Você na América, de Chimamanda Ngozi Adichie

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Você na América
Tradução: Tomaz Amorim Izabel

Você achava que todo mundo na América tinha um carro e uma arma. Seus tios e tias e primos achavam também. Logo depois que você ganhou a loteria do visto americano, eles te disseram: “Em um mês você terá um carrão. Em breve, um casarão. Mas não compre uma arma como aqueles americanos”.

Eles marcharam para dentro do barraco na favela em Lagos, ficando de pé do lado das paredes de zinco cravejadas de pregos porque as cadeiras não davam para todo mundo, para dar tchau com vozes altas e te dizerem com vozes baixas o que eles queriam que você mandasse para eles. Em comparação com o carrão e o casarão (e possivelmente a arma), as coisas que eles queriam era menores: bolsas e sapatos e suplementos vitamínicos. Você disse tudo bem, sem problemas.

Seu tio na América disse que você poderia viver com ele até conseguir se virar. Ele te buscou no aeroporto e te comprou um grande cachorro quente com mostarda amarela que te deixou enjoada. Apresentando a América, ele disse com um sorriso. Ele vivia em uma pequena cidade de brancos em Maine, em uma casa de trinta anos junto ao lago. Ele te disse que a companhia para a qual ele trabalhava tinha oferecido a ele alguns milhares a mais junto com ações porque eles estavam tentando desesperadamente ter mais diversidade. Eles incluíam ele em todos os folhetos, até naqueles que não tinham nada a ver com engenharia. Ele ria e dizia que o trabalho era bom, que valia a pena morar em uma cidade toda de brancos mesmo que sua esposa tivesse que dirigir por uma hora até encontrar um salão de cabeleireiro que trabalhasse com cabelos negros. O truque era entender a América, saber que na América era dar e receber. Você abria mão de muito, mas ganhava muito também.

Ele te mostrou como se candidatar para uma vaga de caixa no posto de gasolina da rua principal e te inscreveu em uma faculdade comunitária onde as meninas ficaram curiosas com o seu cabelo. Ele fica para cima ou para baixo quando você tira as tranças? Ele fica todo para cima? Como? Por que? Você usa pente?

Você dava um sorriso cerrado quando elas perguntavam essas coisas. Seu tio disse para você esperar por isso: uma mistura de ignorância e arrogância, ele chamou assim. Então ele te contou que os vizinhos disseram, poucos meses depois que ele se mudou para a casa dele, que os esquilos tinham começado a desaparecer. Eles tinham ouvido que os africanos comem todo o tipo de animais selvagens.

Você riu com seu tio e sentiu que a casa dele era um lar, a esposa dele te chamava de nwanne – irmã – e os dois filhos dele em idade escolar te chamavam de Titia. Eles falavam igbo e comiam garri no almoço e era como um lar. Até que seu tio entrou no porão estreito onde você dormia com velhos baús e rodas e livros e agarrou os seus seios, como se ele estivesse colhendo mangas de uma árvore, gemendo. Ele não era mesmo seu tio, ele era na verdade um primo distante do marido da sua tia, não parente de sangue.

Enquanto você fazia suas malas naquela noite, ele sentou na sua cama – era a casa dele afinal – e riu e disse que você não tinha para onde ir. Se você deixasse, ele faria muitas coisas por você. Mulheres inteligentes faziam isso o tempo inteiro. Como você acha que aquelas mulheres lá em Lagos com trabalhos que pagam bem conseguiram? Ou mesmo as mulheres em Nova Iorque?

Você se trancou no banheiro e na manhã seguinte você partiu, caminhando no vento pela longa estrada, cheirando os bebês-peixe no lago. Você viu ele passar dirigindo, ele sempre te deixava na Rua Principal, e ele não buzinou. Você se perguntou o que ele iria dizer para a sua esposa, por que você tinha partido. E você se lembrou do que ele disse, que a América era dar e receber.

Você acabou em Connecticut, numa outra cidade pequena, porque era o ponto final do ônibus Bonanza em que você subiu. Bonanza era o ônibus mais barato. Você entrou em um restaurante por perto e disse que trabalharia por dois dólares menos que as outras garçonetes. O dono, Juan, tinha um cabelo pintado de preto e sorriu mostrando um brilhante dente amarelo. Ele disse que nunca tinha tido uma empregada nigeriana, mas que todos os imigrantes trabalhavam duro. Ele sabia, já tinha passado por isso. Ele te pagaria um dólar a menos, mas por debaixo dos panos. Ele não gostava de todos os impostos que eles estavam fazendo ele pagar.

Você não tinha condições de pagar uma escola, porque agora você pagava aluguel pelo pequeno quarto com o carpete manchado. Além disso, a cidadezinha de Connecticut não tinha uma faculdade comunitária e o empréstimo para a Universidade Estadual custava muito. Então você ia para a Biblioteca Pública, você procurava pelas ementas dos cursos nos sites das escolas e lia alguns dos livros. Às vezes você se sentava no colchão esburacado da sua cama de solteiro e pensava sobre seu lar.

Seus pais, seus tios e tias, seus primos, seus amigos. As pessoas que nunca tinham conseguido lucrar com as mangas e akara dos quais eles cuidavam, cujas casas – folhas de zinco precariamente presas por pregos – desmontavam durante a temporada de chuvas. As pessoas que vieram dizer tchau, que se alegraram porque você ganhou a loteria do visto americano, para confessar a sua inveja. As pessoas que mandavam seus filhos para o colegial em que os professores davam um A quando alguém lhes passava envelopes marrons.

Você nunca precisou pagar por um A, nunca passou um envelope marrom para um professor no colegial. Mesmo assim, você escolheu envelopes marrons compridos para mandar metade do que você recebia para os seus pais. As notas que o Juan te dava eram mais amassadas do que as de gorjeta. Todo mês. Você não escrevia nenhuma carta. Não tinha nada sobre o que escrever.

Nas primeiras semanas, no entanto, você queria escrever, porque você tinha histórias para contar. Você queria escrever sobre a abertura surpreendente das pessoas na América, o quão avidamente as pessoas te contavam sobre as mães delas lutando contra o câncer, sobre o parto prematuro da cunhada delas – coisas que as pessoas deveriam esconder, revelar apenas para membros da família que as queriam bem. Você queria escrever sobre a maneira com que as pessoas deixavam tanta comida nos seus pratos e enfiavam algumas notas de dólar embaixo, como se fosse uma oferenda, uma expiação pela comida desperdiçada. Você queria escrever sobre a criança que começou a chorar e a puxar os cabelos loiros e em vez de os pais fazerem ela se calar, eles suplicaram para ela e então todos se levantaram e saíram.

Você queria escrever que nem todo mundo na América tinha um casarão ou um carrão, você só não tinha ainda certeza sobre as armas porque eles poderiam tê-las dentro de suas bolsas e bolsos.

Não era só para os seus pais que você queria escrever, mas para os seus amigos e primos e tias e tios. Mas você nunca teria condições de comprar tantas bolsas e tênis e suplementos vitamínicos por aí e ainda pagar seu aluguel, então você não escrevia para ninguém.

Ninguém sabia onde você estava porque você não contou para ninguém. Às vezes você se sentia invisível e tentava atravessar a parede do seu quarto para o corredor e quando você batia contra a parede ficavam marcas nos seus braços. Uma vez, o Juan te perguntou se você tinha um homem que batia em você porque ele iria dar um jeito nele e você riu um riso misterioso. Em algumas noites, alguma coisa se enrolava em volta do seu pescoço, alguma coisa que sempre quase te enforcava antes de você acordar.

~

Algumas pessoas pensavam que você era da Jamaica porque eles pensavam que todas as pessoas negras com um sotaque eram jamaicanas. Ou alguns que adivinhavam que você era africana perguntavam se você conhecia tal ou tal pessoa do Quênia ou tal ou tal pessoa do Zimbábue porque eles pensavam que a África era um país onde todo mundo conhecia todo mundo.

Então, quando ele te perguntou, no escuro do restaurante depois que você recitou os pratos do dia, de qual país africano você era, você disse Nigéria e esperou que ele perguntasse se você conhecia um amigo que ele tinha feito no Peace Corps no Senegal ou em Botsuana. Mas ele perguntou se você era yorubá ou igbo porque você não tinha um rosto de fulani. Você ficou surpresa – você pensou, ele deve ser um professor de antropologia, um pouco jovem mas sei lá? Igbo, você disse. Ele perguntou seu nome e disse que Akunna era bonito. Ele não perguntou o que significava, felizmente, porque você estava cansada de como as pessoas diziam: – Fortuna do Pai? Você quer dizer, tipo, que seu pai vai realmente te vender para um marido?

Ele tinha ido para Gana e Quênia e Tanzânia, ele tinha lido tudo sobre os outros países africanos, suas histórias, suas complexidades. Você queria sentir desdém, mostrá-lo

ao trazer o pedido dele, porque pessoas brancas que gostavam demais da África e que gostavam de menos da África eram o mesmo: condescendentes.

Mas ele não agia como se soubesse demais, não balançava sua cabeça de um jeito superior como o professor lá da Faculdade Comunitária fez uma vez enquanto falava sobre Angola, não mostrou nenhuma condescendência. Ele entrou no dia seguinte e se sentou na mesma mesa e quando você perguntou se o frango estava bom, ele te perguntou algo sobre Lagos. Ele entrou no segundo dia e falou por tanto tempo – te perguntando com frequência se você não achava que Mobutu e Idi Amim eram parecidos – que você teve que dizer para ele que isto era contra as regras do restaurante. Ele acariciou sua mão quando você colocou o café na mesa. No terceiro dia, você disse ao Juan que não queria mais aquela mesa.

Depois do seu turno naquele dia, ele estava te esperando do lado de fora, apoiado num poste, te pedindo para sair com ele porque seu nome rimava com hakuna matata e O Rei Leão era o único filme melodramático de que ele gostava. Você não sabia o que era O Rei Leão. Você olhou para ele na luz forte e percebeu que os olhos dele eram da cor do azeite de oliva extra-virgem, um ouro esverdeado. Azeite de oliva extra-virgem era a única coisa de que você gostava, realmente gostava, na América.

Ele era estudante na Universidade Estadual. Ele te disse quantos anos tinha e você perguntou porque ele não tinha se graduado ainda. Era a América, afinal, não era como lá em casa em que as universidades fechavam com tanta frequência que as pessoas adicionavam três anos a mais nos seus planos de estudo e as aulas entravam em greve depois de greve e ainda não eram pagas. Ele disse que ficou algum tempo fora, alguns anos depois do colégio, para se descobrir e viajar, principalmente através da África e da Ásia. Você perguntou onde é que ele tinha finalmente se encontrado e ele riu. Você não riu. Você não sabia que as pessoas podiam simplesmente escolher não ir para a escola, que as pessoas podiam ditar para a vida. Você estava acostumada a aceitar o que a vida dava, a escrever o que a vida ditava.

Você disse não nos três dias seguintes sobre isso sair com ele, porque você não achava certo, porque você ficava desconfortável com a maneira com que ele olhava nos seus olhos, a maneira com que você ria tão facilmente do que ele dizia. E então na quarta noite você entrou em pânico quando viu que ele não estava esperando na porta, depois do seu turno. Você rezou pela primeira vez em muito tempo e quando ele apareceu por trás de você e disse, ei, você disse, sim, você sairia com ele, mesmo antes de ele perguntar. Você tinha medo de que ele não perguntaria de novo.

No próximo dia, ele te levou ao Chang’s e o seu bolinho da sorte veio com duas fitinhas de papel. As duas estavam em branco.

~

Você soube que você ficou confortável quando você contou para ele a verdadeira razão pela qual você pediu outra mesa para o Juan – Jeopardy! Quando você assistia Jeopardy na TV do restaurante, você torcia para os seguintes, nesta ordem: mulheres de cor, mulheres brancas, homens negros e, finalmente, homens brancos, o que significava que você nunca torcia para homens brancos. Ele riu e disse que estava costumado a não ter torcida, porque sua mãe ensinava Estudos Feministas.

E você soube que vocês tinham ficado próximos quando você disse para ele que o seu pai na verdade não era professor de escola em Lagos, mas motorista de taxi. E você contou para ele sobre aquele dia no trânsito em Lagos no carro do seu pai, estava chovendo e a sua poltrona estava molhada por causa do furo comido de ferrugem no teto. O trânsito estava pesado,o trânsito estava sempre pesado em Lagos, e quando chovia era um caos. As estradas eram tão mal drenadas que alguns carros ficavam presos em buracos de lama e alguns dos seus primos ganhavam dinheiro rebocando os carros. A chuva e a estrada pantanosa – você pensava – fizeram com que seu pai pisasse nos freios tarde demais naquele dia. Você ouviu o barulho antes de senti-lo. O carro contra o qual o seu pai colidiu era grande, estrangeiro e verde escuro, com faróis amarelos como os olhos de um gato. Seu pai começou a chorar e implorar antes mesmo de sair do carro e se deitou inteiro na estrada, parando o trânsito. Desculpa, senhor, desculpa senhor, se você vender minha família e eu, mesmo assim você não vai conseguir comprar nem uma roda para o seu carro, ele cantou. Desculpa, senhor.

O homem grande sentado no banco de trás não saiu. Seu motorista, sim, examinando os danos, olhando para a figura esparramada do seu pai com o canto do olho, como se a súplica fosse uma canção de que ele estava envergonhado de admitir que gostava. Finalmente, ele deixou seu pai ir. Gesticulou para que ele saísse. Os outros carros buzinavam e os motoristas xingavam. Quando seu pai voltou para dentro do carro, você se recusou a olhar para ele porque ele estava como os porcos que chafurdavam nos brejos perto do mercado. Seu pai parecia nsi. Merda.

Depois que você contou isso para ele, ele franziu os lábios e segurou a sua mão e disse que entendia. Você soltou sua mão, incomodada, porque ele achava que o mundo era, ou deveria ser, cheio de gente como ele. Você disse para ele que não tinha nada para entender, era só como as coisas eram.

~

Ele não comia carne porque achava que era errada a forma com que eles matavam os animais. Ele disse que eles liberavam toxinas do medo nos animais e que toxinas do medo te deixavam paranóico. Lá em casa, os pedaços de carne que você comia, quando tinha carne, eram do tamanho da metade do seu dedo. Mas você não contou isso para ele. Você também não contou que os cubos de dawadawa com que sua mãe cozinhava tudo, porque curry e tomilho eram muito caros, tinham glutamato monossódico, eram glutamato monossódico. Ele disse que glutamato causava câncer e que era por isso que ele gostava do Chang’s – o Chang não cozinhava com glutamato.

Uma vez, no Chang, ele disse ao garçom que viveu em Xangai por um ano, que falava um pouco de mandarim. O garçom se alegrou e disse para ele qual sopa estava melhor e então perguntou a ele: “Você tem uma namorada em Xangai?”. E ele sorriu e não disse nada.

Você perdeu seu apetite, a região abaixo dos seus seios pareceu entupida por dentro. Naquela noite, você não gemeu quando ele estava dentro de você, você mordeu seus lábios e fingiu que não gozou porque você sabia que ele se preocuparia. Finalmente você disse para ele porque estava chateada, porque o homem chinês pressupôs que você nunca poderia ser a namorada dele, e ele sorriu e não disse nada.

Antes de se desculpar, ele te olhou com os olhos vazios e você soube que ele não entendeu.

~

Ele te comprava presentes e quando você se opôs por causa do preço, ele disse que tinha uma poupança, que estava tudo bem. Os presentes dele te enfeitiçavam. Uma bola do tamanho de um punho que você balançava para assistir à neve cair sobre uma casinha, ou uma bailarina de plástico vestida de rosa girando sobre um palquinho. Uma pedra brilhante. Um lenço mexicano caro pintado à mão que você nunca ia poder usar por causa da cor. Finalmente, você disse para ele que os presentes do Terceiro Mundo eram sempre úteis. A pedra, por exemplo, funcionaria se você conseguisse esmagar coisas com ela, ou usá-la no corpo. Ele riu alta e longamente, mas você não riu. Você percebeu que na vida dele, ele podia comprar presentes que eram apenas presentes e nada mais, nada útil. Quando ele começou a te comprar sapatos e roupas e livros, você pediu para ele que não, você não queria nenhum presente.

Mesmo assim, você não brigaram. Não de verdade. Vocês discutiam e aí se reconciliavam e faziam amor e passavam as mãos pelos cabelos um do outro, o dele macio e amarelo como as bandeiras dançantes do milho crescendo, o seu escuro e volúvel como o enchimento de um travesseiro. Você se sentiu segura nos braços dele, a mesma segurança que você sentia lá em casa, no barraco de zinco na favela.

Quando ele tomava sol demais e a pele dele ficava da cor de uma melancia madura, você beijava partes das costas dele antes de aplicar a loção devagarinho. Era mais íntimo do que o sexo. Você se sentia envolvida, ainda assim, era uma experiência que vocês dois nunca poderiam compartilhar. Você se escurecia no sol, mas era escura demais para se queimar algum dia.

Ele achou a loja africana nas páginas amarelas de Hartford e dirigiu com você até lá. O dono da loja, um ganês, perguntou a ele se ele era africano, como os quenianos e sul-africanos brancos, e ele riu e disse que sim, mas que estava na América por bastante tempo, que sentia saudades da comida da sua infância. Você cozinhou para ele, ele gostou do arroz jollof mas depois que comeu o garri e a sopa onugbu ele vomitou na sua pia. Você não se importou porque agora você podia cozinhar sopa de onugbu com carne.

A coisa que se enrolava no seu pescoço, que quase sempre te enforcava antes de você dormir, começou a afrouxar, a se soltar.

~

Você sabia pelas reações das pessoas que vocês eram anormais – a maneira com que os ruins eram ruins demais e os gentis, gentis demais. A maneira com que as velhas mulheres brancas murmuravam e encaravam ele, os homens negros que balançavam suas cabeças para você, as mulheres negras, cujos olhos piedosos lamentavam sua falta de auto-estima, sua auto-aversão. Ou as mulheres negras que sorriam rapidamente, sorrisos secretos de solidariedade, os homens negros que se esforçavam demais para te perdoar, diziam um oi óbvio demais para ele, as mulheres brancas que diziam: “que casal bonito”, muito claramente, muito alto, como se estivessem tentando provar para si mesmas sua tolerância.

Você não disse para ele, mas você desejava ter uma pele mais clara porque assim eles não ficariam olhando tanto. Você pensou na sua irmã lá em casa, sobre a pele cor-de-mel dela, e você queria ter saído como ela. Você quis isso de novo na noite em que conheceu os pais dele. Mas você não disse para ele, porque ele te olharia solene e seguraria sua mão e te diria que foi a cor lustrosa da sua pele que chamou a atenção dele primeiro. Você não queria que ele segurasse a sua mão e dissesse que entendia porque, de novo, não tinha nada para ser entendido, era assim que as coisas eram.

Você desejava ter a pele clara o bastante para ser confundida como uma porto-riquenha, clara o bastante para que, na meia-luz do restaurante indiano onde vocês compartilhavam samosas com os pais dele de uma bandeja colocada no centro, você quase se parecesse com eles.

A mãe dele te disse que amava as suas tranças, te perguntou se os búzios presos nelas eram de verdade e quais escritores mulheres você lia. O pai dele perguntou o quão parecida era a comida indiana com a comida nigeriana e brincou com você sobre pagar quando a conta chegou. Você olhou para eles e se sentiu grata por eles não terem te examinado como um troféu exótico, uma presa de marfim.

A mãe dele te disse que ele nunca tinha trazido uma moça para eles conhecerem, com exceção do par na festa de formatura do colégio e ele sorriu tenso e segurou sua mão. A toalha de mesa escondia as suas mãos entrelaçadas. Ele apertou sua mão e você apertou de volta e se perguntou porque ele estava tão tenso, por que os seus olhos de azeite extra-virgem se escureciam quando ele falava com os pais. Ele te falou depois sobre os problemas dele com os pais, como eles repartiam o amor como um bolo de aniversário, como eles dariam um pedaço maior se ele fosse para a Faculdade de Direito. Você queria ser compreensiva. Mas ao invés disso ficou irritada.

Você ficou mais irritada quando ele te disse que ele tinha se recusado a ir para o Canadá com eles por uma semana ou duas, para a cabana de verão no interior de Quebec. Eles tinham até pedido para ele te levar. Ele te mostrou fotos da cabana e você se perguntou o porquê de ela se chamar cabana, porque os prédios tão grandes quanto aquele, perto da sua vizinhança lá em casa, eram bancos e igrejas. Você derrubou um copo e ele se despedaçou na madeira de lei do chão do apartamento dele e ele perguntou o que é que estava errado e você não disse nada, embora você pensasse que havia muita coisa errada. Os seus mundos estavam errados.

Depois, no chuveiro, você começou a chorar, você via a água diluir suas lágrimas e você não sabia porque estava chorando.

~

Você finalmente escreveu para casa, quando a coisa em volta do seu pescoço tinha quase completamente ido embora. Uma carta curta para os seus pais e irmãos e irmãs, enfiada entre as notas de dólares amassadas, e você incluiu seu endereço. Você recebeu uma carta poucos dias depois, por correio expresso. Sua mãe mesma escreveu a carta, você soube pela caligrafia aracnídea, pelos erros de ortografia.

Seu pai tinha morrido, ele desabou por cima do volante do taxi dele. Cinco meses agora, ela escreveu. Eles tinham usado parte do dinheiro que você mandou para dar um bom funeral a ele. Eles mataram uma cabra para os convidados e o enterraram em um caixão de verdade, não só com tábuas de madeira.

Você se enrolou na cama, apertou com força seus joelhos no peito e chorou. Ele te segurou enquanto você chorava, alisou seu cabelo e se ofereceu para ir junto com você, de volta para casa na Nigéria. Você disse que não, você precisava ir sozinha. Ele perguntou se você voltaria e te lembrou que você tinha um visto permanente e que você o perderia se não voltasse em um ano. Ele disse que você sabia o que ele estava querendo dizer, você iria voltar, volta?

Você se virou e não disse nada e ele dirigiu com você até o aeroporto, você abraçou ele firme, agarrando os músculos das costas dele até suas costelas doerem. E você disse obrigada.

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You in America
Chimamanda Ngozi Adichie

You believed that everybody in America had a car and a gun. Your uncles and aunts and cousins believed it too. Right after you won the American visa lottery, they told you, “In a month, you will have a big car. Soon, a big house. But don’t buy a gun like those Americans.”
They trooped into the shantytown house in Lagos, standing beside the nail-studded zinc walls because chairs did not go round, to say good bye in loud voices and tell you with lowered voices what they wanted you to send them. In comparison to the big car and house (and possibly gun), the things they wanted were minor—handbags and shoes and vitamin supplements. You said okay, no problem.
Your uncle in America said you could live with him until you got on your feet. He picked you up at the airport and bought you a big hot dog with yellow mustard that nauseated you. Introduction to America, he said with a laugh. He lived in a small white town in Maine, in a thirty-year-old house by a lake. He told you that the company he worked for had offered him a few thousand more plus stocks because they were desperately trying to look diverse. They included him in every brochure, even those that had nothing to do with engineering. He laughed and said the job was good, was worth living in an all-white town even though his wife had to drive an hour to find a hair salon that did black hair. The trick was to understand America, to know that America was give and take. You gave up a lot but you gained a lot too.
He showed you how to apply for a cashier job in the gas station on Main Street, and he enrolled you in a community college, where the girls were curious about your hair. Does it stand up or fall down when you take the braids out? All of it stands up? How? Why? Do you use a comb?
You smiled tightly when they asked those questions. Your uncle told you to expect it; a mixture of ignorance and arrogance, he called it. Then he told you how the neighbors said, a few months after he moved into his house, that the squirrels had started to disappear. They had heard Africans ate all kinds of wild animals.
You laughed with your uncle and you felt at home in his house, his wife called you nwanne—sister—and his two school-age children called you Aunty. They spoke Igbo and ate garri for lunch and it was like home. Until your uncle came into the cramped basement where you slept with old trunks and wheels and books and grabbed your breasts, as though he was plucking mangoes from a tree, moaning. He wasn’t really your uncle, he was actually a distant cousin of your aunt’s husband, not related by blood.
As you packed your bags that night, he sat on your bed—it was his house after all—and laughed and said you had nowhere to go. If you let him, he would do many things for you. Smart women did it all the time. How did you think those women back home in Lagos with well-paying jobs made it? Even women in New York?
You locked yourself in the bathroom and the next morning you left, walking the long windy road, smelling the baby fish in the lake. You saw him drive past, he had always dropped you off at Main Street, and he didn’t honk. You wondered what he would tell his wife, why you had left. And you remembered what he said, that America was give and take.
You ended up in Connecticut, another little town, because it was the last stop of the Bonanza bus you got on. Bonanza was the cheapest bus. You walked into the restaurant nearby and said you would work for two dollars less than the other waitresses. The owner, Juan, had inky black hair and smiled to show a bright yellowish tooth. He said he had never had a Nigerian employee but all immigrants worked hard. He knew, he’d been there. He’d pay you a dollar less, but under the table. He didn’t like all the taxes they were making him pay.
You could not afford to go to school, because now you paid rent for the tiny room with the stained carpet. Besides, the small Connecticut town didn’t have a community college and a credit in the State University cost too much. So you went to the Public Library, you looked up course syllabi on school web sites and read some of the books. Sometimes you sat on the lumpy mattress of your twin bed and thought about home.
Your parents, your uncles and aunts, your cousins, your friends. The people who never broke a profit from the mangoes and akara they hawked, whose houses—zinc sheets precariously held by nails—fell apart in the rainy season. The people who came out to say goodbye, to rejoice because you won the American visa lottery, to confess their envy. The people who sent their children to the secondary school where teachers gave an A when someone slipped them brown envelopes.
You had never needed to pay for an A, never slipped a brown envelope to a teacher in secondary school. Still, you chose long brown envelopes to send half your month’s earning to your parents. The bills that Juan gave you which were crisper than the tips. Every month. You didn’t write a letter. There was nothing to write about.
The first weeks you wanted to write though, because you had stories to tell. You wanted to write about the surprising openness of people in America, how eagerly they told you about their mother fighting cancer, about their sister-in-law’s preemie—things people should hide, should reveal only to the family members who wished them well. You wanted to write about the way people left so much food on their plates and crumpled a few dollar bills down, as though it was an offering, expiation for the wasted food. You wanted to write about the child who started to cry and pull at her blond hair and instead of the parents making her shut up, they pleaded with her and then they all got up and left.
You wanted to write that everybody in America did not have a big house and car, you still were not sure about the guns though because they might have them inside their bags and pockets.
It wasn’t just your parents you wanted to write, it was your friends and cousins and aunts and uncles. But you could never afford enough handbags and shoes and vitamin supplements to go around and still pay your rent, so you wrote nobody.
Nobody knew where you were because you told no one. Sometimes you felt invisible and tried to walk through your room wall into the hallway and when you bumped into the wall, it left bruises on your arms. Once, Juan asked if you had a man that hit you because he would take care of him and you laughed a mysterious laugh. At nights, something wrapped itself around your neck, something that very nearly always choked you before you woke up.

~

Some people thought you were from Jamaica because they thought that every black person with an accent was Jamaican. Or some who guessed that you were African asked if you knew so and so from Kenya or so and so from Zimbabwe because they thought Africa was a country where everyone knew everyone else.
So when he asked you, in the dimness of the restaurant after you recited the daily specials, what African country you were from, you said Nigeria and expected him to ask if you knew a friend he had made in the Peace Corps in Senegal or Botswana. But he asked if you were Yoruba or Igbo, because you didn’t have a Fulani face. You were surprised—you thought he must be a professor of anthropology, a little young but who was to say? Igbo, you said. He asked your name and said Akunna was pretty. He did not ask what it meant, fortunately, because you were sick of how people said, Father’s Wealth? You mean, like, your father will actually sell you to a husband?
He had been to Ghana and Kenya and Tanzania, he had read about all the other African countries, their histories, their complexities. You wanted to feel disdain, to show it as you brought his order, because white people who liked Africa too much and who liked Africa too little were the same—condescending.
But he didn’t act like he knew too much, didn’t shake his head in the superior way a professor back in the community college once did as he talked about Angola, didn’t show any condescension. He came in the next day and sat at the same table and when you asked if the chicken was okay, he asked you something about Lagos. He came in the second day and talked for so long—asking you often if you didn’t think Mobutu and Idi Amin were similar—you had to tell him it was against restaurant policy. He brushed your hand when you placed the coffee down. The third day, you told Juan you didn’t want that table anymore.
After your shift that day, he was waiting outside, leaning by a pole, asking you to go out with him because your name rhymed with hakuna matata and The Lion King was the only maudlin movie he’d ever liked. You didn’t know what The Lion King was. You looked at him in the bright light and realized that his eyes were the color of extra virgin olive oil, a greenish gold. Extra-virgin olive oil was the only thing you enjoyed, truly enjoyed, in America.
He was a senior at the State University. He told you how old he was and you asked why he had not graduated yet. This was America, after all, it was not like back home where Universities closed so often that people added three years to their normal course of study and Lecturers went on strike after strike and were still not paid. He said he had taken time off, a couple of years after high school, to discover himself and travel, mostly to Africa and Asia. You asked him where he ended up finding himself and he laughed. You did not laugh. You did not know that people could simply choose not to go to school, that people could dictate to life. You were used to accepting what life gave, writing down what life dictated.
You said no the following three days, to going out with him, because you didn’t think it was right, because you were uncomfortable with the way he looked in your eyes, the way you laughed so easily at what he said. And then the fourth night, you panicked when he was not standing at the door, after your shift. You prayed for the first time in a long time and when he came up behind you and said, hey, you said yes, you would go out with him, even before he asked. You were scared he would not ask again.
The next day, he took you to Chang’s and your fortune cookie had two strips of paper. Both of them were blank.

~

You knew you had become comfortable when you told him the real reason you asked Juan for a different table—Jeopardy. When you watched Jeopardy on the restaurant TV, you rooted for the following, in this order—women of color, white women, black men, and finally white men, which meant you never rooted for white men. He laughed and told you he was used to not being rooted for, his mother taught Women’s Studies.
And you knew you had become close when you told him that your father was really not a school teacher in Lagos, that he was a taxi driver. And you told him about that day in Lagos traffic in your father’s car, it was raining and your seat was wet because of the rust-eaten hole in the roof. The traffic was heavy, the traffic was always heavy in Lagos, and when it rained it was chaos. The roads were so badly drained some cars would get stuck in muddy potholes and some of your cousins got paid to push the cars out. The rain and the swampy road—you thought—made your father step on the brakes too late that day. You heard the bump before you felt it. The car your father rammed into was big, foreign and dark green, with yellow headlights like the eyes of a cat. Your father started to cry and beg even before he got out of the car and laid himself flat on the road, stopping the traffic. Sorry sir, sorry sir, if you sell me and my family you cannot even buy one tire in your car, he chanted. Sorry sir.
The big man seated at the back did not come out. His driver did, examining the damage, looking at your father’s sprawled form from the corner of his eye as though the pleading was a song he was ashamed to admit he liked. Finally, he let your father go. Waved him away. The other cars honked and drivers cursed. When your father came back in the car, you refused to look at him because he was just like the pigs that waddled in the marshes around the market. Your father looked like nsi. Shit.
After you told him this, he pursed his lips and held your hand and said he understood. You shook your hand free, annoyed, because he thought the world was, or ought to be, full of people like him. You told him there was nothing to understand, it was just the way it was.

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He didn’t eat meat, because he thought it was wrong the way they killed animals. He said they released fear toxins into the animals and the fear toxins made people paranoid. Back home, the meat pieces you ate, when there was meat, were the size of half your finger. But you did not tell him that. You did not tell him either that the dawadawa cubes your mother cooked everything with, because curry and thyme were too expensive, had MSG, was MSG. He said MSG caused cancer, and that was the reason he liked Chang’s—Chang didn’t cook with MSG.
Once, at Chang’s, he told the waiter he lived in Shanghai for a year, that he spoke some Mandarin. The waiter warmed up and told him what soup was best and then asked him, “you have girlfriend in Shanghai?” And he smiled and said nothing.
You lost your appetite, the region beneath your breasts felt clogged inside. That night, you didn’t moan when he was inside you, you bit your lips and pretended that you didn’t come because you knew he would worry. Finally you told him why you were upset, that the Chinese man assumed you could not possibly be his girlfriend, and that he smiled and said nothing
Before he apologized, he gazed at you blankly and you knew that he did not understand.

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He bought you presents and when you objected about the cost, he said he had a trust fund, it was okay. His presents mystified you. A fist-sized ball that you shook to watch snow fall on a tiny house, or a plastic ballerina in pink spinning around on a tiny stage. A shiny rock. An expensive scarf hand-painted in Mexico that you could never wear because of the color. Finally you told him that Third World presents were always useful. The rock, for instance, would work if you could grind things with it, or wear it. He laughed long and hard, but you did not laugh. You realized that in his life, he could buy presents that were just presents and nothing else, nothing useful. When he started to buy you shoes and clothes and books, you asked him not to, you didn’t want any presents at all.
Still, you did not fight. Not really. You argued and then you made up and made love and ran your hands through each other’s hair, his soft and yellow like the swinging tassels of growing corncobs, yours dark and bouncy like the filling of a pillow. You felt safe in his arms, the same safeness you felt back home, in the shantytown house of zinc.
When he got too much sun and his skin turned the color of a ripe watermelon, you kissed portions of his back before you rubbed lotion on it slowly. It was more intimate than sex. You felt involved, yet it was one experience you both could never share. You darkened in the sun but you were too dark to ever get burned.
He found the African store in the Hartford Yellow Pages and drove you there. The store owner, a Ghanaian, asked him if he was African, like the white Kenyans or South Africans and he laughed and said yes, but he’d been in America for a long time, had missed the food of his childhood. You cooked for him; he liked jollof rice but after he ate garri and onugbu soup, he threw up in your sink. You didn’t mind, because now you could cook onugbu soup with meat.
The thing that wrapped itself around your neck, that nearly always choked you before you fell asleep, started to loosen, to let go.

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You knew by people’s reactions that you were abnormal—the way the nasty ones were too nasty and the nice ones too nice. The old white women who muttered and glared at him, the black men who shook their heads at you, the black women whose pitiful eyes bemoaned your lack of self-esteem, your self-loathing. Or the black women who smiled swift, secret solidarity smiles, the black men who tried too hard to forgive you, saying a too-obvious hi to him, the white women who said, “what a good looking pair,” too brightly, too loudly, as though to prove their own tolerance to themselves.
You did not tell him but you wished you were lighter-skinned so they would not stare so much. You thought about your sister back home, about her skin the color of honey, and wished you had come out like her. You wished that again the night you first met his parents. But you did not tell him because he would look solemn and hold your hand and tell you it was your burnished skin color that first attracted him. You didn’t want him to hold your hand and say he understood because again there was nothing to understand, it was just the way things were.
You wished you were light-skinned enough to be mistaken for Puerto-Rican, light-skinned enough so that, in the dim light of the Indian restaurant where you both shared samosas with his parents from a centrally placed tray, you would seem almost like them.
His mother told you she loved your braids, asked if those were real cowries strung through them and what female writers you read. His father asked how similar Indian food was to Nigerian food and teased you about paying when the check came. You looked at them and felt grateful that they did not examine you like an exotic trophy, an ivory tusk.
His mother told you that he had never brought a girl to meet them, except for his High School prom date and he smiled stiffly and held your hand. The tablecloth shielded your clasped hands. He squeezed your hand and you squeezed back and wondered why he was so stiff, why his extra virgin olive-colored eyes darkened as he spoke to his parents. He told you about his issues with his parents later, how they portioned out love like a birthday cake, how they would give him a bigger slice if only he’d go to Law School. You wanted to sympathize. But instead you were angry.
You were angrier when he told he had refused to go up to Canada with them for a week or two, to their summer cottage in the Quebec countryside. They had even asked him to bring you. He showed you pictures of the cottage and you wondered why it was called a cottage because the buildings that big around your neighborhood back home were banks and churches. You dropped a glass and it shattered on the hardwood of his apartment floor and he asked what was wrong and you said nothing, although you thought a lot was wrong. Your worlds were wrong.
Later, in the shower, you started to cry, you watched the water dilute your tears and you didn’t know why you were crying.

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You wrote home finally, when the thing around your neck had almost completely let go. A short letter to your parents and brothers and sisters, slipped in between the crisp dollar bills, and you included your address. You got a reply only days later, by courier. Your mother wrote the letter herself, you knew from the spidery penmanship, from the misspelled words.
Your father was dead, he had slumped over the steering wheel of his taxi. Five months now, she wrote. They had used some of the money you sent to give him a nice funeral. They killed a goat for the guests and buried him in a real coffin, not just planks of wood.
You curled up in bed, pressed your knees tight to your chest and cried. He held you while you cried, smoothed your hair, and offered to go with you, back home to Nigeria. You said no, you needed to go alone. He asked if you would come back and you reminded him that you had a green card and you would lose it if you did not come back in one year. He said you knew what he meant, would you come back, come back?
You turned away and said nothing and when he drove you to the airport, you hugged him tight, clutching to the muscles of his back until your ribs hurt. And you said thank you.