Dois poemas de James Wright

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James Arlington Wright (1927 –1980), poeta norte-americano, começou sua carreira com um trabalho mais formalista, recebendo influência da poesia surrealista espanhola e das poesias alemã e sul-americana (nas quais é reconhecidamente considerado um grande tradutor) até chegar ao verso livre. Em seu livro mais conhecido, The Branch Will Not Break, ele chega ao ápice de sua originalidade , além de ser considerado um contraponto à poesia Beat que dominava a cena norte-americana da época. Wright foi um inovador e seu trabalho se caracteriza, primeiramente, por ter nos títulos e nos versos iniciais e finais um tom de deslocamento do “lugar comum”. É possível observar em sua obra as fraturas de uma vida marcada pelo alcoolismo, além da bipolaridade e a depressão que o acompanharam até o fim.

 

Deitado em uma rede na fazenda William Duffy em Pine Island, Minnesota

Sobre minha cabeça, vejo a brônzea borboleta,
Adormecida no tronco negro,
Vibrando como uma folha na sombra verde.
Abaixo da ravina atrás da casa vazia,
Os sinos das vacas seguem-se uns aos outros
Na distância da tarde.
À minha direita,
Num campo luminoso entre dois pinheiros,
As fezes dos cavalos do ano passado
Brilham em pedras douradas.
Reclino-me, como a tarde escura que chega.
Um filhote de falcão sobrevoa, buscando um abrigo.
Eu desperdicei minha vida.

*

Próximo a Mansfield, Ohio

Os enormes cavalos todo-músculos do outono
Foram embora agora, para os negros celeiros,
Onde eles podem ser preguiçosos
Onde eles podem mastigar pequenas maçãs, preguiçosos
Em seus sonos.

E muitas estradas estão nuas.

Você, também, foi abandonado
Ao lado de uma rua, agora
Próximo a Mansfield, Ohio.
Uma vez nessa cidade, que se parece
Com uma puta de dezesseis anos vendendo papoulas
No Dia do Armistício, você morreu
Sozinho.

 

Tradução: Lucas Perito*

* Nasceu em São Paulo/ Brasil em 1985. É graduado em Comunicação em Multimeios pela PUC-SP. Trabalhou na editora Empresa das Artes, escrevendo livros ligados a história e fotografia, fazendo os textos de acompanhamento para o livro fotográfico “Caminhos da Mantiqueira” (2011) de Galileu Garcia Junior. Tem alguns poemas publicados na Revista Zunái, Escamandro, Diversos Afins, Benfazeja, na R. Nott Magazine, Caderno-Revista 7 Faces, Revista Parênteses, Revista Entreverbo, Jornal RelevO, Revista Saúva e Revista Gueto. Também participou como tradutor na Revista Parênteses e Escamandro.

 

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Lying in a Hammock at William Duffy’s Farm in Pine Island, Minnesota

Over my head, I see the bronze butterfly,
Asleep on the black trunk,
Blowing like a leaf in green shadow.
Down the ravine behind the empty house,
The cowbells follow one another
Into the distances of the afternoon.
To my right,
In a field of sunlight between two pines,
The droppings of last year’s horses
Blaze up into golden stones.
I lean back, as the evening darkens and comes on.
A chicken hawk floats over, looking for home.
I have wasted my life.

*

Near Mansfield, Ohio

The enormous muscle-bound dobbins of autumn
Are gone now, to dark barns,
Where they can be lazy,
Where they can munch little apples, lazy,
In their sleep.

And many highways are bare.

You, too, are abandoned
Beside a street, now,
Near Mansfield, Ohio.
Once in that town, that looks
Like a sixty-year-old whore selling poppies
On Armistice Day, you died
Alone.