Liubliú / Amo, de Vladimir Maiakovski

liu

Liubliú **

(Amo)

Poema de Vladimir Maiakovski,
Tradução, André Nogueira (2013)

 

** “Todas as homenagens que o poeta rendeu a Lília (em poemas como ‘Lílitchka!’, ‘A Fláuta-Vértebra’, ‘O homem’, ‘Disto’) se resumem numa única palavra que ele transformou no que hoje chamaríamos de poema concreto. Maiakovski fez gravar num anel, que deu a ela de presente, as letras ‘L’, ‘IU’ e ‘B’ – as iniciais do nome completo de sua amada: Lília IÚrieva Brik. Em disposição circular elas formam a palavra LIUBLIÚ (amo)”.

Geralmente é assim

O amor é dado
a todos que vêm ao mundo, –
mas entre encargos,
rendimentos
e tudo,
de um dia para outro,
o coração se amortiza.
Vestimos no coração o corpo
e no corpo a camisa.
Mas ainda é pouco.
Alguém
– um idiota! –
fez mangas compridas
e até cobriu o peito
com o ferro de passar roupa!
Na velhice é que se nota:
por mais que a mulher se maquie
e o homem
no maquinário de Müller
se exercite,
já não tem volta:
o invólucro encheu-se de rugas.
A passadeira dos anos
repugna o amor
balizando botões de flor.

Quando menino

Eu fui feito sob medida para o amor.
É que as pessoas
são trituradas pelo trabalho
desde a infância.
Já eu –
fugia para as margens do Rioni
nem o diabo sabe por que atalho
e ficava na andança.
Mamãe se irritava:
« menino mal-criado! ».
A cinta de papai zunia.
Mas eu
mais rápido prestidigitava
com três rublos falsos
jogando « montes de três »
com os fardados da infantaria.
E eis,
sem o peso das botas
nem o fardo das camisas,
eu a bronzear-me à beira rio.
Virava para o sol estas costas
e esta barriga –
de estômago vazio.
O sol se maravilhava:
« Onde já se viu?
Pudera, com um coração desse tamanho!
Quase que desaba.
Incrível que caiba
em tão pequena criatura
eu,
o cinturão do rio
e mais três verstas de montanhas! »

Juventude

A juventude põe a mão na massa
dos dicionários
para estudar a gramática dos burros
e vilões exibicionistas.
Já eu, expulso do 5º ano do ginásio
fui jogar atrás dos muros
das prisões moscovitas.
No mundinho
de vossos apartamentos
brotam,
no chão de seus cubículos,
montículos de lírica.
O que nela tu tricotas?
Ao mesmo tempo
que a mim estudam
como melhor amar
nos calabouços da Butyrka!
Que saudades terei eu
dos bosques de Bolonha?
Que cultos prestarei eu
à imensidão marinha?
Eis que meu coração, enamorado, sonha
no « escritório de processos sepultos »
da 103ª cela
pelo vão da janelinha.
Muitos olham o sol diário
e desdenham:
« Estes raiozinhos, de que valem? »
Enquanto eu daria o mundo
para que uma desta lebre amarela
que no muro se desenha
me resvale.

Minha universidade

Vocês sabem francês.
Dividem,
multiplicam,
declinam perfeitamente.
Pois declinem!
Me digam: vocês
com os edifícios
sabem cantar?
A língua dos trens vocês compreendem?
Os discípulos
estendem as mãos
somente aos livros
e cadernos de tabuada.
Eu
aprendi o alfabeto nas placas
folheando páginas de ferro e alumínio.
Os mestres
apertam em suas mãos
a terra
arrancando-lhe cascas,
gomos;
mas toda ela não passa
de um globo
em escala.
Eu
de bruços aprendi geografia –
e não foi por acaso: eu dormia
sobre o chão
deitando-me nas tábuas
de mais regular declínio.
A Ilovaiski tortura uma questão:
– Seria mesmo ruiva a barba do Barba-ruiva? –
Não me importa essa burrice de holofotes.
Qualquer história das ruas
para mim é mais digna de nota.
Estudam Boaventuras,
não esquecem de odiar desventurados,
e em patíbulo de nomes consagrados
converteu-se o prestigioso pódio.
Eu
aos gordos
desde a infância aprendi a sentir ódio.
Eu era pobre
e me vendia pelo almoço.
Depois retinirão ideiazinhas
como tostões de cobre
para levar também as moças.
Eu somente com os edifícios me entretinha
e só me respondiam os encanamentos.
À espera do que eu lhes lançasse na orelha
as calhas se esticavam dos telhados.
Depois, uns contra os outros
e todos contra as estrelas,
em línguas que eu lhes tenha alumiado,
estalavam cata-ventos.

Quando adulto

Adultos têm negócios a tratar.
E dinheiro no bolso.
Amar?
Pode ser arranjado
por cem rublos.
Enquanto eu meto
as mãos nos bolsos furados
e, sem-teto, perambulo.
Noite. É hora
de vestir o melhor terno.
E descansar a alma
nos braços
das esposas ou viúvas.
Enquanto a mim
em abraços de rotatória
Moscou me estrangula
em suas inúmeras praças!
O tic-tac que têm as gurias
nos corações e reloginhos,
da cabeceira do leito
têm, os seus amantes,
o toc-toc.
Das capitais
a selvagem taquicardia amei eu
deitado num coreto apaixonante!
Coloco o coração para fora
e me abro
para o sol e as poças d’ água.
Penetrai-me como os apaixonados!
Ensopai-me como os transbordos de amor!
A partir de agora
não mais serei, do meu coração, governador.
Lá dentro do peito
na casinha do cuco
dos outros eu sei o coração onde se acha.
Mas comigo
a anatomia ficou maluca –
sou totalmente um só coração
apitando de cima a baixo!
A quantos deles
nessas vinte primaveras
consumiram brasas quentes?
Renunciar ao porte deste fardo
não se pode,
mesmo que ele seja insuportável.
Insuportável não assim,
como num verso,
e sim literalmente.

No que deu

Mais que a rigor
menos que a rodo –
como um sonhador de poesia
que ainda dorme
perdido a quadras do bom-senso –
no coração um caroço
foi crescendo, até ficar enorme –
um enorme amor,
um enorme ódio.
Sob o peso, eu cedo
e as pernas se desviam
para uma duvidosa direção.
Tu sabes, sou vigoroso;
mesmo assim, me apóio
– eu, um apêndice do coração! –
em tensas vigas do esqueleto.
Encho-me com leite de versos
– e não derramo
(não tem saída conveniente) –
e por isso continuo inflando.
Estou enfartado de lírica –
esta ama do universo
que amamenta hiperbolicamente
e que criou
todos os personagens de Maupassant.

Eu clamo

Levanto, custe o que for.
Agarro, igual um acrobata.
Como a sirene na aldeia
repercute
com o incêndio que a consome;
como em tempos de eleições
trombeteiam os comícios;
desse jeito é que arrebata-me o clamor:
« Ei-lo! Ei-lo!
Tomem-no! »
As damas, sem olhar
o misto de sujeira e neve,
tão logo assim vim apitando,
zarparam como um míssil:
« Para nós algo mais leve!
Para nós, passos de tango… »
É difícil arcar com esta barra
e arco com ela.
Longe gostaria de lançá-la
mas não:
as barricadas não contêm
o carrilhão das costelas;
a jaula do peito estala
com tamanha percussão.

Tu

Chegaste perto
do tamanhão
do rugido
e certeiramente
ao mirar
tu simplesmente viste a um menino.
Pegaste do peito aberto
o coração
removido
e simplesmente
foste jogar
como uma menina com sua bola.
Avassaladora, como fosses dum domínio
miraculoso,
tu deixaste estarrecidas
senhoritas e senhoras:
« Como ousa amar aquilo?
Vai devorá-la!
É, decerto, domadora
sim, decerto, de animais! »
E eu rejubilo:
aquela vida de vassalo – nunca mais!
De alegria, ao despedir o coração
saltei pela argola
nem sequer apercebendo.
Tão leve me sentia, galopava
como um índio
liberado de um grilhão
por um anel de casamento.

Impossível

Sozinho não posso
carregar um fortepiano
(menos ainda
um caixa-forte).
E, se um caixa-forte não posso
nem um fortepiano,
de que jeito poderia
carregar meu coração, se o retomasse?
« Se não há bolso que suporte,
os muito ricos
guardam-no num cofre » –
os banqueiros já resolvem o impasse.
Em ti o amor
– como uma riqueza blindada pelo ferro –
eu encerro
e sigo os meus passos, como o rei mais rico.
Se preciso for
retiro um sorriso,
meio sorriso
ou menos que isso
e, destilando com os outros
numa meia-noite de farra
corrosivo, escarro
quinze rublos de troco lírico.

E assim me aconteceu:

Os navios para o porto navegam;
os trens trafegam para as estações.
Assim eu, tão mais depressa
– afinal, eu amo! –
para ti, minha desembocadura, sou entregue.
O cavaleiro avaro de Puchkin,
adorando seu ouro no porão,
cava e enterra.
Assim eu
para ti, amor, regresso.
Meu coração aí está
e minha adoração é essa.
Ao regressar à casa
já estamos mais contentes –
nos lavamos, fazemos a barba.
Assim eu
para ti regresso –
acaso, para ti indo
não estou voltando para casa?
São, as criaturas terrestres,
de volta recolhidas para a terra;
é infalível progredirmos para lá
onde tudo começa.
Assim eu
por ti
sou tragado continuamente –
mal nos separamos
é em ti que se acaba.

Conclusão

O amor não me lavarão
nem lonjuras
nem desentendimentos.
Em auto-evidente
testemunho e testamento
levanto, solene, este verso
escrito nas linhas da mão
e juro –
amo,
inadulterável e fidelmente.

Novembro de 1921 – fevereiro de 1922.

Люблю

    Обыкновенно так

Любовь любому рожденному дадена,—
но между служб,
доходов
и прочего
со дня на день
очерствевает сердечная почва.
На сердце тело надето,
на тело — рубаха.
Но и этого мало!
Один —
идиот!—
манжеты наделал
и груди стал заливать крахмалом.
Под старость спохватятся.
Женщина мажется.
Мужчина по Мюллеру мельницей машется.
Но поздно.
Морщинами множится кожица.
Любовь поцветет,
поцветет —
и скукожится.

Мальчишкой

Я в меру любовью был одаренный.
Но с детства
людьё
трудами муштровано.
А я —
убег на берег Риона
и шлялся,
ни чёрта не делая ровно.
Сердилась мама:
«Мальчишка паршивый!»
Грозился папаша поясом выстегать.
А я,
разживясь трехрублевкой фальшивой,
играл с солдатьём под забором в «три листика».
Без груза рубах,
без башмачного груза
жарился в кутаисском зное.
Вворачивал солнцу то спину,
то пузо —
пока под ложечкой не заноет.
Дивилось солнце:
«Чуть виден весь-то!
А тоже —
с сердечком.
Старается малым!
Откуда
в этом
в аршине
место —
и мне,
и реке,
и стовёрстым скалам?!»

Юношей

Юношеству занятий масса.
Грамматикам учим дурней и дур мы.
Меня ж
из 5-го вышибли класса.
Пошли швырять в московские тюрьмы.
В вашем
квартирном
маленьком мирике
для спален растут кучерявые лирики.
Что выищешь в этих болоночьих лириках?!
Меня вот
любить
учили
в Бутырках.
Что мне тоска о Булонском лесе?!
Что мне вздох от видов на море?!
Я вот
в «Бюро похоронных процессий»
влюбился
в глазок 103 камеры.
Глядят ежедневное солнце,
зазнаются.
«Чего, мол, стоют лучёнышки эти?»
А я
за стенного
за желтого зайца
отдал тогда бы — всё на свете.

Мой университет

Французский знаете.
Делите.
Множите.
Склоняете чудно.
Ну и склоняйте!
Скажите —
а с домом спеться
можете?
Язык трамвайский вы понимаете?
Птенец человечий
чуть только вывелся —
за книжки рукой,
за тетрадные дести.
А я обучался азбуке с вывесок,
листая страницы железа и жести.
Землю возьмут,
обкорнав,
ободрав ее,—
учат.
И вся она — с крохотный глобус.
А я
боками учил географию,—
недаром же
наземь
ночёвкой хлопаюсь!
Мутят Иловайских больные вопросы:
— Была ль рыжа борода Барбароссы?—
Пускай!
Не копаюсь в пропыленном вздоре я —
любая в Москве мне известна история!
Берут Добролюбова (чтоб зло ненавидеть),—
фамилья ж против,
скулит родовая.
Я
жирных
с детства привык ненавидеть,
всегда себя
за обед продавая.
Научатся,
сядут —
чтоб нравиться даме,
мыслишки звякают лбёнками медненькими.
А я
говорил
с одними домами.
Одни водокачки мне собеседниками.
Окном слуховым внимательно слушая,
ловили крыши — что брошу в уши я.
А после
о ночи
и друг о друге
трещали,
язык ворочая — флюгер.

Взрослое

У взрослых дела.
В рублях карманы.
Любить?
Пожалуйста!
Рубликов за сто.
А я,
бездомный,
ручищa
в рваный
в карман засунул
и шлялся, глазастый.
Ночь.
Надеваете лучшее платье.
Душой отдыхаете на женах, на вдовах.
Меня
Москва душила в объятьях
кольцом своих бесконечных Садовых.
В сердца,
в часишки
любовницы тикают.
В восторге партнеры любовного ложа.
Столиц сердцебиение дикое
ловил я,
Страстною площадью лёжа.
Враспашку —
сердце почти что снаружи —
себя открываю и солнцу и луже.
Входите страстями!
Любовями влазьте!
Отныне я сердцем править не властен.
У прочих знаю сердца дом я.
Оно в груди — любому известно!
На мне ж
с ума сошла анатомия.
Сплошное сердце —
гудит повсеместно.
О, сколько их,
одних только вёсен,
за 20 лет в распалённого ввалено!
Их груз нерастраченный — просто несносен.
Несносен не так,
для стиха,
а буквально.

Что вышло

Больше чем можно,
больше чем надо —
будто
поэтовым бредом во сне навис —
комок сердечный разросся громадой:
громада любовь,
громада ненависть.
Под ношей
ноги
шагали шатко —
ты знаешь,
я же
ладно слажен,—
и всё же
тащусь сердечным придатком,
плеч подгибая косую сажень.
Взбухаю стихов молоком
— и не вылиться —
некуда, кажется — полнится заново.
Я вытомлен лирикой —
мира кормилица,
гипербола
праобраза Мопассанова.

Зову

Поднял силачом,
понес акробатом.
Как избирателей сзывают на митинг,
как сёла
в пожар
созывают набатом —
я звал:
«А вот оно!
Вот!
Возьмите!»
Когда
такая махина ахала —
не глядя,
пылью,
грязью,
сугробом,—
дамьё
от меня
ракетой шарахалось:
«Нам чтобы поменьше,
нам вроде танго бы…»
Нести не могу —
и несу мою ношу.
Хочу ее бросить —
и знаю,
не брошу!
Распора не сдержат рёбровы дуги.
Грудная клетка трещала с натуги.

Ты

Пришла —
деловито,
за рыком,
за ростом,
взглянув,
разглядела просто мальчика.
Взяла,
отобрала сердце
и просто
пошла играть —
как девочка мячиком.
И каждая —
чудо будто видится —
где дама вкопалась,
а где девица.
«Такого любить?
Да этакий ринется!
Должно, укротительница.
Должно, из зверинца!»
А я ликую.
Нет его —
ига!
От радости себя не помня,
скакал,
индейцем свадебным прыгал,
так было весело,
было легко мне.

Невозможно

Один не смогу —
не снесу рояля
(тем более —
несгораемый шкаф).
А если не шкаф,
не рояль,
то я ли
сердце снес бы, обратно взяв.
Банкиры знают:
«Богаты без края мы.
Карманов не хватит —
кладем в несгораемый».
Любовь
в тебя —
богатством в железо —
запрятал,
хожу
и радуюсь Крезом.
И разве,
если захочется очень,
улыбку возьму,
пол-улыбки
и мельче,
с другими кутя,
протрачу в полночи
рублей пятнадцать лирической мелочи.

Так и со мной

Флоты — и то стекаются в гавани.
Поезд — и то к вокзалу гонит.
Ну а меня к тебе и подавней —
я же люблю!—
тянет и клонит.
Скупой спускается пушкинский рыцарь
подвалом своим любоваться и рыться.
Так я
к тебе возвращаюсь, любимая.
Мое это сердце,
любуюсь моим я.
Домой возвращаетесь радостно.
Грязь вы
с себя соскребаете, бреясь и моясь.
Так я
к тебе возвращаюсь,—
разве,
к тебе идя,
не иду домой я?!
Земных принимает земное лоно.
К конечной мы возвращаемся цели.
Так я
к тебе
тянусь неуклонно,
еле расстались,
развиделись еле.

Вывод

Не смоют любовь
ни ссоры,
ни вёрсты.
Продумана,
выверена,
проверена.
Подъемля торжественно стих строкопёрстый,
клянусь —
люблю
неизменно и верно!

Ноябрь 1921 — февраль 1922


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