Os Bêbados e os Sonâmbulos, de Bernardo Carvalho

Não sei como surgiu aquela história de língua. Ele colocou a língua para fora. Estava toda manchada, como se tivesse sido desenhada, como o próprio corpo. “Está vendo esses desenhos?”, ele perguntou. Abri os olhos. “Também pensei que fossem uma doença quando os percebi pela primeira vez”, disse. “Fui ao médico. Ele chamou a enfermeira: ‘Venha ver um caso de língua geográfica’, disse. São casos raríssimos, de línguas desenhadas. Nasci assim, mas não sabia. Foi o Andy [estava falando do Warhol] que me falou pela primeira vez da minha língua. Queria muito fazer um filme sobre ela. Minha língua lambendo tinta e pintando uma tela por seis horas ininterruptas. Tive um choque quando descobri que tinha língua geográfica. Você vê?”, disse, colocando de novo a língua para fora, “são como países, continentes.” Depois, também sem quê nem por quê, voltou a falar do pintor brasileiro, de como, durante um ano, arquitetou seu plano para tirar a tela que retratava a mulher morta do depósito do Metropolitan, o museu?… E, no final, quando a manhã já vinha nascendo, virou-se para mim, com a cabeça recostada no travesseiro e as duas mãos na nuca, e arrematou: “Que língua eu tenho!”.

Os Bêbados e os Sonâmbulos. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, página 80

[into English]

I don’t know how that tongue talk came out. He showed his tongue out. It was all marked, as if it had been scrawled, like his own body. “Do you see these scrawls?” he asked me. I opened my eyes. “I also thought they were a disease when I noticed them for the first time”, he said. “I went to the doctor’s. He called the nurse. ‘Come here to see a case of geographic tongue’, he told her. Those are really rare cases of scrawled tongues. I was born this way, but I didn’t know about that. It was Andy [he was mentioning Wahlrol] who told me for the first time about my tongue. He truly wanted to make a movie about it. My tongue licking ink and painting on a canvas for six ongoing hours. I was shocked when I discovered I had a geographic tongue. Can you see it?”, he said, bringing his tongue out again, “they’re like countries, continents.” Afterwards, once more without a reason, he continued to tell me of the Brazilian painter, of how he had designed, during a whole year, his plan to get the canvas that depicted the dead woman out of the Metropolitan, the museum?… And, in the end, when the morning was already rising, he turned to me, his head lain on the pillow with both hands supporting his neck, and concluded: “What a tongue of mine!”

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