Stéphane Mallarmé – Sainte

26 Junho 2008

Sainte
Mallarmé

 

À la fenêtre recelant
Le santal vieux qui se dédore
De sa viole étincelant
Jadis avec flûte ou mandore,

 

Est la Sainte pâle, étalant
Le livre vieux qui se déplie
Du Magnificat ruisselant
Jadis selon vêpre et complie :

 

À ce vitrage d’ostensoir
Que frôle une harpe par l’Ange
Formée avec son vol du soir
Pour la délicate phalange

 

Du doigt que, sans le vieux santal
Ni le vieux livre, elle balance
Sur le plumage instrumental,
Musicienne du silence.

 

 

Santa
Tomaz Amorim Izabel

 

Na janela resguardando o
Sândalo velho que desdoura
Da sua viola rutilando
Antes com a flauta ou a mandora,

 

Está a Santa pálida, portando
O livro velho que desvela
Do Magnificat derramando
Antes tal véspera e completa:

 

Neste vitral da santa urna
Que leve uma harpa o Anjo tange
Formada em voada noturna
Pela delicada falange

 

Do dedo que ela, sem bagagem
De sândalo, deita suspenso
Sobre esta instrumental plumagem,
A musicista do silêncio.

 

 

Tradução consultada: Andrei Cunha


Kobayashi Issa – Haikai

24 Junho 2008

Haikai
Kobayashi Issa

是きりと見えてどっさり春の雪
korekiri to miete dossari haru no yuki


Haikai
Leonardo Saraiva

Qual a derradeira,
revela-se amontoada
a primaveril neve.


Poema de Marina Tsvetaeva

11 Junho 2008

Píndaro – Fragmento 127 (ed. de Maehler).

10 Junho 2008

Píndaro
Fragmento 127
                    

Εη κα ρν κα ρωτι

χαρίζεσθαι κατ καιρόν·

μ πρεσβυτέραν ριθμο

δίωκε, θυμέ, πρξιν.

 

Alfredo Rezende

Fragmento 127

 

Que amar, assim como ao amor

recompensar, seja ao seu tempo;

demais, coração, não persigas

um já envelhecido intento. 
 

 


Sylvia Plath – Lady Lazarus

05 Junho 2008

Sylvia Plath
Lady Lazarus

I have done it again.
One year in every ten
I manage it–

A sort of walking miracle, my skin
Bright as a Nazi lampshade,
My right foot

A paperweight,
My face a featureless, fine
Jew linen.

Peel off the napkin
O my enemy.
Do I terrify?–

The nose, the eye pits, the full set of teeth?
The sour breath
Will vanish in a day.

Soon, soon the flesh
The grave cave ate will be
At home on me

And I a smiling woman.
I am only thirty.
And like the cat I have nine times to die.

This is Number Three.
What a trash
To annihilate each decade.

What a million filaments.
The peanut-crunching crowd
Shoves in to see

Them unwrap me hand and foot–
The big strip tease.
Gentlemen, ladies

These are my hands
My knees.
I may be skin and bone,

Nevertheless, I am the same, identical woman.
The first time it happened I was ten.
It was an accident.

The second time I meant
To last it out and not come back at all.
I rocked shut

As a seashell.
They had to call and call
And pick the worms off me like sticky pearls.

Dying
Is an art, like everything else.
I do it exceptionally well.

I do it so it feels like hell.
I do it so it feels real.
I guess you could say I’ve a call.

It’s easy enough to do it in a cell.
It’s easy enough to do it and stay put.
It’s the theatrical

Comeback in broad day
To the same place, the same face, the same brute
Amused shout:

‘A miracle!’
That knocks me out.
There is a charge

For the eyeing of my scars, there is a charge
For the hearing of my heart–
It really goes.

And there is a charge, a very large charge
For a word or a touch
Or a bit of blood

Or a piece of my hair or my clothes.
So, so, Herr Doktor.
So, Herr Enemy.

I am your opus,
I am your valuable,
The pure gold baby

That melts to a shriek.
I turn and burn.
Do not think I underestimate your great concern.

Ash, ash–
You poke and stir.
Flesh, bone, there is nothing there–

A cake of soap,
A wedding ring,
A gold filling.

Herr God, Herr Lucifer
Beware
Beware.

Out of the ash
I rise with my red hair
And I eat men like air.

Mariana Ruggieri
Lady Lázaro

Eu o fiz de novo
Um ano em cada dez
Eu agüento

Um tipo de milagre ambulante, minha pele
Brilhante tal qual um abajur nazista
Meu pé direito

Um peso de papel,
Minha face, como um pano inexpressivo, delicado
Em linho judeu.

Tire o lenço
Ó, meu inimigo
Eu te assusto?

O nariz, o orifício ocular, a dentição plena?
O hálito azedo
Se esvairá em um dia.

Logo, logo a carne
Que a gruta do túmulo comeu se sentirá
Em casa sobre mim

E eu, uma mulher sorridente.
Eu, com apenas trinta anos.
E como o gato tenho nove vezes para morrer

Esta é o número três.
Que lixo
Aniquilar a cada década.

Que milhões de filamentos.
A multidão vulgar
Se acotovela para ver

Eles me desembrulharem mão e pé.
O grande strip tease.
Senhores, senhoras

Eis as minhas mãos
Eis os meus joelhos.
Posso ser pele e osso

Contudo, sou a mesma, idêntica mulher.
Na primeira vez que aconteceu eu tinha dez anos.
Foi um acidente.

Na segunda vez eu pretendi
Agüentar e nem sequer voltar.
Eu fechei em pedra

Como uma concha do mar.
Eles tiveram que chamar e chamar
E arrancar de mim os vermes, pérolas grudentas.

Morrer
É uma arte como todo o resto.
Eu o faço excepcionalmente bem.

Eu o faço para saber o inferno.
Eu o faço para saber a real.
Eu suponho que se possa dizer que eu tenho um chamado.

É fácil fazê-lo em uma cela.
É fácil fazê-lo e permanecer estático.
É o teátrico

Retorno, em plena luz do dia
Ao mesmo lugar, ao mesmo rosto, aos mesmos brutos
Entretidos gritando

“um milagre!”
Isso me estarrece.
Há um custo

Para ver as minhas cicatrizes, há um custo
Para sentir o meu coração
Ele realmente pulsa.

E há um custo, um grande custo
Por uma palavra, ou um toque
Ou um pouco de sangue

Ou um pedaço do meu cabelo ou um pedaço da minha roupa.
Então, então, Herr Doktor.
Então, Herr Inimigo.

Eu sou sua composição
Eu sou seu pertence
O bebê de ouro puro

Que derrete a um grito estridente.
Eu me viro e ardo.
Não pense que eu subestimo sua grande preocupação.

Cinzas, cinzas
Você cutuca e revolve.
Carne, osso, não há nada lá.

Um sabonete,
Uma aliança,
Um dente de ouro.

Herr Deus, Herr Lúcifer
Cuidado
Cuidado.

De dentro das cinzas
Eu desponto, meu cabelo em fogo
E devoro homens como ar.

 

 


Robert Frost – Tuft of Flowers

05 Junho 2008

Tuft of Flowers

Robert Frost

 

 

I WENT to turn the grass once after one

Who mowed it in the dew before the sun.   

 

The dew was gone that made his blade so keen

Before I came to view the leveled scene.   

 

I looked for him behind an isle of trees;     

I listened for his whetstone on the breeze.  

 

But he had gone his way, the grass all mown,

And I must be, as he had been,—alone,   

 

‘As all must be,’ I said within my heart,

‘Whether they work together or apart.’      

 

But as I said it, swift there passed me by

On noiseless wing a ’wildered butterfly, 

 

Seeking with memories grown dim o’er night

Some resting flower of yesterday’s delight.

 

And once I marked his flight go round and round,     

As where some flower lay withering on the ground. 

 

And then he flew as far as eye could see,

And then on tremulous wing came back to me.  

 

I thought of questions that have no reply,

And would have turned to toss the grass to dry;  

 

But he turned first, and led my eye to look

At a tall tuft of flowers beside a brook, 

 

A leaping tongue of bloom the scythe had spared

Beside a reedy brook the scythe had bared.  

 

The mower in the dew had loved them thus,

By leaving them to flourish, not for us,  

 

Nor yet to draw one thought of ours to him.

But from sheer morning gladness at the brim.       

 

The butterfly and I had lit upon,

Nevertheless, a message from the dawn,  

 

That made me hear the wakening birds around,

And hear his long scythe whispering to the ground,   

 

And feel a spirit kindred to my own

So that henceforth I worked no more alone;  

 

But glad with him, I worked as with his aid,

And weary, sought at noon with him the shade;  

 

And dreaming, as it were, held brotherly speech

With one whose thought I had not hoped to reach.

 

‘Men work together,’ I told him from the heart,

‘Whether they work together or apart.’

 

 

 

Tufo de Flores

Leonardo Saraiva

 

Fui revirar o pasto após um camarada

O ter cortado no orvalho da madrugada.

 

Se fora o orvalho que afiara sua foice

Antes que até o plano descampado eu fosse.

 

Busquei ouvir sua pedra-de-amolar no vento;

E vê-lo atrás dos arbustos ainda intento.

 

Mas ceifada a grama, ele seguiu seu caminho,

E deve estar — como antes estava — sozinho,

 

‘Como os demais’, murmurei ao meu coração,

‘Quer trabalhem distantes, quer em união’.

 

Mal eu disse isso, uma ágil borboleta

em asas silenciosas fez uma pirueta

 

Buscando, antes que a noite as memórias estreite,

N’alguma antiga flor algum velho deleite.

 

Fixei minha atenção em seu vôo circular;

Uma flor murchava bem naquele lugar.

 

E então ela voou por caminhos sem fim

E então, em asas trêmulas, voltou para mim.

 

Divaguei sobre questões que não têm resposta

E já ia revirar a grama ali posta,

 

Mas ela, ao girar, meu olhar havia guiado

A um tufo de flores perto de um regato.

 

Um fiapo de vicejo a foice poupara

Ao lado do regato que a foice limpara.

 

Tanto as amara o camarada sob o orvalho

Ao consentir que florescesse aquele esgalho

 

Não para nós, por reconhecimento ou demora,

Mas pelo despontar da pujança da aurora.

 

Eu e a borboleta notamos, não obstante,

Uma mensagem no alvorecer deslumbrante,

 

Que me fez escutar os pássaros canoros

E o sussurro da longa foice contra o solo.

 

E uma alma se atou a mim com tal alinho

Que a partir dali não mais trabalhei sozinho. 

 

Alegre, trabalhei com o auxílio do amigo

E exaustos, buscamos, ao meio-dia, abrigo.

 

No sonho (pois o era!), tive cordiais

prosas com o que não vi nem verei jamais.

 

‘Homens lavram juntos’, pus-lhe do coração,

‘Quer trabalhem distantes, quer em união’.

 

 


Arthur Rimbaud – Voyelles

03 Junho 2008

Arthur Rimbaud
Voyelles 

A noir, E blanc, I rouge, U vert, O bleu: voyelles,
Je dirai quelque jour vos naissances latentes :
A, noir corset velu des mouches éclatantes
Qui bombinent autour des puanteurs cruelles,

Golfes d’ombre; E, candeurs des vapeurs et des tentes,
Lances des glaciers fiers, rois blancs, frissons d’ombelles;
I, pourpres, sang craché, rire des lêvres belles
Dans la colère ou les ivresses pénitentes;

U, cycles, vibrements divins des mers virides,
Paix des pâtis semés d’animaux, paix des rides
Que l’alchimie imprime aux grands fronts studieux ;

O, suprême Clairon plein des strideurs étranges,
Silences traversés des Mondes et des Anges :
- O l’Oméga, rayon violet de Ses Yeux !

 

Tomaz Fernandes Izabel
Vogais

A negro, E branco, I rubro, U verde, O azul: vogais,
Eu direi algum dia seus natais latentes:
A, negro corpete de moscas reluzentes
Que zombem ao redor de odores lamaçais,

Ilhas sombrias; E, alvor de tendas e ares,
Lanças de gelo, reis brancos, frisson de umbelas;
I, sangue escarrado, riso de bocas belas
Em cólera ou penitência ébria nos bares;

U, ciclos, divino vibrar do verde mar,
Paz dos campos semeados, paz do enrugar
Que a alquimia marca na testa de homens sóbrios;

O, sumo Clarim de estridentes desarranjos,
Silêncios trespassados de Mundos e Anjos:
- Ó, Ômega, raio violeta em Seus Olhos!