“Hasta ela, siempre”, de Gustavo Krämer

“Hasta ela, siempre”, de Gustavo Krämer

Tradução: Marília Moschkovich (para S. em uma despedida na estação de trem, no verão parisiense de dois mil e dezessete)

*

Te amo porque você me diz camarada,
Amadurecendo lutas por encontrar outros rumos, quando o abraço e o beijo são da honestidade da escolha, de abandonar imposições, de nos livrarmos das condições culturais e ver como as ruas se engrandecem contigo;

Te amo pela potência de tua voz,
Gritando os pulmões por novos ares e novos seres, por mais bandeiras e eternos amanheceres, lançando o véu militante que se eleva sobre o asfalto frio da violência das cidades de fúria;

E te amo também por teu ânimo irreverente,
Redentor meu frente à dureza de meus pré-juízos, humildade tua para entender meus conflitos, trazendo calma e respeitando meu passo, sorrindo cúmplice ao me ver gozar aquilo que negava;

Te amo sem eternidade ou prazos fixos,
Pois tua geografia corrói os mapas do romantismo, leva crise às economias e me permite pensar novas regras e antropologias. Regras subvertidas. Um mundo sem bancos ou promessas vazias;

Te amo até os confins de tua ideologia,
Pelo egoísmo de querer estar bem e ser melhor, cravado na contradição de me saciar para me solidarizar, e percebendo que sem próximo não há eu, nem festas nem banquetes nem manhãs nem o rosado do céu;

Te amo porque não há objeto, nem amos nem domínio,
Porque não existe outro tempo que não o momento, marcado na memória que registra o trajeto, para lembrar sempre que vivemos para ser um constante novo projeto.

Te amo

Até sermos livres

E te espero

Para que tragas em teus braços

A vitória de todos

Até ela, te amo

Hasta ela, siempre.

*


HASTA ELLA, SIEMPRE
(poema de Gustavo Krämer, originalmente em seu blog)

Te amo porque me llamás compañero..
Madurando luchas por encontrar otro rumbo, cuando el abrazo y el beso son por la honestidad que estructura la elección, de abandonar las imposiciones, de librarnos de la condición cultural y ver cómo las calles se ensanchan con vos.

Te amo por lo potentente de tu voz..
Gritando los pulmones por nuevos aires y nuevos seres, por más banderas y eternos amaneceres, bancando el lienzo militante que se alza sobre el asfalto frío de la violencia de las ciudades de furia.

Et amo también por tu ánimo irreverente..
Redentor mío ante la dureza de mis prejuicios, humildad tuya para entender mis conflictos, dándome calma, respetando mi ritmo, sonriendo cómplice al verme disfrutar de lo que antes negaba.

Te amo, sin eternidad ni plazos fijos…
Porque tu geografía deteriora los mapas del romanticismo, lleva a crisis las economías y me permite pensar nuevas reglas y antropologías. Reglas subvertidas. Un mundo sin bancos ni promesas vacías.

Te amo hasta los confines de tu ideología
Por el egoismo de querer estar bien y ser mejor, enclavado en la contradicción de saciarme para solidarizarme, trayendo a cuentas que sin prójimo no hay uno, ni fiestas ni banquetes ni mañanas ni rocío.

Te amo porque no hay objeto, ni amos ni dominios.
Porque no existe otro tiempo que el del momento, afianzado en memoria que registre el trayecto, para siempre tener en cuenta que vivimos para ser un constante nuevo proyecto.

Te amo

Hasta ser libres

Y te espero

Para que traigas en brazos

La victoria de todxs.

Hasta ella, te amo.

Hasta ella, siempre.

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A Revolução Não Acontecerá Pela Internet (cover de Gil Scott-Heron), de Ezequiel Zaidenwerg

Tradução: Lubi Prates

Você não vai poder ficar em casa, amigo.
Você não vai poder desativar o roaming ou roubar o wi-fi do vizinho.
Você não vai poder continuar jogando Candy Crush
ou olhando as fotos de gatinhos no Facebook
porque a revolução não acontecerá pela internet.

A revolução não acontecerá pela internet.

A revolução não será vista com filtros do Snapchat ou Instagram,
num p&b vintage ou, previsivelmente, apenas em branco.
A revolução não virá por drone ou se organizará pela deep web
ou estourará quando vazar o sex tape onde Donald Trump, Marine Le Pen e Putin
gozam como porcos com as mãos de Perón restauradas,
com nail art e germicida gel.

A revolução não acontecerá pela internet.

A revolução não sairá, com exclusividade, no Netflix, produzida pelo Tom Hanks, dirigida pelo Oliver Stone e protagonizada pelo Gael García Bernal porque ser progressista não diminui a elegância.
A revolução não esculpirá milimetricamente em você o abdômen com o qual sempre sonhou,
ou te dotará com um milagroso pau com garras,
ou te fará crescer uma barba de lenhador mais forte e mais sedosa,
porque a revolução não acontecerá pela internet, amigo.
A revolução não apagará por dermobrasão
essa tatuagem do Che que você fez nos anos noventa.
Não aumentará o tráfego do seu site, não te dará mil likes,
não te transformará em um Twitterstar ou num garanhão do Tinder.
A revolução, se acontecer, não será coisa de machões.

A revolução não acontecerá pela internet.

Não verá por streaming a polícia reprimindo,
metendo bala de borracha e gás lacrimogênio,
porque minha avó contou que um taxista lhe disse
que escutou no rádio que esses manifestantes
não gostam de trabalhar, mas precisamos de um país sério,
uma revolução de alegria.
Ninguém deixará comentários anônimos
nos sites dos jornais e ninguém assistirá
Dança dos famosos ou Almoço com as estrelas
ou a Primeira Divisão, ninguém falará sobre o Fantástico
ou sobre o Fala que eu escuto.
E as crianças, em vez de caçar Pokémon,
estarão nas ruas buscando algo melhor.

Não será trending topic ou tema de algum documentário
coproduzido pela UNESCO e pela Goldman Sachs, que mencione de passagem o #NiUnaMenos,
e seja narrado pelos filhos importados de Brad Pitt e Angelina.
O soundtrack não será U2 nem Mano Chao.
Calle 13 também não fará seu “grãozinho de areia” pela paz e se falará de Silvio Rodriguez menos ainda:
ele estará procurando seu unicórnio.

A revolução não acontecerá pela internet.

A revolução não será monetizada pelo Adsense, mas se você quiser
poderá inseri-la no seu perfil do Linkedin que, como todo mundo sabe,
é a mentira mais piedosa do capitalismo.
A revolução não passará no desafio da brancura.
A revolução não arrancará o tigre que há em você, nem o empresário.
A revolução não limpará sua privada ou sua mente liberal.
A revolução não te vestirá a camiseta ou a calça.
A revolução vai te pilhar.

A revolução não estará em todos os seus dispositivos, amigo.
A revolução será ao vivo.


LA REVOLUCIÓN NO VA A SER POR INTERNET (CÓVER DE GIL SCOTT-HERON)

No te vas a poder quedar en casa, amigo.
No vas a poder desactivar el roaming ni colgarte al Wi-Fi del vecino.
No vas a poder colgarte jugando al Candy Crush,
ni mirando las fotos de gatitos en Facebook,
porque la revolución no va a ser por internet.

La revolución no va a ser por internet.

La revolución no se va a ver con filtros de Snapchat o de Instagram,
en blanco y negro vintage o predeciblemente sólo en blanco.
La revolución no va ser por drone, ni se va a organizar en la deep web,
ni va a estallar cuando se filtre el sex tape de Donald Trump, Marine Le Pen y Putin
gozando como chanchos con las manos de Perón restauradas
con nail art colorinche y germicida en gel.

La revolución no va a ser por internet.

La revolución no va a salir en exclusiva en Netflix, producida por Tom Hanks, dirigida por Oliver Stone y protagonizada por Gael García Bernal, porque lo progre no quita lo coqueto.
La revolución no te va a esculpir milimétricamente los abdominales que siempre soñaste,
ni te va a dotar de un portentoso miembro prensil,
ni te va a hacer crecer la barba de leñador más fuerte y más sedosa,
porque la revolución no va a ser por internet, amigo.
La revolución no te va a borrar por dermoabrasión
ese tatuaje del Che que te hiciste en los noventa.
No va aumentar el tráfico de tu página web, no te va a dar miles de likes,
no te va a hacer un tuítstar ni un semental de Tinder.
La revolución, si es, no va a ser cosa de varones.

La revolución no va a ser por internet.

No vas a ver por streaming a la yuta reprimiendo,
meta bala de goma y gases lacrimógenos,
porque dice mi abuela que le dijo un taxista
que lo escuchó en la radio que a esos cabecitas negras
al final no les gusta laburar, y acá necesitamos un país en serio,
una revolución de la alegría.
Ya nadie va a dejar comentarios anónimos
en la web de los diarios, y nadie va a mirar
Bailando por un sueño ni Almorzando con Mirtha
ni Fútbol de primera, y ni hablar de La noche del domingo
y las Gatitas y ratones de Porcel.
Y los pibes, en vez de cazar Pokemones,
van a estar en la calle buscando algo mejor.

La revolución no va a ser por internet.

No va a ser trending topic, ni van a hablar de ella en un documental
coproducido por la UNESCO y Goldman Sacks que mencione al pasar a #NiUnaMenos,
narrado por los hijos importados de Brad Pitt y Angelina.
La banda de sonido no va a ser de U2 ni Manu Chao.
Calle 13 tampoco va a poner su granito de arena, y de Silvio ni hablar:
todavía va a estar buscando su unicornio.

La revolución no va a ser por internet.

La revolución no va a ser monetizable por Adsense, pero si vos querés
vas a poder ponerla en tu perfil de LinkedIn que, como todo el mundo sabe,
es la mentira más piadosa del capitalismo.
La revolución no va a pasar el desafío de la blancura.
La revolución no va a sacar el tigre que hay en vos, ni el empresario.
La revolución no te va a limpiar el inodoro, ni la conciencia biempensante.
La revolución no te va a poner la camiseta, ni los pantalones.
La revolución te va a obligar a ponerte las pilas.

La revolución no va a estar en todos tus dispositivos, amigo.
La revolución va a ser en vivo.

horizon, de Marília Moschkovich

Tradução: Victor Blanc

il m’a fallu trente ans quatre cahiers
pour écrire un vers être poète à pleine voix
savoir qu’il y a des poèmes
sans force ni sans forme
et que nous écrivons tous des romances clandestines

pour faire un livre il n’est besoin
que de bons poèmes d’un tiroir et quelques
années d’un poing qui laboure l’écorce
de mon ventre et l’autre élancé dans les airs

qui peut être poète sinon moi
armée de roses de crépuscules d’abîmes
de profondeurs d’oiseaux de douleurs et d’ordures
de pierres
de boissons amères
et d’orgasmes anaux ?

je suis poète
et porte avec moi une conque à souffler une conque à lécher
quand le goût de la mer quand l’odeur des îles
Me manquent

je suis poète-
léviathan que j’embrasse aux marges grises de la terre
À ce point précis où le haut devient le bas
et les cités au loin constellations navires empilés
vagues de schiste

je suis poète :
viser l’horizon
et courir contre


horizonte

custei trinta anos e quatro cadernos
para escrever um verso e dizer poeta em voz alta
e saber que há poemas sem força,
e saber que há poemas sem fome,
e que todos escrevemos clandestinos poemas de amor

o que é preciso num livro senão
bons poemas? e uma gaveta e um punhado
de anos, e um punho fechado na casca
do estômago, o outro erguido no ar?

quem é o poeta senão eu,
armada de rosas e crepúsculos e abismos
de profundos e pássaros e dores e lixo
e pedras,
bebidas amargas,
orgasmos anais?

eu sou o poeta
e carrego comigo uma concha que se pode soprar ou lamber
quando aperta a saudade do gosto de mar
quando aperta a saudade do cheiro da ilha

eu sou o poeta-
leviatã que abraço nas bordas cinzas da terra
até que olhar para trás seja como olhar pra cima
e as cidades longe como constelações, navios empilhados
camadas de ondas

eu sou o poeta:
mirar o horizonte
e correr contra

Ode para ansiar a chegada da primavera (7) – Jean Ristat

Camarada você não é o cristo em cruz
Expulsamos os padres abandone a farda
Emprestada a velha língua e a ordem de sua
Sintaxe varra à rua os fantasmas do mundo
Antigo que já batem à porta do teu sono
Camarada não ponha em cárcere o amor


Ode pour hâter la venue du printemps – 7

Camarade tu n’est pas le christ en croix nous
Avons chassé les prêtres quitte ton habit
Emprunté la vielle langue et l’ordre de sa
Syntaxe balaie les fantômes de l’ancien
Monde qui frappent à la porte de ton sommeil
Camarade ne mets pas l’amour en prison


traduzido por Marília Moschkovich de RISTAT, Jean. Ode pour hâter la venue du printemps. Paris, Gallimard, 2008, p.50.