrei Biéli e seu livro Depois da Estrela [Pósle Zvezdí], publicado em 1923, em cujo prefácio consta o seguinte: “Atrai-me agora um tema diferente: à música como ‘via de iniciação’ sucedeu, para mim, o foxtrot, o boston, o jimmy; uma boa jazz band preferirei ao sino do Parsifal. Gostaria futuramente de escrever versos sob medida para o foxtrot” (Biéli, 1988, p.471). Quando de sua emigração da União Soviética em 1922, Biéli renunciou ao projeto místico que, em sua obra, fora representado principalmente pela influência da antroposofia. Mas foi em A Paloma de Prata [Serebriáni Golúb], seu romance publicado em 1910, que Biéli se interessara pelos flagelantes e o universo do sectarismo russo, tudo isso o que chamou “via de iniciação”, ao sugerir que o êxtase religioso das danças rituais se desencantava em jazz.

* Optei por traduzir literalmente do jargão russo sekta. Já o termo sektanti [sectários] foi ligeiramente alterado por Maiakóvski, no título do poema, para rimar com tantsi [danças], sektantsi.

О ТОМ, КАК НЕКИЕ СЕКТАНТЦЫ
ЗОВУТ РАБОЧЕГО НА ТАНЦЫ…

В цехах текстильной фабрики им.
Халтурина (Ленинград) сектанты разбрасывают
прокламации с призывом вступить в религиозные
секты. Сектанты сулят всем вступившим в их
секты различного рода интересные развлечения;
знакомство с “хорошим” обществом, вечера с
танцами (фокстротом и чарльстоном) и др.

………………………………………(Из письма рабкора).

От смеха
…………..на заводе –
…………………………..стон.
Читают
…………листья прокламаций.
К себе
………сектанты
……………………на чарльстон
зовут
………рабочего
…………………..ломаться.
Работница,
………………манто накинь
на туалеты
………………из батиста!
Чуть-чуть не в общество княгинь
ты
…..попадаешь
…………………..у баптистов.
Фокстротом
………………..сердце веселя,
ходи себе
……………лисой и пумой,
плети
………ногами
…………………вензеля,
и только…
……………..головой не думай.
Не нужны
…………….уговоры многие.
Айда,
………бегом
………………на бал, рабочие!
И отдавите
………………в танцах ноги
и языки
………….и прочее.

Открыть нетрудно
………………………..баптистский ларчик –
американский
…………………..в ларце
……………………………..долларчик.

1928

…………….~//~


ASSISTÊNCIA AO MINISTÉRIO

DOS ARTISTAS INSALUBRES
SOBRE O INCÔMODO MISTÉRIO,
O MISTÉRIO DE SEU CLUBE.

“A federação dos escritores soviéticos obteve uma casa
e organizará em Moscou o primeiro clube dos escritores” 1

…………………………………………………..(Notícia de jornal)

Não sei –
…………..se canto,
………………………se danço,
o sorriso
………….do rosto não sai.
Eis que enfim
………………..também terão
…………………………………..os escritores
o seu clube!
……………..Boa nova…
…………………………….Organizai!
Que desabroche
……………………e não broche
…………………………………….vossa trupe.
Escolher
………….bela mobília,
…………………………..porém sem exacerbar:
o gasto veludo
………………….de preço modesto.
Sentar
……….e com todo conforto
………………………………….por horas ouvir
do camarada Averbakh
……………………………a palestra.
A seguir,
………….em paixões imersos
os olhinhos
 ……………..se reviram
……………………………para dimensões outras:
simplório e ingênuo,
………………………….Moltchánov
………………………………………….lê versos
sob aplausos das garotas.
Cada qual
……………se sinta bem
…………………………….e à vontade.
E se levante –
…………………no momento crucial –
Vsiévolod Ivánov:
……………………..com seus contos
…………………………………………..nos agrade.
O século
………….em casinhas de estorninho
…………………………………………….não sentemos
como sentam
………………..os poetas
…………………………….nos saraus.
Quereis
…………ter com Tolstói
……………………………..e Oriéchin,
conversar
…………..entre garrafas
……………………………..de cerveja?
Simplória bebida,
……………………..a comida – igual,
como servida
………………..na bandeja.
Entreguemos
………………..a cantina
…………………………….à Narpita – 2
nada há
…………para o jantar!
O foxtrot
………….não se repita
e o jazz
………..com seus pandeiros
………………………………….não estorve
nossa obra…
……………….E com vocês
……………………………….conversará
o camarada Rodóv,
……………………….que ao tédio
………………………………………..não se dobra.
Que não haja
………………..esses jogos
……………………………….de bilhares,
nem ouçamos
…………………as bobagens
…………………………………dos inatos menestréis,
esses bardos vermelhos
……………………………..decorados de lauréis.
Tudo isso derrubem!
…………………………Ou deixem
……………………………………….que desabe
como os sábios
………………….escritores
………………………………no sofá.
Eis que vocês
………………..organizaram
…………………………………o tal clube…
E eis que eu
………………não tenho pernas
para os ver
…………….filosofar.

1928

rosta18

1 No título original em língua russa, Maiakóvski se refere às instituições soviéticas Narkompros e Glaviskusstvo, abreviações respectivamente de Narodni Komissariat Prosvechtchenia (Comissariado Popular da Educação) e Glavnoie Upravliénie po Diélam Khudójestvennoi Literaturi i Iskusstvo (Diretoria Geral para Assuntos de Literatura e Arte). A Glaviskusstvo, enquanto órgão governamental, consistia em um segmento da Narkompros. Já na epígrafe do poema se menciona uma associação literária, a Federação dos Escritores Soviéticos (FOSP). Criada em 1926 pela fusão da Associação dos Escritores Proletários de Toda a Rússia (VAPP) com a Sociedade dos Escritores Camponeses de Toda a Rússia (VOKP) e a União dos Escritores de Toda a Rússia (VSP), a “federação” centralizava uma série de organizações literárias que existiam na época e que, mais alinhadas com o governo, começavam a dar seus passos para trás. Maiakóvski então organizava-se na LEF, Assotsiatsia Rabotnikov Liévovo Fronta Iskusstva (Associação dos Trabalhadores da Frente de Esquerda da Arte). Como máximo representante do futurismo russo, forjado nos dias gloriosos da Revolução, Maiakóvski assumiu uma postura radical de denúncia contra a estagnação em que caíam as instituíções artísticas, um prenúncio da guinada conservadora nos órgãos estatais que, não demoraria muito, imporiam aos artistas mais experimentais uma ferrenha censura e perseguição. No tempo em que o poema foi escrito (1928), perdurava certa pluralidade de idéias, o suficiente para os poetas trocarem essas farpas; foi nesse contexto de debates ideológicos em torno da arte soviética que ocorreram as disputas entre Maiakóvski e seus rivais na vida artística e política. Os escritores e críticos de visão mais estreita, muitos deles invejosos de seu sucesso com as massas, dirigiam ataques a Maiakóvski nos jornais, infiltravam provocadores em suas apresentações, para o insultar. O poeta também era provocador, respondia brilhantemente aos bilhetinhos do público durante os debates em auditórios e golpeava seus adversários com toda a fúria de seus versos. Maiakóvski satirizou a burocratização da arte soviética e seu gradativo aburguesamento, do qual o “Clube” de escritores seria, em sua opinião, um sintoma. Neste poema, dá nome a alguns de seus adversários: Leopold Averbakh, Ivan Moltchánov, Vsiévolod Ivánov, Alexei Tolstói, Piótr Oriéchin. Sua rivalidade com Moltchánov, por exemplo, foi tema de disputas em jornais, onde Maiakóvski publicou poemas como Carta à amada de Moltchánov ou Reflexões sobre Ivan Moltchánov e a poesia. Quanto ao camarada (Semion Abramovitch) Rodov, formou um bloco à esquerda da RAPP (Associação Russa dos Escritores Proletários), quando esta se dividiu em 1926; por isso ganha uma menção positiva de Maiakóvski, que tem muitos inimigos na RAPP. Em 1929 o Comissário do Povo para a Educação, Anatoli Lunatchárski, sob cuja proteção Maiakóvski escrevia e a quem se devia a permanência de certas liberdades de expressão, foi substituído. Após as dissidências no seu próprio grupo e sentindo o cerco se fechar, Maiakóvski dissolveu a LEF e ingressou na RAPP. Isso não o impediu de ser ainda mais hostilizado pelos seus companheiros de ofício. A exposição organizada por Maiakóvski aos vinte anos de sua carreira literária, montada nas salas do Clube dos Escritores em Moscou, recebeu um duro boicote em fevereiro de 1930. Um mês e meio depois, seria também em uma dessas salas onde, ao longo de três dias ininterruptamente, as multidões passariam para se despedir do poeta que, de uma vez por todas, fechou seus ouvidos para os insultos. Em seu livro Maiakóvski, o Poeta da Revolução, Aleksandr Mikhailov registra um detalhe hilário da exposição, em que o poeta ridiculariza o ambiente almofadinha do Clube: “Maiakóvski introduziu um elemento de humor na organização e, em cada cupido modelado sobre as portas da segunda sala, colocou um lenço de pioneiro* de papel vermelho brilhoso” (Mikhailov, 2008, p. 506).**

* Pioneiros, organizações de comunistas-mirins nas escolas primárias da União Soviética.

** Sobre o debate de Maiakóvski e os futuristas no ambiente artístico aos primeiros anos da União Soviética, nunca é demais recomendar a obra de Boris Schnaiderman, A Poética de Maiakóvski através de sua Prosa, que inclui vários de seus manifestos traduzidos e comentados.  

2 Narpit, abreviatura de Narodnoie Pitanie (Alimentação Popular), projeto para a criação de cantinas populares com refeições a preços acessíveis para os trabalhadores (o “bandejão” soviético). A referência torna a aparecer no poema a seguir, O mais Sério Conselho a uma Dona de Casa.

ПОМОЩЬ НАРКОМПРОСУ,
ГЛАВИСКУССТВУ В КУБЕ,
ПО ЖГУЧЕМУ ВОПРОСУ,
ВОПРОСУ О КЛУБЕ

Федерация советских писателей получила дом
и организует в Москве первый писательский клуб.

……………………………………….. (Из газет).

Не знаю –
…………….петь,
……………………плясать ли,
улыбка
………..не сходит с губ.
Наконец-то
……………….и у писателя
будет
………свой
…………….клуб.
Хорошая весть.
Организовать
так,
……чтобы цвесть
и не завять.
Выбрать
………….мебель
……………………красивую самую,
оббитую
…………..в недорогой бархат,
чтоб сесть
…………….и удобно
…………………………слушать часами
доклад
………..товарища Авербаха.
Потом,
………..понятен,
…………………….прост
…………………………….и нехитр,
к небу
……….глаза воздевши,
пусть
………Молчанов
……………………читает стихи
под аплодисменты девушек.
Чтоб каждому
………………….чувствовалось
………………………………………хорошо и вольно,
пусть –
…………если выйдет оказийка –
встанет
…………и прочитает
………………………….Всеволод Иванов
пару, другую рассказиков.
Чтоб нам не сидеть
…………………………по своим скворешням –
так,
……как писатель
……………………..сидел века.
Хочется
………….встретиться
…………………………..с Толстым,
………………………………………….с Орешиным
поговорить
………………за бутылкой пивка.
Простая еда.
………………..Простой напиток.
Без скатертей
………………….и прочей финтифлюжины.
Отдать
………..столовую
……………………..в руки Нарпита –
нечего
………..разводить ужины!
Чтоб не было
…………………этих
……………………….разных фокстротов,
чтоб джазы
………………творчеству
………………………………не мешали, бубня, –
а с вами
………….беседовал бы
…………………………….товарищ Родов,
не надоедающий
………………………в течение дня.
Чтоб не было
…………………этих
……………………….разных биллиардов,
чтоб мы
………….на пустяках не старели,
а слушали
…………….бесхитростных
…………………………………красных бардов
и прочих
…………..самородков менестрелей.
Писателю
……………классику
………………………..мил и люб
не грохот,
…………….а покой…
Вот вы
………..организуйте
…………………………такой клуб,
а я
….туда…
…………..ни ногой.

1928

……………….~//~


O MAIS SÉRIO CONSELHO A UMA DONA DE CASA

A dona de casa
………………….camarada Brocolina 1
está hoje
…………..no pior
…………………….de seus humores.
E como haveria de ser diferente?
Na cozinha
…………….empesteada de vapores,
dezessete monstruosas
…………………………….e ferventes barbatanas
arreganham
………………uma multidão de dentes.
Dezessete
……………dos piores fogareiros
fumegando
……………..como fossem dezessete
……………………………………………os Vesúvios.
Da testa enxugando
………………………..o suor no avental,
camarada Brocolina
………………………..dá um grito
……………………………………….insolúvel:
“Tragam,
…………..sem elevador,
…………………………….ao 5º andar
18 quilos
…………..de batata!”
As rixas,
………….o lixo,
………………….os mexericos:
desde a louça acumulada
………………………………umas antenas se esticam…
De repente, uma delas
……………………………bate asas
………………………………………..e decola.
Pois comam a sopa
……………………….apesar das baratas!
Mal se encontra
……………………onde está a caçarola…
Esfregar
…………o dia inteiro
…………………………essas panelas!
Para os livros
………………..e jornais
……………………………o tempo falta.
Camarada Brocolina
…………………………já foi bela…
Porém isto não se enxuga:
seu rosto
…………..precoce
…………………….se enche de rugas!
São os ossos
………………do ofício?
O teu sofrimento é nosso,
camarada,
……………e todos têm a ver com isso.
Prometemos,
……………….nem que hajamos de comprar
promissórias de industrialização, 2
que uma fábrica ergueremos
……………………………………de alimento.
Nas cantinas da Narpita
………………………………o operário tome assento
e sem esforço nem sujeira
………………………………..a comer
………………………………………….na mesa bata:
“Eis uma bela refeição,
…………………………….boa e barata!”

1928

rosta40

1 Borchtchina, o nome bufo usado por Maiakóvski para designar sua personagem neste poema, deriva de borchtch, sopa de beterraba tradicional da culinária russa.

2 Zaióm industrializatsia, promissórias ou, mais ao pé da letra, “empréstimos de industrialização”, foi um sistema de crédito financeiro adotado pelo governo soviético em meados da década de 1920. Tinha por objetivo acelerar o processo de industrialização. Com o isolamento econômico do país pela imposição de sanções internacionais, ao passo em que se recuperava da crise após a guerra civil, o governo procurou captar recursos internamente mediante o investimento da população. Além de debater a condição da mulher sob a opressão do trabalho doméstico e a esperança de sua emancipação pela modernização da vida, que a indústria deveria prover, este poema de Maiakóvski é uma peça publicitária para a campanha de crédito financeiro. Em contrapartida, no lugar da cozinha improvisada nas habitações coletivas, a Narpit representa os benefícios da industrialização, a serem usufruídos pelo povo. Esquerdista radical, Maiakóvski sentia as contradições da Nova Política Econômica (NEP) e destilou o melhor de seu veneno (por exemplo, nos personagens de O Percevejo, 1928) contra a capitalização do Estado soviético. Por outro lado, sempre se dispôs a cooperar com a propaganda. O esquema propagandístico deste poema fica mais claro em vista de outro, escrito no mesmo ano de 1928, Produzam-se automóveis!, em que Maiakóvski se dirige aos pedestres e usuários do bonde e diz:

(…)
Inútil é
……….fingir pobreza
………………………..e por aí bufar a pé.
Agora falha-te a certeza?
Acaso pensas
……………….que um sonho
…………………………………isto é?
Tu hás de ter
………………um velocípede,
hás de ter
…………..um automóvel.
Que assim seja,
………………….se desejas
………………………………esta realização.
Pois participe de
…………………..uma iniciativa nova:
compre promissórias,
…………………………promissórias de industrialização. (…)

ВАЖНЕЙШИЙ СОВЕТ ДОМАШНЕЙ ХОЗЯЙКЕ

Домашней хозяйке
…………………………товарищу Борщиной
сегодня
…………испорчено
………………………..все настроение.
А как настроению быть не испорченным?
На кухне
…………..от копоти
…………………………в метр наслоения!
Семнадцать чудовищ
……………………………из сажи усов
оскалили
…………..множество
………………………….огненных зубьев.
Семнадцать
……………….паршивейших примусов
чадят и коптят,
……………………как семнадцать Везувиев.
Товарищ Борщина
………………………..даже орала,
фартуком
……………пот
…………………оттирая с физии –
«Без лифта
……………..на 5-й этаж
……………………………..пешкодралом
тащи
……..18 кило провизии!»
И ссоры,
………….и сор,
………………….и сплетни с грязищей,
посуда с едой
………………….в тараканах и в копоти.
Кастрюлю
…………….едва
……………………под столом разыщешь.
Из щей
………..прусаки
……………………шевелят усища –
хоть вылейте,
………………….хоть с тараканами лопайте!
Весь день
……………горшки
………………………на примусе двигай.
Заняться нельзя
…………………….ни газетой,
…………………………………….ни книгой.
Лицо молодое
………………….товарища Борщиной
от этих дел
………………преждевременно сморщено.
Товарищ хозяйка,
……………………….в несчастье твое
обязаны
………….мы
………………ввязаться.
Что делать тебе?
……………………..Купить заем,
Заем индустриализации.
Займем
…………и выстроим фабрики пищи,
чтобы в дешевых
………………………столовых Нарпита,
рассевшись,
……………….без грязи и без жарищи,
поев,
……..сказали рабочие тыщи:
«Приятно поедено,
…………………………чисто попито».

1928

[Trecho de…]

ДАЕШЬ АВТОМОБИЛЬ!

(…)
Нечего прибедниваться
……………………………….и пешком сопеть!
У тебя —
…………..не в сон, а в быль —
должен
…………быть
………………..велосипед,
быть
……..автомобиль.
Чтоб осуществилось
…………………………..дело твое
и сказкой
……………не могло казаться,
товарищ,
……………немедля
……………………….купи заем,
заем индустриализации.   (…)

………………..~//~


UMA DOENÇA UNIVERSAL

A Spartakiada Vermelha 1
………………………………a todo mundo contagia.
Nas casas
…………..o esporte
……………………….introduz-se hoje em dia.
O fortão e o fracote,
………………………..rapagão e rapazelho,
todo e cada cidadão
………………………..já mal contém a alegria.
Dispensando
……………….o caderno escolar
e espalhando pelo chão
…………………………….sumo vermelho,
o futebol
………….vês o filho
……………………….jogar
com a redonda melancia.
Mais roliço que a caleça,
alçando vôo
………………como fosse uma andorinha,
encontra forças não sei onde
o pai,
……..que tão depressa
uma corrida venceria
………………………….contra o bonde.
E o que é
…………..esse de águas
…………………………….burburinho,
a tarde inteira,
………………….no apartamento ao lado?
Vai saber nosso vizinho
no aperto da banheira
……………………………se meteu
numa competição a nado.
E para a filha
……………….com a palma
………………………………..caso acenes,
espumando atrás da mesa
………………………………..ela saca uma gaveta
para um súbito duelo
…………………………..de tênis.
Já mamãe
……………errou a curva,
……………………………..extraviou-se na loucura!
A empunhar,
……………….como uma lança,
……………………………………..o guarda-chuva,
o retrato na parede ela perfura.
E caso um forte estardalhaço
na cozinha
…………….tu ouvires,
é que tenta
……………..a cozinheira
……………………………..com o pires
treinar
……….lançamento de disco.
A esse encontro de família
…………………………………não me arrisco.
E ao sossego
……………….dê adeus,
……………………………se a doença prosseguir.
E, a despeito
……………….do verão,
……………………………para melhor correr daqui
deixo no jeito,
…………………ao alcance da mão,
………………………………………….meu esqui.
Nas casas
……………o esporte
………………………..introduz-se hoje em dia.
O fortão e o fracote,
………………………..rapagão e rapazelho,
a todo mundo contagia
…………………………….a Spartakiada Vermelha.

1928

rosta26

 1 Krasnaia Spartakiada, Spartakiada Vermelha. Spartakiadas eram campeonatos desportivos internacionais organizados pela Sportintern, associação ligada à Comintern, Internacional Comunista. A designação deriva do nome Spartaco, gladiador romano líder da maior revolta de escravos que Roma conheceu, no século I a.C. Spartaco foi representado na cultura soviética como o herói em que se prefiguraram, na antigüidade, os ideais do proletariado na luta de classes (conferir, por exemplo, o ballet de mesmo nome composto por Aram Khatchatúrian). A primeira das Spartakiadas aconteceu em Moscou, no verão de 1928. Maiakóvski voltou da turnê na Criméia para Moscou no dia 11 de agosto e presenciou essa “febre do esporte” na cidade. O evento abrangia diversas modalidades desportivas e procurava competir com os Jogos Olímpicos Internacionais. No inverno de 1928 a Spartakiada foi sediada em Oslo, no verão de 1931 em Berlin, em 1937 na Bélgica. Mais tarde a Sportintern se dissolveu e a União Soviética aderiu aos Jogos Olímpicos. O evento perdeu então sua dimensão internacional, dando lugar às “Spartakiadas dos Povos da União Soviética”. Maiakóvski neste poema brinca com o uso dos verbos russos, que podderjivat ou privietstvovat podem significar torcer, aplaudir alguém ou apoiar uma equipe, a não ser em se tratando de esportes, caso em que a palavra usada é boliét, que significa adoecer, estar doente de… 

ПОВАЛЬНАЯ БОЛЕЗНЬ

Красная Спартакиада
населенье заразила:
нынче,
………..надо иль не надо,
каждый
………….спорт
………………….заносит на дом
и тщедушный
………………….и верзила.
Красным
…………..соком
…………………..крася пол,
бросив
………..школьную обузу,
сын
……завел
…………..игру в футбол
приобретенным арбузом.
Толщину забыв
……………………и хворость,
легкой ласточкой взмывая,
папа
……..взял бы
………………..приз на скорость,
обгоняя все трамваи.
Целый день
……………….задорный плеск
раздается
…………….в тесной ванне,
кто-то
……….с кем-то
…………………..в ванну влез
в плавальном соревнованьи.
Дочь,
………лихим азартом вспенясь,
позабывши
………………все другое,
за столом
……………играет в теннис
всем
……..лежащим под рукою.
А мамаша
…………….всех забьет,
ни за что не урезоните!
В коридоре,
……………….как копье,
в цель
……….бросает
………………….рваный зонтик.
Гром на кухне.
…………………..Громше,
………………………………больше.
Звон посуды,
…………………визгов трельки,
то
….кухарка дискоболша
мечет
……….мелкие тарелки.
Бросив
…………матч семейный этот,
склонностью
…………………к покою
…………………………….движим,
спешно
…………несмотря на лето,
навострю
……………из дома
……………………….лыжи.
Спорт
……….к себе
………………..заносит на дом
и тщедушный
………………….и верзила.
Красная Спартакиада
населенье заразила.

1928

…………. ~//~


A GALOPE NA GARUPA DOS POETAS

Na revista
……………“Krasnaia nov”
………………………………..certo Tálnikov 1
escreve,
…………jocoso e audaz,
……………………………..de meus poemas
que a lira
…………..eu troquei
…………………………pelo lambaz
e agitador
……………na Europa
…………………………minha pena
sem propósito agitei
………………………….às estribeiras,
como só palavra imprópria
………………………………….eu dizia
e por acaso,
……………..se avistasse alguma freira
(ou quem sabe
…………………alguém do naipe
……………………………………….de Chaliápin)
redobrava a grosseria…
……………………………..Com a barba
vemos, pois,
……………….crescer também
…………………………………….sabedoria.

Ensinai-me dois mais dois,
………………………………….cabeças cultas
que adorais
……………..sob a tutela
……………………………..da querida governanta
passear
………..de calças curtas.
A patifes e moleques
………………………….eu sem dó
reduziria esses senhores,
……………………………….numa pincelada só.
Porém não quero praguejar,
…………………………………..pelo contrário –
o que desejo é compreender
…………………………………..e perdoar o adversário.
E por que ofenderia esses boçais?
Vinde aprender,
…………………..almofadinhas,
……………………………………..escutai!
Pudesse a governanta
…………………………..informar-vos
(sobre isso também cantam
…………………………………..as canções),
saberíeis
………….que há dez anos
……………………………….entre nós
ocorreu a maior
……………………das revoluções.
Foi a lira
………….esmagada
……………………….pelo aço
…………………………………..dos fuzis.
E, levando embora
………………………seus líricos dons,
escapuliu Severiánin,
………………………….escapuliu Balmont 2
e todos vós
……………..que só melaço
………………………………..produzis.
Lambaz, agitação
……………………..na Europa
…………………………………..não se atura.
Tudo o que têm
…………………..é alta costura
…………………………………….de baixa estatura.
Para vós
………….e para nós,
para ambos o que havia
eram coreus,
……………….eram iambos…
Pressionava, todavia,
……………….    ………o exército branco,
de norte a sul
………………..do caído império,
e precisávamos gritar
a turbilhões,
……………….a canhões
…………………………….e impropérios.
Doces versos
……………….podeis ler
…………………………….de cortesãs
e entreter vossas visitas
……………………………..recostados em divãs…
Ensinou-nos
……………….a história
……………………………a escrever
como diante
……………….de uma grande escarradeira –
e na escória
……………..escarrar
………………………..há quem não queira?
Nós te vamos perseguir
…………………………….por todos os países
onde pises
…………….tu, larápio
que de dólares nutrido,
e teus queridos
…………………..Chaliápins.

Não às velhas
………………..vossas trovas
lançarei
…………a minha âncora –
às lustrosas orelhas
………………………..meus versos estorvam,
um escândalo
………………..as rimas
…………………………..às escâncaras.
A esmo não ando
……………………..de queixo caído
pelos vossos coliseus,
…………………………..museus
…………………………………….e templos.
Pasmem.
…………..Que a revolução
………………………………..não vos dê paz nem
o marasmo
……………..de outros tempos.
Das maravilhas que criei
………………………………não me envaideço:
dos poemas
………………penso às vezes
que é como
……………..se mordesse,
se apenas mordesse
………………………..o pior dos burgueses.
A meu ver,
…………….é um medíocre confesso
o poeta
………..que ao século
………………………….seus olhos arregala.
Adeus Tálnikov,
…………………..que tenho pressa!
Chilreie
…………sem mim
……………………..em seu traje de gala.
A galope
………….na garupa
……………………….dos poetas,
dar com eles
……………….testa a testa.
Com os versos
…………………enlaçá-los,
………………………………..feito asnos.
E a quê
………..há de servir
……………………….herança desta?
Nas revisas
……………..vosso poço
……………………………de marasmo.

1928

rosta22

1 Maiakóvski colaborava com a revista Krasnaia nov desde sua fundação em 1921. Em agosto de 1928 a mesma revista publicou de um jovem escritor, David Tálnikov, um artigo bombástico onde criticava as crônicas de Maiakóvski sobre suas viagens ao estrangeiro, referindo-se a elas como “falsidade vermelha”. Maiakóvski demitiu-se da revista e fez publicar nos jornais este seu poema.    

2 A Revolução de 1917 e os anos da guerra civil provocaram uma “onda” de emigrantes que saíram do país para tentar a vida no estrangeiro. A comunidade dos emigrados russos era especialmente numerosa em certos países como a França e os Estados Unidos. Entre eles havia ex-oficiais do Exército Branco derrotados na guerra, ex-nobres e ex-donos de terra, famílias que tiveram posses ou cargos importantes no Império russo, muitos clérigos e fiéis ortodoxos, perseguidos políticos do novo regime… Havia ainda uma variada gama de artistas e intelectuais de opiniões diversas (na época começavam a surgir os eurasianos e russos emigrados simpatizantes do bolchevismo). Maiakóvski viajou para a América (Cuba, México, Estados Unidos)* e Europa (Espanha, França, Alemanha, Inglaterra…) como uma espécie de embaixador da cultura soviética. A encargo da ROSTA, companhia de notícias e propaganda estatal, o poeta projetava seus cartazes – Maiakóvski era artista plástico de formação –, lia seus poemas, discursava, respondia a entrevistas, etc. Naturalmente, deparou-se com artistas refratários aos ideais de Outubro e ao futurismo engajado; o poeta cita os nomes de alguns: Fiórdor Chaliápin, Ígor Severiánin, Konstantin Balmont; todos estes que, àquele tempo, viviam em Paris.

* Conferir o livro de Maiakóvski Minha Descoberta da América, traduzido para a língua portuguesa por Graziela Schneider (Martins Fontes, 2007).

ГАЛОПЩИК ПО ПИСАТЕЛЯМ
  
Тальников
……………..в «Красной нови»
………………………………………про меня
пишет
……….задорно и храбро,
что лиру
…………..я
……………..на агит променял,
перо
……..променял на швабру.
Что я
………по Европам
……………………….болтался зря,
в стихах
………….ни вздохи, ни ахи,
а только
………….грублю,
…………………….случайно узря
Шаляпина
……………..или монахинь.
Растет добродушие
………………………….с ростом бород.
Чего
……..обижать
…………………маленького?!
Хочу не ругаться,
………………………а, наоборот,
понять
…………и простить Тальникова.
Вы молоды, верно,
…………………………сужу по мазкам,
такой
……….резвун-шалунишка.
Уроки
……….сдаете
………………..приятным баском
и любите
……………с бонной,
…………………………на радость мозгам,
гулять
………..в коротких штанишках.
Чему вас учат,
…………………..милый барчук, –
я
..вас
……..расспросить хочу.
Успела ли
…………….бонна
…………………….вам рассказать
(про это –
……………..и песни поются) –
вы знаете,
…………….10 лет назад
у нас
……..была
…………….революция.
Лиры
………крыл
……………..пулемет-обормот,
и, взяв
………..лирические манатки,
сбежал Северянин,
…………………………сбежал Бальмонт
и прочие
……………фабриканты патоки.
В Европе
……………у них
……………………ни агиток, ни швабр –
чиста
……….ажурная строчка без шва.
Одни –
…………хореи да ямбы,
туда бы,
………….к ним бы,
………………………..да вам бы.
Оставшихся
……………….жала
………………………белая рать
и с севера
…………….и с юга.
Нам
…….требовалось переорать
и вьюги,
…………..и пушки,
……………………….и ругань!
Их стих,
………….как девица,
………………………….читай на диване,
как сахар
…………….за чаем с блюдца, –
а мы
……..писали
………………..против плеваний,
ведь, сволочи –
……………………..все плюются.
Отбившись,
……………….мы ездим
…………………………….по странам по всем,
которые
…………..в картах наляпаны,
туда,
……..где пасутся
……………………..долларным посевом
любимые вами –
………………………..Шаляпины.
Не для романсов,
……………………….не для баллад
бросаем
…………..свои якоря мы –
лощеным ушам
…………………….наш стих грубоват
и рифмы
……………будут корявыми.
Не лезем
……………мы
………………..по музеям,
на колизеи глазея.
Мой лозунг –
………………….одну разглазей-ка
к революции лазейку…
Теперь
………..для меня
…………………….равнодушная честь,
что чудные
……………….рифмы рожу я.
Мне
…….как бы
………………только
………………………..почище уесть,
уесть покрупнее буржуя.
Поэту,
……….по-моему,
……………………..слабый плюс
торчать
………….у веков на выкате.
Прощайте, Тальников,
……………………………..я тороплюсь,
а вы
……..без меня чирикайте.
С поэта
…………и на поэта
………………………..в галоп
скачите,
…………..сшибайтесь лоб о лоб.
Но
….скидывайте галоши,
скача
……….по стихам, как лошадь.
А так скакать –
…………………….неопрятно:
от вас
……….по журналам…
…………………………….пятна.
  
1928

………………~//~


JÚBILO DAS ARTES

Pobre,
……….pobre Púchkin!
Nas rosadas orelhinhas
……………………………..de uma dama
os seus versos
…………………se derramam.
Que à alta
……………e restrita
……………………….sociedade,
aos salões de visita
……………………….ele brade.
Tenho pena
………………desses lábios
que entre alfombras e almofadas
…………………………………………se consomem.
Para eles
………….eu daria
…………………….um microfone.

Mússorgski?
……………….Pobre, pobre dele!
Esse som de pianola
…………………………de que vai adiantar?
Que rodopia no aperto
…………………………….e nas cortinas se enrola
dessas salas de concerto
………………………………ou de jantar.

Pobre,
……….pobre Herzen!
Como sino na campana,
………………………………seu vibrante miocárdio.

À toda a Rússia vibraria,
………………………………se houvesse então
……………………………………………………….o rádio.

Pois jubilem de alegria,
escritores,
……………musicistas,
………………………….artesãos do pensamento!
Hoje o rádio
………………os ressuscita
……………………………….do mortal esquecimento!
As palavras de ordem
…………………………..e canções hoje correm
pela inteira extensão
………………………….do mapa mundi. 1
Próximos estamos
………………………das orelhas
……………………………………..de milhões –
o brasileiro,
……………..o esquimó,
……………………………o espanhol,
…………………………………………..o urdmurti.
Abaixo
………..os estofados
…………………………dos salões!
Que murmure
…………………solitário
…………………………….o bacharel…
Estou contente
…………………..por vivermos neste tempo
em que se canta
…………………..pelos céus.

1928

rosta21

1 Aleksandr Mikhailov relata o seguinte episódio:
  
Vladímir Vladímirovitch [Maiakóvski] se apresentava com a leitura de poemas no rádio. Tal possibilidade de se comunicar com um público grande ainda o seduzia. Perguntou ao diretor da rádio se muita gente iria ouvi-lo. A resposta foi solene: ‘O mundo inteiro!’ Maiakóvski respondeu: ‘Não preciso de mais’” (Mikhailov, 2008, p. 476)
  
СЧАСТЬЕ ИСКУССТВ
  
Бедный,
………….бедный Пушкин!
Великосветской тиной
дамам
……….в холеные ушки
читал
……….стихи
……………….для гостиной.
Жаль –
…………губы.
Дам
…….да вон!
Да в губы
……………ему бы
да микрофон!
  
Мусоргский –
………………….бедный, бедный!
Робки
……….звуки роялишек:
концертный зал
……………………..да обеденный
обойдут –
…………….и ни метра дальше.
  
Бедный,
………….бедный Герцен!
Слабы
……….слова красивые.
По радио
…………..колокол-сердце
расплескивать бы
………………………..ему
………………………………по России!
 
Человечьей
………………отсталости
………………………………жертвы –
радуйтесь
…………….мысли-громаде!
Вас
……из забытых и мертвых
воскрешает
………………нынче
………………………..радио!
Во все
……….всехсветные лона
и песня
…………и лозунг текут.
Мы
……близки
……………..ушам миллионов –
бразильцу
……………..и эскимосу,
………………………………испанцу
…………………………………………..и вотяку.
Долой
……….салонов жилье!
Наш день
……………прекрасней, чем небыль…
Я счастлив,
………………что мы
………………………..живем
в дни
………распеваний по небу
  
1928

………………~//~  


SOBRE AS DIFERENÇAS DE GOSTO

Põe-se
……….o cavalo ao camelo
………………………………..a aborrecê-lo:
“Não fosse o bastante,
……………………………um jegue-gigante!”
Põe-se
……….o camelo ao cavalo
………………………………..a estorvá-lo:
“Acaso um cavalo tu és?
………………………………Está claro que não.
Dentre os mais reles pangarés,
………………………………………um camelo-anão”.
E só o deus,
………………velho barbudo,
………………………………….compreende:
Eles são,
………….mais do que tudo,
………………………………….de espécies diferentes.

1928

rosta13

СТИХИ О РАЗНИЦЕ ВКУСОВ

Лошадь
………..  сказала,
………….  ……….взглянув на верблюда:
«Какая
………..гигантская
……………………….лошадь-ублюдок».
Верблюд же
……………….вскричал:
……………………………..«Да лошадь разве ты?!
Ты
…..просто-напросто —
………………………………верблюд недоразвитый».
И знал лишь
………………..бог седобородый,
что это —
……………животные
………………………….разной породы.

1928

……………~//~


CARTA DE PARIS AO CAMARADA KOSTRÓV SOBRE A NATUREZA DO AMOR

Queira desculpar-me,
…………………………..camarada Kostróv, 1
com sua inconfundível
…………..                   ….presença de espírito,
que hoje
………….eu desperdice essas estrofes

em Paris
………….neste imprevisto jorro lírico.

Caso assim imaginares:
……………………………..um poeta
………………………………………….desse porte,
como pode
…………….assim portar-se?
Belo talhe,
…………….toda ornada
…………………………….de pelagens
……………………………………………e colares,
no recinto entra uma dama.
Devo a verdade informar-lhe:
Camarada!
…………….Eu na Rússia
……………………………..já galguei o rol da fama.
Já tive
………as mais belas
………………………..garotas.
Todas elas
…………….dos poetas
………………………….se enamoram.
Bem mais que cantadas marotas,
apreciam
…………..o vigor
…………………….da voz sonora.
Mas a mínima não dou
…………………………….a passageiros sentimentos, –  
para isso
…………..estou já gasto.
Eu, ferido
……………para sempre
…………………………….de amor,
a muito custo
…………………que me arrasto.
O amor não meço pelo casamento.
Deixou de amar?   
…………………….Até nunca mais!
Da altura em que estou,
……………………………..camarada,
eu
….nas cúpulas de tuas catedrais
lanço celeste
……………….cusparada.
As mulheres,
……………….custaria conquistar-lhes?
Se quiseres
……………..entrar em detalhes,
a zombar
…………..livre se sinta,
o nome meu
………………no mundo caia.
Eu
….no auge dos meus trinta
não me rendo
…………………a qualquer rabo de saia.
Não se pode
………………com carvões
……………………………….abrasar,
ferver tampouco
……………………o amor
……………………………..em samovar.
Às montanhas
………………….do meu peito
e à selva dos cabelos
………………………….o amor se sobrepôs.
Se quiseres
……………..do amor
………………………..o meu conceito,
ei-lo pois:
……………só poderei acreditar
em um amor
……………….que força tenha
de a noite
………,…..atravessar
…………………………como relâmpago
e no golpe
…………….do machado
…………………………….cortar lenha
como se de brincadeira
…………………………….na vereda do meu âmago.
Amar
……..é despencar
……………………..pelos buracos do lençol –
cair do sol
……………e não da cama!
Enciumar-se de Copérnico
e não
……..de qualquer verme com
dinheiro e belas damas.
Amor
……..é o que age
……………………revivendo as engrenagens 
no motor
…………..do coração.
Tu rompeste
……………….com Moscou
………………………………..a ligação…
Os anos passam,
……………………a distância se amplia…
Poderias
………….sobre isso
……………………….dar alguma explicação?
Do inferno
…………….o fosso
………………………aos celestes
……………………………………..azuis, –
poeta não fosse,
……………………eu astrônomo seria.
Já a rua alvoroçou-se,
…………………………..o trânsito flui.
Eu vou
……….no caderno
………………………escrevendo poesia
e, por mais
…………….que pela via
…………………………….os carros zanzem,
não o vão deitar por terra.
Se alguém
……………me vê na praça:
…………………………………esse aí
…………………………………………está em transe!
De idéias e visões
……………………..toda a massa
que no crânio
………………..até as tampas
………………………………….se encerra.
E quem sabe até num urso
…………………………………crescerá um par de asas?
De repente,
……………..no ordinário refeitório,
……………………………………………um susto:
aquilo tudo que fervia
…………………………..entre a alma e a caderneta
da garganta
………………às estrelas
…………………………….extravaza:
um cometa
……………..o verbo em brasa.
Ele brilha
…………..com seu rabo
…………………………….sideral:
a ardente plumagem
…………………………que atravessa o universo.
Se à noite
……………na relva
………………………deitar um casal,
a olhar para o céu
………………………o convide meu verso.
O cometa levanta
……………………..e conduz
…………………………………e fustiga –
com sede de luz
…………………..os olhos se abrem.
Para que rolem
…………………..dos pescoços
……………………………………as cabeças inimigas,
o rabo
………reluz
……………..como um sabre.
Até que a última batida
……………………….,…..soe em meu interior,
terei certeza –
…………………estou amando.
Eis o zumbido do amor:
…………………………….simples, humano.
Quase explode
………………….o caldeirão
………………………………..de pedra e lava,
o estrondo
…………….do vulcão
…………………………é iminente.
Há quem possa
………………….dominá-lo
………………………………..com palavras?
Podes tu?
……………Pois vai em frente.

1928

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

1 Maiakóvski desembarcou em Paris no dia 15 de outubro de 1928. O objetivo da viagem era o de costume: ler para os russos emigrados seus poemas vermelhos, anunciar a nova realidade soviética, etc. Decerto que o amor não estava previsto como tema oficial. Entretanto, o férreo Maiakóvski estava amando. Sobre esse sentimento fala em sua Carta ao Camarada Kostróv e também no poema que se lerá a seguir, Carta a Tatiana Iákovlevna. Este último não se publicou em vida. Mas a Carta a Kostróv foi incluída pelo próprio Taras Kostróv (pseudônimo de Aleksandr Martinóvski) na revista, da qual era editor, Molodáia Gvárdia. Kostróv já editava os poemas de Maiakóvski na Komsomólskaia Pravda e tinha com ele, além da relação profissional, uma sincera amizade. A crítica reagiu com ferocidade à publicação, denunciando um suposto desvio em relação à conduta que o poeta deveria ostentar enquanto divulgador do ideário soviético e embaixador do país no estrangeiro. Mesmo porque Tatiana Iákovlevna era uma russa emigrada: ela deixou a União Soviética em 1925. Em Paris, participou na cena da moda em Monteparnasse, confeccionando chapéus, e sua beleza atraiu a atenção da alta sociedade parisiense. Uma união tão antitética como a dela com Maiakóvski gerou burburinho. A indomável explosão lírica (como não se via desde seus poemas dedicados a Lília Brik em 1923), sobrepondo-se ao caráter pragmático de seu verso social, conferiu a essas duas Cartas um lugar de destaque na obra de Maiakóvski, testemunho de seu profundo envolvimento amoroso. Os dois passaram um mês e meio juntos em Paris; Maiakóvski pretendia se casar com Tatiana Iákovlevna, desde que satisfeita uma condição: ela deveria voltar com ele para a União Soviética. O poeta combinou de voltar a Paris para buscá-la em fevereiro próximo. O que se sabe a respeito dessa tenção diplomática entre o casal provém de algumas cartas que se preservaram daquele tempo. Tatiana Iákovlevna correspondia-se com a mãe, que permaneceu na União Soviética: “Maiakóvski me fustigou, me obrigou a pensar e, o mais importante, a me lembrar da Rússia”, disse ela, “Ele estimulou em mim a saudade pela Rússia e por todos vocês. Quase voltei” (MIKHAILOV, p. 470). Maiakóvski escreveu a Tatiana um telegrama: “Pense e concentre as idéias (depois junte seus pertences) e teste com o coração minha esperança de agarrá-la com as patas e levá-la para minha casa, para Moscou” (Idem, pág. 483). Ademais, é essencialmente essa a mensagem de sua Carta a Tatiana Iákovlevna. Maiakóvski não conseguiu trazê-la consigo da nova estadia em Paris de fevereiro a abril de 1929. Prometeu voltar mais uma vez em outubro e depositava esperanças nesse terceiro encontro. Mas aconteceu algo inesperado: seu passaporte foi retido e o poeta não pôde deixar a União Soviética. Supõe-se que as autoridades o impediram de viajar a fim de evitar um eventual casamento em Paris. Maiakóvski informou Iákovlevna sobre o cancelamento da viagem. Soube, pouco depois, que ela se tornara noiva de um janota francês, Du Plessis. O esgotameto emocional (inclusive por um novo desastre afetivo com Verônika Polónskaia), reflexo também de um recrudecimento na esfera política e profissional (que culminou no boicote à exposição sobre os vinte anos de sua carreira), levou o poeta ao suicídio em 14 de abril de 1930. Os jornais se preocuparam em estampar seu poema de despedida, sobre o barquinho destroçado do amor, ressaltando que “seu suicídio foi provocado por motivos de ordem estritamente particular e não tem nenhuma ligação com a atividade social e literária do poeta” (Idem, pág. 533).

Obs.: ambos os poemas, Carta ao Camarada Kostróv e Carta a Tatiana Iákovlevna, já foram traduzidos para a língua portuguesa; o primeiro por Augusto de Campos, publicado originalmente na antologia Poesia Russa Moderna (Perspectiva, 1968 1ª ed.) e incluído recentemente na edição ampliada de Maiakóvski – Poemas (Perspectiva, 2017); o segundo por Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman, cf. Maiakóvski – Poemas (Idem). Seus últimos fragmentos, alguns dos quais Maiakóvski incluiu em seu bilhete de despedida (“a canoa do amor se quebrou no cotidiano…”), foram também traduzidos por Augusto de Campos na mesma edição.

ПИСЬМО ТОВАРИЩУ КОСТРОВУ ИЗ ПАРИЖА О СУЩНОСТИ ЛЮБВИ

Простите
……………меня,
……………………товарищ Костров,
с присущей
……………….душевной ширью,
что часть
……………на Париж отпущенных строф
на лирику
…………….я
……………….растранжирю.
Представьте:
…………………входит
…………………………..красавица в зал,
в меха
……….и бусы оправленная.
Я
..эту красавицу взял
……………………………и сказал:
— правильно сказал
………………………….или неправильно?—
Я, товарищ, —
…………………..из России,
знаменит в своей стране я,
я видал
…………девиц красивей,
я видал
…………девиц стройнее.
Девушкам
…………….поэты любы.
Я ж умен
…………..и голосист,
заговариваю зубы —
только
………..слушать согласись.
Не поймать
………………меня
……………………..на дряни,
на прохожей
………………..паре чувств.
Я ж
……навек
……………любовью ранен —
еле-еле волочусь.
Мне
…….любовь
………………не свадьбой мерить:
разлюбила —
…………………уплыла.
Мне, товарищ,
…………………..в высшей мере
наплевать
…………….на купола.
Что ж в подробности вдаваться,
шутки бросьте-ка,
мне ж, красавица,
……………………….не двадцать,—
тридцать…
……………..с хвостиком.
Любовь
………….не в том,
……………………..чтоб кипеть крутей,
не в том,
…………..что жгут угольями,
а в том,
…………что встает за горами грудей
ад
….волосами-джунглями.
Любить —
…………….это значит:
…………………………….в глубь двора
вбежать
………….и до ночи грачьей,
блестя топором,
…………………….рубить дрова,
силой
………своей
………………играючи.
Любить —
…………….это с простынь,
………………………………….бессонницей рваных,
срываться,
……………..ревнуя к Копернику,
его,
……а не мужа Марьи Иванны,
считая
………..своим
………………..соперником.
Нам
…….любовь
………………..не рай да кущи,
нам
……любовь
……………..гудит про то,
что опять
…………….в работу пущен
сердца
………..выстывший мотор.
Вы
…..к Москве
……………….порвали нить.
Годы —
…………расстояние.
Как бы
………..вам бы
………………….объяснить
это состояние?
На земле
…………..огней — до неба…
В синем небе
…………………звезд —
…………………………….до черта.
Если бы я
…………….поэтом не был,
я б
….стал бы
……………..звездочетом.
Подымает площадь шум,
экипажи движутся,
я хожу,
………..стишки пишу
в записную книжицу.
Мчат
………авто
…………….по улице,
а не свалят наземь.
Понимают
……………..умницы:
человек —
……………..в экстазе.
Сонм видений
…………………..и идей
полон
……….до крышки.
Тут бы
……….и у медведей
выросли бы крылышки.
И вот
……..с какой-то
……………………грошовой столовой,
когда
………докипело это,
из зева
………..до звезд
……………………взвивается слово
золоторожденной кометой.
Распластан
………………хвост
……………………..небесам на треть,
блестит
…………и горит оперенье его,
чтоб двум влюбленным
………………………………на звезды смотреть
из ихней
……………беседки сиреневой.
Чтоб подымать,
…………………….и вести,
………………………………..и влечь,
которые глазом ослабли.
Чтоб вражьи
………………..головы
………………………….спиливать с плеч
хвостатой
…………….сияющей саблей.
Себя
……..до последнего стука в груди,
как на свиданье,
……………………..простаивая.
прислушиваюсь:
……………………..любовь загудит —
человеческая,
…………………простая.
Ураган,
…………огонь,
…………………вода
подступают в ропоте.
Кто
…..сумеет совладать?
Можете?
………….Попробуйте…

1928

……………~//~

CARTA A TATIANA IAKOVLEVNA

No beijo, quer seja
……………………….das mãos ou dos lábios,
no corpo fremente
………………………ao qual junto me deito,
a cor rubra
……………flameje
……………………..das repúblicas que trago
como um lábaro
……………………ao peito.
Eu não amo
………………esse amor parisiense,
cadelinha aristocrata.
…………………………..Espreguiçando-me o dispense.
Aos cães raivosos
……………………..da paixão
…………………………………..eu digo “Senta! Dá a pata!”
Meu instinto não atura
…………………………….tanta seda
nem os leques
…………………nos cafés
…………………………….que se abanam.
Sobrancelha a sobrancelha,
só você
………..é quem está
………………………..à minha altura,
e sobre esta
……………..grande noite
………………………………me conceda
que eu narre
………………em voz humana.
Madrugada,
………………cinco horas.
………………………………A cidade populosa
está deserta
………………como um bosque.
……………………………………..Abandona-se ao sono.
Dos atritos
……………..ouço só os que
apitam
………..com os trens
…………………………que rumam para
………………………………………………Barcelona.
Clarão  
……….que arranha
……………………….o cume
…………………………………do céu,
trovão de injúrias
……………………..no drama da noite…
Não é furacão
…………………o imenso escarcéu,
mas só o ciúme
…………………..movendo montanhas.
Não calo
………….o calão
……………………das palavras afoitas.
Não receie
…………….esta besta
………………………….em que cavalgo –
porei freio,
…………….porei rédea
……………………………a sentimento como este,
um arrebento
…………………de fidalgos.
Esse drama
……………..em prosa e verso
……………………………………não se encarna
sem que em crostas ele caia,
……………………………………feito sarna.
Ao diabo
………….com as lágrimas
……………………………….ciumentas que verti,
como das pálpebras inchadas
……………………………………..de um Vii. 1
Sinto ciúme
………………não por mim,
………………………………..mas pela Rússia Soviética.
A tísica eu vi
……………….lamber das costas os remendos,
cem milhões
……………….na mais porca
………………………………….das misérias
na moléstia apodrecendo.
………………………………..Não é culpa minha…
Nós fizemos nossa parte,
……………………………….sem modéstia –
os problemas
………………..que hoje temos
……………………………………são fichinha.
Mas nem tudo
…………………se endireita
………………………………..com esporte, –
nós de ti
………….necessitamos
……………………………em Moscou:
um par de pernas
……………………..desse porte
…………………………………….raridade se mostrou.
Após a tifo
…………….atravessares,
……………………………..todo tipo
………………………………………….de imundícia,
haverás de
…………….essas pernas
…………………………….passear
………………………………………no estrangeiro
e entregá-las
……………….nos jantares
………………………………..às carícias
dos barões
……………..petroleiros?
Não virás
…………..para meus grandes
……………………………………e desajeitados braços?
Apartada,
……………há de encalhar
……………………………….quem não me quis.
Da afronta
…………….a conta faço, 
……………………………..e não seja por isto…
Qualquer dia
……………….eu a conquisto,
…………………………………..quer sozinha
……………………………………………………ou com Paris.

1928

rosta

1 Segundo a mitologia eslava, chama-se Vii uma criatura maligna, que teria o poder de matar com um só olhar; no entanto, o Vii mal pode abrir os olhos, por causa das pálpebras grandes e pesadas, quase chegando a tocar o chão. Este personagem do folclore foi imortalizado na literatura pelo conto homônimo de Nikolai Gogol.

ПИСЬМО ТАТЬЯНЕ ЯКОВЛЕВОЙ

В поцелуе рук ли,
……………………..губ ли,
в дрожи тела
………………..близких мне
красный
………….цвет
……………….моих республик
тоже
……..должен
………………..пламенеть.
Я не люблю
……………….парижскую любовь:
любую самочку
…………………….шелками разукрасьте,
потягиваясь, задремлю,
……………………………….сказав —
……………………………………………тубо —
собакам
………….озверевшей страсти.
Ты одна мне
………………..ростом вровень,
стань же рядом
…………………….с бровью брови,
дай
……про этот
……………….важный вечер
рассказать
……………..по-человечьи.
Пять часов,
………………и с этих пор
стих
…….людей
……………..дремучий бор,
вымер
……….город заселенный,
слышу лишь
………………..свисточный спор
поездов до Барселоны.
В черном небе
…………………..молний поступь,
гром
…….ругней
………………в небесной драме, —
не гроза,
…………..а это
………………….просто
ревность двигает горами.
Глупых слов
……………….не верь сырью,
не пугайся
……………..этой тряски,-
я взнуздаю,
………………я смирю
чувства
………….отпрысков дворянских.
Страсти корь
…………………сойдет коростой,
но радость
……………..неиссыхаемая,
буду долго,
……………..буду просто
разговаривать стихами я.
Ревность,
……………жены,
…………………….слезы…
………………………………ну их! —
вспухнут веки,
…………………..впору Вию.
Я не сам,
…………..а я
……………….ревную
за Советскую Россию.
Видел
……….на плечах заплаты,
их
….чахотка
…………….лижет вздохом.
Что же,
…………мы не виноваты —
ста мильонам
………………….было плохо.
Мы
…..теперь
……………к таким нежны —
спортом
………….выпрямишь не многих,—
вы и нам
…………..в Москве нужны
не хватает
…………….длинноногих.
Не тебе,
…………в снега
…………………..и в тиф
шедшей
………….этими ногами,
здесь
……..на ласки
…………………выдать их
в ужины
…………..с нефтяниками.
Ты не думай,
…………………щурясь просто
из-под выпрямленных дуг.
Иди сюда,
…………….иди на перекресток
моих больших
…………………..и неуклюжих рук.
Не хочешь?
………………Оставайся и зимуй,
и это
……..оскорбление
……………………….на общий счет нанижем.
Я все равно
………………тебя
…………………….когда-нибудь возьму —
одну
…….или вдвоем с Парижем.

1928

………………….~//~


CONVERSA COM O CAMARADA LÊNIN

Depois da jornada
………………………o tumulto serena,
o dia se foi,
……………..a noite inicia.
No cômodo, dois:
……………………..Eu
…………………………e Lênin – 
na branca parede
…………………….a fotografia. 1
Com a boca
……………..entreaberta
…………………………….a discursar
e o bigode
……………eriçando-se
…………………………..ao vento,
a testa
……….enrugada,
…………………….exemplar:
para uma testa grandiosa
……………………………….um grandioso pensamento.
Entre nós
…………..talvez estejam
……………………………..multidões invisíveis
caminhando,
……………….uma floresta de bandeiras
farfalhando…
Num lampejo
………………..me levanto
………………………………da cadeira:
quero ir
…………cumprimentar
……………………………meu companheiro!
“Camarada Lênin,
……………………..vim aqui vos relatar
não por ofício –
……………………pela alma.
Camarada Lênin,
…………………….um trabalho infernal na
nossa pátria temos feito:
………………………………iluminar.
Vestimos os pobres,
………………………..cessou a miséria.
De carvão
…………..e de minério
…………………………..ampliou-se a produção.
Mas também temos,
………………………..é verdade,
……………………………………..uma série
de piores miseráveis,
…………………………todo tipo
……………………………………..de canalha e fanfarrão.
Cansarias de
……………….com eles
…………………………..quebrar a cabeça.
Muitos
……….sem ti
……………….se puseram rebeldes.
E por causa
……………..dessa gente
…………………………….tão avessa
nossa pátria,
……………….infelizmente,
………………………………..retrocede.
Não há número
…………………..nem nomes
………………………………….o bastante
para deles
……………compreender
……………………………..de que se trata:
kulaki, 2
……….sectários,
……………………meliantes,
beberrões,
……………puxa-sacos,
…………………………..burocratas.
Braços cruzados
……………………e peito estufado, ei-los:
como ostentam,
……………………sondam,
……………………………….blefam.
Nós vamos,
……………..é verdade,
…………………………..esmagar a todos eles.
Mas como é difícil,
……………………….difícil demais
…………………………………………a tarefa.
Camarada Lênin,
…………………….pelas fábricas suadas
e campos arados,
…………………….pela pátria
…………………………………..de extremo a extremo,
pelo vosso coração
……………………….e vosso nome,
………………………………………….camarada,
nós pensamos,
………………….respiramos,
…………………………………batalhamos
………………………………………………..e vivemos!..”
Depois da jornada
………………………o tumulto serena,
o dia se foi,
……………..a noite inicia.
No cômodo, dois:
……………………..Eu
…………………………e Lênin –
na branca parede
…………………….a fotografia.

1929

rosta31

1 Poema escrito em memória de Vladímir Ílitch Lênin, ao quinto ano de sua morte, e publicado no Komsomólskaia Pravda em 20 de janeiro de 1929. Na edição de suas obras reunidas em 13 volumes (Maiakóvski, 1955, p. 534), consta que “a fotografia, a que se refere Maiakóvski neste poema – permanentemente pendurada à parede de seu gabinete de trabalho –, é aquela, em que V. I. Lênin discursa na praça Sverdlov em 5 de maio de 1920”. Sobre sua deferência ao líder da revolução bolchevique, cf. o poema Vladímir Ílitch Lênin (1924), para o português traduzido por Zóia Prestes.

2 Kuláki eram donos de terras privadas de médio porte que existiram na primeira década do Estado Soviético. Contra essa elite de proprietários levantou-se uma violenta campanha, nos fins dos anos de 1920, com a coletivização forçada do campo. Os kuláki resistiram à expropriação de suas terras destruindo ou escondendo safras e materiais agrículas, o que ocasionou o colapso no abastecimento e uma crise de fome no país. Em contrapartida, o Estado usou da força militar para reprimir esses camponeses e com eles engordou consideravelmente seu sistema prisional.

РАЗГОВОР С ТОВАРИЩЕМ ЛЕНИНЫМ

Грудой дел,
………………суматохой явлений
день отошел,
………………..постепенно стемнев.
Двое в комнате.
…………………….Я
……………………….и Ленин –
фотографией
…………………на белой стене.
Рот открыт
……………..в напряженной речи,
усов
…….щетинка
…………………вздернулась ввысь,
в складках лба
…………………..зажата
…………………………….человечья,
в огромный лоб
…………………….огромная мысль.
Должно быть,
…………………под ним
…………………………….проходят тысячи.
Лес флагов…
………………..рук трава…
Я встал со стула,
……………………..радостью высвечен,
хочется –
……………идти,
……………………приветствовать,
…………………………………………..рапортовать!
«Товарищ Ленин,
………………………я вам докладываю
не по службе,
…………………а по душе.
Товарищ Ленин,
…………………….работа адовая
будет
……..сделана
…………………и делается уже.
Освещаем,
……………..одеваем нищь и оголь,
ширится
…………..добыча
……………………..угля и руды…
А рядом с этим,
……………………конешно,
…………………………………много,
много
……….разной
………………….дряни и ерунды.
Устаешь
………….отбиваться и отгрызаться.
Многие
…………без вас
……………………отбились от рук.
Очень
……….много
………………..разных мерзавцев
ходят
………по нашей земле
…………………………….и вокруг.
Нету
……..им
…………ни числа,
………………………ни клички,
елая
…….лента типов
………………………тянется.
Кулаки
…………и волокитчики,
подхалимы,
………………сектанты
…………………………..и пьяницы, –
ходят,
……….гордо
……………….выпятив груди,
в ручках сплошь
……………………..и в значках нагрудных…
Мы их
……….всех,
………………конешно, скрутим,
но всех
………..скрутить
…………………….ужасно трудно.
Товарищ Ленин,
…………………….по фабрикам дымным,
по землям,
……………..покрытым
……………………………и снегом
………………………………………..и жнивьём,
вашим,
………..товарищ,
…………………….сердцем
………………………………..и именем
думаем,
………….дышим,
…………………….боремся
………………………………..и живем!..»
Грудой дел,
………………суматохой явлений
день отошел,
…………………постепенно стемнев.
Двое в комнате.
…………………….Я
……………………….и Ленин –
фотографией
…………………на белой стене.

1929

………………..~//~


A MULHER PARISIENSE

Representas a imagem
……………………………da mulher parisiense,
ostentando braceletes
……………………………e colares de rubis.
Delirante ilusão!
…………………….Caso assim penses,
saibas como
………………é dura a vida
……………………………….das mulheres em Paris.
Mademoiselle!
………………….Num instante
……………………………………represento essa mulher…
Palavra que não sei
………………………..se ela é jovem
………………………………………….ou se velha, –
sob o pó da maquiagem
……………………………..sua pele é amarela.
Uma “servente”
……………………ela é
………………………….na Grande Chaumière. 1
Com um Borgonha
……………………….ela sonha,
…………………………………….mas sejamos realistas…
Vinhos são para, talvez, a garçonete.
Esta mulher
………………em seu trabalho
……………………………………é simplesmente uma artista:
uma toalha oferecer
…………………………no corredor do toilette.
Ao espelho
…………….espremeis
………………………….uma espinha?
Enquanto isso ela sorri,
…………………………….para depois
oferecer a toalhinha
…………………………e polvilhar o pó-de-arroz.
Mas a vida
…………….da mulher
………………………….não se resume
a borrifar
…………..vossas perucas
……………………………..com perfume.
Serva da sutil gastronomia,
………………………………….ela encara
noite e dia
…………….o vaso ilustre da latrina
a respirar
……………deste requinte
………………………………a poção rara
que deitastes
………………..onde o sol não ilumina.
Por mais que lave esse lavabo,
desinfete bem a fossa,
……………………………enxague,
……………………………………….seque,
quando o dia chega ao cabo
não recebe
…………….trinta cêntimos
…………………………………(na nossa
unidade,
………….duas dúzias
…………………………de copeques).

Eu,
…..perplexo,
………………tua dor,
………………………..mademoiselle,
sinto como em minha pele,
mas perdoe
……………..lhe dizer
…………………………dessa maneira:
– Não há glamour assim
……………………….. ……em da miséria
………………………………………………..estar à beira.
Pois em sonho
………………….representas
…………………………………glamourosos camarins, 
mas segues tu
…………………a mais tristonha
………………………………………camareira.
Ou mentiram para mim
……………………………..sobre as mulheres de Paris,
ou não és tu
………………parisiense.
Olha bem,
……………mademoiselle,
………………………………como vives infeliz:
Meias de lã…
……………….Por quê razão
…………………………………não as de seda
……………………………………………………te pertencem?
Por que a ti
……………..vasos de flores
………………………………..não regalam
esses nobres monsenhores
…………………………………de abarrotados bolsos?
Mademoiselle cala,
……………………….mas seus pensamentos ouço.
Aquilo tudo
………………à nossa cara
………………………………ela lançasse
que, em seu rico carnaval, Montparnasse
em doses diárias
……………………ministrou
às funcionárias
…………………..dos bistrôs.  
Me desculpo por lembrar as frias poças
que à mulher parisiense
……………………………..regalou
……………………………………….a burguesia.
Que as serventes
…………………….de Paris
……………………………….um dia possam
conquistar sua alforria.

1929

rosta16

1 Grande-Chaumière, academia de belas-artes em Monteparnasse, Paris. Além de suas famosas declarações de amor, as últimas passagens de Maiakóvski pela capital francesa renderam versos de tom sarcástico sobre o luxo da vida intelectual parisiense. É o caso, também, do poema que leremos a seguir, Krassávitsi, subintitulado “Reflexões na estréia da Grand Opéra”. Ambos foram publicados na Jenski jurnal [Revista de mulheres], o primeiro em fevereiro, o segundo em julho de 1929.

ПАРИЖАНКА

Вы себе представляете
……………………………..парижских женщин
с шеей разжемчуженной,
…………………………………разбриллиантенной
…………………………………………………………….рукой…
Бросьте представлять себе!
……………………………………Жизнь —
………………………………………………..жестче —
у моей парижанки
………………………..вид другой.
Не знаю, право,
……………………молода
……………………………..или стара она,
до желтизны
…………………отшлифованная
……………………………………….в лощеном хамье.
Служит
…………она
………………в уборной ресторана —
маленького ресторана —
…………………………………Гранд-Шомьер.
Выпившим бургундского
………………………………….может захотеться
для облегчения
…………………….пойти пройтись.
Дело мадмуазель
………………………подавать полотенце,
она
……в этом деле
……………………просто артист.
Пока
……..у трюмо
…………………разглядываешь прыщик,
она,
……разулыбив
…………………..облупленный рот,
пудрой подпудрит,
…………………………духами попрыщет,
подаст пипифакс
………………………и лужу подотрет.
Раба чревоугодий
……………………….торчит без солнца,
в клозетной шахте
………………………..по суткам
………………………………………клопея,
за пятьдесят сантимов!
……………………………….(По курсу червонца
с мужчины
……………..около
……………………..четырех копеек.)
Под умывальником
………………………….ладони омывая,
дыша
………диковиной
……………………..парфюмерных зелий,
над мадмуазелью
……………………….недоумевая,
хочу
…….сказать
……………….мадмуазели:
— Мадмуазель,
……………………ваш вид,
……………………………….извините,
……………………………………………..жалок.
На уборную молодость
………………………………губить не жалко вам?
Или
……мне
…………наврали про парижанок,
или
……вы, мадмуазель,
………………………….не парижанка.
Выглядите вы
………………….туберкулезно
…………………………………….и вяло.
Чулки шерстяные…
………………………….Почему не шелка?
Почему
…………не шлют вам
…………………………..пармских фиалок
благородные мусью
…………………………..от полного кошелька? —
Мадмуазель молчала,
…………………………….грохот наваливал
на трактир,
………………на потолок,
………………………………на нас.
Это,
……кружа
……………веселье карнавалово,
весь
…….в парижанках
………………………..гудел Монпарнас.
Простите, пожалуйста,
……………………………..за стих раскрежещенный
и
..за описанные
…………………..вонючие лужи,
но очень
…………..трудно
…………………….в Париже
………………………………….женщине,
если
…….женщина
…………………не продается,
……………………………………а служит.

1929

……………….~//~


COQUETERIA

(Reflexões na estréia da Grand Opéra)

A Grand ópera se abra
para o verdadeiramente grande.
Da mal-feita minha barba
a me gabar,
……………..por ela eu ande.
No intervalo, –
…………………..uma coquete…
Esta tocou meu ponto fraco!
O coração
……………já se derrete
no surrado meu casaco.
Suas unhas
……………..com esmalte,
sobre os lábios
………………….o batom –
sutil pintura que ressalte
a cor de rosas em botão.
Azul-lazúli
……………..sobre os cílios…
A cintura –
……………..uma taça!
Nuas costas que mal passam
no funil
…………do espartilho.
 Sobre as peles
………………….de chinchila
como as pérolas refulgem!
No vestido
…………….em que desfila
é de morsa
…………….a pelugem.
Que esplêndidos tecidos! –
de veludo,
……………seda,
…………………..crepe.
Um cochicho ao pé do ouvido,
ela se assanha,
………………….serelepe.
Broches,
………….filigranas… –
de ourivesaria
…………………estelar.
A tal beleza sobre-humana
ousarias
………….conquistar?
Não hesito:
……………..mãos à obra!
Com vestido
………………ou talvez sem.
Os adereços
………………tem de sobra…
Uma pena
……………que cabeça
………………………….ela não tem.

1929

rosta33

КРАСАВИЦЫ

(Раздумье на открытии Grand Opéra)

В смокинг вштопорен,
побрит что надо,
По гранд
…………..по опере
гуляю грандом.
Смотрю
………….в антракте –
красавка на красавице.
Размяк характер –
всё мне
…………нравится.
Талии –
………….кубки.
Ногти –
………;…в глянце.
Крашеные губки
розой убиганятся.
Ретушь –
……………у глаза,
Оттеняет синь его.
Спины
………..из газа
цвета лососиньего.
Упадая
………..с высоты,
пол
……метут
……………шлейфы.
От такой
…………..красоты
сторонитесь, рефы.
Повернет –
………………в брильянтах уши.
Пошевелится шаля –
на грудинке
……………….ряд жемчужин
обнажают
…………….шеншиля.
Платье –
……………пухом.
…………………….Не дыши.
Аж на старом
…………………на морже
только фай
………………да крепдешин,
только
………..облако жоржет.
Брошки – блещут…
………………………….на тебе! –
с платья
………….с полуголого.
Эх,
…..к такому платью бы
да еще бы…
……………….голову.

1929

………….. ~//~


VERSOS SOBRE O PASSAPORTE SOVIÉTICO

Os diabos que carreguem,
………………………………..servidores da boçal burocracia,
os papéis
…………..que prescrevestes.
Com os dentes,
………………….como um lobo,
……………………………………..os morderia.
Porém este…
Se do trem
…………….pelas cabines
………………………………e compridos camarotes
o fiscal toma caminho,
entregueis
…………….os passaportes;
eu
….entrego
……………meu purpúreo livrinho.
Uns passaportes
……………………para eles
……………………………….pouco importam;
outras vezes
………………há que riem
……………………………..ou desdenham.
Com respeito,
………………..por exemplo,
…………………………………se comportam
se nas capas dos ingleses
o brasão
…………com dois leões
……………………………se desenha.
No vagão, 
…………..primeira classe,
o tiozinho americano
………………………….se recolhe
……………………………………….para o leito.
Como a ele
…………….com os olhos devorassem,
o abordam
…………….com trejeitos
……………………………..e etiquetas –
pegam dele o passaporte
………………………………como fosse uma gorjeta.
Ao polonês,
……………..ao polonês o fiscal pega
e olha fixo,
…………….como um burro a um cartaz;
com militar estupidez,
……………………………para o colega
franze a testa
………………..e solta a gafe:
………………………………….“Saberás
o que é esta
……………..novidade geográfica?”
Quando pegam
………………….passaportes de suecos
nenhum eco de idéia
………………………….ou sentimento,
para bem
…………..ou para mal,
…………………………..os impressiona.
De repente
…………….fica pálido o fiscal;
como que eletrocutada,
…………………………….sua boca convulsiona.
Com que assombro
……………………….ele pegou
……………………………………o meu vermelho passaporte! –
como fosse
…………….muito mais
……………………………do que papéis –
ele o pegou
……………..como uma bomba,
da navalha
……………..o duplo corte, –
…………………………………..ele o pegou
como um ouriço
……………………ou a pior
………………………………..das cascavéis.
Carregadores!
…………………Piscadela
……………………………..com malícia,
e de graça
……………minhas coisas
………………………………eles guardam.
Olhadela
………….do polícia
………………………para o guarda
e do guarda
……………..o mesmo olhar
………………………………..para o polícia.
Essa raça de gendarmes!
………………………………Que prazer teria ela
em fustigar-me
…………………..com flagelos
…………………………………..e pregar-me
…………………………………………………..numa cruz…
E só porque
……………..nas mãos eu tenho
……………………………………..com a foice
……………………………………………………e o martelo
o mais brilhante documento:
…………………………………….Soviétski Soiúz. 1
Os diabos que carreguem,
………………………………..servidores da boçal burocracia,
os papéis
…………..que prescrevestes.
Com os dentes,
………………….como um lobo,
…………………………………….os morderia.
Porém este…
Eu do bolso
……………..saco este
………………………….muito mais que passaporte –
esta carga
……………explosiva
………………………..e elétrica.
Pois leiam,
…………….pelos séculos invejem
…………………………………………minha sorte:
sou cidadão
………………da União Soviética.

1929

rosta6
1 Soviétski Soiúz, transliteração do nome que em russo significa União Soviética. O passaporte equivale na Rússia ao documento de identidade, não só para os deslocamentos internos e externos ao país, como para a identificação em geral. Já existe uma tradução deste poema, por Emílio Carrera Guerra, em Maiacovski, Antologia Poética (Max Limonad, 1987).

СТИХИ О СОВЕТСКОМ ПАСПОРТЕ

Я волком бы
……………….выгрыз
………………………….бюрократизм.
К мандатам
……………….почтения нету.
К любым
…………..чертям с матерями
……………………………………..катись
любая бумажка.
……………………Но эту…
По длинному фронту
……………………………купе
………………………………….и кают
чиновник
…………….учтивый
…………………………движется.
Сдают паспорта,
……………………..и я
………………………….сдаю
мою
…….пурпурную книжицу.
К одним паспортам –
…………………………….улыбка у рта.
К другим –
………………отношение плевое.
С почтеньем
………………..берут, например,
………………………………………..паспорта
с двухспальным
…………………….английским левою.
Глазами
………….доброго дядю выев,
не переставая
………………….кланяться,
берут,
……….как будто берут чаевые,
паспорт
………….американца.
На польский –
…………………..глядят,
…………………………….как в афишу коза.
На польский –
…………………..выпяливают глаза
в тугой
………..полицейской слоновости –
откуда, мол,
……………….и что это за
географические новости?
И не повернув
…………………..головы кочан
и чувств
………….никаких
……………………..не изведав,
берут,
………не моргнув,
………………………паспорта датчан
и разных
…………..прочих
…………………….шведов.
И вдруг,
………….как будто
……………………….ожогом,
…………………………………..рот
скривило
……………господину.
Это
……господин чиновник
……………………………….берет
мою
…….краснокожую паспортину.
Берет –
…………как бомбу,
………………………..берет –
…………………………………..как ежа,
как бритву
………………обоюдоострую,
берет,
……….как гремучую
…………………………..в 20 жал
змею
………двухметроворостую.
Моргнул
………….многозначаще
………………………………глаз носильщика,
хоть вещи
…………….снесет задаром вам.
Жандарм
……………вопросительно
………………………………..смотрит на сыщика,
сыщик
………..на жандарма.
С каким наслажденьем
………………………………жандармской кастой
я был бы
…………..исхлестан и распят
за то,
………что в руках у меня
………………………………..молоткастый,
серпастый
……………..советский паспорт.
Я волком бы
………………..выгрыз
…………………………..бюрократизм.
К мандатам
………………почтения нету.
К любым
…………..чертям с матерями
……………………………………..катись
любая бумажка.
…………………….Но эту…
Я
достаю
…………..из широких штанин
дубликатом
……………….бесценного груза.
Читайте,
…………..завидуйте,
…………………………..я –
……………………………….гражданин
Советского Союза.

1929

……………….~//~

Referências:

AGURSKY, Mikhail. L’ aspect millénariste de La révolution bolchevique. In: Cahiers du monde russe et soviétique, vol. 29, n. 3-4, Juillet-Décembre 1988.

BIÉLI, Andrei. Стихотворения. Москва «книга», 1988.

CAMPOS, Haroldo de; CAMPOS, Augusto de; SCHNAIDERMAN, Boris.  Poesia Russa Moderna. São Paulo: Ed. Perspectiva, 2001.

ETKIND, Aleksandr. Хлыст: Секты, литература и революция. Москва: Новое литературное обозрение, 2013.

LAVUT, Pavel. Маяковский едет по Союзу: воспоминания. Москва: Советская Россия, 1963.

LIÉRMONTOV, Mikhail. Cобрание сочинений в 4 т. T 1. Стихотворения. Издательство Пушкинского Дома, 2014.

MAIAKÓVSKI, Vladímir. Полное собрание сочинений в тринадцати томах. Т.2. Москва: Государственное Издательство Художественной Литературы, 1955.

_____________________ Antologia poética. São Paulo: Max Limonad, 1987.

_____________________ Minha Descoberta da América. São Paulo, 2007.

_____________________ Percevejo, O. São Paulo: Ed. 34, 2012.

_____________________ Vladímir Ílitch Lênin. São Paulo: Anita Garibaldi & Fundação Maurício Grabois, 2012.

_____________________ Облако в штанах. Во весь голос. Люблю. Стихотворения. Поэмы. Пьесы. Cанкт-Петербург: Азбука-Аттикус, 2014.

_____________________ Poemas. São Paulo: Perspectiva, 2017.

MIKHAILOV, Aleksandr. Maiakóvski, o Poeta da Revolução. Rio de Janeiro: Record, 2008.

SCHNAIDERMAN, Boris. Poética de Maiakóvski através de sua Prosa, A. São Paulo: Perspectiva, 1984

 

“Saudades da pátria”, três poemas de Marina Tsvetáieva no exílio

Marina Tsvetaeva, photo for passport on eve of return to Russia (France, 1939) cvetaeva

“Saudades da pátria”, três poemas de Marina Tsvetáieva no exílio;
Traduções por André Nogueira (2017),
Publicação em homenagem ao Dia Internacional do Refugiado, 20 de junho 2017.
Imagem: Marina Tsvetáieva, foto no passaporte de retorno para a União Soviética em 1939.

O PAÍS

O globo inteiro apalpa
E examina, palmo a palmo!
Esse país não há no mapa, –
Não existe. – Só na alma.

Da xícara bebida até o fim –
Reluz, límpido, o fundo.
Voltar – para uma casa assim,
Que foi varrida desse mundo?

Se renascer me preocupa, –
De novo – em um novo país?
Voltar – eu mesma quis!
E saltar sobre a garupa

Desse alazão convulso!
Sairei de ossos ilesos?
Voltasse eu ao país russo,
Só farelos – com desprezo,

O padeiro me daria, e um caixão
Não me faria o carpinteiro.
Aquela – de incontável imensidão,
De magníficos outeiros,

Aquela – de reinos celestiais
E dos meus anos juvenis,
Aquela Rússia – não há mais.

– Tampouco eu, sem meu país.

fins de junho 1931

СТРАНА

С фонарём обшарьте
Весь подлунный свет!
Той страны на карте —
Нет, в пространстве — нет.

Выпита как с блюдца, —
Донышко блестит.
Можно ли вернуться
В дом, который — срыт?

Заново родися —
В новую страну!
Ну-ка, воротися
На спину коню

Сбросившему! Кости
Целы-то — хотя?
Эдакому гостю
Булочник — ломтя

Ломаного, плотник —
Гроба не продаст!
Той её — несчётных
Вёрст, небесных царств,

Той, где на монетах —
Молодость моя,
Той России — нету.

— Как и той меня.

Конец июня 1931

…………~//~

PÁTRIA

Oh, meu implacável idioma!
Como ouvisse simplesmente uma campônia,
Uma rústica canção que murmurinha:
– Rússia, pátria minha!

No horizonte, atrás da cordilheira,
Pátria minha – e estrangeira! –
Ela mostrou-se para mim:
Terra distante, lá dos últimos confins!

Distância, minha sôfrega doença,
A tal ponto é minha pátria de nascença
Que carrego, aonde for, essa distância –
Minha parte que está fora do alcance.

Distância, que se afasta e não me solta,
Distância, que me diz: “Rápido volta
Para casa!
……………..No horizonte estrela branca
Que de todos os lugares me arranca!

Do suor da caminhada só me resta
Inundar a vastidão da minha testa.

Tu, hei de perder-me nos teus braços!
Com os lábios selarei, ao pé do cadafalso:
Pátria minha – prometida! –
Onde se encontra a perdição da minha vida.

12 de maio 1932

РОДИНА

  
О, неподатливый язык!
Чего бы попросту — мужик,
Пойми, певал и до меня:
«Россия, родина моя!»
  
Но и с калужского холма
Мне открывалася она —
Даль, тридевятая земля!
Чужбина, родина моя!
  
Даль, прирожденная, как боль,
Настолько родина и столь —
Рок, что повсюду, через всю
Даль — всю ее с собой несу!
  
Даль, отдалившая мне близь,
Даль, говорящая: «Вернись
Домой!»
……………..Со всех — до горних звезд —
Меня снимающая мест!
 
Недаром, голубей воды,
Я далью обдавала лбы.
  
Ты! Сей руки своей лишусь,—
Хоть двух! Губами подпишусь
На плахе: распрь моих земля —
Гордыня, родина моя!
  
12 мая 1932
 
……………..~//~

* * *
  
Saudades da pátria! Com esse mal
Há muito tempo que eu luto!
Para mim é absolutamente igual
Onde estar só em absoluto.
  
Quais cascalhos que eu arranhe
Arrastando o carrinho de feira
Para a casa, que me é de todo estranha –
Se hospital ou se caserna, como queira.
  
A mim é indiferente, qual o povo
Que há de ver em cativeiro
A leonina minha crespa cabeleira,
Ou me expulsar – de novo! –
  
Ao deserto dessa minha solidão.
Urso polar apartado do gelo
Onde não posso viver (e não faço questão!),
Tanto me faz – onde será o pesadelo.
  
Não me ilude o chamado longínquo
Da materna minha língua, que convida… –
Não me importa, em qual língua
Serei mal-compreendida.
  
(O leitor de jornais, o ouvinte
De notícias, fuçador de mexericos…)
Ele – é do século vinte,
E eu – de todo século abdico!
  
Como um tronco que a esmo
Vê na rua em seu redor passar a gente,
Para mim é indiferente, dá no mesmo –
E, talvez, de tudo o mais indiferente
  
Seja a pátria onde se acha.
Cada marca dela em mim que se esconde
Vou despir, de cima a baixo:
Eis a alma, que nasceu – tanto faz onde.
  
E eu também, para a pátria, tanto faço, –
De frente para trás, de trás para frente,
Investigue se encontra dela traço,
Inspetor, em minha alma indiferente!
  
Estranha é cada casa, vazios todos os templos, –
E tudo – indiferente, e tudo – igual.
Mas basta que um arbusto eu contemple, –
E da sorva me lembre – da terra natal…
  
1934
 
* * *

Тоска по родине! Давно
Разоблаченная морока!
Мне совершенно все равно —
Где — совершенно одинокой

Быть, по каким камням домой
Брести с кошелкою базарной
В дом, и не знающий, что — мой,
Как госпиталь или казарма.

Мне все равно, каких среди
Лиц ощетиниваться пленным
Львом, из какой людской среды
Быть вытесненной — непременно —

В себя, в единоличье чувств.
Камчатским медведем без льдины
Где не ужиться (и не тщусь!),
Где унижаться — мне едино.

Не обольщусь и языком
Родным, его призывом млечным.
Мне безразлично, на каком
Непонимаемой быть встречным!

(Читателем, газетных тонн
Глотателем, доильцем сплетен…)
Двадцатого столетья — он,
А я — до всякого столетья!

Остолбеневши, как бревно,
Оставшееся от аллеи,
Мне все — равны, мне всё — равно;
И, может быть, всего равнее —

Роднее бывшее — всего.
Все признаки с меня, все меты,
Все даты — как рукой сняло:
Душа, родившаяся — где-то.

Так край меня не уберег
Мой, что и самый зоркий сыщик
Вдоль всей души, всей — поперек!
Родимого пятна не сыщет!

Всяк дом мне чужд, всяк храм мне пуст,
И всё — равно, и всё — едино.
Но если по дороге — куст
Встает, особенно — рябина …

1934

……………..~//~

 

 

AO TSAR – À PÁSCOA, de Marina Tsvetáieva (tradução por André Nogueira)

Tsar And Son

AO TSAR – À PÁSCOA

Dois poemas de Acampamento de Cisnes, Marina Tsvetáieva.
Traduções por André Nogueira (2017)
Imagem: tsar Nicolau II e tsariévitch Aleksei em 1910.

AO TSAR – À PÁSCOA

Abram, abram alas ao Tsar!
Recua a escuridão da noite.
Acendam velas no altar
E tudo aprontem.
– Cristo ressuscitou,
Tsar que havia ontem!
  
Caiu sem auréola
A águia bicéfala.
– Tsar! – Não honraste a tarefa.
  
Nos olhos teus, azuis e traidores
Como dos bizantinos reis,
Hão de fitar teus sucessores,
Pela derradeira vez.
  
Nos tribunais tua sentença –
Um turbilhão de causar pena.
Tsar! – O povo? – pensas,
Mas é Deus quem te condena!
  
Enfim chegou a Páscoa
No país por toda parte,
Dorme em paz com
Tua Aldeia* a consolar-te,
Em teu sonho não se hasteiem
Os vermelhos estandartes.
  
Tsar! – A tua estirpe
Se abriga – no teu sono.
Toma o saco – de mendigo,
Já que extirpam – o teu trono.
  
Moscou, 2 de abril 1917,
primeiro dia da Páscoa.

……….~//~

     * * *

Pelo menino – o pombinho – o filho do rei,
Pelo jovem tsariévitch Aleksei,
Rússia devota, vossos círios acendei!
  
Pombinhos dois, angelicais,
Como Dmitri de Ivan, Aleksei de Nikolai,**
Os olhos deles enxugai.
  
Rússia, mãe benévola, a criança
Sob o véu de vossa bem-aventurança
Cobrireis, até que as feras se amansem?
  
Por mais vil que seja o crime de seu pai,
Oh, Rússia pastoril, vós perdoai
O cordeirinho Aleksei de Nikolai!
  
4 de abril 1917
terceiro dia da Páscoa.

…………………~//~

* “Dorme em paz com/ Tua Aldeia a consolar-te…”// Aldeia do Tsar, Tsárskoie Seló, residência da família imperial russa, a 26 km de São Petersburgo. Quando a revolução de 1917 derrubou Nicolau II, então imperador da Rússia, ele e sua família foram feitos prisioneiros, primeiramente, no palácio de Alexandre, situado na Aldeia.

** “Como Dmitri de Ivan, Aleksei de Nikolai”// Refere-se a Aleksei Nikoláievitch, o tsariévitch, isto é, o príncipe Aleksei, filho de Nicolau II. Dmitri, filho de Ivan, foi Dmitri de Uglitch, filho de Ivan, o Terrível, assassinado aos 10 anos de idade em 1591 na cidade de Uglitch. Marina Tsvetáieva, recorrendo a essa referência histórica, clama pela vida do tsariévitch Aleksei, então com 13 anos de idade. Nicolau II, a tsarina Aleksandra e seus cinco filhos, Aleksei, Anastássia, Maria, Tatiana e Olga, foram mortos em Ekaterimburg no dia 17 de julho de 1918.
  
Царю — на Пасху

Настежь, настежь Царские врата!
Сгасла, схлынула чернота.
Чистым жаром
Горит алтарь.
— Христос Воскресе,
Вчерашний царь!
  
Пал без славы
Орёл двуглавый.
— Царь! — Вы были неправы.
  
Помянет потомство
Ещё не раз —
Византийское вероломство
Ваших ясных глаз.
  
Ваши судьи —
Гроза и вал!
Царь! Не люди —
Вас Бог взыскал.
  
Но нынче Пасха
По всей стране,
Спокойно спите
В своём Селе,
Не видьте красных
Знамён во сне.
  
Царь! — Потомки
И предки — сон.
Есть — котомка,
Коль отнят — трон.

<2 апреля 1917>,
Москва,
первый день Пасхи

……………….~//~

* * *
  
За Отрока — за Голубя — за Сына,
За царевича младого Алексия
Помолись, церковная Россия!
  
Очи ангельские вытри,
Вспомяни, как пал на плиты
Голубь углицкий — Димитрий.
  
Ласковая ты, Россия, матерь!
Ах, ужели у тебя не хватит
На него — любовной благодати?
  
Грех отцовский не карай на сыне.
Сохрани, крестьянская Россия,
Царскосельского ягнёнка — Алексия!

4 апреля 1917,
третий день Пасхи

……………………~//~

Resposta dos Cossacos Zaporojes ao Sultão de Constantinopla, Guillaume Apollinaire

cossacos zaporojes

“RESPOSTA DOS COSSACOS ZAPOROJES AO SULTÃO DE CONSTANTINOPLA”
Poema de Guillaume Apollinaire (1913)
Tradução por André Nogueira (18/05/2017)
a partir do francês de Apollinaire e da tradução russa de Mikhail Kudinov,
acompanha sua musicalização por Dmitri Chostakovitch (1969).

Imagem: “Resposta dos Cossacos Zaporojes…”, de Iliá Riépin (1880-1891).

“Resposta dos Cossacos Zaporojes ao Sultão de Constantinopla”

Cem vezes mais cruel que Barrabás,
Com o corno diabólico na testa,
Encostado a Belzebu aí estás…
Não iremos ter contigo em tuas festas.
Com um manto de vileza e porcaria
Te assentas com os teus para o jantar
Enquanto olhos arrancados te espiam
Pendurados a teu sórdido colar.
Mestre-sala de uma corja filistéia,
Empanturras-te de tudo que é imundo…
Contorcendo-se em terrível diarréia
Aos coices tua mãe te pôs no mundo.
Tomado inteiro pela úlcera mordaz,
Nessa lama pestilenta tu naufragas.
Teus tesouros com remédios gastarás
Que te aliviem o suplício dessa chaga.

«Réponse des cosaques zaporogues au sultan de Constantinople»

Plus criminel que Barabbas
Cornu comme les mauvais anges
Quel Belzébuth es-tu là-bas
Nourri d’immondice et de fange
Nous n’irons pas à tes sabbats
Poisson pourri de Salonique
Long collier des sommeils affreux
D’yeux arrachés à coup de pique
Ta mère fit un pet foireux
Et tu naquis de sa colique
Bourreau de Podolie Amant
Des plaies des ulcères des croûtes
Groin de cochon cul de jument
Tes richesses garde-les toutes
Pour payer tes médicaments

«Ответ запорожских казаков константинопольскому султану»

Ты преступней Варравы в сто раз.
С Вельзевулом живя по соседству,
В самых мерзких грехах ты погряз.
Нечистотами вскормленный с детства,
Знай: свой шабаш ты справишь без нас.
Рак протухший. Салоник отбросы,
Скверный сон, что нельзя рассказать,
Окривевший, гнилой и безносый,
Ты родился, когда твоя мать
Извивалась в корчах поноса.
Злой палач Подолья, взгляни:
Весь ты в язвах и струпьях.
Зад кобылы, рыло свиньи.
Пусть тебе все снадобья скупят,
Чтоб лечил ты болячки свои.

 

 

DA “GAZETA VERMELHA”, Nikolai Kliúiev (1918)

kliuiev

DA «GAZETA VERMELHA»

Poema de Nikolai Kliúiev (1884-1937)
Tradução por André Nogueira (2017)
Imagem: retrato de Kliúiev por Aleksandr Yar-Kravtchenko (1931)

……………….

DA «GAZETA VERMELHA»

1

Que a negra fuligem da sangrenta insurreição
E o ar dos Assombrados ande à volta, –
Nos caixões os vampiros sentirão
A milionésima das facas que vos cortam!

Vós roestes como cães a alma do povo
Emporcalhastes o jardim do Pai Eterno.
Não em arca recheada de alcovas
Vossa ida para os quintos do inferno.

Por estrada cimentada de moedas
Vossa via de ladrões e morféticos vampiros;
Cristo dos arbustos de agulhas se apieda
E os pulmões do povo de novo respiram.

É o fim dos valentões violadores,
Discípulos fiéis de Iscariotes.
Dos prados onde acampam grão-senhores
Hão os anjos de ceifar os miosótis.

Bem-vindos coreanos amarelos, beduínos,
Cada tom que Deus pintou suas ovelhas…
Bendito seja o soviete campesino
E os mártires do Exército Vermelho!

Reflitam bem, meninos e meninas:
Lembrem-se de Rázin e Peróvskaia Sofia!
Batizem-se em fé rubra e leonina
Como eles, que pela Rússia-noiva sofriam.

2

Aproxima-se o terrível tribunal! Vinde vê-lo:
O Anjo-exterminador está à porta!
Sob a cusparada do Deus Vermelho
Jazerá a guarda branca morta.

A Rússia sob os cravos seus padece
E de vidro esmigalhado a polvilhais.
Pela casa dos Románovi em prece
Silvam crótalos no altar das catedrais.

Eis que o imundo Raspútin exumam:
Sapateia sobre os ícones, escarra no graal…
Está à mesa do café, colchão de plumas;
Nosso povo, em sua fossa habitual.

Raça de lesmas, rastejantes tatuzinhos!
Bernes carcomendo a santa Rússia!
Do andar centésimo celeste  um pergaminho
Desenrola para vós chagas e úlceras.

Grão-senhores, bonifrates em chapéus-coco,
Grã-senhoras, em seda e jóias de ouro.
Com vós não minha lira, e sim a voz rouca
Da cantante em glória grã-metralhadora!

Louvo a metralhadora, sua sede sem fim
Do vosso sangue revestido em pura seda!..
Quando à hora da seara anunciarem serafins
O arrebatar das almas em ardentes labaredas.

Pelas pátrias escarpas toda alma florirá
De trifólios consangüíneos, olhinhos purpúreos…
Reconhece-se o soldado pelo olhar, o mais solar
E pela rúbida ressaca de poéticos augúrios.

<1918>

……………………..~//~

ИЗ «КРАСНОЙ ГАЗЕТЫ»

1


Пусть черен дым кровавых мятежей

И рыщет Оторопь во мраке,—
Уж отточены миллионы ножей
На вас, гробовые вурдалаки!

Вы изгрызли душу народа,
Загадили светлый божий сад,
Не будет ни ладьи, ни парохода
Для отплытья вашего в гнойный ад.

Керенками вымощенный проселок —
Ваш лукавый искариотский путь;
Христос отдохнет от терновых иголок,
И легко вздохнет народная грудь.

Сгинут кровосмесители, проститутки,
Церковные кружки и барский шик,
Будут ангелы срывать незабудки
С луговин, где был лагерь пик.

Бедуинам и желтым корейцам
Не будет запретным наш храм…
Слава мученикам и красноармейцам,
И сермяжным советским властям!

Русские юноши, девушки, отзовитесь:
Вспомните Разина и Перовскую Софию!
В львиную красную веру креститесь,
В гибели славьте невесту-Россию!

2

Жильцы гробов, проснитесь! Близок Страшный суд
И Ангел-истребитель стоит у порога!
Ваши черные белогвардейцы умрут
За оплевание Красного бога,

За то, что гвоздиные раны России
Они посыпают толченым стеклом.
Шипят по соборам кутейные змии,
Молясь шепотком за романовский дом,

За то, чтобы снова чумазый Распутин
Плясал на иконах и в чашу плевал…
С кофейником стол, как перина, уютен
Для граждан, продавших свободу за кал.

О племя мокриц и болотных улиток!
О падаль червивая в божьем саду!
Грозой полыхает стоярусный свиток,
Пророча вам язвы и злую беду.

Хлыщи в котелках и мамаши в батистах,
С битюжьей осанкой купеческий род,
Не вам моя лира — в напевах тернистых
Пусть славится гибель и друг-пулемет!

Хвала пулемету, несытому кровью
Битюжьей породы, батистовых туш!..
Трубят серафимы над буйною новью,
Где зреет посев струннопламенных душ.

И души цветут по родным косогорам
Малиновой кашкой, пурпурным глазком…
Боец узнается по солнечным взорам,
По алому слову с прибойным стихом.

<1918>

 

 

DIAMBA-SARABAMBA (Konopel-Konopelka), Ivan Novikov

1

IVAN NOVIKOV
(traduções: André Nogueira, nov.-dez. 2016)

DIAMBA-SARABAMBA

(KONOPEL-KONOPELKA)

EDITORA DO ESTADO da URSS, 1926.

2

NOVA BIBLIOTECA INFANTIL
PEQUENA IDADE
…………………………………………………….

IVAN NOVIKOV

DIAMBA-SARABAMBA
(KONOPEL-KONOPELKA)

EM VERSOS

ILUSTRADO POR
P. PAVLINOVA
………………………………………………..

EDITORA DO ESTADO
MOSCOU – 1926 – LENINGRADO

3

1. DIAMBA NO BERÇO

A diamba criança
no berço descansa:
em suave repouso
no solo do chouso.

Os grãozinhos se enfileiram
como sob o travesseiro, –
repousando lado a lado
pelos sulcos do arado.

Quietinha em seu leito
a diamba se deita
e, como tenro cobertor,
a terra embala sua flor!

Mas o solo, por si só,
milagre não faz:
tem de amanhecer o sol
e o lavrador regando atrás!

4

2. QUANDO OS OLHOS DELA ABREM

Bem de perto observem
como a natureza é sábia:
quando brota é só um gérmen,
logo os olhos dela abrem…

Libertada da semente
se contorce a raizinha,
o brotinho já rebenta
ainda preso na bainha.

Um tempinho que suceda,
te dobrando de joelhos
sobre a tão verde vereda,
os olhos teus poderão vê-los:

E do chão também te vendo
os verdes olhos se revelam.
Da caçula estão crescendo
à cacheada irmã mais velha.

5

3. ALEGRE PRIMAVERA

A primavera é rápida assim:
um dia antes não havia
construído para si
tão verdejante moradia!

A primavera deixa alegre
as campinas e aldeias
onde quer que ela empregue
seus arroios e floreios.

Mas não chegou a obra ao ponto,
por mais bela que rebente…
Toma fôlego e desponta
a diamba adolescente.

Tão bonitos e verdes,
seus cachos crescem e crescem…
Mas a guardada sua flor, vede:
é ainda uma promessa.

6

4. AS PARENTES DA DIAMBA

A diamba também tem parentes:
multiplicam-se no diambeiral!
Mas não são de sua gente
cacheada e fraternal…
São talvez suas sobrinhas,
não exatamente amigas,
mais precisamente ervas daninhas,
as chamadas de urtigas!

De tão venenosa e má,
não se pode com esta laia
a diamba misturar,
como num só mesmo balaio!
Raivosas, com espinhos,
experimente tocá-las e… ai, ai!
Nem serão boas vizinhas,
mas concorrentes desleais!

7

5. A MENINA-SARABAMBA

Menina Kátia tem sardas,
os orelhas rosadinhas,
cabelos ruivos entrançados
como de uma raposinha…
Conduzindo as ovelhas aos campos,
quando escapa uma madeixa,
pelos ares vai seu grampo
e tão embaraçada a deixa…

Os pés descalços da menina
de olhinhos meio vesgos,
pastoreando sob a neblina
com os seus cabelos crespos…
Vocês bem já adivinham
como dela vão falar!
Bons apelidos com carinho
poderíamos lhe dar…

Mas não, chegamos tarde!
De nossa amiga já fazem graça:
“A camponesinha de sardas
pelos campos faz fumaça!”…
As crianças com maldade tagarelam
sobre Kátia e a maconha:
“Diamba-sarabamba!”, zombam elas –
como fosse uma vergonha!

8

9

6. PRIMEIRA LOA DA DIAMBA
(Verão)

Diamba-sarabamba –
de fragrância perfumosa!
Diamba-sarabamba –
de ramagens tão viçosas!
Flor diamba, menina sarabamba:
benditas sejam ambas.

No verão e no outono,
filha humilde da lavoura,
ela dá seu rico aroma
para quem humilde lavra,
como flor de verde ouro
que cresceu entre tratores
e entre cercas de alambre,
numa única palavra:
diamba-sarabamba!

Como há campos de aveia,
a diamba tem seus campos
e eles são paisagens amplas
onde os pássaros gorjeiam,
e os homens que a plantam
têm repletos de esperança
os corações transbordantes
de sentir sua fragrância…

Diamba-sarabamba –
de cheirosa e forte fibra!
Diamba-sarabamba –
ninguém nunca te proíba!
Flor diamba, menina sarabamba:
benditas sejam ambas.

10

7. É TEMPO DE FLORIR

Vejam como voa o pardal
de um salgueiro até o outro!
E logo mais todo o quintal
no aguaceiro está envolto.

O verão esquenta mais e mais…
Com vivas cores e fresco âmbar,
há flores e mais flores onde vais…
Pois flore também tu, crespa diamba!

Flore, diamba, flore,
com teu verde tão modesto,
brota sob o manto arbóreo,
perfumosa flor agreste!

Na natureza, observa,
há meninos e meninas,
como os frutos desta erva
a duas casas se destinam.

Observa atentamente
da diamba como florem
umas flores com sementes,
outras flores com o pólen…

Enfim o alegre tempo da seara:
em tua palma flores deitas,
das sementes a pipoca tu preparas…
E se faça bom proveito!

11

8.  INVENÇÕES

Apelidada de diamba,
sempre atenta, ouve Kátia
o que se diz a seu respeito:
eles julgam, só com base em preconceito,
insinuam, só dislates-disparates
e diamba-sarabamba não aceitam.

As mentiras, deixem eles que as inventem!
Da diamba inventaremos bons proveitos:
ao pilar suas sementes
extraímos bom azeite,
e são melhores vestimentas
com a fibra dela feitas…

Tapam-se os buracos dos paióis
e até casa se constrói
com a matéria da diamba…
E até chicote se faz dela,
arreios, rédeas, selas
e outras cordas nada bambas!

E certa vez um marinheiro
em segredo admitiu:
“Diamba corre o mundo inteiro…”,
e num instante ele sorriu:
“Adiante, como hasteada bandeira,
de cânhamo é a vela do navio!”

12

13

9. A FLOR-MENINO

Estava Kátia ali plantada
à espera da carroça…
A flor menino, estocada,
ficou murcha, macilenta…
– Puxa! – Experimenta!
Eles de novo se alvoroçam…

Entre cotoveladas e sorrisos,
seus irmãos não se continham:
– Para quem a calça? E a camisa?
O chicote e o chicotinho? –
E começou o empurra-empurra:
– Urra! Urra!

Que arteiro esse Greguinho!
Isso, irmão, não é brinquedo!
Essa flor-menina é minha…
Este aqui, eu te concedo:
amassa, asseia este folhedo
e fabrica para ti teu chicotinho!

Greguinho era mesmo um traquinas.
Rosadinhas as bochechas,
lembram, quase, as da menina…
Menos fartas as madeixas.
Mas com olhos tão azuis…
– Da cor do mar! – Ui, ui!

Kátia olhava admirada:
também a flor-menino é útil à beça!
Velas, para que os barcos nadem… –
Nem milagre, nem promessa,
é a puríssima verdade!
O mundo inteiro, se soubesse…

Como os pássaros viajam para o sul,
as plantas também amam o céu azul.
Passarinho, decola!
A plantinha tiraremos da gaiola!
Greguinho estala seu chicote –
Um futuro marinheiro no seu bote.

14

10. A BATEÇÃO

Separados os melhores ramos,
o cânhamo no leito ressequiu…
A bateção nós começamos…
E não solta nenhum piu!
Com amor tudo suporte,
e terá vida em vez de morte.

Os grãozinhos, secos e picantes,
nas cabecinhas toc-toc,
em todo canto eles pipocam.
Quantos ramos num só monte!
Mas a poeira que levanta
é ruim demais da conta!

Ajuntem as crianças mais um pouco
e batam, batam com os tocos,
com alegria batam em nós!
E aproveitem nossas sementes,
estourem pipoca e escutem contentes
as histórias de seus avós!

15

11. A CAMISA NO RIO

Tu, camisa minha, no fundo do rio!
Tanto que te espero, até quando?
Só penso, na noite febril:
a diamba no rio afundando!

Como cantam e gargalham,
amarrando, colocando-a na água!
Com uma pedra presa aos galhos,
a diamba naufraga!

Mamãe pediu que eu me console,
vovó explicou para que serve:
precisa ir de molho, até ficar mole!
Verás tua diambinha em breve!

Para isso te batizam,
camisa minha tão esperada?
Que idéia, lavar uma camisa
que sequer foi costurada!

16

12. DIAMBA NO PRENSOR

Outono acinzentou os arvoredos
e a diamba já está encharcada:
pela manhã bem cedo
retiraram ela da água.

Bem, agora o trabalho é rápido:
a diamba secar e prensar.
E como a fibra está um trapo!
Sarabamba sarará…

Primeiro no prensor tu a colocas
e começas a pular sobre a alavanca…
Em seguida, numa roca,
um belo tufo tu arrancas!

Sobretudo é preciso rapidez…
Mas no prensor não tem segredo:
Sacode tudo de uma vez!
E cuidado com o dedo!

Vê como eles prensam e prensam –
E a diamba, quietinha, lá embaixo…
Eu sento com vovó em silêncio
e penteio os amados cachos!

17

13. ESPADELAR E PENTEAR

Não gosto muito da espadela:
como sacodem e sacodem a diamba!
Rolam pelos cantos tufos dela
enquanto a lâmina esculhamba.

Mas eu amo pentear seus cachos…
Desemaranho e desemaranho,
e já mais sedosa se acha
minha futura camisa de cânhamo.

Para tascar, as espadelas,
para pentear, os pentes,
como dando a uma donzela
um penteado diferente…

Emaranhados os seus ramos
no prensor que estalavam…
Agora na mão a pegamos –
suave, suave…

18

14. FRIO E NEVE

Com o inverno cai a neve
e o vento logo se enerva:
No telhado alguém que chora?
A nogueira de frio agoniza?
Deixem o vento brincar lá fora,
não vão congelar os narizes!

É hora de o tempo livre
aproveitar com um bom livro…
Kátia, debruçada sobre as figuras,
sem saber ainda as letras, memoriza,
prediletos da gaveta, os de aventura
sobre outros mares e países…

Com o alfinete vovô trabalha
trançando uma sandália…
pensas, com fio de palha?
Sobre as águas e cordas-bambas,
por quais bandas tanto andas,
sandalinha sarabamba?

19

15. SEGUNDA LOA DA DIAMBA
 (Inverno)

Diamba-sarabamba –
de vida sofrida!
Diamba-sarabamba –
de bonito penteado!
Quando tornares-te tecido,
estará tudo perdoado!

Inverno cruel, –
as nuvens formam uma cortina
que encobre todo o céu
enquanto afora murmurinham
os teus ventos prepotentes!
Mas divertem-se os meninos
com mãos cheias de sementes
que saltitam, como fossem joaninhas,
e estalam entre os dentes!

Vovó coroca
de cócoras se aninha,
a seu lado uma cumbuca de pipoca,
e num novelo enrola as linhas
que começam a silvar:
tu diamba, diambinha,
sarabamba saravá!

Flor diamba, menina sarabamba –
benditas sejam ambas!

20

16. A MÁQUINA ASSIM VIBRA

Os pássaros já fazem pilhéria,
o degelo a tudo encharca,
outra vez é primavera
e mamãe montou a máquina.

Vem chegando a roupa nova!
Mamãe pôs a urdidura,
e como fosse dura prova
vibra a máquina de costura!

A diamba novamente se emaranha,
enquanto a máquina assim vibra,
talvez não teia de aranha,
mas tecido, fibra a fibra!

E tudo sem despentear,
tece, tece sem parar, maquinaria…
Uma mosca que grudasse no tear
decerto não escaparia…

Depressa, pombinha! Ainda faz frio
e é preciso agasalhar o meu nariz!
E venha o tempo bom primaveril
iluminar nosso país!

21

17.  TERCEIRA LOA DA DIAMBA
(Primavera)

A diamba no quintal
acordou de uma soneca, –
como os tecidos no varal
sob o solzinho ela seca.
Seu verde, só, descoloriu
com o todo-poderoso frio…

Ah, a primavera vem chegando!
Além da neve e do gelo,
a diamba e seus cabelos
ao redor vão gotejando e estalando!
E nossa gente tem no rosto
um sorriso de dar gosto
de prazer desabrochando,
como quando no paiol
sob um raiozinho de sol
ouves o canto da calhandra.

Vamos, meninos, em fileira!
Vamos, meninas, dançar uma mazurca!
Eles saltam para perto da lareira
e batucam nas cumbucas.
Pés no chão, mãos na cintura!
Um salto à frente, um giro em torno!
E os sorrisos que fulguram
como a diamba no forno.

22

23

18. TESOURAS E FIOS

Mamãe colocou tudo sobre a mesa,
separando os tecidos um por um,
e se pôs a cortar com destreza
a tesoura: zum-zum!

É de cair o queixo:
também os fios vêm dessa safra!
E pensar que são as mesmas as madeixas
cujo azeite está servido na garrafa…

Às agulhas! Não preciso nem falar.
Por toda a casa, como andorinhas
costuramos, para lá e para cá,
e para o tanque à tardezinha…

Agora todos na aldeia têm camisa:
Kátia sarabambinha
e a vesguinha Lisa,
o irmão Paulinho
e Dária moleca,
e também o careca
vovô Aluízio,
uma xale para a corcova
de vovó Praskóvia,
sandálias para as descalças
Natália e Eduarda,
e ainda costuraram calças
para o Greguinho de sardas.

Esse verão Greguinho vai pastorear,
os rebanhos conduzir pelas campinas…
“E algum dia, para o mar!”,
o chicote rasgou a neblina.

24

19. GREGUINHO PASTOR

Abril já passou, tu mesmo vês:
há diambas novinhas por onde fores.
A primavera trabalhou mais uma vez
e foi embora deixando as flores…

E entrando em maio tu verás
como as ovelhas conduzindo pelos campos
e perdendo no caminho os seus grampos
Kátia vai, Greguinho atrás.

De camisa nova, o novo pastor
e futuro marinheiro, –
basta à Kátia ele propôr
alguma nova brincadeira.

E nas mãos os seu chicote:
Pastor! – E tenho dito!
E com estalos cada vez mais fortes
por dez vezes se repita!

25

20. A DIAMBA E A CORDA

Penteados e lavados seus cabelos,
sopra o vento, eles dançam.
Se alguém pensar torcê-los,
eis a mais bela das tranças.

A diamba nos bazares vai à venda,
as cordas para as tarefas difíceis,
o chicote pelos ares socorrendo
o cavaleiro em seu ofício.

Não se vive nem um dia sem diamba
e sem as cordas de seus cachos…
Um dia no campo descamba,
sem ela, barranco abaixo!

26

27

21. POR TODA A PARTE A DIAMBA ESTÁ

Kátia foi ao monte
sem levar o seu rebanho,
olhou ao longe o horizonte…
Há algo estranho…

Derramando seu calor
por toda a terra e todo o mar,
o sol está para se pôr  –
e Kátia… pronta a navegar!

E onde houver terra
a diamba está,
e sarabamba se encerra
onde houver mar…

Só uma história, ou o futuro?
Assim, sem nenhum aviso
a aldeia inteira flutua
bem diante de nossos narizes!

E onde vemos Kátia,
na verdade, é uma sereia!
E no barco da pátria
está Greguinho, o marinheiro!

O mar com suas ondas se alegrou,
a vela se ergueu alto no mastro
e o barquinho, como um grou,
no horizonte se afasta…

E a terra toda redonda
floresceu como a diamba!
E a saudou o sol se pondo:
salve, salve, sarabamba!

33

SEPARAÇÃO, de Marina Tsvetáieva

efron-tsv

 

SEPARAÇÃO

Poema de Marina Tsvetáieva (1892 – 1941).
Dedicado a Serguei Efron (8 de outubro 1893 – 16 de outubro 1941)
Tradução de André Nogueira, set. 2016.
Imagem, ver nota ao final do poema.

SEPARAÇÃO

(Marina Tsvetáieva)

para Serioja *

1
   
Torres em guerra
No Kremlin ao longe.
Onde na terra,
Onde –

Solidez minha,
Placidez minha,
Intrepidez minha,
Piedade de mim?

Torres em guerra,
Em guerra sem fim.
Onde na terra –
Minha
Casa,
Minha – graça,
Minha – alvorada,
Onde a pegada
De sola apertada,
Onde – meu sono?

Caída por terra
À noite esta guerra
Com os braços desmorono.

– Meu pedaço de abandono!

Maio 1921
      
2

Como de um longo desmaio
Ergo meus braços.
Pelo buraco negro da janela
Contra a batalha da meia-noite
Inúteis braços que duelam.
Com apelos de socorro o atraio
Para casa. – E ei-lo: a cabeça que cai
Da torre! – Para casa!

Estende da batalha
Para mim, soldado raso,
E não das praças ao cascalho,
O rasante de tua asa.

Maio 1921

3

Tudo torcido, tudo torcido
Como os braços sem amparo.
Entre nós não são terrestres
Verstas tais que nos separam,
Rios celestes e terras anil,
O inalienável bem-querer de toda a vida –
Por qual via que partiu?

Prateados arreios,
Pela estrada real já voou.
Os braços meus não despedaçam!
Arrastei-os
– Sem um piu! –,
Finquei meus pulsos
Como a árvore ao impulso
De uma ave que migrou.

Voa, amado grou,
Voa, sumindo de vista.
Não abro mão do meu prumo:
Bem me visto para uma morte
Rápida como suas plumas douradas
E equilibro-me no último suporte
Meio às vastidões devastadas.

Junho 1921

4

Igual o fruto da oliveira,
O cortado pé da cama.
O céu que inveja rasteiro
As paixões humanas.

Aos murmúrios para os deuses
Nós rezamos bem baixinho.
Toda a idade em flor perdeu-se,
Além de ti, pelo caminho.

A primaveril luxúria
A todos eles enfurece.
O céu te viu algures…
Pois, redobra tuas preces.

===================================

Acreditas – que as vozes
De tão glorioso cobre
E os sinais dos albatrozes
O percurso teu manobram

Do penhasco à emboscada –
O teu peito para a lança?
Que a onda sublevada
– Acreditas – te alcança?

Que aguilhões a floresta
Vai em ti – pensas? – cravar…
Pois maior que toda peste
É a clemência do tsar!

A gota fermente
Do pranto na terra.
Não temas a gente
Terrena, – misérrima!

Olhos mil estão a vê-lo
Como um Deus de antigamente:
Cada fio de teu cabelo
Preso a Ele pelo pente.

Não temas de Zeus
A abóbada oca
Do insaciável céu
Do coração da boca.

25 de junho 1921

5

De mansinho,
Desenreda estes caminhos
Débil mão que já cedeu.
Por minhas mãos relinchos teus.
Eu, amazona obediente, murmurinho
Pelos díssonos degraus do derradeiríssimo adeus.

Relinchas e escoicinhas,
Meu alado, no caminho
Iluminado. – No olhar uma alvorada.
Dai-me as mãos, dai-me as mãozinhas! –
Inútil alarido repetes.
Entre nós – a prestes queda d’ água do Letes.

27 de junho 1921

6

Cabelos brancos não verás
Em mim, nem eu em ti.
E, sem que olhes para trás,
Tu nem saudades vais sentir.

Ante a última desgraça
Este pranto me escapa:
– Agita o braço!
Faz cair a tua capa!

Sob a brusca olhada fria,
Camafeu de dura pedra,
Como a mãe espera a cria
Desta porta não arredo.

(Com o peso do meu sangue, a aridez
Destes joelhos, a retesa minha tez –
Pela derradeiríssima terrestre
Vez!)

Não como furtivo e articulado animal, –
Não, como sólido bloco
Passarei por esta porta –
Esta vida. – Afinal,
Somente em lágrimas derroco,
Uma vez que tuas costas
São de pedra mais polida.

De repente, já não pedra –
Asa larga de uma águia –
A largada tua capa e esta queda,
Precipício da ilharga
À cidade aonde busca
A mãe à cria
Sob a brusca
Olhada fria.                                              
    
28 de junho 1921

7

Como broto no cepo
Te afloras.
Que não te perceba
Zeus. –
Implora!

Que a tua flor germine
Devagar e com cuidado.
Teu encanto masculino
É por eles invejado.

Maxilares que hiantes
Te chamando junto deles…
Invejando teu encanto –
Um ninho de deuses.

Te atraem à peleja
Com louros e glórias.
Que não te eleja
Zeus. –
Implora!

As asas da águia
No céu em estrondo.
Teu grito propaga –
Que não te escondas!

Com sangue no bico
Te pinçou o raptor!
Cordeirinho nanico,
Deixa cair – o amor…

Com o peito cabeludo –
Beija o chão!
E implora ajuda…
Zeus,
Compaixão!

29 de junho 1921

8

Eu sei, eu sei,
Que nessa terra nosso amado,
Que esse cálice encantado,
É menos nosso
Do que deles –
Dos caminhos,
Das estrelas
E dos ninhos
Na encarnada pendurados.

Eu sei, eu sei
Quem é o dono desse cálice!
Como a altura da águia roçasse-a
A torre de meu braço para o céu,
Esse cálice eu sei como bebeu
A terrível e rosácea
Boca de Deus!

30 de junho 1921

…………….~// ~

* Na foto, o casamento de Marina Tsvetáieva com Serguei Efron em 1911. Serioja, como se lê na dedicatória de ‘Separação’, trata-se de uma forma diminutiva e carinhosa do nome Serguei. Com a derrubada do governo provisório de A. Kerenski pelo Exército Vermelho em outubro de 1917, Efron alistou-se nas fileiras do Exército Branco, que resistiu contra a revolução em guerra civil. Entre os anos de 1920 e 1921, os voluntários Brancos foram derrotados em suas diversas frentes. Estes poemas foram escritos por Tsvetáieva em Moscou entre maio e junho de 1921, quando havia quatro anos de sua separação, sem notícias de Efron, se vivo ou morto. Um período de atribulações para a poeta, sozinha com as duas filhas do casal, exposta à guerra e suas privações. Em 1919 a família passava fome e, obrigada a entregar as filhas ao orfanato, Tsvetáieva perdeu a mais nova, Irina, por desnutrição. Além de longos poemas consagrados à batalha do Exército Branco, Tsvetáieva dedicou neste tempo poemas a Efron, um dos quais é o ciclo ‘Separação’. No mês seguinte, julho de 1921, a poeta recebe a notícia de que seu esposo está vivo, em Praga. Marina Tsvetáieva e sua filha, Ariadna, deixam a Rússia quase um ano depois, em maio de 1922, para ir a seu encontro.

Nesta publicação de hoje lembramos a pessoa de Serguei Efron e seu amor com Marina Tsvetáieva. Conhecida por seu trágico desenlace, a história de ambos culminou em mais um gesto de dedicação da poeta, ao seguir Serioja, desta vez, de volta para a Rússia, ou melhor dizendo: para a União Soviética. Isso aconteceu em 1939. Estabelecido em Paris com a família a partir de 1925, Efron em 1932 ele se tornou integrante e em 1934 o secretário-geral da União para o Repatriamento, o órgão que visava recrutar emigrados russos arrependidos que, como ele, gostariam de regressar ao país natal. Esse órgão, na verdade, funcionava como uma extensão do serviço secreto soviético, para o qual Efron passou a colaborar. Com a esperança de ganhar o “perdão” pela atuação no Exército Branco, ele trabalhou como agente infiltrado no círculo da emigração russa em Paris. A casa onde a família se instalou e a verba com a qual Efron a sustentava vinham do governo soviético, enquanto que Marina Tsvetáieva, pelo visto, o ignorava. Em 1937 seu nome foi implicado no assassinato de Ignace Reiss, ex-colaborador da NKVD, e Efron saiu foragido em um navio soviético, novamente deixando desamparada Tsvetáieva. Submetida a interrogatórios, execrada pelo meio social em Paris, sem fonte de renda e inteiramente na dependência de “informantes”, Tsvetáieva embarcou de volta para a Rússia. Lá, Efron foi detido, acusação de traição. A Ariadna, também detida, condenaram a oito anos de prisão. Antes de fuzilado em 16 de outubro de 1941, Efron sob tortura recusou-se terminantemente a delatar o nome de Tsvetáieva, afirmando sempre que esta “por toda a sua vida só fez escrever versos e prosa”. Nos relatórios da NKVD, lê-se a seguinte observação de seus torturadores: “Internado a partir do dia 7 de novembro de 1939 no setor psiquiátrico da prisão de Butýrki, devido a alucinações reativas agudas e uma tentativa de suicídio. No momento, sofre de alucinações auditivas, pensa que escuta falar dele pelos corredores, que sua mulher morreu, que ele ouve o título de um poema conhecido apenas por ele e sua mulher etc. Apresenta-se ansioso e pensa em suicídio. Sente-se oprimido, assustado, como quem aguarda alguma coisa de horrível” (em ‘Vivendo sob o Fogo’, ed. Martins Fontes, 2008, pág. 705, tradução de Aurora Bernardini). Como se sabe, seu pressentimento acerca de Marina Tsvetáieva se realizou, da pior forma, em 31 de agosto de 1941.

РАЗЛУКА

Марина Цветaева

Сереже


1

Башенный бой
Где-то в Кремле.
Где на земле,
Где –

Крепость моя,
Кротость моя,
Доблесть моя,
Святость моя.

Башенный бой.
Брошенный бой.
Где на земле –
Мой
Дом,
Мой – сон,
Мой – смех,
Мой – свет,
Узких подошв – след.

Точно рукой
Сброшенный в ночь –
Бой.

– Брошенный мой!

Май 1921

2

Уроненные так давно
Вздымаю руки.
В пустое черное окно
Пустые руки
Бросаю в полуночный бой
Часов, – домой
Хочу! – Вот так: вниз головой
– С башни! – Домой!

Не о булыжник площадной:
В шепот и шелест…
Мне некий Воин молодой
Крыло подстелет.

Май 1921

3

Всё круче, всё круче
Заламывать руки!
Меж нами не версты
Земные, – разлуки
Небесные реки, лазурные земли,
Где Друг мой навеки уже –
Неотъемлем.

Стремит столбовая
В серебряных сбруях.
Я рук не ломаю!
Я только тяну их
– Без звука! –
Как дерево-машет-рябина
В разлуку,
Во след журавлиному клину.

Стремит журавлиный,
Стремит безоглядно.
Я спеси не сбавлю!
Я в смерти – нарядной
Пребуду – твоей быстроте златоперой
Последней опорой
В потерях простора!

Июнь 1921

4

Смуглой оливой
Скрой изголовье.
Боги ревнивы
К смертной любови.

Каждый им шелест
Внятен и шорох.
Знай, не тебе лишь
Юноша дорог.

Роскошью майской
Кто-то разгневан.
Остерегайся
Зоркого неба.

=======

Думаешь – скалы
Манят, утесы,
Думаешь, славы
Медноголосый

Зов его – в гущу,
Грудью на копья?
Вал восстающий
– Думаешь – топит?

Дольнее жало
– Веришь – вонзилось?
Пуще опалы –
Царская милость!

Плачешь, что поздно
Бродит в низинах.
Не земнородных
Бойся, – незримых!

Каждый им волос
Ведом на гребне.
Тысячеоки
Боги, как древле.

Бойся не тины, –
Тверди небесной!
Ненасытимо –
Сердце Зевеса!

25 июня 1921

5

Тихонько
Рукой осторожной и тонкой
Распутаю путы:
Ручонки – и ржанью
Послушная, зашелестит амазонка
По звонким, пустым ступеням расставанья.

Топочет и ржет
В осиянном пролете
Крылатый. – В глаза – полыханье рассвета.
Ручонки, ручонки!
Напрасно зовете:
Меж ними – струистая лестница Леты.

27 июня 1921

6

Седой – не увидишь,
Большим – не увижу.
Из глаз неподвижных
Слезинки не выжмешь.

На всю твою муку,
Раззор – плач:
– Брось руку!
Оставь плащ!

В бесстрастии
Каменноокой камеи,
В дверях не помедлю,
Как матери медлят:

(Всей тяжестью крови,
Колен, глаз –
В последний земной
Раз!)

Не крадущимся перешибленным зверем, –
Нет, каменной глыбою
Выйду из двери –
Из жизни. – О чем же
Слезам течь,
Раз – камень с твоих
Плеч!

Не камень! – Уже
Широтою орлиною –
Плащ! – и уже по лазурным стремнинам
В тот град осиянный,
Куда – взять
Не смеет дитя
Мать.

28 июня 1921

7

Ростком серебряным
Рванулся ввысь.
Чтоб не узрел его
Зевес –
Молись!

При первом шелесте
Страшись и стой.
Ревнивы к прелести
Они мужской.

Звериной челюсти
Страшней – их зов.
Ревниво к прелести
Гнездо богов.

Цветами, лаврами
Заманят ввысь.
Чтоб не избрал его
Зевес –
Молись!

Все небо в грохоте
Орлиных крыл.
Всей грудью грохайся –
Чтоб не сокрыл.

В орлином грохоте
– О клюв! О кровь! –
Ягненок крохотный
Повис – Любовь…

Простоволосая,
Всей грудью – ниц…
Чтоб не вознес его
Зевес –
Молись!

29 июня 1921

8

Я знаю, я знаю,
Что прелесть земная,
Что эта резная,
Прелестная чаша –
Не более наша,
Чем воздух,
Чем звезды,
Чем гнезда,
Повисшие в зорях.

Я знаю, я знаю,
Кто чаше – хозяин!
Но легкую ногу вперед – башней
В орлиную высь!
И крылом – чашу
От грозных и розовых уст –
Бога!

30 июня 1921