SEPARAÇÃO, de Marina Tsvetáieva

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SEPARAÇÃO

Poema de Marina Tsvetáieva (1892 – 1941).
Dedicado a Serguei Efron (8 de outubro 1893 – 16 de outubro 1941)
Tradução de André Nogueira, set. 2016.
Imagem, ver nota ao final do poema.

Separação

(Marina Tsvetáieva)

para Serioja *

1
     
Guerra de torres
Longe no Kremlin.
Onde na terra,
Onde –

Solidez minha,
Placidez minha,
Intrepidez minha,
Piedade de mim?

Guerra de torres.
Guerra sem fim.
Onde na terra –
Minha
Casa,
Minha – graça,
Minha – alvorada,
Onde a pegada
De sola apertada,
Onde – meu sono?

Caída por terra
À noite esta guerra
Com os braços desmorono.

– Oh, não me abandones!

maio 1921

2

Como de um longo desmaio
Ergo meus braços.
Pelo buraco negro da janela
Contra a batalha da meia-noite
Inúteis braços que duelam.
Com apelos de socorro o atraio
Para casa. – E ei-lo: a cabeça que cai
Da torre! – Para casa!

Estende da batalha
Para mim, não para o cascalho
Da praça, soldado raso,
O rasante de tua asa.

maio 1921

3

Tudo torcido, tudo torcido
Como os braços sem amparo.
Entre nós não são terrestres
Estas verstas que nos separam,
Celestes rios, terras anil,
O inalienável bem-querer de toda a vida –
Por qual via que partiu?

Em prateados arreios
Pela estrada real ele voou.
Meus braços não despedaçam!
Arrastei-os
– Sem um piu! –,
Finquei meus pulsos
Como uma árvore para o impulso
De uma ave que migrou.

Voa, amado grou,
Voa, sumindo de vista.
Não abro mão do meu prumo:
Bem me visto para uma morte
Rápida como suas plumas douradas
E equilibro-me no último suporte
Meio às vastidões devastadas.

junho 1921

4

Cortada, como oliva madura,
A cabeceira da cama.
O divino ciúme
Sobre a paixão humana.

Cada murmúrio para os deuses
É rezado bem baixinho.
Toda a idade em flor perdeu-se,
Além de ti, pelo caminho.

A primaveril luxúria
A todos eles enfurece.
O céu te viu algures,
Pois redobra tuas preces.

=========

Acreditas – que as vozes
De tão glorioso cobre
E os sinais dos albatrozes
Tua rota manobram

Do penhasco à emboscada –
Com o peito na lança?
Que a onda sublevada
– Acreditas – te alcança?

Que os aguilhões da floresta
– Crês? – te vão cravar?
Maior que toda peste
É a piedade do tzar!

A gota fermenta
De teu pranto na terra.
Não temas a gente
Terrena, – misérrima!

Como antigamente,
Milhares de olhos a vê-lo.
Preso ao divino pente
Cada fio de cabelo.

Não temas de Zeus
A abóbada oca
Do insaciável céu
Do coração da boca.

12 de junho 1921

5

De mansinho
Com a débil mão franzina
Desemaranharei os caminhos:
Das mãos minhas – aos relinchos teus,
Amazona obediente, murmurinho
Pelos díssonos degraus do derradeiríssimo adeus.

Relinchas e escoicinhas,
Meu alado, no caminho
Iluminado. – No olhar uma alvorada.
Dai-me as mãozinhas, as mãozinhas! –
Inútil alarido tu repetes.
Entre nós – a prestes queda d’ água do Letes.

14 de junho 1921

6

Cabelos brancos não verás
Em mim, nem eu em ti.
Sem que olhes para trás
Tu nem saudades vais sentir.

Diante de tua desgraça
Este pranto me escapa:
– Sacode o braço!
Deixa cair a capa!

Sob os olhos frios
De um camafeu de dura pedra,
Como as mães esperam a cria,
Desta porta não arredo.

(Com o peso do sangue, a aridez
Dos joelhos, a retesa tez –
Pela derradeiríssima terrestre
Vez!)

Não como furtivo e articulado animal, –
Não, como sólido bloco
Passarei por esta porta –
Esta vida. – Afinal,
Eu só em lágrimas derroco,
Uma vez que tuas costas
São de pedra mais polida.

De repente, já não és pedra!
Mas como a larga asa da águia –
A capa largada e esta queda
Pelo abismo da ilharga
Para o luzeiro da cidade
Onde busco minha cria
E pela maternidade
Não sorrio.

15 de junho 1921

7

Como um broto no cepo
Te afloras.
Que não te perceba
Zeus. –
Implora!

Tua flor germine
Devagar e com cuidado.
Teu encanto masculino
É por eles invejado.

Os maxilares hiantes
E o chamado deles…
A invejar o teu encanto –
Um ninho de deuses.

Te atraem à peleja
Com louros e glórias.
Que não te eleja
Zeus. –
Implora!

As asas da águia
No céu em estrondo.
Teu grito propaga –
Que não te escondas!

Com sangue no bico
Te pinçou o raptor!
Cordeirinho nanico,
Deixa cair – o amor…

Com o peito cabeludo –
Beija o chão!
E implora ajuda…
Zeus,
Compaixão!

16 de junho 1921

8

Eu sei, eu sei,
Que nessa terra nosso amado,
Que esse cálice encantado,
É menos nosso
Do que deles –
Dos caminhos,
Das estrelas
E dos ninhos
Pendurados na encarnada.

Eu sei, eu sei
Quem é o dono desse cálice!
Como a altura da águia roçasse-a
A torre de meu braço para o céu,
Esse cálice eu sei como bebeu
A terrível e rosácea
Boca de Deus!

17 de junho 1921

~// ~

* Na foto, o casamento de Marina Tsvetáieva com Serguei Efron em 1911. Serioja, como se lê na dedicatória de ‘Separação’, trata-se de uma forma diminutiva e carinhosa do nome Serguei. Com a derrubada do governo provisório de A. Kerensky pelo Exército Vermelho em outubro de 1917, Efron alistou-se nas fileiras do Exército Branco, que resistiu contra a revolução em guerra civil. Entre os anos de 1920 e 1921, os voluntários Brancos foram derrotados em suas diversas frentes. Estes poemas foram escritos por Tsvetáieva em Moscou entre maio e junho de 1921, quando havia quatro anos de sua separação, sem notícias de Efron, se vivo ou morto. Um período de atribulações para a poeta, sozinha com as duas filhas do casal, além de exposta à guerra e suas privações. Em 1919 a família passava fome, e obrigada a entregar as filhas ao orfanato, Tsvetáieva perdeu a mais nova, Irina, por desnutrição. Além de longos poemas consagrados à batalha do Exército Branco, Tsvetáieva dedicou neste tempo poemas a Efron, um dos quais é o ciclo ‘Separação’. No mês seguinte, julho de 1921, a poeta receberá a notícia de que seu esposo está vivo, em Praga. Marina Tsvetáieva e sua filha, Ariadna, deixarão a Rússia quase um ano depois, em maio de 1922, para ir a seu encontro.

Nesta publicação de hoje lembramos a pessoa de Serguei Efron e seu amor com Marina Tsvetáieva. Conhecida por seu trágico desenlace, a história de ambos culminou em mais um gesto de dedicação da poeta, ao seguir Serioja desta vez de volta para a Rússia, isto é, para a União Soviética, em 1939, possivelmente sabendo como isso resultaria em sua morte. Estabelecido em Paris com a família, Efron convertera-se em agente secreto e trabalhara, sem o conhecimento da esposa, para a NKVD, a polícia soviética infiltrada entre os emigrados “brancos”. Seu nome fora implicado no assassinato de Ignace Reiss, ex-colaborador da NKVD, e Efron saiu foragido em um navio soviético em 1937, novamente deixando desamparada Tsvetáieva. Para ela se fecham todas as portas em Paris. Conseguirá embarcar, dois anos depois, para a Rússia, mas já não encontrará Efron, detido por acusação de traição. Ariadna, também detida, passará oito anos na prisão. Antes de fuzilado em 16 de outubro de 1941, Efron sob tortura recusou-se terminantemente a delatar o nome de Tsvetáieva, afirmando sempre que esta “por toda a sua vida só fez escrever poemas e prosa”. Nos relatórios da NKVD, lê-se a seguinte observação de seus torturadores: “Internado a partir do dia 7 de novembro de 1939 no setor psiquiátrico da prisão de Butýrki, devido a alucinações reativas agudas e uma tentativa de suicídio. No momento, sofre de alucinações auditivas, pensa que escuta falar dele pelos corredores, que sua mulher morreu, que ele ouve o título de um poema conhecido apenas por ele e sua mulher etc. Apresenta-se ansioso e pensa em suicídio. Sente-se oprimido, assustado, como quem aguarda alguma coisa de horrível” (em ‘Vivendo sob o Fogo’, ed. Martins Fontes, 2008, pág. 705). Como se sabe, seu pressentimento acerca de Marina Tsvetáieva se realizou, da pior forma, em 31 de agosto de 1941.

           ~//~

РАЗЛУКА

Марина Цветaева

Сереже


1

Башенный бой
Где-то в Кремле.
Где на земле,
Где –

Крепость моя,
Кротость моя,
Доблесть моя,
Святость моя.

Башенный бой.
Брошенный бой.
Где на земле –
Мой
Дом,
Мой – сон,
Мой – смех,
Мой – свет,
Узких подошв – след.

Точно рукой
Сброшенный в ночь –
Бой.

– Брошенный мой!

Май 1921

2

Уроненные так давно
Вздымаю руки.
В пустое черное окно
Пустые руки
Бросаю в полуночный бой
Часов, – домой
Хочу! – Вот так: вниз головой
– С башни! – Домой!

Не о булыжник площадной:
В шепот и шелест…
Мне некий Воин молодой
Крыло подстелет.

Май 1921

3

Всё круче, всё круче
Заламывать руки!
Меж нами не версты
Земные, – разлуки
Небесные реки, лазурные земли,
Где Друг мой навеки уже –
Неотъемлем.

Стремит столбовая
В серебряных сбруях.
Я рук не ломаю!
Я только тяну их
– Без звука! –
Как дерево-машет-рябина
В разлуку,
Во след журавлиному клину.

Стремит журавлиный,
Стремит безоглядно.
Я спеси не сбавлю!
Я в смерти – нарядной
Пребуду – твоей быстроте златоперой
Последней опорой
В потерях простора!

Июнь 1921

4

Смуглой оливой
Скрой изголовье.
Боги ревнивы
К смертной любови.

Каждый им шелест
Внятен и шорох.
Знай, не тебе лишь
Юноша дорог.

Роскошью майской
Кто-то разгневан.
Остерегайся
Зоркого неба.

=======

Думаешь – скалы
Манят, утесы,
Думаешь, славы
Медноголосый

Зов его – в гущу,
Грудью на копья?
Вал восстающий
– Думаешь – топит?

Дольнее жало
– Веришь – вонзилось?
Пуще опалы –
Царская милость!

Плачешь, что поздно
Бродит в низинах.
Не земнородных
Бойся, – незримых!

Каждый им волос
Ведом на гребне.
Тысячеоки
Боги, как древле.

Бойся не тины, –
Тверди небесной!
Ненасытимо –
Сердце Зевеса!

25 июня 1921

5

Тихонько
Рукой осторожной и тонкой
Распутаю путы:
Ручонки – и ржанью
Послушная, зашелестит амазонка
По звонким, пустым ступеням расставанья.

Топочет и ржет
В осиянном пролете
Крылатый. – В глаза – полыханье рассвета.
Ручонки, ручонки!
Напрасно зовете:
Меж ними – струистая лестница Леты.

27 июня 1921

6

Седой – не увидишь,
Большим – не увижу.
Из глаз неподвижных
Слезинки не выжмешь.

На всю твою муку,
Раззор – плач:
– Брось руку!
Оставь плащ!

В бесстрастии
Каменноокой камеи,
В дверях не помедлю,
Как матери медлят:

(Всей тяжестью крови,
Колен, глаз –
В последний земной
Раз!)

Не крадущимся перешибленным зверем, –
Нет, каменной глыбою
Выйду из двери –
Из жизни. – О чем же
Слезам течь,
Раз – камень с твоих
Плеч!

Не камень! – Уже
Широтою орлиною –
Плащ! – и уже по лазурным стремнинам
В тот град осиянный,
Куда – взять
Не смеет дитя
Мать.

28 июня 1921

7

Ростком серебряным
Рванулся ввысь.
Чтоб не узрел его
Зевес –
Молись!

При первом шелесте
Страшись и стой.
Ревнивы к прелести
Они мужской.

Звериной челюсти
Страшней – их зов.
Ревниво к прелести
Гнездо богов.

Цветами, лаврами
Заманят ввысь.
Чтоб не избрал его
Зевес –
Молись!

Все небо в грохоте
Орлиных крыл.
Всей грудью грохайся –
Чтоб не сокрыл.

В орлином грохоте
– О клюв! О кровь! –
Ягненок крохотный
Повис – Любовь…

Простоволосая,
Всей грудью – ниц…
Чтоб не вознес его
Зевес –
Молись!

29 июня 1921

8

Я знаю, я знаю,
Что прелесть земная,
Что эта резная,
Прелестная чаша –
Не более наша,
Чем воздух,
Чем звезды,
Чем гнезда,
Повисшие в зорях.

Я знаю, я знаю,
Кто чаше – хозяин!
Но легкую ногу вперед – башней
В орлиную высь!
И крылом – чашу
От грозных и розовых уст –
Бога!

30 июня 1921

 

 

 

 

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