On the Metro – C.K Williams

On the metro, I have to ask a young woman to move the packages beside her to make room for me;
she’s reading, her foot propped on the seat in front of her, and barely looks up as she pulls them to her.
I sit, take out my own book—Cioran, The Temptation to Exist—and notice her glancing up from hers
to take in the title of mine, and then, as Gombrowicz puts it, she “affirms herself physically,” that is,
becomes present in a way she hadn’t been before: though she hasn’t moved, she’s allowed herself
to come more sharply into focus, be more accessible to my sensual perception, so I can’t help but remark
her strong figure and very tan skin—(how literally golden young women can look at the end of summer.)
She leans back now, and as the train rocks and her arm brushes mine she doesn’t pull it away;
she seems to be allowing our surfaces to unite: the fine hairs on both our forearms, sensitive, alive,
achingly alive, bring news of someone touched, someone sensed, and thus acknowledged, known.

I understand that in no way is she offering more than this, and in truth I have no desire for more,
but it’s still enough for me to be taken by a surge, first of warmth then of something like its opposite:
a memory—a girl I’d mooned for from afar, across the table from me in the library in school now,
our feet I thought touching, touching even again, and then, with all I craved that touch to mean,
my having to realize it wasn’t her flesh my flesh for that gleaming time had pressed, but a table leg.
The young woman today removes her arm now, stands, swaying against the lurch of the slowing train,
and crossing before me brushes my knee and does that thing again, asserts her bodily being again,
(Gombrowicz again), then quickly moves to the door of the car and descends, not once looking back,
(to my relief not looking back), and I allow myself the thought that though I must be to her again
as senseless as that table of my youth, as wooden, as unfeeling, perhaps there was a moment I was not.

No Metrô – tradução por Mariana Ruggieri

No metrô, eu tenho que pedir a uma jovem mulher que ela tire as sacolas ao seu lado para dar espaço para [mim;
ela está lendo, seu pé apoiado no assento a sua frente, e quase não olha enquanto as recolhe para si.
Eu sento, tiro meu próprio livro – Cioran, A Tentação de Existir – e percebo ela desviando o olhar do seu
para absorver o título do meu e assim, como explicado por Gombrowicz, “ela se afirma fisicamente”, isto é,
torna-se presente de uma maneira que não estivera antes: embora não tenha se movido, ela se permite
ver em mais nítido foco, ser mais acessível a minha percepção sensorial, então não posso deixer de notar
seu semblante forte e pele bronzeada – (como literalmente douradas podem ser as jovens mulheres ao fim do [verão.)
Ela se reclina para trás, e enquanto o trem balança e seu braço encosta o meu ela não se afasta;
ela parece estar deixando que nossas superficies se unam: os pelos finos de ambos nossos antebraços, [sensíveis, vivos,
dolorosamente vivos, trazem notícias de alguém tocado, alguém sentido, e portanto reconhecido, conhecido.

Eu entendo que ela não está oferecendo nada além disso, e na verdade nem quero mais do que isso,
mas é ainda assim o suficiente para que eu seja tomado por uma descarga, primeiro de calor e depois de [algo como seu oposto:
uma memória – uma menina por quem suspirava de longe, do outro lado da mesa na biblioteca da escola [agora
nossos pés eu pensava se tocando, se tocando de novo, e então com tudo que eu esperava daquele toque [significar,
tive que perceber que não era sua carne minha carne que naquela duração luminosa se tocaram, mas o pé da [mesa.
A jovem mulher hoje remove seu braço agora, se levanta, oscilando nas guinadas do trem que desacelera,
e passando por mim rela no meu joelho e faz aquilo de novo, afirma seu ser corpóreo de novo,
(Gombrowicz de novo), e rapidamente segue pela porta do vagão e desce, sem nunca olhar para trás,
(para meu alívio não olhando para trás) e eu me permito pensar que embora eu seja para ela de novo
imperceptível como a mesa da minha juventude, como de madeira, como intangível, talvez houve um momento [em que não.

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2 comentários sobre “On the Metro, de C.K Williams

  1. Outra opção, desta vez em português europeu:
    No metro, tenho de pedir a uma jovem que desvie os embrulhos dela para arranjar espaço para mim; está a ler, tem um pé apoiado no banco da frente, e quase nem levanta os olhos enquanto os puxa para si. Sento-me, tiro o meu livro – A Tentação de Existir, de Cioran – e reparo que desvia o olhar do livro dela para ler o título do meu, e então, como diz Gombrowicz, ela «afirma-se fisicamente», ou seja, torna-se presente como não estivera antes: ainda que não se tenha movido, permitiu-se tomar uma posição mais nítida, ficar mais acessível à minha percepção sensual, de maneira a eu não poder deixar de reparar na sua figura forte e numa pele muito bronzeada – como ficam literalmente douradas as jovens, no final do verão. Agora inclina-se e à medida que o comboio balança, o braço dela roça no meu mas não o afasta, parece estar a permitir que as nossas superfícies se toquem: os pelos finos de ambos os antebraços, sensíveis, vivos, dolorosamente vivos, trazem notícias de alguém tocado, alguém sentido e assim identificado, conhecido.
    Percebo que, de maneira alguma, ela tem mais do que isto para oferecer e a verdade é que não desejo mais, mas ainda assim é o suficiente para que uma vaga me assole, primeiro de calor depois de algo quase oposto: uma lembrança – uma rapariga, por quem suspirei outrora, do outro lado da mesa, agora na biblioteca da escola, os nossos pés que eu pensava tocarem-se, e voltarem a tocar-se, e então, com tudo o que desejei que aquele tocar representasse, tive de perceber que, durante aquele período glorioso, não era a carne dela que a minha empurrara mas sim uma perna da mesa. A jovem de hoje afasta agora o braço, levanta-se, balouçando contra o solavanco do comboio vagaroso, passa por mim, roça o meu joelho e volta afazer aquilo, atesta mais uma vez sua existência física (de novo Gombrowicz), então encaminha-se rapidamente para a porta da carruagem e desce, sem olhar para trás nem uma única vez (sem olhar para trás, para alívio meu) deixando-se assim pensar que apesar de eu ser para ela, mais uma vez tão sem sentido como a perna da mesa da minha juventude, tão de madeira, tão insensível, talvez por um momento, eu não o fosse.

    1. Cristina, legal a iniciativa. Permite entrever uma outra temática, talvez a ser explorada futuramente aqui, das possibilidades de tradução diferente dentro do que convencionalmente entendemos como a mesma língua. De qualquer forma, acho que há algumas soluções que você encontrou que soariam bem no Brasil também, como “comboio vagaroso”. Aproveito também para dizer que nosso blog é aberto e que se você tiver interesse em contribuir com traduções, basta entrar em contato com a gente via nossa página no facebook.

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