“(…) As traduções modificadores requerem, se devem ser genuínas, o mais alto espírito poético. (…) O verdadeiro tradutor dessa espécie tem na realidade de ser o próprio artista e poder dar a idéia do todo assim ou assim a seu bel-prazer. Tem de ser o poeta do poeta e assim poder fazê-lo falar segundo sua própria idéia e a do poeta ao mesmo tempo. (…) Não meramente livros, tudo pode ser traduzido (…)”
Novalis. Pólen, Fragmento 68.
Tomaz Amorim Izabel
A Poetiza, Marina Ivânovna Tsvetáeva, tendo sido antipatizante da Revolução Bolchevique e entusiasta, durante certo tempo, do exército branco, a que pertenceu Sergey Yakhoblêvich Efron, seu marido e, tendo sido também, simplesmente, poeta, nunca foi, portanto, bem tratada na Rússia de Stalin, para onde retornou em 1939, depois que Efron fora preso, por espionagem pela KGB. Ali, Marina se inteira do fuzilamento do seu marido, e do destino da sua filha, mandada a um campo de trabalhos forçados, assim como soube, na ocasião, da prisão de sua irmã. É-lhe negado trabalho. Em 41, Marina é retirada para Yelabuga, vilarejo isolado da Sibéria. Ela requer moradia em Tschistopol. Nega-lhe a ordem para que retorne a Yelabuga. Em dois de Setembro de 1941, é encontrada enforcada, deixando dois bilhetes, um para seu filho, outro, com a nota seguinte: “verifiquem bem, não me enterrem viva!”. Diz-se que habitantes de Yelabuga afirmam terem visto, naquela tarde, agentes da polícia soviética entrando na sua cabana. Especula-se que Tsvetaeva tenha sido obrigada – a morrer.
Desde muito cedo, ela admirou o trabalho de Alexander Blok e dos simbolistas russos, dos quais Ana Andreevna Gorenko, do pseudônimo Ana Akhmátova, era um dos grandes nomes. Akhmátova liderou o grupo dos ‘Akhmeístas’. Conta-se de certo relacionamento dela com outro grande poeta da Rússia, Ossip Mandelstman – outro que, na década de 30, foi preso e executado (Nota: conta Machado Coelho que deve-se a sobrevivência dos poemas de Mendelstman, diante da sistemática apreensão e destruição deles, ao esforço de sua esposa, Nadiejda Mandelstman, que os memorizou todos, contrabandeando-os, aos poucos, para o exterior). Nessa época, Nikolay Gumiliôv, ex-marido de Akhmátova, foi executado, e também o seu novo marido foi preso, mandado para um campo de trabalhos. Nega-se trabalho para Ana, suas obras ficam proibidas, ela é levada à indigência. Foi chamada, diversas vezes, para as humilhantes assembléias perante as quais, obrigatoriamente, admitia ela mesma a própria culpa (pois, ela temia pela vida do filho, que também estava preso). Depois do degelo foi, finalmente, permitida uma edição (censurada) de seus poemas. Em 62 pôde receber uma visita estrangeira – Robert Frost – , em 65, com 76 anos, pôde ir a Oxford, na Inglaterra, receber um ‘doutoramento honorário’. Falece no mesmo ano.
Sergey Iessiênin, estudou em escola rural, sendo transferido para Moscou em 1912, onde teve maior contato com a tendência literária. Em 1917 casou-se com Zinaida Raich – que futuramente seria esposa de Mayerhold, diretor de teatro de Petrogrado – casal, logo, estupidamente assassinado pela polícia russa, pouco depois. Iessiênin apoiou a revolução Bolchevique. Era poeta de vida intensamente boêmia e viajou, com sua nova esposa, a americana Isadora Duncan, pela Europa Ocidental e pelos Estados Unidos. Em 1923, Iessiênin regressa à Rússia, sozinho, e dois anos mais tarde comete suicídio. O poema, que consta aqui traduzido, foi seu escrito último, rabiscado num papel com seu próprio sangue.
André Nogueira.