horizon (tradução para o francês) – por Victor Blanc

[poema de Marília Moschkovich]

pour faire un livre il n’est besoin
que de bons poèmes d’un tiroir et quelques
années d’un poing qui laboure l’écorce
de mon ventre et l’autre élancé dans les airs

il m’a fallu trente ans quatre cahiers
pour écrire un vers être poète à pleine voix
savoir qu’il y a des poèmes
sans force ni sans forme
et que nous écrivons tous des romances clandestines

qui peut être poète sinon moi
armée de roses de crépuscules d’abîmes
de profondeurs d’oiseaux de douleurs et d’ordures
de pierres
de boissons amères
et d’orgasmes anaux ?

je suis poète
et porte avec moi une conque à souffler une conque à lécher
quand le goût de la mer quand l’odeur des îles
Me manquent

je suis poète-
léviathan que j’embrasse aux marges grises de la terre
À ce point précis où le haut devient le bas
et les cités au loin constellations navires empilés
vagues de schiste

je suis poète :
viser l’horizon
et courir contre


horizonte

[poema de Marília Moschkovich]

o que é preciso num livro senão
bons poemas? e uma gaveta e um punhado
de anos, e um punho fechado na casca
do estômago, o outro erguido no ar?

custei trinta anos e quatro cadernos
para escrever um verso e dizer poeta em voz alta
e saber que há poemas sem força,
e saber que há poemas sem fome,
e que todos escrevemos clandestinos poemas de amor

quem é o poeta senão eu,
armada de rosas e crepúsculos e abismos
de profundos e pássaros e dores e lixo
e pedras,
bebidas amargas,
orgasmos anais?

eu sou o poeta
e carrego comigo uma concha que se pode soprar ou lamber
quando aperta a saudade do gosto de mar
quando aperta a saudade do cheiro da ilha

eu sou o poeta-
leviatã que abraço nas bordas cinzas da terra
até que olhar para trás seja como olhar pra cima
e as cidades longe como constelações, navios empilhados
camadas de ondas

eu sou o poeta:
mirar o horizonte
e correr contra

talvez não seja sempre assim; e digo, de e. e. cummings

tradução de stella paterniani

talvez não seja sempre assim; e digo
se teus lábios que tanto amei tocarem
os de outro, corações se entrelaçarem
como os nossos num tempo não antigo
se noutro rosto teu cabelo jaz
num silêncio outrora meu e tão sóbrio
ou no desamparado palavrório
em malabares no drink no cais;

se assim, repito, sabe, se assim for
minha amada, tem comigo uma prosa
pra que eu vá até ele tome partido
diga Felicidades, todo o amor
e vire o rosto e ouça uma felosa
cantar distante no reino perdido

*

it may not always be so; and i say
that if your lips,which i have loved,should touch
another’s,and your dear strong fingers clutch
his heart,as mine in time not far away;
if on another’s face your sweet hair lay
in such silence as i know,or such
great writhing words as,uttering overmuch,
stand helplessly before the spirit at bay;

if this should be,i say if this should be—
you of my heart,send me a little word;
that i may go unto him,and take his hands,
saying,Accept all happiness from me.
Then shall i turn my face,and hear one bird
sing terribly afar in the lost lands

 

Fantasia vespertina, de Friedrich Hölderlin

Friedrich Hölderlin
Abendphantasie

Vor seiner Hütte ruhig im Schatten sizt
Der Pflüger, dem Genügsamen raucht sein Herd.
Gastfreundlich tönt dem Wanderer im
Friedlichen Dorfe die Abendglocke.

Wohl kehren izt die Schiffer zum Hafen auch,
In fernen Städten, fröhlich verrauscht des Markts
Geschäft’ger Lärm; in stiller Laube
Glänzt das gesellige Mahl den Freunden.

Wohin denn ich? Es leben die Sterblichen
Von Lohn und Arbeit; wechselnd in Müh’ und Ruh’
Ist alles freudig; warum schläft denn
Nimmer nur mir in der Brust der Stachel?

Am Abendhimmel blühet ein Frühling auf;
Unzählig blühen die Rosen und ruhig scheint
Die goldne Welt; o dorthin nimmt mich,
Purpurne Wolken! und möge droben

In Licht und Luft zerrinnen mir Lieb’ und Leid! –
Doch, wie verscheucht von thöriger Bitte, flieht
Der Zauber; dunkel wirds und einsam
Unter dem Himmel, wie immer, bin ich –

Komm du nun, sanfter Schlummer! zu viel begehrt
Das Herz; doch endlich, Jugend! verglühst du ja,
Du ruhelose, träumerische!
Friedlich und heiter ist dann das Alter.

Fantasia Noturna
Tradução de Tomaz Amorim Izabel

Senta-se calmo diante de sua cabana
o lavrador, seu fogão fuma com modéstia.
Toca hospitaleiro para o andarilho
o sino vespertino na pacífica aldeia.

Bem voltam agora também os navegantes para os portos,
em cidades distantes se acalma contente o ruído
das lojas do mercado, no calmo caramanchão
brilha a refeição comunal dos amigos.

Para onde, então, eu? Pois vivem os mortais
de trabalho e salário, alternando entre esforço e descanso,
tudo é alegre. Por que então só em mim
nunca dorme este aguilhão no peito?

No céu vespertino floresce uma Primavera.
Incontáveis florescem as rosas e calmo aparece
o mundo dourado. Oh, levem-me para lá,
nuvens púrpuras! E lá em cima pudera

em luz e ar a mim derreter o amor e a dor!
Mas como se afugentado pelos pedidos tolos, foge
o encanto. Escurece e solitário,
sob o céu, como sempre, estou eu.

Venha então agora, sono suave! Demais exige
o coração. Mas, finalmente, juventude! Você se queima inteira, sim,
você, inquieta sonhadora!
Pacífica e serena é então a velhice.

Os Bêbados e os Sonâmbulos, de Bernardo Carvalho

Não sei como surgiu aquela história de língua. Ele colocou a língua para fora. Estava toda manchada, como se tivesse sido desenhada, como o próprio corpo. “Está vendo esses desenhos?”, ele perguntou. Abri os olhos. “Também pensei que fossem uma doença quando os percebi pela primeira vez”, disse. “Fui ao médico. Ele chamou a enfermeira: ‘Venha ver um caso de língua geográfica’, disse. São casos raríssimos, de línguas desenhadas. Nasci assim, mas não sabia. Foi o Andy [estava falando do Warhol] que me falou pela primeira vez da minha língua. Queria muito fazer um filme sobre ela. Minha língua lambendo tinta e pintando uma tela por seis horas ininterruptas. Tive um choque quando descobri que tinha língua geográfica. Você vê?”, disse, colocando de novo a língua para fora, “são como países, continentes.” Depois, também sem quê nem por quê, voltou a falar do pintor brasileiro, de como, durante um ano, arquitetou seu plano para tirar a tela que retratava a mulher morta do depósito do Metropolitan, o museu?… E, no final, quando a manhã já vinha nascendo, virou-se para mim, com a cabeça recostada no travesseiro e as duas mãos na nuca, e arrematou: “Que língua eu tenho!”.

Os Bêbados e os Sonâmbulos. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, página 80

[into English]

I don’t know how that tongue talk came out. He showed his tongue out. It was all marked, as if it had been scrawled, like his own body. “Do you see these scrawls?” he asked me. I opened my eyes. “I also thought they were a disease when I noticed them for the first time”, he said. “I went to the doctor’s. He called the nurse. ‘Come here to see a case of geographic tongue’, he told her. Those are really rare cases of scrawled tongues. I was born this way, but I didn’t know about that. It was Andy [he was mentioning Wahlrol] who told me for the first time about my tongue. He truly wanted to make a movie about it. My tongue licking ink and painting on a canvas for six ongoing hours. I was shocked when I discovered I had a geographic tongue. Can you see it?”, he said, bringing his tongue out again, “they’re like countries, continents.” Afterwards, once more without a reason, he continued to tell me of the Brazilian painter, of how he had designed, during a whole year, his plan to get the canvas that depicted the dead woman out of the Metropolitan, the museum?… And, in the end, when the morning was already rising, he turned to me, his head lain on the pillow with both hands supporting his neck, and concluded: “What a tongue of mine!”

Valentões sem rumo, de Garry Johnson

Faixa 5 do Álbum “Strengh Thru Oi!” (1981)

 

Dead end yobs, by Garry Johnson

Deadend yobs got boxing football or rock`n`roll

If they`re any good at to save `em from the dole

But even if ya make it certain people will say

You`re still no good and you`ll be no other way

Cos you dont talk proper your accent aint true blue

You was born in a house in Hackney with a outside loo

 

Deadend yobs kids like me and you

Deadend yobs just do what you wanna do

 

We could be gangsters we could rob a bank
We could join the army we could to drive a tank

No hope, no luck, no future when you`re down and out

When your at the bottom nobody hears you shout

And authority keeps knocking you on the heads

From the day you`re born to the day your dead

 

School report read “your no good you`re a deadend yob”

Might just make it in a deadend job

So you break all the rules in and out of school

Getting into trouble nothing else to do

And when they nick us they don’t bleed love

Fuck the system gotta rise above it

 

Deadend yobs kids like me and you
We all know this story is true

 

Valentões sem rumo, tradução por Luis Carlos

Valentões sem rumo têm futebol, boxe ou o rock’n’roll

Se eles forem bom em algum desses, eles ficarão a salvo da Previdência Social.

Mas mesmo se você conseguir, algumas pessoas dirão:

“Você ainda não presta e não tem como escapar.

Você não fala corretamente e seu sotaque é estranho

Você nasceu em uma casa em Hackney*, onde o banheiro fica do lado de fora.

 

Valentões sem rumo: caras como você e eu.

Valentões sem rumo, apenas faça o que você quiser fazer.

 

Poderíamos ser gângsters, poderíamos roubar um banco

Poderíamos entrar no exército, poderíamos dirigir um tanque.

Não há esperança nem futuro quando se está deprimido.

Quando você está no fundo do poço, ninguém te ouve gritar.

E as autoridades batem na sua cabeça

Desde o dia que você nasce até o dia que você morre.

 

A escola disse “você não presta, você não tem futuro

Vai acabar em um emprego sem futuro”

Então quebre todas as regras dentro e fora da escola

Envolva-se em alguma confusão quando não tiver algo para fazer.

E quando eles nos partem ao meio, eles não têm piedade.

Foda-se o sistema, temos que passar por cima disso.

 

Valentões sem rumo: caras como você e eu.

Valentões sem rumo, todos sabemos que essa história é verdadeira.

 

*Hackney é um bairro de Londres conhecido pela pobreza e a alta taxa de criminalidade.

Kant (relido), de Orides Fontela

Kant (relido) Orides Fontela

Duas coisas admiro: a dura lei
cobrindo-me
e o estrelado céu
dentro de mim.

Kant (revisited)Tradução por Mariana Ruggieri

Two things I admire: the tough law
that covers me
and the starlit sky
within.

Poema de Sete Faces, de Carlos Drummond de Andrade (para o Alemão)

Carlos Drummond de Andrade
Poema de sete faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do -bigode,

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

De Alguma poesia (1930)

Tomaz Amorim Izabel & Svenja Wesch
Gedicht der sieben Gesichter

Als ich geboren bin, hat ein krummer Engel
von denen, die im Schatten leben
gesagt: Geh, Carlos! Sei gauche im Leben.

Die Häuser belauern die Männer
die den Frauen hinterher laufen.
Der Nachmittag wäre vielleicht blau,
gäbe es nicht so viele Wünsche.

Die Straßenbahn voller Beine fährt vorbei:
weiße schwarze gelbe Beine.
Wieso so viele Beine, mein Gott, fragt mein Herz.
Aber meine Augen
fragen gar nichts.

Der Mann hinter dem Schnurrbart
ist ernst, einfach und stark.
Spricht wenig.
Wenige, seltene Freunde hat
der Mann hinter Brille und Schnurrbart.

Mein Gott, warum hast du mich verlassen
wissend, dass ich nicht Gott war
wissend, dass ich schwach war.

Welt Welt weite Welt,
wäre mein Name Roosewelt
wäre es ein Reim, keine Lösung.
Welt Welt weite Welt,
noch weiter ist mein Herz.

Ich sollte es dir nicht sagen
aber dieser Mond
aber dieser Kognak
macht die Leute verdammt gefühlsduselig.

Agradecimentos: Bruno Mendes e Professora Norma Wucherpfennig.