PREFÁCIO PARA A EDIÇÃO COMPLETA DAS MINHAS OBRAS, de Dmitri Chostakóvitch.

 

Shostakovich

PREFÁCIO PARA A EDIÇÃO COMPLETA DAS MINHAS OBRAS E UMA BREVE CONSIDERAÇÃO A PROPÓSITO DE TAL PREFÁCIO  *

Peça para baixo e piano, 1966, op.123.
Epigrama de Aleksandr Púchkin (1799-1837).
Texto e música de Dmitri Chostakóvitch.
Tradução por André Nogueira,
25 de setembro de 2016, em homenagem aos 110 anos do compositor.


Prefácio para a Edição Completa das Minhas Obras e uma Breve Consideração a Propósito de tal Prefácio:

 “Com um único espirro eu sujo o papel.
 Com a orelha costumeira escuto o escarcéu.
 Do mundo inteiro eu torturo seus ouvidos.
 Depois publico e – bum! – sou esquecido.”

Este prefácio poderia ter sido escrito
não somente para a edição completa das minhas obras,
senão também para a edição completa das obras
de muitos, muitos outros compositores,
tanto soviéticos como estrangeiros.
E eis a assinatura: Dmitri Chostakóvitch.
Artista do Povo da URSS,
um grande número de títulos honorários,
Primeiro-Secretário da União dos Compositores da RSFSR,
simplesmente Secretário da União dos Compositores da URSS,
assim como vários outros cargos
e posições extremamente respeitáveis.

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ПРЕДИСЛОВИЕ К ПОЛНОМУ СОБРАНИЮ МОИХ СОЧИНЕНИЙ И КРАТКОЕ РАЗМЫШЛЕНИЕ ПО ПОВОДУ ЭТОГО ПРЕДИСЛОВИЯ

(Для баса и фортепиано, 1966, op.123.
Эпиграмма Пушкина. Текст Шостаковича).

“Мараю я единым духом лист.
Внимаю я привычным ухом свист.
Потом всему терзаю свету слух.
Потом печатаюсь – и в Лету Бух!”

Такое предисловие можно было б написать
не только к полному собранию моих сочинений,
но и к полному собранью сочинений
многих, очень, очень многих композиторов,
как и советских, так и зарубежных.
А вот и подпись: Дмитрий Шостакович.
Народный артист СССР,
очень много и других почетных званий,
первый секретарь Союза композиторов РСФСР,
просто секретарь Союза композиторов СССР,
а так же очень много других весьма
ответственных нагрузок и должностей.

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* Fazemos acompanhar em citação um excerto do livro “Shostakóvich: Vida, Música, Tempo”, de Lauro Machado Coelho (Ed. Perspectiva, 2006, págs. 372-373):

<< Em 28 de maio de 1966, Shostakóvich participou, pela última vez como pianista, de um concerto dedicado às suas obras. Acompanhou Galina Vishniévskaia e Ievgueni Nesterenko numa série de ciclo de canções, que incluíam duas estréias. Transcrevera para soprano as ‘Canções Judaicas’, para que Galina pudesse cantá-las. Nesterenko fez as ‘Romanças sobre Poemas Ingleses’. Para ele, também, Shostakóvich escrevera o texto e a música de uma canção satírica, ‘Prefácio à Edição Completa de Minhas Obras […]’. Os irônicos comentários à sua obra e funções oficiais – para os quais Shostakóvich inspira-se em um epigrama de Púchkin chamado ‘A História de um Versificador’ – são um belo exemplo de autoparódia. Nesterenko estava tão nervoso, que perdeu a sua entrada. Dmitri recomeçou e, mais uma vez, o cantor perdeu a entrada. Só na terceira vez conseguiu acertar… Nesterenko não foi o único a estar nervoso. Em sua biografia, Vishniévskaia conta que, nos ensaios, Dmitri estava apavorado, devido ao problema nos músculos das mãos, a ponto de cometer, três vezes seguidas, o mesmo erro na execução do soneto LXVI, de Shakespeare. No recital, apesar de estar em pânico, tudo correu maravilhosamente, o que o deixou excitadíssimo… Horas depois, porém, sofreu um enfarto, e tiveram de hospitalizá-lo novamente. Ao receber alta, foi mandado para um sanatório em Mielnítchnyi Rutchiei, perto de Leningrado, onde, por coincidência, o puseram no mesmo quarto que, no passado, costumava ser ocupado por Andrei Jdanov>>.

Andrei Jdánov, braço direito de Iossif Stálin na fiscalização de obras artísticas, perseguidor de Chostakóvitch muitos outros artistas soviéticos. As diretrizes da censura, no período de maior repressão, ficaram conhecidas como jdanovismo, e os longos anos de seu vigor, como jdanovtchina, isto é, a “era Jdanov”. Depois de sua morte em 1948 e de Stálin em 1953, com as denúncias de seus crimes e o subseqüente “degelo” da cultura soviética, iniciou-se um processo gradual de “des-jdanovização”. No universo da música, tal processo passou pelo encerramento da União dos Compositores da URSS e criação de uma União dos Compositores da RSFSR (República Socialista Federativa Soviética Russa), em 1960. No fim da década de 50 Chostakóvitch passou a integrar a União dos Compositores da URSS, participou da criação da União dos Compositores da RSFSR e foi condecorado Artista do Povo da União Soviética. Parecem ter sido esses os acontecimentos que levaram Chostakóvitch a ingressar, em 1960, no Partido Comunista, então sob governo de Nikita Khrushtchióv. Mas há uma série de circunstâncias que nos ajudam a compreender melhor a profunda ironia deste seu Prefácio, bem como o nervosismo que o acometeu em sua execução. Volto a citar L. M. Coelho (págs. 293-299):

<< O processo de libertação dos presos políticos, e da reabilitação das vítimas do terror stalinista… foi lento e laborioso. Em 1956, milhares deles começaram a sair do Gúlag [os campos soviéticos de trabalhos forçados]. ‘Nossa casa virou um hotel para a gente que voltava’, contou Maksím [filho de D. Chostakóvitch], referindo-se a todos os libertados a quem Dmitri hospedou e ajudou a recolocar na vida social. Usando o prestígio que seus títulos de deputado da República Russa e de Artista do Povo da URSS lhe conferiam, Shostakóvich empenhou-se na defesa de uma ampla gama de indivíduos, que iam desde a família de Guenrietta Dombróvskaia – deixada na miséria pela execução de seu marido – até a reabilitação de Vsiévolod Meyerkhold…

Foi no domínio das artes que se manifestaram com mais clareza as esperanças de que estivesse a caminho um processo de democratização. Morto Stálin, desapareceu a necessidade de produzir, em série, documentários históricos como ‘A Queda de Berlin’. Um novo capítulo na história do cinema soviético se abre com filmes como ‘Quando Voam as Cegonhas’, de Mikhail Kalatózov, premiado em Cannes em 1958 […] Livros por muito tempo engavetados começaram a vir a lume; as montagens do ‘Sovriemiennikh Teatr’ (Teatro Contemporâneo), de Moscou, provocaram debates; o conselho de Ministros criou uma Comissão Nacional de Intercâmbios Culturais com o exterior; poetas que há tempos estavam no desvio – Yevgueni Yevtuchenko, Andrei Vinokhúrov, Andrei Vozniessiénski, Bulát Okudjáva, ou o veterano Nikolai Zabolótski – puderam voltar a publicar […]

Essas mudanças bruscas não eram de todo aprovadas por Khrushtchióv. Numa reunião em meados de 1957 com diversos intelectuais, ele se opôs violentamente às idéias literárias mais audaciosas. E tratou brutalmente a poeta Margarita Aliguér, que reclamava contra o fechamento do anuário ‘Literatúrnaia Moskvá’. Apesar de seus modos bruscos, Khrushtchióv desfrutava de certa popularidade nos meios artísticos. Entre os que o apoiavam, estava Anna Akhmátova, grata a ele por ter ordenado a libertação de seu filho, Liév Gumilióv, preso desde antes da II Guerra Mundial. Isso não impediu que se desencadeasse, em 1958, uma campanha sem precedentes contra o poeta Boris Pasternak. […] Apesar da prisão de sua amante, Olga Ivínskaia,… no inverno de 1945 Pasternak começou a escrever a que haveria de considerar sua obra mais importante: o romance ‘Dr. Jivago’, vasto panorama das atribulações da intelectualidade russa sob a Revolução e o stalinismo… Recusado por todos os editores soviéticos, o romance foi contrabandeado para o exterior e publicado na Itália em novembro de 1957, já em plena era Khrushtchióv. Como o sucesso imediato do livro não foi muito grande, a imprensa soviética conseguiu silenciar o escândalo por algum tempo. No ano seguinte, quando Pasternak tornou-se o primeiro escritor soviético a ganhar o Prêmio Nobel e o livro foi traduzido em todas as línguas do mundo, o Pravda publicou um longo artigo de David Ióssifovich Zaslávski intitulado ‘As Vociferações da Propaganda Reacionária a Propósito de uma Erva Daninha Literária’. Embora ninguém tivesse lido uma só palavra do romance na URSS, os jornais foram inundados de manifestações ‘espontâneas’ dos leitores, pedindo para o escritor a mais dura das punições. Em outubro, uma sessão especial da União dos Escritores condenou Pasternak por ‘cuspir na cara do povo’… e Alexander Biezymiênski… pedira sua deportação: “Arranquemos a erva daninha pela raiz!”. Obrigado a recusar o Nobel, traído por muitos de seus colegas escritores, Pasternak morreu sozinho e amargurado, em maio de 1960…

Na música, o processo de degelo foi ainda mais laborioso. O artigo de Khrénnikov, no primeiro número da ‘Soviétskaia Muzika’ de 1957, preparando o II Congresso da União dos Compositores… esmerava-se em dar uma no cravo outra na ferradura: “O principal erro da secretaria da União dos Compositores foi freqüentemente ter adotado posições dogmáticas na luta contra o formalismo, atribuindo esse conceito a obras… que não o mereciam. Ouvimos recentemente, depois de muito tempo, a Oitava Sinfonia de Shostakóvich que, ao lado de muita coisa criticável, tem numerosas passagens artisticamente fortes e impressionantes… A experiência demonstra que a classificação da Oitava… no grupo das obras formalistas foi errônea e sem fundamento”.

O II Congresso da União dos Compositores [da URSS], iniciado em 23 de março [1957], recenseou as obras escritas entre 1946-1956, fez o balanço da criação musical soviética e apontou os rumos a seguir. Assim como Jdanov no I Congresso [19-25 de abril de 1948], a figura central aqui foi Dmitri Shepílov, representando o Partido. Surpreendendo os liberais, Khrénnikov defendeu os princípios do Realismo Socialista, atacando violentamente o chamado ‘Outono de Varsóvia’: a decisão dos músicos poloneses [Krzysztof Penderecki, Witold Lutoslawski, Grazyna Bacewicz] de romper com essas diretrizes… O dogmatismo de Khrénnikov, partidário do respeito à resolução de 1948, não o impediu de ser re-eleito secretário-geral [da União dos Compositores da URSS]… Apesar das conclusões indefinidas e insatisfatórias do II Congresso, pareceu animadora a atitude do Partido que, em fevereiro de 1958, emitiu uma resolução sobre “os erros cometidos na avaliação de ‘Grande Amizade’, de Muradélli, do ‘Bagdán Khmielnítski’, de Konstantin Dankiévitch, e ‘Do fundo do meu Coração’, de Guerman Jukóvski”. Embora afirmando que a resolução de 1948 “desempenhara papel positivo no desenvolvimento de conjunto da música soviética”, essa nova resolução admitia que “o julgamento da obra de determinados compositores foi, muitas vezes, infundado e injusto” (o camarada Shostakóvich era mencionado nesse contexto, juntamente com Prokófiev, Khatchatúrian, Shebalín, Popóv e Miaskóvski): “A obra desses compositores, que apresentava algumas tendências equivocadas, foi globalmente denunciada… Algumas avaliações injustificadas, contidas na resolução de então, eram resultado das opiniões subjetivas de I. V. Stálin a respeito de certas obras de arte e da criação de determinados artistas”…

O Concurso Internacional Tchaikóvski, de interpretação, acabara de ser criado, e a presidência do júri fora confiada a Shostakóvich, grande pianista e maior compositor soviético vivo, detentor do Prêmio Lênin. Ora, aos olhos da comunidade internacional, essa honraria não poderia ser concedida a um artista oficialmente colocado no índex, como inimigo do povo. Era, portanto, necessário reincorporá-lo à máquina de propaganda cultural do Estado. Por isso foi ele, e não Khrénnikov, o escolhido para pronunciar, durante a recepção oferecida no Krêmlin, em 8 de fevereiro de 1958, o discurso – preparado por outros – em que fazia um brinde à nova liderança partidária – cerimônia que, na realidade, preparou o terreno para a recisão parcial da resolução de 1948, no Congresso de março. Da mesma forma, o governo o mandaria aos Estados Unidos, em 1959, como parte da delegação liderada por seu arqui-inimigo Khrénnikov. Descrito pela ‘Musical America’ como “um homem nervoso, de olhos brilhantes e mãos inquietas, que fuma sem parar”, suas cautelosas declarações, bem ensaiadas, confirmariam a impressão que se tinha, no Ocidente, de que ele se convertera em um comunista ortodoxo >>

Sobre o polêmico ingresso de Chostakóvitch para o Partido Comunista em 1960, traduzi do inglês uma passagem de Laurel E. Fay, “Shostakóvich, a Life” (Oxford University Press, 2000, págs. 216-219):

<< A realização artística de Chostakóvitch foi ofuscada pela sua nova atuação como servidor público. Na primeira semana de abril de 1960, o Primeiro Congresso de Compositores da Federação Russa (RSFSR) teve lugar em Moscou. Apesar de estabelecer formalmente a União dos Compositores no nível da república, a sua comissão organizadora operava desde 1958 e patrocinou plenárias oficiais. Enquanto isso, a organização dos compositores da cidade de Moscou foi criada em 1959. Destaque para o Primeiro Congresso Constituinte, incluindo uma recepção no teatro do Krêmlin com a participação de líderes soviéticos e do corpo diplomático, começando com uma performance de ‘O Sol Brilha sobre a Pátria Mãe’ [opus 90 de D. Chostakóvitch]. Em 9 de abril de 1960, Chostakóvitch foi eleito primeiro-secretário, convocado para a mais elevada posição de liderança da recém-fundada União. Em 30 de abril, dele foi uma das saudações para a nação por ocasião do 1º de Maio, publicada no Pravda: “Estamos alcançando o comunismo. Louvar a mais justa sociedade humana na história é uma digna missão e satisfação para os compositores… Neste 1º de Maio de 1960 eu verdadeiramente ouço a música do comunismo. E, olhando para frente, gostaria de convidar todos os compositores soviéticos, meus caros amigos, para um trabalho ainda mais intenso e um novo sucesso criativo. Avante amigos, rumo ao comunismo!”. Na vida privada, contudo, Chostakóvitch se mostrou freqüentemente mais cínico a respeito das aspirações e promessas do comunismo. Assim ele contradisse Flora Litvínova numa conversa em 1956: “Não, o comunismo é impossível!”.

Sua imprevista entrada como membro no Partido Comunista em 1960… resultou um dos mais enigmáticos episódios de sua biografia. No fim de junho de 1960, Chostakóvitch se encontrava em Leningrado, onde sofreu um colapso nervoso, provocado pela iminência da convocatória que o levaria a Moscou para efetuar sua iniciação como membro do Partido. As versões contadas por Glikman e Lebedinski – que testemunharam sua crise – são contraditórias. Segundo relata Glikman, a decisão de Khrushtchióv em fazer de Chostakóvitch a cabeça da recém-fundada União dos Compositores da Federação Russa implicou no requerimento de sua filiação ao Partido. À honraria oferecida por um presidente do Comitê Central, delegado a recrutá-lo, o compositor se manteve resistente, e manobrou a situação o quanto possível antes de consentir. Já Lebedinski, ele mesmo um membro do Partido desde 1919, defende que não houve um grande plano para recrutar Chostakóvitch, que a pressão para aderir proveio de um escalão mais baixo de funcionários… Ele observou que Shostakóvich não chegou a dizer o nome de quem o forçara a assinar a inscrição, mas lhe deu a entender, envergonhado, que a tanto sucumbiu sob a influência do álcool…

Tal acontecimento foi mistificado por vários colegas e amigos de Chostakóvitch. E deixou muitos intelectuais desapontados. Alguns cogitam seriamente a possibilidade de que a partir daquele momento pendia, sobre Chostakóvitch e sua família, a espada de Dâmocles, o que sem dúvida seria o caso na era de Stálin. É verdade que, para melhorar a imagem do Partido Comunista sob governo de Khrushtchióv, houve uma campanha para recrutar às suas fileiras sangue novo da intelligentzia… Que houve algum grau de coerção, é evidente. Mais comumente compreende-se o consentimento de Chostakóvitch como um produto do pavor crônico, o terror que deformou toda a sua vida. >>

A nova fase não significou o fim da censura partidária às obras de Chostakóvitch. É verdade que ele se tornou mais livre, por exemplo, para se exprimir por meio da poesia, musicando versos de Marina Tsvetáieva, Aleksandr Blok, Ievgueni Ievtuchenko, além de poetas estrangeiros, García Lorca, Rainer Maria Rilke, Guillaume Apollinaire, ou então compondo peças satíricas como as Romanças sobre extratos da revista Krokodil ou Sátiras sobre textos de Sacha Tchiórni. Mesmo assim, Chostakóvitch se viu obrigado a assentir em trechos onde a comissão do Partido interveio revisando os poemas de Ievtuchenko usados em sua 13ª Sinfonia em 1962. A estréria do Prefácio, em 1966, aconteceu já na era Brejniev. O pavor de Chostakóvitch e seus músicos na execução da peça revela o peso psicológico dessas “transgressões” num ambiente político ainda muito repressivo. Lauro M. Coelho lembra que, para a apresentação da 14ª Sinfonia de Chostakóvitch, “as autoridades não enviaram nenhum representante. Estava lá apenas Pável Apostolóv, stalinista de coração…

O violinista Mark Lubótski, que assistiu à estréia, conta que, embora Chostakóvitch tivesse pedido silêncio à platéia, pois seria feita uma gravação privada daquele concerto, durante o quinto movimento, Apostolóv retirou-se ruidosamente da sala: ‘Quando a sinfonia terminou, as primeiras pessoas a sair viram um homem ser retirado do prédio, numa maca, para dentro de uma ambulância. Apostolóv tinha tido um ataque do coração enquanto a música estava sendo tocada’” (Op. Cit. 385).

A 14ª Sinfonia de Chostakóvitch, com versos de Lorca a Apollinaire, rompeu com todos os limites do que, até então, podia ser falado na União Soviética. Já traduzi para esta revista (Clique aqui) um desses poemas de Apollinaire, Resposta dos Cossacos Zaporojes ao Sultão de Constantinopla, infalivelmente associado, na Sinfonia, à figura de Stálin: “Cem vezes mais cruel que Barrabás,/ Com o corno diabólico na testa,/ Encostado a Belzebu aí estás…/ Não iremos ter contigo em tuas festas (…)/ Mestre-sala de uma corja filistéia,/ Empanturras-te de tudo que é imundo…/ Contorcendo-se em terrível diarréia/ Aos coices tua mãe te pôs no mundo… etc.”. Que efeitos poderia ter, sobre um “stalinista de coração”, tão crua enunciação de uma verdade mortalmente interditada? Trinta anos antes, por uns versos assim, em que comparava os bigodes do ditador a antenas de barata, Óssip Mandelstam fora preso e torturado até a morte; e agora os stalinistas enfartam ao os ouvir. O nervosismo de Chostakóvitch e Nesterenko na estréia do Prefácio confirma o quanto, mesmo com a abertura dos anos 60, era grave o rompiamento que se operava no âmbito da linguagem, e a coragem precisou ter, nesta e em tantas outras ocasiões, esse grande Artista do Povo soviético.      

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