O jardim das delícias, de Olga Orozco

olga

Tradução: Jeff Vasques, originalmente publicada no Eu passarin.

Acaso é nada mais que uma zona de abismos e vulcões em
plena ebulição, predestinada às cegas para as cerimônias da
espécie nesta inexplicável travessia para baixo? Ou talvez um
atalho, uma emboscada obscura onde o demônio aspira a inocência
e sela à sangue e fogo sua condenação na estirpe da alma? Ou
quiça tão somente uma região marcada como uma cruz de encontro
e desencontro entre dois corpos submissos como sóis?
Não. Nem viveiro da Perpetuação, nem frágua do pecado original,
nem armadilha do instinto, por mais que apenas um vento exasperado
propague por sua vez a fumaça, a combustão e a cinza. Nem sequer
um lugar, ainda que se precipite o firmamento e haja um céu que
foje, inumerável, como todo instantâneo paraíso.
Sozinha, só um número insensato, uma prega nas membranas
da ausência, um relâmpago sepultado em um jardim.
Mas basta o desejo, o sobressalto do amor, a sirena da
viagem, e então é mais um nó tenso em torno do feixe de
todos os sentidos e suas múltiplas ramas ramificadas até a
árvore da primeira tentação, até o jardim das delícias e
suas secretas ciências de extravio que se expandem de repente
da cabeça até os pés igual que um sorriso, o mesmo
que uma rede de ansiosos filamentos arrancados dum raio, a
corrente eriçada arrastando-se em busca do extermínio ou da saída,
escorrendo-se para dentro, rastejada por esses sortilégios que são
como tentáculos de mar e que arrebatem com vertigem indizível
até o fundo do tato, até o centro sem fim que se desfunda
caindo desde do alto, enquanto passa e trespassa essa orgânica
noite interrogante de cristas e focinhos e buzinas, com
ofegar de besta fugitiva, com seu flanco atiçado pelo chicote
do horizonte inalcançável, com seus olhos abertos aos mistério
da dupla treva, derrubando com cada sacudida a nebulosa
maquinaria do planeta, pondo em suspensão corolas como
lábios, esferas como frutos palpitantes, borbulhas onde pulsa
a espuma de outro mundo, constelações extraídas vivas de seu
prado natal, um êxodo de galáxias semelhantes a plumas girando
loucamente em um grande aluvião, nesse torvelinho estrondoso que
já se precipita pelo funil da morte com todo o universo
em expansão, com todo o universo em contração para o parto
do céu, e faz estalar de repente a redoma e dispersa no
sangue a criação.
O sexo, sim,
melhor, uma medida:
a metade do desejo, que é apenas a metade do amor.

 

***

El jardín de las delicias
Olga Orozco

¿Acaso es nada más una zona de abismos y volcanes en plena ebullición, predestinada a ciegas para las ceremonias de la especie en esta inexplicable travesía hacia abajo? ¿O tal vez un atajo, una emboscada oscura donde el demonio aspira la inocencia y sella a sangre y fuego su condena en la estirpe del alma? ¿O tan sólo quizás una región marcada como un cruce de encuentro y desencuentro entre dos cuerpos sumisos como soles?
.
No. Ni vivero de la perpetuación, ni fragua del pecado original, ni trampa del instinto, por más que un soIo viento exasperado propague a la vez el humo, la combustión y la ceniza. Ni siquiera un lugar, aunque se precipite el firmamento y haya un cielo que huye, innumerable, como todo instantáneo paraíso.A solas, sólo un número insensato, un pliegue en las membranas de la ausencia, un relámpago sepultado en un jardín.
.
Pero basta el deseo, el sobresalto del amor, la sirena del viaje, y entonces es más bien un nudo tenso en torno al haz de todos los sentidos y sus múltiples ramas ramificadas hasta el árbol de la primera tentación, hasta el jardín de las delicias y sus secretas ciencias de extravío que se expanden de pronto de la cabeza hasta los pies igual que una sonrisa, lo mismo que una red de ansiosos filamentos arrancados al rayo, la corriente erizada reptando en busca del exterminio o la salida, escurriéndose adentro, arrastrada por esos sortilegios que son como tentáculos de mar y arrebatan con vértigo indecible hasta el fondo del tacto, hasta el centro sin fin que se desfonda cayendo hacia lo alto, mientras pasa y traspasa esa orgánica noche interrogante de crestas y de hocicos y bocinas, con jadeo de bestia fugitiva, con su flanco azuzado por el látigo del horizonte inalcanzable, con sus ojos abiertos al misterio de la doble tiniebla, derribando con cada sacudida la nebulosa maquinaria del planeta, poniendo en suspensión corolas como labios, esferas como frutos palpitantes, burbujas donde late la espuma de otro mundo, constelaciones extraídas vivas de su prado natal, un éxodo de galaxias semejantes a plumas girando locamente en el gran aluvión, en ese torbellino atronador que ya se precipita por el embudo de la muerte con todo el universo en expansión, con todo el universo en contracción para el parto del cielo, y hace estallar de pronto la redoma y dispersa en la sangre la creación.
.
El sexo, sí,
más bien una medida:
la mitad del deseo, que es apenas la mitad del amor.

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