a poesia terminou comigo, de Nicanor Parra

La Poesía Terminó Conmigo

Yo no digo que ponga fin a nada
no me hago ilusiones al respecto
yo quería seguir poetizando
pero se terminó la inspiración.
La poesía se ha portado bien
yo me he portado horriblemente mal.

Qué gano con decir
yo me he portado bien
la poesía se ha portado mal
cuando saben que yo soy el culpable.

¡Está bien que me pase por imbécil!

La poesía se ha portado bien
yo me he portado horriblemente mal
la poesía terminó conmigo.

 

*

 

A poesia terminou comigo

 

Não digo que pus fim em nada

não trago ilusões a respeito

eu queria seguir poetizando

mas a inspiração acabou.

A poesia se comportou bem

eu que me comportei horrivelmente mal.

 

Ganho o quê em dizer

que me comportei bem

e a poesia se comportou mal

quando todos já sabem que sou culpado.

 

Tudo bem que eu me passe por idiota!

 

A poesia se comportou bem

eu que me comportei horrivelmente mal

a poesia terminou comigo.

A batalha campal, de Nicanor Parra

LA BATALLA CAMPAL

la cosa comienza con un
DESFILE NOCTURNO DE ENERGÚMENOS
por el centro de la ciudad:

¡muerte sí!
¡funerales nó!

¡muerte sí!
¡funerales nó!

¡muerte sí!
¡funerales nó!

LOS ROBBOTS OBSERVAN EL DESFILE DESDE SUS
CARROS DE COMBATE

y continúa al día siguiente
A LA HORA DE MAYOR TRÁFICO
-entre 1 y 2 de la tarde-
BAJO UN SOL ABRASADOR
con una
MANIFESTACIÓN PACÍFICA DE ENERGÚMENOS
envueltos en sábanas -con antorchas y cucuruchos
FRENTE A UNA TIENDA DE POMPAS FÚNEBRES

En teoría no molestan a nadie
y de hecho no hacen otra cosa
que cantar y bailar en tiempo de cumbia
DOS FRASES QUE REPITEN HASTA EL INFINITO

¡muerte sí!
¡funerales nó!

¡muerte sí!
¡funerales nó!

¡muerte sí!
¡funerales nó!

PERO LOS ROBBOTS OBSERVAN ATENTAMENTE
LOS ACONTECIMIENTOS DESDE SUS CARROS DE COMBATE

al tercer día

LOS ENERGÚMENOS
SE DIRIGEN TRANQUILAMENTE A SUS CASAS

después de varias horas de baile desenfrenado
FRENTE A LA MONEDA
cuando aparecen en escena los robbots
y comienza la batalla campal
Y COMIENZA LA BATALLA CAMPAL
¡ Y C O M I E N Z A L A B A T A L L A C A M P A L !

A batalha campal

a coisa toda começa com um

DESFILE NOTURNO DE ENERGÚMENOS

pelo centro da cidade:

morte sim!

funerais não!

morte sim!

funerais não!

morte sim!

funerais não!

OS ROBBOTS OBSERVAM O DESFILE DE DENTRO

DE SEUS CARROS DE COMBATE

e continua no dia seguinte

NA HORA DE MAIOR TRÁFEGO

-entre 1 e 2 da tarde-

DEBAIXO DO SOL EM BRASA

com uma

MANIFESTAÇÃO PACÍFICA DE ENERGÚMENOS

envoltos em cobertas, tochas e tocas

FRENTE A UMA TENDA DE POMPAS FÚNEBRES

na teoria não molestam nada

e, por certo, não fazem outra coisa

além de cantar e dançar em tempo de cúmbia

DUAS FRASES QUE SE REPETEM AO INFINITO

morte sim!

funerais não!

morte sim!

funerais não!

morte sim!

funerais não!

MAS, OS ROBBOTS CONTINUAM OBSERVANDO ATENTAMENTE

OS ACONTECIMIENTOSDE DENTRO DE SEUS CARROS DE COMBATE

no terceiro dia

OS ENERGÚMENOS

SE DIRIGEM TRANQUILAMENTE AS SUAS CASAS

depois de várias horas de balada

FRENTE À MOEDA

quando os robbots aparecem em cena

e a batalha campal começa

E COMEÇA A BATALHA CAMPAL

!E C O M E Ç A A B A T A L H A C A M P A L!

falar ao outro, de christophe tarkos

Parler à l’autre

 L’histoire est là, aussi : chaque texte est un fragment, un indice qui permet petit à petit de reconstituer une vie. À mesure qu’ils sont dits, une histoire se dessine. Mais cette parole finit elle aussi par s’échapper…

Comme si l’homme qui parle n’en était pas conscient : c’est presque malgré lui que sa parole, cocasse, naïve, obsédante, sort de sa bouche et tresse son histoire délirante. Lui, il ne fait qu’observer, interroger le monde.

Et s’adresser au public. Sans cesse. Comme si c’était vital. Sans le public, il tombe, il meurt. Comme une marionnette, comme un clown. Alors, sans quitter leur siège, les spectateurs deviennent les partenaires principaux du jeu. Investis d’un rôle : l’ami, le confident, le meurtrier, l’amant… ils deviennent acteurs d’une relation qui les touche, responsables d’une vie qui se déploie sous leurs yeux. 

Falar ao outro

A história está aqui, também: cada texto é um fragmento, um índice que permite pouco à pouco reconstituir uma vida. À medida que eles são ditos, uma história se desenha. Mas essa palavra finita ela também pode se esvair…

Como se o homem que fala não estivesse consciente: é mais desobedecê-lo que sua palavra, coquete, tola, obsessiva, saí da sua boca e trança sua história delirante. Ele não faz mais que observar, interrogar o mundo.

Ele se endereça ao público. Sem parar. Como se fosse vital. Sem o público, ele tomba, morre. Como uma marionete, um palhaço. Então, sem sair de sua cadeira, os espectadores tornam-se os participantes principais dessa peça. Investidos de um papel: o amigo, o  confidente, o mortuário, o amante… eles se tornam atores d’uma relação que os toca, responsáveis por uma vida que se passa diante de seus olhos.

Sensation, de Artur Rimbaud

Sensation

de Artur Rimbaud

Par les soirs bleus d’été, j’irai dans les sentiers,
Picoté par les blés, fouler l’herbe menue :
Rêveur, j’en sentirai la fraîcheur à mes pieds.
Je laisserai le vent baigner ma tête nue.

Je ne parlerai pas, je ne penserai rien,
Mais l’amour infini me montera dans l’âme ;
Et j’irai loin, bien loin, comme un bohémien,
Par la Nature, heureux- comme avec une femme.

Sensação

tradução por Tatiane Marchi

Pelas azuladas tardes, seguirei caminhador,
Pinicado pelo trigo, a pisar a erva miúda:
A sonhar, sentirei em meus pés o frescor.
Deixarei o vento banhar minha face nua.

Em silêncio, eu não pensarei em nada:
Mas, o amor infinito montará minh’alma,
E irei longe, muito longe, com o pé na estrada,
Pela natureza, feliz – na companhia da amada.

( A tradução teve como base a seguinte publicação: Rimbaud, Arthur. Poésies. Paris: Éditions de la Seine, 2005.)