Charles Bukowski – My Groupie

19 Janeiro 2009

Charles Bukowski
My Groupie

I read last Saturday in the
redwoods outside of Santa Cruz
and I was about 3/4’s finished
when I heard a long high scream
and a quite attractive
young girl came running toward me
long gown & divine eyes of fire
and she leaped up on the stage
and screamed: “I WANT YOU!
I WANT YOU! TAKE ME! TAKE
ME!”
I told her, “look, get the hell
away from me.”
but she kept tearing at my
clothing and throwing herself
at me.
“where were you,” I
asked her, “when I was living
on one candy bar a day and
sending short stories to the
Atlantic Monthly?”
she grabbed my balls and almost
twisted them off. her kisses
tasted like shitsoup.
2 women jumped up on the stage
and
carried her off into the
woods.
I could still hear her screams
as I began the next poem.
mabye, I thought, I should have
taken her on stage in front
of all those eyes.
but one can never be sure
whether it’s good poetry or
bad acid.

Tomaz Amorim Izabel
Minha groupie

Eu lia sábado passado nos
bosques fora de Santa Cruz
e tinha quase terminado 3/4
quando ouvi um grito longo e alto
e uma jovem garota
bem atraente veio correndo para mim
longo vestido & divinos olhos de fogo
e ela saltou sobre o palco
e gritou: “EU QUERO VOCÊ!
EU QUERO VOCÊ! ME PEGA! ME
PEGA!”
Eu disse a ela, “olha, dá o fora
de perto de mim”.
mas ela continuou se agarrando na minha
roupa e se jogando
em mim.
“onde você estava,” eu
perguntei a ela, “quando eu vivia
com uma barra de doce por dia e
mandava contos para o
Atlantic Monthly?”
ela agarrou minhas bolas e quase
arrancou elas fora. seus beijos
tinham gosto de sopa de merda.
2 mulheres subiram no palco
e
carregaram ela para fora
nos bosques.
Eu ainda conseguia ouvir seus gritos
quando comecei o próximo poema.
talvez, eu pensei, eu devia tê-la
pego no palco na frente
de todos aqueles olhos.
mas nunca se pode saber com certeza
se é poesia boa ou
ácido ruim.


O Corvo, de Helena Shwartz

23 Outubro 2008

 

BOPOH (Helena Shwartz)

 

Старый Ворон  сердце мое просил,

Воронятам своим отнести –
«А то закопают в землю тебя,
мне уж не выскрести».
«Злая птица,- ему отвечала я,-
ты Илью кормил и святых,
А меня ты сам готов сожрать,
Хоть, конечно, куда мне до них».
Отвечала птица:”Вымерзло все кругом.
Холодно, греться-то надо.
Я сердце снесу в ледяной свой дом,
Поклюют пусть иззябшие чада.
Не шутка – три сына и дочь…”
Я палку швырнула в него: Прочь!
Ночью проснулась от боли в груди –
О, какая боль – в сердце боль!
Спрыгнул Ворон с постели, на столик, к дверям
С клюва капает на пол кровь.

 

 

O CORVO (André Nogueira, trad.)

 

Um velho Corvo veio reclamar meu coraçāo

Para entregar a seus pequenos. “Eles te enterrarāo

Embaixo do terreno e nāo me obrigo a revolvê-lo”.

“Perversa ave”, eu lhe digo,

“Servias alimento aos santos e a Elias

E estás tu mesmo tāo a fim de devorar-me,

Conquanto, é claro, eu nao valha tanto assim…”

E a ave respondia:

“Secou-se toda área com a nevasca

Sendo preciso aconchegar a minha ilha.

Transportarei seu coraçāo pelo Alasca

E minha prole congelada o bicará.

Nāo estou com graça – sāo três filhos e uma filha…”

Arremessei-lhe um bastāo, gritando “Vá!”

E de uma dor no peito eu despertei na madrugada.

Ó, mas que dor! – era uma dor no coraçāo!

Saltou o Corvo do meu leito, pela mesa pra sacada

Babando sangue do seu bico pelo chāo.


Rainer Maria Rilke – Liebeslied

19 Setembro 2008

Rainer Maria Rilke
Liebeslied

Wie soll ich meine Seele halten, daß
sie nicht an deine rührt? Wie soll ich sie
hinheben über dich zu andern Dingen?
Ach gerne möcht ich sie bei irgendwas
Verlorenem im Dunkel unterbringen
an einer fremden stillen Stelle, die
nicht weiterschwingt, wenn deine Tiefen schwingen.
Doch alles, was uns anrührt, dich und mich,
nimmt uns zusammen wie ein Bogenstrich,
der aus zwei Saiten eine Stimme zieht.
Auf welches Instrument sind wir gespannt?
Und welcher Spieler hat uns in der Hand?
O süßes Lied.

Tomaz Amorim Izabel
Canção de Amor

Como segurar minha alma para que
ela não vibre na sua? Como posso
elevá-la sobre você até outras coisas?
Ah, gostaria tanto de abrigá-la em algo
esquecido na escuridão, em algum lugar
silencioso e estranho, que não ressoa
quando soam suas profundezas.
Mas tudo que nos toca, a você e a mim,
nos toma juntos como um arco de violino
que de duas cordas tira uma só voz.
Sobre qual instrumento nos estendemos?
E que instrumentista nos tem na mão?
Ó, doce canção.


Seamus Heaney – Blackberry-picking

10 Agosto 2008

Blackberry-picking
Seamus Heaney

Late August, given heavy rain and sun
week, the blackberries would ripen.
At first, just one, a glossy purple clot
Among others, red, green, hard as a knot.
You ate that first one and its flesh was sweet
Like thickened wine: summer’s blood was in it
Leaving stains upon the tongue and lust for
Picking. Then red ones inked up and that hunger
Sent us out with milk cans, pea tins, jam-pots
Where briars scratched and wet grass bleached our boots.
Round hayfields, cornfields and potato-drills
We trekked and picked until the cans were full,
Until the tinkling bottom had been covered
With green ones, and on top big dark blobs burned
Like a plate of eyes. Our hands were peppered
With thorn pricks, our palms sticky as Bluebeard’s.

We hoarded the fresh berries in the byre.
But when the bath was filled we found a fur,
A rat-grey fungus, glutting on our cache.
The juice was stinking too. Once off the bush
The fruit fermented, the sweet flesh would turn sour.
I always felt like crying. It wasn’t fair
That all the lovely canfuls smelt of rot.
Each year I hoped they’d keep, knew they would not.

Colhendo amoras
Tomaz Amorim Izabel

Fim de Agosto, devido ao sol e ao chuvão
Da semana, as amoras amadureciam.
Primeiro, lustrosa bolota roxa, só
Entre outras rubras, verdes, dura como um nó.
Você comeu a primeira e a carne era doce
Como vinho encorpado: como o sangue fosse
Do verão, manchando sua língua e te tentando
A colher. Então, as frutas se avermelhando
E a fome nos pôs com latas de leite e ervilha
Onde arranhava a erva molhada e enbranquecia
Nossas botas. Em volta dos campos de feno,
Milho e batata, colhemos até ’star pleno
O pote, até cobrir o fundo tilintante
De verde e o topo de negros nodos brilhantes
Como olhos. Mão de espinho temperada, nú
Nosso punho, grudento como o do Barba-Azul.

Guardamos as frutinhas frescas no celeiro.
Mas quando estava cheio encontramos no meio
Um fungo cinza fartando-se em nosso abrigo.
O suco também fedia. Fora do asilo
Da moita a fruta fermentou, o doce azedou.
Eu sempre queria chorar e nunca vou
Achar justo que as latas cheirem podridão.
Sempre quis que durassem, sabia que não.


Lee Harwood – QASIDA

24 Julho 2008

QASIDA
Lee Harwood

it’s that
the quiet room
the window open, trees outside
“blowing” in the wind.
the colour is called green.
the sky.
the colour is called blue.
(sigh) the crickets singing

windows open. You move . . .
No, not so much a moving
but the artificiality of containment
in one skin. “No man an island” (ha-ha Buddha)
. . . lonesome, huh?

THE music, THE pictures
(go walkabout)
Small wavy lines on the horizon

somewhere over the distant horizon
the distant city (I hadn’t thought of this,
but pull it in) and you

the children are sleeping
and you’re probably sitting in the big chair
reading or sewing something
It’s quarter past nine
I find you beautiful

***

the words come slowly. No . . .
your tongue the lips moving
the words reach out –
crude symbols – the hieroglyphs
sounds, not pictures

the touching beyond this –
I touch you

in the water
as though I’m in you

that joy
and skipping in the street
the children hanging on our arms

***

You know . . . – the signals (on the horizon?)
“blocked off” the ships at night
keep moving

these clear areas beyond the clutter
that clearing

on summer nights as we lie together . . .

there are green trees in the street
yes, there is the whole existence of
our bodies lying naked together
the two skins touching
the coolness of your breasts
the touch

The setting . . .
it doesn’t really matter
We know
So much goes on around us

on the quay they’re playing music
we’ll eat and dance there,
when the wind gets cold
we’ll put our sweaters on
it’s that simple, really . . .

***

. . . the dry fields
Up on the mountain sides
white doves (of course) glide
on the air-currents hang there

someone said tumble
“the sound of words as they tumble
from men’s mouths” (or something like that)

there are these areas,
not to be filled, but . . .

it’s a bare canvas, but not empty –
all there under the surface

This is not about writing,
but the whole process
You step off the porch into the dry field
You’re there
You see, you’re there
Now, take it from there . . .

QASIDA
Mariana Ruggieri

é aquilo
o quarto quieto
a janela aberta, as árvores lá fora
“soprando ao vento”
a cor se chama verde
o céu.
a cor se chama azul
(suspiro) os grilos cantando

as janela abertas. Você se move…
Não, não propriamente um movimento
mas a artificialidade do refreamento
de uma pele. “Nenhum homem é uma ilha” (há-há Buddha)
… que solidão, hein?

A música, AS fotos
(vá dar uma volta)
Pequenas linhas ondulantes no horizonte

em algum lugar do distante horizonte
a cidade distante (não tinha pensado nisso,
mas chame-a para dentro) e você

as crianças dormindo
e você está provavelmente sentada na cadeira grande
lendo ou costurando alguma coisa
São nove e quinze
E te acho linda

***

as palavras surgem devagar. Não…
sua língua os lábios se mexendo
as palavras se oferecem –
símbolos grotescos – os hieróglifos
sons, fotos não

os toques além disso –
eu te toco

na água
como se eu estivesse em você

aquela alegria
e saltitando na rua
as crianças se dependurando dos nossos braços

***

Sabe… – os sinais (no horizonte?)
“bloqueados” os navios à noite
continuam se movendo

essas áreas claras além da desordem
aquela clareira

nas noites de verão ao nos deitarmos juntos…

há árvores verdes na rua
sim, há a existência toda dos
nosso corpos nus deitados juntos
as duas peles tocando
a frescura dos seus peitos
o toque

O contexto
ele não importa muito
Nós sabemos
Tanta coisa acontece ao nossa redor

no cais eles estão tocando música
comeremos e dançaremos lá
quando o vento ficar frio
poremos nossas blusas
é simples assim…

***

… os campos secos
Nas faces das montanhas
pombas brancas (é claro) deslizam
nas correntes de ar que andam por lá

alguém disse cambalhota
“o barulho das palavras que dão cambalhotas ao sair
das bocas dos homens” (ou algo assim)

existem essas áreas,
a não serem preenchidas, mas…

é uma tela branca, mas não vazia
tudo lá debaixo da superfície

Isso não é sobre escrever,
mas sobre o processo todo
Você sai da varanda para dentro do campo seco
Você está lá
Veja, você está lá
Agora, leve-o de lá adiante…


Edgar Allan Poe – Silence

22 Julho 2008

Silence
Edgar Allan Poe

There are some qualities- some incorporate things,
That have a double life, which thus is made
A type of that twin entity which springs
From matter and light, evinced in solid and shade.
There is a two-fold Silence- sea and shore-
Body and soul. One dwells in lonely places,
Newly with grass o’ergrown; some solemn graces,
Some human memories and tearful lore,
Render him terrorless: his name’s “No More.”
He is the corporate Silence: dread him not!
No power hath he of evil in himself;
But should some urgent fate (untimely lot!)
Bring thee to meet his shadow (nameless elf,
That haunteth the lone regions where hath trod
No foot of man,) commend thyself to God!

Silêncio
Leonardo Saraiva

Há certos atributos – incorpórea espécie -
que têm uma vida dupla, de onde surge então
um tipo de entidade gêmea que floresce
da matéria e da luz, substância e escuridão.
Há dualidade no Silêncio – mar e enseada -
corpo e alma. Parte mora nos ermos desvãos,
crescendo com o mato; uma graça ensaiada,
uma doutrina sofrida, uma recordação,
há muito que o desarme: seu nome é “O Não”.
Não o temas! É apenas Silêncio encarnado.
Nenhum poder malvado possui de seu;
mas caso teu destino (inoportuno fardo!)
faça-te conhecer sua sombra (elfo sem nome
que horroriza os longínquos lugares onde homem
jamais pisou), entrega-te à mercê de Deus!


Carlos Drummond de Andrade – Poema de Sete Faces (para o Alemão)

09 Julho 2008

Carlos Drummond de Andrade
Poema de sete faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do -bigode,

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

De Alguma poesia (1930)

Tomaz Amorim Izabel & Svenja Wesch
Gedicht der sieben Gesichter

Als ich geboren bin, hat ein krummer Engel
von denen, die im Schatten leben
gesagt: Geh, Carlos! Sei gauche im Leben.

Die Häuser belauern die Männer
die den Frauen hinterher laufen.
Der Nachmittag wäre vielleicht blau,
gäbe es nicht so viele Wünsche.

Die Straßenbahn voller Beine fährt vorbei:
weiße schwarze gelbe Beine.
Wieso so viele Beine, mein Gott, fragt mein Herz.
Aber meine Augen
fragen gar nichts.

Der Mann hinter dem Schnurrbart
ist ernst, einfach und stark.
Spricht wenig.
Wenige, seltene Freunde hat
der Mann hinter Brille und Schnurrbart.

Mein Gott, warum hast du mich verlassen
wissend, dass ich nicht Gott war
wissend, dass ich schwach war.

Welt Welt weite Welt,
wäre mein Name Roosewelt
wäre es ein Reim, keine Lösung.
Welt Welt weite Welt,
noch weiter ist mein Herz.

Ich sollte es dir nicht sagen
aber dieser Mond
aber dieser Kognak
macht die Leute verdammt gefühlsduselig.

Agradecimentos: Bruno Mendes e Professora Norma Wucherpfennig.


Poema de Marina Tsvetaeva.

09 Julho 2008

    

В лоб целовать – заботу стереть.
В лоб целую.
         
В глаза целовать – бессонницу снять.
В глаза целую.

В губы целовать – водой напоить.
В губы целую.
         
В лоб целовать – память стереть.
В лоб целую

5 июня, 1917.

 
……………………
 

 

Beijar a testa - despedir o pejo. 
E a testa - eu beijo.
          
Beijar olhos insones – um bocejo.
E os olhos - beijo.
             
Beijar a boca - embeber.
E eu beijo a boca.
 
Beijar a testa – esquecer.
E a testa – eu beijo.
      

5 de Junho, 1917.

                    

(André Nogueira, tradução)

 


Lee Harwood – Soft White

07 Julho 2008

Soft White
Lee Harwood

When the sea is as grey as her eyes
On these days for sure     the soft white
mist blown in from the ocean        the town dissolving
It all adds up        her bare shoulders

Nakedness         rolling in from the sea
on winter afternoons – a fine rain
looking down on the sand       & shingle
the waves breaking on the shore       & white

It is impossible to deny what
taken by surprise          then wonder
the many details of her body
to be held first now        then later

In body & mind       the fine rain outside
on winter afternoons        the nakedness
of her bare shoulders          as grey as her eyes
the sea rushing up the beach as white as

The whole outline called ‘geography’
meeting at a set of erotic points
lips   shoulders    breasts   stomach
the town dissolves      sex    thighs    legs

Outside       then across her nakedness
it rains in the afternoon     then the wonder
her body so young & firm       dissolves the town
in winter        grey as her eyes

Branco Macio
Mariana Ruggieri

Quando o mar é tão cinza quanto os seus olhos
Nestes dias com certeza                   o branco macio
da névoa soprando do oceano                 a cidade dissolvendo
tudo faz sentido        seus ombros descobertos

Nudez          rolando do mar
nas tardes de inverno – uma chuva fina
olhando para baixo na areia         & cascalho
as ondas quebrando na costa             & branco

É impossível negar o que
pego de surpresa           e imaginar
os muitos detalhes do corpo dela
serem tomados primeiro agora      e depois

Em corpo & mente       a fina chuva lá fora
nas tardes de inverno             a nudez
nos seus ombros nus          tão cinzas quanto seus olhos
o mar correndo praia adentro tão branco como

O contorno todo chamado “geografia”
se encontrando em um conjunto de pontos eróticos
lábios      ombros      peitos     barriga
a cidade se dissolve      sexo      coxas    pernas

Lá fora     e através da sua nudez
chove naquela tarde        e, assim, a maravilha
seu corpo tão jovem e firme           dissolve a cidade
no inverno       tão cinza quanto os seus olhos


Kobayashi Issa – Haikai

03 Julho 2008

Haikai

Kobayashi Issa

鳴鹿に紅葉もほろりほろり哉
naku shika ni momiji mo horori horori kana


Haikai

Leonardo Saraiva

Ao choro do cervo

não deslizam suavemente

as folhas marrons?!


Kobayashi Issa – Haikai

03 Julho 2008

Haikai

Kobayashi Issa

大降りや桜の陰に居過して

ooburi ya sakura no kage ni i-sugoshite


Haikai

Leonardo Saraiva

Forte chuvaral:

Na sombra da cerejeira

demorei-me muito.


Stéphane Mallarmé – Sainte

26 Junho 2008

Sainte
Mallarmé

 

À la fenêtre recelant
Le santal vieux qui se dédore
De sa viole étincelant
Jadis avec flûte ou mandore,

 

Est la Sainte pâle, étalant
Le livre vieux qui se déplie
Du Magnificat ruisselant
Jadis selon vêpre et complie :

 

À ce vitrage d’ostensoir
Que frôle une harpe par l’Ange
Formée avec son vol du soir
Pour la délicate phalange

 

Du doigt que, sans le vieux santal
Ni le vieux livre, elle balance
Sur le plumage instrumental,
Musicienne du silence.

 

 

Santa
Tomaz Amorim Izabel

 

Na janela resguardando o
Sândalo velho que desdoura
Da sua viola rutilando
Antes com a flauta ou a mandora,

 

Está a Santa pálida, portando
O livro velho que desvela
Do Magnificat derramando
Antes tal véspera e completa:

 

Neste vitral da santa urna
Que leve uma harpa o Anjo tange
Formada em voada noturna
Pela delicada falange

 

Do dedo que ela, sem bagagem
De sândalo, deita suspenso
Sobre esta instrumental plumagem,
A musicista do silêncio.

 

 

Tradução consultada: Andrei Cunha


Kobayashi Issa – Haikai

24 Junho 2008

Haikai
Kobayashi Issa

是きりと見えてどっさり春の雪
korekiri to miete dossari haru no yuki


Haikai
Leonardo Saraiva

Qual a derradeira,
revela-se amontoada
a primaveril neve.


Poema de Marina Tsvetaeva

11 Junho 2008

Píndaro – Fragmento 127 (ed. de Maehler).

10 Junho 2008

Píndaro
Fragmento 127
                    

Εη κα ρν κα ρωτι

χαρίζεσθαι κατ καιρόν·

μ πρεσβυτέραν ριθμο

δίωκε, θυμέ, πρξιν.

 

Alfredo Rezende

Fragmento 127

 

Que amar, assim como ao amor

recompensar, seja ao seu tempo;

demais, coração, não persigas

um já envelhecido intento. 
 

 


Sylvia Plath – Lady Lazarus

05 Junho 2008

Sylvia Plath
Lady Lazarus

I have done it again.
One year in every ten
I manage it–

A sort of walking miracle, my skin
Bright as a Nazi lampshade,
My right foot

A paperweight,
My face a featureless, fine
Jew linen.

Peel off the napkin
O my enemy.
Do I terrify?–

The nose, the eye pits, the full set of teeth?
The sour breath
Will vanish in a day.

Soon, soon the flesh
The grave cave ate will be
At home on me

And I a smiling woman.
I am only thirty.
And like the cat I have nine times to die.

This is Number Three.
What a trash
To annihilate each decade.

What a million filaments.
The peanut-crunching crowd
Shoves in to see

Them unwrap me hand and foot–
The big strip tease.
Gentlemen, ladies

These are my hands
My knees.
I may be skin and bone,

Nevertheless, I am the same, identical woman.
The first time it happened I was ten.
It was an accident.

The second time I meant
To last it out and not come back at all.
I rocked shut

As a seashell.
They had to call and call
And pick the worms off me like sticky pearls.

Dying
Is an art, like everything else.
I do it exceptionally well.

I do it so it feels like hell.
I do it so it feels real.
I guess you could say I’ve a call.

It’s easy enough to do it in a cell.
It’s easy enough to do it and stay put.
It’s the theatrical

Comeback in broad day
To the same place, the same face, the same brute
Amused shout:

‘A miracle!’
That knocks me out.
There is a charge

For the eyeing of my scars, there is a charge
For the hearing of my heart–
It really goes.

And there is a charge, a very large charge
For a word or a touch
Or a bit of blood

Or a piece of my hair or my clothes.
So, so, Herr Doktor.
So, Herr Enemy.

I am your opus,
I am your valuable,
The pure gold baby

That melts to a shriek.
I turn and burn.
Do not think I underestimate your great concern.

Ash, ash–
You poke and stir.
Flesh, bone, there is nothing there–

A cake of soap,
A wedding ring,
A gold filling.

Herr God, Herr Lucifer
Beware
Beware.

Out of the ash
I rise with my red hair
And I eat men like air.

Mariana Ruggieri
Lady Lázaro

Eu o fiz de novo
Um ano em cada dez
Eu agüento

Um tipo de milagre ambulante, minha pele
Brilhante tal qual um abajur nazista
Meu pé direito

Um peso de papel,
Minha face, como um pano inexpressivo, delicado
Em linho judeu.

Tire o lenço
Ó, meu inimigo
Eu te assusto?

O nariz, o orifício ocular, a dentição plena?
O hálito azedo
Se esvairá em um dia.

Logo, logo a carne
Que a gruta do túmulo comeu se sentirá
Em casa sobre mim

E eu, uma mulher sorridente.
Eu, com apenas trinta anos.
E como o gato tenho nove vezes para morrer

Esta é o número três.
Que lixo
Aniquilar a cada década.

Que milhões de filamentos.
A multidão vulgar
Se acotovela para ver

Eles me desembrulharem mão e pé.
O grande strip tease.
Senhores, senhoras

Eis as minhas mãos
Eis os meus joelhos.
Posso ser pele e osso

Contudo, sou a mesma, idêntica mulher.
Na primeira vez que aconteceu eu tinha dez anos.
Foi um acidente.

Na segunda vez eu pretendi
Agüentar e nem sequer voltar.
Eu fechei em pedra

Como uma concha do mar.
Eles tiveram que chamar e chamar
E arrancar de mim os vermes, pérolas grudentas.

Morrer
É uma arte como todo o resto.
Eu o faço excepcionalmente bem.

Eu o faço para saber o inferno.
Eu o faço para saber a real.
Eu suponho que se possa dizer que eu tenho um chamado.

É fácil fazê-lo em uma cela.
É fácil fazê-lo e permanecer estático.
É o teátrico

Retorno, em plena luz do dia
Ao mesmo lugar, ao mesmo rosto, aos mesmos brutos
Entretidos gritando

“um milagre!”
Isso me estarrece.
Há um custo

Para ver as minhas cicatrizes, há um custo
Para sentir o meu coração
Ele realmente pulsa.

E há um custo, um grande custo
Por uma palavra, ou um toque
Ou um pouco de sangue

Ou um pedaço do meu cabelo ou um pedaço da minha roupa.
Então, então, Herr Doktor.
Então, Herr Inimigo.

Eu sou sua composição
Eu sou seu pertence
O bebê de ouro puro

Que derrete a um grito estridente.
Eu me viro e ardo.
Não pense que eu subestimo sua grande preocupação.

Cinzas, cinzas
Você cutuca e revolve.
Carne, osso, não há nada lá.

Um sabonete,
Uma aliança,
Um dente de ouro.

Herr Deus, Herr Lúcifer
Cuidado
Cuidado.

De dentro das cinzas
Eu desponto, meu cabelo em fogo
E devoro homens como ar.

 

 


Robert Frost – Tuft of Flowers

05 Junho 2008

Tuft of Flowers

Robert Frost

 

 

I WENT to turn the grass once after one

Who mowed it in the dew before the sun.   

 

The dew was gone that made his blade so keen

Before I came to view the leveled scene.   

 

I looked for him behind an isle of trees;     

I listened for his whetstone on the breeze.  

 

But he had gone his way, the grass all mown,

And I must be, as he had been,—alone,   

 

‘As all must be,’ I said within my heart,

‘Whether they work together or apart.’      

 

But as I said it, swift there passed me by

On noiseless wing a ’wildered butterfly, 

 

Seeking with memories grown dim o’er night

Some resting flower of yesterday’s delight.

 

And once I marked his flight go round and round,     

As where some flower lay withering on the ground. 

 

And then he flew as far as eye could see,

And then on tremulous wing came back to me.  

 

I thought of questions that have no reply,

And would have turned to toss the grass to dry;  

 

But he turned first, and led my eye to look

At a tall tuft of flowers beside a brook, 

 

A leaping tongue of bloom the scythe had spared

Beside a reedy brook the scythe had bared.  

 

The mower in the dew had loved them thus,

By leaving them to flourish, not for us,  

 

Nor yet to draw one thought of ours to him.

But from sheer morning gladness at the brim.       

 

The butterfly and I had lit upon,

Nevertheless, a message from the dawn,  

 

That made me hear the wakening birds around,

And hear his long scythe whispering to the ground,   

 

And feel a spirit kindred to my own

So that henceforth I worked no more alone;  

 

But glad with him, I worked as with his aid,

And weary, sought at noon with him the shade;  

 

And dreaming, as it were, held brotherly speech

With one whose thought I had not hoped to reach.

 

‘Men work together,’ I told him from the heart,

‘Whether they work together or apart.’

 

 

 

Tufo de Flores

Leonardo Saraiva

 

Fui revirar o pasto após um camarada

O ter cortado no orvalho da madrugada.

 

Se fora o orvalho que afiara sua foice

Antes que até o plano descampado eu fosse.

 

Busquei ouvir sua pedra-de-amolar no vento;

E vê-lo atrás dos arbustos ainda intento.

 

Mas ceifada a grama, ele seguiu seu caminho,

E deve estar — como antes estava — sozinho,

 

‘Como os demais’, murmurei ao meu coração,

‘Quer trabalhem distantes, quer em união’.

 

Mal eu disse isso, uma ágil borboleta

em asas silenciosas fez uma pirueta

 

Buscando, antes que a noite as memórias estreite,

N’alguma antiga flor algum velho deleite.

 

Fixei minha atenção em seu vôo circular;

Uma flor murchava bem naquele lugar.

 

E então ela voou por caminhos sem fim

E então, em asas trêmulas, voltou para mim.

 

Divaguei sobre questões que não têm resposta

E já ia revirar a grama ali posta,

 

Mas ela, ao girar, meu olhar havia guiado

A um tufo de flores perto de um regato.

 

Um fiapo de vicejo a foice poupara

Ao lado do regato que a foice limpara.

 

Tanto as amara o camarada sob o orvalho

Ao consentir que florescesse aquele esgalho

 

Não para nós, por reconhecimento ou demora,

Mas pelo despontar da pujança da aurora.

 

Eu e a borboleta notamos, não obstante,

Uma mensagem no alvorecer deslumbrante,

 

Que me fez escutar os pássaros canoros

E o sussurro da longa foice contra o solo.

 

E uma alma se atou a mim com tal alinho

Que a partir dali não mais trabalhei sozinho. 

 

Alegre, trabalhei com o auxílio do amigo

E exaustos, buscamos, ao meio-dia, abrigo.

 

No sonho (pois o era!), tive cordiais

prosas com o que não vi nem verei jamais.

 

‘Homens lavram juntos’, pus-lhe do coração,

‘Quer trabalhem distantes, quer em união’.

 

 


Arthur Rimbaud – Voyelles

03 Junho 2008

Arthur Rimbaud
Voyelles 

A noir, E blanc, I rouge, U vert, O bleu: voyelles,
Je dirai quelque jour vos naissances latentes :
A, noir corset velu des mouches éclatantes
Qui bombinent autour des puanteurs cruelles,

Golfes d’ombre; E, candeurs des vapeurs et des tentes,
Lances des glaciers fiers, rois blancs, frissons d’ombelles;
I, pourpres, sang craché, rire des lêvres belles
Dans la colère ou les ivresses pénitentes;

U, cycles, vibrements divins des mers virides,
Paix des pâtis semés d’animaux, paix des rides
Que l’alchimie imprime aux grands fronts studieux ;

O, suprême Clairon plein des strideurs étranges,
Silences traversés des Mondes et des Anges :
- O l’Oméga, rayon violet de Ses Yeux !

 

Tomaz Fernandes Izabel
Vogais

A negro, E branco, I rubro, U verde, O azul: vogais,
Eu direi algum dia seus natais latentes:
A, negro corpete de moscas reluzentes
Que zombem ao redor de odores lamaçais,

Ilhas sombrias; E, alvor de tendas e ares,
Lanças de gelo, reis brancos, frisson de umbelas;
I, sangue escarrado, riso de bocas belas
Em cólera ou penitência ébria nos bares;

U, ciclos, divino vibrar do verde mar,
Paz dos campos semeados, paz do enrugar
Que a alquimia marca na testa de homens sóbrios;

O, sumo Clarim de estridentes desarranjos,
Silêncios trespassados de Mundos e Anjos:
- Ó, Ômega, raio violeta em Seus Olhos!