ABRI AS VEIAS, de Marina Tsvetáieva

 

tsvetaeva bilhete *

ABRI AS VEIAS

Poema de Marina Tsvetáieva
Tradução, André Nogueira (2012)

* * *

Вскрыла жилы: неостановимо,
Невосстановимо хлещет жизнь.
Подставляйте миски и тарелки!
Всякая тарелка будет – мелкой,
Миска – плоской.

Через край – и мимо
B землю черную, питать тростник.
Невозвратно, неостановимо,
Невосстановимо хлещет стих.

6 января 1934

* * *

Abri as veias: irreparável,
Irreversível, a vida borbota.
Tragam pratos e vasos!
Todo prato – será raso,
Todo vaso – será magro.

Sem parar, a terra traga
E, irrigado pelas bordas,
Irrevogável, irreparável,
Irreversível, o verso brota.

6 de janeiro 1934

  • Imagem: Um dos últimos registros escritos por Marina Tsvetáieva, antes de sua morte em 31 de agosto de 1941. Citamos acompanhado de comentário de Tsvetán Todorov e tradução de Aurora Bernardini, em “Vivendo sob o Fogo” (Martins Fontes, 2008, pág. 744):

    <<Em Tchistopol ela [Tsvetáieva] não recebe uma resposta clara para seus pedidos de emprego. Ao ficar sabendo que o Litfond abriria uma cantina, ela resolve se candidatar e escreve este pedido, um dos documentos mais deprimentes da história da literatura russa:

    “Ao Soviete do Litfond:

    Peço dar-me um emprego como lavadora de pratos na cantina a ser aberta pelo Litfond.

    M. Tsvetáieva
    26 de agosto de 1941.”

    A direção do Litfond hesita em empregar a antiga emigrada, casada com um inimigo do povo; sem esperar pela resposta definitiva, Marina Tsvetáieva toma o barco de volta a Elábuga, aonde ela chega em 28 de agosto. Recebe outra convocação da NKVD. Parece ser nesse momento em que ela decide pôr um fim a seus dias>>

 

 

Anúncios

4 comentários sobre “ABRI AS VEIAS, de Marina Tsvetáieva

  1. Só agora tive tempo de ler. Achei muito interessante poder acompanhar o seu raciocínio e se antes, não sabendo russo, podia apenas gostar intuitivamente das suas traduções, agora tem todo um universo a explorar.

    1. oi Mariana. obrigado! e pelas tuas traduções. me fazem muito contente. isso de escrever sobre, estou recomendando aos meus amigos, os quais, felizmente, são vários, que escrevem poemas (e penso que isso te inclui); refazendo o caminho da tomada de decisão a gente descobre bastante coisa, levantando questões cósmicas também – universo a explorar. tuas palavras dão força a este blog e todos que nele escrevemos. e obrigado pelo trato no visual, está bonitíssimo… aquela torre já estava caindo aos pedaços! ;)

  2. Por limitações do Blog, foi impossível transferir a tradução do Pignatari fielmente às opções gráficas que ele fez:

    abro as veias
    brota em botões
    ela
    a vida
    sem cura
    sem volta
    nada segura
    o jorro
    acorram
    com prato
    cuia
    tigela
    gamela
    rasos demais!
    ela transborda
    verte-se na terra escura
    vai
    às raízes
    sem volta
    sem cura
    esvai-se
    ela
    em versos

    (Tsvetaeva, por Pignatari, Travessa dos Editores, 2005).

  3. Trad. do Augusto de Campos:

    Abro as veias: irreprimível,
    Irrecuperável, a vida vaza.
    Ponham embaixo vasos e vasilhas!
    Todas as vasilhas serão rasas,
    Parcos os vasos.

    Pelas bordas – à margem –
    Para os veios negros da terra vazia,
    Nutriz da vida, irrecuperável,
    Irreprimível, vaza a poesia.

    (Poesia Moderna Russa, Nova Antologia; Brasiliensi, 85).

Comentar

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s