“Desperto e sinto – as sombras descem, não o sol”, de Gerard Manley Hopkins

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Tradução: Victor Martins Queiroz

Desperto e sinto – as sombras descem, não o sol.
Quais horas, negras horas, quais! foram perdidas
Na noite! Coração, quais visões, idas-vias
E mais mister: delonga-ao-longe o arrebol.

Eu testemunho. Mas onde diz o texto só
“Horas” — “eras” e “vida”, eu digo. Jeremio
Queixas-sem-conto, um poemorto dado ao imo
Amigo alá o mais distante, ohime! de nós.

Sou félstula, sou miocáustico. Meu Deus
Decrép’ta-me o amargor do gosto: e o fel sou Eu;
Ossagruras e carnavates, maldissangue.

Autânimo fermento obra somente o breu.
E assim quem ‘stá perdido: o seu flagelo — e o meu —
É ser-se, o suardor; e pior, d o r a v a n t e.

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Gerard Manley Hopkins

I wake and feel the fell of dark, not day.
What hours, O what black hours we have spent
This night! what sights you, heart, saw; ways you went!
And more must, in yet longer light’s delay.
With witness I speak this. But where I say
Hours I mean years, mean life. And my lament
Is cries countless, cries like dead letters sent
To dearest him that lives alas! away.

I am gall, I am heartburn. God’s most deep decree
Bitter would have me taste: my taste was me;
Bones built in me, flesh filled, blood brimmed the curse.
Selfyeast of spirit a dull dough sours. I see
The lost are like this, and their scourge to be
As I am mine, their sweating selves; but worse.