O ideal e a vida, de Friedrich Schiller

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O ideal e a vida
Tradução: Tomaz Amorim Izabel

Clareterna e especular e fina,
flui leve, no Olimpo, a vida zefirina,
para seus bem-aventurados.
As luas mudam, as gerações se sucedem,
e os rosais da divina juventude florescem
entre eternas ruínas intocados.
Entre a alegria sensível e a paz de espírito,
só resta a escolha à humanidade desolada,
mas na fronte do alto Urânido
brilham elas num raio casadas.

Na Terra, para terem dos deuses a sorte
e serem livres no reino da morte,
do seu jardim não despedacem a fruta!
O olhar se satisfaz com as aparências,
mas do gozo das alegrias em ambivalência
se vinga veloz a almejada fruta.
O próprio Estige, que nove vezes a rodeia,
não luta contra a volta da filha de Ceres.
Depois de apanhada a maçã, ele a cerceia
eternamente sob de Orco os poderes.

Apenas os corpos é que pertencem
aos poderes que sombrio destino tecem.
Livre da violência do tempo que deforma,
a parceira das naturezas bem-aventuradas
sobe pairando rumo às portas iluminadas,
divina entre os deuses: a Forma.
Se querem voar alto em suas asas,
joguem fora o medo do terreno!
Fujam da vida enfadonha e rasa
para do Ideal o Reino!

Em toda a Terra livre, juventude,
é nos raios da completude
que paira dos homens a imagem divina.
As silenciosas fantasmagorias da vida,
brilhantes, na corrente do Estige diluídas,
mesmo Ela, que se ergue na celeste campina,
depois, rumo aos sarcófagos tristes,
ainda que Imortal, também desce.
Se na vida o carro da luta ainda resiste,
sacolejante, aqui a vitória aparece.

Não para lutadores apaziguar,
nem para exaustos descansar,
sopra perfumada a grinalda das glórias.
Poderosos, ao descansar suas veias,
a vida vos arrasta em suas cheias,
a vós, o tempo, em suas rotatórias.
Mas descem as audazes asas da braveza
pelo sentimento vergonhoso dos percalços,
e então vislumbra da colina da beleza
com alegria o avoado alvo.

Se se trata de proteger e dominar,
lutador contra lutador a trovejar
nos trilhos da sorte e da fama,
lá pode a bravura se bater com a força
e com ruidosos urros as carroças
se confundem nas planícies de lama.
Aqui só a bravura alcança aquilo
que na meta do Hipódromo flameja.
Só o forte submeterá o destino,
onde o franzino apenas fraqueja.

Mas ele, preso entre as margens,
que se derrama espumoso e selvagem,
flui, o Rio da Vida, calmo e austero,
pelas silenciosas e sombrias terras da beleza,
e em suas ondas de prateadas correntezas
pintam-se Aurora e Héspero.
Dissolvido em suave amor mútuo,
na graça da livre relação unido,
descansa aqui reconciliado o impulso,
e desaparecido é o inimigo.

Se para o morto com forma reanimar,
se para com o material matrimoniar,
o gênio se incendeia sedento,
então lá se contrai o nervo do obreiro
e subjuga, perseverante e guerreiro,
o pensamento de si o elemento.
Só ao sério, que esforço algum empalidece,
sussurra a fonte da verdade que escondida corre.
Só com o golpe duro do cinzel se amolece
a semente quebradiça do mármore.

Mas adentrai da beleza a esfera,
e para trás resta o pesado na poeira
com o material que ela mesma domina.
Não é massa com dor arrancada,
fraca e leve, como originada do nada,
a visão diante da arrebatadora retina.
Silenciam todas as batalhas e temores
na vitória da maior certeza:
desaparecem agora os espectadores
da humana pobreza.

Se vocês, na triste nudez da humanidade,
estão diante da lei em sua grandiosidade,
se a culpa se aproxima do sagrado,
diante dos raios da verdade empalideça
sua virtude, diante do ideal desapareça
o vergonhoso ato apavorado.
Nenhum criador que o objetivo confronte:
sobre este abismo moribundo
não passa barca, nem arco de ponte,
nem âncora alguma encontra o fundo.

Mas fujam da limitação do sentimento
para a libertação do pensamento,
e fugirá a assombração
e se preencherá o eterno abismo.
Acolham nas suas vontades o divino
e dos tronos mundanos vocês se erguerão.
A grade firme da lei aprisiona
apenas o sentido escravo que a degrade.
Desaparece com a resistência humana
também a divina majestade.

Se a dor humana se torna corrente,
se Laocoonte se defende das serpentes
com tão inominável dor,
então enfurece-se o humano! E avança
contra a curvatura dos céus com suas demandas
e destroça seu coração amador!
Que triunfe a voz terrível da natureza
e que preencha a face da alegria a palidez,
e que a piedade sagrada desapareça
com o imortal dentro de vocês!

Mas nas regiões jubilosas,
onde habitam as puras formas,
já não ressoam as tempestades turvas da carência.
Aqui não pode a dor dilacerar a alma,
lágrima alguma flui aqui contra a calma,
apenas do espírito a bravia resistência.
Amável, como da íris a furta-cor
sobre o fragor do orvalho trovejante,
brilha através dos tristes véus do langor,
pacífico, aqui, o azul fulgurante.

Rebaixado a servo do covarde,
Alcides, em interminável combate,
o caminho pesado da vida percorre:
abraça o Leão, bate-se com a Hidra de Lerna,
lança-se vivo, e os companheiros liberta,
na canoa do barqueiro da morte.
Todas as aflições, tudo que há de pesado,
lançou a astúcia da irreconciliável Deusa
sobre os ombros dispostos do odiado –
até que findada sua caminhada esteja.

Até que o Deus, despido do terreno,
separa-se em chamas dos humanos
e dos leves ares do éter se inunda.
Alegre e desacostumado com o novo flutuar,
ele flui para cima, e da vida sublunar
o pesado sonho afunda e afunda e afunda.
Recebido no Olimpo em harmoniosa chegada
é o transfigurado no salão dos Cronidas,
até que a Deusa de faces rosadas
entrega-lhe a taça de boas-vindas.
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Das Ideal und das Leben
Friedrich Schiller

Ewigklar und spiegelrein und eben
Fließt das zephyrleichte Leben
Im Olymp den Seligen dahin.
Monde wechseln, und Geschlechter fliehen;
Ihrer Götterjugend Rosen blühen
Wandellos im ewigen Ruin.
Zwischen Sinnenglück und Seelenfrieden
Bleibt dem Menschen nur die bange Wahl;
Auf der Stirn des hohen Uraniden
Leuchtet ihr vermählter Strahl.

Wollt ihr schon auf Erden Göttern gleichen,
Frei sein in des Todes Reichen,
Brechet nicht von seines Gartens Frucht!
An dem Scheine mag der Blick sich weiden;
Des Genusses wandelbare Freuden
Rächet schleunig der Begierde Frucht.
Selbst der Styx, der neunfach sie umwindet,
Wehrt die Rückkehr Ceres’ Tochter nicht;
Nach dem Apfel greift sie, und es bindet
Ewig sie des Orkus Pflicht.

Nur der Körper eignet jenen Mächten,
Die das dunkle Schicksal flechten;
Aber frei von jeder Zeitgewalt,
Die Gespielin seliger Naturen,
Wandelt oben in des Lichtes Fluren
Göttlich unter Göttern die Gestalt.
Wollt ihr hoch auf ihren Flügeln schweben,
Werft die Angst des Irdischen von euch!
Fliehet aus dem engen, dumpfen Leben
In des Idealen Reich!

Jugendlich, von allen Erdenmalen
Frei, in der Vollendung Strahlen
Schwebet hier der Menschen Götterbild,
Wie des Lebens schweigende Phantome
Glänzend wandeln an dem styg’schen Strome,
Wie sie stand im himmlischen Gefild,
Ehe noch zum traur’gen Sarkophage
Die Unsterbliche herunter stieg.
Wenn im Leben noch des Kampfes Wage
Schwankt, erscheinet hier der Sieg.

Nicht vom Kampf die Glieder zu entstricken,
Den Erschöpften zu erquicken,
Wehet hier des Sieges duft’ger Kranz.
Mächtig, selbst wenn eure Sehnen ruhten,
Reißt das Leben euch in seine Fluthen,
Euch die Zeit in ihren Wirbeltanz.
Aber sinkt des Muthes kühner Flügel
Bei der Schranken peinlichem Gefühl,
Dann erblicket von der Schönheit Hügel
Freudig das erflogne Ziel.

Wenn es gilt, zu herrschen und zu schirmen,
Kämpfer gegen Kämpfer stürmen
Auf des Glückes, auf des Ruhmes Bahn,
Da mag Kühnheit sich an Kraft zerschlagen
Und mit krachendem Getös die Wagen
Sich vermengen auf bestäubtem Plan.
Muth allein kann hier den Dank erringen,
Der am Ziel des Hippodromes winkt.
Nur der Starke wird das Schicksal zwingen,
Wenn der Schwächling untersinkt.

Aber der, von Klippen eingeschlossen,
Wild und schäumend sich ergossen,
Sanft und eben rinnt des Lebens Fluß
Durch der Schönheit stille Schattenlande,
Und auf seiner Wellen Silberrande
Malt Aurora sich und Hesperus.
Aufgelöst in zarter Wechselliebe,
In der Anmuth freiem Bund vereint,
Ruhen hier die ausgesöhnten Triebe,
Und verschwunden ist der Feind.

Wenn, das Todte bildend zu beseelen,
Mit dem Stoff sich zu vermählen,
Thatenvoll der Genius entbrennt,
Da, da spanne sich des Fleißes Nerve,
Und beharrlich ringend unterwerfe
Der Gedanke sich das Element.
Nur dem Ernst, den keine Mühe bleichet,
Rauscht der Wahrheit tief versteckter Born;
Nur des Meißels schwerem Schlag erweichet
Sich des Marmors sprödes Korn.

Aber dringt bis in der Schönheit Sphäre,
Und im Staube bleibt die Schwere
Mit dem Stoff, den sie beherrscht, zurück.
Nicht der Masse qualvoll abgerungen,
Schlank und leicht, wie aus dem Nichts gesprungen,
Steht das Bild vor dem entzückten Blick.
Alle Zweifel, alle Kämpfe schweigen
In des Sieges hoher Sicherheit;
Ausgestoßen hat es jeden Zeugen
Menschlicher Bedürftigkeit.

Wenn ihr in der Menschheit traur’ger Blöße
Steht vor des Gesetzes Größe,
Wenn dem Heiligen die Schuld sich naht,
Da erblasse vor der Wahrheit Strahle
Eure Tugend, vor dem Ideale
Fliehe muthlos die beschämte That.
Kein Erschaffner hat dies Ziel erflogen;
Über diesen grauenvollen Schlund
Trägt kein Nachen, keiner Brücke Bogen,
Und kein Anker findet Grund.

Aber flüchtet aus der Sinne Schranken
In die Freiheit der Gedanken,
Und die Furchterscheinung ist entflohn,
Und der ew’ge Abgrund wird sich füllen;
Nehmt die Gottheit auf in euren Willen,
Und sie steigt von ihrem Weltenthron.
Des Gesetzes strenge Fessel bindet
Nur den Sklavensinn, des es verschmäht;
Mit des Menschen Widerstand verschwindet
Auch des Gottes Majestät.

Wenn der Menschheit Leiden euch umfangen,
Wenn Laokoon der Schlangen
Sich erwehrt mit namenlosem Schmerz,
Da empöre sich der Mensch! Es schlage
An des Himmels Wölbung seine Klage
Und zerreiße euer fühlend Herz!
Der Natur furchtbare Stimme siege,
Und der Freude Wange werde bleich,
Und der heil’gen Sympathie erliege
Das Unsterbliche in euch!

Aber in den heitern Regionen,
Wo die reinen Formen wohnen,
Rauscht des Jammers trüber Sturm nicht mehr.
Hier darf Schmerz die Seele nicht durchschneiden,
Keine Thräne fließt hier mehr den Leiden,
Nur des Geistes tapfrer Gegenwehr.
Lieblich, wie der Iris Farbenfeuer
Auf der Donnerwolke duft’gem Thau,
Schimmert durch der Wehmuth düstern Schleier
Hier der Ruhe heitres Blau.

Tief erniedrigt zu des Feigen Knechte,
Ging in ewigem Gefechte
Einst Alcid des Lebens schwere Bahn,
Rang mit Hydern und umarmt’ den Leuen,
Stürzte sich, die Freunde zu befreien,
Lebend in des Todtenschiffes Kahn.
Alle Plagen, alle Erdenlasten
Wälzt der unversöhnten Göttin List
Auf die will’gen Schultern des Verhaßten –
Bis sein Lauf geendigt ist –

Bis der Gott, des Irdischen entkleidet,
Flammend sich vom Menschen scheidet
Und des Äthers leichte Lüfte trinkt.
Froh des neuen ungewohnten Schwebens,
Fließt er aufwärts, und des Erdenlebens
Schweres Traumbild sinkt und sinkt und sinkt.
Des Olympus Harmonien empfangen
Den Verklärten in Kronions Saal,
Und die Göttin mit den Rosenwangen
Reicht ihm lächelnd den Pokal.

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