Sonho com a espada de cavaleiro *
Tradução: Tomaz Amorim Izabel

Eu tinha combinado uma excursão com dois amigos para o domingo, mas de forma completamente inesperada dormi demais e perdi a hora do encontro. Meus amigos, que conheciam até então minha pontualidade, se surpreenderam com o atraso e foram até a casa em que eu morava, ficaram esperando por lá ainda uma hora, subiram então as escadas e bateram na minha porta. Eu me assustei muito, pulei da cama e não prestei atenção em outra coisa que não fosse me aprontar o mais rápido possível. Quando eu então saí da porta completamente vestido, meus amigos recuaram de mim visivelmente assustados. “O que você tem atrás da cabeça?”, eles gritaram. Desde o despertar eu já sentia algo que me impedia de deitar a cabeça e tateei neste momento com a mão procurando pelo obstáculo. Imediatamente gritaram os amigos, que já tinham se acalmado um pouco: “Toma cuidado, não vai se machucar”, enquanto eu apanhava por de trás de minha cabeça uma espada. Os amigos se aproximaram, me examinaram, me levaram ao quarto diante do espelho da cômoda e me despiram da cintura para cima. Uma grande e antiga espada de cavaleiro com punho em forma de cruz estava presa nas minhas costas até o cabo, mas de forma que a lâmina foi enfiada de forma incrivelmente precisa entre a pele e a carne e não infligiu nenhum ferimento. No lugar da intrusão no pescoço também não havia ferida e os meus amigos garantiam que o buraco que se abriu pela lâmina estava completamente sem sangue e seco. E enquanto agora os amigos subiam no braço da cadeira e devagar, milimetricamente, puxavam a espada, não saiu nenhum sangue e o lugar aberto no pescoço se fechou até um buraco que mal dava para notar. “Aqui está sua espada”, disseram os amigos rindo e a entregaram para mim. Eu a pesei em minhas mãos, era uma arma fina, cruzados poderiam tê-la usado. Quem aguenta isso, que antigos cavaleiros percorram os sonhos, brandindo irresponsavelmente suas espadas, perfurando adormecidos inocentes e só não causando feridas profundas porque suas armas provavelmente desviam de corpos vivos e também porque amigos fiéis estão atrás da porta e batem prontos para ajudar.

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Traum vom Ritterschwert
Franz Kafka

Ich hatte mit zwei Freunden einen Ausflug für den Sonntag vereinbart, verschlief aber gänzlich unerwarteter Weise die Stunde der Zusammenkunft. Meine Freunde, die meine sonstige Pünktlichkeit kannten, staunten darüber, giengen zu dem Haus in dem ich wohnte, standen auch dort noch eine Zeitlang, giengen dann die Treppe hinauf und klopften an meiner Tür. Ich erschrak sehr, sprang aus dem Bett und achtete auf nichts anderes, als darauf mich möglichst rasch bereitzumachen. Als ich dann vollständig angezogen aus der Türe trat, wichen meine Freunde offenbar erschrocken vor mir zurück. “Was hast Du hinter dem Kopf” riefen sie. Ich hatte schon seit dem Erwachen irgendetwas gefühlt, das mich hinderte den Kopf zurückzuneigen und tastete nun mit der Hand nach diesem Hindernis. Gerade riefen die Freunde, die sich schon ein wenig gesammelt hatten “Sei vorsichtig, verletze Dich nicht” als ich hinter meinem Kopf den Griff eines Schwertes erfaßte. Die Freunde kamen näher, untersuchten mich, führten mich ins Zimmer vor den Schrankspiegel und entkleideten meinen Oberkörper. Ein großes altes Ritterschwert mit kreuzartigem Griff steckte in meinem Rücken bis zum Heft, aber in der Weise, daß sich die Klinge unbegreiflich genau zwischen Haut und Fleisch geschoben und keine Verletzung herbeigeführt hatte. Aber auch an der Stelle des Einstoßes am Halse war keine Wunde, die Freunde versicherten, daß sich dort völlig blutleer und trocken der für die Klinge notwendige Spalt geöffnet habe. Und als jetzt die Freunde auf Sessel stiegen und langsam millimeterweise das Schwert hervorzogen, kam kein Blut nach und die offene Stelle am Halse schloß sich bis auf einen kaum merklichen Spalt. “Hier hast Du Dein Schwert” sagten die Freunde lachend und reichten es mir. Ich wog es in beiden Händen, es war eine kostbare Waffe, Kreuzfahrer konnten sie wohl benützt haben. Wer duldete es, daß sich alte Ritter in den Träumen herumtrieben, verantwortungslos mit ihren Schwertern fuchtelten, unschuldigen Schläfern sie einbohrten und nur deshalb nicht schwere Wunden beibrachten, weil ihre Waffen zunächst wahrscheinlich an lebenden Körpern abgleiten und weil auch treue Freunde hinter der Tür stehn und hilfsbereit klopfen.

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* Este texto se encontra no diário de Kafka sob a data de 19 de Janeiro de 1915. Ele não tem título e não foi de forma alguma separado como “Obra” para publicação. Seu fechamento indica que Kafka não planejou uma sequência e que tomou o texto como “pronto”. A segunda frase, “Meus amigos, que conheciam até então minha pontualidade”, deve ser lida como brincadeira irônica. Porque Kafka era notoriamente não pontual e precisava se desculpar frequentemente com seus amigos de Praga, com os quais muitas vezes marcava encontros dominicais.

Fonte: Franz Kafka, Tagebücher, Band 3: 1914–1923, Fischer Taschenbuch Verlag (Bd. 12451), Frankfurt am Main 1994, Seite 71–72.

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