PREFÁCIO PARA A EDIÇÃO COMPLETA DAS MINHAS OBRAS, de Dmitri Chostakóvitch.

 

Shostakovich

PREFÁCIO PARA A EDIÇÃO COMPLETA DAS MINHAS OBRAS E UMA BREVE CONSIDERAÇÃO SOBRE TAL PREFÁCIO  *

Peça para baixo e piano, 1966, op.123.
Epigrama baseado em versos de Aleksandr Púchkin (1799-1837).
Texto e música de Dmitri Chostakóvitch.
Tradução do russo por André Nogueira,
25 de setembro de 2016, em homenagem aos 110 anos do compositor.
(Acompanha arquivo de áudio e breve comentário a partir de trechos de “Shostakóvich: Vida, Música, Tempo”, de Lauro Machado Coelho, e “Shostakóvich, a Life”, de Laurel E. Fay, em tradução do inglês).
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Prefácio para a Edição Completa das Minhas Obras e uma Breve Consideração sobre tal Prefácio:

 “Com um único espirro eu sujo o papel.
 Com a orelha costumeira eu escuto o escarcéu.
 Do mundo inteiro eu torturo seus ouvidos.
 Depois publico e – bum! – sou esquecido.”

Este prefácio poderia ter sido escrito
não somente para a edição completa das minhas obras,
senão também para a edição completa das obras
de muitos, muitos outros compositores,
tanto soviéticos como estrangeiros.
E eis a assinatura: Dmitri Chostakóvitch.
Artista do Povo da URSS,
um grande número de títulos honorários,
Primeiro-Secretário da União dos Compositores da RSFSR,
simplesmente Secretário da União dos Compositores da URSS,
assim como vários outros cargos
e posições extremamente respeitáveis.

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ПРЕДИСЛОВИЕ К ПОЛНОМУ СОБРАНИЮ МОИХ СОЧИНЕНИЙ И КРАТКОЕ РАЗМЫШЛЕНИЕ ПО ПОВОДУ ЭТОГО ПРЕДИСЛОВИЯ

(Для баса и фортепиано, 1966, op.123.
Эпиграмма Пушкина. Текст Шостаковича).

“Мараю я единым духом лист.
Внимаю я привычным ухом свист.
Потом всему терзаю свету слух.
Потом печатаюсь – и в Лету Бух!”

Такое предисловие можно было б написать
не только к полному собранию моих сочинений,
но и к полному собранью сочинений
многих, очень, очень многих композиторов,
как и советских, так и зарубежных.
А вот и подпись: Дмитрий Шостакович.
Народный артист СССР,
очень много и других почетных званий,
первый секретарь Союза композиторов РСФСР,
просто секретарь Союза композиторов СССР,
а так же очень много других весьма
ответственных нагрузок и должностей.

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* Faço acompanhar em citação um excerto do livro “Shostakóvich: Vida, Música, Tempo”, de Lauro Machado Coelho (Ed. Perspectiva, 2006, págs. 372-373):

<< Em 28 de maio de 1966, Shostakóvich participou, pela última vez como pianista, de um concerto dedicado às suas obras. Acompanhou Galina Vishniévskaia e Ievgueni Nesterenko numa série de ciclo de canções, que incluíam duas estréias. Transcrevera para soprano as ‘Canções Judaicas’, para que Galina pudesse cantá-las. Nesterenko fez as ‘Romanças sobre Poemas Ingleses’. Para ele, também, Shostakóvich escrevera o texto e a música de uma canção satírica, ‘Prefácio à Edição Completa de Minhas Obras […]’. Os irônicos comentários à sua obra e funções oficiais – para os quais Shostakóvich inspira-se em um epigrama de Púchkin chamado ‘A História de um Versificador’ – são um belo exemplo de autoparódia. Nesterenko estava tão nervoso, que perdeu a sua entrada. Dmitri recomeçou e, mais uma vez, o cantor perdeu a entrada. Só na terceira vez conseguiu acertar… Nesterenko não foi o único a estar nervoso. Em sua biografia, Vishniévskaia conta que, nos ensaios, Dmitri estava apavorado, devido ao problema nos músculos das mãos, a ponto de cometer, três vezes seguidas, o mesmo erro na execução do soneto LXVI, de Shakespeare. No recital, apesar de estar em pânico, tudo correu maravilhosamente, o que o deixou excitadíssimo… Horas depois, porém, sofreu um enfarto, e tiveram de hospitalizá-lo novamente. Ao receber alta, foi mandado para um sanatório em Mielnítchnyi Rutchiei, perto de Leningrado, onde, por coincidência, o puseram no mesmo quarto que, no passado, costumava ser ocupado por Andrei Jdanov *>>.

* Andrei Jdánov, braço direito de Iossif Stálin na fiscalização de obras artísticas, perseguidor de Chostakóvitch muitos outros artistas soviéticos. As diretrizes da censura, no período de maior repressão, ficaram conhecidas como jdanovismo, e os longos anos de seu vigor, como jdanovtchina, isto é, a “era Jdanov”. Depois de sua morte em 1948 e de Stálin em 1953, com as denúncias de seus crimes e o subseqüente “degelo” da cultura soviética, iniciou-se um processo gradual de “des-jdanovização”. No universo da música, tal processo passou pelo encerramento da União dos Compositores da URSS e criação de uma União dos Compositores da RSFSR (República Socialista Federativa Soviética Russa), em 1960. No fim da década de 50 Chostakóvitch passou a integrar a União dos Compositores da URSS, participou da criação da União dos Compositores da RSFSR e foi condecorado Artista do Povo da União Soviética. Parecem ter sido esses os acontecimentos que levaram Chostakóvitch a ingressar, em 1960, no Partido Comunista, então sob governo de Nikita Khrushtchióv. Mas há uma série de circunstâncias que nos ajudam a compreender melhor a profunda ironia deste seu Prefácio, bem como o nervosismo que o acometeu em sua execução. Volto a citar L. M. Coelho (págs. 293-299):

<< O processo de libertação dos presos políticos, e da reabilitação das vítimas do terror stalinista… foi lento e laborioso. Em 1956, milhares deles começaram a sair do Gúlag [os campos soviéticos de trabalhos forçados]. ‘Nossa casa virou um hotel para a gente que voltava’, contou Maksím [filho de D. Chostakóvitch], referindo-se a todos os libertados a quem Dmitri hospedou e ajudou a recolocar na vida social. Usando o prestígio que seus títulos de deputado da República Russa e de Artista do Povo da URSS lhe conferiam, Shostakóvich empenhou-se na defesa de uma ampla gama de indivíduos, que iam desde a família de Guenrietta Dombróvskaia – deixada na miséria pela execução de seu marido – até a reabilitação de Vsiévolod Meyerkhold…

Foi no domínio das artes que se manifestaram com mais clareza as esperanças de que estivesse a caminho um processo de democratização. Morto Stálin, desapareceu a necessidade de produzir, em série, documentários históricos como ‘A Queda de Berlin’. Um novo capítulo na história do cinema soviético se abre com filmes como ‘Quando Voam as Cegonhas’, de Mikhail Kalatózov, premiado em Cannes em 1958 […] Livros por muito tempo engavetados começaram a vir a lume; as montagens do ‘Sovriemiennikh Teatr’ (Teatro Contemporâneo), de Moscou, provocaram debates; o conselho de Ministros criou uma Comissão Nacional de Intercâmbios Culturais com o exterior; poetas que há tempos estavam no desvio – Yevgueni Yevtuchenko, Andrei Vinokhúrov, Andrei Vozniessiénski, Bulát Okudjáva, ou o veterano Nikolai Zabolótski – puderam voltar a publicar […]

Essas mudanças bruscas não eram de todo aprovadas por Khrushtchióv. Numa reunião em meados de 1957 com diversos intelectuais, ele se opôs violentamente às idéias literárias mais audaciosas. E tratou brutalmente a poeta Margarita Aliguér, que reclamava contra o fechamento do anuário ‘Literatúrnaia Moskvá’. Apesar de seus modos bruscos, Khrushtchióv desfrutava de certa popularidade nos meios artísticos. Entre os que o apoiavam, estava Anna Akhmátova, grata a ele por ter ordenado a libertação de seu filho, Liév Gumilióv, preso desde antes da II Guerra Mundial. Isso não impediu que se desencadeasse, em 1958, uma campanha sem precedentes contra o poeta Boris Pasternak. […] Apesar da prisão de sua amante, Olga Ivínskaia,… no inverno de 1945 Pasternak começou a escrever a que haveria de considerar sua obra mais importante: o romance ‘Dr. Jivago’, vasto panorama das atribulações da intelectualidade russa sob a Revolução e o stalinismo… Recusado por todos os editores soviéticos, o romance foi contrabandeado para o exterior e publicado na Itália em novembro de 1957, já em plena era Khrushtchióv. Como o sucesso imediato do livro não foi muito grande, a imprensa soviética conseguiu silenciar o escândalo por algum tempo. No ano seguinte, quando Pasternak tornou-se o primeiro escritor soviético a ganhar o Prêmio Nobel e o livro foi traduzido em todas as línguas do mundo, o Pravda publicou um longo artigo de David Ióssifovich Zaslávski intitulado ‘As Vociferações da Propaganda Reacionária a Propósito de uma Erva Daninha Literária’. Embora ninguém tivesse lido uma só palavra do romance na URSS, os jornais foram inundados de manifestações ‘espontâneas’ dos leitores, pedindo para o escritor a mais dura das punições. Em outubro, uma sessão especial da União dos Escritores condenou Pasternak por ‘cuspir na cara do povo’… e Alexander Biezymiênski… pedira sua deportação: “Arranquemos a erva daninha pela raiz!”. Obrigado a recusar o Nobel, traído por muitos de seus colegas escritores, Pasternak morreu sozinho e amargurado, em maio de 1960…

Na música, o processo de degelo foi ainda mais laborioso. O artigo de Khrénnikov, no primeiro número da ‘Soviétskaia Muzika’ de 1957, preparando o II Congresso da União dos Compositores… esmerava-se em dar uma no cravo outra na ferradura: “O principal erro da secretaria da União dos Compositores foi freqüentemente ter adotado posições dogmáticas na luta contra o formalismo, atribuindo esse conceito a obras… que não o mereciam. Ouvimos recentemente, depois de muito tempo, a Oitava Sinfonia de Shostakóvich que, ao lado de muita coisa criticável, tem numerosas passagens artisticamente fortes e impressionantes… A experiência demonstra que a classificação da Oitava… no grupo das obras formalistas foi errônea e sem fundamento”.

O II Congresso da União dos Compositores [da URSS], iniciado em 23 de março [1957], recenseou as obras escritas entre 1946-1956, fez o balanço da criação musical soviética e apontou os rumos a seguir. Assim como Jdanov no I Congresso [19-25 de abril de 1948], a figura central aqui foi Dmitri Shepílov, representando o Partido. Surpreendendo os liberais, Khrénnikov defendeu os princípios do Realismo Socialista, atacando violentamente o chamado ‘Outono de Varsóvia’: a decisão dos músicos poloneses [Krzysztof Penderecki, Witold Lutoslawski, Grazyna Bacewicz] de romper com essas diretrizes… O dogmatismo de Khrénnikov, partidário do respeito à resolução de 1948, não o impediu de ser re-eleito secretário-geral [da União dos Compositores da URSS]… Apesar das conclusões indefinidas e insatisfatórias do II Congresso, pareceu animadora a atitude do Partido que, em fevereiro de 1958, emitiu uma resolução sobre “os erros cometidos na avaliação de ‘Grande Amizade’, de Muradélli, do ‘Bagdán Khmielnítski’, de Konstantin Dankiévitch, e ‘Do fundo do meu Coração’, de Guerman Jukóvski”. Embora afirmando que a resolução de 1948 “desempenhara papel positivo no desenvolvimento de conjunto da música soviética”, essa nova resolução admitia que “o julgamento da obra de determinados compositores foi, muitas vezes, infundado e injusto” (o camarada Shostakóvich era mencionado nesse contexto, juntamente com Prokófiev, Khatchatúrian, Shebalín, Popóv e Miaskóvski): “A obra desses compositores, que apresentava algumas tendências equivocadas, foi globalmente denunciada… Algumas avaliações injustificadas, contidas na resolução de então, eram resultado das opiniões subjetivas de I. V. Stálin a respeito de certas obras de arte e da criação de determinados artistas”…

O Concurso Internacional Tchaikóvski, de interpretação, acabara de ser criado, e a presidência do júri fora confiada a Shostakóvich, grande pianista e maior compositor soviético vivo, detentor do Prêmio Lênin. Ora, aos olhos da comunidade internacional, essa honraria não poderia ser concedida a um artista oficialmente colocado no índex, como inimigo do povo. Era, portanto, necessário reincorporá-lo à máquina de propaganda cultural do Estado. Por isso foi ele, e não Khrénnikov, o escolhido para pronunciar, durante a recepção oferecida no Krêmlin, em 8 de fevereiro de 1958, o discurso – preparado por outros – em que fazia um brinde à nova liderança partidária – cerimônia que, na realidade, preparou o terreno para a recisão parcial da resolução de 1948, no Congresso de março. Da mesma forma, o governo o mandaria aos Estados Unidos, em 1959, como parte da delegação liderada por seu arqui-inimigo Khrénnikov. Descrito pela ‘Musical America’ como “um homem nervoso, de olhos brilhantes e mãos inquietas, que fuma sem parar”, suas cautelosas declarações, bem ensaiadas, confirmariam a impressão que se tinha, no Ocidente, de que ele se convertera em um comunista ortodoxo >>

Sobre o polêmico ingresso de Chostakóvitch para o Partido Comunista em 1960, traduzi do inglês uma passagem de Laurel E. Fay, “Shostakóvich, a Life” (Oxford University Press, 2000, págs. 216-219):

<< A realização artística de Chostakóvitch foi ofuscada pela sua nova atuação como servidor público. Na primeira semana de abril de 1960, o Primeiro Congresso de Compositores da Federação Russa (RSFSR) teve lugar em Moscou. Apesar de estabelecer formalmente a União dos Compositores no nível da república, a sua comissão organizadora operava desde 1958 e patrocinou plenárias oficiais. Enquanto isso, a organização dos compositores da cidade de Moscou foi criada em 1959. Destaque para o Primeiro Congresso Constituinte, incluindo uma recepção no teatro do Krêmlin com a participação de líderes soviéticos e do corpo diplomático, começando com uma performance de ‘O Sol Brilha sobre a Pátria Mãe’ [opus 90 de D. Chostakóvitch]. Em 9 de abril de 1960, Chostakóvitch foi eleito primeiro-secretário, convocado para a mais elevada posição de liderança da recém-fundada União. Em 30 de abril, dele foi uma das saudações para a nação por ocasião do 1º de Maio, publicada no Pravda: “Estamos alcançando o comunismo. Louvar a mais justa sociedade humana na história é uma digna missão e satisfação para os compositores… Neste 1º de Maio de 1960 eu verdadeiramente ouço a música do comunismo. E, olhando para frente, gostaria de convidar todos os compositores soviéticos, meus caros amigos, para um trabalho ainda mais intenso e um novo sucesso criativo. Avante amigos, rumo ao comunismo!”. Na vida privada, contudo, Chostakóvitch se mostrou freqüentemente mais cínico a respeito das aspirações e promessas do comunismo. Assim ele contradisse Flora Litvínova numa conversa em 1956: “Não, o comunismo é impossível!”.

Sua imprevista entrada como membro no Partido Comunista em 1960… resultou um dos mais enigmáticos episódios de sua biografia. No fim de junho de 1960, Chostakóvitch se encontrava em Leningrado, onde sofreu um colapso nervoso, provocado pela iminência da convocatória que o levaria a Moscou para efetuar sua iniciação como membro do Partido. As versões contadas por Glikman e Lebedinski – que testemunharam sua crise – são contraditórias. Segundo relata Glikman, a decisão de Khrushtchióv em fazer de Chostakóvitch a cabeça da recém-fundada União dos Compositores da Federação Russa implicou no requerimento de sua filiação ao Partido. À honraria oferecida por um presidente do Comitê Central, delegado a recrutá-lo, o compositor se manteve resistente, e manobrou a situação o quanto possível antes de consentir. Já Lebedinski, ele mesmo um membro do Partido desde 1919, defende que não houve um grande plano para recrutar Chostakóvitch, que a pressão para aderir proveio de um escalão mais baixo de funcionários… Ele observou que Shostakóvich não chegou a dizer o nome de quem o forçara a assinar a inscrição, mas lhe deu a entender, envergonhado, que a tanto sucumbiu sob a influência do álcool…

Tal acontecimento foi mistificado por vários colegas e amigos de Chostakóvitch. E deixou muitos intelectuais desapontados. Alguns cogitam seriamente a possibilidade de que a partir daquele momento pendia, sobre Chostakóvitch e sua família, a espada de Dâmocles, o que sem dúvida seria o caso na era de Stálin. É verdade que, para melhorar a imagem do Partido Comunista sob governo de Khrushtchióv, houve uma campanha para recrutar às suas fileiras sangue novo da intelligentzia… Que houve algum grau de coerção, é evidente. Mais comumente compreende-se o consentimento de Chostakóvitch como um produto do pavor crônico, o terror que deformou toda a sua vida. >>

A nova fase não significou o fim da censura partidária às obras de Chostakóvitch. É verdade que o compositor se tornou mais livre, por exemplo, para se exprimir por meio da poesia, musicando versos de Marina Tsvetáieva, Aleksandr Blok, Ievgueni Ievtuchenko, além de poetas estrangeiros, García Lorca, Rainer Maria Rilke, Guillaume Apollinaire, ou então compondo peças satíricas como as Romanças sobre extratos da revista Krokodil ou Sátiras sobre textos de Sacha Tchiórni. Mesmo assim, Chostakóvitch se viu obrigado a assentir em trechos onde a comissão do Partido interveio revisando os poemas de Ievtuchenko usados em sua 13ª Sinfonia em 1962. A estréria do Prefácio, em 1966, aconteceu já na era Brejniev. O pavor de Chostakóvitch e seus músicos na execução da peça revela o peso psicológico dessas “transgressões” num ambiente político ainda muito repressivo. Lauro M. Coelho lembra que, para a apresentação da 14ª Sinfonia de Chostakóvitch, “as autoridades não enviaram nenhum representante. Estava lá apenas Pável Apostolóv, stalinista de coração…

O violinista Mark Lubótski, que assistiu à estréia, conta que, embora Chostakóvitch tivesse pedido silêncio à platéia, pois seria feita uma gravação privada daquele concerto, durante o quinto movimento, Apostolóv retirou-se ruidosamente da sala: ‘Quando a sinfonia terminou, as primeiras pessoas a sair viram um homem ser retirado do prédio, numa maca, para dentro de uma ambulância. Apostolóv tinha tido um ataque do coração enquanto a música estava sendo tocada’” (Op. Cit. 385).

A referida 14ª Sinfonia de Chostakóvitch, com versos de Lorca a Apollinaire, rompeu com todos os limites do que, até então, podia ser falado na União Soviética. Já traduzi para esta revista (Clique aqui) um desses poemas de Apollinaire, Resposta dos Cossacos Zaporojes ao Sultão de Constantinopla, infalivelmente associado, na Sinfonia, à figura de Stálin: “Cem vezes mais cruel que Barrabás,/ Com o corno diabólico na testa,/ Encostado a Belzebu aí estás…/ Não iremos ter contigo em tuas festas (…)/ Mestre-sala de uma corja filistéia,/ Empanturras-te de tudo que é imundo…/ Contorcendo-se em terrível diarréia/ Aos coices tua mãe te pôs no mundo… etc.”. Que efeitos poderia ter, sobre um “stalinista de coração”, tão crua enunciação de uma verdade mortalmente interditada? Trinta anos antes, por uns versos assim, em que comparava os bigodes do ditador a antenas de barata, Óssip Mandelstam fora preso e torturado até a morte; e agora os stalinistas enfartam ao os ouvir. O nervosismo de Chostakóvitch e Nesterenko na estréia do Prefácio confirma o quanto, mesmo com a abertura dos anos 60, era grave o rompiamento que se operava no âmbito da linguagem musical, e a coragem que precisou ter, nesta e em tantas ocasiões, esse grande Artista do Povo soviético.      

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Anna Akhmátova. Poemas (traduções por André Nogueira)

AnnaAkhmtova. rosário

ANNA AKHMÁTOVA (POEMAS)

Traduções, André Nogueira (2015)

Obs. Esta publicação acontece hoje, 05.03.2016, ao se completarem 50 anos da passagem de Akhmátova.

* * *

Torço as mãos sob o negro xale…
“Por que tanto te censuras?”
— Fiz que me ouvisse até deixá-lo
Embriagado de amargura.

Como esquecer? Ele saiu, cambaleando,
Nos lábios uma horrenda contorção…
Desci correndo, sem pegar no corrimão,
E no portão segurei ele pela manga.

Sufocada, eu gritei: “O que se deu
Foi brincadeira. Se tu fores, não agüento.”
Ele então com toda calma respondeu
E com frieza: “Não te exponhas tanto ao vento”.

1911

* * *

Сжала руки под тёмной вуалью…
“Отчего ты сегодня бледна?”
— Оттого, что я терпкой печалью
Напоила его допьяна.

Как забуду? Он вышел, шатаясь,
Искривился мучительно рот…
Я сбежала, перил не касаясь,
Я бежала за ним до ворот.

Задыхаясь, я крикнула: “Шутка
Всё, что было. Уйдешь, я умру.”
Улыбнулся спокойно и жутко
И сказал мне: “Не стой на ветру”

1911

* * *

Porta aberta, luz acesa,
Doces tílias murmurinham…
Esquecidos sobre a mesa
Estão a luva e o chicotinho.

Amarela a auréola do lustre…
Escuto, atenta, os murmúrios.
Por que correste tu de susto?
Nem sequer conjecturo.
    
Com alegria, o clarão
Do novo dia amanhecendo.
Esta vida é estupenda
E seja sábio o coração.
    
Te amortece a dor horrenda
E os espasmos se acalmam…
Sabe, estive lendo
Que é eterna nossa alma.

1911

* * *

Дверь полуоткрыта,
Веют липы сладко…
На столе забыты
Хлыстик и перчатка.

Круг от лампы желтый…
Шорохам внимаю.
Отчего ушел ты?
Я не понимаю…

Радостно и ясно
Завтра будет утро.
Эта жизнь прекрасна,
Сердце, будь же мудро.

Ты совсем устало,
Бьешься тише, глуше…
Знаешь, я читала,
Что бессмертны души.

1911

NA TSÁRSKOIE SELÓ

1

Na alameda balançando longas crinas
Cavalinhos, cavaleiros às garupas.
A cidade dos mistérios me fascina,
Eu amar-te tanto assim, me procupa.

Estranho: eu gemia, contorcendo-me de medo
Ao pensar em algum dia a ausência tua,
E agora me tornei como um brinquedo
Igual o róseo meu amigo catatua.

Já pressinto que me vou não sei aonde,
Mas de lágrimas não encho os olhos meus.
Só não gosto quando o sol já vai se pondo
Enquanto os ventos a silvar como um adeus.

22 de fevereiro 1911, Tsárskoie Seló

2

… Sob o bordo, ar perplexo,
Eis meu gêmeo marmóreo.
O rosto entregue a seu reflexo,
O lago treme em sua memória.

Vão as chuvas em minério
Transformar a cicatriz de sua carne
Fria, pálida… espere…
Eu também serei de mármore!

1911

3

Na alameda a caminhar rapaz moreno
Junto à margem mal-ferido de paixão.
Todo o globo para nós será pequeno,
Nossos pés parecem mal tocar o chão.

Sob os cepos, as agulhas dos pinheiros
Para o chão pronto retornem.
Tu, meu Par, despenteado cavaleiro…
Aqui jaz o teu tricórnio.

24 de fevereiro 1911, Tsárskoie Seló.

В ЦАРСКОМ СЕЛЕ

1

По аллее проводят лошадок
Длинны волны расчесанных грив.
О, пленительный город загадок,
Я печальна, тебя полюбив.

Странно вспомнить: душа тосковала,
Задыхалась в предсмертном бреду,
А теперь я игрушечной стала,
Как мой розовый друг какаду.

Грудь предчувствием боли не сжата,
Если хочешь, в глаза погляди.
Не люблю только час пред закатом,
Ветер с моря и слово «уйди».

22 февраля 1911, Царское Село

2

…А там мой мраморный двойник,
Поверженный под старым клёном,
Озёрным водам отдал лик,
Внимает шорохам зелёным.

И моют светлые дожди
Его запекшуюся рану…
Холодный, белый, подожди,
Я тоже мраморною стану.

1911

3

Смуглый отрок бродил по аллеям,
У озёрных грустил берегов,
И столетие мы лелеем
Еле слышный шелест шагов.

Иглы сосен густо и колко
Устилают низкие пни…
Здесь лежала его треуголка
И растрепанный том Парни.

24 февраля 1911, Царское Село

* * *

Seu vizinho, eu perdi as estribeiras!
Tardezinha, quarta-feira.
Uma vespa foi quem veio me zoar…
Picou no meio do meu dedo, o anelar.

Foi sem querer que a apertei
E, pelo visto, morrerá.
Se seu ferrão terá veneno, eu não sei,
Como a agulha do tear.

Em teu colo, seu vizinho, vim chorar.
Tu me darás algum sorriso?
Olha isso: no meu dedo, anular
O tão bonito meu anel de compromisso.

18-19 de março 1911

* * *

Я сошла с ума, о мальчик странный,
В среду, в три часа!
Уколола палец безымянный
Мне звенящая оса.

Я ее нечаянно прижала,
И, казалось, умерла она,
Но конец отравленного жала
Был острей веретена.

О тебе ли я заплачу, странном,
Улыбнется ль мне твое лицо?
Посмотри! На пальце безымянном
Так красиво гладкое кольцо.

18-19 марта 1911

PARA A MUSA

Musa-irmã, em meus olhos fitou,
Tão claro é seu olhar, tão reluzente.
De mim tomou o anel de ouro,
A flor de um primeiro presente.

Musa! Vês, meninas e esposas
E viúvas, todas elas são alegres…
Morrer de velha é melhor coisa,
Só tal peça não me pregues!

Devo colher, já adivinho,
A tenra flor da margarida
E enfrentar tudo sozinha,
A terrestre provação da minha vida.

Vejo da janela a primavera:
Viver só — é meu destino, que assim seja.
Só não quero, só não quero, só não quero
É saber, que a outra beijam.

Amanhã me vão zombar detrás do espelho:
“Não é claro teu olhar, nem reluzente…”
Eu direi: “A Musa-irmã veio colhê-lo,
O divino meu presente”.

10 de outubro 1911, Tsárskoie Seló

МУЗE

Муза-сестра заглянула в лицо,
Взгляд ее ясен и ярок.
И отняла золотое кольцо,
Первый весенний подарок.

Муза! ты видишь, как счастливы все –
Девушки, женщины, вдовы…
Лучше погибну на колесе,
Только не эти оковы.

Знаю: гадая, и мне обрывать
Нежный цветок маргаритку.
Должен на этой земле испытать
Каждый любовную пытку.

Жгу до зари на окошке свечу
И ни о ком не тоскую,
Но не хочу, не хочу, не хочу
Знать, как целуют другую.

Завтра мне скажут, смеясь, зеркала:
«Взор твой не ясен, не ярок…»
Тихо отвечу: «Она отняла
Божий подарок».

10 октября 1911, Царкое Село

A CÂMARA NOTURNA

Estas palavras de antemão que pronuncio
Atingiram meu espírito em cheio,
Uma abelha no crisântemo zuniu
E um sachê envelhecido exala cheiros.

Na câmara, tu vês, não há janelas, só um vão.
Torso de colecionador, o amor exposto nu
E sobre a cama, em francês, uma inscrição:
“Seigneur, ayez pitie de nous”.*

Velhas histórias, com seus tristes desenlaces,
Minha alma a este horror não submetas.
Sob a capa desgastada, em realce,
Arranhões no verniz da estatueta.

No buquê que sobre a mesa estiola
O raio último de sol petrificou-se.
Como em sonho um acorde de viola
E o som do clavicorde ainda ouço.

* “Senhor, tenha piedade de nós” (franc.)

1912

ВЕЧЕРНЯЯ КОМНАТА

Я говорю сейчас словами теми,
Что только раз рождаются в душе.
Жужжит пчела на белой хризантеме,
Так душно пахнет старое саше.

И комната, где окна слишком узки,
Хранит любовь и помнит старину,
А над кроватью надпись по-французски
Гласит: “Seigneur, ayez pitie de nous»*.

Ты сказки давней горестных заметок,
Душа моя, не тронь и не ищи…
Смотрю, блестящих севрских статуэток
Померкли глянцевитые плащи.

Последний луч, и желтый и тяжелый,
Застыл в букете ярких георгин,
И как во сне я слышу звук виолы
И редкие аккорды клавесин.

* Господи, смилуйся над нами (франц.).

1912

Anna-Akhmatova-with-her-husband-Nikolay-Gumilev-and-son-Lev-Gumilev-1913                (Akhmátova em 1913 com seu esposo, Nikolai Gumiliov, e seu filho, Liev Gumiliov)

* * *

“Onde está teu ciganinho, excelência?
Teu pequeno e primogênito neném,
A quem conheces bem melhor do que ninguém
E, quando chora, enrolas tu em negro lenço.”

“O destino de uma mãe, iluminar-se na tortura.
Não considero que eu dela seja digna.
A cancela se abriu a um paraíso prematuro
E no colo é Madalena quem segura seu estigma.

Cada dia bem vivido em meus tempos alegres
Esquecido sobre a neve eu abandono.
Os meus braços sofredores que o carreguem
E seu choro despedace com meu sono.

O coração se apagou, igual a luz do abajur.
Esqueço tudo o que for da minha conta
Enquanto ando pelo cômodo escuro
Onde procuro pelo berço e não encontro”.

1914

* * *

“Где, высокая, твой цыганенок,
Тот, что плакал под черным платком,
Где твой маленький первый ребенок,
Что ты знаешь, что помнишь о нем?”

“Доля матери — светлая пытка,
Я достойна ее не была.
В белый рай растворилась калитка,
Магдалина сыночка взяла.

Каждый день мой — веселый, хороший,
Заблудилась я в длинной весне,
Только руки тоскуют по ноше,
Только плач его слышу во сне.

Станет сердце тревожным и томным,
И не помню тогда ничего,
Все брожу я по комнатам темным,
Все ищу колыбельку его”.

1914

CANÇÃO DE NINAR

Longe mata adentro,
Atravessando o remoinho,
Um chalé sem acalento,
Um lenhador bem pobrezinho.

O caçula reclamava por papá, —
De que forma fazê-lo parar?
Dorme, meu filhinho, dorme,
Eu sou uma mãe má.

Ouve cantar o passarinho
Que pousou nestes umbrais…
Foi dada uma cruzinha,
De presente, a teu pai.

A fome vem, a fome vai,
E fome em casa se aloja.
Que São Jorge
Livre e guarde teu papai.

1915, Tsárskoe Seló.

КОЛЫБЕЛЬНАЯ

Далеко в лесу огромном,
Возле синих рек,
Жил с детьми в избушке темной
Бедный дровосек.

Младший сын был ростом с пальчик,
— Как тебя унять,
Спи, мой тихий, спи, мой мальчик,
Я дурная мать.

Долетают редко вести
К нашему крыльцу,
Подарили белый крестик
Твоему отцу.

Было горе, будет горе,
Горю нет конца,
Да хранит святой Егорий
Твоего отца.

1915, Царское Село

* * *

Por que te disfarças
De ave, de seixo, de sarça?
Por que te divertes
Com lampejos cravejando-me celestes?

Deixa! Para quê me assedias?
Vai cuidar de tuas próprias bruxarias!
No pântano, embebido de penumbra,
Bruxuleia o ébrio vislumbre.

E eis a Musa, num esburacado véu,
Que arrasta cânticos tristonhos.
Do poder de suportar dor tão cruel
Vem o milagre deste sonho.

1915

* * *

Зачем притворяешься ты
То ветром, то камнем, то птицей?
Зачем улыбаешься ты
Мне с неба внезапной зарницей?

Не мучь меня больше, не тронь!
Пусти меня к вещим заботам…
Шатается пьяный огонь
По высохшим серым болотам.

И Муза в дырявом платке
Протяжно поет и уныло.
В жестокой и юной тоске
Ее чудотворная сила.

1915

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                                (Akhmátova desenhada por Amedeo Modigliani, 1911)

 

ÉPICOS MOTIVOS

Eu canto, e o bosque verdeja…
B. A.

< 1 >

Naquele tempo eu era hóspede na terra.
O nome que me deram de batismo — Anna,
Era doce aos ouvidos e aos lábios dos humanos.
Assim eu por milagre vi o júbilo terrestre
E, nem sequer contando vinte aniversários,
Eram tantas minhas festas quantos dias há no ano.
Obediente a certo ímpeto secreto,
Elegendo um desprendido pretendente,
O sol, apenas, eu amava, e as árvores.
Encontrei, certo verão, uma estrangeira
E àquela hora nas marés de águas quentes
Em que juntas nos banhávamos
Estranho pareceu-me o seu traje de banho
E mais estranhos os seus lábios e palavras —
Raras, como estrelas cadentes em setembro.
Delicada, ensinava-me a nadar
Com sua mão me apoiando por debaixo
O corpo inábil sobre as ansiosas ondas.
De repente estatelei naquelas águas azul-claras
Calmamente ela a mim se dirigiu,
E pareceu-me que a floresta com as frondes
Farfalhava, que a areia abria fendas
Ou que o fole de uma gaita, num assobio,
Anunciava a despedida, pois o sol ia se pondo.
Suas palavras, não podia me lembrar,
Caía a noite sombreando seu perfil,
O cabelo molhado circundando seu olhar,
Uma frestra que na boca entreabriu.
Como perante uma divina mensageira,
Implorei para a menina: “Diz-me,
Para quê me surrupias a memória,
E sussurras-me ao ouvido, se a glória
De cantar o que ouvi, tu retiraste-a de mim?”
Só uma vez, eu passeando na vindima,
Enchi o meu de estimação cesto de vime
E, bronzeada, me sentei sobre o capim.
Pálpebras cerradas, os cabelos destrançava,
Lânguida estava e dos perfumes estafada
Que exalavam desde os figos azulados
E do hálito picante das silvestres hortelãs.
Do relicário da memória aproximou-se,
Essa delícia de palavras derramou,
E o cesto cheio eu lançando pelos ares
Para a terra me joguei como se fosse
Certo amado, a quem canta meu amor.

Outono 1913

ЭПИЧЕСКИЕ МОТИВЫ

                   Я пою, и лес зеленеет.

                                                                Б. А.

1

В то время я гостила на земле.
Мне дали имя при крещенье — Анна,
Сладчайшее для губ людских и слуха.
Так дивно знала я земную радость
И праздников считала не двенадцать,
А столько, сколько было дней в году.
Я, тайному велению покорна,
Товарища свободного избрав,
Любила только солнце и деревья.
Однажды поздним летом иностранку
Я встретила в лукавый час зари,
И вместе мы купались в теплом море,
Ее одежда странной мне казалась,
Еще страннее — губы, а слова —
Как звезды падали сентябрьской ночью.
И стройная меня учила плавать,
Одной рукой поддерживая тело
Неопытное на тугих волнах.
И часто, стоя в голубой воде,
Она со мной неспешно говорила,
И мне казалось, что вершины леса
Слегка шумят, или хрустит песок,
Иль голосом серебряным волынка
Вдали поет о вечере разлук.
Но слов ее я помнить не могла
И часто ночью с болью просыпалась.
Мне чудился полуоткрытый рот,
Ее глаза и гладкая прическа.
Как вестника небесного, молила
Я девушку печальную тогда:
«Скажи, скажи, зачем угасла память
И, так томительно лаская слух,
Ты отняла блаженство повторенья?..»
И только раз, когда я виноград
В плетеную корзинку собирала,
А смуглая сидела на траве,
Глаза закрыв и распустивши косы,
И томною была и утомленной
От запаха тяжелых синих ягод
И пряного дыханья дикой мяты,—
Она слова чудесные вложила
В сокровищницу памяти моей,
И, полную корзину уронив,
Припала я к земле сухой и душной,
Как к милому, когда поет любовь.

Осень 1913
Akhmatova_by_Altman

                                           (Akhmátova retratada por Nathan Altman, 1914)

< 2 >

Despedindo-me do bosque meu, natal e sacrossanto,
E da casa, onde a Musa Soluçante já não vai,
Eu, em silêncio, ia feliz levando a vida
Numa ilha toda plana, como fosse uma jangada
Encalhada sobre o delta do Nievá.
Oh, mistério desses dias invernais,
Os prazerosos afazeres, sensações de fadiga
E rosas colocadas em um jarro no lavabo!
A rua sob a neve acabava na esquina
Bem diante de uma árvore e a parede do altar
Da igreja Santa Catarina.
Cedo eu saía para a rua a procurar
Como da amada algum vestígio
Esmiuçando aquela pálida camada
De uma neve ainda virgem.
À beira do Nievá, os veleiros, como pombos,
Se tocavam ombro a ombro, mas a praia
Só fazia prantear com cínzeas ondas.
E outra vez a velha ponte me atrai…
Mais semelhante a uma gaiola
Do que um lar, existe ali certo lugar
Cujo habitante, como fosse um sabiá,
Me cantarola. Eu perante o cavalete só aguardo,
Como em frente do espelho, estupefata,
O seu trabalho ver nascer, feliz e árduo.
Eis o quadro, esta cada vez mais cínzea
Imagem e semelhança do retrato
Com a minha vida, sôfrega e narcísea.
Já não sei onde estará o meu artista predileto
Que galgou pela janela da mansarda
Ao perigo das cornijas e dos tetos
E comigo sobre abismos caminhou
A contemplar a neve, o Nievá e sua névoa —
Mas sei, as nossas Musas são amigas,
Como moças que ainda desconhecem o amor
E que portanto são fraternas e benévolas.

<1914>

2

Покинув рощи родины священной
И дом, где Муза Плача изнывала,
Я, тихая, веселая, жила
На низком острове, который, словно плот,
Остановился в пышной невской дельте.
О, зимние таинственные дни,
И милый труд, и легкая усталость,
И розы в умывальном кувшине!
Был переулок снежным и недлинным.
И против двери к нам стеной алтарной
Воздвигнут храм святой Екатерины.
Как рано я из дома выходила,
И часто по нетронутому снегу,
Свои следы вчерашние напрасно
На бледной, чистой пелене ища,
И вдоль реки, где шхуны, как голубки,
Друг к другу нежно, нежно прижимаясь,
О сером взморье до весны тоскуют, —
Я подходила к старому мосту.
Там комната, похожая на клетку,
Под самой крышей в грязном, шумном доме,
Где он, как чиж, свистал перед мольбертом,
И жаловался весело, и грустно
О радости небывшей говорил.
Как в зеркало, глядела я тревожно
На серый холст, и с каждою неделей
Все горше и страннее было сходство
Мое с моим изображеньем новым.
Теперь не знаю, где художник милый,
С которым я из голубой мансарды
Через окно на крышу выходила
И по карнизу шла над смертной бездной,
Чтоб видеть снег, Неву и облака, —
Но чувствую, что Музы наши дружны
Беспечной и пленительною дружбой,
Как девушки, не знавшие любви.

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                         (Akhmátova retratada por Olga Della-Vos-Kardovskaia, 1914)

PRECE

Dai-me febre, dor, insônia,
Amargos anos sufocando com a peste,
E levai de mim meu filho, o matrimônio,
O dom divino destes cânticos celestes.
Após dias de tão numerosas cruzes,
Assim rogo em vossos santos oratórios:
Pela nuvem que faz sombra sobre a Rússia,
Descarregai vossa relampejante glória.

1915, Dia de Pentecostes, Petersburgo, Ponte da Trindade

МОЛИТВА

Дай мне горькие годы недуга,
Задыханья, бессонницу, жар,
Отыми и ребенка, и друга,
И таинственный песенный дар —
Так молюсь за Твоей литургией
После стольких томительных дней,
Чтобы туча над темной
РоссиейСтала облаком в славе лучей.

1915, Духов день, Петербург, Троицкий мост

Anna Akhmatova - 06


* * *

O povo esperava, sob uma ânsia
De suicídio, a exército alemão,
E o espírito ortodoxo de Bizâncio
Em templos russos não tomava comunhão.

O Nievá presenciou sua cidade,
Que da febre do poder quedava enferma,
Esquecendo-se de sua majestade
E sem saber quem tomaria seu governo.

Uma voz me apareceu naquele tempo,
Consolou-me e me ofereceu ajuda:
“Deixa tua terra, tão pecaminosa e surda.
A Rússia abandona para sempre.

Vem, eu lavo o sangue de tuas mãos
E essa vergonha que teu coração coage,
Com um novo nome limparei a tua imagem
Do ultraje e da passada humilhação”.

Com um gesto indiferente e sóbrio
Os ouvidos eu tapei com as mãos hirtas.
Que assim esse discurso ignóbil
Não profane meu espírito aflito.

Outono 1917, Petersburgo

 * * *

Когда в тоске самоубийства
Народ гостей немецких ждал,
И дух суровый византийства
От русской церкви отлетал,

Когда приневская столица,
Забыв величие своё,
Как опьяневшая блудница,
Не знала, кто берёт ее, —

Мне голос был. Он звал утешно,
Он говорил: “Иди сюда,
Оставь свой край, глухой и грешный,
Оставь Россию навсегда.

Я кровь от рук твоих отмою,
Из сердца выну черный стыд,
Я новым именем покрою
Боль поражений и обид”.

Но равнодушно и спокойно
Руками я замкнула слух,
Чтоб этой речью недостойной
Не осквернился скорбный дух.

Осень 1917, Петербург

A MUSA

Enquanto à noite sua vinda me ilude
A vida me parece por um fio segura a mim.
O que são honra, liberdade, juventude
Quando ela me visita, no assobio de um clarim?
E eis que, do véu se desfazendo, apareceu
E sobre mim impôs os olhos dardejantes.
Eu pergunto: “Foste tu que ditaste a Dante
As páginas do Inferno?” Ela responde: “Eu!”.

1924

МУЗА

Когда я ночью жду ее прихода,
Жизнь, кажется, висит на волоске.
Что почести, что юность, что свобода
Пред милой гостьей с дудочкой в руке.
И вот вошла. Откинув покрывало,
Внимательно взглянула на меня.
Ей говорю: “Ты ль Данту диктовала
Страницы Ада?” Отвечает: ” Я!”.

1924

EM MEMÓRIA DE SERGUEI IESSIÊNIN

Pode a vida se extinguir apenas, como a vela:
Indolor, serena, acaba a flâmula amarela.
Mas a Rússia não concede a seus poetas
Uma lúcida passagem como esta.

À mais fiel e alada alma deste mundo
Recebem-na no céu salvas de chumbo,
Ou sob o horror da pata cósmica oprimido
O coração, como uma esponja, cospe a vida.

1925

ПАМЯТИ СЕРГЕЯ ЕСЕНИНА

Так просто можно жизнь покинуть эту,
Бездумно и безбольно догореть.
Но не дано Российскому поэту
Такою светлой смертью умереть.

Всего верней свинец душе крылатой
Небесные откроет рубежи,
Иль хриплый ужас лапою косматой
Из сердца, как из губки, выжмет жизнь.

1925

MAIAKOVSKI NO ANO DE 1913

Não sei de tua extemporã notoriedade,
Lembro só da impetuosa flor da idade.
E queira agora dignar-me a tomar nota
Em memória desses anos mais remotos.
Em tua voz acumulavam-se destroços
Asfaltados por teus versos vigorosos.
Sem preguiça, com os dois braços em riste,
A terríficos andaimes erigiste.
Tudo quanto resvalasse em tuas vestes
Com o tranco se achava a uma versta
E tudo aquilo que de pronto aniquilavas
Na sentença de uma única palavra.
Solitário e insatisfeito, como sempre,
Aceleravas com despeito o breve tempo
Em que, com férvida alegria, para a luta
Ingressarias, consumindo o pavio curto.
O longínquo rumor dos altos mares
Numa síncope auscultando ao recitares,
Sob a chuva revirando irados olhos
Tu dobravas da cidade seus imbróglios.
Num cômodo da alma um relâmpago penetra:
É teu nome, ecoando sempre alerta.
E até hoje a nossa pátria toda treme
Sob tal convocatória da vocálica sirene.

3-10 de março 1940

МАЯКОВСКИЙ В 1913 ГОДУ

Я тебя в твоей не знала славе,
Помню только бурный твой расцвет,
Но, быть может, я сегодня вправе
Вспомнить день тех отдаленных лет.
Как в стихах твоих крепчали звуки,
Новые роились голоса…
Не ленились молодые руки,
Грозные ты возводил леса.
Все, чего касался ты, казалось
Не таким, как было до тех пор,
То, что разрушал ты, — разрушалось,
В каждом слове бился приговор.
Одинок и часто недоволен,
С нетерпеньем торопил судьбу,
Знал, что скоро выйдешь весел, волен
На свою великую борьбу.
И уже отзывный гул прилива
Слышался, когда ты нам читал,
Дождь косил свои глаза гневливо,
С городом ты в буйный спор вступал.
И еще не слышанное имя
Молнией влетело в душный зал,
Чтобы ныне, всей страной хранимо,
Зазвучать, как боевой сигнал.

3-10 марта 1940

RESPOSTA TARDIA

para M. I. Tsvetáieva

Diabinha de brancas mãos… zombas,
Duplo invisível, te escondes nas sombras
Dos arbustos, nas casinhas de estorninho,
Entre cruzes depredadas tu caminhas
E gritas, da torre Marinka:
“Hoje volto aos campos meus.
Me admirem, conterrâneos,
Pelo que me aconteceu.
Minha família foi tragada pelo pântano
E a casa de meu pai cai em ruínas”.
Vamos hoje atrás de ti, Marina,
Em procissão à meia-noite pelas ruas
De Moscou, e a seguir a trilha tua
Vão milhões retinir fúnebre sino,
A nevasca com seu grito nos trespassa
Mas, discreta, apagando nossos passos
Ao dobrarmos a esquina.

Março 1940

ПОЗДНИЙ ОТВЕТ
                                     М. И. Цветаевой

Белорученька моя, чернокнижница…
Невидимка, двойник, пересмешник,
Что ты прячешься в черных кустах,
То забьешься в дырявый скворечник,
То мелькнешь на погибших крестах,
То кричишь из Маринкиной башни:
“Я сегодня вернулась домой.
Полюбуйтесь, родимые пашни,
Что за это случилось со мной.
Поглотила любимых пучина,
И разрушен родительский дом”.
Мы с тобою сегодня, Марина,
По столице полночной идем,
А за нами таких миллионы,
И безмолвнее шествия нет,
А вокруг погребальные звоны
Да московские дикие стоны
Вьюги, наш заметающей след.

Март 1940
a1938


REQUIEM

EM LUGAR DE UM PREFÁCIO

Nos anos desgraçados da iejóvtchina eu passei dezessete meses nas filas da prisão em Leningrado. Certa vez alguém me “identificou”. Então atrás de mim uma mulher de lábios azuis e que, é claro, nunca na vida ouviu falar meu nome, despertou do torpor, peculiar a todas nós, e me perguntou ao pé do ouvido (lá só aos sussurros se falava):

— E isso, és tu capaz de descrever?

E eu disse:

— Sou.

Então algo semelhante a um sorriso passou por aquilo, que algum dia foi seu rosto.

1º de abril 1957, Leningrado.

РЕКВИЕМ

ВМЕСТО ПРЕДИСЛОВИЯ

В страшные годы ежовщины я провела семнадцать месяцев в тюремных очередях в Ленинграде. Как-то раз кто-то «опознал» меня. Тогда стоящая за мной женщина с голубыми губами, которая, конечно, никогда в жизни не слыхала моего имени, очнулась от свойственного нам всем оцепенения и спросила меня на ухо (там все говорили шепотом):

— А это вы можете описать?

И я сказала:

— Могу.

Тогда что-то вроде улыбки скользнуло по тому, что некогда было ее лицом.

1 апреля 1957 г., Ленинград

DEDICATÓRIA

De tanta mágoa, as montanhas se recolham
E as águas não mais fluam pelo rio.
Tudo estremece sob a dureza do ferrolho
E, atrás dele, os confinados no covil.
E, aos portões da prisão, dores de morte…
Para quem sopra o vento suave,
O pôr do sol a quem conforta,
Não sabemos; para nós o som das chaves
A ranger por entre abomináveis portas
E os ecos dos soldados com o seu bater de botas.
Cedo levantávamos, como para a missa,
Andávamos na capital hostil,
Nos encontrávamos, mortiças,
Ainda mal nascido o sol, adormecido o rio,
Mas o fio de uma esperança ainda em mente.
A sentença… Lágrimas jorram, de repente.
A vida, com as dores do calvário,
Extraída de nós todas do arrombado coração,
No chão de costas derrubada brutalmente…
Mas soergue, atordoada, e segue… solitária.
Por onde andarão as companheiras forçadas
Dos dois anos que passamos no inferno?
Que intempérie na Sibéria elas enfrentam,
Que sinais elas enxergam numa lua maculada?
Eu a elas me prosterno, neste adeus ajoelhada.

Março, 1940.

ПОСВЯЩЕНИЕ

Перед этим горем гнутся горы,
Не течет великая река,
Но крепки тюремные затворы,
А за ними «каторжные норы»
И смертельная тоска.
Для кого-то веет ветер свежий,
Для кого-то нежится закат —
Мы не знаем, мы повсюду те же,
Слышим лишь ключей постылый скрежет
Да шаги тяжелые солдат.
Подымались как к обедне ранней.
По столице одичалой шли,
Там встречались, мертвых бездыханней,
Солнце ниже и Нева туманней,
А надежда все поет вдали.
Приговор. И сразу слезы хлынут,
Ото всех уже отделена,
Словно с болью жизнь из сердца вынут,
Словно грубо навзничь опрокинут,
Но идет… шатается… одна…
Где теперь невольные подруги
Двух моих осатанелых лет?
Что им чудится в сибирской вьюге,
Что мерещится им в лунном круге?
Им я шлю прощальный мой привет.

Март 1940

INTRODUÇÃO

Isso aconteceu quando os cadáveres
Felizes, descansavam de bom grado.
Pendurada em seus cárceres, inútil balançava,
Como um peso morto, Leningrado.
E, no auge louco do tormento,
Como lacônicas canções de adeus,
Entre as filas destacadas dos detentos,
Camburões cantavam pneus.
Estrelas de morte à nossa volta
E a Rússia inocente em carne viva
Sob ensangüentadas botas
E o trote das locomotivas.

ВСТУПЛЕНИЕ

Это было, когда улыбался
Только мертвый, спокойствию рад.
И ненужным привеском болтался
Возле тюрем своих Ленинград.
И когда, обезумев от муки,
Шли уже осужденных полки,
И короткую песню разлуки
Паровозные пели гудки.
Звезды смерти стояли над нами,
И безвинная корчилась Русь
Под кровавыми сапогами
И под шинами черных марусь.

IV.

Se tivessem te mostrado, à zombeteira
Dos amigos preferida
E alegre pecadora da Tsárskoe Seló,
O que seria de tua vida…
Que, o gelo a derreter sob a goteira
Do teu choro de dar dó,
Sob a Cruzes, tricentésima da fila,
Ficarias, tendo em mãos o pacotinho.
No pátio do presídio, um trêmulo pinheiro,
Sem ruído. Quantos são os prisioneiros
Cujas vidas nesta hora lá definham…

IV.

Показать бы тебе, насмешнице
И любимице всех друзей,
Царскосельской веселой грешнице,
Что случилось с жизнью твоей.
Как трехсотая, с передачею,
Под Крестами будешь стоять
И своей слезою горячею
Новогодний лед прожигать.
Там тюремный тополь качается,
И ни звука. А сколько там
Неповинных жизней кончается…

V.

Faz dezessete meses que me arrasto,
Aos pés do teu carrasco me atiro
E grito, que tu voltes para casa, —
Tu, meu filho e meu martírio.
Tudo confundiu-se para sempre,
Não consigo mais fazer a distinção
De quem é bicho, quem é gente,
E quanto tempo até que venha a execução.
De pano a flor de não sei quando,
O som dos incensórios, os meus passos
De algum lugar à parte alguma
E, direto nos olhos me fitando,
De morte próxima me ameaça
Uma estrela de incomensurável lume.

V.

Семнадцать месяцев кричу,
Зову тебя домой.
Кидалась в ноги палачу —
Ты сын и ужас мой.
Все перепуталось навек,
И мне не разобрать
Теперь, кто зверь, кто человек,
И долго ль казни ждать.
И только пышные цветы,
И звон кадильный, и следы
Куда-то в никуда.
И прямо мне в глаза глядит
И скорой гибелью грозит
Огромная звезда.

VI.

As semanas passam voando.
O que aconteceu, não entendo.
As noites brancas te observam,
Ainda agora em hora matutina,
A ti, no cárcere, filhote.
Com olhos ávidos de ave de rapina
Sobre tua alta cruz elas conversam
E sobre a morte.

1939

VI.

Легкие летят недели,
Что случилось, не пойму.
Как тебе, сынок, в тюрьму
Ночи белые глядели,
Как они опять глядят
Ястребиным жарким оком,
О твоем кресте высоком
И о смерти говорят.

1939

VIII.

PARA A MORTE

Vens decerto, pouco importa — por que tardas?
Eu te aguardo — para mim tudo vai mal.
Deixei a porta entreaberta, a lâmpada apagada
Para ti, tão simples, tão original.
Assume para isso a forma que te agrada:
Com astúcia de ladrão, em casa adentra
Irrompendo como a seta envenenada,
Ou me sufoca com a tifo pestilenta.
Ou como a fábula, que a foste inventar
E que todos já se enojam de saber, —
Que eu veja a aba do boné da KGB
E do porteiro apavorado o pálido esgar.
A mim agora é indiferente. A Estrela Polar
Para mim pisca, o Ienissei Sibéria adentro
A escoar, e encoberto pelo derradeiro horror
O nele refletido olho azul do meu amor.

19 de agosto 1939, Casa Fontanka

VIII.

К СМЕРТИ

Ты все равно придешь — зачем же не теперь?
Я жду тебя — мне очень трудно.
Я потушила свет и отворила дверь
Тебе, такой простой и чудной.
Прими для этого какой угодно вид,
Ворвись отравленным снарядом
Иль с гирькой подкрадись, как опытный бандит,
Иль отрави тифозным чадом.
Иль сказочкой, придуманной тобой
И всем до тошноты знакомой, —
Чтоб я увидела верх шапки голубой
И бледного от страха управдома.
Мне все равно теперь. Клубится Енисей,
Звезда Полярная сияет.
И синий блеск возлюбленных очей
Последний ужас застилает.

19 августа 1939, Фонтанный Дом

IX.

A asa da loucura
Já a alma encobriu pela metade.
E bebe vinhos escarlates
Convidando-me a ir ao vale escuro.

Já compreendi que a ela devo
A vitória conceder.
Ouço o delírio nos meus nervos
Como a voz de um outro ser.

E coisa alguma ela permite
Que daqui leve comigo
(Por mais súplicas que eu grite
E com mais preces que a persiga)!

Nem do filho o seu terrível olho
Petrificado de dor,
Nem o dia em que me veio este terror,
Nem a hora que o encontrei sob ferrolhos,

Nem as mãos que apertei por entre grilhos,
Nem as sombras trêmulas das tílias,
Nem o fugitivo som, vôo de rola,
Da palavra de meu último consolo.

4 de março 1940, Casa Fontanka.

IX.

Уже безумие крылом
Души накрыло половину,
И поит огненным вином,
И манит в черную долину.

И поняла я, что ему
Должна я уступить победу,
Прислушиваясь к своему
Уже как бы чужому бреду.

И не позволит ничего
Оно мне унести с собою
(Как ни упрашивай его
И как ни докучай мольбою)!

Ни сына страшные глаза 
каменелое страданье,

Ни день, когда пришла гроза,
Ни час тюремного свиданья,

Ни милую прохладу рук,
Ни лип взволнованные тени,
Ни отдаленный легкий звук 
Слова последних утешений.

4 мая 1940, Фонтанный Дом

CRUCIFICAÇÃO

“Não chores por mim, Mãe,
No túmulo estou…”

1

O fogo, na abóbada celeste, se alastra.
O coro dos arcanjos glorifica o grande fim.
Ele diz ao Pai: “Por que me abandonaste?”
E à Mãe: “Oh, não chores por mim…”

2

Madalena, a soluçar, se debatia.
O discípulo amado ali ficou petrificado.
De erguer a vista ninguém teve a ousadia
Para a Mãe, que se segurou calada.

Х. РАСПЯТИЕ

«Не рыдай Мене, Мати,
во гробе зрящи».

1

Хор ангелов великий час восславил,
И небеса расплавились в огне.
Отцу сказал: «Почто Меня оставил?»
А Матери: «О, не рыдай Мене…»

2

Магдалина билась и рыдала,
Ученик любимый каменел,
А туда, где молча Мать стояла,
Так никто взглянуть и не посмел.

EPÍLOGO

I.

Agora sei como amortiza-se o aspecto da gente:
A este pêsame as bochechas se conformam,
Sob as pálpebras espia o sofrimento
Duras páginas de escrita cuneiforme.
Agora sei como os cabelos já se tornam,
De castanho ou negro, argênteos.
Como nos lábios submissos uma droga
De sorriso, trêmulo de medo, se escava.
Não só por mim eu rogo,
Mas por todas que comigo lá estavam —
Ao frio de gelo expostas e ao tórrido verão
Aos pés do cego e vermelho paredão.

ЭПИЛОГ

I.

Узнала я, как опадают лица,
Как из-под век выглядывает страх,
Как клинописи жесткие страницы
Страдание выводит на щеках,
Как локоны из пепельных и черных
Серебряными делаются вдруг,
Улыбка вянет на губах покорных,
И в сухоньком смешке дрожит испуг.
И я молюсь не о себе одной,
А обо всех, кто там стоял со мною,
И в лютый холод, и в июльский зной
Под красною, ослепшею стеною.

II.

O dia de finados aproxima-se outra vez.
Eu vejo, ouço, sinto a cada uma de vocês:

Esta uma, que levá-la para fora era difícil;
Esta outra, que não mais pisou a terra natalícia;

E aquela que disse, com a cabeça que balouça:
“Como em casa, hoje chego ao calabouço”.

Quem me dera ter seus nomes em meus lábios,
Mas a lista me tomam, e em lugar algum se sabe.

Com palavras que as ouvi chorarem pelos cantos
Para elas eu teci um grande manto.

Lembrarei delas para sempre em toda parte
Mesmo que à frente outro flagelo me aguarde,

E se taparem minha boca tão aflita
Pela qual o povo solta o milionésimo dos gritos,

Peço então por meu espírito rogarem
Quando à hora dos meus ritos funerários.

E caso um dia nesta pátria se intente
Em minha honra levantar um monumento,

Eu consinto que assim me agraciem,
Mas somente se me erguerem a honraria

Não lá onde nasci, beirando a praia:
Já basta que a memória desse tempo se esvaia,

Ou junto ao tronco predileto no jardim do tzar,
Cuja sombra ainda hoje está por mim a procurar,

E sim aqui, onde passei trezentas horas de suplício
Sem que as trancas para mim eles abrissem.

Pois minha alma atormentada ainda teme
Esquecer dos camburões as sirenes,

Ou da porta abominável o estalido
E a velha que urrava, como bicho malferido.

A pingar da imóvel pálpebra de bronze
Uma lágrima de gelo derretido me response,

Ao longe arrulhe o pombo do presídio
E os barcos passem no Nievá sem dar ouvidos.

Março 1940, Casa Fontanka.

II.

Опять поминальный приблизился час.
Я вижу, я слышу, я чувствую вас:

И ту, что едва до окна довели,
И ту, что родимой не топчет земли,

И ту, что красивой тряхнув головой,
Сказала: «Сюда прихожу, как домой».

Хотелось бы всех поименно назвать,
Да отняли список, и негде узнать.

Для них соткала я широкий покров
Из бедных, у них же подслушанных слов.

О них вспоминаю всегда и везде,
О них не забуду и в новой беде,

И если зажмут мой измученный рот,
Которым кричит стомильонный народ,

Пусть так же они поминают меня
В канун моего поминального дня.

А если когда-нибудь в этой стране
Воздвигнуть задумают памятник мне,

Согласье на это даю торжество,
Но только с условьем — не ставить его

Ни около моря, где я родилась:
Последняя с морем разорвана связь,

Ни в царском саду у заветного пня,
Где тень безутешная ищет меня,

А здесь, где стояла я триста часов
И где для меня не открыли засов.

Затем, что и в смерти блаженной боюсь
Забыть громыхание черных марусь,

Забыть, как постылая хлопала дверь
И выла старуха, как раненый зверь.

И пусть с неподвижных и бронзовых век,
Как слезы, струится подтаявший снег,

И голубь тюремный пусть гулит вдали,
И тихо идут по Неве корабли.

Март 1940, Фонтанный Дом

anna
PRIMEIRO PROJÉTIL DE LONGO ALCANCE EM LENINGRADO

O variado rebuliço das pessoas
De repente se alterou de natureza.
Este barulho já não soa
Citadino, nem tampouco ele é rural.
Da surpresa ribombante de um trovão
É, com certeza, irmão de sangue, seu igual.
Mas no trovão há a umidade
Que habita frescas nuvens
E que vem trazer aos prados
Boas novas de uma chuva.
Porém este nos trazia uma estação daninha
E não queria o ouvido tenso
Acreditar, porquanto vinha
Acabando com o suspense
E com crescente indiferença
Para sempre me ceifar o meu filhinho.

1941

ПЕРВЫЙ ДАЛЬНОБОЙНЫЙ В ЛЕНИНГРАДЕ

И в пестрой суете людской
Все изменилось вдруг.
Но это был не городской,
Да и не сельский звук.
На грома дальнего раскат
Он, правда, был похож, как брат,
Но в громе влажность есть
Высоких свежих облаков
И вожделение лугов —
Веселых ливней весть.
А этот был, как пекло, сух,
И не хотел смятенный слух
Поверить — по тому,
Как расширялся он и рос,
Как равнодушно гибель нес
Ребенку моему.

1941

* * *

Os desintegrados pássaros na linha anti-aérea?
Leningrado, se pudessem te salvar dessa miséria…

Quando não roncam os canhões em plena luta,
A cidade vive um pouco, toma fôlego, escuta:

Os seus filhos sobre a neve se debatem com
Gemidos como os frios ventos do Báltico.

Das profundezas os seus gritos: “Dai-me pão!”
Até o sétimo dos céus se elevarão,

Esse céu cético, sem dó de nossa sorte…
Eu, de todas as janelas, vendo a morte,

Sempre ela, a espreitar as portinholas
E alma apavorada na gaiola.

28 de setembro 1941, a bordo do avião.

* * *

Птицы смерти в зените стоят.
Кто идет выручать Ленинград?

Не шумите вокруг — он дышит,
Он живой еще, он все слышит:

Как на влажном балтийском дне
Сыновья его стонут во сне,

Как из недр его вопли: «Хлеба!»
До седьмого доходят неба…

Но безжалостна эта твердь.
И глядит из всех окон — смерть.

И стоит везде на часах
И уйти не пускает страх.

28 сентября 1941, самолет


PELA JANELA DO AVIÃO

1

Por milhas às centenas e por verstas,
Por quilômetros afora
Jaz o sal, e se agitam as florestas
Com as suas fauna e flora.
Como nunca à altura de estar nela,
Vejo a Pátria, pelo vão de uma janela:
Meu corpo, minha alma, penso:
Isso tudo a mim pertence.

2

Com pedrinhas demarquei aquele dia
Em que a vitória anunciei.
Enquanto, ao encontro da vitória, eu ia,
Adiantando-me ao sol, voei.

3

Quando pisei a pista de pouso,
Sob meus pés a relva pôs-se a farfalhar.
Minha casa, minha casa e meu repouso!
Como nova tu me és, e mesmo assim familiar.
A cabeça, ainda tonta, a rodar
E esse pesar no coração também é novo…
O estrondo do trovão parece ainda ressoar —
Mas a vitória é de Moscovo!

Maio 1944

С САМОЛЕТА

1

На сотни верст, на сотни миль,
На сотни километров
Лежала соль, шумел ковыль,
Чернели рощи кедров.
Как в первый раз я на нее,
На Родину, глядела.
Я знала: это все мое —
Душа моя и тело.

2

Белым камнем тот день отмечу,
Когда я о победе пела,
Когда я победе навстречу,
Обгоняя солнце, летела.

3

И весеннего аэродрома
Шелестит под ногой трава.
Дома, дома — ужели дома!
Как все ново и как знакомо,
И такая в сердце истома,
Сладко кружится голова…
В свежем грохоте майского грома —
Победительница Москва!

Май 1944

* * *

Cinco anos se passaram. Já curei minhas feridas —
Cicatrizes dessa guerra depravada.
Minha pátria,
…………………e outra vez nos russos prados
O silêncio de seu gelo remordido.

Vê o marinheiro em boa rota como ardem
Os faróis na escuridão marítima,
E este fogo que arde neles sem alarde
É como os olhos de um amigo íntimo.

Um pacífico trator, onde tanques disparavam.
Onde o incêndio crepitava, o jardim se regenera.
O automóvel fende o ar em disparada
Pela estrada outrora cheia de crateras.

Antes decepados, a agitar braços de gesso,
E agora, sobre o cepo, um novo álamo germina.
E lá, onde a separação cortou a alma, o menino
É embalado pela mãe no fofo berço.

Agora em boa têmpera estás livre,
Minha pátria!
………………….E para sempre os vivos
Na memória dos povos cicatrizem
Esses tempos de dor, pólvora e cinzas.

As novas gerações, tenham paz e vida longa.
As modernas e monumentais cidades,
Em homenagem às aldeias massacradas,
Marcarão o monumento a ferro e fogo.

Maio 1950

 * * *

Прошло пять лет, — и залечила раны,
Жестокой нанесенные войной,
Страна моя,
……………….и русские поляны
Опять полны студеной тишиной.

И маяки сквозь мрак приморской ночи,
Путь указуя моряку, горят.
На их огонь, как в дружеские очи,
Далеко с моря моряки глядят.

Где танк гремел — там ныне мирный трактор,
Где выл пожар — благоухает сад,
И по изрытому когда-то тракту
Автомобили легкие летят.

Где елей искалеченные руки
Взывали к мщенью — зеленеет ель,
И там, где сердце ныло от разлуки, —
Там мать поет, качая колыбель.

Ты стала вновь могучей и свободной,
Страна моя!
………………..Но живы навсегда
В сокровищнице памяти народной
Войной испепеленные года.

Для мирной жизни юных поколений,
От Каспия и до полярных льдов,
Как памятники выжженных селений,
Встают громады новых городов.

Май 1950

MÚSICA
D. D. Sh.*

Alguma coisa milagrosa ela desperta,
Uma visão do ultrapassado limiar.
Somente ela ainda ouço a me falar
Não existindo mais quem ouse chegar perto.

O último amigo em retirada se coloque
E no túmulo comigo ainda soa a sua prece,
Como em prantos trovoadas se pusessem
E as flores começassem seu colóquio.

* para D. D. Chostakovitch

1958

МУЗЫКА
Д. Д. Ш.*

В ней что-то чудотворное горит,
И на глазах ее края гранятся.
Она одна со мною говорит,
Когда другие подойти боятся.

Когда последний друг отвел глаза,
Она была со мной в моей могиле
И пела словно первая гроза
Иль будто все цветы заговорили.

* Д. Д. Шостаковичу

1958

* * *

Não me atormentes com um destino terrível
Nem com o enorme tédio setentrião.
Hoje passamos contigo o primeiro dia festivo
E essa festa recebe o nome — separação.
Não te importes, que não haja aqui aurora
E nem a lua sobre nós redunde,
Eu te presentearei agora
Com relíquias nunca vistas neste mundo:
O reflexo meu nas águas de um rio
Numa hora em que o sono não turve o fundo;
Um olhar tal, que à estrela cadente não ajude
A voltar até de onde ela caiu;
O eco de uma voz que purifica
No verão que a luz da tarde refrescou, —
Sem tremor possas ouvir os mexericos
De um corvo dos redores de Moscou;
Para que a umidade de outubro tenha gosto
Mais salubre que o bem-estar de maio…
Te lembra, anjo meu, deste meu rosto,
Te lembra, até que a primeira neve caia.

1959

* * *

Не стращай меня грозной судьбой
И великою северной скукой.
Нынче праздник наш первый с тобой,
И зовут этот праздник — разлукой.
Ничего, что не встретим зарю,
Что луна не блуждала над нами,
Я сегодня тебя одарю
Небывалыми в мире дарами:
Отраженьем моим на воде
В час, как речке вечерней не спится.
Взглядом тем, что падучей звезде
Не помог в небеса возвратиться,
Эхом голоса, что изнемог,
Л тогда был и свежий и летний,—
Чтоб ты слышать без трепета мог
Воронья подмосковного сплетни,
Чтобы сырость октябрьского дня
Стала слаще, чем майская нега…
Вспоминай же, мой ангел, меня,
Вспоминай хоть до первого снега.

1959

Anna Akhmatova - 11

 

 

 

 

NO MERCADO, de Ievgueni Ievtuchenko

yevgeny
NO MERCADO

Poema de Ievgueni Ievtuchenko,
Tradução por André Nogueira (2015).

Para qual trabalho, para qual batalha
entram as mulheres no mercado,
cobertas com véus e xales,
uma por uma, todas caladas.

Oh, o tilintar das caçarolas,
o barulho das garrafas e panelas!
A molho de salada e a cebola,
a pepino cheiram elas.

Tremo, demorando em ir ao caixa,
e ao passo em que espero
ao mercado todo encharca
o respirar dessas mulheres.

Heroínas de filhos e netos,
em silêncio, se enfileiram
e nas mãos elas apertam
o suado seu dinheiro.

Rússia, eis a honra ao mérito
que a vossas filhas deram.
A elas, que misturaram concreto,
e semearam, e ceifaram…
por tudo passaram essas mulheres
e a tudo suportaram.

Tudo no mundo lhes é possível, –
a elas pertence toda a força.
Enganá-las por um níquel
é mau e vergonhoso.

E eu as vejo, mudo e melancólico,
escolhendo alguma peça de segunda,
cansadas de segurar suas sacolas com
as mãos mais gloriosas deste mundo.

1956

trad. 8 de março de 2015.

 


В МАГАЗИНЕ

Кто в платке, а кто в платочке,
как на подвиг, как на труд,
в магазин поодиночке
молча женщины идут.

О бидонов их бряцанье,
звон бутылок и кастрюль!
Пахнет луком, огурцами,
пахнет соусом «Кабуль».

Зябну, долго в кассу стоя,
но покуда движусь к ней,
от дыханья женщин стольких
в магазине все теплей.

Они тихо поджидают —
боги добрые семьи,
и в руках они сжимают
деньги трудные свои.

Это женщины России.
Это наша честь и суд.
И бетон они месили,
и пахали, и косили…
Bсе они переносили,
все они перенесут.

Все на свете им посильно,—
столько силы им дано.
Их обсчитывать постыдно.
Их обвешивать грешно.

И, в карман пельмени сунув,
я смотрю, смущен и тих,
на усталые от сумок
руки праведные их.

1956

Liubliú / Amo, de Vladímir Maiakóvski

 

LIUBLIÚ *

(Amo)

Poema de Vladimir Maiakóvski,
Tradução, André Nogueira (2013) 

* “Todas as homenagens que o poeta rendeu a Lília (em poemas como ‘Lílitchka!’, ‘A Fláuta-Vértebra’, ‘O homem’, ‘Disto’) se resumem numa única palavra que ele transformou no que hoje chamaríamos de poema concreto. Maiakóvski fez gravar num anel, que deu a ela de presente, as letras ‘L’, ‘IU’ e ‘B’ – as iniciais do nome completo de sua amada: Lília IÚrieva Brik. Em disposição circular elas formam a palavra LIUBLIÚ (amo)”.

Geralmente é assim

O amor é dado
a todos que vêm ao mundo, –
mas entre encargos,
rendimentos
e tudo,
de um dia para o outro,
o coração se amortiza.
Vestimos no coração o corpo
e no corpo a camisa.
Mas ainda é pouco.
Alguém
– um idiota! –
fez mangas compridas
e até cobriu o peito
com o ferro de passar roupa!
Na velhice é que se nota:
por mais que a mulher se maquie
e o homem
no maquinário de Müller
se exercite,
já não tem volta:
o invólucro encheu-se de rugas.
A passadeira dos anos
repugna o amor
balizando botões de flor.

Quando menino

Eu fui feito sob medida para o amor.
É que as pessoas
são trituradas pelo trabalho
desde a infância.
Já eu –
fugia para as margens do Rioni
nem o diabo sabe por que atalho
e ficava na andança.
Mamãe se irritava:
«menino mal-criado!».
A cinta de papai zunia.
Mas eu
mais rápido prestidigitava
com três rublos falsos
jogando «montes de três»
com os fardados da infantaria.
E eis:
sem o peso das botas
nem o fardo das camisas,
me bronzeava à beira rio.
Virava para o sol as costas
e a barriga –
de estômago vazio.
O sol se maravilhava:
«Onde já se viu?
Pudera, com um coração desse tamanho!
Quase que desaba.
Incrível que caiba
em tão pequena criatura
eu,
o cinturão do rio
e mais três verstas de montanhas!»

Juventude

A juventude põe a mão na massa
dos dicionários
para estudar a gramática dos burros
exibicionistas.

Já eu, expulso do 5º ano do ginásio
fui jogar atrás dos muros
das prisões moscovitas.
No mundinho
de vossos apartamentos
brotam,
no chão de seus cubículos,
montículos de lírica.
O que nela tricotas?
Ao mesmo tempo
que a mim estudam
como melhor amar
nos calabouços da Butirka!
Que saudades terei eu
dos bosques de Bolonha?
Que cultos prestarei
à imensidão marinha?
Eis que meu coração, enamorado, sonha
no «escritório de processos sepultos»
da 103ª cela
pelo vão da janelinha.
Muitos olham o sol diário
e desdenham:
«Estes raiozinhos, de que valem?»
Enquanto eu daria o mundo
para que uma desta lebre amarela
que no muro se desenha
me resvale.

Minha universidade

Vocês sabem francês.
Dividem,
multiplicam,
declinam perfeitamente.
Pois declinem!
Me digam: vocês
com os edifícios
sabem cantar?
A língua dos trens vocês compreendem?
Os discípulos
as mãos estendem
somente aos livros
e cadernos de tabuada.
Eu
aprendi o alfabeto nas placas
folheando páginas de ferro e alumínio.
Os mestres
nas mãos apertam
a terra
arrancando-lhe cascas,
gomos;
mas toda ela não passa
de um globo
em escala.
Eu
de bruços aprendi geografia –
e não foi por acaso: dormia
no chão
deitando-me nas tábuas
do mais regular declínio.
A Ilovaiski tortura uma questão:
– Seria mesmo ruiva a barba do Barba-ruiva? –
Não me importa essa burrice de holofotes.
Qualquer história das ruas
para mim é mais digna de nota.
Estudam Boaventuras,
para odiar os desventurados,
e patíbulo é de nomes consagrados
o prestigioso pódio.
Eu
aos gordos
desde a infância aprendi a sentir ódio.
Eu era pobre
e me vendia pelo almoço.
Depois retinirão ideiazinhas
como tostões de cobre
para levar também as moças.
Eu somente com os edifícios me entretinha
e só me respondiam os encanamentos.
À espera do que eu lhes lançasse à orelha
as calhas se esticavam dos telhados.
Depois, uns contra os outros
e todos contra as estrelas,
em línguas que eu lhes tenha alumiado,
estalavam cata-ventos.

Quando adulto

Adultos têm negócios a tratar.
E dinheiro no bolso.
Amar?
Pode ser arranjado
por cem rublos.
Enquanto eu meto
as mãos nos bolsos furados
e, sem-teto, perambulo.
Noite. É hora
de vestir o melhor terno.
E descansar a alma
nos braços
das esposas ou viúvas.
Enquanto a mim
em abraços de rotatória
Moscou me estrangula
em suas inúmeras praças!
Nos corações e reloginhos
das gurias acelera o tique-taque
e no leito a comoção de seus amantes.
Das capitais
a selvagem taquicardia amei eu
deitado num coreto apaixonante!
Coloco o coração para fora
e me abro
para o sol e as poças d’ água.
Penetrai-me como os apaixonados!
Ensopai-me como os transbordos de amor!
A partir de agora
não mais serei, do coração, governador.
Lá dentro do peito
na casinha do cuco
dos outros eu sei o coração onde se acha.
Mas comigo
a anatomia ficou maluca –
sou totalmente um só coração
apitando de cima a baixo!
Oh, a quantos deles,
nessas vinte primaveras,
consumiram brasas quentes?
Ao porte deste fardo
não se pode abdicar,
ainda que ele seja insuportável.
Insuportável não assim,
como num verso,
e sim
literalmente.

No que deu

Mais que a rigor
mais que a rodo –
como um sonhador de poesia
que ainda dorme
perdido a quadras do bom-senso –
no coração um caroço
foi crescendo, até ficar enorme –
um enorme amor,
um enorme ódio.
Sob o peso, eu cedo
e as pernas se desviam
para uma duvidosa direção.
Tu sabes, sou vigoroso;
mesmo assim, me apóio
– eu, um apêndice do coração! –
em tensas vigas do esqueleto.
Encho-me com leite de versos
– e não derramo
(não tem saída conveniente) –
e por isso continuo inflando.
Estou enfartado de lírica –
esta ama do universo
que amamenta hiperbolicamente
e que criou
todos os personagens de Maupassant.

Clamo

Levanto, custe o que for.
Agarro, igual um acrobata.
Como a sirene na aldeia
repercute
enquanto o incêndio a consome;
como em tempos de eleições
trombeteiam os comícios;
desse jeito é que arrebata-me o clamor:
«Ei-lo! Ei-lo!
Tomem-no!»
As damas, sem olhar
o misto de sujeira e neve,
tão logo assim vim apitando,
zarparam como um míssil:
«Para nós algo mais leve!
Para nós, passos de tango…»
Difícil arcar com esta barra
e arco com ela.
Longe gostaria de lançá-la
mas não:
as barricadas não contêm
o carrilhão das costelas;
a jaula do peito estala
com tamanha percussão.

Tu

Chegaste perto
do tamanhão
do rugido
e certeiramente
ao mirar
tu simplesmente viste a um menino.
Pegaste do peito aberto
o coração
removido
e simplesmente
foste jogar
como uma menina à sua bola.
Avassaladora, como fosses dum domínio
miraculoso,
tu deixaste estarrecidas
senhoritas e senhoras:
«Como ousa amar aquilo?
Vai devorá-la!
É, decerto, domadora,
sim, decerto, de animais!»
Eu rejubilo:
aquela vida de vassalo – nunca mais!
De alegria, ao despedir o coração
saltei pela argola
nem sequer apercebendo.
Tão leve me sentia, galopava
como um índio
liberado de um grilhão
por um anel de casamento.

Impossível

Sozinho não posso
carregar um fortepiano
(menos ainda
um caixa-forte).
E, se um caixa-forte não posso
nem um fortepiano,
de que jeito poderia
carregar meu coração, se o retomasse?
Os banqueiros já resolvem o impasse:

«Se não há bolso que suporte,
os muito ricos
guardam num cofre».
Em ti o amor
– como uma riqueza blindada pelo ferro –
eu encerro
e sigo os meus passos, como o rei mais rico.
Se preciso for
retiro um sorriso,
meio sorriso
ou menos que isso
e, destilando com os outros
numa meia-noite de farra
corrosivo, escarro
quinze rublos de troco lírico.

E assim me aconteceu:

Os navios para o porto navegam.
Os trens para as estações trafegam.
Assim, tão mais depressa
– afinal, eu amo! –
para ti, minha desembocadura, sou entregue.
O cavaleiro avaro de Púchkin,
adorando seu ouro no porão,
cava e enterra.
Assim eu
para ti, amor, regresso.
Meu coração aí está
e minha adoração é essa.
Ao regressar à casa
já estamos mais contentes –
nos lavamos, fazemos a barba.
Assim eu
para ti regresso –
acaso, para ti indo
não estou voltando para casa?
São, as criaturas terrestres,
de volta recolhidas para a terra;
cada qual termina lá
onde tudo começa.
Assim eu
por ti
sou tragado continuamente –
mal nos separamos
é em ti que se acaba.

Conclusão

O amor não me lavarão
nem lonjuras
nem desentendimentos.
Em auto-evidente
testemunho e testamento
levanto, solene, este verso
escrito nas linhas da mão
e juro –
amo,
inadulterável e fidelmente.

Novembro de 1921 – fevereiro de 1922.

……………………~//~ 

Люблю

Обыкновенно так

Любовь любому рожденному дадена,—
но между служб,
доходов
и прочего
со дня на день
очерствевает сердечная почва.
На сердце тело надето,
на тело — рубаха.
Но и этого мало!
Один —
идиот!—
манжеты наделал
и груди стал заливать крахмалом.
Под старость спохватятся.
Женщина мажется.
Мужчина по Мюллеру мельницей машется.
Но поздно.
Морщинами множится кожица.
Любовь поцветет,
поцветет —
и скукожится.

Мальчишкой

Я в меру любовью был одаренный.
Но с детства
людьё
трудами муштровано.
А я —
убег на берег Риона
и шлялся,
ни чёрта не делая ровно.
Сердилась мама:
«Мальчишка паршивый!»
Грозился папаша поясом выстегать.
А я,
разживясь трехрублевкой фальшивой,
играл с солдатьём под забором в «три листика».
Без груза рубах,
без башмачного груза
жарился в кутаисском зное.
Вворачивал солнцу то спину,
то пузо —
пока под ложечкой не заноет.
Дивилось солнце:
«Чуть виден весь-то!
А тоже —
с сердечком.
Старается малым!
Откуда
в этом
в аршине
место —
и мне,
и реке,
и стовёрстым скалам?!»

Юношей

Юношеству занятий масса.
Грамматикам учим дурней и дур мы.
Меня ж
из 5-го вышибли класса.
Пошли швырять в московские тюрьмы.
В вашем
квартирном
маленьком мирике
для спален растут кучерявые лирики.
Что выищешь в этих болоночьих лириках?!
Меня вот
любить
учили
в Бутырках.
Что мне тоска о Булонском лесе?!
Что мне вздох от видов на море?!
Я вот
в «Бюро похоронных процессий»
влюбился
в глазок 103 камеры.
Глядят ежедневное солнце,
зазнаются.
«Чего, мол, стоют лучёнышки эти?»
А я
за стенного
за желтого зайца
отдал тогда бы — всё на свете.

Мой университет

Французский знаете.
Делите.
Множите.
Склоняете чудно.
Ну и склоняйте!
Скажите —
а с домом спеться
можете?
Язык трамвайский вы понимаете?
Птенец человечий
чуть только вывелся —
за книжки рукой,
за тетрадные дести.
А я обучался азбуке с вывесок,
листая страницы железа и жести.
Землю возьмут,
обкорнав,
ободрав ее,—
учат.
И вся она — с крохотный глобус.
А я
боками учил географию,—
недаром же
наземь
ночёвкой хлопаюсь!
Мутят Иловайских больные вопросы:
— Была ль рыжа борода Барбароссы?—
Пускай!
Не копаюсь в пропыленном вздоре я —
любая в Москве мне известна история!
Берут Добролюбова (чтоб зло ненавидеть),—
фамилья ж против,
скулит родовая.
Я
жирных
с детства привык ненавидеть,
всегда себя
за обед продавая.
Научатся,
сядут —
чтоб нравиться даме,
мыслишки звякают лбёнками медненькими.
А я
говорил
с одними домами.
Одни водокачки мне собеседниками.
Окном слуховым внимательно слушая,
ловили крыши — что брошу в уши я.
А после
о ночи
и друг о друге
трещали,
язык ворочая — флюгер.

Взрослое

У взрослых дела.
В рублях карманы.
Любить?
Пожалуйста!
Рубликов за сто.
А я,
бездомный,
ручищa
в рваный
в карман засунул
и шлялся, глазастый.
Ночь.
Надеваете лучшее платье.
Душой отдыхаете на женах, на вдовах.
Меня
Москва душила в объятьях
кольцом своих бесконечных Садовых.
В сердца,
в часишки
любовницы тикают.
В восторге партнеры любовного ложа.
Столиц сердцебиение дикое
ловил я,
Страстною площадью лёжа.
Враспашку —
сердце почти что снаружи —
себя открываю и солнцу и луже.
Входите страстями!
Любовями влазьте!
Отныне я сердцем править не властен.
У прочих знаю сердца дом я.
Оно в груди — любому известно!
На мне ж
с ума сошла анатомия.
Сплошное сердце —
гудит повсеместно.
О, сколько их,
одних только вёсен,
за 20 лет в распалённого ввалено!
Их груз нерастраченный — просто несносен.
Несносен не так,
для стиха,
а буквально.

Что вышло

Больше чем можно,
больше чем надо —
будто
поэтовым бредом во сне навис —
комок сердечный разросся громадой:
громада любовь,
громада ненависть.
Под ношей
ноги
шагали шатко —
ты знаешь,
я же
ладно слажен,—
и всё же
тащусь сердечным придатком,
плеч подгибая косую сажень.
Взбухаю стихов молоком
— и не вылиться —
некуда, кажется — полнится заново.
Я вытомлен лирикой —
мира кормилица,
гипербола
праобраза Мопассанова.

Зову

Поднял силачом,
понес акробатом.
Как избирателей сзывают на митинг,
как сёла
в пожар
созывают набатом —
я звал:
«А вот оно!
Вот!
Возьмите!»
Когда
такая махина ахала —
не глядя,
пылью,
грязью,
сугробом,—
дамьё
от меня
ракетой шарахалось:
«Нам чтобы поменьше,
нам вроде танго бы…»
Нести не могу —
и несу мою ношу.
Хочу ее бросить —
и знаю,
не брошу!
Распора не сдержат рёбровы дуги.
Грудная клетка трещала с натуги.

Ты

Пришла —
деловито,
за рыком,
за ростом,
взглянув,
разглядела просто мальчика.
Взяла,
отобрала сердце
и просто
пошла играть —
как девочка мячиком.
И каждая —
чудо будто видится —
где дама вкопалась,
а где девица.
«Такого любить?
Да этакий ринется!
Должно, укротительница.
Должно, из зверинца!»
А я ликую.
Нет его —
ига!
От радости себя не помня,
скакал,
индейцем свадебным прыгал,
так было весело,
было легко мне.

Невозможно

Один не смогу —
не снесу рояля
(тем более —
несгораемый шкаф).
А если не шкаф,
не рояль,
то я ли
сердце снес бы, обратно взяв.
Банкиры знают:
«Богаты без края мы.
Карманов не хватит —
кладем в несгораемый».
Любовь
в тебя —
богатством в железо —
запрятал,
хожу
и радуюсь Крезом.
И разве,
если захочется очень,
улыбку возьму,
пол-улыбки
и мельче,
с другими кутя,
протрачу в полночи
рублей пятнадцать лирической мелочи.

Так и со мной

Флоты — и то стекаются в гавани.
Поезд — и то к вокзалу гонит.
Ну а меня к тебе и подавней —
я же люблю!—
тянет и клонит.
Скупой спускается пушкинский рыцарь
подвалом своим любоваться и рыться.
Так я
к тебе возвращаюсь, любимая.
Мое это сердце,
любуюсь моим я.
Домой возвращаетесь радостно.
Грязь вы
с себя соскребаете, бреясь и моясь.
Так я
к тебе возвращаюсь,—
разве,
к тебе идя,
не иду домой я?!
Земных принимает земное лоно.
К конечной мы возвращаемся цели.
Так я
к тебе
тянусь неуклонно,
еле расстались,
развиделись еле.

Вывод

Не смоют любовь
ни ссоры,
ни вёрсты.
Продумана,
выверена,
проверена.
Подъемля торжественно стих строкопёрстый,
клянусь —
люблю
неизменно и верно!

Ноябрь 1921 — февраль 1922


ABRI AS VEIAS, de Marina Tsvetáieva

 

tsvetaeva bilhete *

ABRI AS VEIAS

Poema de Marina Tsvetáieva
Tradução por André Nogueira (2012/ revisado em 2017)

* * *

Abri as veias: irreparável,
Irreversível, a vida borbota.
Tragam pratos e vasos!
Todo prato – será raso,
Todo vaso – será magro.

Sem parar, a terra traga
E, irrigado pelas bordas,
Irrevogável, irreparável,
Irreversível, o verso brota.

6 de janeiro 1934

* Imagem: Um dos últimos registros escritos por Marina Tsvetáieva, antes de sua morte em 31 de agosto de 1941. Citamos, comentado por Tsvetán Todorov e traduzido por Aurora F. Bernardini em “Vivendo sob o Fogo” (Martins Fontes, 2008, pág. 744):

«Em Tchistopol ela [Tsvetáieva] não recebe uma resposta clara para seus pedidos de emprego. Ao ficar sabendo que o Litfond [órgão da União dos Escritores Soviéticos] abriria uma cantina, resolve se candidatar e escreve este pedido, um dos documentos mais deprimentes da história da literatura russa:

“Ao Soviete do Litfond:

Peço dar-me um emprego como lavadora de pratos na cantina a ser aberta pelo Litfond.

M. Tsvetáieva
26 de agosto de 1941.”

A direção do Litfond hesita em empregar a antiga emigrada, casada com um inimigo do povo; sem esperar pela resposta definitiva, Marina Tsvetáieva toma o barco de volta a Elábuga, aonde ela chega em 28 de agosto. Recebe outra convocação da NKVD. Parece ser nesse momento em que ela decide pôr um fim a seus dias».

* * *

Вскрыла жилы: неостановимо,
Невосстановимо хлещет жизнь.
Подставляйте миски и тарелки!
Всякая тарелка будет – мелкой,
Миска – плоской.

Через край – и мимо
B землю черную, питать тростник.
Невозвратно, неостановимо,
Невосстановимо хлещет стих.

6 января 1934

 

Poema de Marina Tsvetáieva

marina

Poema de Marina Tsvetáieva
Tradução por André Nogueira (2009/ revisado em 2017)

* * *

Para meus versos, que tão cedo os fiz,
Sequer sabendo que era eu – uma poeta,
Borbotantes, como jorros de um chafariz,
Como fagulhas de escopeta,

Imprevistos, como pequenos diabretes
Num altar, sob o incenso inebriante,
Que por morte e mocidade eles se vertem,
– Versos nunca vistos antes! –

Esquecidos sob o pó de umas estantes
(Onde ninguém já os pegou ou pegará!),
Para meus versos, como para vinhos depurantes,
A hora deles chegará.

Maio 1913, Koktebel.

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* * *

Моим стихам, написанным так рано,
Что и не знала я, что я – поэт,
Сорвавшимся, как брызги из фонтана,
Как искры из ракет,

Ворвавшимся, как маленькие черти,
В святилище, где сон и фимиам,
Моим стихам о юности и смерти,
– Нечитанным стихам! –

Разбросанным в пыли по магазинам
(Где их никто не брал и не берет!),
Моим стихам, как драгоценным винам,
Настанет свой черед.

Май 1913, Коктебель

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