Stéphane Mallarmé – Sainte

26 Junho 2008

Sainte
Mallarmé

 

À la fenêtre recelant
Le santal vieux qui se dédore
De sa viole étincelant
Jadis avec flûte ou mandore,

 

Est la Sainte pâle, étalant
Le livre vieux qui se déplie
Du Magnificat ruisselant
Jadis selon vêpre et complie :

 

À ce vitrage d’ostensoir
Que frôle une harpe par l’Ange
Formée avec son vol du soir
Pour la délicate phalange

 

Du doigt que, sans le vieux santal
Ni le vieux livre, elle balance
Sur le plumage instrumental,
Musicienne du silence.

 

 

Santa
Tomaz Amorim Izabel

 

Na janela resguardando o
Sândalo velho que desdoura
Da sua viola rutilando
Antes com a flauta ou a mandora,

 

Está a Santa pálida, portando
O livro velho que desvela
Do Magnificat derramando
Antes tal véspera e completa:

 

Neste vitral da santa urna
Que leve uma harpa o Anjo tange
Formada em voada noturna
Pela delicada falange

 

Do dedo que ela, sem bagagem
De sândalo, deita suspenso
Sobre esta instrumental plumagem,
A musicista do silêncio.

 

 

Tradução consultada: Andrei Cunha


Arthur Rimbaud – Voyelles

03 Junho 2008

Arthur Rimbaud
Voyelles 

A noir, E blanc, I rouge, U vert, O bleu: voyelles,
Je dirai quelque jour vos naissances latentes :
A, noir corset velu des mouches éclatantes
Qui bombinent autour des puanteurs cruelles,

Golfes d’ombre; E, candeurs des vapeurs et des tentes,
Lances des glaciers fiers, rois blancs, frissons d’ombelles;
I, pourpres, sang craché, rire des lêvres belles
Dans la colère ou les ivresses pénitentes;

U, cycles, vibrements divins des mers virides,
Paix des pâtis semés d’animaux, paix des rides
Que l’alchimie imprime aux grands fronts studieux ;

O, suprême Clairon plein des strideurs étranges,
Silences traversés des Mondes et des Anges :
- O l’Oméga, rayon violet de Ses Yeux !

 

Tomaz Fernandes Izabel
Vogais

A negro, E branco, I rubro, U verde, O azul: vogais,
Eu direi algum dia seus natais latentes:
A, negro corpete de moscas reluzentes
Que zombem ao redor de odores lamaçais,

Ilhas sombrias; E, alvor de tendas e ares,
Lanças de gelo, reis brancos, frisson de umbelas;
I, sangue escarrado, riso de bocas belas
Em cólera ou penitência ébria nos bares;

U, ciclos, divino vibrar do verde mar,
Paz dos campos semeados, paz do enrugar
Que a alquimia marca na testa de homens sóbrios;

O, sumo Clarim de estridentes desarranjos,
Silêncios trespassados de Mundos e Anjos:
- Ó, Ômega, raio violeta em Seus Olhos!