Quatro poemas de Nicanor Parra

nicanor

Traduções por Frank Morais

ADVERTÊNCIAS
Proíbe-se rezar, espirrar,
Cuspir, elogiar, ajoelhar,
Venerar, grunhir, expectorar.

Neste recinto é proibido dormir
Inocular, falar, excomungar
Compor, fugir, interceptar.

Rigorosamente proíbe-se correr.
É proibido fumar e fornicar.
ADVERTENCIAS
Se prohíbe rezar, estornudar
Escupir, elogiar, arrodillarse,
Venerar, aullar, expectorar.

En este recinto se prohíbe dormir
Inocular, hablar, excomulgar
Armonizar, huir, interceptar.

Estrictamente se prohíbe correr.
Se prohíbe fumar y fornicar.
O TÚNEL

Passei um tempo de juventude na casa de umas tias
A raiz da morte de um senhor intimamente ligado
a elas
Cujo fantasma as perturbava sem piedade
Fazia-lhes impossível a vida.

No início me mantive silencioso aos seus telegramas
Às suas cartas forjadas em uma linguagem de outra época,
Repletas de alusões mitológicas
E de nomes próprios desconhecidos para mim
Vários deles pertencentes a sábios da antiguidade
A filósofos medievais de menor valor
A simples moradores da localidade em que habitavam.

Abandonar de chofre a universidade
Romper com os encantos da vida galante
Interrompê-lo de todo
Com o objetivo de satisfazer os caprichos de três velhas
histéricas
Cheias de toda sorte de problemas pessoais
Resultava, para uma pessoa de meu temperamento,
Um porvir pouco lisonjeiro
Uma ideia disparatada.

Quatro anos vivi n’O Túnel, contudo,
Na companhia daquelas terríveis senhoras
Quatro anos de martírio constante
Da manhã à noite.
As horas de alegria que passei debaixo das árvores
Tornaram-se tão logo em semanas de enfado,
Em meses de angústia que tratava de dissimular
completamente
Com o intuito de não despertar curiosidade sobre
mim,
Em anos de ruína e miséria,
Séculos de prisão vividos por minha alma
No interior de uma jarra de mesa.

Minha concepção espiritualista do mundo
Deixou-me diante dos acontecidos numa situação de franca
inferioridade:
Eu tudo via através de um prisma
No fundo do qual as imagens de minhas tias se entrelaçavam
como fios vivos
Formando uma espécie de rede impenetrável
Que feria minha visão a tornando cada vez mais ineficaz.

Um jovem de escassos recursos não se dá conta das coisas.
Ele vive numa redoma de vidro que se chama de Arte
Que se chama Luxúria, que se chama Ciência
Tratando de estabelecer contato com um mundo de
relações
Que somente existe para ele e para um pequeno grupo de
amigos.

Sob os efeitos de uma espécie de vapor d´água
Que penetrava pelo piso da casa
Inundando a atmosfera até o tornar de todo invisível
Eu passava as noites sobre minha mesa de trabalho
Absorvido na prática da escrita automática.

Mas por que aprofundar nesses assuntos desagradáveis!
Aquelas matronas zombaram miseravelmente de mim
Com suas falsas promessas, com suas estranhas fantasias
Com suas dores sabiamente falseadas
Souberam-me conter em suas redes durante anos
Obrigando-me tacitamente a trabalhar para elas
Em fainas de agricultura
Em transações de animais
Até que uma noite, olhando pela maçaneta
Infligiu-se a mim que uma delas,
Minha tia paralítica!
Caminhava perfeitamente por sobre a ponta das pernas
E voltei à realidade com um sentimento dos demônios.

EL TÚNEL

Pasé una época de mi juventud en casa de unas tías
A raíz de la muerte de un señor íntimamente ligado a ellas
Cuyo fantasma las molestaba sin piedad
Haciéndoles imposible la vida.

En el principio yo me mantuve sordo a sus telegramas
A sus epístolas concebidas en un lenguaje de otra época
Llenas de alusiones mitológicas
Y de nombres propios desconocidos para mí
Varios de ellos pertenecientes a sabios de la antigüedad
A filósofos medievales de menor cuantía
A simples vecinos de la localidad que ellas habitaban.

Abandonar de buenas a primeras la universidad
Romper con los encantos de la vida galante
Interrumpirlo todo
Con el objeto de satisfacer los caprichos de tres ancianas histéricas
Llenas de toda clase de problemas personales
Resultaba, para una persona de mi carácter,
Un porvenir poco halagador
Una idea descabellada.

Cuatro años viví en El Túnel, sin embargo,
En comunidad con aquellas temibles damas
Cuatro años de martirio constante
De la mañana a la noche.
Las horas de regocijo que pasé debajo de los árboles
Tornáronse pronto en semanas de hastío
En meses de angustia que yo trataba de disimular al máximo
Con el objeto de no despertar curiosidad en torno a mi persona,
Tornáronse en años de ruina y de miseria
¡En siglos de prisión vividos por mi alma
En el interior de una botella de mesa!

Mi concepción espiritualista del mundo
Me situó ante los hechos en un plano de franca inferioridad:
Yo lo veía todo a través de un prisma
En el fondo del cual las imágenes de mis tías se entrelazaban como hilos vivientes
Formando una especie de malla impenetrable
Que hería mi vista haciéndola cada vez más ineficaz.

Un joven de escasos recursos no se da cuenta de las cosas.
Él vive en una campana de vidrio que se llama Arte
Que se llama Lujuria, que se llama Ciencia
Tratando de establecer contacto con un mundo de relaciones
Que sólo existen para él y para un pequeño grupo de amigos.

Bajo los efectos de una especie de vapor de agua
Que se filtraba por el piso de la habitación
Inundando la atmósfera hasta hacerlo todo invisible
Yo pasaba las noches ante mi mesa de trabajo
Absorbido en la práctica de la escritura automática.

Pero para qué profundizar en estas materias desagradables
Aquellas matronas se burlaron miserablemente de mí
Con sus falsas promesas, con sus extrañas fantasías
Con sus dolores sabiamente simulados
Lograron retenerme entre sus redes durante años
Obligándome tácitamente a trabajar para ellas
En faenas de agricultura
En compraventa de animales
Hasta que una noche, mirando por la cerradura
Me impuse que una de ellas
¡Mi tía paralítica!
Caminaba perfectamente sobre la punta de sus piernas
Y volví a la realidad con un sentimiento de los demonios.

 

SOLILÓQUIO DO INDIVÍDUO
Eu sou o Indivíduo.
Primeiro vivi em uma rocha
(Ali inscrevi algumas figuras).
Logo busquei um lugar mais apropriado.
Eu sou o Indivíduo.
Primeiro tive que procurar alimentos,
Buscar peixes, pássaros, buscar lenha
(Logo me preocuparia dos demais assuntos).
Fazer uma fogueira,
Lenha, lenha, onde encontrar um pouco de lenha,
Alguma lenha pra fazer uma fogueira,
Eu sou o Indivíduo.
Ao mesmo tempo me perguntei,
Fui a um abismo cheio de ar;
Respondeu-me uma voz:
Eu sou o Indivíduo.
Depois tratei de mudar-me a outra rocha,
Ali também inscrevi figuras,
Inscrevi um rio, búfalos,
Eu sou o Indivíduo.
Mas não. Enfastiei-me das coisas que fazia,
O fogo me maçava,
Queria ver mais,
Eu sou o Indivíduo.
Desci a um vale banhado por um rio,
Ali encontrei o que necessitava,
Encontrei um povo selvagem,
Uma tribo,
Eu sou o Indivíduo.
Vi que ali faziam algumas coisas,
Figuras inscreviam nas rochas,
Faziam fogo, também faziam fogo!
Eu sou o Indivíduo.
Perguntaram-me de onde vinha,
Respondi sim, que não tinha planos determinados,
Respondi não, que daqui em diante.
Bem.
Peguei então uma pedra que encontrei em um rio
E comecei a trabalhar com ela,
Comecei a lapidar-lhe,
Dela fiz uma parte de minha própria vida.
Isso está demais.
Cortei umas árvores pra navegar,
Buscava peixes,
Buscava diferentes coisas,
(Eu sou o Indivíduo).

Até que comecei a enfastiar-me novamente,
As tempestades enfastiam,
Os trovões, os relâmpagos,
Eu sou o Indivíduo.
Bem. Pus-me a pensar um pouco,
Perguntas estúpidas me vinham à cabeça,
Falsos problemas.
Então comecei a vagar por uns bosques,
Cheguei a uma árvore e a outra,
Cheguei a uma nascente,
A uma vala em que se viam alguns ratos,
Aqui estou eu, disse então,
Haveis visto por aqui uma tribo,
Um povo selvagem que faz fogo?
Assim me desloquei rumo ao oeste,
Acompanhado por outros seres
Ou tanto melhor sozinho.
Para avistar há que acreditar, diziam-me,
Eu sou o Indivíduo.
Formas entrevia na penumbra,
Nuvens talvez,
Talvez entrevisse nuvens, entrevisse relâmpagos,
Enquanto isso, já dias havia passado,
Sentia-me morrer.
Inventei umas máquinas,
Construí relógios,
Armas, veículos,
Eu sou o Indivíduo.
Só havia tempo para enterrar meus mortos,
Só havia tempo para semear,
Eu sou o Indivíduo.
Anos mais tarde concebi umas coisas,
Umas formas,
Cruzei as fronteiras,
E permaneci parado em uma espécie de galé,
Um barco que navegou quarenta dias,
Quarenta noites,
Eu sou o Indivíduo.
Logo vieram umas secas,
Vieram umas guerras,
Espécies de raios invadiram o vale,
Mas devia seguir a diante,
Devia produzir.
Produzi ciência, verdades imutáveis,
Produzi tânagras,
Dei luz a livros de milhares páginas,
Inchou-me o rosto,
Construí um gramofone,
A máquina de costura,
Começaram a aparecer os primeiros automóveis,

Eu sou o Indivíduo.
Alguém segregava planetas,
Árvores segregavam!
Mas eu segregava ferramentas,
Móveis, objetos de escrivaninha,
Eu sou o Indivíduo.
Construíram-se também cidades,
Rotas,
Instituições religiosas saíram de moda,
Buscavam ventura, buscavam felicidade,
Eu sou o Indivíduo.
Depois, me dediquei a viajar melhor,
A praticar, praticar idiomas,
Idiomas,
Eu sou o Indivíduo.
Olhei por uma fechadura,
Sim, olhei, o que falo, olhei,
Por trás de umas cortinas,
Eu sou o Indivíduo,
Bem.
Melhor é talvez que se volte a esse vale,
E comece a inscrever novamente,
De trás para frente inscrever,
O mundo ao contrário.
Mas não: a vida não tem sentido.

SOLILOQUIO DEL INDIVIDUO

Yo soy el Individuo.
Primero viví en una roca
(Allí grabé algunas figuras).
Luego busqué un lugar más apropiado.
Yo soy el Individuo.
Primero tuve que procurarme alimentos,
Buscar peces, pájaros, buscar leña,
(Ya me preocuparía de los demás asuntos).
Hacer una fogata,
Leña, leña, dónde encontrar un poco de leña,
Algo de leña para hacer una fogata,
Yo soy el Individuo.
Al mismo tiempo me pregunté,
Fui a un abismo lleno de aire;
Me respondió una voz:
Yo soy el Individuo.
Después traté de cambiarme a otra roca,
Allí también grabé figuras,
Grabé un río, búfalos,
Yo soy el Individuo.
Pero no. Me aburrí de las cosas que hacía,
El fuego me molestaba,
Quería ver más,
Yo soy el Individuo.
Bajé a un valle regado por un río,
Allí encontré lo que necesitaba,
Encontré un pueblo salvaje,
Una tribu,
Yo soy el Individuo.
Vi que allí se hacían algunas cosas,
Figuras grababan en las rocas,
Hacían fuego, ¡también hacían fuego!
Yo soy el Individuo.
Me preguntaron que de dónde venía.
Contesté que sí, que no tenía planes determinados,
Contesté que no, que de allí en adelante.
Bien.
Tomé entonces un trozo de piedra que encontré en un río
Y empecé a trabajar con ella,
Empecé a pulirla,
De ella hice una parte de mi propia vida.
Pero esto es demasiado largo.
Corté unos árboles para navegar,
Buscaba peces,
Buscaba diferentes cosas,
(Yo soy el Individuo).

Hasta que me empecé a aburrir nuevamente.
Las tempestades aburren,
Los truenos, los relámpagos,
Yo soy el Individuo.
Bien. Me puse a pensar un poco,
Preguntas estúpidas se me venían a la cabeza.
Falsos problemas.
Entonces empecé a vagar por unos bosques.
Llegué a un árbol y a otro árbol;
Llegué a una fuente,
A una fosa en que se veían algunas ratas:
Aquí vengo yo, dije entonces,
¿Habéis visto por aquí una tribu,
Un pueblo salvaje que hace fuego?
De este modo me desplacé hacia el oeste
Acompañado por otros seres,
O más bien solo.
Para ver hay que creer, me decían,
Yo soy el Individuo.
Formas veía en la obscuridad,
Nubes tal vez,
Tal vez veía nubes, veía relámpagos,
A todo esto habían pasado ya varios días,
Yo me sentía morir;
Inventé unas máquinas,
Construí relojes,
Armas, vehículos,
Yo soy el Individuo.
Apenas tenía tiempo para enterrar a mis muertos,
Apenas tenía tiempo para sembrar,
Yo soy el Individuo.
Años más tarde concebí unas cosas,
Unas formas,
Crucé las fronteras
y permanecí fijo en una especie de nicho,
En una barca que navegó cuarenta días,
Cuarenta noches,
Yo soy el Individuo.
Luego vinieron unas sequías,
Vinieron unas guerras,
Tipos de color entraron al valle,
Pero yo debía seguir adelante,
Debía producir.
Produje ciencia, verdades inmutables,
Produje tanagras,
Di a luz libros de miles de páginas,
Se me hinchó la cara,
Construí un fonógrafo,
La máquina de coser,
Empezaron a aparecer los primeros automóviles,

Yo soy el Individuo.
Alguien segregaba planetas,
¡Árboles segregaba!
Pero yo segregaba herramientas,
Muebles, útiles de escritorio,
Yo soy el Individuo.
Se construyeron también ciudades,
Rutas
Instituciones religiosas pasaron de moda,
Buscaban dicha, buscaban felicidad,
Yo soy el Individuo.
Después me dediqué mejor a viajar,
A practicar, a practicar idiomas,
Idiomas,
Yo soy el Individuo.
Miré por una cerradura,
Sí, miré, qué digo, miré,
Para salir de la duda miré,
Detrás de unas cortinas,
Yo soy el Individuo.
Bien.
Mejor es tal vez que vuelva a ese valle,
A esa roca que me sirvió de hogar,
Y empiece a grabar de nuevo,
De atrás para adelante grabar
El mundo al revés.
Pero no: la vida no tiene sentido.

A MONTANHA RUSSA

Durante meio século
A poesia foi
O paraíso do tonto solene
Até que vim eu
E me instalei com minha montanha russa.

Subam, se lhes parece.
Claro que não respondo se descerem
Vertendo sangue pela boca e nariz.

LA MONTANHA RUSA
Durante medio siglo
La poesía fue
El paraíso del tonto solemne
Hasta que vine yo
Y me instale com mi montaña rusa.

Suban, si les parece.
Claro que yo no respondo si bajan
Echando sangre por boca y narices.
 

 

 

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