ABRI AS VEIAS, de Marina Tsvetáieva

 

tsvetaeva bilhete *

ABRI AS VEIAS

Poema de Marina Tsvetáieva
Tradução por André Nogueira (2012/ revisado em 2017)

* * *

Abri as veias: irreparável,
Irreversível, a vida borbota.
Tragam pratos e vasos!
Todo prato – será raso,
Todo vaso – será magro.

Sem parar, a terra traga
E, irrigado pelas bordas,
Irrevogável, irreparável,
Irreversível, o verso brota.

6 de janeiro 1934

* Imagem: Um dos últimos registros escritos por Marina Tsvetáieva, antes de sua morte em 31 de agosto de 1941. Citamos, comentado por Tsvetán Todorov e traduzido por Aurora F. Bernardini em “Vivendo sob o Fogo” (Martins Fontes, 2008, pág. 744):

«Em Tchistopol ela [Tsvetáieva] não recebe uma resposta clara para seus pedidos de emprego. Ao ficar sabendo que o Litfond [órgão da União dos Escritores Soviéticos] abriria uma cantina, resolve se candidatar e escreve este pedido, um dos documentos mais deprimentes da história da literatura russa:

“Ao Soviete do Litfond:

Peço dar-me um emprego como lavadora de pratos na cantina a ser aberta pelo Litfond.

M. Tsvetáieva
26 de agosto de 1941.”

A direção do Litfond hesita em empregar a antiga emigrada, casada com um inimigo do povo; sem esperar pela resposta definitiva, Marina Tsvetáieva toma o barco de volta a Elábuga, aonde ela chega em 28 de agosto. Recebe outra convocação da NKVD. Parece ser nesse momento em que ela decide pôr um fim a seus dias».

* * *

Вскрыла жилы: неостановимо,
Невосстановимо хлещет жизнь.
Подставляйте миски и тарелки!
Всякая тарелка будет – мелкой,
Миска – плоской.

Через край – и мимо
B землю черную, питать тростник.
Невозвратно, неостановимо,
Невосстановимо хлещет стих.

6 января 1934