Charles Bukowski – My Groupie

19 Janeiro 2009

Charles Bukowski
My Groupie

I read last Saturday in the
redwoods outside of Santa Cruz
and I was about 3/4’s finished
when I heard a long high scream
and a quite attractive
young girl came running toward me
long gown & divine eyes of fire
and she leaped up on the stage
and screamed: “I WANT YOU!
I WANT YOU! TAKE ME! TAKE
ME!”
I told her, “look, get the hell
away from me.”
but she kept tearing at my
clothing and throwing herself
at me.
“where were you,” I
asked her, “when I was living
on one candy bar a day and
sending short stories to the
Atlantic Monthly?”
she grabbed my balls and almost
twisted them off. her kisses
tasted like shitsoup.
2 women jumped up on the stage
and
carried her off into the
woods.
I could still hear her screams
as I began the next poem.
mabye, I thought, I should have
taken her on stage in front
of all those eyes.
but one can never be sure
whether it’s good poetry or
bad acid.

Tomaz Amorim Izabel
Minha groupie

Eu lia sábado passado nos
bosques fora de Santa Cruz
e tinha quase terminado 3/4
quando ouvi um grito longo e alto
e uma jovem garota
bem atraente veio correndo para mim
longo vestido & divinos olhos de fogo
e ela saltou sobre o palco
e gritou: “EU QUERO VOCÊ!
EU QUERO VOCÊ! ME PEGA! ME
PEGA!”
Eu disse a ela, “olha, dá o fora
de perto de mim”.
mas ela continuou se agarrando na minha
roupa e se jogando
em mim.
“onde você estava,” eu
perguntei a ela, “quando eu vivia
com uma barra de doce por dia e
mandava contos para o
Atlantic Monthly?”
ela agarrou minhas bolas e quase
arrancou elas fora. seus beijos
tinham gosto de sopa de merda.
2 mulheres subiram no palco
e
carregaram ela para fora
nos bosques.
Eu ainda conseguia ouvir seus gritos
quando comecei o próximo poema.
talvez, eu pensei, eu devia tê-la
pego no palco na frente
de todos aqueles olhos.
mas nunca se pode saber com certeza
se é poesia boa ou
ácido ruim.


Rainer Maria Rilke – Liebeslied

19 Setembro 2008

Rainer Maria Rilke
Liebeslied

Wie soll ich meine Seele halten, daß
sie nicht an deine rührt? Wie soll ich sie
hinheben über dich zu andern Dingen?
Ach gerne möcht ich sie bei irgendwas
Verlorenem im Dunkel unterbringen
an einer fremden stillen Stelle, die
nicht weiterschwingt, wenn deine Tiefen schwingen.
Doch alles, was uns anrührt, dich und mich,
nimmt uns zusammen wie ein Bogenstrich,
der aus zwei Saiten eine Stimme zieht.
Auf welches Instrument sind wir gespannt?
Und welcher Spieler hat uns in der Hand?
O süßes Lied.

Tomaz Amorim Izabel
Canção de Amor

Como segurar minha alma para que
ela não vibre na sua? Como posso
elevá-la sobre você até outras coisas?
Ah, gostaria tanto de abrigá-la em algo
esquecido na escuridão, em algum lugar
silencioso e estranho, que não ressoa
quando soam suas profundezas.
Mas tudo que nos toca, a você e a mim,
nos toma juntos como um arco de violino
que de duas cordas tira uma só voz.
Sobre qual instrumento nos estendemos?
E que instrumentista nos tem na mão?
Ó, doce canção.


Seamus Heaney – Blackberry-picking

10 Agosto 2008

Blackberry-picking
Seamus Heaney

Late August, given heavy rain and sun
week, the blackberries would ripen.
At first, just one, a glossy purple clot
Among others, red, green, hard as a knot.
You ate that first one and its flesh was sweet
Like thickened wine: summer’s blood was in it
Leaving stains upon the tongue and lust for
Picking. Then red ones inked up and that hunger
Sent us out with milk cans, pea tins, jam-pots
Where briars scratched and wet grass bleached our boots.
Round hayfields, cornfields and potato-drills
We trekked and picked until the cans were full,
Until the tinkling bottom had been covered
With green ones, and on top big dark blobs burned
Like a plate of eyes. Our hands were peppered
With thorn pricks, our palms sticky as Bluebeard’s.

We hoarded the fresh berries in the byre.
But when the bath was filled we found a fur,
A rat-grey fungus, glutting on our cache.
The juice was stinking too. Once off the bush
The fruit fermented, the sweet flesh would turn sour.
I always felt like crying. It wasn’t fair
That all the lovely canfuls smelt of rot.
Each year I hoped they’d keep, knew they would not.

Colhendo amoras
Tomaz Amorim Izabel

Fim de Agosto, devido ao sol e ao chuvão
Da semana, as amoras amadureciam.
Primeiro, lustrosa bolota roxa, só
Entre outras rubras, verdes, dura como um nó.
Você comeu a primeira e a carne era doce
Como vinho encorpado: como o sangue fosse
Do verão, manchando sua língua e te tentando
A colher. Então, as frutas se avermelhando
E a fome nos pôs com latas de leite e ervilha
Onde arranhava a erva molhada e enbranquecia
Nossas botas. Em volta dos campos de feno,
Milho e batata, colhemos até ’star pleno
O pote, até cobrir o fundo tilintante
De verde e o topo de negros nodos brilhantes
Como olhos. Mão de espinho temperada, nú
Nosso punho, grudento como o do Barba-Azul.

Guardamos as frutinhas frescas no celeiro.
Mas quando estava cheio encontramos no meio
Um fungo cinza fartando-se em nosso abrigo.
O suco também fedia. Fora do asilo
Da moita a fruta fermentou, o doce azedou.
Eu sempre queria chorar e nunca vou
Achar justo que as latas cheirem podridão.
Sempre quis que durassem, sabia que não.


Carlos Drummond de Andrade – Poema de Sete Faces (para o Alemão)

09 Julho 2008

Carlos Drummond de Andrade
Poema de sete faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do -bigode,

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

De Alguma poesia (1930)

Tomaz Amorim Izabel & Svenja Wesch
Gedicht der sieben Gesichter

Als ich geboren bin, hat ein krummer Engel
von denen, die im Schatten leben
gesagt: Geh, Carlos! Sei gauche im Leben.

Die Häuser belauern die Männer
die den Frauen hinterher laufen.
Der Nachmittag wäre vielleicht blau,
gäbe es nicht so viele Wünsche.

Die Straßenbahn voller Beine fährt vorbei:
weiße schwarze gelbe Beine.
Wieso so viele Beine, mein Gott, fragt mein Herz.
Aber meine Augen
fragen gar nichts.

Der Mann hinter dem Schnurrbart
ist ernst, einfach und stark.
Spricht wenig.
Wenige, seltene Freunde hat
der Mann hinter Brille und Schnurrbart.

Mein Gott, warum hast du mich verlassen
wissend, dass ich nicht Gott war
wissend, dass ich schwach war.

Welt Welt weite Welt,
wäre mein Name Roosewelt
wäre es ein Reim, keine Lösung.
Welt Welt weite Welt,
noch weiter ist mein Herz.

Ich sollte es dir nicht sagen
aber dieser Mond
aber dieser Kognak
macht die Leute verdammt gefühlsduselig.

Agradecimentos: Bruno Mendes e Professora Norma Wucherpfennig.


Stéphane Mallarmé – Sainte

26 Junho 2008

Sainte
Mallarmé

 

À la fenêtre recelant
Le santal vieux qui se dédore
De sa viole étincelant
Jadis avec flûte ou mandore,

 

Est la Sainte pâle, étalant
Le livre vieux qui se déplie
Du Magnificat ruisselant
Jadis selon vêpre et complie :

 

À ce vitrage d’ostensoir
Que frôle une harpe par l’Ange
Formée avec son vol du soir
Pour la délicate phalange

 

Du doigt que, sans le vieux santal
Ni le vieux livre, elle balance
Sur le plumage instrumental,
Musicienne du silence.

 

 

Santa
Tomaz Amorim Izabel

 

Na janela resguardando o
Sândalo velho que desdoura
Da sua viola rutilando
Antes com a flauta ou a mandora,

 

Está a Santa pálida, portando
O livro velho que desvela
Do Magnificat derramando
Antes tal véspera e completa:

 

Neste vitral da santa urna
Que leve uma harpa o Anjo tange
Formada em voada noturna
Pela delicada falange

 

Do dedo que ela, sem bagagem
De sândalo, deita suspenso
Sobre esta instrumental plumagem,
A musicista do silêncio.

 

 

Tradução consultada: Andrei Cunha


Arthur Rimbaud – Voyelles

03 Junho 2008

Arthur Rimbaud
Voyelles 

A noir, E blanc, I rouge, U vert, O bleu: voyelles,
Je dirai quelque jour vos naissances latentes :
A, noir corset velu des mouches éclatantes
Qui bombinent autour des puanteurs cruelles,

Golfes d’ombre; E, candeurs des vapeurs et des tentes,
Lances des glaciers fiers, rois blancs, frissons d’ombelles;
I, pourpres, sang craché, rire des lêvres belles
Dans la colère ou les ivresses pénitentes;

U, cycles, vibrements divins des mers virides,
Paix des pâtis semés d’animaux, paix des rides
Que l’alchimie imprime aux grands fronts studieux ;

O, suprême Clairon plein des strideurs étranges,
Silences traversés des Mondes et des Anges :
- O l’Oméga, rayon violet de Ses Yeux !

 

Tomaz Fernandes Izabel
Vogais

A negro, E branco, I rubro, U verde, O azul: vogais,
Eu direi algum dia seus natais latentes:
A, negro corpete de moscas reluzentes
Que zombem ao redor de odores lamaçais,

Ilhas sombrias; E, alvor de tendas e ares,
Lanças de gelo, reis brancos, frisson de umbelas;
I, sangue escarrado, riso de bocas belas
Em cólera ou penitência ébria nos bares;

U, ciclos, divino vibrar do verde mar,
Paz dos campos semeados, paz do enrugar
Que a alquimia marca na testa de homens sóbrios;

O, sumo Clarim de estridentes desarranjos,
Silêncios trespassados de Mundos e Anjos:
- Ó, Ômega, raio violeta em Seus Olhos!